Os Dias do Cometa
(In the Days of the Comet), H.G. Wells. Tradução: Marcos Santarrita. Capa:
autoria não creditada. Orelha: Fausto Cunha. 251 páginas. Rio de Janeiro:
Francisco Alves Editora, coleção Mestres do Horror e da Fantasia, 1984. Publicação
original de 1906.
Neste ano de 2026
completa-se 40 anos da última aparição do Cometa de Halley nos céus da Terra.
Em 1986 o evento astronômico foi cercado de muita expectativa, mas,
infelizmente, o resultado foi decepcionante. Conto mais sobre isso logo antes
desta resenha no meu "Diário e Observações" que escrevi sobre a
passagem do astro – leia aqui.
Já o romance Os Dias
do Cometa, de H.G. Wells (1866-1946) foi escrito em 1906, prognosticando a
volta do Halley em 1910. Como se sabe, neste ano a aparição foi espetacular, o
que aumentou ainda mais as profecias místicas e pseudocientíficas sobre suas
possíveis consequências. Nenhuma delas ocorreu, é claro, mas, de certa forma,
Wells trabalhou seu livro neste contexto. Mas de uma forma bem peculiar.
Nos primeiros anos do
século XX, Wells já era um escritor conhecido e popular principalmente por seus
romances de ficção científica. Livros que, efetivamente, se tornaram clássicos
e pelo qual o autor continua sendo lido e interpretado até hoje. Para citar
apenas duas destas obras-primas, A Máquina do Tempo (The Time Machine;
1895) e A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau; 1896).
Mas após esta do que
podemos chamar de uma primeira fase de sua obra, ele inicia uma segunda, no
qual os aspectos sociológicos e reformistas se sobressaem diante da
criatividade da ficção científica – embora também na primeira fase sua crítica
e sensibilidade social já estivessem presentes.
Em Os Dias do Cometa
encontramos um homem já idoso repassando as memórias de sua vida através de um
diário pessoal. Escrevendo no alto de uma torre, ele recebe a visita inesperada
de um jovem que passa, então, a ler os escritos, e dessa forma a história é
contada.
No caso, Willie Leadford
relata o que foi o mundo antes e depois da Grande Mudança. Antes, ele mistura
sua trajetória pessoal com a realidade social da Inglaterra. Morando com a mãe
de aluguel num quarto e cozinha, trabalha numa fábrica de cerâmica onde passa a
maior parte do tempo, ganha muito mal, e namora Nettie, uma garota socialmente
mais bem posicionada. Mas, apesar de se gostarem, sua dificuldade financeira e
seus valores diferentes terminam por afastá-los, embora ele lute
desesperadamente para continuar com ela. Principalmente quando ela o troca por
um jovem filho de um empresário. Justamente tudo o que ele mais abominava, ao
enxergar como o mundo era socialmente desigual e injusto.
Através da revolta do
personagem, nesta primeira parte, Wells descreve com minúcias a miséria da
classe trabalhadora fabril da época. Mas a um comentário socialmente crítico
pungente, mais importante é sua sensibilidade ao mostrar o sofrimento dessas
pessoas e o desprezo que sentia pela classe dominante. Assim, o jovem Willie,
de certa forma, seria o próprio Wells, ambos militantes socialistas e
participantes de reivindicações por melhores condições de trabalho e relações
humanas mais solidárias.
Mas onde está o cometa?
Sim, pois em meio a esta juventude atribulada e explorada surge o cometa nos
céus. A cada noite ele se torna maior, e não são poucos os que especulam sobre
o fim dos tempos. Por sinal, as descrições sobre o cometa e suas
características são especialmente bonitas. Mas Willie se irrita com a presença
do astro, pois estaria desviando a atenção das pessoas dos seus verdadeiros
problemas. Que se intensificam com um movimento grevista fortemente reprimido e
o início de uma guerra com a Alemanha. Teria alguma coisa a ver com a presença
do cometa? Sim, mas de uma forma totalmente diferente.
Pois o principal da
autobiografia de Willie aborda a mudança que aconteceu depois que o cometa
atingiu sua máxima aproximação da Terra. Pois o astro soltou uma quantidade
maciça de gases esverdeados que se misturou à atmosfera e mudou completamente a
personalidade das pessoas depois de respirarem o novo ar. No caso, o nitrogênio
se tornou respirável e, como se sabe, ocupa quase 80% da atmosfera terrestre.
Pois com a Grande
Mudança, todo individualismo, cobiça, inveja e valorização desmedida por
interesses materiais se esvaiu. As pessoas se tornaram mais abertas a novidades,
compreensivas, bem-humoradas e dispostas a construir uma nova sociedade,
baseada em valores como a solidariedade, a igualdade e a fraternidade.
