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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Guerra sem fim, Joe Haldeman

Guerra sem fim (Forever war), John Haldeman. 304 páginas. Tradução de Leonardo Castilhone. São Paulo: Landscape, 2009.

Guerra sem fim foi o título brasileiro que a editora Landscape escolheiu para o romance Forever War, do escritor americano John Haldeman, um drama de guerra espacial publicado originalmente em 1975, que faturou o Hugo e Nebula, os principais prêmios norte-americanos para o gênero.
A história conta a experiência de um soldado em uma guerra num planeta tão distante que, ao retornar depois de dois anos de serviço, não encontra mais o mundo de onde partiu, visto que, por causa dos efeitos da relatividade, o tempo na Terra passou dezenas de anos mais rápido. E missões mais distantes ainda o aguardam.
Mas esse argumento não é o único apelo relevante do livro de Haldeman. Na verdade, histórias com esse mesmo conceito já foram escritas aos montes, entre elas o excelente O dilema do astronauta (Starman's Quest, 1958), de Robert Silverberg, publicado pela editora portuguesa Panorama. O que importa na ficção de Haldeman são os conceitos políticos ali discutidos, sobre a presença dos homens em guerras nas quais eles nunca deveriam se envolver. Essas ideias advém do fato de Haldeman ser veterano da guerra do Vietnã, condecorado com uma medalha por ferimentos em combate.
Os paralelos entre Guerra sem fim e sua experiência como soldado não são mera coincidência. Haldeman é um escritor influente em seu país, com vários outros Hugos e Nebulas no currículo. Entre 1983 e 2014, foi professor sênior de escrita criativa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). No Brasil ele foi pouco - ou nada - publicado. Provavelmente seu único texto saiu no extinto fanzine Hipertexto publicado pela UFSCar, apenas porque seus editores tiveram a sorte de encontrá-lo pessoalmente num simpósio de ficção científica em Portugal e puderam negociar diretamente com o escritor.
A lamentar o fato de que o romance só ganhou publicação no Brasil depois que o diretor de cinema Ridley Scott (de Blade Runner e Alien) adquiriu seus direitos para uma versão filmada, nunca realizada. Como tem sido patente nos últimos vinte anos, a publicação de uma ficção científica original parece ter que vir a reboque de um subproduto audiovisual. É lamentável que as editoras brasileiras ditas profissionais ainda se comportem dessa forma. Pelo menos a Landscape teve a iniciativa de traduzir e publicar o livro sem esperar pelo filme, o que já é mais do que se poderia desejar. Outras editoras talvez não o fizessem. 
A edição da Landscape é bacana mas três coisas eu pessoalmente desgostei: primeiro, o título. A obra já era conhecida há anos no fandom como "Guerra eterna", e essa teria sido a sua melhor tradução. Existe até uma adapatação em quadrinhos traduzida em Portugal com esse título. E também houve, em 1993, uma novela produzida pela extinta TV Manchete com o título de Guerra sem fim e muita gente bem poderia pensar que o livro é sua novelização. Segunda coisa: a imagem da capa não traduz nem de longe o clima do romance, parece mais um romance de bolso dos anos 1950. Terceiro, o preço. A editora brasileira sugeriu o preço de capa em R$54,90, um valor quase impraticável para a época de sua publicação no Brasil, em 2009, quando os preços dos livros estavam num patamar muito abaixo disso. Só fãs muito ardorosos compraram esta edição, que é hoje muito rara, e um livro dessa qualidade merecia ser lido mais amplamente. E foi mesmo uma pena pois, um pouco por causa disso - e mais pelo fato do filme nunca ter vindo -, que nunca tivemos a publicação dos romances subsequentes, Forever Free e Forever Peace, ambos também muito bons.
Hoje, o romance está disponível em edição de 2019 da Editora Aleph. A capa e o título continuam ruins, mas o preço está bem mais acessível.
Cesar Silva

sábado, 14 de janeiro de 2023

Sob a Redoma

Sob a Redoma (Under the Dome), Stephen King. Tradução: Maria Beatriz de Medina. Capa: Fernanda Mello sobre design original de Rex Bonomelli. 954 páginas. Rio de Janeiro: Objetiva/Suma de Letras, 2012. Lançamento original em 2009.

 



Entre as várias características de Stephen King está o tamanho dos seus livros. A maioria é enorme e, ao que parece, conforme os anos avançaram e sua reputação – de vendas e prestígio – se consolidou, ele se sentiu livre para escrever histórias cada vez mais longas. Tal é o caso de Sob a Redoma. É o maior livro que li dele – e talvez mesmo o seu maior –, além de, provavelmente, o de mais páginas que li. Mas para quem gosta do autor, estes volumes grandes e pesados não intimidam. O contrário até. Pois podemos nos envolver profundamente no mundo criado por ele.

Sob a Redoma, especialmente, é extremamente vigoroso. Impressiona como ele consegue conduzir um enredo tão ambicioso, com tantos personagens e situações, sem pontas soltas ou perda de interesse. Não há barriga, expressão do jornalismo para uma parte do texto desnecessária ou que o interesse pela leitura tem uma queda. Não! A história flui de forma crescente, com muito drama, suspense e reviravoltas. Tudo isso torna cada vez mais difícil largar a leitura. Um clássico page turner.

Mas prazer talvez não seja a melhor palavra para exprimir o que se sente ao se envolver com esta história. Pois ela leva longe outras características marcantes de King: o sofrimento dos personagens, e a compaixão e dor que sentimos. Isso porque, como sabido, os personagens criados por ele são extremamente bem construídos. Mais humanos do que muitas pessoas reais que conhecemos, já se disse. E, com isso, nos tornamos cúmplices e participantes dos dramas pelos quais eles passam. Outra característica importante é a premissa do qual parte a história. De uma realidade cotidiana aparentemente banal e, no caso, bem provinciana, o fantástico se insere e a tudo desestrutura. Toda a realidade anterior tem de lidar com a nova situação. Neste caso tão surpreendente quanto chocante.

 Num dia qualquer de meados de outubro na cidadezinha de Chester´s Milll, no estado do Maine – como quase sempre ocorre no universo de King –, de forma súbita e arrebatadora uma cúpula invisível a envolve. Um helicóptero se choca, depois um caminhão e alguns carros. Pessoas tem suas mãos decepadas e alguns animais são cortados ao meio. Ninguém entende o que é o fenômeno, do que é feito e como e por que surgiu. Apenas que, para todos os efeitos, a cidade sob a redoma, está isolada do resto do mundo.

A partir daí, King desenvolve um amplo painel do que pode ocorrer à comunidade quando confrontada com uma situação limite. Tudo o que mantém as pessoas controladas é desafiado: as leis, simples regras de convivência, o papel do Estado, valores éticos e morais. E, neste caso, a começar pelos próprios agentes responsáveis por manter “a lei e a ordem”. Isso porque, um dos políticos que administra a cidade, aproveita a crise, para dar vazão a suas tendências autoritárias e, mais que isso, homicidas.

A pequena Chester´s Mill tem apenas 3 mil habitantes, pouco mais que uma vila. E nos EUA cidades tão pequenas não são governadas por um prefeito. A responsabilidade cabe a três vereadores. Eles administram e as leis são votadas numa assembleia com os próprios habitantes. Soa democrático, mas, no caso, ocorre uma concentração de poder nas mãos de um dos vereadores, Big Jim Rennie. Ele assume a liderança, mas deturpa completamente a situação, se tornando cada vez mais poderoso, nem que com isso, fomente o pânico e a desordem para conseguir mais poder. Isso porque, desta forma, ele pode esconder os crimes do qual é responsável. Na verdade, ele é um poderoso traficante de drogas, produzidas num laboratório oculto numa estação de rádio religiosa. E com a participação do próprio pastor da cidade. Com a redoma, ele tem de proteger o segredo desta ilicitude. E não hesita em perseguir e eliminar possíveis opositores. Como se percebe, mais terrível que a própria redoma, é o homem o grande problema da Chester´s Mill aprisionada.

Dale Barbara, um tenente reformado do Exército e veterano condecorado da Guerra do Iraque, trabalha fazendo sanduíches populares numa lanchonete. Contudo, após se envolver numa briga com o namorado – e seus comparsas – de uma garçonete que havia flertado com ele, tenta ir embora da cidade, mas acaba preso dentro da redoma. Assim, seus inimigos o infernizam, e um deles é Junior, filho de Big Jim. Só por aí, a vida de Barbie – como é pejorativamente chamado – não seria fácil, e ele se tornará o principal obstáculo do poderoso vereador. Principalmente, quando o Exército resolve reincorpora-lo ao serviço, e com a patente de coronel. A cidadezinha é colocada em estado de sítio pelo presidente Obama, autorizando que Barbara se torne o novo comandante, pelo menos até resolver a crise.

