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quarta-feira, 8 de abril de 2020

Lisa e o Diabo (Lisa and the Devil, Itália / Espanha / Alemanha, 1973)


“Uma noite sem luar, esta casa, e uma certa atmosfera. Devo confessar que preferia fantasmas e vampiros, no entanto. Eles são muito mais humanos, eles têm uma tradição a cumprir. De alguma forma, conseguem manter todo o horror sem derramar sangue.” – Sophia Lehar, desconfortável pelo ambiente sinistro da “casa do exorcismo”

No início dos anos 70 do século passado, os filmes com fantasias góticas estavam começando a declinar, após o auge na década de 1960. Eles estavam cedendo espaço para filmes cada vez mais violentos, com o satanismo sendo um tema bastante explorado.
O cineasta Mario Bava (1914 / 1980), eternamente cultuado na história do horror gótico, ainda lançou em 1973 “Lisa e o Diabo” (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil), mais uma preciosidade desse fascinante estilo, inserindo elementos urbanos e o diabo.
Uma turista americana, Lisa Reiner (a alemã Elke Sommer), se perde no meio de um vilarejo espanhol sinistro com becos estreitos desertos e casas antigas de pedra. Quando a noite chega trazendo ainda mais insegurança, ela solicita uma carona no carro de Francis Lehar (Eduardo Fajardo), que está acompanhado de sua esposa infiel Sophia (a croata Silva Koscina), amante do motorista George (Gabriele Tinti). O carro tem pane mecânica próximo de uma mansão sombria e eles são convidados pelo jovem hospitaleiro Max (Alessio Orano), filho da Condessa (Alida Valli), cega e uma anfitriã bem menos amistosa. Para completar a estranheza do lugar, eles são recepcionados pelo sinistro mordomo Leandro (Telly Savalas), e ainda tem a presença misteriosa de Carlo (Espartaco Santoni), marido infiel da Condessa e pivô de uma história de traição e tragédia familiar.
Mario Bava teve a ideia para o filme se inspirando numa pintura mural com a representação do “Diabo que transporta os mortos”, cuja semelhança física com o Mordomo Leandro é bastante notável. Aliás, o calvo Leandro, que constantemente tem um pirulito na boca para substituir o cigarro, é interpretado por Telly Savalas (1922 / 1994), ator do clássico de guerra “Os Dozes Condenados” (1967) e da divertida bagaceira “O Expresso do Horror” (1972), além de várias séries de TV, sendo um rosto muito conhecido pelos 117 episódios da série policial “Kojak” (1973 / 1978).
Como em todos os filmes do cineasta italiano, temos uma narrativa mais lenta com uma atmosfera perturbadora de pesadelo na mansão macabra, cheia de aposentos enormes, coloridos e mobília antiga. O clima é bem pesado, angustiante, depressivo, desconfortável, que envolve o mistério de uma família bizarra atormentada pela tragédia, desconfiança e insanidade. Não há profusão de sangue, mas as poucas mortes são bem violentas.   
“Lisa e o Diabo” foi lançado em DVD no Brasil em 2015 pela “Versátil”, na coleção “Obras-Primas do Terror – Volume 2”. De material extra veio incluso o documentário “O Exorcismo de Lisa” (2004), com depoimentos interessantes do biógrafo Alberto Pezzotta, do roteirista Roberto Natale (que escreveu o filme, mas curiosamente não foi creditado), além de Lamberto e Rov Bava, respectivamente filho e neto do diretor. Eles comentaram, entre outras coisas, sobre a versão americana lançada em 1975 com o título “The House of Exorcism”, aproveitando o apelo comercial com o grande sucesso de “O Exorcista” (1973), de William Friedkin. A nova versão é basicamente formada pelo mesmo filme “Lisa e o Diabo” anterior, com o acréscimo de cenas de exorcismo de Lisa possuída e a inclusão do Padre Michael (Robert Alda), como um exorcista que tenta livrá-la da influência do demônio. Outra diferença significativa refere-se à exploração das cenas de nudez e sexo, bem mais explícitas.

(Juvenatrix – 08/04/20)




segunda-feira, 30 de março de 2020

O Ciclo do Pavor (Kill Baby... Kill!, Itália, 1966)


“Só uma moeda no coração pode dar paz àqueles que foram mortos de forma violenta.”

