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quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Fronteiras da Eternidade

 

Fronteiras da Eternidade (The Edge of Forever), Chad Oliver. Tradução: José Sanz. Capa: Myriam Graber. Introdução: William F. Nolan. 280 páginas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1973. Publicado originalmente em 1971.

 


Esta coletânea publica algumas das principais histórias curtas do autor surgidas no início de sua carreira, na década de 1950. Como ele mesmo afirma no posfácio que escreveu a este livro, são narrativas dele quando jovem, com menos de 30 anos, no começo de sua carreira acadêmica, como professor de Antropologia.

Chad Oliver, na verdade, é o nome artístico de Symmes Chadwick Oliver (1928-1993), um ávido leitor e fã de FC na adolescência. Como informa William F. Nolan (1928-2021) na ótima introdução “Os Mundos de Chad Oliver”, ele conheceu a FC por causa de uma febre reumática, que o fez ficar de cama por muito tempo. Bem aproveitado, ao menos, lendo diversas pulp magazines. Na verdade, ele não apenas as lia, mas se tornou um dos maiores missivistas dos anos 1940.

Em quase todas as histórias desta coletânea, temos personagens antropólogos. “Talvez mais que o desejável”, como ele refletiu, anos depois. Mas compreensível, pelo fato de as duas atividades estarem em formação e desenvolvimento, a de escritor de FC e a de antropólogo. Assim, Oliver é normalmente classificado como um escritor de FC soft e não está incorreto. É um nome importante, pioneiro mesmo, ao incluir na ficção científica uma abordagem culturalmente crítica e embasada por pesquisas em antropologia. Como ressaltou o crítico da revista Locus Gary K. Wolfe, “Oliver foi o responsável por introduzir de forma consistente temas antropológicos na FC norte-americana a partir dos anos 1950, tendo uma importância comparável à de Ursula K. Le Guin neste particular.” (Megalon n. 30, maio 1994). Isso não é pouca coisa, embora, nos dias de hoje, seu nome esteja relativamente esquecido.

Fronteiras da Eternidade – belo título, aliás –, contém seis histórias abordando o impacto sobre os seres humanos de contatos com outras formas de vida e cultura, além dos significados sociais do desbravamento do espaço sideral e, principalmente, algumas experiências de desenvolvimento de novas culturas. Processos de manipulação que, como se verá e o próprio autor reconhece em seu posfácio, muito polêmicos.

A primeira história é “Transfusão” (“Transfusion”), primeiramente publicada em Astounding Science Fiction, junho de 1959. Um antropólogo viaja no tempo e descobre, para seu espanto, que os hominídeos de 25 mil anos atrás desapareceram sem deixar rastros. É como se toda a linha evolutiva da humanidade tivesse sido abortada, e não houvesse um início da presença humana na Terra. Mas Ben Hazard e um colega planejam e executam várias missões de retorno a períodos ainda mais distantes. E descobrem uma resposta chocante, quando testemunham 50 casais de humanos sendo deixados na Terra por uma gigantesca astronave, conduzida por humanoides. É uma história fascinante, embora um pouco rocambolesca, em que surge a tese de que a humanidade teria origem alienígena e fruto de uma experiência. Adeptos de teorias da conspiração e ufologia deverão gostar.

A noveleta seguinte também lida com experiências de manipulações culturais. Em “Um Amigo para o Homem” (“A Friend to Man”), primeiro vista na edição de março de 1954 de Universe Science Fiction, dois casais vivem no interior de uma cúpula em Ganimedes. Fazem parte de uma experiência para verificar como se dá a rotina e os possíveis efeitos psicológicos de viver em isolamento num ambiente alienígena. Eles têm todo o conforto material, mas, aos poucos, passam a sofrer efeitos psicológicos. Dizem ter visões de efeitos naturais da Terra, tornam-se deprimidos uns, paranoicos outros. E a ansiedade só aumenta por saberem que passarão muito tempo antes de chegar uma nave da Terra para levá-los de volta. Até que, recebem uma visita inesperada de um viajante espacial. Mas até que ponto é verdade ou não passa de imaginação?

A novela seguinte seja, talvez, a mais controversa em termos de interferência e mudança no destino de pessoas. “Trabalho de Campo” (“Field Expedient”), foi primeiro publicada em janeiro de 1955 de Astounding Science Fiction. No século XXII a Terra vive, finalmente, sob um governo mundial. E, de certa forma, a utopia hegeliana do ´fim da História´, tal qual atualizada por Francis Fukuyama em 1989, se tornou realidade. O mundo inteiro se ocidentalizou. Com o mesmo governo e sistema econômico. Além de mesmos padrões culturais. Mas esta estabilidade trouxe certa acomodação em algumas áreas, como por exemplo, o abandono da exploração do espaço. Neste contexto, um velho multibilionário excêntrico resolve financiar um projeto secreto de colonização de uma nova sociedade em Vênus. Muito questionável, porém, já que tal sociedade é composta por crianças, cedidas pelos pais a uma certa Fundação. Não sem certa pressão psicológica e omissão dos poderes públicos. Mas qual será o resultado do intento: Que tipo de sociedade emergirá? Conseguirá tirar a Terra de sua decadência? Embora interessante, é uma história inverossímil e que poderia ser melhor desenvolvida.

“A Formiga e o Olho” (“The Ant and Eye”), apareceu primeiro em outra edição de Astounding Science Fiction, abril de 1953. Aqui o tema é assumidamente político e, digamos, menos culturalista. Mas o que chama a atenção é a maneira estranha como é contada. Não do ponto de vista do estilo, por sinal, sempre limpo e agradável, mas pelo tom de conspiração. Muito questionável ou não bem desenvolvido no argumento. Em 2034, um antropólogo que faz pesquisas em Meran, um planeta que orbita a estrela de Procion, recebe um chamado urgente para voltar à Terra. Robert Quinton trabalha para uma agência da ONU, oficialmente voltada ao comércio internacional e interestelar. Mas que tem uma atividade secreta que estuda, com computação estatística, possíveis cenários de crises para a humanidade. Quinton deverá liderar uma missão para arruinar a carreira política de um certo Donald Weston. Isso porque, segundo o resultado de um relatório elaborado por supercomputadores com 90% de risco de acerto, este homem poderá levar à extinção da humanidade. Não é dito como, mas se intui que se tornaria presidente dos Estados Unidos e provocaria uma guerra nuclear. Mas com que direito uma agência pública, pra começar oculta, toma decisões sobre atividades políticas legitimadas eleitoralmente? Além disso, devemos seguir inquestionavelmente decisões tomadas por máquinas? É certo que se o risco for tão grave, algo deve ser feito, mas resta saber como, de maneira a não conspurcar decisões coletivas de base democrática. De fato, uma questão difícil, em outra história em que o tema da manipulação se faz presente.