O decreto federal não é obedecido por Rennie, ainda mais depois que dois mísseis cruise se chocam com a redoma e não a rompem. Ele percebe que talvez esta situação demore ou seja definitiva, se nem a força militar mais poderosa do mundo tenha poder para resolvê-la. Assim, sente-se livre para executar seu plano de se tornar o dono absoluto da cidade. Aparelhando a polícia com dezenas de jovens inexperientes, baixando decretos polêmicos, como o fechamento do mercado da cidade, fomentando o pânico e a confusão – roubando, por exemplo, os geradores do hospital –, e, claro, perseguindo impiedosamente quem tenha coragem de questioná-lo. O primeiro da lista é Barbara, mas também a jornalista Julia Shumway e o médico assistente Rusty Everett, além de outros que, aos poucos, percebem o terror a que estão sujeitos sob tal tipo de liderança. Mas o alvo principal é Barbara. E ele é acusado por quatro assassinatos que, obviamente, não cometeu. Mas sim Rennie – para calar quem sabia dos seus podres –, e seu filho – duas garotas, uma delas a garçonete. Com o requinte de praticar necrofilia com elas. O objetivo é tornar Barbara o culpado não só pelas mortes, mas também pela própria redoma, através de uma teoria da conspiração de que ele teria participado de uma experiência mal sucedida do governo americano.

King elabora uma profunda reflexão sobre quem são realmente as pessoas em situações críticas, em que a luta pela sobrevivência aflora de maneira dramática. Do quanto as pessoas são realmente boas ou más; altruístas ou egoístas; solidárias ou individualistas; empáticas ou psicopatas. E é particularmente interessante, como são mostrados os pensamentos dos personagens. Mesmo os de índole decente, apresentam sentimentos ruins. Isso porque, estas dicotomias, estão no fundo presentes em cada um de nós, pois ninguém é totalmente uma coisa ou outra o tempo todo. E isso me recordou do romance O Senhor das Moscas (Lord of Flies; 1954), de William Golding (1911-1993), no qual um grupo de crianças tem de sobreviver numa ilha desabitada após serem os únicos sobreviventes de um acidente aéreo. O resultado é chocante, quando algumas delas se tornam cruéis na tentativa de liderar as demais. Assim, King está a refletir sobre o quanto os valores, instituições e leis que mantém a civilização são tênues, embora, de fato, só ilustre o quanto são importantes. É como disse um dos formuladores da Constituição norte-americana Alexander Hamilton (1755-1804): “Se os homens fossem anjos, não precisariam de leis”.

King é hábil e maduro no desenvolvimento destas questões, e talvez o fato de ter retomado a história quase 30 anos depois ajude a entender. Isso porque o romance é um projeto antigo, elaborado pela primeira vez em 1976, e depois, numa segunda vez no início dos anos 1980, com o título inicial de The Cannibals. Ele conta que escreveu apenas 75 páginas e desistiu com receio de encarar uma obra muito ambiciosa e complexa. Pois a obra foi finalmente retomada em 2007, e o resultado final mostra que ele tomou a decisão correta.

Mas a premissa fantástica da história requer uma resposta. Afinal, o que é a redoma? Um campo de força que circula todo o território da cidade, com alguns quilômetros de altura e de profundidade, que se mostra inexpugnável até a mísseis balísticos. Tem de ser gerado por alguma fonte de energia, e assim, Barbara lidera a busca em encontrar, eventualmente, algum tipo de gerador ou coisa parecida. Que acaba sendo encontrado numa fazenda desabitada. No caso, uma caixa preta do tamanho de um notebook com o peso de algumas toneladas, e que emite uma luz piscante e que gera radiação ao seu redor. Barbara e alguns outros, ao olharem dentro da caixa avistam estranhos seres, cabeças de couro de aspecto infantil. Não há certeza de quem são, mas deduzem, com propriedade, que são extraterrestres.

Como lembra Julia Shumway, a partir de uma experiência traumática na infância, é como se os habitantes de Chester´s Mill fossem formigas aprisionadas. Tal como algumas crianças levadas fazem. A metáfora é duplamente satisfatória. Primeiro, porque seriam crianças as mais propensas a executar uma experiência cruel como esta, como se fosse uma brincadeira, por que não teriam, ainda, amadurecido em suas personalidades e valores do que é certo ou errado. Com conceitos morais ainda a serem desenvolvidos. E em segundo lugar, porque mostraria o quanto nós, seres humanos, somos insignificantes em relação ao universo como um todo. Em nossa mesquinharia e arrogância muitas vezes perdemos a noção do quão frágeis somos diante de forças e situações que podem se tornar totalmente sem controle de nossa parte.

Este romance massivo – que conta com uma bem-vinda lista de personagens e o próprio mapa da cidade –, foi de certa forma ignorado pelos fãs mais tradicionais de FC, talvez pela vinculação principal de King com o gênero horror. Mas não se engane: é um romance de FC. Mas isso é um pormenor. Como disse antes, o que importa e assombra é a força narrativa do autor e personagens tão críveis que sentimos por eles o que sentiríamos por pessoas próximas. Um livro poderoso e que rendeu uma minissérie com 39 episódios, entre 2013 e 2015.  Com dois títulos no Brasil, O Domo e Under the Dome: Prisão Invisível, foi bem realizada, mas aquém do potencial explorado no romance. Pois esta é uma daquelas histórias das mais intensas e para serem lembradas com muita emoção.

Marcello Simão Branco

 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Ubik

Ubik (Ubik), Philip K. Dick. Tradução de Ludimila Hashimoto. Capa de Thiago Ventura e Luiza Franco. 238 páginas. São Paulo: Editora Aleph. Lançado originalmente em 2009, e com nova edição em 2019.

O que é ubik? Pergunta no fim do livro o desesperado personagem Joe Chip. Pode ser um eletrodoméstico, um pó de café, um remédio para dor de estômago, um desodorante... conforme é ilustrado nas epígrafes de cada capítulo. Mas ubik é tudo isso e muito mais.
O romance Ubik foi lançado originalmente nos Estados Unidos em 1969, e Philip K. Dick estava no auge de sua criação artística, tendo já escrito outros títulos clássicos como O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle, 1962), Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (The Three Stigmata of Palmer Eldritch, 1965) e O Caçador de Andróides (Do Androids Dream of Electric Sheep?, 1968). Neles o autor expandiu os horizontes da ficção científica com um vigor há muito não visto no gênero, refletindo sobre a condição humana e sua frágil compreensão do que é real ou ilusório, seja por meio da história alternativa, dos efeitos alucinógenos de drogas ou da convivência com androides. Nesse sentido, Ubik é uma espécie de ápice criativo, no qual o autor sintetizou o conjunto principal de suas temáticas e reflexões.
Estamos em 1992 e o homem coloniza a Lua e Marte no Sistema Solar. Na Terra, os utensílios domésticos interagem e cobram por seus serviços. Ainda mais estranho é a presença dos precogs, pessoas com poderes telepáticos e precognitivos que trabalham para empresas para fins particulares, como a descoberta de segredos e a espionagem. A empresa Glen Runciter e Associados é uma do tipo chamada de prudência, pois seus agentes — chamados de inerciais — atuam anulando os poderes dos paranormais com poderes ativos. Os grupos prestam serviços e concorrem entre si, cada um efetuando um tipo de trabalho que interfere no trabalho do outro. Por isso, a rivalidade entre eles é muito grande.
Além disso, depois que as pessoas morrem podem ainda ser salvas da perda final, se colocadas numa espécie de bolsa térmica até poucas horas depois do falecimento. São inseridas numa espécie de câmara de sobrevivência, em temperaturas baixíssimas e ficam numa condição entre a vida e a morte, chamada de meia-vida. O mais incrível é que elas podem se comunicar com os vivos, por meio de dispositivos eletrônicos. E se não forem acionadas para estas conversas com frequência podem, eventualmente, ser encarnadas, de volta à vida. Pense por um instante o quanto isto seria revolucionário!
A esposa de Runciter está nessa condição num moratório em Zurique. Depois de voltar de lá, em Nova York, ele recebe o grupo de inerciais para uma reunião. Chip os apresenta a Pat Conley, uma garota que tem o poder de reverter um evento para momentos antes de ele ocorrer. Além disso, recebem um misterioso trabalho para ser executado por todos os membros na Lua. Mas logo depois de lá chegarem descobrem que caíram numa armadilha e são alvos de um atentado. A partir deste evento os fenômenos da realidade e do tempo começam, pouco a pouco e cada vez de forma mais vigorosa, a se embaralhar.
Runciter foi atingido mortalmente e não houve tempo de colocá-lo em meia-vida. Os demais membros são agora liderados por Joe Chip, mas eventos estranhos começam a acontecer com cada um deles. Pouco a pouco eles vão definhando, perdendo suas forças até a morte. Chip tenta entender o que se passa e recebe estranhas mensagens de Runciter, nos lugares mais inusitados como num espelho de banheiro, no telefone e em rótulos de produtos de consumo. Mas são apenas pistas que, aparentemente, mais o perturba do que ajuda a esclarecer a situação. Os objetos começam a apodrecer e logo se percebe que pertencem ao passado imiscuídos no presente. Um processo de regressão começa a ocorrer com o passado se misturando ao presente, como que tomando o seu lugar sem que seja uma espécie convencional de volta no tempo.
O ponto final de regressão, agora completo, é 1939. Chip e os inerciais ainda vivos estão reunidos para o funeral de Runciter. Mas descobrem que, na verdade, não é Runciter que morreu. Toda esta realidade regressiva acontece na realidade daqueles que estão em meia-vida, através de Jory, uma das pessoas do moratório de Zurique que, como se fosse um vampiro, precisa sugar as meias-vidas das pessoas que lá estão para manter a sua própria.
Chip desconfiava de Pat Conley e ela mesma, ingênua, acreditava que ela era a responsável já que na verdade era uma espiã infiltrada no grupo de Runciter. Mas todos pouco a pouco vão perdendo suas meias-vidas. Até que entra em cena, por meio da comunicação de Runciter, o ubik, uma lata de spray que interrompe o processo de regressão e preserva as pessoas no estado de meia-vida. Seria uma criação das pessoas em meia-vida, numa tentativa de enfrentar a volúpia de Jory.
Assim como Chip e os demais personagens em boa parte da história somos conduzidos a uma completa desorientação. Que mesmo que revelada depois, só nos coloca em outras situações desorientadoras e difíceis de aceitar. Por exemplo: depois do acidente Chip e seus colegas descobrem que as moedas que usam têm a efígie de Runciter. E o que pensar quando, posteriormente, Runciter vê as suas moedas com a efígie de Chip?
Ubik vem de ubiquidade, daquilo ou daquele que está em toda parte, e por isso cumpre esta função de manter uma realidade pós-vida, evitando uma morte definitiva. É mais que isso, porém. Torce o conceito de realidade em que nos amparamos e apresenta uma nova perspectiva onde as fronteiras da vida e da morte se perdem. No fundo a discussão subjacente é da complexidade da mente humana. De como o nosso entendimento racional daquilo que compreendemos como realidade, é também uma construção mental, sobretudo, talvez, do racionalismo cartesiano do Ocidente. Isso porque Ubik não é a primeira e nem a última história do autor a tratar de tais temas, sendo notória a sua tentativa de compreensão mais expandida da realidade por meio de uma concepção, diria, mais voltada ao budismo e suas outras ramificações orientais.
No contexto deste, digamos, diálogo sutil e implícito entre concepções ocidentais e orientais do significado do real e da existência, a última epígrafe é a mais eloquente e enigmática:

