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sábado, 7 de novembro de 2020

Tudo é Eventual

 

Tudo é Eventual (Everything is Eventual), Stephen King. Tradução de Myriam Campello. 467 páginas. Rio de Janeiro: Editora Objetiva/Suma de Letras, 2003. Lançamento original em 2002.



Apesar de ter se notabilizado principalmente por seus volumosos romances, King nunca abandonou a forma original com a qual iniciou sua carreira: o conto. Assim é que, no prefácio “Em Busca da Arte (Quase) Perdida”, ele faz uma reflexão sobre esta forma narrativa. Com a exceção do romance, outras manifestações como o conto, a poesia, o modelo teatral shakespeareano e as peças de rádio, estariam todas em processo de extinção. O momento seria de transição para outras formas narrativas, mais visuais e mesmo virtuais, como ele mesmo experimentou com histórias publicadas na internet há alguns anos, como The Plant – um romance publicado em e-book, de 2000 – e “Andando na Bala” – esta última presente neste livro.

Para King o conto ainda não é uma arte perdida, mas com o encolhimento do mercado editorial para esta forma narrativa, sua sobrevivência estaria ameaçada. Revistas populares voltadas à forma curta e a baixa vendagem de coletâneas e antologias, justificariam, do ponto de vista econômico, a presença cada vez mais esparsa do conto na produção de escritores importantes.

O irônico é que por gerações a principal porta de entrada de escritores iniciantes para a carreira literária foi o conto. O próprio King é um destes casos. E retomar a forma curta e até usar de seu prestígio para publicar é uma maneira de manter a arte viva. Além de, antes de mais nada, mantê-la viva no seu próprio ofício. Pois para o autor de O Cemitério (1983):

Se alguém quer escrever contos, não basta pensar em escrevê-los. Não é como andar de bicicleta. É mais como exercitar-se numa academia: a opção é usar o corpo ou perdê-lo. (...) [Pois] continuei a escrever contos ao longo dos anos em parte porque as ideias ainda me ocorrem de tempos em tempos e, em parte, porque é o modo de confirmar, ao menos para mim mesmo, que não me ‘vendi’, pouco importa o que pensem os críticos menos amáveis”.

Temos, então, dois motivos para o exercício do conto, por parte de Stephen King. 1) O prazer de escrevê-los e, desta forma, manter viva sua própria capacidade de executá-los, e 2) Uma espécie de intenção militante, em busca de um ideal para que esta forma narrativa continue viva.

E o que se pode dizer após a leitura desta enorme coletânea, é que King não perdeu o viço e continua a produzir algumas histórias absolutamente arrebatadoras, tanto pela história em si, como por ser criada dentro da forma específica do conto, que procura combinar de forma virtuosa, drama e síntese.

O livro contém 14 histórias, todas com algum elemento de horror, seja mais explícito ou de cunho psicológico. Embora King tenha escrito um prefácio contundente em defesa do exercício e publicação do conto e um livro com histórias curtas, se formos rigorosos, há muitos poucos contos no livro. A maioria das histórias são noveletas, um conto longo demais para a forma curta e curto demais para uma novela. Talvez, no fim, King tenha mesmo perdido um pouco da arte de sintetizar ideias ou ações dramáticas em uma forma eminentemente curta. Em todo caso, o que vale mesmo é o conteúdo, o que podemos tirar de prazer da leitura das histórias, independentemente de sua classificação formal ou editorial.

A história de abertura é “Sala de Autópsia 4”, no qual um homem dado como morto está prestes a ser autopsiado, após sofrer uma picada de uma cobra venenosa. Por mais da metade do texto, acompanhamos os preparativos para uma operação post mortem. Tanto do ponto de vista dos procedimentos médicos, como do próprio comportamento dos profissionais. Isso soa de uma forma muito crua, realista. Chega a incomodar, mas a intenção é provocar este efeito mesmo. Só que as coisas não são exatamente como pareciam no início, dando uma completa reviravolta no desenrolar da trama.1