Assim como em “O Primeiro nas Estrelas” (“First to the Stars”), a história mais antiga do livro, publicada em julho de 1952 em Astounding Science Fiction, com o título de “Stardust”. É uma novela empolgante sobre uma nave de gerações, dada como perdida a 200 anos e aparentemente sem vida a bordo, que é reencontrada por uma nave estelar. As ações das duas naves se alternam e os da Viking, a nave descoberta, só vão se tornando clara aos poucos, deixando uma sensação de estranhamento efetiva no leitor. Isso porque, após a nave ter sofrido um acidente e perder o rumo de seu destino, vaga sem rumo habitada por sobreviventes, descendentes dos tripulantes originais. Não há luz, em boa parte não há gravidade artificial, e a comida é racionada. Vive-se, assim, num ambiente perigoso e sem comando definido, com comunidades lutando entre si, quase como numa guerra. Assim, quando os tripulantes da Wilson Langford a descobrem, enviam uma missão para, primeiro descobrir se há vida, e em caso positivo o que fazer com ela? Resgatar os tripulantes da nave avariada, trazendo, com isso, um problema de desorientação cultural, já que eles jamais viveram outra realidade que a de um vaso espacial sem luz? Ou, deve-se tentar consertar a nave para que possa retomar seu destino original, de estabelecer uma colônia num planeta semelhante à Terra, que orbita a estrela de Capella, a 42 anos-luz de nosso planeta? É a melhor história do livro, excelente exemplar no tema dos problemas que podem surgir numa viagem espacial.

“Didn´t He Ramble” é o título de uma canção de Louis Armstrong, que concluí a coletânea. Foi publicada originalmente em abril de 1957 de The Magazine of Fantasy and Science Fiction. Um outro multibilionário idoso e entediado contrata o serviço de uma empresa que simula realidades artificiais. Theodore Pearsall deixa sua esposa e sua fortuna na Terra, e parte para viver seu sonho final num pequeno asteroide, transformado na Nova Orleans do início do século XX. Isso porque, Pearsall é uma grande fã de jazz e deseja ver e sentir como surgiram alguns dos seus ídolos como, por exemplo, Armstrong. É uma história bonita e melancólica, que destoa do contexto mais ativo e algo otimista das anteriores.

Fronteiras da Eternidade apareceu numa coleção de FC da editora Expressão e Cultura, sob a organização do célebre fã e editor José Sanz (1915-1987), que marcou a cena cultural brasileira nos anos 1960 e 1970, e nota-se o capricho da tradução, o cuidado com as referências bibliográficas, a bela capa – veja acima –, enfim, a diferença quando estamos diante de um livro publicado por alguém que amou o gênero. Não sei se Chad Oliver chegou a receber um exemplar – é bem possível que sim – e, se for o caso, deve ter gostado. Outros livros do autor foram publicados no Brasil, três romances: Os Senhores do Sonho (Unearthly Neighbors; 1960) (Edições GRD, 1964) e mais dois sob os cuidados de Sanz: No Limiar de Novos Mundos (The Shores of Another Sea; 1971) (Expressão e Cultura, 1971) e Vultos sobre o Sol (Shadows in the Sun; 1954) (Expressão e Cultura, 1974). Assim, para os poucos interessados em descobrir um novo autor, entre os muitos talentos esquecidos da FC, vale a pena conhecer este.  E em especial Fronteiras da Eternidade, pois é muito representativa não só da primeira fase de Oliver na FC, mas de suas contribuições pioneiras ao gênero. Pois explora de forma instigante as relações sobre alteridade, reconhecimento e relativismo cultural, tão caros a um gênero especulativo como a FC, e que tem se tornado cada vez mais relevantes neste século XXI.

 

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A Virgem e os Mortos (A Virgin Among the Living Dead, França, 1973)

 


“Gosto de noites escuras. Lembre-se, os abutres sobrevoam os locais de morte. Eu quase ouço o barulho de suas asas.”

 

O cineasta espanhol Jesús Franco (1930 / 2013) tem um currículo imenso como diretor e roteirista, principalmente de filmes bagaceiros de horror com qualidade questionável e orçamentos reduzidos. Vários deles em parceria com o ator suíço Howard Vernon, como “A Virgem e os Mortos” (A Virgin Among the Living Dead (França, 1973).

 

 A jovem Christina Benton (Christina von Blanc) recebe a notícia da morte misteriosa de seu pai, Ernesto (Paul Muller), que não conhecia pessoalmente, e vai para o sinistro e isolado castelo de sua família num local remoto para participar da leitura do testamento. Chegando lá, ela conhece seu tio Howard (Howard Vernon) e outros parentes como a tia (Rosa Palomar) e a bela Carmencé (a portuguesa Carmen Yazalde, creditada como Britt Nichols), além do tosco empregado Basilio (muito bem interpretado pelo diretor Jesús Franco), que fala com dificuldade e tem um comportamento estranho, e da jovem Linda, uma misteriosa garota cega (Linda Hastreiter). Christina sofre com pesadelos terríveis e mistura o tempo todo a realidade com devaneios onde mensagens de seu pai falecido, alertando-a dos perigos que rondam o castelo e a estranha família.

 

“A Virgem e os Mortos” é um título que já é “spoiler” ao revelar o drama da mocinha atormentada pelos mortos-vivos do castelo. É um daqueles filmes “exploitation” bagaceiros cujos cartazes promocionais chamativos despertam a curiosidade (é só ver a bela capa do DVD nacional), além de uma história com elementos interessantes envolvendo o mistério de uma família bizarra num castelo gótico com atmosfera onírica perturbadora. Só que o filme entrega um pouco menos do que se espera pelas boas premissas. O ritmo narrativo é algumas vezes excessivamente lento e a confusão constante entre realidade e pesadelo atrapalha o entendimento da história.

Por outro lado, temos uma boa dose de cenas de nudez das belas atrizes, especialmente Christina von Blanc, que é muito bonita, mas que teve uma carreira bem curta. E além do desfecho pessimista e carregado com uma atmosfera macabra, existe um desconfortável sentimento de morte e horror na maior parte do tempo, acentuado pelas boas atuações dos experientes atores Howard Vernon e Paul Muller, que interpretaram respectivamente o tio misterioso e o pai suicida da protagonista Christina.

Vale a pena registrar duas cenas em especial, que se destacam de forma convincente na construção de um clima de horror, ambas com o ator Paul Muller fazendo aparições fantasmagóricas ao se comunicar com a filha em suas visões. A primeira ocorre na floresta que cerca o castelo, onde ele com uma bizarra corda no pescoço se movimenta para trás como um cadáver flutuando em meio às árvores, e a outra cena é quando ele está sentado numa cadeira e é arrastado para a escuridão pela sinistra “Rainha da Noite” (Anne Libert), se ocultando no limbo das sombras.

