quarta-feira, 5 de junho de 2024

Oneironautas, Fabio Fernandes & Nelson de Oliveira

Oneironautas
, Fabio Fernandes & Nelson de Oliveira, 88 páginas. São Paulo: Patuá, 2018. 

Um jogo muito popular nas ofinas de escrita criativa é o round robin, uma dinâmica que consite em, a partir de uma fragmento de texto inicial, um outro autor é estimulado a dar-lhe continuidade. Por sua vez, após ter escrito o trecho que lhe cabia, este passa a tarefa a outro autor e assim por diante até que o texto seja finalizado. Cada autor pode dar ao texto o encaminhamento que quiser, mas deve respeitar o que foi feito antes dele e deixar um gancho dramático que desafie o autor seguinte. O resultado dessa dinâmica costuma ser um tanto desconjuntado, mas isso é o que menos importa: o importante é exercitar a criatividade e a capacidade de improviso. 
Por isso é supreendente o resultado que Fabio Fernandes e Nelson de Oliveira obtiveram na curiosa noveleta Oneironautas, construída no molde de um round robin. É claro que o fato de termos aqui autores experientes e de muitos recursos, além de serem apenas dois, contribuiu para que a narrativa tivesse um padrão mais regular e os conceitos propostos não fossem abandonados pelo caminho. 
Fabio Fernandes é um autor da Segunda Onda da ficção cinetífica brasileira, que fez parte ativa do fandom dos anos 1980/1990, quando a produção nacional era praticada principalmente nos fanzines. Mais recentemente, Fernandes tornou-se referência no fandom digital e forte influenciador dos autores da terceira onda. Seu livro Back in the U.S.S.R., editado pela Patuá em 2019, figurou entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Entretenimento. Já Nelson de Oliveira é uma sumidade no ambiente mainstream literário, por duas vezes vencedor do Prêmio Casa de Las Americas. Ficou mais conhecido no ambiente dos fãs de ficção científica com o heterônimo Luiz Brás, que criou especialmente para assinar seus trabalhos nesse gênero. É um escritor consagrado, portanto. 
Logo, não se podia esperar pouco de Oneironautas. A história é um cabo de guerra entre os dois autores, cada um deles retesando a corda o mais que pode para derrubar o oponente. Mas quem vence a disputa são os leitores.
Oneironautas é uma viagem lisérgica na qual os dois autores, que se colocam como personagens da história, deslocam-se loucamente pelos sonhos um do outro, encontrando personalidades alternativas de si próprios e de seus acompanhantes, com as quais interagem em situações imprevisíveis e absurdas. Em alguns momentos a narrativa ganha ares de ficção científica, com divertidas referências à elementos da cultura pop, como personagens de desenhos animados, séries de tv, cinema e histórias em quadrinhos. 
De qualquer forma, a história é o que menos importa, já que o grande mérito de Oneironautas é o prazer estético formal da narrativa que, em muitos momentos, flerta com a poesia – embora nunca abandone o padrão de prosa – em quinze capítulos curtíssimos de trezentas palavras cada (uma regra do jogo), mais um epílogo, nomeados de forma nem sempre legível. A edição enxuta vem ilustrada por padrões gráficos que dão ao conjunto uma estética concretista que também remete a uma certa poética. A leitura pode ser tão rápida quanto se queira. Dá para ler o volume todo em pouco mais de meia hora, mas aí se perde boa parte da graça, que é vaguear sem freios pelos sonhos absurdos destes dois oneironautas.
Cesar Silva

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Não Ficções

 




Não Ficções: A Literatura, a Ficção Científica, os Escritores e seus Escritos, Braulio Tavares. Capa: Thaiz de Bruÿn Ferraz sobre imagem de Michelle Soares. 192 páginas. São Paulo: Bandeirola, coleção Ensaio e Crítica, 2023.

 

Este é o mais novo livro do superlativo Braulio Tavares: autor, compositor, pesquisador, editor, poeta, fã, e algumas coisas mais. A obra reúne 25 textos de não ficção publicados em jornais, revistas, coletâneas e fanzines ao longo de quatro décadas. Nesse sentido, podemos afirmar que representa um balanço significativo de sua produção e a amplidão de seus interesses. De fato, este último aspecto é impressionante. Braulio trafega com prazer e facilidade pelos mais diferentes e surpreendentes meandros da literatura, mas sobretudo com uma perspectiva da cultura popular, que é de onde ele teve formada sua base de cultura geral.

