sábado, 15 de fevereiro de 2020

Perelandra


Perelandra (Perelandra), C. S. Lewis. Tradução de Waldéa Barcellos. 302 páginas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. Lançado originalmente em 1943.

Perelandra (Viagem à Vênus) é o segundo romance da Trilogia Cósmica, ou de Ransom. Como o próprio autor informa no início do livro pode ser lido de forma independente. Mas se feito na sequência faz mais sentido para acompanharmos o desenvolvimento da trilogia criada por Lewis.
Depois de voltar de Marte (Malacandra para os habitantes do planeta) Ransom retoma seus afazeres acadêmicos, mas sabe que pode ser convocado pelos eldilas – espíritos evoluídos vistos em Malacandra – para cumprir uma missão para a evangelização cósmica, conforme já havia sido dito a ele em Além do Planeta Silencioso - resenha aqui. Em todo caso, ele é surpreendido com relação ao seu novo destino, pois é levado a Vênus (Perelandra), e não sabe o que deve fazer exatamente por lá.
Ransom se depara com um mundo novo, em processo de construção, e com uma extraordinária vitalidade em seu ecossistema. Tal característica já havia sido vista de forma bela em Malacandra, mas aqui estamos diante de uma natureza (fauna e flora) em intensa transformação. Assim, a maior parte da superfície é aquática, circundada por milhares de pequenas ilhas flutuantes, onde se desenvolve a vegetação e formas de vida animal.
Após explorar parte desta natureza Ransom conhece a Dama Verde, uma mulher misteriosa, com o qual vai travar longos diálogos, em torno de se situar neste mundo, trocar informações e partilhar valores. Na verdade, a mulher – nua, assim como Ransom, levado assim ao planeta – (depois renomeada de Rainha) é a primeira e única do novo mundo. Ela procura reencontrar o Rei, de quem se perdeu em meio às turbulências climáticas. Mas Ransom só percebe o propósito de seu contato, quando aterrissa no planeta o físico Weston, justamente um dos dois sujeitos que o sequestraram para Malacandra.
Weston é o antípoda de Ransom: egoísta, materialista, inescrupuloso, e cientista. Pretende ocupar Perelandra com o objetivo de liderar uma colonização humana. Aqui se estabelece uma polêmica, pois é dado a entender de que por meio do conhecimento científico, que supõe-se superior a outros, se justificaria a expansão humana em escala cósmica, mesmo que prejudicando o destino de outras formas de vida. É provável que tenha havido menos que uma crítica ao desenvolvimento científico em si – como Lewis passou a ser acusado a partir deste livro, especialmente nos Estados Unidos –, mas ao uso instrumentalizado e politicamente imperialista da ciência e tecnologia. Afinal, ele era irlandês, parte da cultura anglo-saxã responsável por colonizar povos em todo o mundo durante alguns seculos. (E não deixa de ser irônico de que no momento em que o livro foi escrito o Reino Unido estava quase por cair sob o império nazista).
Ao longo do livro haverá um embate entre as ideias pacíficas e humanistas de Ransom e as egoístas e bélicas de Weston, em torno da figura da Dama. Ora, como já deve estar claro, Perelandra é uma alegoria sobre o Gênesis, seção do Velho Testamento. A Dama representa Eva, e o Rei, o primeiro homem, Adão. A missão de Ransom, então, é evitar que o novo mundo, belo e inocente, seja corrompido, como acabou acontecendo com a Terra (Thulcandra, para os eldilas). Pois através da construção de um novo Paraíso, que não se deixe levar pelas tentações do prazer, da vaidade e do poder, Perelandra possa se tornar o que Thulcandra poderia ter sido. Um mundo que sucumbiu a todos os tipos de pecados, moralmente corrompido e espiritualmente decaído e, por isso, silencioso, isolado da comunhão celestial. Por outro lado, é interessante pensar que embora Lewis não tivesse conhecimento de como Vênus é na realidade, possa existir uma ironia embutida: a Terra, um paraíso em termos de natureza sucumbiu ao vício e ao pecado do homem; Vênus, um inferno em termos de natureza, deve emergir como o novo paraíso da virtude e da bondade.
Assim como no primeiro da trilogia este livro também tem uma estrutura metalinguística embutida, pois quem narra os feitos de Ransom não é ele em primeira pessoa, mas um amigo dele que não é ninguém menos que o próprio C. S. Lewis. Outro aspecto curioso, é que Ransom viaja a Vênus num caixão, como se morresse e fosse renascer num novo mundo. Ainda mais por ser Perelandra, é como se Ransom despertasse no Paraíso. Aqui, como se percebe, não há nenhuma preocupação racional ou tecnológica em como justificar a viagem interplanetária. Ao invés, ressalta-se a opção mais espiritualista, ou mesmo sobrenatural.
Esta é a segunda edição em língua portuguesa de Perelandra, e a primeira no Brasil. O livro foi publicado em Portugal pela Coleção FC Europa-América, no. 179, em 1991, como Perelandra Viagem a Vênus – que foi o título que recebeu numa das edições publicadas nos Estados Unidos nos anos 1950. Mais recentemente, em 2019 a editora de livros cristãos Thomas Nelson publicou Perelandra, junto com os outros dois livros da trilogia: Além do Planeta Silencioso (Out of the Silent Planet) e Aquela Força Medonha (That Hideous Strenght).
Este romance tem uma discussão teológica cristã evidente, especialmente da metade para o final, e chega a ficar um pouco chato e cansativo, pois carece de ação e drama, ao se concentrar demais na discussão e depois no desdobramento das opções apresentadas ao Rei e à Rainha, de que rumo seguir na construção do novo mundo. Apesar de ser um bom prosador Lewis acaba exagerando, tornando o livro quase que uma peça de defesa proselitista do cristianismo. Mesmo assim, no conjunto, apesar destes problemas, Perelandra vale a leitura, em termos da riqueza filosófica que apresenta, das discussões sobre a condição moral da humanidade e, não menos significativo, da narrativa da construção de um mundo rico e diversificado, cheio de imagens belíssimas.