O cinema gótico italiano, assim como os filmes da produtora inglesa “Hammer”, garantiu seu lugar de destaque de forma significativa na história do Horror. “O Ciclo do Pavor” (Operazione Paura / Kill Baby... Kill!, 1966) é mais uma dessas preciosidades de valor inestimável para os apreciadores do estilo. O filme tem direção do mestre Mario Bava (1914 / 1980), um dos grandes nomes cultuados do cinema fantástico, especialmente pelas obras-primas do horror gótico como “Os Vampiros” (1957), “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror”, “O Chicote e o Corpo” (ambos de 1963), entre outros.
O médico legista Dr. Paul Eswai (Giacomo Rossi-Stuart) vai até um distante vilarejo chamado Karmingam para realizar a autópsia de uma jovem mulher, Irena Hollander (Mirella Panfili), que morreu de forma violenta e misteriosa. Ao chegar, logo é avisado pelo cocheiro da carruagem que o transportou que o local é maldito, e também é mal recebido pelos aldeões supersticiosos, percebendo que no vilarejo impera o medo e reina a morte.
As investigações do óbito suspeito são lideradas pelo Inspetor da polícia Kruger (Piero Lulli), que recebe o apoio, mesmo que meio contrariado, do burgomestre local Sr. Karl (Max Lawrence, pseudônimo de Luciano Catenacci).   
O Dr. Eswai recebe a ajuda de uma estudante de medicina também recém chegada, Monica Schuftan (Erika Blanc), que tem uma história familiar misteriosa com a pequena cidade. E também recebe o apoio de uma estranha feiticeira, Ruth (Fabienne Dali), que parece conhecer os enigmas obscuros que rondam as ruas do vilarejo amaldiçoado, e a relação com a Villa Graps, uma mansão tétrica e decadente onde vive reclusa a Baronesa Graps (Giana Vivaldi), que tinha uma filha, Melissa (curiosamente interpretado por um menino, Valerio Valei, em seu único trabalho no cinema), que morreu num acidente trágico enforcada há vinte anos, com seu espírito atormentado vagando em busca de vingança.  
O Horror Gótico é um dos subgêneros mais fascinantes do cinema fantástico. Esse filme de Mario Bava tem uma atmosfera sinistra constante de gelar a espinha, um clima pesado, sombrio e depressivo com o vilarejo amaldiçoado, os aldeões supersticiosos e péssimos anfitriões, o cemitério envolto em névoa espessa, as casas frias de pedra, a mansão macabra com aposentos enormes cheios de teias de aranha, a escada em espiral hipnotizante, a cripta com túmulos gelados, os gemidos agonizantes povoando a mente com tormentos e fantasmagorias.    
“O Ciclo do Pavor” teve uma versão americana reduzida, que recebeu o título “Curse of the Living Dead”, e outra mais completa para distribuição em vídeo com o nome mal escolhido “Kill Baby... Kill! (não é só no Brasil que muitos títulos são péssimos).
Para a satisfação dos colecionadores e apreciadores do Horror Gótico, foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras-Primas do Terror – Volume 2”. Como material extra temos um valioso depoimento do diretor e roteirista italiano Luigi Cozzi, sobre uma entrevista que ele fez com Mario Bava quando ainda era bem jovem e jornalista a serviço da lendária revista americana “Famous Monsters of Filmland”, do editor Forrest J. Ackerman (1916 / 2008). Cozzi relatou várias curiosidades interessantes.
As filmagens externas foram feitas em apenas seis noites e o total com as cenas de estúdio totalizou doze dias. Bava revelou que não gostava de excesso de sangue e a exposição de monstros aterrorizantes nos filmes, e que preferia um horror mais sugerido, optando por não mostrar o monstro, obtendo um resultado melhor.
O diretor italiano não era reconhecido na época em seu próprio país, mas era admirado nos Estados Unidos, justificando o interesse pela entrevista, num exemplo similar com o nosso José Mojica Marins (“Zé do Caixão”), que recebeu o nome “Coffin Joe” nos Estados Unidos, onde seus filmes eram cultuados, e que felizmente depois (antes tarde do que nunca) foi reconhecido no Brasil como um merecido “mestre do Horror”.
“O Ciclo do Pavor” teve muitas dificuldades na distribuição, pois a produtora responsável pelo filme faliu antes do lançamento. Cozzi disse que conseguiu ver o filme num cinema pequeno e que ficou em cartaz por pouco tempo. Felizmente foi reconhecido mais tarde como “obra-prima” e respeitado como um filme de horror gótico que deve ser reverenciado eternamente.

