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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Vingança Eterna / A Múmia Vive (The Mummy Lives, EUA, 1993)


A “múmia” é um dos monstros clássicos do Horror, ao lado do vampiro “Drácula”, “criatura de Frankenstein”, “lobisomem” e outros, e regularmente tem inspirado a produção de grande quantidade de filmes ao longo da história do gênero. “Vingança Eterna” (The Mummy Lives, 1993) foi lançado por aqui em vídeo VHS pela Warner e também recebeu o título “A Múmia Vive” (tradução literal do original) quando foi exibido na televisão (TV Globo). Foi dirigido por Gerry O´Hara e é apenas mais um filme com o mesmo tema de maldição de múmia egípcia. E talvez os únicos diferenciais para a infinidade de filmes similares sejam a presença do ator Tony Curtis (1925 / 2010) no papel principal, e o nome do cultuado escritor Edgar Allan Poe, creditado por um conto que inspirou o roteiro. Mas não é o suficiente para impedir de situar o filme no limbo das produções sem importância sobre múmias.
Um grupo de arqueólogos formado, entre outros, pelo Prof. Alexatos (Mohammed Bakri) e pelo Sr. Kroll (Mosko Alkalai), financiados pelo magnata inglês Lord Maxton (Jack Cohen), está realizando escavações nas proximidades de Cairo, a capital do Egito, e encontra uma sala oculta com a tumba de uma múmia de 3000 anos. Trata-se de Aziru (Tony Curtis), que foi condenado pelo amor proibido com Kia (Leslie Hardy), uma das concubinas preferidas de Zoth, o Deus da Vingança. Pelo delito foi punido e transformado em múmia pela eternidade, lacrado vivo num sarcófago, tornando-se protetor dos mortos e guardião dos tesouros do seu mestre, lançando maldições contra os profanadores do túmulo sagrado.
Após despertada da inatividade, a múmia retorna para o mundo dos vivos como o Dr. Mohassid (também Tony Curtis), um estudioso da cultura egípcia e especialista em antiguidades. Ele encontra na bela Sandra Barnes (também Leslie Hardy) a reencarnação de sua amada Kia, planejando a união deles num ritual de sacrifício num evento astronômico com uma rara conjunção planetária. Sandra sofre com constantes pesadelos e conta com a ajuda do médico Dr. Carey Williams (Greg Wrangler), apaixonado por ela, para lutar pela vida e impedir um trágico destino no plano maquiavélico da múmia.
“Vingança Eterna” é um filme cansativo, que não consegue criar uma empatia com o espectador ao apresentar e explorar os mesmos velhos clichês sobre múmias, o imperialismo inglês no Egito, as escavações à procura de tesouros perdidos no tempo, as profanações dos túmulos sagrados, os roubos de artefatos preciosos para museus e patrimônios particulares, as maldições lançadas contra quem invadisse seus territórios proibidos e a manjada vingança de retaliação com poucas e previsíveis mortes discretas. Ou seja, mais do mesmo, sem novidades, numa produção comum com quase nada de violência ou sangue, e que nem Tony Curtis conseguiu evitar que tenha seu lugar garantido no esquecimento.
(Juvenatrix – 24/09/17)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Noiva Assassina (Praying Mantis, EUA, 1993)


Existe uma infinidade de filmes com histórias tão banais e comuns que assisti-los é um desgastante exercício de paciência. “A Noiva Assassina” (Praying Mantis, 1993) é uma produção para a televisão apenas recomendada para aqueles que estão dispostos a ver filmes ruins de suspense como simples curiosidade ou para conhecer tudo dentro do gênero, mesmo as porcarias que não divertem.
Com direção de James Keach, é um thriller básico, com história clichê e entediante, que foi lançado no Brasil em vídeo VHS pela “CIC” e lembra os tipos de filmes ruins exibidos na sessão “Supercine” da TV Globo. Uma suposta escritora, Linda Crandell (Jane Seymour), conhece um homem viúvo, Don McAndrews (Barry Bostwick), dono de uma rede de livrarias, e pai do adolescente Bobby (Chad Allen). Eles se apaixonam e decidem inicialmente morar juntos, e depois se casar, para o descontentamento da cunhada Betty (Frances Fisher), que desconfia do caráter da nova mulher.