Marcello Simão Branco

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein, 1974)

“Das mais escuras trevas, uma súbita luz brilhou sobre mim. Tão brilhante e maravilhosa e ainda assim, tão simples. Trocar os pólos do positivo para o negativo e do negativo para o positivo. Eu acabo de descobrir o segredo de dar a vida. Não, é muito mais. Eu me tornei capaz de dar vida à qualquer matéria morta.” – Barão Victor Frankenstein


O famoso comediante Mel Brooks sempre gostou de satirizar o cinema fantástico em filmes divertidos como “S.O.S. – Tem Um Louco Solto no Espaço” (Spaceballs, 87), uma paródia de ficção científica principalmente à série “Star Wars”, ou “Drácula, Morto Mas Feliz” (Dracula: Dead and Loving It, 95), uma gozação aos filmes de vampirismo. Mas, inegavelmente, sua grande obra-prima foi produzida bem antes, em 1974, com “O Jovem Frankenstein” (Young Frankenstein), fotografado em preto e branco numa grande e muito honrada homenagem aos filmes de horror antigos dos anos 30 da “Universal”, especialmente os clássicos “Frankenstein” (31) e “A Noiva de Frankenstein” (35), inspirados no famoso livro de Mary Wollstonecraft Shelley. 
A história inicia com o jovem neurocirurgião Dr. Frederick Frankenstein (Gene Wilder) dando aulas nos Estados Unidos sobre o cérebro humano. Ele faz questão de pronunciar seu sobrenome de forma diferente para não haver nenhuma ligação com seu avô Victor Frankenstein, que foi conhecido por roubar cadáveres para utilizar em experiências de criação de vida artificial em seu imponente castelo gótico na Transilvânia, Romênia. Após uma demonstração prática sobre os estímulos nervosos com resultados hilariantes com o Sr. Hilltop (Liam Dunn) como cobaia, o Dr. Frankenstein recebe a visita de Gerhard Falkstein (Richard Haydn), que viajou da Europa especialmente para entregar o testamento de seu avô.
Frederick decide então ir até a Transilvânia conhecer o castelo de seus ancestrais, se despedindo de sua noiva Elizabeth (Madeline Kahn) na estação ferroviária, numa sequência super hilária com a preocupação exagerada da mulher em não manchar o batom dos lábios, despentear o cabelo ou amassar a roupa. Uma vez chegando em seu destino, o jovem Frankenstein encontra o corcunda Igor (Marty Feldman), que se apresenta como seu ajudante geral e guia para o castelo, além também da bela Inga (Teri Garr), que se tornaria sua assistente de laboratório.
Chegando ao castelo, eles são recebidos pela velha arrumadeira Frau Blucher (Cloris Leachman), que os aguardava com ansiedade e revela que tinha um caso amoroso com o falecido Barão Victor Frankenstein. Uma vez explorando os incontáveis e imensos aposentos do castelo, Frederick encontra o antigo laboratório do avô e também sua biblioteca particular de onde resgata um livro com as explicações de suas experiências em reanimar carne morta. Mudando de opinião e agora obcecado pela possibilidade de reativar o trabalho de seu avô, Frederick concentra seus esforços para dar vida a um cadáver de um criminoso enforcado, roubado de seu túmulo, gerando um monstro (Peter Boyle, que apareceu como um sinistro vilão em “Scooby-Doo 2: Monstros à Solta).
Como o cérebro implantado na criatura era “anormal”, o monstro foge e causa alguns tumultos nos arredores do castelo, despertando a ira dos aldeões, sob o comando do Inspetor de Polícia Kemp (Kenneth Mars), que decidem invadir o laboratório no momento em que o Dr. Frankenstein fazia uma experiência com sua criatura tentando compartilhar suas mentes.
"O Jovem Frankenstein” foi filmado em preto e branco com a intenção acertada de reconstruir aquele clima típico das produções antigas da “Universal”, em especial os filmes impagáveis da década de 30. E o diretor Mel Brooks conseguiu com êxito o objetivo, pois sua obra é uma grande homenagem com inteligência e muito bom humor aos primeiros anos do cinema de horror falado, sobretudo os filmes inspirados na clássica história “Frankenstein”, escrita em 1818 por Mary Shelley.
São muitos os momentos super divertidos ao longo de todo o filme, mas os destaques são uma cena hilária envolvendo o Dr. Frankenstein e o corcunda Igor desenterrando um caixão com um enorme cadáver num cemitério. Frankenstein, cansado pelo esforço em levantar o pesado caixão de sua cova cheia de terra, reclama da situação desfavorável em que se encontra. Já Igor, responde que não estava tão ruim, pois poderia ser pior, poderia estar chovendo. Mal terminou de falar, e trovões aparecem trazendo uma chuva forte. Logo em seguida, quando estão tentando levar o caixão para o castelo, são surpreendidos por um policial (Richard A. Roth), que decide conversar com eles, obrigando-os a terem que simular um cumprimento com um aperto de mão do cadáver.
