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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A Besta do Milhão de Olhos (The Beast With a Million Eyes, EUA, 1955)


O “Rei dos Filmes B” Roger Corman, cultuado produtor e diretor americano do cinema bagaceiro de horror e ficção científica, começou sua carreira no início dos anos 1950, a década de ouro das tranqueiras divertidas do gênero fantástico com histórias absurdas e efeitos toscos (monstros de borracha e naves espaciais hilárias). Um de seus primeiros filmes como produtor (nesse caso, executivo) e direção (porém, ambos não creditados), recebeu o nome por aqui de “A Besta do Milhão de Olhos” (1955), com fotografia em preto e branco e metragem curta com apenas 78 minutos. Trazendo um título sonoro, cartazes e taglines promocionais exagerados e uma introdução sensacionalista narrada por um líder alienígena tirano e conquistador (voz de Bruce Whitmore), cujo propósito evidente era chamar a atenção dos espectadores.

“Eu preciso da Terra. De milhões de anos-luz eu me aproximo de seu planeta. Logo, minha espaçonave aterrissará na Terra. Eu preciso de seu mundo. Eu me alimento do medo, vivo do ódio humano. Eu, uma mente poderosa sem carne e sangue, quero seu mundo. Primeiro, o impensável, os pássaros do ar, os animais da floresta, então o mais fraco dos homens estará sob meu comando. Eles serão meus ouvidos, meus olhos, até que seu mundo me pertença. E porque posso ver seus atos mais íntimos, vocês me conhecerão como A Besta do Milhão de Olhos.”

Allan Kelley (Paul Birch, de “Rebelião dos Planetas”, 1958, entre outras tranqueiras) é um ex-combatente que participou da Segunda Guerra Mundial e agora tenta administrar uma fazenda decadente localizada no meio de um deserto impiedoso da Califórnia, nos Estados Unidos. Sua esposa Carol (Lorna Thayer) está infeliz com a rotina local e eles têm uma filha adolescente, Sandy (Dona Cole), que é namorada do assistente de xerife Larry Brewster (Dick Sargent, um rosto conhecido pela popular série de TV “A Feiticeira”). Tem também um sinistro ajudante de serviços gerais que é mudo e deficiente mental, que apenas é chamado de “ele” (Leonard Tarver). Os negócios do rancho não vão muito bem, e as coisas pioram depois que um objeto voador não identificado (que eles acham inicialmente ser um avião a jato) atravessa o céu muito baixo e com um zumbido tão agudo que quebrou janelas e copos de vidro.
A partir daí, os pássaros da floresta, as pacíficas galinhas, a vaca leiteira do vizinho Ben Webber (o comediante veterano Chester Conklin) e o cachorro dócil da família (Duke), começam a ter comportamentos bizarros e agressivos, com suas mentes controladas para atacar as pessoas. Preocupado com a segurança da família, o fazendeiro decide investigar a relação dos acontecimentos estranhos com um objeto voador metálico pousado numa cratera no deserto, descobrindo uma terrível e mortal ameaça de outro mundo.
“A Besta do Milhão de Olhos” foi dirigido por David Kramarsky (seu único trabalho nesse ofício e que também participou da produção do filme) a partir do roteiro de Tom Filer. Tem uma produção paupérrima e história ingênua típica do cinema fantástico bagaceiro de baixo orçamento de meados do século passado. O filme é repleto de erros de continuidade e com uma narrativa lenta, sendo interessante mesmo o desfecho, apesar de previsível. No confronto de Allan Kelley, que lidera as ações, contra o monstro espacial invasor, uma criatura extremamente tosca com olhos esbugalhados (criada pelo especialista Paul Blaisdell), dentro de uma nave esquisita, que mais parece um artefato militar de espionagem como uma sonda ou satélite. De resto, a história é cansativa e exagerada nos clichês, furos de roteiro e previsibilidade. Mas, é um dos primeiros trabalhos com a participação de Roger Corman (na direção de algumas cenas e produção executiva, ambos não creditados). Ele que é um dos nomes mais importantes e significativos do cinema fantástico, principalmente de orçamentos reduzidos, de todos os tempos, com mais de 400 filmes no currículo, e isso já é motivo suficiente para conhecer mais essa bagaceira.  
Curiosamente, o filme foi distribuído pela ARC (American Releasing Corporation), da conhecida dupla Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson, que depois virou a cultuada AIP (American International Pictures), responsável pela distribuição de uma infinidade de pérolas do cinema fantástico com produções modestas.
(Juvenatrix – 25/09/16)

domingo, 15 de maio de 2016

Tarântula (Tarantula, EUA, 1955)


Escrito originalmente em 25/06/2011.