Mas o que mais sobressai é o talento em ligar e aproximar temas aparentemente distantes ou pouco explorados. Como entre a ficção científica e a literatura de cordel, como a obra de Tolkien com a de Guimarães Rosa, ao analisar as obras de autores com uma perspectiva de muitos interesses, como ele, os casos do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) e do inglês Colin Wilson (1931-2013) etc.

Eu já conhecia a maioria destes artigos, publicados previamente, como dito, mas é a primeira vez que eu os releio em conjunto. A própria organização dos textos do mais atual ao mais antigo contribui para a compreensão dos interesses do autor ao longo dos anos. E o efeito geral impressiona, pois ressalta a erudição, a inteligência e a grande variedade de assuntos e, o melhor, como o autor consegue dialogá-los de forma hábil e instigante. Talvez um leitor pouco habituado com suas associações entre o pop e o erudito fique meio estupefato. Mas não por discordar, e sim por ficar surpreso como é possível que o autor tenha descoberto, intuído estas possibilidades. E como elas iluminam de novas formas a compreensão dos assuntos em questão.

Há textos particularmente deliciosos que tive o prazer de reler depois de muitos anos como, por exemplo, “A Ficção Científica no Cordel” – em que se compara duas obras de FC escritas neste formato –, “The Pulp Jungle” – onde é resenhado o livro homônimo de Frank Gruber, este um autor dos anos 1930 e 1940 que conta os bastidores curiosíssimos da comunidade de escritores norte-americanos que tiravam seus ganhos em escrever para as revistas baratas publicadas nessa época –, o texto sobre Colin Wilson – a comparação com Isaac Asimov (1920-1992) é tão surpreendente quanto deliciosa, só lendo mesmo –, o artigo “Folhetim: uma Herança Misteriosa”.

Outros textos importantes são os que revelam a face do pesquisador obsessivo e apaixonado, como em “O Livro que Mudou a Minha Vida: The Encyclopedia of Science Fiction”, “Os Labirintos de Malba Tahan”, “Statira e Zoroastes: uma Fantasia Oriental de 1826”, “As Aventuras de Dick Peter” e “A Rainha do Ignoto: uma Utopia Romântica de 1899”.

Alguns textos eu tive o privilégio de publicar primeiro, no meu fanzine Megalon, como o de Dick Peter, o sobre Colin Wilson, “Em Defesa da Literatura Hard” – em que ele revisa o argumento sobre os conceitos de FC hard e soft de seu primeiro livro O que é Ficção Científica? (Brasiliense, 1986) –, e mais dois fascinantes: “O Efeito Hoen” e “A Folk Fantasy, de Manly Wade Wellman”. O primeiro sobre a história de um leitor que “previu” o que seria publicado numa edição de Astounding Science Fiction um ano depois; e o segundo, sobre a obra de um autor norte-americano que explora as tradições populares rurais do interior de seu país, o que permitiu que alguém com uma formação cultural semelhante – Braulio – pudesse fazer analogias com o interior do Brasil – em especial o sertão nordestino –, além de como o curioso percurso sobre os livros presentes nas casas de pessoas simples, país adentro, oferece uma rica informação sobre os gostos culturais de pessoas muitas vezes com pouca formação educacional formal.

Afora estes todos, há outros trabalhos instigantes, mesmo que o leitor não conheça profundamente o assunto, pois Braulio torna o tema interessante, pelo grande conhecimento e o prazer que compartilha com o leitor. É o caso, em especial, de “A Visão Cósmica em Drummond e Augusto dos Anjos”, onde compara a cosmogonia dos poemas “A Máquina do Mundo”, do primeiro e “As Cismas do Destino”, do segundo. Brilhante.

Ao ler este livro fiquei a pensar na proximidade artística e intelectual de Braulio Tavares com André Carneiro (1922-2014). Sim, porque ambos têm em comum o fato de serem leitores onívoros, tirando disso uma grande vantagem em sua criação artística, coisa mais rara para as gerações de escritores que vieram depois, mais focados em temas específicos. Ambos também praticaram a literatura de vários modos: a prosa, a poesia, o ensaio, o jornalismo, a crônica. Os dois enveredaram por artes que bebem da literatura, como a música (Braulio) e o cinema (Braulio e André). Com essa comparação quero chamar a atenção de como a cultura geral é importante e pode ser uma vantagem para quem a cultiva, ao contrário do que se propaga atualmente no ambiente competitivo que vivemos, que a vê como uma dispersão de energia e talento.