Paralelamente, uma dupla de detetives do FBI, Johnson (Colby Chester) e Broderick (Michael MacRae), estão investigando uma série de assassinatos de homens logo após seus casamentos, e suspeitam que a autora dos crimes é sempre a mesma mulher, conhecida como “A Noiva Assassina” (do título nacional). Ou “Praying Mantis” (do título original), cuja tradução do inglês é o inseto “louva-a-deus”, que tem o hábito incomum das fêmeas matarem e devorarem os machos logo após o acasalamento. Enquanto os agentes da polícia tentam encontrar o rastro da assassina, a família de Don recebe sua nova namorada não imaginando o perigo e a ameaça mortal que se instalaria em sua casa.
O filme, carregado de clichês e situações previsíveis, não apresenta nada que já não se tenha visto antes em filmes de suspense com mulheres assassinas que demonstram perturbação, agressividade, ciúme exagerado e poder de manipulação, com um passado trágico na infância que influenciaria em sua personalidade doentia. Enganando todos a sua volta com falsas impressões de educação e bom caráter, e eliminando as pessoas inocentes que tiveram o infortúnio de cruzarem seu caminho, atrapalhando seus planos de vingança pessoal contra os homens. Dispensável.
Curiosamente, os atores Jane Seymour, Barry Bostwick e Frances Fisher são agora veteranos com extensas filmografias e carreiras bem sucedidas no cinema.
(Juvenatrix – 04/06/17)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Carnossauro (Carnosaur, EUA, 1993) + Carnossauro 2 (Carnosaur 2, EUA, 1995) + Criaturas do Terror (Carnosaur 3: Primal Species, EUA, 1996)



* Carnossauro (1993)
 “A Terra não foi criada para nós. Ela foi feita para os dinossauros. Estava desenhada para suas dimensões. Os seres humanos são como formigas passeando pelos seus quartos.” – comentário da “cientista louca” Dra. Jane Tiptree
Aproveitando o lançamento em 1993 de “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros”, de Steven Spielberg, que gerou uma franquia milionária, o produtor e também diretor Roger Corman, com centenas de filmes no currículo, a maioria situados no gênero fantástico, aproveitou o momento favorável comercialmente e lançou o cultuado “Carnossauro”. O filme é uma tranqueira divertida de dinossauros que gerou outras duas continuações. Corman é conhecido como “O Rei dos Filmes B” por seu incrível talento em produzir filmes com orçamentos baixos e filmagens em tempos curtos, e sua carreira marcante teve início nos anos 1950, já tendo acumulado mais de 400 filmes no currículo, e também grande quantidade de créditos na função de diretor, tendo trabalhado com atores ícones do Horror como Vincent Price e Boris Karloff. É uma pena que seu último trabalho na direção foi em 1990 com “Frankenstein – O Monstro das Trevas” (Frankenstein Unbound). Mas, em compensação, como produtor Corman tem mais de 60 anos de contribuições para o cinema fantástico bagaceiro, com um legado eterno de filmes de qualidade duvidosa, mas a maioria com diversão garantida.