Todas as cenas com o inspetor Kemp são muito engraçadas, principalmente quando ele decide falar de forma super rápida e incompreensível, e quando todos não entendem nada do que falou, ele repete pausadamente. Aliás, como ele tem o braço direito artificial feito de madeira, ele o utiliza para uma série de atividades fora do comum como atear fogo no dedo para acender um charuto, ou usar seu braço como uma espécie de tora de madeira para os aldeões arrombarem a porta do castelo do Dr. Frankenstein.
O corcunda Igor, com seus olhos esbugalhados, também é responsável por vários outros momentos de bom humor, principalmente quando ele trocava sua corcunda de lugar, ora estando no lado direito do ombro, ora no esquerdo, e sempre que era questionado sobre a corcunda, ele fingia não reconhecer que tinha uma anomalia física. Como quando num dos primeiros encontros com o Dr. Frankenstein, o médico lhe diz que é um ótimo cirurgião e que poderia operar a corcunda, porém sua existência foi logo negada por Igor.
Já a arrumadeira do castelo Frau Blucher, também não ficava muito atrás nas cenas engraçadas, pois o roteiro reservou especialmente para ela o desagradável fardo de ter que suportar um incômodo e estridente relinchar de cavalos toda as vezes em que o seu nome era pronunciado.
Abaixo seguem várias curiosidades sobre “O Jovem Frankenstein” e seus bastidores, e que valem a pena serem registradas.
Os cenários, principalmente o imponente castelo, são recriações muito próximas dos originais utilizados nos filmes da “Universal”, sendo que inclusive os instrumentos e todo o maquinário elétrico e equipamentos do laboratório do Dr. Frederick Frankenstein são exatamente os mesmos criados por Kenneth Strickfaden para os clássicos dos anos 30 (com um agradecimento especial nos créditos de abertura).
A cena onde o monstro está carregando Elizabeth desacordada à noite por uma sinistra floresta é uma referência e homenagem ao clássico “O Monstro da Lagoa Negra” (54), de Jack Arnold, que tem uma sequência similar envolvendo o monstro do título e a bela Kay, a mocinha interpretada por Julie Adams.
No início do filme, ouvem-se treze badaladas do relógio, algo difícil de perceber a não ser que se contem todas as batidas pacientemente. Aliás, também perto do início, um casal de passageiros num trem fala exatamente as mesmas palavras em inglês (quando simulam a passagem por uma estação em New York) e também em alemão (quando passam por uma estação na Transilvânia).
O estridente e ameaçador uivo do lobisomem que se ouve quando o Dr. Frankenstein, sua assistente Inga e o corcunda Igor estão chegando ao castelo numa carruagem, foi feito pelo próprio diretor Mel Brooks, que aliás também foi o autor de um grito imitando um gato sendo atingido por um dardo arremessado de forma errada pelo Dr. Frankenstein, quando tentava acertar um tabuleiro como alvo.
Quando o Dr. Frankenstein localiza a biblioteca particular de seu avô, Victor, num aposento secreto no imenso castelo, ele encontra um livro escrito por seu avô intitulado “How I Did It” (Como eu Fiz), que é uma brincadeira do roteiro ao mencionar a existência de um registro que revelava como Victor Frankenstein conseguiu reanimar carne morta, um fato que não está revelado no livro original de Mary Shelley.
Naquela cena onde o monstro encontra na floresta uma garotinha, Helga (Anne Beesley), numa referência à mesma sequência do filme de 1931 de James Whale, eles ficam jogando flores num lago, e no momento em que a menina diz não ter mais flores para jogar, perguntando o que poderia então ser arremessado na água (para quem conhece o filme da Universal sabe o que o monstro escolheu para jogar no lago, numa cena que chocou o público na época e que ficou censurado por muitos anos), a criatura faz uma expressão de deboche para a câmera.
Quando o monstro faz uma visita espontânea ao homem cego, e depois de não ter obtido sucesso com a sopa quente, vinho e um charuto oferecidos por ele, numa série antológica de trapalhadas totalmente hilariantes, o monstro decide fugir com raiva e em seu encalço o homem cego ainda lhe oferece um cafezinho (essa última parte foi improvisada pelo ator Gene Hackman, pois não estava no roteiro).
O primeiro cérebro escolhido para a criatura era de um tal de Hans Delbruck, que no filme era descrito como cientista e santo, homem de grande inteligência e ideal para fazer parte do monstro, e na realidade Delbruck era mesmo um historiador e professor alemão de grande relevância nas áreas de economia e política.  
Numa das cenas finais, Elizabeth utiliza um cabelo igual ao da noiva do monstro no filme de 1935, quando a atriz Elsa Lanchester tinha um penteado com enormes mechas brancas no cabelo, que foi inspirado em antigas esculturas da rainha egípcia “Nefertiti”.       