Por outro lado, a diferença mais identificável entre ambos é que o André tinha uma postura mais elitista e Braulio mais da perspectiva da cultura popular, mas não desvinculado do enorme conhecimento do mainstream. E que o André tenha avançado mais na prosa e verso, ao passo que o Braulio tem se mostrado um artista mais voltado ao ensaio e à pesquisa, embora sua ficção esteja entre as mais relevantes entre nós. Enfim, talvez não seja coincidência que estes que são, ao meu ver, as duas personalidades mais notáveis da FC&F brasileira, tenham esta vasta cultura geral e, mais importante, capazes de associá-las de maneira competente, e de forma tão natural, que faz parecer simples o que não é. Em síntese, dois artistas multidisciplinares.

Este Não Ficção... é um livro útil mesmo para aqueles que não tem grande conhecimento sobre os muitos assuntos – especialmente literários – tratados neste livro: pela fruição de um texto bem escrito, a clareza de raciocínio, a vastidão das informações, assim como os exemplos e associações entre os temas, como já dito, muitas vezes surpreendentes. Eu mesmo fui fazendo, ao longo da leitura, uma lista com as obras citadas, e a ideia de um índice remissivo foi particularmente bem-vinda.

Por fim, quero apontar aqui, para uma eventual segunda edição, o complemento de algumas pequenas informações. No artigo “O Efeito Hoen”, faltou o ano de publicação do número 61 do Megalon, que é XIII; o mesmo caso para o artigo “A Folk Fantasy, de Manly Wade Wellman”: ano XI; “Em Defesa da Literatura Hard”, ano VIII, n. 41, mai/jun/jul 1996; a entrevista com Tim Powers, além de aparecer numa edição da Isaac Asimov Magazine, teve parte de seu conteúdo publicado no Megalon, ano VIII, out/nov/dez de 1995; e no artigo “O Folhetim: uma Herança Misteriosa” não veio indicação de onde foi publicado. E, posso estar enganado, mas não parece inédito, e sim publicado no final dos anos 1990.

Braulio também publica regularmente muita coisa interessante em sua coluna online “Mundo Fantasmo”, com textos mais curtos e que já renderam a ótima coletânea A Arte de Olhar Diferente (Hedra, 2012). Até a publicação desta resenha estava na casa de 5067 textos! Digo isso porque espero que Não Ficções... possa ensejar a publicação de novas obras de ensaio e crítica do autor e de outros. Isso porque, a crítica tem sido uma vertente da produção brasileira da FCB muito controversa – especialmente a partir dos anos 1990 –, mas que com esta obra mostra todo o potencial da beleza do ensaio em si, da contribuição à pesquisa e ao aprimoramento da criação ficcional.

Marcello Simão Branco


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Asas na Noite

 




Asas na Noite (Nightwings), de Robert Silverberg. Tradução: Eduardo Saló. 200 páginas. Rio Maior Alfragide (Portugal): Editorial Panorama, Coleção Antecipação, n. 44, sem data – provavelmente início dos anos 1970. Lançado originalmente em 1969.

 

Esta é uma das histórias mais belas já escritas em toda a ficção científica. Num futuro de dezenas de milhares de anos, a Terra vive um período de decadência civilizatória e dominada por uma espécie alienígena. Após um longo e atribulado período de desenvolvimento viveu um apogeu material e interestelar para, por causa em parte dele, sofrer um colapso e decair em termos civilizatórios, a ponto de ser dominada por uma espécie alienígena. Como se verá é uma história sobre expiação e redenção, mas não só dos personagens, como de toda a humanidade, como se ela mesma fosse em si uma personagem.

Este sumário sugere uma história futura interessante, mas talvez nem tão diferente de outras de perfil semelhante. Pois o que a torna realmente singular é o desenvolvimento colorido e inspirado criado por Robert Silverberg, principalmente na atmosfera de exotismo que beira a fantasia e o maravilhoso, com cenários, situações e personagens únicos e inesquecíveis.