Ou seja, a luta por um
mundo melhor foi provocada pelos efeitos do cometa! É de se pensar que a
humanidade tenha entrado numa espécie de transe, sob efeitos artificiais e que,
de alguma forma poderia haver efeitos colaterais não planejados ou que o processo
fosse passageiro. Mas não é o que acontece e, antes de mais nada Willie conta como
os vapores verdes do cometa mudaram sua própria maneira de encarar a vida. Mais
disposto, otimista e feliz.
De certa forma uma
espécie de deux ex machina surge e resolve a luta política em torno de
um mundo mais justo. Mas isso poderia ser realmente argumentado se estivéssemos
diante de um escritor menos capaz. Pois, através do recurso de um fenômeno
natural externo, Wells narra em detalhes a construção desta nova sociedade, que
ele imagina como a ideal. O sistema econômico capitalista é abolido, bem como a
propriedade privada convencional. As pessoas trabalham juntas, em projetos
coletivos de interesse social, dissipando as diferenças de classe antigas. Prevalece
as cooperativas de produção nos mais diferentes setores da economia:
agricultura, energia, transportes, comunicação, educação, saúde etc. Para
organizar tudo isso são criados conselhos setoriais – coordenado por um governo
central – onde os novos objetivos são traçados e as pessoas endereçadas de
acordo com seus conhecimentos e aptidões.
Wells não propunha um
socialismo ao estilo marxista, mas sim o chamado socialismo fabiano, que
defendia uma transição gradual e pacífica ao socialismo. Uma via reformista ao
invés de revolucionária. Foi extremamente influente no Reino Unido entre o
final do século XIX e as primeiras décadas de XX se misturando, com o tempo,
com o movimento trabalhista.
No livro Wells propõe uma
reestruturação urbanística e arquitetônica radical com a destruição da maior
parte das casas, prédios e demais instalações do antigo regime. Isso sem falar nas
curiosas e algo sombrias cerimônias públicas de queima de objetos pessoais
considerados inúteis e que lembram a velha ordem. Neste particular, Wells
exagera, com o incêndio coletivo de milhares de livros "velhos e
empoeirados" que retratavam valores que deveriam ser superados.
Se esta parte revela a
radicalidade do que propunha o reformador social, no plano das relações
pessoais Wells também ousa, ao criticar a família nuclear e a relação
monogâmica entre homem e mulher. Propõe, no lugar, o que chama de famílias
sociais e o amor livre e poligâmico. Fico a imaginar como foram recebidas tais
ideias na Inglaterra pós-vitoriana do início do século XX!
O final da obra, de certa
forma, me pareceu estranho pois o leitor da biografia se mostra surpreso com o
mundo retratado. Mas por que se ele nasceu nesta realidade anos depois? Talvez
o desconcerto esteja relacionado ao mundo de antes do cometa. Mas, até onde me
parece, não ficou bem resolvido.
Como dito acima, Os
Dias do Cometa se insere no início da fase derradeira da carreira de Wells,
no qual a crítica e a reforma social se tornam mais importantes que a criação
literária em si. No final da vida, o autor se ressentiu de que as obras que
mais vendiam eram as da primeira fase. Queria ser reconhecido pelas obras de
cunho socializante por entender que teriam mais a contribuir para a
transformação de uma nova sociedade. De fato, embora elas demonstrem o vigor de
sua crítica e sensibilidade antes às mazelas do capitalismo, é como escritor de
ficção científica que Wells continua celebrado como um dos nomes mais
importantes do gênero, pois o comentário social estava embutido em enredos
inventivos e com inegável senso de aventura e de maravilhamento, tornando estas
obras, antes de mais nada, prazerosas e estimulantes.
Escrito poucos anos antes
da chegada do Halley, Os Dias do Cometa se situa no contexto de outras
obras que abordaram o fenômeno em sua época como, por exemplo, Der Rote
Komet (1909), de Robert Heymann – que ecoa o cenário de Wells de forma
quase direta, embora mais ameaçador, pois ao gás é contraposto uma forte luz
vermelha que circunda a Terra ante a possível colisão de um cometa. E anos
antes com Hector Servadac: Viagens e Aventuras pelo Mundo Solar (Hector
Servadac: Voyages et Adventures à travers le Mondo Solaire; 1877), de Julio
Verne, e ainda antes Edgar Allan Poe com o conto "A Conversa de Eiros e
Charmion" (The Conversation of Eiros and Charmion; 1839). Mas o livro de
Wells, mesmo não estando entre suas principais obras, é talvez o mais
significativo com sua proposta de utopia e amor livre.
—Marcello Simão Branco