Se a primeira história é boa, a segunda é das melhores do livro. “O Homem de Terno Preto” é narrado por um velho, que conta um fato que lhe ocorreu na infância e jamais o abandonou. É uma história simples e muito pessoal, que poderia perfeitamente ter acontecido com qualquer pessoa. A não ser pelo elemento sobrenatural inserido com maestria pelo autor e que provoca arrepio e angústia com o desfecho da história. King disse que o conto é uma espécie de homenagem a um semelhante, de Nathaniel Hawtorne. Neste e no de King, para sermos claros, estamos falando da presença súbita e terrível do Diabo. Que surge, se mostra simpático e depois, de forma dissimulada, procura cercar e destruir sua vítima. No fundo, o que marca esta noveleta é a discussão subjacente de alguns daqueles medos que temos na infância. Crescemos, viramos adultos. Mas no fundo de nossa intimidade, estes mesmos medos não nos abandonaram. King cria uma atmosfera de terror no velho-menino absolutamente convincente e, por isso mesmo, apavorante.

A seguir, somos apresentados a um representante comercial em profunda depressão. Está em um motel de beira de estrada no interior dos Estados Unidos, prestes a cometer suicídio. “Tudo o que Você Ama lhe será Arrebatado”, é uma história daquelas cotidianas, que acontecem todos os dias e depois lemos nas páginas da seção cotidiana do jornal. Alfie era um cara relativamente bem-sucedido, casado e com filhos. Mas chegando à meia-idade, sem perspectiva de mudança em sua vida. Intui-se que este quadro seja o motivador da ação, mas o mais curioso é que não ficamos sabendo exatamente a razão de Alfie querer dar cabo de sua própria vida. E o final acentua ainda mais a dúvida, pois King deixa em aberto o destino do infortunado personagem.

O conto seguinte é “A Morte de Jack Hamilton”, e King escreve um segundo conto no estilo de homenagem. Aqui não a um autor em especial, mas às histórias policiais pulps dos anos 1930, recheadas de foras-da-lei muito carismáticos e bem mais interessantes que os comportados homens-da-lei. Este conto mostra a fuga da gangue de Jack Hamilton, num texto que consegue ir um pouco além da mera homenagem, devido as qualidades de King, principalmente com relação à construção de personagens. Algo que ele sabe melhor do que a maioria dos escritores.

Já a “Câmara da Morte” é uma história curiosa: uma narrativa política situada em algum lugar do Caribe. Um opositor é preso e torturado em um país que vive em uma ditadura. Isso não é familiar? Na maior parte do conto somos expostos ao interrogatório e às torturas em si. Ou seja: não é propriamente agradável embora, infelizmente, bastante familiar a qualquer brasileiro acima dos 50 anos. Mas, o texto apela para uma solução absolutamente inverossímil para o destino do prisioneiro. Mas King assume isso, quando diz no comentário que fez ao final do conto que,

Em tais histórias, o interrogado geralmente termina cuspindo tudo e depois sendo morto (ou) enlouquecendo). Quis escrever uma com final feliz, por mais irreal que fosse. E aí está.”

Pois é. Mas não convence. Se quisesse mesmo uma solução deste tipo – que é totalmente legítima –, deveria se esforçar mais, criar situações mais convincentes e não forçadas só para chegar ao seu desejo intencional.

A história seguinte volta a elevar muito a qualidade do livro. Refiro-me a “As Irmãzinhas de Eluria”. É uma espécie de variação sobre um tema, no caso o universo ficcional de A Torre Negra. Isso porque esta história foi escrita fora cronologia da série, por encomenda a uma antologia de fantasia. King resolveu, então, explorar um aspecto particular da série, no caso uma passagem da vida de um dos protagonistas, Roland. E o melhor é que não é necessário um conhecimento prévio da série. Esta história vale por si mesma. É das coisas de terror mais intensas que acompanhei nos últimos anos. Em um mundo desolado, o viajante solitário Roland chega a uma cidade deserta, abandonada, fantasma. E é surpreendido por uns mutantes estranhos, esverdeados. Ele é capturado e levado até um hospital onde é cuidado por enfermeiras. Até aí, nada de muito aterrador. Mas o fato é que os doentes lá hospedados somem misteriosamente, um a um. E Roland percebe do que se trata o lugar, e que na verdade estas enfermeiras são malignas, cruéis, enfermeiras da morte.