Publicada na revista Galaxy, sob edição de Frederik Pohl (1919-2013), em setembro de   1968, situa-se no contexto da melhor fase da carreira de Silverberg, no qual ele havia se reinventado, após publicar muitos contos de aventuras espaciais sem mérito maior na década anterior, salvo uma ou outra exceção. Assim, Asas na Noite – premiada com o Hugo 1969 e finalista do Nebula 1968 –, surge em meio a outras obras notáveis como, por exemplo, os romances Espinhos (Thorns; 1967), O Correio do Tempo (Up the Line; 1969) e Downward to the Earth (1969), além de histórias curtas notáveis, como "Moscas" (Flies; 1965), "Passageiros" (Passengers; 1967) e "A Dança do Sol" (Sundance; 1968).

Asas na Noite, nesta versão publicada em Portugal, se constitui no romance fix-up que reúne as três novelas situadas neste universo ficcional. A primeira é, justamente, “Asas da Noite” excepcional coletânea de Silverberg, publicada também no Brasil na coletânea Mutantes: Os Melhores Contos de Ficção Científica (Melhoramentos, 1991) – note que o título da novela é Asas da Noite e não na, e penso que o título nacional é o mais correto. As outras duas, que compõe o livro ora resenhado é “Entre os Recordadores” (1968) e “A Caminho de Jorslem” (1969) – finalista do Nebula 1969 e do Hugo 1970.

Em Asas na Noite, como dito, a civilização vive num futuro distante em decadência ao apogeu de outrora, quando, ao explorar as estrelas impôs uma política de expansão e imperialismo a outras formas de vida pelo universo e, internamente, ao tentar controlar a meteorologia do planeta, provocou uma catástrofe climática que viu submergir os antigos continentes da Usamérica e da Sudamérica, conhecidos em tempos distantes como América do Norte e do Sul.

A humanidade se reorganizou precariamente e dividiu-se em várias corporações específicas como a dos Observadores, Defensores, Recordadores, Voadores, Peregrinos, Dominadores, Servidores, Músicos, Voadores, Cirurgiões, Mercadores, e muitas outras. Regidas por regras próprias e rigorosas, segregam-se umas às outras em direitos exclusivos a cada uma delas, e convivem com os sem corporações, totalmente marginalizados, como os mendigos e os enjeitados – estes descendentes de experiências genéticas malsucedidas e que vivem sem função nesta ordem social. No fundo, um tipo de estratificação social semelhante à da Idade Média, pois também aqui há uma influência mútua entre poderes políticos e religiosos.

E é neste contexto que acompanhamos a trajetória de vida de um observador, que tem de perscrutar com seus instrumentos o céu para avisar sobre uma invasão alienígena prometida há muito tempo e, considerada quase como um mito. Isso ajuda a entender porque ele e os demais observadores têm pouco prestígio, sendo encarados quase com desdém. Ele nos conta sua história em primeira pessoa em sua jornada para a metrópole de Roum – sim a antiga Roma, pois é natural que milhares de anos depois os nomes tenham sofrido alguma mudança, como já havia citado com relação ao extinto continente americano.

O observador – que não pode revelar o seu nome e nem se casar – tem a companhia de Avluela, uma bela jovem da corporação dos Voadores. Modificados geneticamente, estas pessoas têm asas, mas só podem voar durante a noite, daí a alusão ao título da novela e do próprio romance. Sua beleza e ingenuidade desperta sentimentos paternais no velho observador e sexuais no enjeitado Gormon, que também os acompanha.

Contudo, após chegarem a seu destino, as coisas se precipitam, pois, o Príncipe de Roum, toma Avluela como sua consorte, o enjeitado revela uma outra identidade, e a profecia se realiza: o observador avista a chegada dos invasores que, com grande poder militar, rende rapidamente não só a grande metrópole, mas sabe-se depois, a própria Terra.

Asas na Noite termina numa espécie de clímax e deixa no ar o que poderia acontecer com a chegada dos invasores. Este desfecho em aberto e o sucesso da história fizeram com que Silverberg fosse incentivado a escrever mais sobre este universo. Para sorte de todos nós, embora todos os elementos centrais estejam presentes nesta novela brilhante.




Portanto, a aventura continua com “Entre os Recordadores”, primeiro vista na Galaxy de novembro de 1968. Após a queda de Roum, o ex-observador parte para Perris – Paris – tendo como companheiro um peregrino cego, mas que, na verdade é o Príncipe de Roum, que escapou à tomada da cidade, mas foi ferido por Gormon, em vingança por ter ficado com Avluela. Chegando a Perris, o ex-observador procura a ordem dos Recordadores, pois já que não pode mais vislumbrar o futuro, quer se voltar ao passado. Ambos se envolvem com um casal da ordem – Elore e a sedutora Olmayne – com consequências decisivas para seus destinos.