Em “Carnossauro”, dirigido por Adam Simon (de “Brain Dead”, 1990) e com sequências adicionais por Darren Moloney, temos uma história tosca ao extremo apresentando a “cientista louca” Dra. Jane Tiptree (Diane Ladd) liderando um projeto científico de engenharia genética com estudos de recombinação de DNA e manipulação de um vírus de frangos. Como resultados, temos dinossauros nascendo em ovos de galinha, crescendo numa velocidade extremamente rápida, e devorando as pessoas. Além da propagação de uma contaminação nas mulheres causando uma febre misteriosa e transformando-as em grávidas de dinossauros. Tudo faz parte de um plano maquiavélico da cientista para eliminar as mulheres e consequentemente a raça humana, dando lugar para os dinossauros pré-históricos povoarem novamente nosso planeta. Para tentar combatê-la, temos um vigia noturno, Doc Smith (Raphael Sbarge), que toma conta dos tratores de uma empresa que está destruindo a natureza, e uma ecologista hippie, Ann Thrush (Jennifer Runyon, atriz casada com um sobrinho de Corman), que defende o slogan “As grandes corporações estão matando nosso mundo”. E tem também um xerife durão, Fowler (Harrison Page), que tenta impedir a invasão dos dinossauros. 
Ao contrário da produtora picareta “The Asylum”, que copia ideias e faz filmes modernos extremamente ruins e exagerados nos efeitos de computação gráfica, o cultuado produtor Roger Corman sempre aproveitou argumentos e cenários usados para fazer filmes também ruins, mas divertidos. Principalmente pela precariedade dos recursos, sem a utilização dos efeitos artificiais de CGI, como exemplificado nos dinossauros toscos de “Carnossauro”, feitos por bonecos em miniatura com controle remoto e fantoches de mão, ou como no caso do tiranossauro, por um robô desajeitado com quase cinco metros de altura. Temos as sempre esperadas cenas de mortes violentas de dezenas de vítimas com o sangue jorrando, e pedaços de seus frágeis corpos destroçados pelas garras e dentes das feras, que vão de um imponente tiranossauro aos ágeis deinonicos (animais parecidos com velociraptores). É verdade que o roteiro é bem exagerado na fantasia, desde a ideia insana da cientista geneticista até a forma como ela coloca seu plano diabólico em ação, mas em compensação, a overdose de mortes sangrentas e o desfecho pessimista contribuem significativamente para o interesse pelo filme, que concluiu com um gancho para sequências inferiores que foram lançadas nos anos seguintes. 
Curiosamente, a veterana atriz Diane Ladd é mãe de Laura Dern, que no mesmo ano de 1993 atuava ao lado de Sam Neill, Jeff Goldblum e Richard Attenborough em “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros”. O experiente ator Clint Howard, com mais de 230 créditos no currículo, tem uma participação rápida com destaque para uma cena onde conta uma piada num bar antes de virar comida de dinossauro. A famosa cena do bebê alien rasgando o ventre de seu hospedeiro no clássico “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) é também referenciada em cena similar no filme produzido por Corman.

Carnossauro 2 (1995)
“Carnossauro” impulsionou a realização de outros filmes ambientados em seu universo ficcional, nas mesmas mãos de Roger Corman como produtor. Em 1995 foi lançado “Carnossauro 2” (Carnosaur 2), com direção de Louis Morneau (de “Morcegos”, 1999 e “Lobisomem: A Besta Entre Nós”, 2012) e com o veterano ator John Savage, com mais de duas centenas filmes na carreira. Foi exibido na televisão na “Sessão das Dez” do SBT.
Na história, ocorre um acidente numa mina de urânio operada por militares, uma unidade secreta localizada no meio do deserto. Depois que os funcionários morrem misteriosamente, cortando as comunicações, o governo americano decide enviar um representante para averiguar, Major Tom McQuade (Cliff De Young). Ele é acompanhado por um grupo contratado de especialistas em missões especiais de resgate, liderado por Jack Reed (John Savage). A equipe é ainda formada por Ben Kahane (Don Stroud), Monk Brody (Rick Dean), a bela Sarah Rowlins (Arabella Holzbog), o expert em computação e piadista Ed Moses (Miguel A. Núñez Jr.) e a piloto de helicóptero Joanne Galloway (Neith Hunter). Ao entrar nas instalações militares, o grupo encontra um cenário de destruição com mortes violentas, e resgatam um sobrevivente em estado de choque, o adolescente Jesse Turner (Ryan Thomas Johnson). Mas, o pior ainda viria com a descoberta de que o local está infestado de dinossauros ávidos por suas frágeis carnes.