Morte também está presente na próxima história, a que dá título ao livro, “Tudo é Eventual”. Um rapaz descobre, meio por acaso, que tem poderes especiais. Tem a capacidade de influir na vida alheia, seja de uma pessoa ou de um animal. Basta que mentalize ou realize alguma tarefa indireta para que seu desejo se cumpra por completo ou em parte. Também de forma misteriosa ele, sem saber ao certo, é recrutado por uma organização secreta. Reúne ‘talentos’ com maneiras incomuns de influir na vida alheia, em benefício de um grupo oculto que os sustenta financeiramente.

Esta é uma narrativa com uma premissa interessante, sombria, que me provocou duas sensações: 1) um desconforto pelo personagem principal, que não me empolgou, e 2) fiquei com a impressão que a história terminou de forma precipitada, pois as situações ficaram abertas, não há uma conclusão clara. E o tal ‘tudo é eventual’, passa aqui como uma ironia. Que trágicas ‘ironias’, ou eventualidades marcam coisas ruins, estúpidas, inexplicáveis na vida de pessoas (ou animais) – geralmente aquelas que consideramos como boas. Enfim, King nos coloca diante de uma explicação nada eventual sobre a razão de coisas absurdas e más acontecerem o tempo todo. Há uma explicação mas, curiosamente, procura desconstruir exatamente a noção de que ‘tudo é eventual’, como se houvesse um conserto oculto, maligno, conspiratório permeando a vida de cada um. Sinistro, sim, mas sem grande sustentação racional, mesmo para os parâmetros obviamente fantasiosos que a história postula. E de qualquer forma, a sucessão de que tudo é eventual, sem qualquer conotação oculta ou fantástica, é a mais desconcertante e perturbadora. A que provavelmente rege o universo em que vivemos.

Na próxima história somos confrontados novamente sobre porque algumas coisas horríveis acontecem. Em “A Teoria de L.T. sobre Animais de Estimação”, uma mulher abandona o marido e leva junto o cachorro de estimação. O cara passa boa parte da história remoendo a razão do abandono e sai à sua procura. É uma noveleta de emoções e surpresas, pois ela começa em um tom cômico e vai, gradativamente, mudando em direção ao terror e à tristeza.

O relato seguinte é batido no horror como um todo, e recorrente também na carreira de King. O tema do quadro que muda, a cada nova olhada de um observador. Neste “O Vírus da Estrada vai para o Norte”, contudo, o autor está inspirado e somos levados a acompanhar a história de um escritor que ao voltar de uma conferência literária, depara com um quadro de aspecto estranho, em uma daquelas liquidações, família vende tudo. Aqui nota-se outra recorrência de King: o terror que ronda a atividade de um escritor, já visto em vários contos e romances como, por exemplo, Angústia (1987), A Metade Negra (1989) e “Janela Secreta, Secreto Jardim” (1989). A sucessão de mudanças no quadro é muito bem narrada. King imprime um ritmo forte e convincente. Espera-se que, no fim das contas, tudo seja alguma paranoia ou algum truque. Mas só posso adiantar que a intensidade da solução assusta pelo seu vigor.

O que já não é o caso de “Almoço no Café Gotham”. Um casal em litígio marca um almoço num restaurante, no qual acertam, na presença dos seus respectivos advogados, um processo de separação amigável, depois do abandono da mulher. Aqui temos a segunda abordagem de King neste livro sobre este assunto. Contudo, o que surpreende é a presença de um mâitre psicótico, que começa a cortar e matar sem piedade com uma grande faca – sem motivo aparente – os fregueses do local. E o casal é surpreendido e tem de procurar se defender para poder sobreviver à sangrenta loucura estabelecida.

em “Você só Pode Dizer o Nome daquela Sensação em Francês”, estamos falando no deja vù. Quando ao vivenciarmos um fato, temos a nítida impressão de já o termos vivenciado, mas sem saber como nem porquê. O conto é ainda narrado de uma maneira estranha, ao transmitir a sensação de que os acontecimentos não são claramente percebidos, não parecem reais. Mas eles se insinuam e, mais que isso, se repetem, condenando o casal da história a fazer a mesma coisa de forma repetida. Como se presos a um inferno, como define o próprio King, em seus comentários sobre o conto. Um dos grandes momentos do livro.