Nesta história, Silverberg explica melhor o contexto histórico e social do universo ficcional, em especial cada um dos três ciclos. Assim, no primeiro, a humanidade se desenvolveu dos seus primórdios até chegar ao espaço – num paralelo, talvez com o ciclo que estejamos deixando em nossa realidade; no segundo, a Terra chega ao seu apogeu econômico e tecnológico, não só travando contato com outras civilizações extraterrestres, mas dominando de forma imperialista várias delas. A Terra se torna o centro político das espécies inteligentes, mas provoca mais ressentimentos do que admiração. O que, em parte, explica sua queda no terceiro ciclo, embora as razões tenham sido principalmente internas. Através de uma tentativa tão ambiciosa quanto quixotesca de controlar a atmosfera do planeta, ocorre um cataclismo ambiental, com terremotos, maremotos e erupções vulcânicas, que faz com que a Usamerica e a Sudamerica – correspondentes ao continente americano – submerjam! E é neste terceiro ciclo que a história se passa, e agora dominada por uma raça alienígena do planeta H362, que outrora foi humilhada ao ter alguns de seus seres expostos num zoológico espacial situado na Terra, e prometeu vingança, daí a invasão.

O episódio final é “A Caminho de Jorslem”, publicada também na revista Galaxy, em fevereiro de 1969 – indicada ao Hugo de 1969 e ao Nebula de 1970. Após se tornar o recordador Tomis, o observador original se torna um peregrino e busca se redimir de seus pecados e falhas – sobretudo por ter contribuído para a causa dos invasores, ao tentar livrar da morte o Príncipe de Roum. Numa longa jornada muito atribulada, ao lado de Olmayne, ele chega finalmente à cidade santa de Jorslem – Jerusalém –, onde finalmente terá o desenlace de sua trajetória e a esperada redenção e o amor. Isso porque ele reencontra Avluela, e ao passar por uma cerimônia religiosa e se submeter como parte dela a um procedimento cirúrgico, recupera sua juventude. É aceito na nova ordem dos Redentores e, ao lado, de Avluela, dá um novo sentido à sua vida.

No fundo, Asas na Noite – o romance – elabora com rara beleza e sensibilidade talvez o tema mais abordado por Silverberg em sua carreira: o da redenção. Esta busca pela volta por cima, pela expiação e, aqui no caso, literalmente, numa transformação física e espiritual, é recorrente, em sua obra. Exemplos como no conto “Moscas” (1965) e os romances Espinho (Thorns; 1967), Labirinto (The Man in the Maze; 1969), do inédito em língua portuguesa Downward to the Earth (1970) e de Uma Pequena Morte (Dying Inside; 1972), entre outros. Mas o diferencial de Asas na Noite é que a redenção tem um sentido e objetivo coletivo, e no caso, de fundo místico ou religioso, talvez inspirado no contexto contestatório e libertário dos anos 1960 e que funciona muito bem na história. Uma conclusão emocionante para uma das mais belas histórias de ficção científica já escritas.

Marcello Simão Branco

 ***



No contexto da publicação da resenha acima, está sendo lançado o livro – em formato e-book – Os Mundos Abertos de Robert Silverberg, de Marcello Simão Branco, nova edição revista, ampliada e atualizada da primeira edição lançada em 2004.

Publicado agora pela editora Mojunganide, em seu selo Yadhe, conta, ainda, com prefácio de Cesar Silva e uma diagramação caprichada, além de capa e belíssimas ilustrações internas de Daniel Abrahão, inspiradas em histórias de Silverberg.

O livro pode ser adquirido aqui:

https://www.amazon.com.br/Mundos-Abertos-Robert-Silverberg-Cient%C3%ADfica-ebook/dp/B0D57RR38D/ref=sr_1_25?dib=eyJ2IjoiMSJ9.e7TGiiWs-AKafgSJhrgoDwAkKTMqKYjq_DmVTYlJe4Fnn3zK-t7RARhcMmKg9n5M4LeACdqYPQkWLrEn7zEBeY7WiGp8VPKvfxiAQTdXRI89N1Riw22JJ-6QWUuhTuwi4bMr1BGtxkWKwTTe5Nw18zt1lW6TEdYTgmeuGpDVViWvnVGAWHsaiRHP6uDXnitG-ER--RDnqbKOqB3PDkIy3_b3z7GWZsSPMBqC1vorIz9wHlrMPlHNFoRoO2nFAqWpLCO_SeZd4uPXfw8fFnaAkuRd_lefGvceGfBNS1Fe_Tw.ZkDmIfVWk32s9PELuChEi7fOyOUNNqc5c0TJxs9Ayt4&dib_tag=se&qid=1716901056&refinements=p_27%3ACesar+Silva&s=books&sr=1-25