Em termos de roteiro, mesmo sendo um clichê colossal, podemos considerar que é melhor do que o filme original, cuja história básica é extremamente exagerada na fantasia. Mas, por outro lado, temos aqui a tão manjada ambientação claustrofóbica, onde um grupo de pessoas está encurralado num local isolado, sendo atacado por dinossauros carnívoros e tentando desesperadamente lutar por suas vidas. Esse argumento é um dos mais explorados no cinema de horror e ficção científica, com centenas de filmes similares, alternando apenas as pessoas, o local e a ameaça. Como sendo nitidamente uma produção de baixo orçamento, o ambiente interno é bem escuro para ajudar a camuflar a precariedade dos efeitos dos dinossauros, mas assim como no filme anterior, temos várias cenas de mortes sangrentas, com braço decepado, cabeça arrancada a dentadas e dilacerações diversas. Porém, os ataques dos monstros demoram e a carnificina inicia apenas depois de meia hora de filme (antes, as cenas de mortes são “off screen”).
“Carnossauro 2” é curto, com pouco mais de 80 minutos, e o desfecho é bem similar ao filme original, com um confronto inverossímil e exagerado entre o adolescente metido a herói Jesse, dirigindo uma grande empilhadeira, contra um tiranossauro, culminando com aqueles resultados já previsíveis. Curiosamente, e talvez como uma homenagem ao clássico da guerra do Vietnã “Apocalipse Now” (1979), de Francis Ford Coppola, quando o helicóptero do grupo de resgate chega à instalação militar, um dos membros da equipe faz questão de ouvir um trecho da música clássica “Cavalgada das Valquírias”, do alemão Richard Wagner. É uma referência para uma cena similar do filme de Coppola, onde um grupo de helicópteros ataca uma aldeia vietnamita ao som da mesma música.

Criaturas do Terror (1996)
Em 1996 veio o terceiro filme da franquia, que recebeu por aqui o manjado título sem criatividade “Criaturas do Terror” (Carnosaur 3: Primal Species), dirigido por Jonathan Winfrey. O pior é que ainda recebeu outro nome patético quando foi exibido na telinha na “Sessão Especial” da TV Record, “Carnossauro: O Monstro Destruidor”, apenas para confundir e dificultar ainda mais um trabalho de catalogação dos filmes que chegam no Brasil.
Um comboio do exército escoltando um caminhão misterioso é surpreendido numa emboscada por mercenários terroristas, que o roubam acreditando num carregamento valioso de urânio. Porém, eles descobrem que na verdade a carga trata-se de uma criação de répteis carnívoros que logo os transforma em alimento. São réplicas de dinossauros geneticamente construídos através de um projeto científico que buscava a cura de várias doenças, estudando sua estrutura de DNA regenerativa. Uma equipe especial de militares, liderada pelo Coronel Rance Higgins (Scott Valentine) e contando com soldados treinados como Sanders (Rodger Halston) e o piadista Polchek (Rick Dean, que curiosamente esteve também em “Carnossauro 2” como outro personagem), é convocada pelo General Pete Mercer (Anthony Peck) para investigar a ocorrência do roubo da carga secreta. Eles encontram corpos despedaçados e sangue espalhado para todos os lados e ficam sabendo através da cientista Dra. Hodges (Janet Gunn) sobre o projeto científico de criação de dinossauros e da necessidade de capturar as criaturas vivas. O grupo do Cel. Higgins une-se com uma equipe de fuzileiros navais para combater as feras, primeiramente num galpão e depois num navio, onde um tiranossauro rex imenso montou um ninho no porão de carga e está criando dúzias de ovos para reprodução.