(Juvenatrix – 30/03/20)


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O Planeta dos Vampiros (Planet of the Vampires, Itália, 1965)



“Eles ousaram ir para além do espaço conhecido, e pelo terror desconhecido.”
‘O terror atormenta as galáxias! E o Universo estremece!”
“Um suspense arrebatador!”

A utilização de frases de efeito como essas acima, nitidamente exageradas, era uma estratégia comum de marketing para chamar a atenção do público nos antigos filmes de horror e ficção científica. Elas foram extraídas do trailer de “O Planeta dos Vampiros” (Terrore Nello Spazio / Planet of the Vampires), uma divertida bagaceira italiana de 1965.
A direção é do especialista e mestre do Horror gótico Mario Bava (1914 / 1980), cultuado pelo significativo legado no cinema fantástico, com preciosidades como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror”, “O Chicote e o Corpo” (ambos de 1963) e “O Ciclo do Pavor” (1966), entre outros, e foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”. Antes, já havia sido lançado por aqui na época do VHS pela “LK-Tel Vídeo”.
Quando se pensa num filme de Ficção Científica com elementos de Horror, logo vem à mente “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott, que ficou eternizado na cultura pop, com toda uma franquia composta por vários filmes, quadrinhos, videogames e outros produtos, tornando-se referência para uma infinidade de filmes seguintes. Mas, um fato relevante que deve ser evidenciado é que muitos anos antes já havia sido lançado “O Planeta dos Vampiros”, um exemplo genuíno de FC com Horror e que certamente serviu de inspiração para “Alien”, devido aos elementos similares.
O filme é baseado na história “One Night of 21 Hours”, de Renato Pestriniero, publicada na revista “Interplanet” # 3. No roteiro de Ib Melchior temos duas naves espaciais, Argos e Galliot, em missão rumo ao nebuloso planeta Aura, para investigar misteriosos sinais eletrônicos que indicavam serem emitidos por alguma raça alienígena inteligente. Porém, chegando ao planeta, numa aterrissagem turbulenta, a tripulação da Argos sofre um ataque temporário de loucura e violência, com os astronautas tentando matar uns aos outros. Após recobrarem o controle de suas ações, eles tentam entender o mistério e descobrem que seus companheiros da Galliot também pousaram no planeta, mas estão mortos num ataque descontrolado de fúria entre eles.
O Capitão Mark Markary (o americano Barry Sullivan) e outros membros da tripulação como a oficial de comunicações Sanya (a brasileira Norma Bengell) e o engenheiro Wess Wescant (o espanhol Ángel Aranda), tentam consertar a nave para retornar ao espaço, mas enfrentam uma série de crises crescentes com os tripulantes mortos da Galliot saindo de seus túmulos e uma terrível ameaça invisível dos habitantes hostis do planeta.
“O Planeta dos Vampiros” é um daqueles divertidos filmes que representam muito bem o cinema antigo de ficção científica e horror com produção de baixo orçamento, desde a interessante história aos efeitos especiais datados, com a utilização de miniaturas e truques de perspectiva, numa época sem computação gráfica e com grande valor para a criatividade. O ambiente interno da nave é espaçoso, com grandes áreas livres e painéis repletos de interruptores, sinaleiros e botões com luzes coloridas, numa representação típica da época. E a estética externa da nave também é bem simples e rústica. Os uniformes dos astronautas são estilosos e exagerados no couro preto. A superfície do planeta Aura é fantasmagórica, envolta em névoa densa e rochas coloridas para todos os lados, evidenciando um sentimento perturbador de um ambiente alienígena, tudo encenado num estúdio vazio e preenchido com fumaça e luzes coloridas.
Em determinado momento, o Capitão Markary e sua colega Sanya encontram os destroços de uma nave colossal e os ossos enormes de seus tripulantes, sendo um dos destaques do filme quando eles investigam o interior dessa nave misteriosa.  
Antigamente não havia tanta preocupação com revelações e os chamados “spoilers” não tinham a importância de hoje, com a internet e as redes sociais proliferando informações. Esse fato é bem exemplificado no trailer, que traz um “spoiler” gigantesco sobre os alienígenas e suas intenções. Outra curiosidade interessante é que seria bem mais apropriado que o nome do filme fosse “O Planeta dos Zumbis”, pois os astronautas que abandonam suas covas estão mais para mortos vivos do que vampiros. O título foi escolhido para a versão americana da “American International”, produtora dos lendários Samuel Z. Arkoff e James H, Nicholson.
A narrativa é mais lenta, uma característica comum nos filmes mais antigos em oposição ao ritmo frenético, acelerado e barulhento das produções atuais carregadas de efeitos em CGI, e para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro do passado esse fluxo narrativo mais cadenciado é melhor e mais desejável.
“O Planeta dos Vampiros” é altamente recomendável, tem o mestre Mario Bava e um desfecho pessimista com final surpresa memorável.               