 

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela “Vinny Filmes” em Janeiro de 2012, na coleção “Clássicos do Terror”, sem material extra, numa versão reduzida com 75 minutos de duração. Existe outra versão com cenas adicionais dirigidas pelo francês Jean Rollin.

 

(Juvenatrix – 03/11/21)





quarta-feira, 8 de abril de 2020

Lisa e o Diabo (Lisa and the Devil, Itália / Espanha / Alemanha, 1973)


“Uma noite sem luar, esta casa, e uma certa atmosfera. Devo confessar que preferia fantasmas e vampiros, no entanto. Eles são muito mais humanos, eles têm uma tradição a cumprir. De alguma forma, conseguem manter todo o horror sem derramar sangue.” – Sophia Lehar, desconfortável pelo ambiente sinistro da “casa do exorcismo”

No início dos anos 70 do século passado, os filmes com fantasias góticas estavam começando a declinar, após o auge na década de 1960. Eles estavam cedendo espaço para filmes cada vez mais violentos, com o satanismo sendo um tema bastante explorado.
O cineasta Mario Bava (1914 / 1980), eternamente cultuado na história do horror gótico, ainda lançou em 1973 “Lisa e o Diabo” (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil), mais uma preciosidade desse fascinante estilo, inserindo elementos urbanos e o diabo.
Uma turista americana, Lisa Reiner (a alemã Elke Sommer), se perde no meio de um vilarejo espanhol sinistro com becos estreitos desertos e casas antigas de pedra. Quando a noite chega trazendo ainda mais insegurança, ela solicita uma carona no carro de Francis Lehar (Eduardo Fajardo), que está acompanhado de sua esposa infiel Sophia (a croata Silva Koscina), amante do motorista George (Gabriele Tinti). O carro tem pane mecânica próximo de uma mansão sombria e eles são convidados pelo jovem hospitaleiro Max (Alessio Orano), filho da Condessa (Alida Valli), cega e uma anfitriã bem menos amistosa. Para completar a estranheza do lugar, eles são recepcionados pelo sinistro mordomo Leandro (Telly Savalas), e ainda tem a presença misteriosa de Carlo (Espartaco Santoni), marido infiel da Condessa e pivô de uma história de traição e tragédia familiar.
Mario Bava teve a ideia para o filme se inspirando numa pintura mural com a representação do “Diabo que transporta os mortos”, cuja semelhança física com o Mordomo Leandro é bastante notável. Aliás, o calvo Leandro, que constantemente tem um pirulito na boca para substituir o cigarro, é interpretado por Telly Savalas (1922 / 1994), ator do clássico de guerra “Os Dozes Condenados” (1967) e da divertida bagaceira “O Expresso do Horror” (1972), além de várias séries de TV, sendo um rosto muito conhecido pelos 117 episódios da série policial “Kojak” (1973 / 1978).
Como em todos os filmes do cineasta italiano, temos uma narrativa mais lenta com uma atmosfera perturbadora de pesadelo na mansão macabra, cheia de aposentos enormes, coloridos e mobília antiga. O clima é bem pesado, angustiante, depressivo, desconfortável, que envolve o mistério de uma família bizarra atormentada pela tragédia, desconfiança e insanidade. Não há profusão de sangue, mas as poucas mortes são bem violentas.   
“Lisa e o Diabo” foi lançado em DVD no Brasil em 2015 pela “Versátil”, na coleção “Obras-Primas do Terror – Volume 2”. De material extra veio incluso o documentário “O Exorcismo de Lisa” (2004), com depoimentos interessantes do biógrafo Alberto Pezzotta, do roteirista Roberto Natale (que escreveu o filme, mas curiosamente não foi creditado), além de Lamberto e Rov Bava, respectivamente filho e neto do diretor. Eles comentaram, entre outras coisas, sobre a versão americana lançada em 1975 com o título “The House of Exorcism”, aproveitando o apelo comercial com o grande sucesso de “O Exorcista” (1973), de William Friedkin. A nova versão é basicamente formada pelo mesmo filme “Lisa e o Diabo” anterior, com o acréscimo de cenas de exorcismo de Lisa possuída e a inclusão do Padre Michael (Robert Alda), como um exorcista que tenta livrá-la da influência do demônio. Outra diferença significativa refere-se à exploração das cenas de nudez e sexo, bem mais explícitas.

(Juvenatrix – 08/04/20)




sexta-feira, 3 de abril de 2020

No Mundo de 2020 (Soylent Green, EUA, 1973)


“As pessoas sempre foram ruins, o mundo é que era bonito.”
– policial Solomon Roth

