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sábado, 16 de abril de 2016

Dampyr, Mauro Boselli e Maurizio Colombo

Dampyr (Dampyr), Mauro Boselli e Maurizio Colombo, ilustradores diversos, Sergio Bonelli Editore, 98 páginas. Tradução de Julio Schneider. Editora Mythos, 2004.

O mito do vampiro parece ser um manancial inesgotável. Desde as histórias folclóricas dos romenos, passando pelos monstros góticos de Sheridan Le Fannu e Bram Stoker, pelas centenas de filmes de cinema mais ou menos inspirados neles, até os livros de Anne Rice e Stephen King, os chupadores de sangue sobreviveram a todo tipo de intempérie, incluindo o talento discutível e o gosto duvidoso de muitos  artistas que ousaram se utilizar do mito ao longo desse tempo.
Há alguns anos ocorre no Brasil uma espécie de culto aos vampiros, formado a partir do jogo de representação Vampiro: A máscara (Vampire, the masquerade) de Mark Rein Hagen, publicado em 1991, em nome do qual já foram registrados até assassinatos verdadeiros. O jogo expandiu-se de tal forma que se tornou um gênero particular dentro dos jogos de representação, superando inclusive o interesse pelas aventuras baseadas em mitologias celtas e medievais que originaram esse tipo de jogo.
O interesse dos jogadores de Vampiro expandiu-se para além do jogo. Em busca de novas aventuras, os gamers buscaram inspiração nos romances, gerando uma onda de consumo de literatura vampiresca. Os autores oportunistas manifestaram-se imediatamente, sendo que alguns realmente atingiram uma espécie de estrelato, com títulos listados entre os dez mais vendidos por semanas seguidas.
Autores brasileiros e estrangeiros ousaram dar roupagem diversa aos seus vampiros, instalando-os em outros gêneros como fantasias históricas, ficção científica e histórias alternativas. Nas histórias em quadrinhos eles também ganharam versões tradicionais e criativas. Há vampiros tanto como vilões quanto como heróis.
Mas não tem jeito, um vampiro é sempre um vampiro e não passa mesmo de uma variação, nem sempre sutil, do velho Conde Drácula, não importa o que lhe façam. Por isso, são muito interessantes as histórias de Dampyr, revista de quadrinhos originalmente italiana (fumetti), produzida pela Sergio Bonelli Editore  e primeiro traduzida no Brasil pela Mythos Editora.
Dampyr não é exatamente um vampiro, mas um meio-vampiro. Uma abominação, filho de vampiro e humana, personagem lendário tanto entre os vampiros quanto entre humanos, pois quando esse tipo de união profana acontece, o fruto é um vampiro de vampiros, um ser superpoderoso que pode destruir os vampiros apenas com o contato de seu sangue que, para qualquer vampiro, é um veneno potente.
O dampyr desta história chama-se Harlan Draka, e ele não sabe que é um dampyr. Entretanto ele ganha a vida fingindo ser um, visitando aldeias em algum lugar no Leste Europeu e ludibriando os aldeões com pantomimas de exorcismo combinadas com seu colega de trapaças, Yuri. Harlan tem visões estranhas e aterrorizantes, que ele imagina serem algum sintoma de desequilíbrio mental.
Desse modo, Harlan Draka viveu sem conhecer seu destino, até que se vê diante da guerra. Uma guerra terrivelmente brutal mas ainda humana (não é claro, mas nota-se referências à guerra na Bósnia). Mercenários a soldo do governo marcham contra a aldeia de Yorvolak para fincar posição no território inimigo, mas a encontram abandonada. Apenas uma senhora idosa é encontrada, que tentar alertá-los para procurar um dampyr, pois um perigo terrível assola o lugar, mas ela é imediatamente assassinada. Liderando os mercenários está Kurjak, um veterano impiedoso mas consciente de suas obrigações militares. Ele tem dificuldade em dominar a tropa acostumada a fazer o que bem entende, e precisa impor sua autoridade pela força.
Kurjak não acredita em demônios, por isso surpreende-se ao ter de enfrentar um bando de vampiros que ataca ao anoitecer. Lembra-se então do aviso da velha e manda dois de seus homens buscarem ajuda. E eles encontram Harlan Draka, que se dizia um dampyr, levando-o a força para Yorvolak.
Na aldeia abandonada, Harlan confronta Kurjak e descobre que o mercenário havia capturado um dos vampiros, uma garota chamada Tesla. Para sua sorte, a vampira quer abandonar o bando, pois é muito maltratada pelo seu mestre, o impiedoso Gorka, um dos vampiros originais. E assim, desse encontro bizarro surge o trio que vai se tornar companheiro ao longo da saga do dampyr.
Nem preciso dizer como a aldeia será atacada por Gorka e seu bando e que será difícil para Harlan e seus novos amigos enfrentá-los. Assim como a forma como Yuri é morto por Gorka e volta da morte como seu escravo, para destruir seu antigo amigo Harlan.
Ao longo desta aventura introdutória em duas edições, Harlan descobrirá que é realmente um dampyr, filho Draka, um dos vampiros originais mais poderosos. A cada história seguinte, que vai se desenvolver em diversas partes do mundo, Harlan enfrentará um desses arcanos senhores da morte para reunir todos os fragmentos de sua vida, pois ele pode absorver o poder e a memória bebendo o sangue dos vampiros que derrota. No processo também enfrentará a pior escória da humanidade, como guerrilheiros sádicos, gangues urbanas, mafiosos e respeitáveis membros da alta sociedade, sempre com a ajuda valiosa e muito bem armada de Kurjak, que desertou de sua guerra suja, e de Tesla, sempre de grande auxílio nos combates corpo a corpo.
Os desenhos dos dois primeiros número de Dampyr, subtitulados "O filho da vampiro" e "A estirpe da noite", são de Mario "Majo" Rossi, ilustrador de primeira linha que elabora imagens de uma crueza tremenda, com um realismo pouco visto nos quadrinhos modernos. Armas, veículos e edificações são apresentados em todos os detalhes como bem se recomenda às histórias de guerra, com o clima pesado da narrativa gótica ressaltado pela técnica perfeita de claro/escuro, especialidade dos artistas dos fumetti.
O número três, "Fantasmas de areia", é desenhado por Luca Rossi e o número quatro, "A guerra dos vampiros", tem a arte assinada por Maurizio Dotti, e ambos mantém a excelência do trabalho.
Dampyr aproveita cada detalhe das tradicionais histórias de vampiros, mas não deixa de também se utilizar de abordagens criativas e conceitos ainda não vistos nas milhares de histórias de vampiros já narradas.
No Brasil, a revista Dampyr durou apenas até o número 12, quando foi suspensa, mas na Itália, seu país de origem, continua a ser publicada e tem mais de 190 edições.
Cesar Silva