Desde o dia fatídico como lama fedorenta que arraste-se do mar e grita paras as estrelas. Eu sou o Homem. Nosso maior temor tem sido saber de nossa mortalidade. Mas esta noite, vamos fazer a ciência desafiar e enfrentar a terrível face da morte. Esta noite, vamos chegar até as nuvens. Nós vamos imitar o terremoto. Vamos comandar os trovões. E conhecer as profundezas da impenetrável natureza.”
discurso do Dr. Frederick Frankenstein, momentos antes da experiência em conceber vida à criatura

O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein, Estados Unidos, 1974). 20th Century Fox. Preto e Branco. Duração: 106 minutos. Direção de Mel Brooks. Roteiro e história de Gene Wilder e Mel Brooks, inspirados em personagens da novela de Mary Wollstonecraft Shelley. Produção de Michael Gruskoff. Fotografia de Gerald Hirschfeld. Música de John Morris. Edição de John C. Howard. Direção de Arte de Dale Hennessy. Desenho de Produção de Dale Hennesy. Maquiagem de Ed Butterworth e William Tuttle. Efeitos Especiais de Hal Millar e Henry Millar Jr.. Elenco: Gene Wilder (Dr. Frederick Frankenstein), Peter Boyle (O Monstro), Marty Feldman (Igor), Madeline Kahn (Elizabeth), Cloris Leachman (Frau Blucher), Teri Garr (Inga), Kenneth Mars (Inspetor de polícia Hans Wilhelm Friederich Kemp), Richard Haydn (Gerhard Falkstein), Gene Hackman (Harold, o homem cego), Liam Dunn (Sr. Hilltop), Danny Goldman (Estudante de medicina), Oscar Beregi Jr., Arthur Malet, Monte Landis, Rusty Blitz.

(Juvenatrix - 30/12/04)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O Planeta dos Vampiros (Planet of the Vampires, Itália, 1965)



“Eles ousaram ir para além do espaço conhecido, e pelo terror desconhecido.”
‘O terror atormenta as galáxias! E o Universo estremece!”
“Um suspense arrebatador!”

A utilização de frases de efeito como essas acima, nitidamente exageradas, era uma estratégia comum de marketing para chamar a atenção do público nos antigos filmes de horror e ficção científica. Elas foram extraídas do trailer de “O Planeta dos Vampiros” (Terrore Nello Spazio / Planet of the Vampires), uma divertida bagaceira italiana de 1965.
A direção é do especialista e mestre do Horror gótico Mario Bava (1914 / 1980), cultuado pelo significativo legado no cinema fantástico, com preciosidades como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror”, “O Chicote e o Corpo” (ambos de 1963) e “O Ciclo do Pavor” (1966), entre outros, e foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”. Antes, já havia sido lançado por aqui na época do VHS pela “LK-Tel Vídeo”.
Quando se pensa num filme de Ficção Científica com elementos de Horror, logo vem à mente “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott, que ficou eternizado na cultura pop, com toda uma franquia composta por vários filmes, quadrinhos, videogames e outros produtos, tornando-se referência para uma infinidade de filmes seguintes. Mas, um fato relevante que deve ser evidenciado é que muitos anos antes já havia sido lançado “O Planeta dos Vampiros”, um exemplo genuíno de FC com Horror e que certamente serviu de inspiração para “Alien”, devido aos elementos similares.
O filme é baseado na história “One Night of 21 Hours”, de Renato Pestriniero, publicada na revista “Interplanet” # 3. No roteiro de Ib Melchior temos duas naves espaciais, Argos e Galliot, em missão rumo ao nebuloso planeta Aura, para investigar misteriosos sinais eletrônicos que indicavam serem emitidos por alguma raça alienígena inteligente. Porém, chegando ao planeta, numa aterrissagem turbulenta, a tripulação da Argos sofre um ataque temporário de loucura e violência, com os astronautas tentando matar uns aos outros. Após recobrarem o controle de suas ações, eles tentam entender o mistério e descobrem que seus companheiros da Galliot também pousaram no planeta, mas estão mortos num ataque descontrolado de fúria entre eles.
O Capitão Mark Markary (o americano Barry Sullivan) e outros membros da tripulação como a oficial de comunicações Sanya (a brasileira Norma Bengell) e o engenheiro Wess Wescant (o espanhol Ángel Aranda), tentam consertar a nave para retornar ao espaço, mas enfrentam uma série de crises crescentes com os tripulantes mortos da Galliot saindo de seus túmulos e uma terrível ameaça invisível dos habitantes hostis do planeta.
“O Planeta dos Vampiros” é um daqueles divertidos filmes que representam muito bem o cinema antigo de ficção científica e horror com produção de baixo orçamento, desde a interessante história aos efeitos especiais datados, com a utilização de miniaturas e truques de perspectiva, numa época sem computação gráfica e com grande valor para a criatividade. O ambiente interno da nave é espaçoso, com grandes áreas livres e painéis repletos de interruptores, sinaleiros e botões com luzes coloridas, numa representação típica da época. E a estética externa da nave também é bem simples e rústica. Os uniformes dos astronautas são estilosos e exagerados no couro preto. A superfície do planeta Aura é fantasmagórica, envolta em névoa densa e rochas coloridas para todos os lados, evidenciando um sentimento perturbador de um ambiente alienígena, tudo encenado num estúdio vazio e preenchido com fumaça e luzes coloridas.
Em determinado momento, o Capitão Markary e sua colega Sanya encontram os destroços de uma nave colossal e os ossos enormes de seus tripulantes, sendo um dos destaques do filme quando eles investigam o interior dessa nave misteriosa.  
Antigamente não havia tanta preocupação com revelações e os chamados “spoilers” não tinham a importância de hoje, com a internet e as redes sociais proliferando informações. Esse fato é bem exemplificado no trailer, que traz um “spoiler” gigantesco sobre os alienígenas e suas intenções. Outra curiosidade interessante é que seria bem mais apropriado que o nome do filme fosse “O Planeta dos Zumbis”, pois os astronautas que abandonam suas covas estão mais para mortos vivos do que vampiros. O título foi escolhido para a versão americana da “American International”, produtora dos lendários Samuel Z. Arkoff e James H, Nicholson.
A narrativa é mais lenta, uma característica comum nos filmes mais antigos em oposição ao ritmo frenético, acelerado e barulhento das produções atuais carregadas de efeitos em CGI, e para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro do passado esse fluxo narrativo mais cadenciado é melhor e mais desejável.
“O Planeta dos Vampiros” é altamente recomendável, tem o mestre Mario Bava e um desfecho pessimista com final surpresa memorável.               