Os anos 50 do século passado foram muito produtivos para o cinema fantástico, com uma infinidade de bagaceiras super divertidas como “Tarântula” (Tarantula, EUA, 1955), produzido pela Universal em preto e branco, com direção de Jack Arnold e roteiro de Robert M. Fresco e Martin Berkeley.
Curto com apenas 80 minutos de duração, é considerado como um dos mais expressivos filmes com aranhas gigantes, situado dentro do sub-gênero conhecido como “big bug”, ou seja, filmes que apresentam histórias com insetos de tamanhos descomunais como formigas, gafanhotos, louva-deus, vespas e escorpiões. Nesse caso, temos uma tarântula que acidentalmente cresce a uma altura de 30 metros devido ao contato com um hormônio de crescimento de uma fórmula desenvolvida pelo “cientista louco” Prof. Gerald Deemer (o inglês Leo G. Carroll), especialista em biologia nutricional que também se transformou num mutante grotesco por causa da mesma solução química injetada em si mesmo. Trabalhando num laboratório isolado no deserto do Arizona, sua intenção era criar um nutriente especial capaz de auxiliar na alimentação da população mundial, numa preocupação com seu crescimento desenfreado no futuro e os problemas com a fome.
Porém, um casal formado pelo médico local da pequena cidade de “Desert Rock”, Dr. Matt Hastings (John Agar), juntamente com a estudante de biologia Stephanie “Steve” Clayton (Mara Corday), está desconfiado do misterioso trabalho de pesquisa do cientista. Eles tentam investigar o caso e descobrem a ameaça mortal da tarântula gigante faminta por carne, que passa a aterrorizar a região atacando animais e pessoas, sendo combatida por bombas incendiárias dos caças da força aérea americana.
Curiosamente, o então ainda jovem ator Clint Eastwood, tem uma rápida e pequena participação próximo ao final do filme, com o rosto parcialmente coberto por um capacete, no papel do líder do esquadrão de aviões de guerra. Ele que obteve depois um estrondoso sucesso em sua carreira como ator e também como cineasta de grande reconhecimento.
Mesmo sendo uma produção tipicamente de baixo orçamento e pelas dificuldades técnicas existentes numa época de mais de meio século atrás, os efeitos especiais com a aranha gigante são ótimos e impressionam, apesar de obviamente as cenas de ataques do enorme aracnídeo serem escuras de forma proposital para esconder os defeitos e manter ao máximo o clima de tensão.
O diretor Jack Arnold é conhecido por suas incursões no cinema fantástico, sendo o responsável por pérolas como “Veio do Espaço” (53), “O Monstro da Lagoa Negra” (54) e “O Incrível Homem Que Encolheu” (57). A bela atriz Mara Corday esteve também em outro filme de inseto gigante, “O Escorpião Negro” (The Black Scorpion, 1957). O ator John Agar (1921 / 2002) é lembrado por suas participações em inúmeros filmes “B” de horror e ficção científica como “Revenge of the Creature” (1955), “The Mole People” (1956), “The Brain From Planet Arous” (1957), “Attack of the Puppet People” (1958), “Invisible Invaders” (1959), “Journey to the Seventh Planet” (1962), “O Monstro de Vênus” (1966) e  “Women of the Prehistoric Planet” (1967).
“Tarântula” foi lançado em DVD no Brasil pela “Continental”, trazendo como material extra breves biografias de Clint Eastwood e Jack Arnold, além de um trailer original.
(Juvenatrix - 25/06/2011)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Terror Que Mata (The Quatermass Xperiment, Inglaterra, 1955)


Filme que faz parte do ciclo de produções de ficção científica com elementos de horror com fotografia em preto e branco, do cultuado estúdio inglês “Hammer”, no período de meados dos anos 50 do século passado. “Terror Que Mata” tem direção de Val Guest, de outros filmes da “Hammer” como ”Usina de Monstros” e “O Monstro do Himalaia” (ambos de 1957), e roteiro de Richard Landau baseado no universo ficcional criado por Nigel Kneale, formado por vários filmes e séries para a televisão.
Um foguete espacial cai numa fazenda nos arredores de Londres, tendo seu bico soterrado no solo. Dos três astronautas lançados ao espaço, num projeto científico liderado pelo Prof. Bernard Quatermass (daí o título original inglês), interpretado por Brian Donlevy, apenas um deles sobrevive e é resgatado seriamente doente. Ele é Victor Carroon (Richard Wordsworth), que está internado secretamente num hospital para tentar se recuperar de estranhas feridas que cobrem seu corpo. Os outros dois astronautas desapareceram. Para investigar o caso, o cientista Quatermass assume a liderança, contando com o auxílio não desejado de um policial, o Inspetor Lomax (Jack Warner).
O transtornado astronauta foge do hospital, ajudado por sua esposa Judith (Margia Dean), e depois de deixá-la em estado de choque devido sua horrenda transformação física, ele percorre as ruas de Londres desorientado matando pessoas que encontra pelo caminho e animais de um zoológico. Com um misterioso fungo recobrindo seu corpo e o transformando vagarosamente numa massa disforme com tentáculos que cresce conforme se alimenta da energia vital de suas vítimas.
Depois de atingir um tamanho imenso e refugiar-se numa abadia, ocorre um confronto final com o Prof. Quatermass, interessado em eliminar rapidamente a ameaça para poder desviar novamente suas atenções na continuidade de novos projetos científicos de exploração do espaço exterior.
“Terror Que Mata” é um título brasileiro oportunista e mal escolhido, pois certamente o melhor seria apenas traduzir do original inglês, resultando em algo como “O Experimento de Quatermass”. O filme também é conhecido pelo título alternativo “The Creeping Unknown” nos Estados Unidos e tem uma história explorando o sempre interessante tema de “homem transformado em monstro”. É a investida da “Hammer” em ficção científica, num período fértil para o gênero na década de 1950, abordando uma ameaça alienígena trazida para a Terra após o retorno de um foguete lançado para pesquisas espaciais.
Fez muito sucesso na época, impulsionando a “Hammer” como produtora de filmes do gênero fantástico, se especializando principalmente nas histórias com ambientação gótica e atmosferas sombrias, além de explorar os tradicionais monstros clássicos em filmes de vampiros, lobisomens, múmias e cientistas loucos.
As aventuras do cientista Quatermass envolvendo alienígenas estão registradas numa trilogia produzida pela “Hammer”, e além de “Terror Que Mata”, ainda temos o já citado “Usina de Monstros” e “Uma Sepultura na Eternidade” (Quatermass and the Pit, 1967), sendo que nesse último o ator Andrew Keir ficou com o papel do abnegado cientista, substituindo Brian Donlevy, que esteve nos dois primeiros filmes. Em 1956 o estúdio inglês lançou “O Estranho de Um Mundo Perdido” (X: the Unknown), cuja ideia inicial seria que fosse uma continuação de “Terror Que Mata”, mas como o escritor Nigel Kneale não havia liberado o uso do personagem, os realizadores optaram por utilizar uma história similar com o roteiro de Jimmy Sangster. E o Prof. Quatermass foi apenas substituído pelo cientista Dr. Royston, que possui as mesmas características.
(Juvenatrix – 16/09/15)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Cadáver Atômico (Creature With the Atom Brain, 1955)