Assim como a história seguinte, o aterrador “1.408”. Segundo King, a sua versão de uma ‘sala fantasma em um hotel’. Um escritor quer passar uma noite em um hotel de Nova York que está fechado há décadas por ter fama de mal assombrado. Pessoas teriam sido queimadas, outras enlouquecido, e cometido suicídio e assassinato no tal quarto 1.408. O gerente do hotel tenta de todas as formas possíveis, dissuadir o escritor a levar à frente seu intento. Mas ele é irredutível e terá a sua noite no 1.408. É uma história excelente de cômodo assombrado. Lembra o clássico O Iluminado (1977), na relação do hotel com o escritor Jack Torrance. E é bom lembrar que aqui King retoma a questão sob o prisma dos escritores. Talvez para extravasar seus próprios sentimentos ao lidar com temas tão incomuns e perturbadores, como o desta história puramente de horror.2

Andando na Bala” vem a seguir. A badalada história que teve sucesso comercial ao ser publicada na internet, e fez King virar capa da Time. No prefácio ele se disse desapontado, porque tanto a revista como a maioria das pessoas só lhe perguntavam o quanto estava ganhando com a história. Não lhe contavam o que tinham achado da história. Talvez porque não a tenham lido. Ou porque tenham lido e não gostado. Ou então porque a história, embora muito boa, toque em um tema muito sensível, ao qual as pessoas não gostam de falar: a morte de entes queridos. Fico com a primeira hipótese. Mas “Andando na Bala” é uma história de emoções muito fortes e humanas. Se insere no terreno de sua autobiografia, conforme ele mesmo anuncia no pequeno prefácio que escreve à história. Temos aqui King em seu melhor momento, equilibrando de forma virtuosa, os mistérios da realidade e da imaginação. Ao final deste relato tocante, dá para entender porque King ficou tão contrariado por só elogiarem o êxito financeiro da história. Ele estava contando uma história dele, muito íntima. Quando nos expomos desta maneira, queremos, de uma forma ou de outra, alguma espécie de solidariedade.

Depois destas três histórias de alto nível, o livro termina de forma meio sem graça, com um conto que poderia ter sido limado. Refiro-me à “A Moeda da Sorte”. Uma variação sobre a tentação perigosa e gananciosa do jogo. Nada mais do que uma fantasia simpática – porque, afinal, a intenção da mãe era louvável, pois tinha um filho doente –, mas com um desfecho um tanto moralista, o que acaba por destoar do ambiente geral do livro.

Reza a sabedoria convencional que numa coletânea – ou antologia – temos histórias boas e ruins. Não é possível agradar a todos. O que dizer deste Tudo é Eventual? Tudo bem, há histórias menos boas sim, mas temos algumas excepcionais, o que perfaz um conjunto altamente positivo e encorajador. Stephen King mostra que, embora esteja escrevendo romances cada vez mais volumosos, não perdeu o jeito para textos mais curtos – embora não muito curtos, como já frisado –, uma preocupação que ele mesmo demonstrava em seu prefácio. Pois como ele afirma em certa passagem do livro, ao comentar uma das histórias, os “contos são como artefatos: não coisas feitas, criadas por nós (e pelas quais possamos receber créditos), mas objetos preexistentes que desencavamos”. Esta declaração até pode ser verdadeira do ponto de vista dele. E para, alguns de seus pares escritores. Mas o fato é que nem todos tem essa capacidade ‘preexistente’, um tipo de, digamos, instinto natural. Não só para conceber uma ideia mas, principalmente, torná-la interessante, fazê-la ganhar vida como uma história bem contada. Talento que King desenvolve como poucos.

Marcello Simão Branco

1 A noveleta me lembrou do conto “G.C.P.A.” (1920), de Gastão Cruls, em que o clima de uma sala de autópsia chega a ser nauseante. Foi publicado na antologia O Conto Trágico, organizada por Jeronymo Monteiro para a Civilização Brasileira, em 1960.