Diário de bordo do Capitão:
“Um capitão não deveria ter medo. E eu confesso agora, a quem estiver ouvindo, que hoje, agora mesmo, eu estou com medo. Minha tripulação não deve ficar sabendo. Devo mantê-la ocupada. Não devem saber que a situação é cada vez mais desesperadora à medida que passam os dias. Fala o Capitão Markary, da nave Argos, no planeta Aura, ano...

(Juvenatrix – 22/01/20)



sábado, 18 de janeiro de 2020

Ômega, o Planeta dos Condenados


Ômega, o Planeta dos Condenados (The Status Civilization), Robert Sheckley. Capa de Roberto de Sousa Causo. Tradução de Donald Garschagen. 147 páginas. São Paulo: Edições GRD, coleção Nova Ficção Científica GRD, no. 3, 1989. Lançamento original em 1960.


Um homem desperta da inconsciência em uma sala escura e fechada sem saber onde está e, pior, sem saber quem é. Imagina estar num hospital, mas fica ainda mais desorientado quando lhe dizem que está numa prisão. Na verdade é uma nave espacial a caminho do planeta Ômega, que abriga os condenados da Terra, onde poderão recomeçar suas vidas.
Assim começa o romance curto Ômega, o Planeta dos Condenados (The Status Civilization), do escritor norte-americano Robert Sheckley (1928-2005), um dos mais talentosos e inteligentes surgidos nos anos 1950, logo após a Golden Age dos anos 1940 e antes da emergência da New Wave nos anos 1960.
O prisioneiro de número 402 é informado que seu nome é Will Barrent, e foi condenado pelo crime de assassinato. E da mesma forma que os outros não se lembra de sua vida pregressa na Terra e muito menos sobre as circunstâncias de seu crime.
Eles devem recomeçar uma nova vida, mas logo descobrem que não será fácil. Isso porque Ômega é socialmente dividido em castas muito rígidas, com os mais antigos tendo mais poderes e privilégios. Para conseguir ascender é preciso se defender dos riscos iminentes de serem mortos, pois as leis e os costumes permitem que se cometam assassinatos para subir de casta.
Barrent não terá paz e assim que chega tem de se defender de uma tentativa de assassinato. Mata seu oponente e assim ascende uma casta, ficando com os bens e os negócios de seu oponente. Passa a atuar numa loja de venenos, frequentada principalmente por mulheres, em franca minoria, cerca de um sexto da população do planeta. Aliás, este é um aspecto que poderia ser mais explorado, pois numa situação como esta as mulheres tenderiam a ser muito valiosas e disputadas. Ou mesmo poderosas.
Por meio da adaptação de Barrent é exposto o sistema social de Ômega, bastante cruel e desumano, no qual matar é incentivado. Por isso a expectativa de vida de quem chega é de apenas três anos. Quem burla as leis também é premiado, desde que sobreviva às punições previstas.
Numa noite Barrent é surpreendido com a visita de um sacerdote, mas não é o que parece. Ele representa o Mal, um culto a uma entidade chamada O Negro. Através de rituais de missas negras e com o sacrifício eventual de garotas virgens – muito raras – ele é exaltado como ser supremo da representação dos pecados humanos. Outra instituição curiosa é a Casa dos Sonhos, onde as pessoas são incentivadas a passarem algumas horas consumindo drogas. Barrent comparece aos dois lugares, mas não se sente à vontade em nenhum. Na verdade ele não aceita ter cometido o crime que lhe é imputado pois, de índole pacífica, não imagina como possa ter matado alguém. Para conseguir respostas ele visita o bairro dos mutantes, na periferia de Tetrahyde, a cidade principal de Ômega. Alguns dos mutantes têm a capacidade de vidência passada e, através de uma mulher, ele descobre detalhes sobre as circunstâncias de seu crime.