sábado, 30 de maio de 2015

Lua negra, Laura Elias

Lua negra, Laura Elias. 190 páginas. Capa: Altair Sampaio. Mythos Editora, São Paulo, 2010.

Lua negra é o segundo volume da série Red Kings, sequência de Crepúsculo vermelho, publicado em 2009 pela mesma editora. Mas a leitura deste volume prescinde daquele e o leitor não terá dificuldade em acompanhar a história sem ter lido o primeiro volume, como foi o meu caso.
A protagonista da série é Megan Grey, jovem de 17 anos de idade que mantém um relacionamento emocionalmente intenso com Bill Stone, líder da banda de sucesso The Red Kings of Dark Paradise e, não por acaso, também um descendente da linhagem dos rovdyr, raça inumana de caçadores de vampiros que sustentam uma guerra surda com poderosas e tradicionais famílias de sugadores. Envolvida na disputa, Megan foi mortalmente ferida no primeiro romance da série e sobreviveu graças ao sangue de Bill que lhe foi administrado.
A história de Lua negra inicia durante um inverno especialmente severo, que tornou branca a paisagem da pequena cidade de Red Leaves, onde Megan vive com sua família, enquanto Bill está fora em excursão com sua banda. Mas o rigor desse inverno não é natural: é decorrente do despertar de forças antigas e poderosas. Um exército feroz de monstros do Ártico está marchando para o sul, disposto a aniquilar tudo o que encontrar pelo caminho, e a onda de baixas temperaturas e tempestades violentíssimas é apenas seu cartão de visitas.
O risco de aniquilamento une vampiros e rovdyrs contra o inimigo comum, numa batalha sangrenta nos campos nevados de Red Leaves. Segredos de família, intrigas e fantasmas do passado vão tornar a relação de Megan e Bill uma montanha russa de acontecimentos trágicos, com muita ação e violência. Megan ainda enfrentará o despertar de estranhos poderes herdados do sangue rovdyr de Bill, que ela não entende e nem controla.
Laura Elias tem uma narrativa ágil, fluida e agradável, apesar do tema mórbido. A linha principal da história acompanha o ponto de vista da Megan mas salta, eventualmente, para plots paralelos. Há uma grande quantidade de personagens coadjuvantes orbitando a relação de Megan e Bill, que os mantém quase sempre afastados e levam a impetuosa Megan a meter-se em enrascadas mortais para ficar perto de seu amado.
Nem todos os mistérios apresentados na trama são explicados, uma vez que Lua negra não é uma conclusão e a história deve ter pelo menos mais um volume, provisoriamente intitulado Luz na noite, sem data de publicação definida*.
Laura Elias é fluminense de Barra Mansa, atualmente radicada em Santo André, no ABC paulista. Apesar de pouco conhecida, é uma autora experiente, com mais de 35 livros publicados sob diversos psedônimos, tais como Loreley Mackenzie, Sophie H. Jones, Suzy Stone, Laura Brightfield. A maior parte de sua obra é formada por romances de banca realistas, mas a autora também navega no fantástico – como nos livros da série Red Kings – e no infanto-juvenil, como no livro Tristin Mckey e o mistério do dragão dourado, assinado como Elizabeth Carrol, publicado em 2007 também pela Mythos Books. Sua produtividade autoral é invejável, e ela afirma com tranquilidade que consegue produzir um romance do porte de Lua negra em poucas semanas, pois esta é uma exigência comum no mercado em que ela atua.
A autora revelou, numa de suas muitas palestras e entrevistas, que o título e os nomes dos personagens de Crepúsculo vermelho foram definidos pelo editor, originalmente eram outros. Isso porque a Mythos não sabia se um romance de horror iria emplacar entre o seu público e Laura nunca havia trabalhado no gênero, embora sempre tivesse gostado dele. Quando Crepúsculo vermelho finalmente foi distribuído, em 2009, tornou-se o seu livro mais vendido, o que lhe deu maior liberdade em Lua negra.
Os livros da coleção Mythos Books seguem o padrão dos romances de banca tradicionais, como os das populares coleções Harlequim, Bianca e Sabrina, com capas envernizadas em papel mole e miolo em papel jornal impresso em rotativa. A produção é modesta, mas caprichada, com boa apresentação e revisão, e um preço ao consumidor bastante acessível.
Laura Elias é pioneira nos romances fantásticos brasileiros dirigidos às mulheres e distribuídos em banca. Antes dela, tivemos apenas livros de pequeno porte dirigidos aos leitores masculinos, como os da Coleção Mini Bolso, da Editora Opera Graphica, da Coleção Império, publicada pela Editora MC, e da série Pocket Suspense, da Editora Fittipaldi. O sucesso do trabalho da Laura Elias, somado ao expressivo crescimento de interesse dos leitores por textos do gênero, pode anunciar o início de um novo e promissor mercado para os autores nacionais de fc&f.
Cesar Silva