No Mundo de 2020” (Soylent Green) é um filme futurista americano produzido em 1973, dirigido por Richard Fleischer (1916 / 2006) e com elenco de grandes nomes como Charlton Heston (1923 / 2008) e o romeno Edward G. Robinson, que curiosamente faleceu logo após as filmagens aos 79 anos. O roteiro é de Stanley R. Greenberg, inspirado na história “Make Room! Make Room!” (1966), de Harry Harrison.
Ambientado mais precisamente em 2022, nosso planeta está totalmente poluído, com os recursos naturais esgotados e enfrentando uma grave crise com superpopulação. A cidade de New York tem quarenta milhões de habitantes e o mundo passa fome, com as pessoas pobres e desamparadas sendo apenas alimentadas por tabletes chamados “verde soilente” (do título original), obtidos a partir de algas dos oceanos. E apenas uma pequena parte da população rica tem acesso à comida “de verdade” como frutas e carnes.
Esse alimento industrializado é fornecido em monopólio por uma empresa onde um de seus diretores, William R. Simonson (Joseph Cotten), é encontrado misteriosamente morto em seu apartamento de luxo. O policial Thorn (Charlton Heston) é o encarregado das investigações, auxiliado por seu companheiro veterano Solomon Roth (Edward G. Robinson), com quem mora e sempre conversa sobre o passado recente da humanidade, quando a natureza ainda estava viva e existiam rios, peixes, animais, flores e árvores.
Durante as investigações, Thorn entra em contato com o suspeito guarda-costas do falecido, Tab Fielding (Chuck Connors), e conhece a bela jovem Shirl (Leigh Taylor-Young), uma “alugada”, empregada que fazia parte do aluguel do apartamento e servia também de acompanhante para o inquilino. Ao descobrir que o rico empresário foi na verdade assassinado, Thorn desperta a ira de pessoas importantes do poder econômico e político da cidade, com seus interesses obscuros ameaçados, principalmente o Governador Santini (Whit Bissell), ao mesmo tempo em que também descobre um segredo terrível envolvendo a matéria-prima do “verde soilente”.
“No Mundo de 2020” apresenta uma distopia perturbadora, com a Terra devastada pelo efeito estufa, natureza em decadência, um lugar onde os rios, animais e plantas são coisas do passado, e a humanidade enfrenta a fome e falta de espaço nas grandes cidades. Há escassez de água, comida, papel, energia, saneamento. Não existe dignidade mínima de sobrevivência. Nesse cenário aterrador, apenas os ricos usufruem de luxos como sabonete e água quente, ou comer frutas e carnes.
O elenco é de primeira linha e os destaques certamente são as interpretações de Charlton Heston (com excepcional currículo que inclui o clássico “Planeta dos Macacos”) e Edward G. Robinson, numa ótima interação entre eles, criando empatia com o espectador preocupado com seus destinos num ambiente de caos. 
Para os apreciadores de cinema, sempre existem algumas sequências de filmes que ficam eternizadas em nossa memória até o fim de nossos dias. A grande maioria não fica armazenada e rapidamente é descartada, às vezes logo em seguida ao terminarmos de ver os filmes. Porém, ao contrário, tem momentos que ficam gravados para sempre em nossa mente. Como é o caso para mim de uma sequência poética de “No Mundo de 2020” sobre o “asilo”, com o roteiro explorando a ideia de eutanásia como forma de minimizar os efeitos da superpopulação, também numa relação com o misterioso “verde soilente”. O policial idoso Solomon, cansado da degradação do planeta e de viver apenas com as boas lembranças do passado, decide livre e espontaneamente visitar o “asilo”. Lá, ele é muito bem recepcionado e depois de fazer uma rápida entrevista sobre suas preferências de cor e tipo de música, vai para uma sala especial ver um vídeo em tela grande, com belíssimas imagens da natureza que dava vida à Terra, ao som da sinfonia “Pastoral”, de Beethoven. Essa sequência deveria ser vista por todos e sempre, como uma mensagem para talvez a humanidade evitar que a realidade do filme possa se tornar verdade no futuro e que a natureza possa ser respeitada nesse planeta.
Foi lançado em DVD por aqui pela “Versátil Home Video”, na Coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 2”. 

(Juvenatrix – 02/04/20)


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sete Mortes Nos Olhos de um Gato (La Morte Negli Occhi del Gatto, Itália / França / Alemanha Ocidental, 1973)


“Quando um MacGrieff é morto por alguém de seu próprio sangue, não morre, mas torna-se vampiro, para vingar a própria morte.”

Numa co-produção de três países europeus, Itália, França e Alemanha Ocidental (na época ainda não era unificada), e direção de Antonio Margheriti (creditado como Anthony M. Dawson), “Sete Mortes Nos Olhos de Um Gato” (La Morte Negli Occhi del Gatto, 1973) é um daqueles divertidos filmes com mortes misteriosas e  investigação policial numa ambientação típica de horror gótico e maldição familiar.
Uma antiga e tradicional família do interior da Escócia, os MacGrieff, cujo brasão mostra um temível vampiro, vive num imenso castelo chamado “Dragonstone”, uma construção de pedras localizada no alto de um penhasco, constantemente cortada por ventos uivantes. A proprietária Lady Mary (a francesa Françoise Christophe) está falida e precisa de dinheiro para manter o castelo, aconselhada a vender o imóvel pelo Dr. Franz (o alemão Anton Diffring), médico da família. Ele está cuidando do jovem Lord James (o americano Hiram Keller), filho de Lady Mary, recluso e considerado doente, perturbado com o tratamento que recebe, e com um passado sinistro envolvendo a morte suspeita de sua irmã quando criança.
No castelo ainda vive como hóspede a bela Suzanne (a alemã Doris Kunstmann), contratada como professora de francês, mas que tem atitudes suspeitas e objetivos obscuros. Além do serviçal Angus (o italiano Luciano Pigozzi, creditado como Alan Collins), o mordomo Campbell (o alemão Konrad Georg, creditado como George Korrade) e sua esposa Janet (a italiana Bianca Doria). Outros convidados são Lady Alicia (a italiana Dana Ghia), a irmã rica de Lady Mary, que costuma passar as férias no castelo, mas não quer emprestar dinheiro para salvar a irmã falida, e o padre Reverendo Robertson (o italiano Venantino Venantini), que costuma visitar o castelo representando a igreja católica e para manter as relações políticas com o que restou da nobre família MacGrieff.
Para aumentar a lista de hóspedes chega ao castelo também a bela jovem Corringa (a inglesa Jane Birkin), uma estudante recém-expulsa de um colégio de freiras, filha de Lady Alicia. Ela chega sem avisar e surpreende todos. Porém, o ambiente torna-se conturbado quando começam a ocorrer assassinatos misteriosos no interior do imenso castelo, repleto de quartos escuros e passagens secretas, todos testemunhados pelos olhos de um gato amarelo que pertence à família (daí o título do filme).
A série de mortes desperta a atenção da polícia local, com a investigação do inspetor (o francês Serge Gainsbourg) e todos são considerados suspeitos, especialmente os membros da família MacGrieff, historicamente atormentados por uma lenda que diz que depois de assassinados, eles transformam-se em vampiros, voltando do túmulo para vingar suas mortes.
  “Sete Mortes Nos Olhos de Um Gato” tem um título sonoro, ideia bastante utilizada no cinema fantástico italiano da década de 1970. E temos uma mistura de história policial envolvendo mortes misteriosas, com horror gótico no melhor estilo desse fascinante sub-gênero, não faltando a tradicional maldição familiar com a especulação constante de motivações sobrenaturais de lendas e folclores obscuros para justificar os acontecimentos macabros.
Temos aquela divertida atmosfera gótica com seus elementos tradicionais, mortes estranhas, os olhos de um gato como testemunha, clima de conspiração entre os suspeitos variados, e até um gorila adquirido de um circo, para servir de criatura oculta nas sombras aumentando a tensão no interior do castelo.
O elenco é internacional, com representantes de vários países. O cineasta italiano Antonio Margheriti (1930 / 2002) é conhecido pela carreira repleta de divertidas bagaceiras do cinema fantástico, geralmente utilizando o pseudônimo Anthony M. Dawson. De seus incontáveis filmes podemos citar “Destino: Espaço Sideral” (1960), “O Planeta dos Desaparecidos” (1961), “A Mansão do Homem Sem Alma” (1963), “Dança Macabra” (1964), “Carne Para Frankenstein” (1973), “Cannibal Apocalypse” (1980), “Yor, o Caçador do Futuro” (1983), e “Alien From the Deep” (1989), entre outros.