O terceiro filme da franquia “Carnossauro” pode ser classificado simplesmente como “mais do mesmo”. Ou seja, roteiro similar aos anteriores, explorando o velho clichê formado por um grupo de soldados num ambiente fechado e com atmosfera de claustrofobia (galpão, depois navio), combatendo uma ameaça (dinossauros famintos por suas carnes). O filme tem até um desfecho novamente com gancho, mas a série parou por aí, até porque não tinha mais como contar uma história com um mínimo de interesse. Também temos os mesmos efeitos bagaceiros e fotografia escura para esconder a precariedade, e os mesmos personagens estereotipados como um líder militar metido a durão. E continuam as piadas banais e comentários absurdos de personagens que estão prestes a morrer de forma violenta, e ainda encontram humor nos últimos momentos de vida, não combinando com a postura esperada de soldados. Tudo isso até consegue divertir um pouco, principalmente para os apreciadores de cinema bagaceiro, mas no caso desse “Carnossauro 3” a repetição de clichês tornaram o filme mais cansativo, num último suspiro da franquia.  
Curiosamente, um dos policiais que chega ao local onde está o caminhão roubado pelos terroristas com a carga de dinossauros, encontra um cenário sangrento repleto de vítimas esquartejadas, e faz um comentário hilário: “Isto aqui está parecendo um pesadelo de sexta-feira 13”.

(Juvenatrix – 17/02/16)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dinosaur From the Deep (França, 1993)


Inacreditável “filme Z” francês de orçamento quase inexistente, escrito, produzido, editado e dirigido por N. G. Mount (Norbert Moutier), que também atua sob o pseudônimo Bert Goldman. Ele é o responsável por outras porcarias como “Mad Mutilator” (1983) e “Le Syndrome d´Edgar Poe” (1995). Tem ainda a participação no elenco do veterano cineasta e roteirista francês Jean Rollin (1938 / 2010), que interpreta o papel de um “cientista louco”. Rollin teve uma vasta carreira no cinema com uma infinidade de bagaceiras de horror, atuando também em muitas delas, com seu nome tornando-se associado ao gênero.
Em 2004, um futuro para a época da produção em 1993, e um passado para nosso momento atual, a pena de morte para criminosos violentos está abolida e então a polícia decide enviar um perigoso prisioneiro junto numa expedição científica para o passado na época dos dinossauros. A missão é comandada pelo cientista Prof. Nolan (Jean Rollin), e o objetivo é estudar os gigantescos animais pré-históricos. O criminoso seria levado junto com seus carrascos para ser executado nesse passado sem lei. No retorno da nave que é uma máquina do tempo, um ovo de dinossauro é trazido à bordo e um pequeno monstro desperta, atacando os tripulantes com mortes sangrentas.  
Em “Dinosaur From the Deep” tudo é ruim ao extremo, nada se salva, nem a presença de Jean Rollin. A história é ridícula, com algumas piadas sem resultado, os atores são péssimos, e a edição com cortes bruscos é horrível. O diretor claramente demonstra não possuir qualquer tipo de conhecimento sobre como fazer cinema. Sem contar a música totalmente deslocada e que apenas contribui para aumentar o sentimento de rejeição do espectador. Até os créditos são extremamente amadores. Mas, o pior de tudo são os efeitos patéticos, que vão da nave espacial tosca, uma maquete estática paupérrima, aos dinossauros feitos de papel e com alguns movimentos num péssimo “stop motion”, que crianças em idade escolar do ensino fundamental conseguem fazer bem melhor e de forma mais convincente. É até difícil descrever a colossal ruindade geral desse filme.
Curiosamente, em determinado momento há uma citação irônica para “Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park), de Steven Spielberg, lançado na mesma época em 1993, onde o criminoso condenado à morte e que conseguiu escapar de seus executores, encontra uma “mulher das cavernas” e afirma que agora é o “Rei do Parque Jurássico”.
Produzido diretamente para o vídeo, o filme está disponível no “Youtube” na íntegra em francês sem legendas.