Eu sou Ubik. Antes que o universo fosse, eu sou. Eu fiz os sóis. Eu fiz os mundos. Eu criei as vidas e os lugares que elas habitam. Eu as transfiro para cá, eu as ponho ali. Elas seguem minhas ordens, fazem o que mando. Eu sou o verbo e meu nome nunca é dito, o nome que ninguém conhece. Eu sou chamado de Ubik, mas este não é o meu nome. Eu sou. Eu Sempre serei.” (pág. 237).

Ubik também é agradável porque Dick tem uma prosa limpa, fluente, sem firulas. De forma paradoxal tem um texto elegante para tratar de assuntos tão complexos. Se pensarmos no tour de force temático de O Caçador de Androides, um romance inteiro que se passa num único dia, veremos que esta obra tem o mesmo tom limpo e econômico. Possivelmente fruto deste momento de sua carreira, já que nem sempre o autor apresentou tal clareza em expor suas ideias.
A obra já era conhecida do leitor brasileiro mais aficcionado, através da publicação em Portugal, na coleção de ficção científica da Europa-América, em seu número seis, em 1980. Mas a sua nova publicação em 2019 no Brasil pela editora Aleph é dos mais relevantes porque Ubik é um romance fundamental, tanto para o universo da ficção científica como fora dele.
— Marcello Simão Branco



quarta-feira, 20 de abril de 2016

Trilogia da Fundação

Fundação (238 páginas), Fundação e Império (244 páginas) e Segunda Fundação (235 páginas), de Isaac Asimov. Tradução de Fábio Fernandes e Marcelo Barbão, capa e ilustrações de Delfin. Editora Aleph, São Paulo, 2009.

Como parte de sua proposta de relançar clássicos da ficção científica, a editora Aleph começou bem com Isaac Asimov em 2009, ao tornar disponível novamente nas livrarias os três volumes da Trilogia da Fundação. É a obra mais volumosa de Isaac Asimov (1920-1992) e uma das mais populares da história da ficção científica.
Isaac Asimov (1920-1992) é um dos principais autores da chamada Golden Age da ficção científica norte-americana, vivida basicamente nas páginas das pulp magazines, de meados dos anos 30 até o final dos anos 40. Uma plêiade de autores hoje considerados clássicos no modelo ainda hoje mais conhecido do gênero – com aventuras espaciais e abordagem hard (das ciências naturais) –, surgiu neste período como, por exemplo, Robert A. Heinlein (1907-1988) e A.E. van Vogt (1912-2000).



O romance em três volumes chamado Trilogia da Fundação é, na verdade, composto de cinco noveletas e quatro novelas publicadas entre 1942 e 1949 na mais influente revista da época, a Astounding Science Fiction, editada por John W. Campbell, Jr., o maior responsável por esta nova geração de autores. Apenas nos anos 50 é que as histórias foram reunidas em três volumes: Foundation (1951), Foundation and Empire (1952) e Second Foundation (1953). A publicação em formato de livro valorizou a obra e a popularizou ainda mais, para além do círculo dos fiéis apaixonados pelo gênero.
A popularidade da obra é indiscutível, como atesta estes dois exemplos. Em primeiro lugar, recebeu o Prêmio Hugo Especial de 1966, como “a melhor série de todos os tempos”, uma distinção única, criada à parte no mais importante prêmio do gênero. Em segundo aqui no Brasil, no restrito ambiente do fandom, foi escolhido por duas vezes, o “melhor romance de ficção científica de todos os tempos”, em votações dos leitores do fanzine Megalon, em 1991 e 1998. Mais recentemente, em 2013,  a revista norte-americana Locus – The Magazine of the Science Fiction and Fantasy realizou uma ampla pesquisa com seus leitores, que a considerou como o terceiro melhor romance de ficção científica do século XX.
A história é uma grande saga de dimensões épicas que procura mostrar a expansão humana por toda a Via Láctea. Neste universo não existem alienígenas e nos espalhamos por toda a galáxia construindo um gigantesco império formado por milhares de planetas, todos controlados pelo centro político, a capital Trantor. Se você pensou no Império Romano está correto pois a inspiração é assumida pelo próprio autor. Mas ele foi além ao apresentar como este poderoso império – a exemplo do romano – semeia em seu próprio esplendor as contradições internas que o levam à decadência e violenta dissolução, num retorno à “barbárie”.
Hari Seldon, um brilhante cientista, cria a ciência da psico-história como um antídoto para reduzir os efeitos catastróficos da queda do império, prevista por ele para acontecer em alguns séculos. É acusado de conspirador, mas seu plano é aceito e posto em prática. São estabelecidas duas colônias de cientistas nos extremos do império – as fundações – de motivações distintas, para preservar a sabedoria e a cultura, e continuar desenvolvendo a ciência e a tecnologia mesmo em tempos de barbárie. Para Seldon não será possível impedir a queda, pois o processo já estaria adiantado, mas permitir o ressurgimento em apenas mil anos de um novo e revigorado império galáctico.
A psico-história é uma ciência que lida com os fenômenos sociais de um ponto de vista coletivo, adotando, princípios filosóficos de indução e as ferramentas da estatística. Pode soar pouco crível, mas bebe na fonte das teorias dos jogos, que começaram a ganhar ímpeto nos anos 1940 e tem servido como um suporte metodológico importante para as ciências sociais desde então, em especial para a economia.