Sua rejeição à religião, às drogas e a visita aos mutantes, segregados do resto da sociedade, rende a Barrent a condenação a enfrentar Max, uma máquina assassina dos quais pouquíssimos escapam com vida. Colocado numa arena com a presença de uma multidão eufórica, ele tem de usar de toda sua habilidade para não morrer – como mostrado acima a capa do livro representa este duelo –, um dos momentos mais marcantes do livro. Contudo, percebe que não haverá mais paz, pois de uma prova ele é endereçado a outra ainda mais difícil. Nesta escalada ele procura fugir e descobre a existência de uma resistência secreta, formada por condenados por crimes não violentos, especialmente perseguidos políticos da Terra. Com isso, passa a ter mais um objetivo, além de sobreviver e desvendar seu passado. Uma tentativa de reverter o sistema cruel de Ômega e voltar à Terra.
Infiltrado numa das naves que trazem novos prisioneiros Barrent volta ao seu planeta natal. O objetivo é descobrir como ele está e, se for o caso, fazer contato com uma possível oposição com o intuito de juntar forças contra a opressão do sistema. E, de novo, ele fica chocado. Agora com o que se tornou a Terra, que há cerca de 800 anos estabeleceu um governo mundial, mas sem espaço para qualquer outra forma de expressão ou comportamento senão aquele aprovado pelo Estado, que cuida das leis e punições, enquanto máquinas e robôs gerenciam a administração e a economia. Os que se opõe ou cometem algum crime previsto são deportados para Ômega. Mas Barrent descobre que os terráqueos estão decadentes, vivem numa sociedade em anomia e sem objetivos. Desde a infância as pessoas são doutrinadas – como numa lavagem cerebral – a serem obedientes e conformadas, e mesmo para aqueles que se rebelam e são condenados à Ômega, há uma proteção final para preservar a utopia vivida na Terra.
Como se percebe é um livro bastante crítico e sofisticado do ponto de vista social e político. Embora curto, apresenta um painel bastante complexo das sociedades dos dois planetas, talvez facilitado com o recurso engenhoso de expor tudo por meio de acontecimentos na vida do protagonista, o que torna a narrativa ágil e cheia de suspense, pois Barrent enfrenta desafios o tempo todo em sua luta para sobreviver e descobrir sobre o seu passado.
Histórias sobre planetas prisões não são incomuns na FC, como Regresso a Zero (Retour a “0”, 1956), de Stefan Wul, Revolta na Lua (The Moon is a Harsh Mistress, 1966), de Robert A. Heinlein, e Estação dos Exilados (Hawksbill Station, 1968), de Robert Silverberg. Mas Ômega talvez tenha a reflexão social e política mais aguda, mostrando um mundo que destrói a identidade e a individualidade. Poderia ser visto como uma metáfora anti-comunista, já que foi escrito em plena Guerra Fria. Mas acredito que seja mais do que isso, pois reflete em termos amplos sobre a condição de humanidade, afinal descaracterizada na ditadura homogenizadora da Terra e na violência institucionalizada de Ômega. Pois uma mostra a decadência e outra a barbárie. Como indica o título original é a sombria condição a que chegou a civilização.
Antes deste romance Sheckley só teve publicado no Brasil sua excepcional coletânea Inalterado por Mãos Humanas (Untouched by Human Hands), no distante ano de 1970 pela editora Brasiliense. Nesta onda favorável destes últimos anos de publicação de autores estrangeiros de FC no país, Robert Sheckley é um nome que se impõe a ser redescoberto, pela sua qualidade literária refinada e sua visão de mundo satírica e pessimista. Um autor necessário, e que tem em Ômega, o Planeta dos Condenados uma pequena obra-prima.