“Quando um gato segue o caixão, o falecido é um vampiro.”

(Juvenatrix – 29/01/18)

domingo, 7 de janeiro de 2018

O karma de Gaargot, Sergio Macedo

O karma de Gaargot, Sergio Macedo. 48 páginas, Editora Massao Ohno, São Paulo, 1973.

Volta e meia, o pesquisador de quadrinhos nacionais se depara com um nome surpreendente que, por razões imperdoáveis, não está na ponta da língua de todos os leitores. Às vezes é uma revista, que publicou obras de qualidade, mas teve uma distribuição limitada e poucos a conheceram; outras é uma hq, que apresentou um estilo inovador, mas, justamente por estar muito adiante de sua época, não galvanizou atenção; ou ainda um artista que, apesar de ter desenvolvido um trabalho meritório, caiu no esquecimento ao longo do tempo. Estes três aspectos podem ser observados simultaneamente em O karma de Gaargot, de autoria do mineiro Sergio Macedo, originalmente publicada em forma de seriado na revista Grilo nos anos 1970, e reunida em álbum em 1973 pelo importante editor independente Massao Ohno.
Primeiro, a revista. Massao Ohno deu à este álbum um tratamento sui-generis, com pranchas impressas em papéis diferentes e páginas de seda separando algumas delas, num acabamento luxuoso para os padrões editoriais da época. De muitas formas, o álbum remete ao igualmente transgressor e raro Saga de Xan, resenhado aqui.
Segundo, a obra em si. Trata-se de uma peça de ficção científica distópica sobre uma sociedade industrial dominada por um governo totalitário e totalmente dependente da tecnologia – que divide o mundo com seres híbridos de homens, animais e máquinas – quando surge um artefato desconhecido nos céus, chamado por eles de Aparição. Essa máquina indestrutível e inexpugnável é uma espécie de inteligência cósmica, que elege um único ser humano entre os oprimidos para ser transcendido. Enquanto esse homem passa pelas diversas etapas da evolução consciente e inconsciente, o governo tenta todas as formas de destruir a Aparição.
Trata-se, obviamente, de uma alegoria ao estado opressor em que o Brasil estava submetido a época da publicação e que duraria ainda muitos anos após sua conclusão. Mas é também um tratado filosófico sobre a relação com a natureza e o outro, sendo, dessa forma, uma das primeiras peças do quadrinho nacional a abordar a questão ambiental – ainda que de forma transversal – e a filosofar abertamente, algo que, anos depois, se tornara praticamente um gênero nos fanzines nacionais, batizado por seus praticantes como "quadrinho filosófico". Além disso, temos ali a estética extremamente autoral de Macedo como ilustrador, com desenhos que se desdobram em detalhes minuciosos e técnicas variadas, que passam pelo bico de pena, pincel e, especialmente, o pontilhismo, com resultados muito expressivos ainda que unicamente em preto em branco. Sem esquecer a linguagem repleta de licenças poéticas, como se fosse uma estado futuro do português.
E, finalmente, o autor. Sérgio Macedo é um caso singular nos quadrinhos nacionais. Sua obra tem aspectos extremamente ousados, afinada com as propostas político-sociais da época, quando a contracultura ainda estava muito fresca na mente dos artistas e do público. Reconhecemos mais os efeitos dessa escola na música, com o tropicalismo de Os Mutantes e Tom Zé, na poesia concretista de Augusto de Campos e Décio Pignatari, e no cinema de Glauber Rocha, por exemplo. Sérgio Macedo é o grande expoente desse momento cultural no quadrinho brasileiro, autor de um trabalho que, à época, só encontrava paralelo na arte de Philippe Druillet e Moebius, artistas europeus de vanguarda. Tanto é que, pouco depois de publicar este material, Macedo transferiu-se para a Europa e tornou-se colaborador contumaz na revista Metal Hurlant, fundada em 1975 por esses dois artistas ao lado do jornalista Jean-Pierre Dionnet, que viria a revolucionar a linguagem dos quadrinhos no mundo inteiro.
Macedo reside hoje no Taiti e continua a trabalhar para o mercado europeu, onde tem diversos álbuns publicados. Apesar de toda essa importância, o autor foi pouquíssimo publicado no Brasil. Além do O karma de Gaargot, Macedo teve publicado aqui apenas Xingu! (Devir, 2007), com uma história baseada nas experiências do autor que viveu algum tempo entre os índios kayapó. Na Europa, esse álbum recebeu o nome de Brazil! e faz parte de uma série de cinco títulos contando as aventuras do explorador Vic Voyage.
O karma de Gaargot é um trabalho que merece e precisa ser resgatado para as novas gerações, devido à importância histórica e estética que, a sua época, manteve o quadrinho brasileiro na ponta de lança do quadrinho mundial.
Cesar Silva

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Retorno dos Mortos-Vivos (El Ataque de los Muertos Sin Ojos, Espanha, 1973)


Vocês verão os templários retornarem dos mortos! Destruiremos tudo e todos! Somos imortais! E vocês?