As diversas aventuras situadas nos três volumes mostram as turbulências entre o fim do império e o surgimento de vários pequenos estados despóticos, assim como o desenvolvimento das duas fundações, que tem por objetivo restaurar a glória perdida.  Contudo, aparece uma situação não planejada pelas equações da psico-história, um poderoso mutante com poderes mentais chamado O Mulo, que ambiciona assumir o controle da galáxia.
 Se é verdade que estamos diante de uma clássica história ao estilo space opera – colonização espacial, futuro de consenso, grandes períodos de tempo, ritmo de aventura e personagens pouco densos, em sua maioria – percebe-se o quão complexa é a trama e as várias nuances que surgem ao longo dos três romances. Chama a atenção que a ênfase do enredo esteja no processo histórico e nas mudanças na sociedade, ou seja, discute-se as relações humanas numa aventura de space opera, que é mais afeita também à exploração de grandes engenhos tecnológicos. Em Fundação eles apenas fazem parte do pano de fundo, aceitos como integrantes da civilização. Deste modo, Asimov descola a ênfase das ciências naturais para as sociais, utilizando, contudo, o uso de uma nova ciência que alia História e Matemática.
Há quem veja também em Fundação os efeitos do contexto político em que a história foi criada, pois estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. Talvez Asimov especulasse sobre o destino do modo de vida dominante à época, primeiramente desafiado pelo colapso da balança de poder entre as potências europeias (na Primeira Guerra Mundial) e anos depois por um regime totalitário que a todos queria subjulgar. Assim, talvez as duas fundações pudessem representar as democracias e seus valores civilizatórios em perigo.
Já para a figura de Seldon e seus colaboradores seria possível estabelecer um paralelo com a idéia de Platão, de sábios a conduzir o destino da sociedade, em que a ciência teria as melhores soluções para os conflitos inerentes da natureza humana. Aqui poderíamos compreender as implicações da história de um ponto de vista mais autoritário.
Seja qual interpretação for mais relevante – ou outras, a depender da interpretação de cada um –, o fato é que a Trilogia da Fundação é uma obra significativa, pois vai além do tradicional das histórias de exploração do espaço que, procuravam mostrar muito da visão anglo-americana de como se constituir a melhor forma de sociedade. Em Fundação tais alicerces são construídos para depois serem questionados, a partir de desafios políticos e surpresas do destino.
Durante os anos 1980 esta obra foi publicada pela editora Hemus, de São Paulo, em um único volume. A edição era modesta, mas simpática e, melhor, econômica. O relançamento ocorre em três volumes separados, o que encarece a compra. Ainda mais porque a edição é bem produzida, com uma tradução melhor do que a anterior, ainda que as ilustrações de capa destoem do espírito da obra. Quem tem a edição da Hemus deve preservá-la já que ela é única também com relação ao conteúdo, pois é a tradução da obra original escrita nos anos 1940. Já a da Aleph contempla uma revisão realizada por Asimov em meados dos anos 1980 para padronizá-la em relação ao conjunto de suas obras de ficção científica, já que ele passou a escrever outras aventuras dentro deste universo. Seja por qual edição for, o excitamento pelo entretenimento inteligente ou por debates políticos-filosóficos subjacentes, garante uma leitura rica e ilustrativa da própria evolução do gênero no século XX.

– Marcello Simão Branco

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife

Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife. 648 páginas, capa de Vargner Vargas. Devir Livraria, São Paulo, 2009.

Padrões de contato faz parte do restrito conjunto de títulos seminais que são lembrados em primeiro lugar quando se fala em ficção científica brasileira. Da mesma forma o seu autor, o jornalista carioca Jorge Luiz Calife, que ganhou notoriedade quando o escritor britânico Arthur C. Clarke o citou em agradecimento no seu romance 2010: Uma odisseia no espaço II (1982). Calife era seu fã e correspondente, e sugerira num esboço os contornos gerais de uma continuação a 2001: Uma odisseia no espaço (1968), abrindo as comportas para uma série que Clarke julgava impossível. Seja como for, 2010 foi um grande sucesso editorial e cinematográfico, lançando o nome de Calife na grande imprensa. A então muito popular revista Manchete apressou-se em publicar o esboço que Calife enviara ao famoso escritor, nomeado de "2002". Logo, as editoras se interessaram pelo que aquele desconhecido jornalista tinha a dizer e, em 1985, Padrões de contato ganhou as livrarias pela editora Nova Fronteira.
No ano seguinte, pela mesma editora, veio a sequência, Horizonte de eventos. Articulados a um conjunto de circunstâncias, os dois romances inauguraram o que ficou conhecido como Segunda Onda de ficção científica brasileira, caracterizada pela formação de um grupo de fãs organizado, pela publicação de muitos fanzines, pelo desenvolvimento de uma consciência de corpo e pela busca de identidade para ficção científica nacional, que não existia até então.
Contudo, a maior importância de Padrões de contato/Horizonte de eventos é que se tratou da primeira ficção científica hard nacional, na qual os conceitos de astronomia e astronáutica foram tratados de forma precisa e rigorosa. A ficção científica brasileira tinha enfim o seu representante hard fiction e isso inspirou muita gente a seguir-lhe os passos.
Mas naqueles tempos de final de século, não era fácil publicar um livro e a maior parte da produção da Segunda Onda estava apoiada nos fanzines, com os quais Calife, mesmo depois de seus romances publicados, não se furtou em colaborar. Vários contos no mesmo universo do romance foram neles impressos. Em 1991, Calife ainda veria publicado um terceiro volume da série: Linha terminal, pela legendária editora GRD, com uma tiragem tão minúscula que, na prática, circulou apenas dentro dos muros do fandom.
Em 2009, próximo do momento em que Padrões de contato completaria 25 anos de publicação, a Devir Livraria reuniu os três romances em um único volume e recuperou para o público esta que é conhecida como a primeira trilogia da ficção científica brasileira, ainda que eu, particularmente, discorde do título. Afinal de contas, Calife não construiu uma trilogia, ele apenas publicou três livros, que podem ser mais se as editoras assim quiserem. Padrões de contato é, de fato, uma série aberta, um universo recorrente do autor que comporta, além desses três livros, uma boa quantidade de contos e noveletas publicadas ao longo dos anos em fanzines e antologias, incluindo ainda um quarto romance: Angela entre dois mundos, publicado em 2010 pela mesma editora.
A Devir fez um bom trabalho na compilação, que foi totalmente revisada e premiada com a belíssima capa de Vagner Vargas, que também executou ilustrações para a abertura interna de cada livro. O volume conta ainda com um prefácio do jornalista Marcello Simão Branco.
O primeiro livro, "Padrões de contato", está divido em quatro partes distintas. A primeira delas, intitulada "Estrela cadente (2426 AD)", narra o primeiro contato de um ser humano com a inteligência alienígena Tríade, na pessoa de Angela Duncan que, por isso, é agraciada com a juventude eterna. Desde então, Angela torna-se uma personalidade mundial numa Terra futura na qual a ciência respondeu a todas as dúvidas e acabou com todos os problemas da sociedade. Enquanto inteligências artificiais governam a civilização e grandes corporações lutam pelo domínio do espaço, a humanidade é sacudida pelas revelações apocalípticas de uma sonda alienígena vinda do espaço profundo.
Na segunda parte, "Luzes do abismo (2560 AD)", as inteligências artificiais foram literalmente para o espaço e uma geração pós-humana reforçada com todo tipo de upgrades biotecnológicos, pretende seguir o mesmo caminho. A imortal Angela vive numa estação instalada na atmosfera de Júpiter, onde os cientistas tentam contatar uma sociedade alienígena que ali reside.
Em "Fuga da eternidade (2701 AD)", a Tríade volta a Terra e absorve uma parte da humanidade que se preparara para isso voluntariamente. Sem mais nada de útil para fazer, um grupo de homens e mulheres requisitam uma espaçonave para também meter-se para sempre no espaço sideral.
"A filha dos deuses (3002 AD)" completa o livro. A bordo de uma espaçonave repleta de alienígenas em missão de pesquisa num buraco negro, Angela finalmente volta a se encontrar com a Tríade, que lhe revela o motivo de ter lhe dado vida, juventude e beleza eternas.
O segundo livro, "Horizonte de eventos", divide-se em três partes. A primeira, a melhor de toda a trilogia, é "Choque cultural", em que Angela Duncan e a também imortal jornalista Luciana Vilares viajam à bordo do mundo artificial Éden 6, a caminho do núcleo da galáxia. A certa altura encontram a Brasil, uma antiga espaçonave terrestre perdida. Lançada no século XXII, a Brasil usava uma tecnologia primitiva, viajando no espaço tridimensional em velocidades próximas à da luz, de modo que a tripulação só envelhecera duas décadas em oitocentos anos de viagem. A tripulação era formada por colonizadores brasileiros em busca de um planeta selvagem, mas um acidente no percurso os tirara da rota, levando ao poder uma guarnição de militares diretamente inspirados na nossa ditadura, que ali governavam com mão de ferro.
"Os dois lados do amanhã" é um típico período de interregno. Superados os problemas com a Brasil, Éden 6 segue sua jornada ao centro da galáxia, onde pretende encontrar-se com a Tríade. Dafne, neta de Angela e igualmente imortal, pesquisa alienígenas globulares e Luciana, na companhia de Fernando – um dos sobreviventes da Brasil – viajam à Terra para pesquisar as fichas dos náufragos, que deviam subexistir nos antigos registros preservados em velhíssimos bancos de memória.
"Horizonte de eventos" conclui este segundo livro. Lena, filha de Dafne, não herdou da mãe a dádiva da juventude eterna. Como todo o resto da humanidade, ela também vive no espaço sideral em constante trabalho de pesquisa científica. A expedição em que Lena participa a leva a expôr-se a uma desconhecida raça alienígena, os nictianos, que se revelam de natureza parasitária e invadem os corpos dela e de toda a equipe. Com a mente controlada pelos nictianos, Lena e seus companheiros atacam Éden 6, num mortal jogo de gato e rato em meio às estrelas do núcleo da galáxia.
"Linha terminal" fecha a trilogia retomando personagens e situações que haviam aparecido no primeiro livro e não tinham sido lembrados no segundo. Os pesquisadores descobrem uma antiga espaçonave terrestre orbitando um estranho planeta. Ali encontram evidencias da presença antiga dos djestares, civilização galáctica desaparecida que criou a Tríade. Enquanto isso, Angela Duncan, com recursos da Grande Comunidade Galáctica, passou as últimas décadas dedicada a construir uma enorme máquina do tempo, através da qual volta a época em que os djestares ainda existiam para descobrir uma forma de recuperar a saúde da Tríade, que está morrendo. Por acaso, a época em questão é justamente os anos 1980 e o local em que ela pretende encontrá-los é justamente o litoral do Rio de Janeiro.
A narrativa de Calife é equilibrada, com bons diálogos e ritmo agradável, sem vales profundos ou montanhas íngremes: o leitor passeia tranquilo e sem sobressaltos. Mas a reunião dos três romances tornou a leitura um fardo difícil de carregar. Primeiro, por causa do peso de suas quase 700 páginas que, se não estiver bem apoiado, em poucos minutos faz doer os braços mais musculosos. Depois, porque os romances foram escritos para serem lidos separadamente. Justapostos, tornam-se cansativos e redundantes. A falta de uma linha narrativa principal confunde o leitor que, quando chega ao meio do livro, já não se lembra mais do que aconteceu no início.
Irrita também a insistência do autor em convencer seus leitores da não existência de Deus, como obviamente ele mesmo acredita, pois o romance em si já seria suficientemente eloquente. Volta e meia, os alter-egos femininos do autor lascam um discurso antignóstico que beira o panfletário. A revisão bem poderia ter removido essas partes que, além de não fazerem falta nenhuma no enredo, empanam o brilho do que poderia ter sido uma perfeita peça de proselitismo ateu. Não que eu concorde necessariamente com a crença do autor mas, pelo menos o livro, como peça literária, teria subido alguns pontos na minha avaliação.
A falta de conflitos importantes e a fragilidade das personagens principais, todas muito parecidas, também enfadam o leitor que, na maior parte do tempo, depende unicamente das elaboradas descrições de imagens cósmicas para sustentar o interesse.
Quando Calife encontra um bom conflito para explorar, como é o caso do acidente de Angela nas nuvens de Júpiter (em Padrões de contato) e o conflito entre o mundo artificial Éden 6 e a totalitária Brasil (em Horizonte de eventos), o texto ganha fôlego e a leitura progride com vigor. Mas os problemas são rapidamente superados e o curso narrativo logo volta ao ritmo de cruzeiro, pacífico e preguiçoso.
Mas que não fiquem dúvidas: Jorge Luiz Calife e Padrões de contato merecem todas as homenagens que lhe cabem. Trata-se de uma obra pioneira em vários aspectos, com belíssimas e inspiradoras descrições de maravilhas do espaço profundo, coisa em que Calife é sem dúvida, imbatível.
— Cesar Silva