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O livro do juízo final, Connie Willis

O livro do juízo final (Doomsday book), Connie Willis, 573 páginas, tradução de Braulio Tavares. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Um dos mais explosivos temas de debate sobre ficção científica no Brasil do século 21 é a representatividade das mulheres no gênero. Mas isso não é de hoje. Desde os primeiros eventos do gênero no país, ainda nos anos 1980, já se trata do assunto, com painéis formados exclusivamente por escritoras e a produção de antologias feministas. A diferença entre o antes e o agora é que a vontade de criar uma discussão quantitativa parece ser mais importante que as obras em si. E assim, tudo aquilo de que realmente vale a pena falar fica para segundo plano. E isso é muito injusto com as autoras que tanto contribuíram para o amadurecimento do gênero, tanto no Brasil quanto no mundo.
Um dos muitos títulos recorrentes nessa discussão recente é O livro do juízo final, da escritora  americana Connie Willis, publicado em 1992 mas que só chegou ao Brasil em 2017, com tradução de Braulio Tavares para o selo Suma das Letras, da editora Companhia das Letras, primeiro de uma série sobre as aventuras dos historiadores de Oxford.
Contudo, Willis não é uma novidade, mas uma saudosa conhecida dos leitores do gênero no Brasil. Isso porque, durante os poucos anos que a revista Isaac Asimov Magazine teve edição brasileira pela editora Record, nos anos 1990, a autora foi bastante publicada e muito bem avaliada pelos leitores. Esperava-se, a época, que a própria editora lançasse romances dos autores vistos ali, mas isso praticamente não aconteceu, com exceção de Charles Sheffield, outro ótimo e frequente autor da IAM que teve os livros Maré de verão e Divergência traduzidos pela Record. Com o pranteado fim da revista, em sua edição 24, muitos desses excelentes autores, que estavam na linha de frente da fc mundial do final no século, acabaram esquecidos e só agora voltam a pauta.
Willis tem uma fc emotiva e introspectiva, e essas características estão presentes em O livro do juízo final, que conta com personagens muito bem elaborados, envolvimentos profundos e sem pieguismo, e uma narrativa naturalista que deixa tudo muito crível, por mais absurdo que seja. Lembro-me vividamente da novela "O último dos winnenbagos", na qual um casal de idosos viaja por estradas americanas futuristas em um anacrônico motorhome.
O título O livro do juízo final é algo enganoso. Enquanto eu carregava o livro por aí, durante a leitura, muita gente se espantava e acreditava que se tratasse de um livro religioso e escatológico. O fim do mundo é um tema que apavora a maior parte das pessoas mas, ainda que seja um título muito bom e adequado, não anuncia perfeitamente o que o texto traz.
A história acompanha a viagem de Kivrin Engle, estudante da universidade de Oxford – provavelmente uma doutoranda ou algo do gênero – à idade média, mais exatamente ao ano de 1320, a partir de uma tecnologia de viagens no tempo que parece bastante comum em 2050, época em que parte da história se passa. O livro começa já nos preparativos finais da viagem, que não é consenso entre os doutores ligados ao departamento de História da universidade. Sr. Dunworthy, uma espécie de mentor de Kivrin, discorda do método apressado do departamento Medieval que está adiante da missão e tenta suspender a viagem por todos os meios, mas é voto vencido. Willis desfralda aqui o ambiente conflituoso que caracteriza o campo acadêmico em que os doutores lutam por espaço para suas teorias, sem medir as consequências de seus atos. Esse é o tema favorito da fc desde Frankenstein e aqui segue mais ou menos o mesmo caminho. Porque, é claro, alguma coisa vai dar muito errado.
Pouco depois da máquina ser acionada, uma virose altamente contagiosa surge na Londres futurista e o foco parece ser justamente o laboratório do qual Kivrin partiu. Enquanto os cientistas e técnicos ligados a missão adoecem um após o outro, com febres altas e delírios, Kivrin segue sua incursão ignorando o que acontece em seu tempo. Porém, como ela também havia contraído a doença, isso vai trazer uma série de imprevistos à missão e pode mesmo levá-la ao completo desastre. Sua esperança – que ela na verdade não tem conhecimento – é a fidelidade canina de Dunworthy, o único que parece realmente interessado em resgatar Kivrin de sua missão desafortunada. Porque a doença não permitiu que todos os parâmetros de segurança fossem implementados e, a cada hora que passa, as chances de trazer Kivrin de volta ficam ainda piores.
Temos então, duas narrativas paralelas: uma em 2050, quando Dunworthy move céus e terra para resgatar Kivrin de uma tragédia da qual ele não duvida um só minuto, e outra em 1320, em que a pesquisadora convive numa paupérrima aldeia medieval igualmente assolada por uma virose ainda mais mortal.
Willis demonstra habilidade narrativa, tecendo uma trama muito bem ajustada que peca apenas em um aspecto: não previu o impacto da telefonia móvel nessa sociedade do futuro. Afinal, numa época em que se pode viajar com segurança pelo tempo ao ponto de ser rotina na maioria das instituições, era de se imaginar que a sociedade contasse com meios de comunicação um pouco melhores que a telefonia com fio. Talvez, em 1992, ainda não fosse possível antever o fenômeno, mesmo nos EUA, então é necessário, para o bom aproveitamento da história, que o leitor releve esse detalhe, mesmo que não seja assim tão pequeno.
Tirando esse obstáculo do caminho, trata-se de uma história de personagens apaixonantes com os quais sofreremos emocional e fisicamente, instalados nas duas épocas de forma muito bem estruturada. É possível visualizar tanto o campus de Oxford e seus arredores, como toda a geografia e arquitetura da vila medieval, sem que se perceba como Willis faz isso, uma habilidade dominada por poucos. Só por isso, mais a saudade da autora que pode ser enfim aplacada em nós, já vale a leitura. Mas há muito mais o que se aproveitar. Altamente recomendável.
Cesar Silva

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Nosferatu (Alemanha, 1922)


“À noite, Nosferatu crava suas presas em sua vítima e alimenta-se de seu sangue, seu infernal elixir da vida. Cuidado para que a sombra dele não sobrecarregue seus sonhos com medos horríveis.”