* O romance foi publicado em 2013 pela Editora Literata sob o título de A rainha vermelha.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A lei de Canon

A lei de Canon (Canon Law!), Mark Millar, Kek-W & Chris Weston. Editora Mythos, São Paulo, 2014.

Ainda pode ser encontrado nas bancas este surpreendente lançamento da Editora Mythos, que reúne em uma única edição de 100 páginas, totalmente em cores, duas histórias completas deste personagem que faz parte do universo da revista britânica 2000 AD, a mesma que publica o sempre interessante Judge Dredd.
Com roteiros de Mark Millar e Kek-W e a arte exuberante de Chris Weston, A lei de Canon – Canon Law!, no original – conta a história de um violento e casca-grossa padre inquisidor que pune os pecadores mais ou menos da mesma forma que Dredd faz com os criminosos. Contudo, Canon não vive no mundo futurista de Dredd, mas numa realidade alternativa na qual o dia do juízo final chegou, todos os mortos ressuscitaram mas Deus não apareceu para julgar a humanidade. Um ano depois, enquanto os ressurretos aguardam a definição de suas sentenças, o mundo tornou-se um lugar caótico, super populoso, no qual convivem anônimos e famosos de todas as épocas. Na primeira aventura, Shelock Holmes e seu arqui-inimigo Moriarty suicidam-se juntos para ir ao céu matar Deus. Canon, com a ajuda de Watson e do gênio psicopata Microft, irmão de Sherlock, seguem-nos através de um portal místico para evitar que eles cumpram seu intento. Mas o céu se revela um lugar bem pouco hospitaleiro para o grupo.
Na segunda história, um Canon em crise de fé depois de uma operação mal-sucedida, é convocado por um velho conhecido para ir a outro plano da existência, o Inconsciente Coletivo, e impedir que o irresistível monstro da maldade humana assuma o controle da realidade. Com a ajuda do Diácono Blue – um colega de Canon tão irascível quanto o próprio – e os ressuscitados Sigmund Freud, Albert Eisntein e Júlio Verne, Canon terá de enfrentar algo virtualmente invencível: sua própria maldade.
A ousadia do argumento, apresentada por um roteiro econômico que deixa milhões de perguntas no ar, só é superada pelos espetaculares desenhos de Weston, de um realismo que beira o doentio. A estética trafega entre a dark fantasy, o steampunk e o New Weird, e as imagens, repletas de referências da cultura pop, são um show pirotécnico delirante como uma viagem de ácido. O contexto das aventuras de Canon Law! é instigante e é uma pena que não haja mais histórias: tudo o que foi criado para o personagem está nesta edição.
Nas páginas centrais, a publicação encarta um poster de duas faces com imagens de cada uma das aventuras que, provavelmente, foram capas de suas edições originais. Uma delas, de fato, ilustra a capa da edição brasileira.
Uma obra de leitura obrigatória para os apreciadores do bom quadrinho e uma edição de luxo, em capa dura, estaria mais de acordo com sua singularidade artística. Mas, enquanto ela não vem, o preço camarada de R$16,40 vale cada centavo, com folga. Dificilmente 2014 verá outro lançamento com tanta originalidade e conteúdo.
— Cesar Silva