terça-feira, 16 de junho de 2015

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário, Gianpaolo Celli, org. 182 páginas. Capa de Marcelo Tonidandel e Verena Peres. Tarja Editorial, São Paulo, 2009.

Os fãs gostam de estar na crista da onda, antenados com as ondas estrangeiras, especialmente dos EUA e Reino Unido. Assim também são autores-fãs, que acreditam que explorar novos ambientes e novos instrumentos narrativos é o atalho para a criação de algo novo, tendo esse novo valor suficiente por si mesmo. Antes mesmo da habilidade técnica, o autor-fã acredita na originalidade, e sobre ela costuma ser muito ciumento. Dessa forma, as ondas do cyberpunk, o new weird e, agora, o steampunk, chegaram aos fanzines muito mais rapidamente que a qualidade narrativa dos autores, reverenciadas como aspectos de uma originalidade mais que desejada. Essa falta de maturidade técnica acaba impedindo que a maior parte dos autores compreenda profundadamente o que esses movimentos significam em toda a sua amplitude, e acabam por adotar apenas seus aspectos mais óbvios, não raro criando um modelo que, ao fim e ao cabo, é mais cerceador que libertador.
Dessa forma, o cyberpunk foi emulado pelos fãs brasileiros apenas pela presença intensiva da virtualidade e uma linguagem forrada de jargões tecnológicos; o new weird transformou-se tão somente na mistura de gêneros estilo "tudo ao mesmo tempo agora". O steampunk, enfim, foi estigmatizado pelos cenários vitorianos com tecnologias imaginárias ou extrapoladas. E assim sendo, o steampunk sequer é novidade. Afinal, essas características já estavam presentes nos primórdios da ficção científica. Os cenários são os mesmos que vemos nos primeiros textos de ficção científica de Edgar Allan Poe, Júlio Verne, H. G. Wells e seus contemporâneos. Então, por que isso agora?
Desde os anos 1990, especialmente no Brasil, os leitores progressivamente desinteressaram-se pelas promessas do futuro e voltaram-se para o passado: romances históricos, fantasia medieval e horror gótico passaram a ser o tipo de leitura comercialmente melhor sucedida. A ficção científica acompanhou a tendência justamente com o steampunk, encampando o romance histórico a partir da história alternativa – que pode aproveitar personagens reais – e da ficção alternativa, na qual são emprestados os personagens de ficção em domínio público, como Sherlock Holmes, Allan Quartermain e Drácula.
A editora Tarja, gerenciada por jovens escritores de ficção fantástica, decidiu assumir o subgênro e reuniu nove trabalhos inéditos na que propôs ser a primeira antologia steampunk da ficção brasileira, organizada por Gianpaolo Celli sob o título de Steampunk: Histórias de um passado extraordinário. Ainda que seguindo o mesmo princípio derivativo que historicamente caracteriza a ficção científica brasileira, o livro logrou ser um dos melhores momentos do gênero em 2009. Autores experientes deram ao volume o estofo necessário para agradar aos leitores exigentes, e os autores estreantes revelaram uma qualidade acima da média das antologias publicadas.
O conto que abre a antologia é "O assalto ao trem pagador", assinado pelo organizador. Na virada do século XIX, três pesquisadores de aerostatos, cada um deles representante de uma sociedade secreta que manipula os destinos do mundo, criam um dirigível especial para roubar o carregamento de ouro de um trem superarmado. Apesar da boa narrativa, a moral da história é discutível e os personagens esquemáticos não evocam a simpatia do leitor.
Em seguida encontramos "Uma breve história da maquinidade", do experiente tradutor Fabio Fernandes que, em 2009, também publicou Os dias da peste, seu primeiro romance pela mesma Tarja Editorial. O autor mergulha na ficção alternativa, emprestando de Mary Shelley o Doutor Victor Frankenstein que, depois do fracasso com a criatura de carne, decide construir homens de metal. Associado a outros notáveis, cria uma fábrica de robôs e muda os caminhos da civilização do início do século XIX, colocando um serviçal robótico na casa de cada família. Com o passar dos anos, as máquinas ganham consciência e passam a reivindicar seus direitos civis, algo similar à clássica peça R.U.R., do escritor tcheco Karel Capec, não obtém contudo a mesma eficiência dramática.
"A flor de estrume" é a estreia do jornalista Antonio Luiz M. C. Costa como escritor. A história se passa em São Paulo, no início do século 20, em uma realidade em que os povos nativoamericanos não foram extintos e desenvolveram alta tecnologia. Um espião europeu tenta roubar do Instituto Butantã um produto recém-desenvolvido: a penicilina. O conto abusa de termos tupi-guaranis e investe no detalhamento dos cenários, construindo imagens pungentes que inserem o leitor nesse ambiente exótico com grande eficiência, mas abandona a história em si. O ambiente minucioso contrastado com um conflito ligeiro deixa impressão de uma história que terminou antes da hora, que pede para ser estendida.
"A música das esferas" também é estreia do autor Alexandre Lancaster. Um jovem prodígio em tecnologia envolve-se no que parece ser um caso de assassinato. Junto a um policial de técnicas pouco ortodoxas, enfrentam os riscos de uma descoberta científica muito perigosa. A primeira metade do conto é perfeita, com personagens bem montados e um mistério instigante a ser resolvido mas, na busca por uma narrativa intensa, a conclusão se vulgariza num show hollywoodiano de fogos de artifício. Ficou a sensação de ser o primeiro de uma série.
"O plano de Robida: Un voyage extraordinaire" é o texto mais longo do livro. Assinado pelo experiente Roberto de Sousa Causo que, em 2009, também publicou o romance Um anjo de dor, pela editora Devir Livraria, conta uma bem urdida aventura que mescla ficção e história alternativas. A bordo de um dirigível, um comando militar, acompanhado de um alternativo Alberto Santos Dumont, ataca forças terroristas internacionais acampadas na selva brasileira. Capturados, confrontam Robert Robida, o líder dos terroristas, que pretende tornar-se o senhor do mundo dominando tecnologias modernas e conhecimentos tão antigos quanto a civilização humana. O conto dialoga claramente com o romance Robur, o conquistador, de Júlio Verne, mas Causo mudou o nome do vilão provavelmente em homenagem ao importante ilustrador dos livros de Verne, Albert Robida (1848-1926). Também homenageia os romances de mundo perdido dos primórdios da ficção científica brasileira, como Amazônia misteriosa (1925) de Gastão Crulz e A cidade perdida (1948) de Jerônymo Monteiro. Uma verdadeira new weird, com dinamismo e conflitos em doses certas. A conclusão em aberto sugere uma sequência.
"O dobrão de prata", de Claudio Villa, escapa um tiquinho do formato geral dos demais contos da antologia, pois investe no terror sobrenatural ao invés da ficção científica. Um pesquisador acadêmico embarca numa aventura marítima em busca de um tesouro naufragado. Conto simples, que busca o estilo de H. P. Lovecraft.
A convencionalidade do conto de Villa valoriza ainda mais a sofisticação do texto seguinte, "Uma vida possível atrás das barricadas", de Jacques Barcia, o melhor texto do livro, candidato às listas de melhores contos da ficção científica brasileira. Um estranho casal – um robô e uma golem – foge para onde sabe que conseguirá ajuda para gerar um filho. Mas o local enfrenta uma revolução trabalhista e a guerra é um perigo contínuo. Uma história forte, com personagens interessantes e narrativa vigorosa e criativa. Contudo – e isso não é demérito algum – está mais para cyberpunk do que para steampunk, sem fazer uso das convencionalidades de nenhum dos dois subgêneros.
Em "Cidade phantástica", de Romeu Martins, o personagem principal é um super-edifício onde um delegado investiga os desdobramentos de um sequestro. As muitas citações podem agradar aos que gostam de caçar detalhes.
Flávio Medeiros fecha a seleta com "Por um fio", deliciosa homenagem à obra de Júlio Verne – sempre ele – contando o confronto de seus dois sociopatas favoritos, Nemo e Robur, cada qual em seu veículo de guerra característico num combate até a morte. Ecoa também A raposa do mar (The enemy bellow, 1957), longa metragem que narra uma dramática batalha entre um couraçado americano e um submarino alemão.
Numa avaliação geral, a qualidade da antologia está acima da média, equilibrada e bem editada. Peca apenas pela falta de originalidade, já que a proposta é, sem nenhum pudor, emular um subgênero que parece estar na moda. Já se vê por aí grupos de fãs fantasiados de Bat Masterson, de colete, polainas, bengala e chapéu coco, tentando implementar, tal como os fãs de Star Trek, um estilo de vida steampunk.
Não há nisso, portanto, muito mérito, pois não se percebeu empenho dos autores, exceção feita a Jacques Barcia, em fugir dos paradigmas do steampunk. A recorrência aos aerostatos e a Júlio Verne mostra que ou os autores tiveram dificuldade em visualizar alternativas para o ambiente ou simplesmente não se empenharam em desdobrar o modelo em algo mais original.
Mas talvez a editora Tarja pretenda dar sequência ao projeto com um segundo volume. Então, quem sabe, os novos valentes que se lançarem a tarefa dediquem-se um pouco mais e consigam escapar do beco sem saída de homenagens, citações e derivações com que a antologia apresentou o gênero.
Cesar Silva
* A editora Tarja encerrou suas atividades em 2013 sem efetivar a publicação de um prometido segundo volume da antologia, que chegou a ser anunciado em diversas fanpages ligadas ao tema. Contudo, lançou outros títulos que com ela dialogam, como a antologia Retrofuturismo, publicada em 2013 com contos de proposta algo mais ampla. A mais importante herança da antologia Steampunk, contudo, é a enorme quantidade de antologias similares que a ela se seguiram por várias outras editoras, que ainda repercutem no fandom brasileiro.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Solarium: Contos de ficção científica