 É interessante notar como o mercado brasileiro de vídeo VHS já lançou uma quantidade infindável de filmes que não estão mais disponíveis. Quando a febre dos aparelhos de vídeo cassete iniciou no país, por volta de meados dos anos 1980, surgiu uma grande quantidade de distribuidoras de filmes em VHS que eram tão pequenas e desconhecidas quanto os filmes que lançavam no mercado. Tanto é que a maioria faliu e desapareceu há muitos anos, deixando suas fitas perdidas principalmente em pequenas locadoras de bairro ou sebos espalhados pelo Brasil. Porém, muitos desses filmes desconhecidos, de todos os gêneros, são verdadeiras preciosidades e tornaram-se raridades fora de catálogo para colecionadores e apreciadores do cinema menos convencional. Principalmente agora, com a proliferação dos filmes em discos DVD, que estão tornando-se cada vez mais populares e diminuindo a atenção dispensada pelo público às fitas VHS, num movimento similar ao que já aconteceu com a música, entre os nostálgicos discos de vinil e os modernos CD´s.
Um filme de horror em especial, com o sonoro título de “O Retorno dos Mortos-Vivos” (The Return of the Evil Dead), lançado no Brasil pela extinta “Visocopy”, é uma rara produção espanhola de 1973 que exemplifica muito bem o que foi exposto acima. É um filme pouco conhecido no Brasil, de baixo orçamento no mais tradicional “horror bagaceiro”, e típico representante do cinema “trash”, ou seja, com roteiro óbvio, diálogos banais, situações previsíveis, atores canastrões e amadores, efeitos toscos e tantas outras deficiências não propositais que o tornam exatamente por isso um filme que desperta interesse e principalmente proporciona um inusitado momento de entretenimento. Sem contar outros motivos que ajudam a torná-lo ainda mais especial, como sua raridade e dificuldade de acesso, sendo um filme espanhol com mais de quarenta anos desde sua obscura produção. Além de ser um exemplar tipicamente influenciado pelo clássico filmado em preto e branco “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Night of the Living Dead), dirigido por George A. Romero em 1968, que trazia basicamente um grupo de pessoas encurraladas numa casa de campo enfrentando a fúria assassina de uma multidão de zumbis famintos por carne humana. Em “O Retorno dos Mortos-Vivos”, a história mostra um grupo de sobreviventes de uma pequena cidade refugiados numa igreja, sendo ferozmente atacados por mortos-vivos portando espadas em busca de vingança contra o que lhes aconteceu no passado.
 O filme inicia mostrando uma seita da Idade Média realizando rituais satânicos num castelo de estilo gótico. Eles são templários que trouxeram do Oriente o segredo da vida eterna, realizando sacrifícios humanos para as supremas forças do mal, arrancando o coração das vítimas, comendo suas vísceras e bebendo o sangue. Revoltados com os assassinatos nas cerimônias demoníacas, os aldeões locais capturam os templários e os executam queimando-os vivos em fogueiras. Uma vez os satanistas prometendo retornarem do mundo dos mortos para se vingarem, os aldeões então queimaram primeiro os seus olhos antes de atearem fogo em seus corpos, para com isso impedirem sua volta. Um dos próprios moradores da cidade explica o folclore em torno dos templários: “De acordo com a lenda, os aldeões queimaram seus olhos para que não pudessem voltar, para se vingarem. A superstição diz que eles seguem o som!”.
Muitos anos depois, a pequena vila portuguesa de Bouzano está se preparando para comemorar uma festa para lembrar a vitória de seus antepassados sobre os templários, onde eles simulam a execução dos satanistas com bonecos presos em fogueiras. Para alegrar ainda mais a festa, o prefeito Duncan (Fernando Sancho) e seu assistente Howard (Frank Blake), contratam um técnico americano em fogos de artifício, Jack Marlowe (Tony Kendall). Ao chegar à cidade, Jack reencontra uma antiga namorada, a agora noiva do prefeito, Srta. Vivian (Esther Roy), com quem acaba se reaproximando e com isso despertando a ira de Howard, que estava apaixonado pela jovem.
Enquanto os habitantes do vilarejo se divertem com a animada festa noturna, dançando e assistindo a queima dos fogos de artifício, próximo dali, no antigo castelo em ruínas dos templários, eles ressurgem do mundo dos mortos saindo de suas tumbas para consumarem sua vingança prevista quando foram barbaramente executados nas fogueiras. Eles se reúnem em grande quantidade, cavalgando cavalos mortos e portando espadas afiadas, e se dirigem à cidade para iniciarem um massacre. Após sangrenta carnificina, numa gritaria sem fim, com mortos e feridos para todos os lados, um grupo de sobreviventes se refugia numa igreja, sendo encurralado pelos templários esqueléticos. Formado pelo herói mocinho Jack, sua namorada Vivian, o prefeito corrupto e sem escrúpulos Duncan e seu capanga Howard. Ainda tem um casal, Bert (Ramón Lillo) e Amalia (Lone Fleming), com sua pequena filha Nancy (Maria Nuria), uma bela jovem, Monica (Loreta Tovar), que havia visto o namorado ser assassinado, e o vigia do local, um retardado corcunda, Murdo (José Canalejas), que ajudou  no retorno dos mortos-vivos matando uma mulher diante de suas tumbas, mas que foi ignorado pelas caveiras ambulantes. Uma vez encurralados na igreja por uma multidão de mortos-vivos, o grupo vai aos poucos sendo dizimado violentamente enquanto lutam pela sobrevivência, aguardando a chegada do amanhecer. 
 Algumas cenas são bastante interessantes, destacando as sequências em que os templários têm seus olhos dolorosamente queimados por tochas ardentes em fogo; ou quando um homem tem sua mão e outro sua cabeça violentamente decepados em golpes precisos das espadas dos mortos-vivos; ou ainda na brutal chacina dos habitantes do pequeno vilarejo, numa correria desenfreada com sangue e corpos caindo aos montes, vítimas dos templários vingadores.
Os efeitos especiais são extremamente precários, principalmente num momento em que o herói Jack arremessa sobras de fogos de artifício nos zumbis com o objetivo de derrotá-los. Alguns caem mostrando claramente tratarem-se de simples bonecos imóveis, num efeito exageradamente tosco. O roteiro tem erros grotescos de continuidade e diálogos tão infantis que nos incitam a torcer para o sucesso do plano de vingança dos bruxos medievais. Porém, os figurinos dos mortos-vivos são bastante convincentes, dando a impressão sombria de esqueletos podres vestindo grandes capas surradas e desgastadas pelo tempo, auxiliados por uma fotografia escura.
“O Retorno dos Mortos-Vivos” é o segundo filme de uma série de quatro dentro do mesmo universo ficcional, porém com histórias independentes. Sendo precedido por “A Noite do Terror Cego” (1972) e tendo outras duas sequências posteriores, “O Galeão Fantasma” (1974) e “A Noite das Gaivotas” (1975), todos dirigidos por Amando De Ossorio e constituindo-se numa cultuada tetralogia do cinema fantástico envolvendo a sempre fascinante temática de “mortos-vivos”.

(Texto originalmente em Fevereiro de 2003, publicado em 10/12/2005 no blog www.juvenatrix.blogspot.com.br)

O Retorno dos Mortos-Vivos (El Ataque de los Muertos Sin Ojos / The Return of the Evil Dead / The Return of the Blind Dead, Espanha, 1973). Ancla Century / Atlas International. Duração: 83 minutos. Direção e roteiro de Amando De Ossorio. Produção de Raymond Planta. Fotografia de Michael Mila. Edição de Joseph Anthony. Maquiagem de Joe Louis Campos. Música de Tony Abril. Elenco: Tony Kendall, Fernando Sancho, Esther Roy, Frank Blake, Lone Flemming.
(Juvenatrix - Fev. 2003)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

El Espanto Surge de la Tumba (Horror Rises From the Tomb, Espanha, 1973)