2Ganhou uma boa versão para o cinema em 2007, com o mesmo título.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Minority Report - A Nova Lei (Minority Report, EUA, 2002)


Um dos escritores mais conhecidos e respeitáveis na literatura mundial de ficção científica é o americano Philip Kindred Dick (1928-1982). Em seu currículo figuram dezenas de romances e contos e algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema, tendo como destaques os filmes “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (Blade Runner, 1982), dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, e “O Vingador do Futuro” (Total Recall, 1990), de Paul Verhoeven e com Arnold Schwarzenegger.
Dessa vez, é um conto escrito em 1956 que foi filmado e estreou nos cinemas brasileiros em 02/08/02. Trata-se de “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report), um thriller de ficção científica dirigido pelo especialista em entretenimento Steven Spielberg e protagonizado pelo astro Tom Cruise, na primeira vez em que trabalham juntos.
A história é ambientada numa Washington DC futurista onde em 2054 o índice de criminalidade é zero não ocorrendo assassinatos há seis anos devido à ação de uma divisão de elite da polícia chamada de “Pré-Crime”, que prende os infratores antes deles cometerem seus delitos. Isso é possível graças às informações de premonição captadas através de três paranormais mutantes denominados “Pré-Cogs”, frutos de um programa experimental secreto, onde suas visões são digitalizadas e utilizadas para identificar as futuras vítimas e respectivos assassinos antes da consumação efetiva dos crimes.
Liderando essa equipe especial está John Anderton (Tom Cruise), que acredita veementemente na credibilidade do sistema devido aos resultados obtidos e por questões pessoais já que teve uma tragédia familiar envolvendo seu filho e que culminou com a separação da esposa, Lara (Kathryn Morris), e com o início de seu vício em drogas para suportar seus conflitos interiores, e com a “Pré-Crime” ele poderia ajudar a eliminar a criminalidade.
Porém, tudo repentinamente muda quando ele próprio é denunciado como um futuro assassino, ao mesmo tempo em que um detetive do Departamento de Justiça, Danny Witwer (Colin Farrell), surge para questionar o sistema avaliando sua eficácia para uma possível implantação no resto dos Estados Unidos. Anderton é acusado de um futuro assassinato dentro de 36 horas de uma pessoa que ele nem conhece, e então passa a ser perseguido por seus ex-companheiros de polícia, liderados pelo oficial Fletcher (Neal McDonough).
Após muita correria, perseguições, tiroteios, fugas espetaculares, reviravoltas e surpresas na trama, a única saída de Anderton é tentar descobrir a verdade dos fatos, procurando respostas seqüestrando até a principal “Pré-Cog”, Agatha (Samantha Morton), e questionando agora a eficiência do sistema que ele sempre defendeu ou provar a existência de uma possível conspiração.
“Minority Report” é um thriller bem movimentado e complexo mostrando um futuro próximo com belíssimos prédios, estradas e carros que incitam nossa imaginação (apesar do acelerado ritmo de modernização tecnológica em curso, acho particularmente difícil atingirmos o estágio proposto no filme daqui há 50 anos). Tom Cruise é um bom ator e está novamente muito bem no papel do policial atormentado pela perda do filho que passa de caçador à caça devido à acusação do programa de “Pré-Crime” que tanto ele defendeu, e o elenco ainda tem as presenças marcantes do veterano Max Von Sydow como Lamar Burgess, o diretor da organização e personagem com importante participação na trama, de Peter Stormare como o debochado cirurgião de transplantes ilegais de olhos (nessa época todos os cidadãos são reconhecidos pela leitura da íris ocular), e da veterana Lois Smith como a Dra. Iris Hineman, a criadora do projeto experimental dos “Pré-Cogs”.
Os efeitos especiais são de grande qualidade, principalmente na visualização em tela de cristal das imagens premonitórias dos videntes, na reprodução da imponente cidade futurista e na seqüência onde várias pequenas aranhas cibernéticas invadem um prédio à procura de John Anderton utilizando suas funções de reconhecimento dos olhos de todos os moradores.
Uma curiosidade é o fato do personagem de Tom Cruise ter seu rosto deformado novamente, nesse caso para ajudar em sua fuga utilizando o efeito temporário de uma química injetada na face, pois em seu filme anterior, o igualmente thriller de ficção científica “Vanilla Sky”, um fato similar aconteceu com o personagem David Aames que sofreu um acidente de carro e teve seu rosto desfigurado. 
“Minority Report” é uma bem sucedida parceria entre o rei de bilheterias Steven Spielberg e o astro Tom Cruise, que vem mostrando cada vez mais suas qualidades interpretativas (como na refilmagem de “Guerra dos Mundos”, em 2005, também de Spielberg). É uma produção longa em seus 146 minutos, porém com uma história inteligente baseada em obra do escritor Philip K. Dick, evidenciando um roteiro ágil, interessante, movimentado e repleto de situações que prendem a atenção do espectador, apresentando a complexidade de um futuro possível para a humanidade, e garantindo um excelente entretenimento.              