Produção de baixo orçamento com fotografia em preto e branco, da “Clover Productions”, de Sam Katzman, vindo diretamente dos nostálgicos anos 50 do século passado, um período repleto de bagaceiras divertidas de horror e ficção científica com histórias absurdas. Sendo nesse caso explorando os efeitos destrutivos do uso indevido da energia nuclear, durante a paranóia da guerra fria entre as potências da época, Estados Unidos e antiga União Soviética, logo após o final da Segunda Guerra Mundial. A direção é de Edward L. Cahn, cineasta conhecido por inúmeras tranqueiras como “Os Zumbis de Mora Tau” (57), “Invasion of the Saucer Men” (57), “A Maldição do Homem Sem Cara” (58), “A Ameaça do Outro Mundo” (58) e “Invasores Invisíveis” (59). O roteiro é do escritor alemão Curt Siodmak, colaborador de vários filmes da “Universal”, e no elenco temos Richard Denning, que esteve em “O Monstro da Lagoa Negra” (54), “Invasão do Mundo” (54), “Day the World Ended” (55) e “O Escorpião Negro” (57), entre outras pérolas do cinema fantástico bagaceiro. 
Em “O Cadáver Atômico”, um “cientista louco” alemão, Dr. Wilhelm Steigg (Gregory Gaye), realiza experiências radioativas com o envio de ondas curtas de radio para o cérebro de pessoas recentemente mortas, cujos cadáveres foram roubados, permitindo o movimento involuntário de seus corpos, fazendo-as andar como zumbis, controladas à distância e alimentadas por energia atômica. Com força sobre humana, essas “criaturas com cérebro atômico” do sonoro título original, transformam-se em monstros assassinos a serviço de um perigoso gangster italiano, Frank Buchanan (Michael Granger), que foi deportado para seu país de origem. Uma vez sendo o financiador das experiências do cientista, decide trazê-lo da Europa para os Estados Unidos com o objetivo de vingar-se de todos seus delatores e inimigos do passado. Para combater seu plano maquiavélico, surge uma dupla de policiais formada pelo chefe do laboratório Dr. Chet Walker (Richard Denning), e seu amigo Capitão Dave Harris (S. John Launer). Eles investigam os misteriosos assassinatos e descobrem a presença de elementos radiativos nas cenas dos crimes e com a ajuda do exército tentam encontrar o laboratório do cientista alemão e impedir a invasão dos cadáveres atômicos. 
O filme tem a curiosidade de apresentar mortos que voltam a caminhar entre os vivos, despertados pela ciência com o uso da radioatividade, diferente dos métodos anteriores de criação de zumbis pela magia negra. Eles também não são comedores de carne e putrefatos, algo que se tornaria comum depois do clássico “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), de George Romero. Mas, são criaturas frias e assassinas, com seus cérebros controlados por terceiros para a violência. Não poderia faltar o sinistro laboratório do “cientista louco” e seus aparelhos sofisticados para a época, e hilários nos dias atuais. As cenas de mortes também são bem datadas, exageradas na ingenuidade e inverossimilhança quando comparados aos filmes violentos de sessenta anos depois. Porém, é justamente esse tipo de roteiro absurdo, aliado a todos esses fatores das antigas produções de baixo orçamento, que despertam o interesse e a diversão pelas tranqueiras do cinema fantástico da década de 1950.
(Juvenatrix - 08/02/15)