França, meados do século XV. Quando a superstição e a ignorância controlavam toda a Europa, homens e mulheres acusados de bruxaria eram executados na fogueira, na forca ou por lâminas afiadas. A peste, a mais devastadora das pragas, e a guerra, com todas as calamidades em seu rastro, não são tão temidos quanto o poder sombrio de Satanás, e de sua sinistra corte de demônios e bruxos.
O espanhol Paul Naschy (pseudônimo de Jacinto Molina Álvarez) nasceu em 06/09/1934 em Madri, e faleceu em 30/11/2009 aos 75 anos, sendo considerado um nome cultuado relacionado ao cinema de horror, com uma infinidade de créditos como diretor, roteirista e ator. “El Espanto Surge de la Tumba” (conhecido também pelo título inglês “Horror Rises From the Tomb”) é mais uma de suas várias bagaceiras preciosas com roteiros bizarros e todos os elementos do horror da época da inquisição européia.
Dirigido por Carlos Aured, inicia-se na França de 1454, onde um casal é condenado à morte por prática de magia negra. Alaric de Marnac (Paul Naschy) é executado por decapitação e sua cabeça é enterrada longe do corpo, e sua companheira Mabille De Lancré (Helga Line) é morta após ser torturada pendurada de cabeça para baixo numa árvore. Antes de morrerem, eles lançam uma maldição para seus executores, o próprio irmão Armand de Marnac (também Naschy) e Andre Roland (Vic Winner), dizendo que seus corpos morreriam, mas seus espíritos continuariam vivos buscando por vingança contra seus descendentes.
Mais de quinhentos anos depois, dois casais de amigos, Hugo de Marnac (novamente Naschy) e a namorada Sylvia (Betsabe Ruiz), e o pintor Maurice Roland (também Vic Winner) e a bela Paula (Cristina Suriani), decidem participar de uma sessão espírita comandada pela médium Madame Irina Komarova (Elsa Zabala). Eles recebem uma mensagem que desperta a curiosidade em encontrar a cabeça decepada de Alaric de Marnac, enterrada em terras próximas das ruínas de um antigo mosteiro, atualmente pertencentes ao descendente Hugo. Lá chegando, eles se juntam ao caseiro que cuida da propriedade, e que mora no local com suas duas belas filhas, Chantal (Maria Jose Cantudo) e Elvira (Emma Cohen), sendo que esta última tem um caso amoroso com Hugo. Juntos, todos eles lutam para sobreviver dos ataques brutais de Alaric de Marnac, que consegue reviver da tumba junto com sua companheira, e utiliza seu poder satânico para controlar as pessoas e transformá-las em zumbis assassinos, além de beber seu sangue e comer seus corações.
“El Espanto Surge de la Tumba” é o típico cinema bagaceiro divertido, com uma sinistra trilha sonora gótica de órgão, mortes com significativo grau de violência e sangue, ambientes tétricos envoltos em névoa, corpos que saem de caixões, zumbis deformados caminhando lentamente em busca de suas vítimas, uma cripta em ruínas com atmosfera de gelar o sangue, um talismã mágico capaz de combater as forças demoníacas, a impagável expressão facial de Paul Naschy com seu olhar hipnotizador no melhor estilo imortalizado pelo vampiro “Drácula”, belíssimas mulheres semi nuas desfilando para o abate, e uma história repleta de clichês e situações absurdas que justamente por isso garantem o entretenimento bizarro.
Entre as curiosidades, podemos citar:
* É mencionado no filme o conhecido demônio “Astaroth”, que foi o nome de um fanzine de horror que editei entre 1995 e 2008, sendo que utilizei como inspiração uma referência de outro filme, “Uma Filha Para o Diabo” (To the Devil a Daughter, 1976).
* “El Espanto Surge de la Tumba” é o nome do terceiro disco da banda de metal extremo “Dorso” (Chile), lançado em 1993, com letras inspiradas em filmes de horror.
* Foi filmada uma sequência em 1983, “Latidos de Pánico”, escrito, dirigido e atuado pelo multi funcional Paul Naschy.
(Juvenatrix - 12/04/15)

domingo, 8 de março de 2015

O Demônio Imortal (Yilmayan Seytan, Turquia, 1973)


Filme obscuro, tanto pela produção tosca quanto pela história clichê e quantidade de bizarrices que desfilam para todos os lados, mas principalmente por ser da Turquia, numa bagaceira com elementos de espionagem, humor pastelão e ficção científica tranqueira. “O Demônio Imortal” (“Yilmayan Seytan” no original turco e “The Deathless Devil” nos Estados Unidos) tem direção de Yilmaz Atadeniz (que utilizou o óbvio pseudônimo de Robert Gordon na versão americana), e roteiro bagaceiro de seu irmão Orhan Atadeniz.
O jovem Tekin (Kunt Tulgar) recebe de seu pai a notícia que foi adotado, e que o verdadeiro pai morreu, sendo conhecido como um vigilante super-herói mascarado. Para combater o crime, ele é convencido então a personificar o justiceiro mascarado “Serpente”, com um patético laço vermelho no pescoço. Com a ajuda do atrapalhado Bitik (Erol Gunaydin), o alvo principal é combater o vilão bigodudo Dr. Seytan (Erol Tas), uma cópia barata do mais famoso “Dr. Fu Manchu” (interpretado várias vezes pelo ícone Christopher Lee). O vilão pretende roubar uma invenção militar do cientista Prof. Dogan (Yalin Tolga), um dispositivo capaz de controlar aviões no ar e a descarga de bombas em alvos planejados. Sua intenção maléfica é tornar-se um governante tirano do mundo, auxiliado também por um robô assassino criado por ele, e que serviria de protótipo para a construção de um exército. E para completar a enxurrada de clichês, não poderia faltar a presença da tradicional mocinha, Sevgi (Mine Mutlu), a bela filha do Prof. Dogan, que é obviamente apaixonada pelo herói Tekin.
Assistir esse filme em seu idioma original turco não é fácil, pois soa muito estranho e nem um pouco convidativo. Para ajudar na bizarrice como um todo, temos ainda uma história ridícula e entediante, num imenso convite ao sono. A narrativa até que não é lenta, e ao contrário é bem frenética, mas isso não impede o desinteresse, com cortes bruscos na edição. As atuações são patéticas ao extremo, e as cenas de lutas e perseguições do herói contra os capangas do Dr. Seytan são hilárias de tão ruins. É uma mistura de espionagem com piadas horríveis do panaca ajudante do herói e elementos toscos de ficção cientítica, onde o robô provavelmente é um dos piores de todos os tempos (com um ator dentro de uma fantasia que não tem palavras para definir a tosquice). A duração de uma hora e vinte e cinco minutos poderia ser reduzida para um filme de curta metragem de não mais que trinta minutos, e talvez isso pudesse funcionar para despertar algum interesse.
Curiosamente, “O Demônio Imortal” é considerado uma refilmagem do americano “O Misterioso Dr. Satã” (Mysterious Doctor Satan, 1940), um seriado produzido em preto e branco dividido em quinze capítulos.
Mas, de uma forma geral, esse filme turco é um daqueles ruins que são mais chatos que divertidos, diferente da maioria das outras bagaceiras do cinema fantástico de baixo orçamento, onde os clichês e excesso de situações bizarras com efeitos toscos tornam-se justamente o diferencial que leva ao entretenimento.
(Juvenatrix - 08/03/15)


quinta-feira, 5 de março de 2015

A Essência da Maldade (The Creeping Flesh, 1973)