Observação: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 26/12/05, pela TV Globo, na sessão “Tela Quente”. 

(Juvenatrix - 2002)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Chamado (The Ring, EUA / Japão, 2002)


“Before you die, you see... The Ring”

Ultimamente o cinema de horror tem sido muito bem representado por filmes que tem priorizado explorar os sentimentos sugeridos de medo do ser humano, em vez de apenas apresentar de forma explícita monstros sobrenaturais, assassinos psicopatas tradicionais e banhos de sangue exagerados. Ótimos exemplos dessa bem sucedida linha de ação são os filmes “Os Outros” (The Others / Los Otros), no melhor estilo “casa mal assombrada”, com direção e roteiro do cineasta chileno Alejandro Amenábar, “O Pacto dos Lobos” (Le Pacte des Loups), produção francesa dirigida por Christophe Gans sobre uma criatura sobrenatural que aterroriza uma aldeia, “A Última Profecia” (The Mothman Prophecies), com Richard Gere enfrentando trágicas profecias, e “A Mão do Diabo” (Frailty), com direção estreante do ótimo ator Bill Paxton (que também atuou), tratando sobre insanidade e o mal interior do Homem. Todos esses filmes foram exibidos em 2002 nos cinemas brasileiros.
Em 31/01/03 estreou oficialmente no Brasil outro filme seguindo esse interessante estilo do cinema de horror, “O Chamado” (The Ring), um thriller sobrenatural da “DreamWorks” produzido por Walter F. Parkes e Laurie MacDonald (de “Gladiador” e “Homens de Preto II”), dirigido por Gore Verbinski (da comédia “A Mexicana”) e com roteiro de Ehren Kruger e Scott Frank, baseado em livro homônimo de Koji Suzuki. Kruger escreveu também “Pânico 3” e a ficção científica “Impostor”, com história inspirada em obra de Philip K. Dick, além de “A Chave Mestra” (2005).
O filme é na verdade uma refilmagem de um original japonês chamado “Ringu”, dirigido por Hideo Nakata em 1998 e escrito por Hiroshi Takahashi, e que transformou-se numa trilogia com a produção de outros dois filmes seguintes, “Ringu 2” e “Ringu 0”, sendo este último uma pré-seqüência, os quais receberam nos Estados Unidos os títulos “The Ring 2” e “Ring 0: The Birthday”. Outro fato interessante a se notar tem sido também uma tendência atual do cinema americano em refilmar histórias que renderam bons filmes em outros países como já foi o caso do suspense com elementos de ficção científica “Vanilla Sky”, estrelado por Tom Cruise, que é uma refilmagem do espanhol “Abre los Ojos” (“Preso na Escuridão”, 1997), dirigido por Alejandro Amenábar.
“O Chamado” procura explorar uma “lenda urbana” mortal, a exibição de um estranho vídeo VHS amador amaldiçoado que provoca a morte de quem o assistiu após exatos 7 dias. Uma repórter, Rachel Keller (Naomi Watts, de “Cidade dos Sonhos”), teve sua sobrinha de dezesseis anos Katy Nurick (Amber Tamblyn) misteriosamente morta, e ao investigar o caso a pedido de sua irmã e mãe da menina, Ruth (Lindsay Frost), percebeu a existência de uma possível relação entre a morte dela e de mais três outros adolescentes (o namorado da garota e mais um casal de amigos), com a suposta maldição de uma fita de vídeo. Ela decidiu então realizar uma investigação pessoal que levou-a a uma pousada nas montanhas conhecida como “Shelter Mountain”, local onde encontrou o tal vídeo obscuro. Com imagens produzidas de forma amadora e mostrando cenas aparentemente desconexas com num confuso pesadelo, a fita mostra basicamente a tragédia da família de uma criadora de cavalos, Anna Morgan (Shannon Cochran), que mora numa ilha chamada “Moesko”, e a relação conturbada entre ela, seu marido Richard (Brian Cox, de “A Identidade Bourne”) e a misteriosa filha adotiva Samara (Daveigh Chase), incluindo ainda fatos estranhos como suicídios de cavalos desesperados que se atiravam ao mar.