Solarium: Contos de ficção científica, Frodo Oliveira, org. 178 páginas. Editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2009.

Durante muito tempo, foi nas antologias que a ficção científica brasileira teve seu melhor desempenho. Tanto na conhecida Primeira Onda da ficção científica brasileira, com as edições da GRD e da Edart, quanto na Segunda Onda, quando a GRD também deu importante apoio, entre outras editoras. Avaliava-se, então, que os autores brasileiros tinham melhores resultados na forma curta, talvez por alguma inexplicável afinidade cultural, ou porque esse era o único formato que permitia alguma publicação. Nos fanzines, o conto também imperava majestoso e ainda é no formato curto que identificamos os trabalhos mais relevantes do gênero no país.
Depois de um período de vacas muito magras, ao longo do início do século 21, quando a ficção científica migrou para a internet de onde parecia que não sairia mais, a queda nos custos gráficos e principalmente a possibilidade de produzir tiragens por demanda facilitou a volta dos livros. Os muitos romances escritos durante os anos de internet, sem os limites de um projeto gráfico prévio, tiveram então a chance de conhecer publicação real e a ficção longa ocupou o espaço, enquanto as antologias não acompanharam o crescimento na mesma proporção.
Em 2009, porém, foi diferente. Surgiram novos projetos coletivos numa explosão de antologias por diversas editoras, algumas fruto de concursos, outras do investimento direto das editoras, outras ainda viabilizadas pela cooperação financeira dos próprios autores. Desse modo, podemos considerar que 2009 foi o grande ano das antologias no Brasil, com quase meia centena de títulos publicados entre ficção científica, fantasia e horror, que por si só superou largamente a produção das antologias em todos os anos 1990, por exemplo.
Solarium: Contos de ficção científica, organizada pelo escritor pernambucano Frodo Oliveira (Sinistro!, A torre negra) para o selo Antology da editora carioca Multifoco, foi uma das primeiras antologias publicadas em 2009. Não se trata de uma antologia temática e os autores tiveram total liberdade para escrever. A apresentação do volume é  econômica e nem traz um prefácio que contextualize a sua proposta editorial. Um brevíssimo texto na contracapa diz: "Bem vindo ao futuro. Este é o convite que a antologia Solarium faz aqueles que não têm medo de vislumbrar o que ainda está por vir. Cidades perdidas, seres de outros planetas, batalhas monumentais, galáxias distantes, tudo isso faz arte do inconsciente coletivo dos que, um dia, se apaixonaram pelo mundo fantástico da ficção científica. Convidamos você a desvendar conosco o grande mistério que é o futuro, este eterno desconhecido."
A antologia apresenta nada menos que 25 textos de 21 autores de todo o país mais um de Portugal, a maioria deles já com alguma experiência nas letras, ao lado de quatro estreantes. Quero destacar aqui alguns contos que, na minha opinião, apresentam qualidade superior entre o conjunto.
"Desvios", de Ricardo Delfim, é o trabalho mais curto da antologia, com cerca de 300 palavras. Trata-se de uma  romantização da juventude do pesquisador inglês Charles Darwin. Não é ficção científica e sequer chega a ser fantástico, mas é muito bem escrito e dá prazer de ler. Sua textura realista somada a ótima técnica do autor, que resolve muito bem o trabalho em poucas palavras, o destacam no conjunto.
"Esperança", de André Garzia, é outro bom trabalho. Numa espaçonave à deriva, crianças e adolescentes sobreviventes de uma guerra têm que redescobrir a aritmética depois que a última calculadora eletrônica à bordo quebra. Ainda que seja uma premissa um tanto absurda, o conto tem amplas qualidades narrativas, bons diálogos e personagens bem marcados. Merece ser desenvolvido: eu leria com satisfação um romance inteiro com essa premissa.
"Mutante alcoólatra", de Magalhães Neto, narra os delírios de um caboclo futurista sob influência do álcool. A ideia ótima e a técnica profissional mereciam um título melhor elaborado.
Em "Os estranhos", de José Geraldo Golveia, sobreviventes de uma praga de vampiros que devastou o mundo tentam superar mais um dia de horror. O melhor conto do livro, com ação, drama e estranhamento em doses generosas.
"Oxia Palus" do português Nuno Lago, é ousado. Militares de folga participam de um jogo no qual vence quem tiver o melhor sonho erótico. O conto destaca-se, além do erotismo, pela técnica apurada e o bom desenvolvimento dos personagens.
Em "País de gelo", de Victor Stefano, escritora em crise criativa tem devaneios com uma gravidez psicológica. Dramático e pósmoderno, surpreende pela qualidade narrativa e pela idade do autor, de apenas 15 anos, que estreou nesta antologia. Uma promessa que já se cumpre, o autor deve ter um futuro brilhante.
Entre os demais trabalhos, alguns têm boa técnica, outros são criativos, mas ou não apresentam bom desenvolvimento ou pecam pela falta de originalidade e ousadia, o que é natural num grupo de autores tão heterogêneo, muitos deles ainda carentes de experiência, com uma visão convencional do gênero. A avaliação final é de uma antologia mediana, que revela algum potencial.
Tudo indica que o projeto Solarium foi comercialmente bem sucedido. Em novembro de 2009, a mesma editora distribuiu Solarium volume 2, e um volume 3 foi lançado em 2014, ambos organizados por Frodo Oliveira com outra batelada de contos inéditos de ficção científica, configurando assim mais um periódico brasileiro publicado em forma de livro, que vem se unir aos igualmente periódicos Ficção de polpa, da Não Editora, Imaginários, da Editora Draco, Sagas, da Argonautas, bem como os já cancelados – mas igualmente valiosos – Paradigmas, da extinta Tarja Editorial, e Portal, organizado e publicado pelo escritor Nelson Oliveira, verdadeiros fanzines do século 21, com muito orgulho.
Cesar Silva

sábado, 6 de junho de 2015

A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig

A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig. Capa e ilustrações de Maurício Veneza. 168 páginas. Cortez Editora, São Paulo, 2009.