Mais detalhes de Os Mundos Abertos de Robert Silverberg pode lido aqui: 

https://mensagensdohiperespaco.blogspot.com/2024/05/lancamento-os-mundos-abertos-de-robert.html


sexta-feira, 26 de abril de 2024

A mão que pune: 1890, Octávio Aragão

A mão que pune: 1890
, Octávio Aragão. 212 páginas. Rio de Janeiro: CJD, selo Caligari, 2018.

Depois de um prolongado hiato (seu último livro, Reis de todos os mundos possíveis, foi publicado em 2013 pela Draco), o professor e escritor carioca Octavio Aragão, que muitos conhecem como o pai da franquia Intempol, retornou em 2018 com o romance A mão que pune: 1890, pela Caligari, selo da Editora CJT, do Rio de Janeiro. Trata-se de uma aventura de ficção científica de contorno steampunk, pulpesca e movimentada, no mesmo ambiente de seu primeiro romance A mão que cria (Mercuryo, 2006), com uma profusão de personagens da ficção contracenando com personalidades históricas, num resultando que fica entre a ficção alternativa e história alternativa. 
A história de A mão que pune: 1890 ocorre numa realidade histórica já bastante alterada pelos eventos do volume anterior. A França, ambiente dos primeiros movimentos da narrativa, é uma república presidencialista que tem o escritor Julio Verne como chefe de Estado. A confiança de Verne na ciência e suas ideias tecnologicamente inovadoras tornaram o pais uma potência do século XIX, na qual cientistas pesquisam todo tipo de bizarrices. Experiências com seres humanos, por exemplo, são muito frequentes e os resultados deles trarão muitos problemas para o protagonista, o jornalista Angelo Agostini, cartunista ítalo brasileiro que inicia a história em Paris, desolado com a morte recente da amante e um filho bebê para cuidar. Ao visitar a Feira Mundial de Paris, em 1890, Agostini reconhece D. Pedro II, imperador do Brasil, que está em Paris em segredo para tentar obter a cura para uma doença misteriosa que está matando seu filho. Mas a França está a beira de uma guerra promovida por um grupo extremista que pretende fazer uso dos mortos-vivos de Dr. Frankenstein como principal força de ataque contra os híbridos entre homens e animais advindos das pesquisas de um certo Dr. Moreau, que formam a guarda pretoriana do regime verniano. A essa problemática já bastante complicada, acrescente-se o sequestro do filho de Agostini e uma batalha de dirigíveis nos céus do Brasil, regada a generosas doses de violência e pirotecnia, e temos como resultado final uma história extremamente movimentada e muito difícil de compreender. 
A estrutura narrativa barroca é uma das assinaturas estilísticas de Aragão, que geralmente começa suas histórias em ritmo leve e convencional, mas acelera constantemente de forma que, a certa altura, a narrativa fica tão frenética que é como tentar acompanhar um filme projetado em alta velocidade. Além disso, a grande quantidade de personagens similares – todos são maus e violentos – torna a identificação de quem matou quem num complexo quebra cabeças no qual as peças não se encaixam muito bem. Fica a amarga sensação de que perdemos alguma coisa pelo caminho, justamente aquilo que seria a chave para o entendimento pleno da história. 
Mas, na verdade, não há nem nunca houve chave alguma. Aragão é um autor que trabalha mais no nível das sensações do que da racionalidade, ou seja, suas histórias são para serem sentidas, não compreendidas. A tecitura narrativa não-linear soa algo desordenada, como uma história contada através de fragmentos aleatórios extremamente intensos. É como se o leitor fosse um soldado no front de uma batalha, tão absorvido pela necessidade de manter-se vivo em meio a barafunda que não consegue ter uma visão geral do que está acontecendo. Por ver a coisa de muito perto, perde toda a perspectiva.
É praticamente impossível ser mais preciso quanto aos contornos da história deste romance. Isso pode ser uma vantagem, pois também é praticamente impossível dar spoillers. Mas é certamente uma peça impressionante, tanto que conveceu os conservadores membros do Clube dos Leitores de Ficção Científica a dar-lhe o prêmio Argos de melhor romance de 2018 (o Prêmio Argos é votado apenas pelos associados do referido Clube e escolhe, anualmente , os melhores textos originais longo e curto da ficção fantástica brasileira). 
Christopher Kastensmidt, escritor texano radicado no Brasil e autor dos contos da série A Bandeira do Elefante e da Arara, assina um prefácio que entra na brincadeira de Aragão, antecipando o nonsense que se multiplicará nas páginas seguintes. 
Por isso tudo, não há necessidade de ler A mão que cria para fruir A mão que pune. Se você ficar com a impressão que perdeu algo, relaxe. A ideia é essa mesmo.
Cesar Silva