Rachel acabou descobrindo realmente a existência da terrível maldição, quando após assistir a fita recebeu um telefonema anônimo informando de sua morte em sete dias. Ela procurou ajuda com seu ex-marido Noah (Martin Henderson, de “Códigos de Guerra”), que também assistiu a fita e é um especialista em fotografia e tecnologia de vídeo. O filho pequeno do casal, Aidan (David Dorfman), que demonstra possuir uma capacidade extrasensorial de comunicação com os mortos, lembrando os personagens sensitivos dos garotos Haley Joel Osment em “O Sexto Sentido” (1999) ou Danny Lloyd em “O Iluminado” (1980), acidentalmente também viu o filme, obrigando seus pais a correrem contra o tempo para descobrir a verdade sobre o macabro vídeo e uma forma de anular o feitiço e salvarem suas vidas.
O roteiro de “O Chamado” está repleto de reviravoltas, surpresas e informações soltas que propositadamente tem a intenção de criar dúvidas e divergências de interpretações no público, ganhando um interesse especial e obrigando-nos a refletir e imaginar os eventos que envolvem a sinistra história de um vídeo amador amaldiçoado. Detalhes que deverão ficar mais esclarecidos nas continuações que serão filmadas inevitavelmente, já que houve um grande sucesso comercial do filme.
Os maiores destaques certamente são uma seqüência tensa envolvendo uma balsa e um cavalo em desespero, e a cena em que um “fantasma eletrônico” sai literalmente através da imagem de uma televisão para cumprir sua missão de vingança, lembrando situações similares do clássico moderno “Poltergeist – O Fenômeno” (1982), de Tobe Hooper.
Como curiosidade existem várias homenagens ao mestre do suspense Alfred Hitchcock, em seqüências com referências aos seus filmes clássicos como “Psicose” (1960), na passagem onde há água escorrendo para o ralo do banheiro quando Rachel está tomando um banho (numa referência à famosa cena do assassinato do chuveiro), ou “Janela Indiscreta” (1954), através do vizinho de prédio de Rachel, que está assistindo televisão sentado numa poltrona e com uma das pernas quebrada (lembrando o personagem similar de James Stewart, que gostava de observar seus vizinhos com uma luneta).  
Outros fatos curiosos foram o aparecimento rápido de imagens de círculos sutis de tamanhos variados, ao longo do filme, numa referência clara ao símbolo do vídeo amaldiçoado, e a ausência do ator Chris Cooper, que havia filmado algumas cenas como um assassino de crianças e foi cortado na edição final. 
A exemplo do que já havia acontecido com o fenômeno “A Bruxa de Blair” (1999), foi também criado um interessante marketing pelos produtores utilizando a internet como meio de divulgação, para chamar a atenção do público quanto ao filme e a mitologia que envolve sua terrível “lenda urbana”. Foram construídos vários sites com produção amadora interligados entre si mostrando depoimentos de pessoas que supostamente tiveram contato com a fita macabra e sofreram as conseqüências da maldição, ou mesmo pessoas que tinham alguma informação sobre esse mistério, ou ainda mais detalhes da tragédia que se abateu sobre a família Morgan, que serviu de base para o conteúdo da fita de vídeo amaldiçoada.
É interessante notar como a história básica da refilmagem de “O Chamado” tem certa similaridade com outro filme de horror produzido na mesma época, “Medopontocombr” (FeardotCom), com direção de William Malone, onde seu roteiro é sobre um misterioso site da web que uma vez visitado causa a morte do internauta em 48 horas. Está cada vez mais perigoso navegar pela internet e assistir vídeos amadores obscuros e bizarros...