Um dos mais importantes estilos cinematográficos da história do cinema de Horror é o “Expressionismo Alemão”, que produziu filmes principalmente na década de 1920. Caracterizado pelo uso de cenários e personagens distorcidos, com maquiagem exagerada e uma atmosfera sombria e sobrenatural obtida por recursos criativos de fotografia, com a ideia de expressar o momento pessimista e depressivo que a Alemanha enfrentava após a derrota na Primeira Guerra Mundial (1914 / 1918).
E um dos mais significativos representantes desse estilo é “Nosferatu” (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922), mudo, fotografia em preto e branco, e direção de F. W. Murnau. Foi lançado em DVD no Brasil em 2019, numa edição especial da “Versátil”, junto com a versão de 1979 dirigida por Werner Herzog, e vários materiais extras interessantes.
Ambientado em 1838 na cidade alemã de Wisborg, o corretor de imóveis Hutter (Gustav V. Wangenheim) vai para a Transilvânia, nos Montes Cárpatos, visitar o misterioso Conde Orlok (Max Scherek) para oferecer a venda de uma grande casa abandonada, que fica situada em frente da sua própria casa em Wisborg. Ao chegar num vilarejo próximo ao castelo desolado de seu cliente, ele é alertado pelos aldeões amedrontados e supersticiosos para não continuar a viagem até o sinistro conde, mas Hutter ignora os avisos. Ele é recebido por Orlok, também conhecido como o temível vampiro Nosferatu, e concretiza a venda do imóvel, mesmo sentindo uma desconfortável atmosfera sombria no castelo e com seu anfitrião estranho. As coisas complicam ainda mais depois que Orlok vê uma foto da bela e jovem esposa de Hutter, Ellen (Greta Schroder), por quem ele fica obcecado.
Nosferatu viaja para Wisborg e seu navio amaldiçoado chega ao porto trazendo um caixão com a terra natal do conde, junto com uma invasão de ratos pestilentos e todos os tripulantes mortos, deixando a polícia local intrigada e preocupada com a disseminação da peste negra na cidade. O vampiro se instala na nova casa e com hábitos noturnos e aversão ao sol, passa a perseguir implacavelmente a inocente Ellen em busca de seu sangue imaculado.
“Nosferatu” é um dos principais filmes mudos de horror que ficou eternizado com algumas das cenas mais clássicas e marcantes na história do gênero. Temos “a sombra do vampiro subindo as escadas para o ataque no quarto de Ellen” (e que ilustra um dos cartazes do filme); “o navio fantasma chegando ao porto sem ninguém vivo, trazendo a praga para a cidade”, e “Nosferatu levantando-se vagarosamente de seu repouso no caixão que está no navio da morte”, entre outras.
O filme possui uma diferença significativa em comparação com outros do expressionismo alemão, ao realizar filmagens externas com planos sinistros de florestas fantasmagóricas e do castelo gótico, em vez de cenários artificiais criados em estúdios. Outro detalhe interessante que merece registro é a concepção do vampiro, num estilo mais folclórico e assustador, com orelhas pontudas, sem cabelos, olhos profundos, dentes pontiagudos e dedos longos com unhas imensas, diferente dos vampiros românticos e sedutores muito explorados nos filmes seguintes. Curiosamente, na versão lançada em DVD pela “Versátil”, ao contrário de outras versões, as cenas externas possuem uma coloração azulada para passar uma ideia de ação noturna, uma vez que o vampiro seria destruído pela luz do dia.
Na época do lançamento nos cinemas, o retorno financeiro foi abaixo do esperado com uma recepção fria do público, e a produtora “Prana” entrou em falência poucos meses depois, ao enfrentar também um processo judicial movido pela viúva do escritor irlandês Bram Stoker, que acusou o filme de ser baseado sem autorização no livro “Drácula”, escrito em 1897. As cópias de “Nosferatu” foram recolhidas e destruídas, mas por sorte o filme conseguiu ainda sobreviver “como um vampiro” e recebeu várias restaurações para serem apreciadas pela eternidade, agregando um valor inestimável para o cinema de horror gótico.      

Da semente do Belial veio o vampiro Nosferatu, que vive e se alimenta do sangue dos homens e, sem redenção, faz sua morada em horrendas cavernas, sepulturas e caixões repletos de terra amaldiçoada dos campos da Peste Negra.

 (Juvenatrix – 01/01/20)