sexta-feira, 19 de abril de 2024

BESTA DE GÉVAUDAN


BESTA DE GÉVAUDAN

Miguel Carqueija

 

Não saia de casa à noite,

aguarde até de manhã;

que ela vem como um açoite:

a Besta de Gévaudan!

 

Quem tem um uivo medonho

e matar é o seu afã,

quem mais parece um mau sonho?

É a Besta de Gévaudan!

 

Ela é a fera noturna

que ataca para matar:

e pela noite soturna

está sempre a vaguear!

 

Nada consegue por medo

na perversa criatura,

que carrega o seu segredo

desde o monte até a planura!

 

 

Ó Deus, protege este povo!

Como será o amanhã?

Sempre mais mortes, de novo,

na vila de Gévaudan?

 

A Besta quer muito sangue

e não receia morrer:

deixa sua vítima exangue,

ela mata por prazer!

 

Que mal que fez esta terra

pra tamanho merecer?

E sustentar esta guerra

Com tão poderoso ser?

 

Cavaleiros e cachorros

o monstro já perseguiram

pelas charnecas e morros

porém nada conseguiram!

 

Precisamos de um herói

ou então de um grande santo

porque esta matança dói

e a Morte estende o seu manto!

 

É grande a dor no horizonte

e reina a fatalidade;

de onde será a fonte

que gerou essa maldade?

 

As patas pisam silentes

como forradas por lã;

punindo os impenitentes:

a Besta de Gévaudan!

 

Olhos de sangue injetados

cheios de ódio a nós espiam

enquanto os mortos, coitados,

pelas estradas jaziam!

 

É um lobo, uma hiena,

ou um dragão repulsivo

que nos mata sem ter pena?

Será dos céus um aviso

 

do que virá sobre a França

e que fará perecer

homem, mulher e criança

e será ver para crer?


Este é o flagelo de Deus,

a Besta é um vaticínio:

protejam os filhos seus

que aí vem o morticínio!

 

E o bispo na procissão

suplica o auxílio dos santos:

livrai-nos da maldição,

enxugai os nossos prantos!

 

Rio de Janeiro, 6 de abril de 2024

 

 

 imagem pinterest

quarta-feira, 3 de abril de 2024

A Caixa Verde

 




A Caixa Verde (Claimed), Gertrude Barrows Bennett. Tradução: Gustavo Terranova Aversa. Capa: Natália Mieko Okamoto Aversa. 247 páginas. São Paulo: Andarilho, 2023. Lançamento original de 1920.

 

Uma tendência dos últimos anos no ambiente editorial voltado à FC&F no Brasil tem sido a publicação de autores estrangeiros em domínio público. Isso se tornou mais presente por causa da entrada de vários desses autores nessa condição. Com isso, além de nomes consagrados como, por exemplo, H. G. Wells e Lovecraft, outros menos conhecidos ou inéditos no país ganharam suas edições.

Este é o caso desta autora, Gertrude Barrows Bennet (1883-1948), apesar de A Caixa Verde não ser sua primeira obra a ser lançada no Brasil. Antes, dentro deste contexto recente, ela já teve publicados As Cabeças de Cerbero (The Head of Cerberus; 1919) e A Cidadela do Medo (The Citadel of Fear; 1918), pela editora Melusine, no sistema de financiamento coletivo Catarse.