A ficção fantástica produzida no Brasil, com honrosas exceções, não privilegia as características nacionais. Não que isso tenha sido sempre assim. Muitos fantasistas brasileiros não sentiram dificuldade em inserir o imaginário nos cenários brasileiros. Mas, no que se refere a fc&f contemporânea feita nos últimos 30 anos dentro dos muros do fandom, havia a princípio uma grande dificuldade em enxergar a fantasia e a tecnologia no ambiente cotidiano local. Os autores costumeiramente apelavam para ambientes europeus e norte-americanos, aproveitando também para batizar os personagens com nomes associados a cultura anglo-europeia, pois o contrario lhes soava de tal modo anacrônico que impedia que fosse levado a sério, o que o escritor Braulio Tavares veio a batizar como "Síndrome do Capitão Barbosa". Em 1986, o escritor-fã Ivan Carlos Regina (O fruto maduro da civilização, GRD, 1993), propôs nas páginas do fanzine Somnium um manifesto de valorização da brasilidade na ficção científica nacional, que ficou conhecido como Movimento Antropofágico da FCB, em referência ao Manifesto Antropofágico da Semana de 1922. Em torno do texto de Regina reagiram inúmeros autores, a favor e contra, e com os passar dos anos as imagens, nomes e culturas brasileiros emergiram em boa parte dos textos realizados pelos fãs, o que felizmente continua acontecendo hoje.
Contudo, muito disso deve-se a um esforço militante de um determinado setor que busca uma identidade para a ficção fantástica brasileira. A maior parte desses autores avançou sobre temas e conceitos que para si próprios não eram naturais. Não vou dizer aqui que isso não não funcionou, porque funcionou sim. Mas o "brasileirismo" vai muito além de ambientes.
Uma das maiores dificuldades dos autores é com os personagens. É muito difícil definir idiossincrasias pessoais sem cair na caricatura e no estereótipo. Na digna tentativa de evitar essa armadilha, os personagens acabam homogenizados, achatados num espaço de pouca manobrabilidade, que é ainda mais engessada nas mãos de autores menos experientes.
Então, para demarcar bem seus personagens, os autores costumam lançar mão dos arquétipos. Funciona, do ponto de vista dramático, mas os personagens ficam distantes do leitor, tão irreais como os personagens mitológicos.
Ainda há muita dificuldade em modular personagens e, entre os mais evitados, estão os personagens negros. Isso porque a ampla maioria dos autores brasileiros que se exercita na fc&f são brancos. Não passaram e nunca passarão pelas dificuldades de ser negro num país que aboliu a escravidão há pouco mais de um século. Talvez haja um certo mal estar entre esta legião de escritores brancos em se colocar no lugar de um negro brasileiro, então melhor nem tentar.
Entretanto, houveram tentativas bem sucedidas. Mas, de forma geral, os personagens negros só o são porque o autor decidiu descrevê-los assim. No mais, eles se comportam exatamente como qualquer outro, não há muita etnia em sua vida. Uma das desculpas recorrentes entre os autores é querer reafirmar a igualdade entre negros e brancos, que a cor da pele não faz diferença. Mas faz: interfere de maneira importante na psique do indivíduo e na forma como ele é tratado na sociedade. Talvez apenas os próprios autores negros tenham suficiente sensibilidade para construir personagens negros palpáveis mas, infelizmente, eles são minoria no fandom. Conheço pessoalmente apenas um, o experiente Julio Emilio Braz (Megalópilos, 2006, Rocco). Por isso, não é de se surpreender que tenham sido tão poucas as tentativas de usar o panteão africano como base de histórias especulativas. Talvez haja aqui alguma preocupação com o fato desse imaginário ser base de religiões ativas no país, como a umbanda e o candomblé.
Mesmo assim, a corajosa escritora gaúcha Simone Saueressig, autora de A noite da grande magia branca (Cortez, 2006) e A fortaleza de cristal (L&PM, 2006), ousou investir nesse tema em seu romance A estrela de Iemanjá, publicado pela editora paulista Cortez em uma edição ilustrada por Maurício Veneza, com acabamento luxuoso pouco visto nas letras nacionais.
A história, indicada pela editora para aulas de língua portuguesa, geografia e história, conta como três jovens pescadores negros, Tomás, Cosme e Daniel, inadvertidamente capturam em sua rede a poderosa estrela do mar de Iemanjá, roubada de sua proprietária por Joelho e Benevides, dois salafrários que para isso usaram um submarino. Durante a fuga, a estrela causa problemas na máquina e, morto de medo, Benevides joga fora a estrela por uma escotilha, justamente quando a rede dos meninos flutuava por ali.  Os poderes da estrela provocam uma tempestade furiosa que arremessa os garotos na praia de Aganjú, uma ilha desconhecida que não devia estar ali. Eles ajudam Ubatá, uma garota que está numa importante missão e para isso teve de roubar o amuleto de uma raça de seres ferozes. Para voltar para casa, os meninos terão de acompanhar Ubatá para o interior da ilha, em busca de ajuda. Mas eles não imaginam que Joelho e Benevides estão logo atrás deles, pois querem recuperar a estrela, que eles carregam sem saber do que se trata. A ilha de Aganjú esconde um universo maravilhoso, repleto de magia, perigos e mistérios que os meninos terão de superar caso queiram escapar dessa armadilha mortal, que envolve o próprio fim dos tempos para todo o planeta.
Não é a primeira vez que Simone conta uma história com orixás. Em O palácio de Ifê (L&PM, 1989), a autora enveredou pelo tema, numa aventura que também tem contornos juvenis, mas é algo mais dramática.
Simone não evita temas regionalistas e folclóricos, ao contrário, ela os persegue com rara criatividade e poesia. Talvez tenha sido por isso que a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil selecionou A estrela de Iemanjá para representar o Brasil na Feira do Livro Infantil de Bolonha 2010, junto a outros 210 títulos que foram apresentados a editores, escritores, ilustradores e estudiosos do mercado internacional. Foi a primeira vez que a autora de Novo Hamburgo teve um de seus livros selecionados para a mostra.
A simples presença do trabalho de Simone entre os leitores jovens cria uma boa expectativa para as futuras gerações de escritores, que terão nela uma excelente referência criativa.
Ainda que muita gente ainda sofra, por convicção, da Síndrome do Capitão Barbosa, está bastante claro que não há nenhuma dificuldade ou facilidade agregada ao texto apenas pelo fato dele fazer uso de imagens e etnias brasileiras. Não é preciso disfarçar a origem cultural para ser "melhor recebido" pelo mainstream, seja no mercado nacional seja no internacional. Faça-se o que quiser, tanto faz. O que conta a qualidade do trabalho realizado e, sem dúvida, isso não falta a Simone.
Cesar Silva

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Almanaque Jornada nas Estrelas

Almanaque Jornada nas Estrelas, Salvador Nogueira e Susana Alexandria. 272 páginas. Capa de Delfin. São Paulo: Editora Aleph, 2009.