Filme inglês estrelado pela dupla Christopher Lee e Peter Cushing, dois dos maiores ícones do cinema de horror de todos os tempos, e dirigido por Freddie Francis, de preciosidades como “O Monstro de Frankenstein” (64), “A Maldição da Caveira” (65) e “As Torturas do Dr. Diabolo” (67), entre outras.
O cientista Dr. Emmanuel Hildern (Cushing) retorna de uma viagem para a Papua-Nova Guiné, na Oceania, trazendo na bagagem o esqueleto de uma criatura ancestral e desconhecida, que possui um crânio imenso. Ao chegar à Inglaterra vitoriana, ele inicia os estudos de sua nova descoberta, na esperança de conseguir dinheiro para as dívidas e manter o conforto de sua única filha, a jovem Penelope (Lorna Heilbron). Seu irmão ambicioso, James (Lee), é o diretor de um asilo penal para pacientes mentalmente insanos, e também tem grande interesse nas pesquisas do cientista, fazendo questão de manter um clima de rivalidade entre eles. O paleontólogo alega a descoberta de um vírus que seria responsável pela “essência do mal” (daí o bem escolhido título nacional), que deveria ser tratada como uma doença que poderá aniquilar a humanidade. Porém, ele é desacreditado e a situação perde o controle quando o esqueleto se recobre novamente de carne após contato com a água, fugindo após um acidente e espalhando o horror.
Em “A Essência da Maldade” encontramos os elementos do horror gótico típico do cinema inglês, similar às produções da “Hammer” ou “Amicus”. Porém, aqui dessa vez a produção é da “Tigon Pictures” em parceria com a “World Film Services”. Peter Cushing interpreta novamente um cientista abnegado que trabalha incansavelmente à procura de descobertas científicas que possam ajudar a humanidade, e que se transforma em vítima pela ousadia em invadir os domínios da ciência desconhecida. E Christopher Lee é o vilão inescrupuloso despreocupado com o ser humano e interessado apenas em projeção pessoal, não se importando em cometer crimes para a obtenção de seus objetivos. O monstro, um esqueleto que volta a ter carne após contato com água, é tosco ao extremo e diverte justamente por essas características. Recomendável para fãs de Cushing & Lee e apreciadores em geral de bagaceiras antigas, especialmente o horror gótico inglês.
(Juvenatrix - 31/12/14)

quarta-feira, 4 de março de 2015

A Cripta dos Sonhos (The Vault of Horror, 1973)


Antologia com histórias curtas de horror, produzida pelo estúdio inglês “Amicus”, de Max Rosenberg e Milton Subotsky, rival da “Hammer”, com direção de Roy Ward Baker, de outras pérolas do cinema fantástico como “Uma Sepultura na Eternidade” (67), “Os Vampiros Amantes” e “O Conde Drácula” (ambos de 70). São cinco contos inspirados nos quadrinhos americanos dos anos 50, publicados pela “EC Comics” em revistas como “The Vault of Horror” e “Tales From the Crypt”, dos autores Al Feldstein e William M. Gaines.
Cinco homens entram num elevador que os leva até um porão, e sem entender o que está acontecendo, entram numa sala e sentam-se à mesa que surge diante deles. A partir daí, cada um deles conta um relato pessoal de história de horror que vivenciou em sonhos, e que parecia real, enfatizando sua origem em visões, fobias, medos ou obsessões.
A primeira história chama-se “Midnight Mess”, e apresenta um homem inescrupuloso, Harold Rodgers (Daniel Massey), à procura de sua irmã Donna (Anna Massey), após a morte de seu pai. Seu objetivo é resolver assuntos relacionados à herança. Porém, a cidade onde sua irmã mora tem um mistério noturno, onde “eles” aparecem para se alimentar.
O conto a seguir tem o título de “The Neat Job”, onde um homem bem sucedido, Arthur Critchit (Terry-Thomas), é obcecado por organização em sua casa. Ele então decide se casar com uma mulher mais jovem, Eleanor (Glynis Johns), que tem muita dificuldade em administrar a paranóia do marido com a organização domiciliar, culminando num desfecho trágico.
No terceiro segmento, “This Trick´ll Kill You”, um mágico veterano, Sebastian (o alemão Curt Jurgens), e sua esposa Inez (Dawn Addams), estão visitando a misteriosa Índia pesquisando novos truques de mágica. Eles encontram uma jovem (Jasmina Hilton) que consegue controlar uma corda através do toque de uma flauta. Não conseguindo descobrir o segredo, o mágico ambicioso decide roubar a moça, mas não imaginava a vingança que o aguardava.
Na história número 4, “Bargain in Death”, Maitland (Michael Craig), é um homem com um plano para fraudar o seguro de vida, ingerindo um medicamento que simularia sua morte. A ideia seria ser resgatado depois de enterrado e com o retorno da consciência. Porém, ele não contava com a intenção de dois estudantes de medicina, Tom (Robin Nedwell) e Jerry (Geoffrey Davies), que estavam à procura de um cadáver para estudos de dissecação.
No último episódio, intitulado “Drawn and Quartered”, o pintor Moore (Tom Baker) vive numa ilha tropical no Haiti, país conhecido pelas práticas de voodoo. Quando ele descobre que está sendo enganado e seus quadros lesados, perdendo dinheiro para um grupo formado por um crítico de arte, um avaliador e um negociador, o pintor decide se vingar de seus algozes utilizando magia negra em suas obras.
A Cripta dos Sonhos” mostra cinco histórias rápidas com cerca de quinze minutos cada, acrescidas de pequenos comentários entre elas, além do prólogo e epílogo que situam o espectador no contexto do objetivo do filme. Os contos fluem muito bem graças às narrativas curtas. Não há destaques, pois todas as histórias estão num nível similar, com conclusões pessimistas e perturbadoras. A produtora “Amicus” apostou bastante no formato de antologias, todas interessantes, e além desse “A Cripta dos Sonhos”, tivemos ainda outras preciosidades como “As Profecias do Dr. Terror” (65), “As Torturas do Dr. Diabolo” (67), “A Casa Que Pingava Sangue” (70), “Contos do Além” (72), “O Asilo do Terror / Asilo Sinistro” (72) e “Vozes do Além” (74).
(Juvenatrix - 01/01/15)