(Juvenatrix - 22/04/15)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Mandroid (EUA, 1993)


Existem centenas de filmes bagaceiros de ficção científica e horror, principalmente dos anos 50, 60 e 70 do século passado, cultuados justamente pela bizarrice de seus roteiros e pela produção tosca. Mas, as tranqueiras existem em todas as épocas e são lançadas o tempo todo, vindas de todos os lados do planeta. “Mandroid” é de 1993, e tem direção de Jack Ersgard e produção executiva de Charles Band, pela “Full Moon Pictures”. Ele que foi o criador da extinta “Empire”, empresa responsável por preciosidades como “A Hora dos Mortos-Vivos” (Re-Animator, 85) e “Do Além” (From Beyond, 86).
Uma dupla de “cientistas loucos”, Dr. Karl Zimmer (Robert Symonds) e Dr. Drago (Curt Lowens), está trabalhando secretamente na Europa oriental num projeto científico com a descoberta de um poderoso cristal chamado “Supercon”. Por causa da alta carga radioativa, esse produto tóxico somente pode ser manipulado por um robô humanóide, o “mandroid” do título, que é controlado à distância, inicialmente através dos movimentos de uma pessoa ligada à máquina por um complexo sistema de computador, e depois apenas através dos pensamentos de seu controlador. O Dr. Zimmer, juntamente com seu assistente Benjamin (Michael Della Femina) e sua bela filha Zanna (Jane Caldwell), quer oferecer a invenção com fins pacíficos para o governo americano, que através da CIA envia um agente negociador, Joe Smith (Patrik Ersgard, irmão do diretor), e um cientista, Wade Franklin (Brian Cousins), para conhecer melhor o projeto. Porém, o sócio Dr. Drago não concorda e quer oferecer o mandroid como arma de guerra, gerando um confronto de interesses entre eles e causando um acidente que desfigurou seu rosto. Ele foge e transforma-se num vilão que planeja roubar o mandroid com objetivos sinistros.
Com locações na Romênia, para baratear os custos de produção, é uma tranqueira de ação com elementos de ficção científica, apresentando um robô similar ao robocop (que já faz parte da cultura popular). Uma vez controlado à distância e altamente resistente, é o objeto de desejo de um “cientista louco” transtornado que quer vender a ideia para propósitos militares na construção de um exército invencível de andróides. O filme está repleto de situações absurdas e clichês exaustivos, com o eterno conflito entre a ciência para o bem da humanidade e o vilão com intenções maléficas. E claro, não poderia faltar uma mulher lindíssima no meio da bagunça toda, sempre bem maquiada, mesmo nos momentos de tiroteios e perseguições.
Teve uma continuação ainda no mesmo ano e pelo mesmo cineasta, “Invisible: The Chronicles of Benjamin Knight”. Curiosamente, Benjamin teve apenas uma pequena participação no primeiro filme, sofrendo um acidente que o tornou invisível, e ficando afastado da trama principal. Mas, acabou tornando-se a ponte para uma continuação, ganhando bem mais destaque.
(Spoiler): Outra curiosidade está no principal poster adotado para a divulgação, que mostra o mandroid sendo controlado por um homem numa cadeira de rodas. Trata-se do cientista americano Wade, que recebe um tiro e fica paraplégico, porém isso somente acontece no desfecho do filme, tornando a escolha da ilustração do poster uma atitude equivocada, uma vez que o robô só é controlado pelo deficiente físico uma única vez e numa das últimas cenas do filme.
(Juvenatrix - 18/02/15)

domingo, 18 de janeiro de 2015

O 31º peregrino, Rubens Teixeira Scavone


O 31º peregrino, Rubens Teixeira Scavone. 62 páginas. Capa de Rodney Vernacci. Editora Estação Liberdade, São Paulo, 1993.

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007) foi o mais erudito dos autores brasileiros de ficção científica e um dos pioneiros do gênero no País. Ele foi autor do romance O homem que viu o disco voador (1958), possivelmente o mais bem sucedido livro da fc brasileira, e da antologia O diálogo dos mundos (1963), entre outros trabalhos. Scavone recebeu o Jabuti em 1973 por seu romance mainstream Clube de campo e presidiu a Academia Paulista de Letras por vários mandatos.