A Caixa Verde começa com a descoberta de uma ilha alçada à superfície do mar depois de uma poderosa tempestade que quase tragou um navio na região das ilhas portuguesas dos Açores, no Atlântico Norte. Parte da tripulação vai ao pedaço de terra e se depara com um conjunto de altas colinas rodeadas por estranhas formações que parecem ruínas de uma cidade desaparecida. Um dos marujos traz um pedaço tirado de uma pedra e, ao mexer nela com mais cuidado no barco, vê surgir uma estranha e hipnótica estrutura retangular de cor esverdeada. James Blair, contudo, passa a ter pesadelos e visões perturbadoras, e vende a caixa numa loja de antiguidades. Mas esse objeto irá amaldiçoar toda a pessoa que tem contato com ela. Como é o caso de Jesse Robinson, um empresário de personalidade autoritária que vive com sua linda sobrinha, Leilah Robinson. Após contato com a caixa, ele passa mal, recebe a visita de um jovem médico, o doutor Vanaman, e a partir daí os três estarão definitivamente envolvidos pelo poder maléfico e sobrenatural da caixa, que, além disso, desperta curiosidade pela inscrição misteriosa numa de suas bases e por não ter uma abertura visível para se conhecer o que pode, eventualmente, ter em seu interior.

A autora escreve muito bem, tem uma linguagem fluente, sem firulas, e as imagens que cria a partir dos poderes da caixa impressionam pela imaginação de tons verdadeiramente fantásticos. Além disso, seus personagens são pouco mais densos do que o habitual nas revistas pulps, onde, a história foi primeiro publicada de forma seriada, na revista Argosy. Apesar disso, talvez fosse comum para a época, temos o manjado triunvirato: o ancião poderoso, sua linda protegida e um jovem cientista que, ao prestar serviços ao homem, se apaixona pela garota. Tal estrutura foi repetida à exaustão na literatura pulp, quadrinhos, séries de TV e cinema, século XX adentro. Mas não chega a incomodar nesta história, pois, como dito, ela é bem dinâmica e está centrada no mistério da caixa e seus efeitos perturbadores nas pessoas.

Tal como uma história circular, o desenlace se dá no mar: Robinson e sua sobrinha são raptados por um barco sobrenatural e Vanaman, claro, vai no encalço para resgatar, principalmente, Leilah. Mas, mais importante: o que seria exatamente esta caixa verde, e porque exercia esses poderes, e de quem, afinal ela era? As respostas são parcialmente oferecidas no contexto de uma civilização perdida que teria existido em tempos imemoriais entre a América do Norte e a Europa, sim, o continente mítico da Atlântida. Ao possuir a caixa e procurar desvendar seus poderes, Jesse Robinson desencadeou a fúria de uma antiga entidade atlante que, renascida, passou a reivindicar a devolução do objeto.

Quase tão interessante quanto a história, é a figura da autora, que foi descoberta, por assim dizer, em 1952, quatro anos após sua morte, quando do lançamento em livro do pequeno romance The Citadel of Fear, onde o pesquisador Loyd Arthur Eshbach (1910-2003) apresentou provas sobre sua identidade. Isso porque, em vida ela publicou com o pseudônimo de Francis Stevens, entre os anos de 1917 e 1923, quando escreveu doze histórias publicadas em revistas, como a já citada Argosy e em Weird Tales. Por receio de não ser bem recebida, ela sugeriu ao editor que a publicasse com um nome fictício, vindo daí o nome que ficou associado a um homem. Pelo fato de ter tido uma carreira muito curta, até a descoberta de sua verdadeira identidade muitos imaginaram, inclusive, que Francis Stevens fosse pseudônimo do autor e editor prestigiado da época, A. Merritt (1884-1943).

Portanto, sendo uma mulher, ela foi uma precursora nos gêneros FC&F nos Estados Unidos, especialmente na primeira metade do século XX, num ambiente extremamente masculino e machista. Para além de seu pioneirismo de gênero, Bennett é um nome importante pela qualidade de sua obra, uma instigante mistura entre ficção científica, fantasia e horror, bem ao feitio da corrente weird que tomou as páginas de muitas das pulp magazines nas décadas de 1920 e 1930. O influente crítico Sam Moskowitz (1920-1997) chegou a afirmar que ela foi “a maior escritora de FC no período entre Mary Shelley e C.L. Moore” – citado no livro Partners in Wonder: Women and the Birth of Science Fiction, 1926-1965, de Eric Leif Davin, publicado em 2005.

Por tudo isso, esse lançamento da pequena editora Andarilho – que inclui como brinde, um mapa da Atlântida! – na sua simpática coleção de livros de FC&F de autores em domínio público, merece mais atenção: seja pelo prazer de uma aventura enigmática e inteligente, seja por aqueles que pesquisam sobre a história da FC&F.

Marcello Simão Branco