Diário de bordo do Capitão:
“Um capitão não deveria ter medo. E eu confesso agora, a quem estiver ouvindo, que hoje, agora mesmo, eu estou com medo. Minha tripulação não deve ficar sabendo. Devo mantê-la ocupada. Não devem saber que a situação é cada vez mais desesperadora à medida que passam os dias. Fala o Capitão Markary, da nave Argos, no planeta Aura, ano...

(Juvenatrix – 22/01/20)



domingo, 25 de novembro de 2018

O Chicote e o Corpo (The Whip and the Body, Itália / França, 1963)



Lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras Primas do Terror – Volume 1”, “O Chicote e o Corpo” (The Whip and the Body) é um filme de horror gótico dirigido pelo especialista italiano Mario Bava e com Christopher Lee como vilão.
Curto, com apenas 78 minutos de duração, a história é ambientada na Europa do século XIX, num castelo à beira do mar, de propriedade do Conde Vladimir Menliff (Gustavo De Nardo, creditado como Dean Ardow). Lá vivem também seu filho Cristiano (Tony Kendall), prestes a se casar com a noiva Nevenka (Daliah Lavi), além de Katia (Evelyn Stewart, creditada como Isli Oberon) e os empregados Giorgia (Harriet Medin, creditada como Harriet White) e Losat (Luciano Pigozzi, creditado como Alan Collins). O ambiente fica bastante tenso com a chegada de Kurt Menliff (Christopher Lee), outro filho do conde, que já teve um relacionamento conturbado com Nevenka e foi o responsável pelo suicídio de Tanya, a filha da empregada Giorgia, após outro romance mal resolvido.
Kurt é recebido com hostilidade pela família, com conflitos constantes e sentimentos de desconfiança e ódio. Depois que ele é assassinado misteriosamente, como num plano de vingança, as tensões no castelo se intensificam ainda mais e Nevenka passa a sofrer terrivelmente com alucinações e ataques do fantasma perturbado de Kurt, que retorna da tumba para assombrar o castelo.
O cineasta Mario Bava (1914 / 1980), de clássicos como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror” (1963) e “O Planeta dos Vampiros” (1965), entre outros, é considerado um mestre italiano do Horror gótico. Em “O Chicote e o Corpo” temos a tradicional ambientação sombria de um castelo imponente no alto de uma montanha beirando o mar. Com o barulho constante de fortes ventanias e ondas se chocando contra as rochas, contribuindo ainda mais para uma atmosfera sinistra que perdura o tempo todo pelos aposentos e becos escuros do castelo, com suas passagens secretas e armaduras medievais decorativas. Vozes, sombras, o horror à espreita, mortes, perseguições, loucura, todos esses elementos juntos para fazer do castelo um palco de pesadelos num horror gótico de gelar a alma dos vivos.
Christopher Lee (1922 / 2015), com seu currículo de quase 300 filmes, está imponente como sempre, no papel de um vilão que chicoteia uma mulher e assombra o castelo da família em busca de vingança contra seus detratores.

Eu te assusto? Você gostava de mim antes. Você sempre gostou de violência. Você não mudou nada. Você não mudou e nunca mudará.” – Kurt para Nevenka    

(Juvenatrix – 25/11/18)