Apaixonado pela literatura inglesa, Scavone  foi buscar inspiração no clássico Contos de Cantebury, de Geoffrey Chaucer, obra escrita há mais de 600 anos, para produzir o seu melhor livro: O 31º peregrino, publicado em 1993 pela editora Estação Liberdade, com ilustrações de Giselda Leirner.
Trata-se de uma história extremamente significativa em termos humanos e emocionais. Uma narrativa tocante e de estilo incomum que, através de um instrumental exclusivamente léxico, transporta o leitor para seis séculos no passado com uma eficiência rara. Ainda mais porque não segue os parâmetros protocolares da fc convencional. As descrições são ligeiras e não há muitas explicações para situar o leitor. Toda a ambientação emana do estilo rebuscado, que lança mão de uma infinidade de palavras desusadas. Esse estilo, com um quê de barroco, pode parecer estranho ao leitor moderno, mas se deve a escolha do autor, que se fez passar pelo próprio Chaucer.
Contos de Cantebury relata as histórias de trinta peregrinos (entre eles, o próprio Chaucer) a caminho da Catedral de Cantebury, ao sul de Londres, local em que o santificado Arcebispo Becket foi imolado pelos cavaleiros de Henrique II. Cada um dos romeiros assume um arquétipo social e por ele é batizado. Por isso os personagens não têm nomes, mas classificações: o Pároco, o Padre da Freira, o Frade Mendicante, o Monge, a Prioresa, a Mulher de Bath, o Tecelão, o Tapeceiro e o Tintureiro (que formam uma trindade importante na narrativa de Scavone), o Mercador, o Vendedor de Indulgências, o Estudante de Oxford, o Cozinheiro, o Carpinteiro, o Magistrado, o Cavaleiro, o Escudeiro, o Moleiro, o Cônego e seu Criado, o Médico, o Provedor, o Lavrador, a Freira, o Homem do Mar, o Feitor, o Proprietário Rural, o Beleguim e o Estalajadeiro.
Scavone aproveita a narrativa para fazer considerações muito interessantes sobre o Roteiro dos Peregrinos (há um mapa do mesmo na quarta capa do livro, desenhado por James Scavone) que guarda ligações com a mitologia de São Tiago e, por sua vez, remete aos primórdios de outro caminho de peregrinação, Santiago de Compostela, com uma surpreendente explicação da origem desse termo que justifica perfeitamente a releitura fantástica que Scavone dá a obra de Chaucer.
Chaucer/Scavone conta a história de um até então não citado trigésimo primeiro peregrino, que se une aos romeiros a meio caminho. Trata-se da Mulher Grávida, cujo estado parece ter relação com o sobrenatural e alarma os peregrinos católicos que, naturalmente, são muito supersticiosos.
A história relatada pela Mulher Grávida é, em si, uma joia do horror gótico medieval, que reporta aos clássicos do sobrenatural que formam o caldeirão no qual foram cozidos todos os gêneros fantásticos modernos.
Entretanto, O 31º peregrino é uma novela de fc. É claro que, para ser classificada assim, há que se encontrar nela algum componente explícito do gênero, e ele surge à altura devida, quando a Mulher Grávida abandona o grupo durante a noite e vai encontrar seu destino, que é testemunhado pelo narrador Chaucer/Scavone. Mas isso é menos importante que os conflitos humanos que emanam das relações entre os arquétipos definidos por Chaucer e das elucubrações filosóficas, históricas e sociológicas do autor/personagem.
O livro ainda guarda muitas outras qualidades. É uma novela que mergulha no cristianismo e dele faz um discurso ambivalente. Se o afirma ou o rejeita, fica ao leitor a responsabilidade por decidir.
O 31º peregrino está entre os melhores textos da fcb, ao lado de "A escuridão", de André Carneiro, e A hora dos ruminantes, de José J. Veiga e, como tais, deve ser leitura obrigatória para aqueles que apreciam a literatura fantástica brasileira e querem experimentar seus limites.
Cesar Silva