A série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek) é um dos símbolos da cultura popular da segunda metade do século 20 e, nesse sentido, parte formadora de boa parte dos fãs que se tornaram leitores de ficção científica no Brasil, a partir do início dos anos 1980.
Este livro é o primeiro escrito e publicado no Brasil sobre o mais popular e influente seriado de TV de ficção científica[1] e, de quebra, de grande sucesso no país, em virtude de sua exibição quase contínua entre o fim dos anos 1960 ao início dos 1990, para ficarmos só na chamada TV aberta.
Os autores são conhecidos fãs da série e bastante ativos. Salvador Nogueira, um jornalista de divulgação científica, criou o bom site Trek Brasilis, uma das principais referências para a informação sobre a série no Brasil. Já Susana Alexandria é uma tradutora de recente destaque ao verter para o português clássicos como, por exemplo, Fim da eternidade, de Isaac Asimov, e tem atuado junto à Jornada através de seu interessante trabalho de pesquisa sobre as fontes literárias, principalmente de William Shakespeare, presentes nos episódios da série clássica. Inclusive, a presença de um capítulo no livro sobre isto é um dos pontos altos a ser ressaltado.
O livro é muito bonito e agradável, fartamente ilustrado – ainda que sem cores internas –, diagramado com desenvoltura e leveza. Além dos textos principais, há várias informações complementares e curiosidades em textos curtos, envoltos em balões e quadros, talvez para agilizar uma consulta rápida, como requer um livro identificado como um “almanaque”. E talvez por se aferrarem demais a este método, o livro acaba revelando suas fraquezas em termos de conteúdo e de prioridades.
Primeiro, o livro é claramente enfocado na série clássica. O início da série é recontado com um nível de detalhe muito bom e inclui também um guia de episódios das três temporadas – bem feito, mas que nada acrescenta aos vários à disposição do trekker brasileiro, inclusive em português.[2] Daí em diante, as demais séries são comentadas de forma resumida, ressaltando-se apenas os seus aspectos principais e algumas informações de bastidores. Mas onde está ao menos a lista dos episódios de cada série? Com relação aos filmes para o cinema, a ênfase se repete, pois comenta até o sétimo filme – onde termina a participação dos personagens da série clássica –, e os demais são apenas citados nominalmente. O mesmo procedimento acontece quando escrevem sobre histórias em quadrinhos e os livros publicados no Brasil. Um diferencial relevante seria publicação de uma listagem dos títulos lançados no país. Uma chance perdida. E mais estranho ainda é que nem os 23 livros da própria Aleph sobre a série são listados, mas sim os de outras editoras! Tomaria tantas páginas assim a publicação dos títulos? É o tipo de informação que deixaria o livro útil para o fã e colecionador.[3]
Mas a pior falha do almanaque é sua abordagem distorcida do fenômeno Star Trek no Brasil. Para começar, poderiam abordar a repercussão da série no país, estabelecendo um instigante paralelo com a da terra natal do seriado e com isso fugir do tradicional de contar como foi nos Estados Unidos. Eu mesmo tenho o recorte da revista Intervalo, de São Paulo, anunciando a estréia no país da série, pela TV Excelsior, em 1968.[4] O incêndio que acabou com esta emissora teve repercussão sobre a exibição da série no país, já que alguns rolos de episódios foram perdidos. Um tópico sobre os dubladores poderia ter sido abordado, falando das versões da AIC e depois da VTI. Isso está disponível na internet.[5]
O mais polêmico, porém, ficou reservado para o capítulo nove, “Trekkers!”, ao comentarem sobre a comunidade de fãs no Brasil. Eles escreveram na página 239:

“Foi durante as reprises das séries coloridas no Brasil, no início dos anos 1980, que toda uma geração de novos fãs veio juntar-se aos antigos. Mas, naqueles tempos pré-internet, pré-celular e pré-teve a cabo, a comunicação entre os fãs era muito precária – para não dizer inexistente. É muito comum ouvir histórias de trekkers que se achavam os únicos fãs brasileiros da série. Isso mudou quando surgiram os primeiros fã-clubes de Jornada nas Estrelas no Brasil, particularmente dois deles, que se tornaram conhecidos nacionalmente: o Jetcom, do Rio de Janeiro, e a Frota Estelar, de São Paulo. Ambos surgiram no mesmo ano em 1989.”

Este trecho não condiz com a verdade. O primeiro fã-clube organizado sobre a série é a Sociedade Astronômica Star Trek (SAST), criada em São Paulo, em 1982. O clube tinha reuniões semanais e publicava o fanzine Star News, que durou onze anos, em 48 edições. A SAST tinha sócios por todo o Brasil e contatos com grupos de fãs semelhantes no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e interior de São Paulo. Além de contatos no exterior, como nos Estados Unidos e em Portugal. Se Nogueira e Alexandria afirmam que havia fãs que se achavam os únicos, bem se vê que não era o pessoal da SAST.
A SAST foi retratada em mais de uma oportunidade por jornais, revistas e programas de TV da época.[6] Dizer que a comunicação era precária ou inexistente é um equívoco de julgamento risível e preconceituoso, como se o mundo sem as tecnologias de hoje praticamente não fosse viável. Além disso, Susana Alexandria manteve contato com a SAST durante um breve período.
Para os autores, ao que parece, a história organizada dos trekkers no Brasil começou com os clubes com os quais eles tiveram mais contatos e participação. Mas por que desconsideraram de maneira tão contundente os fãs dos anos 1980? E nem é possível dizer que não tinham como ter acesso a eles, porque alguns se integraram com destaque aos clubes que vieram depois e existe alguma literatura histórica já escrita sobre o assunto.[7]
É fato que com a Frota Estelar nos anos 1990 houve mais organização, visibilidade e repercussão, principalmente por conta das chamadas “convenções estelares” e do feito significativo de trazer três atores do elenco principal da série clássica para o país: Walter Koenig (Checov), George Takey (Sulu) e Leonard Nimoy (Spock). Mas é prematuro desconsiderar o movimento de fãs dos anos 1980, já que manteve o interesse sobre o seriado, com fãs articulados e ativos. E nunca é demais lembrar que a SAST é considerada uma das primeiras associações de fãs que assinalam o ressurgimento da própria ficção científica brasileira, a chamada Segunda Onda, ao lado do Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre, e do fanzine Hiperespaço, ambos de 1983. O que preocupa é que por este ser o primeiro livro sobre a série escrita no Brasil, a defesa da posição dos autores sirva como a versão oficial sobre o assunto.
Quando soube deste livro pensei no que ele poderia trazer de diferente para o trekker brasileiro, já que existem vários livros excelentes sobre a série publicados nos Estados Unidos, e mesmo no Brasil, se pensarmos em Jornada nas Estrelas Compendium, de Allan Asherman e as biografias de William Shatner e Leonard Nimoy. Ou seja, o Almanaque só seria útil como fonte de consulta se tivesse informações básicas completas, como listas de obras e episódios das séries e trouxesse algo brasileiro sobre o assunto. Talvez a obra não tenha sido concebida para o trekker, mas sim para o público em geral. Afinal, a Aleph tem adotado este princípio para os seus livros de ficção científica. Isso explicaria este almanaque light, ao invés de um com mais ênfase em informações de pesquisa. Se assim for, o interesse para o trekker é reduzido. Por tudo isso, embora o livro seja bem produzido, ainda se espera outro sobre a série que traga informações bibliográficas e de pesquisa e, principalmente, mais voltadas à rica – e ainda mal contada – história do movimento trekker no Brasil.
– Marcello Simão Branco



[1] Mas não é o primeiro abordando a série. Em 1993, Ana Creusa Zacharias escreveu uma novelização chamada A abadia, em edição independente.
[2] O mais completo, claro, é Jornada nas Estrelas Compendium, de Allan Asherman, publicado pela Sci-Fi Books, em 1999. Já em termos de guia produzido por brasileiros, o melhor é TV Séries – Jornada nas Estrelas: Guia de Episódios, edição especial da revista em seu ano II, número 16, outubro de 1998, num ótimo trabalho de Fernanda Furquim e Marta Machado.
[3] Talvez por desconhecimento, os autores deixaram de comentar sobre um álbum com 240 figurinhas colantes sobre Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, publicado pela editora Abril Panini S/A, em 1991.
[4] O título da reportagem é “Lá em cima onde mora a aventura: Emoção e garotas bonitas, é o que promete ‘Jornada nas Estrelas’. Fotos dos episódios “Deste lado do paraíso” e “Miri” ilustram o texto.
[5] Veja o artigo “Jornada nas Estrelas (Star Trek): Uma dublagem através do tempo”, de Thiago Siqueira, publicado em http://universofantastico.wordpress.com/2009/04/11/jornada-nas-estrelas-uma-dublagem-atraves-do-tempo.
[6] Veja os títulos de algumas reportagens sobre os fãs dos anos 1980: “Um jeito trek de ser”, no Jornal do Campus da USP, n. 67, 1º de junho de 1988; “A guerra dos trekies brasileiros”, no Jornal da Tarde, de São Paulo, em 27 de maio de 1989. As duas com fotos de fãs. E também na revista Video Business, em 1988, com “Fãs além da imaginação”. Participaram também num programa sobre vídeo e cinema na Rede Bandeirantes, em São Paulo, em 1988, apresentado por Serginho Café. Exemplos que atestam que existia uma intensa atividade de fãs, ao contrário do que defende os autores do Almanaque.
[7] Escrevi uma história dos fãs da série no Brasil, de 1982 a 2006, “Os fãs de Jornada nas Estrelas no Brasil”, em http://www.scarium.com.br/artigos/simao02.htm.