Dessa vez, os responsáveis pela escolha do título nacional para o filme foram bem sucedidos, já que “O Chamado” tem uma relação interessante com a história, uma vez que o espectador do vídeo misterioso é “chamado” para morrer uma semana após assistir as enigmáticas imagens, sendo uma alternativa muito boa para o consagrado título original “The Ring” (“O Anel”), que também tem uma forte ligação com a trama numa revelação interessante. Poderíamos até inventar uma frase similar a que foi utilizada para a propaganda original do filme, algo como “Antes de morrer, você ouve... O Chamado”.   
Na equipe técnica da refilmagem americana destaca-se a presença do prestigiado maquiador Rick Baker, um dos melhores profissionais dessa área no mundo cinematográfico atual. Ele foi o responsável por premiados trabalhos em filmes como “Grito de Horror” (1980), “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), “Homens de Preto” (1997), “O Grinch” (2000), “Planeta dos Macacos” (2001), e “Homens de Preto II” (2002), especializando-se em filmes fantásticos e contribuindo de forma decisiva para transformar em realidade vários monstros do cinema. Ele foi o responsável pela famosa e já clássica seqüência do bar repleto de alienígenas estranhos no primeiro filme produzido da franquia “Star Wars” (1977), além de criar o lobisomem do videoclip “Thriller” do cantor Michael Jackson.
Os produtores de “O Chamado” ficaram tão satisfeitos com o desempenho nas bilheterias que decidiram realizar uma seqüência. Foi grande o sucesso comercial do lançamento do filme, que teve um orçamento de US$ 45 milhões e faturou em pouco tempo o triplo desse valor.
“O Chamado 2” (The Ring Two) foi lançado nos cinemas brasileiros em Março de 2005 e distribuído em DVD em Setembro (com vários materiais extras interessantes), trazendo novamente Naomi Watts e o garoto David Dorfman (que também esteve na refilmagem de “O Massacre da Serra Elétrica”, 2003). A continuação teve um resultado final inferior em relação ao original, dando um destaque maior para a assustadora garota de longos cabelos negros Samara.
Já o DVD de “O Chamado” tem como destaque entre o material extra, um vídeo inédito de quinze minutos feito pelo diretor Gore Verbinski revelando detalhes e segredos importantes para um melhor entendimento do mistério que envolve a fita amaldiçoada.
“O Chamado” é um filme de horror intrigante que merece a atenção dos fãs do gênero, e independente da veracidade da abordagem sobre uma lenda urbana de um vídeo amaldiçoado, sempre é bom lembrar as palavras do garoto sensitivo Aidan, quando preocupado falou para sua mãe sobre o fantasma vingativo de Samara: “Você não entende Rachel? Ela nunca dorme...

Observação: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 17/04/06, pela TV Globo, na sessão “Tela Quente”. 

O Chamado (The Ring, Estados Unidos / Japão, 2002). Duração: 115 minutos. Direção de Gore Verbinski. Roteiro de Ehren Kruger e Scott Frank, baseado em livro homônimo de Koji Suzuki. Produção de Walter F. Parkes e Laurie MacDonald. Fotografia de Bojan Bazelli. Música de Hans Zimmer. Maquiagem de Rick Baker. Montagem de Craig Wood. Direção de Arte de Patrick M. Sullivan Jr. Elenco: Naomi Watts (Rachel Keller), Martin Henderson (Noah), David Dorfman (Aidan), Amber Tamblyn (Katy Nurick), Lindsay Frost (Ruth Nurick), Brian Cox (Richard Morgan), Shannon Cochran (Anna Morgan), Daveigh Chase (Samara Morgan).

(Juvenatrix - 2003)