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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Chung Li: A Agonia do Verde

Chung-Li: A Agonia do Verde (The Death of Grass), John Christopher. Tradução: Luiz Horário da Mata. Capa: Raul Rangel. 199 páginas. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica n. 19, 1980. Lançamento original de 1956.



Desde 2020 estamos imersos na pandemia da covid-19, nome científico para um vírus gripal que já dizimou cerca de 5 milhões e 200 mil pessoas em todo o mundo, quando escrevo, em dezembro de 2021. Apesar do avanço da vacinação já ter produzido bons resultados, a desigualdade no acesso a elas e o surgimento de novas cepas tem ameaçado a retomada da vida, ao menos próxima, da que existia antes deste evento trágico.

Pois este romance também aborda a tragédia e as consequências do surgimento de um vírus. É Chung-Li, e recebeu este nome porque, justamente, surgiu na China. Mas, em vez de ameaçar a vida humana diretamente, ele é extremamente letal contra todas as formas de gramíneas, incluindo arroz e trigo, as mais consumidas.

A praga se espalha rapidamente no Sudeste Asiático provocando o colapso da economia e a fome generalizada. Os países desenvolvidos enviam ajuda, mas quando o vírus chega às suas fazendas e plantações, tudo muda. Chung-Li destrói todas as formas de grama e, rapidamente, falta alimentos de todos os tipos e a fome se torna crônica.

O romance é narrado a partir de John Custance, um engenheiro que, após ser informado que Londres seria bloqueada para a saída, foge com sua família, a de seu amigo Roger Buckley e, inesperadamente, do vendedor de armas Pirrie e sua esposa. O objetivo do grupo é chegar a Westmorland, onde está situada a fazenda do seu irmão David.

A história acompanha o drama do grupo e, no caminho, eles se dão conta de que terão de deixar de lado seus valores morais, lutando para sobreviver matando sempre que possível. Assim, John se torna o líder e não deixa de ser chocante constatar como ele se transforma de um cidadão responsável e de personalidade amigável, em um líder frio e resoluto, o que não deixa de espantar seu amigo Roger e, principalmente, sua esposa Ann.

A fuga súbita e desesperada do grupo foi motivada, contudo, menos pela possibilidade de ficarem presos na capital britânica, mas pelo vazamento da informação de que o governo jogaria nas principais cidades do país bombas de hidrogênio para eliminar aproximadamente metade da população, cerca de 25 milhões de pessoas. Segundo este plano sinistro, metade do problema da fome estaria ´resolvido´. Esta decisão chocante e inverossímil causou grande polêmica entre os leitores quando da publicação da obra, em capítulos no The Saturday Evening Post. De fato, mesmo numa situação extrema como esta de colapso alimentar seria muito improvável que tal atitude fosse tomada, ainda mais num país de sólida tradição democrática. Ora, poderia ser declarado um Estado de sítio, com a suspensão das garantias constitucionais: restrição rígida de mobilidade, bloqueio de cidades e vias de acesso, toque de recolher, isolamento social, distribuição de pontos de racionamento de alimentos, mobilização das Forças Armadas para ocupar e policiar o território, fechamento de fronteiras etc. Como nada disso foi colocado em prática, o governo foi derrubado e um comitê civil improvisado assumiu o poder. É curioso que em nenhum momento Christopher faz alusão à família real e o que poderia ter acontecido com ela.

Como se percebe, o livro é contado dentro da realidade do Reino Unido, embora, em certo momento, o grupo ouve por um rádio que os Estados Unidos e a Austrália, ao que parece, eram os únicos lugares do mundo em que a civilização se mantinha precariamente em pé, com a adoção do pacote de medidas autoritárias citadas acima. Mas não só a Inglaterra, mas toda a Europa regrediu inexorável e rapidamente à barbárie da anarquia e luta crua pela sobrevivência: sem leis, sem Estado, sem energia e sem comida.

Esta história de pós-apocalipse ambiental aborda o tema de uma praga viral e é comparável com o clássico Só a Terra Permanece (Earth Abides; 1948), de George R. Stewart (1895-1980). Se neste, o vírus quase exterminou os seres humanos, aqui o efeito é indireto, mas não menos catastrófico.

Numa época em que a maior parte dos romances de pós-apocalipse abordava o pesadelo de um holocausto nuclear, Chung Li: A Agonia do Verde apresenta uma variação interessante e chocante do tema, ao lembrar que podemos estar sujeitos a uma situação deste tipo. E a pandemia do novocoronavírus, em certo sentido, mostra isso. Afinal, uma das possibilidades aventadas para o seu surgimento está relacionado com os intensos métodos de produção industrial da agricultura e da pecuária que, produzidos em escala maciça e padronizada, reduziriam a heterogeneidade genética, tornando grãos, vegetais e animais mais suscetíveis e fragilizados diante do surgimento de um novo vírus. Além disso, e não menos importante, os cada vez mais sofisticados pesticidas também contribuiriam com o problema. De fato, no próprio romance é justamente o desenvolvimento de um novo agrotóxico para combater a quinta cepa do vírus é que acaba, ao contrário, tornando a praga definitivamente mortal.

Ao que parece, iremos conviver com novas variantes da covid-19 e outros vírus que virão, em parte como consequência do modelo consumista e predatório de civilização capitalista que a humanidade vem praticando em escala global. Nesse sentido, este romance competente de John Christopher mantém-se, de forma perturbadora, muito atual e espero que não seja presciente do que virá.

John Christopher é, na verdade, um dos vários pseudônimos usados pelo escritor Sam Youd (1922-2012), que variou sua obra entre romances de FC com forte crítica social e aventuras infanto-juvenis. E o que torna Chung-Li: A Agonia do Verde – aliás, que belo título escolheram para a versão da obra entre nós –, tão efetivo é também a sua prosa limpa, econômica, objetiva. O que não reduz a construção densa e verossímil dos personagens e as situações dramáticas mostradas na história.

O romance recebeu uma adaptação para o cinema com o título de A Mais Cruel Batalha (No Blade of Grass; 1970), dirigida por Cornel Wilde, lançada no Brasil mas raríssimo de ser vista, e é o único livro do autor publicado em nosso país. Em Portugal recebeu o título de A Última Fome, na Coleção FC Europa-América n. 4. Além disso esta coleção publicou Os Dias do Cometa (The Year of the Comet; 1955) (n. 14) e Os Possessores (The Possessors; 1964) (n. 8). Já outra editora lusa, a Presença, publicou em sua coleção Volta ao Mundo, As Montanhas Brancas (The White Mountains; 1967) (n. 7), A Cidade de Ouro e Chumbo (The City of Gold and Lead; 1967) (n. 8) e O Poço de Fogo (The Poll of Fire; 1968) (n. 9), livros que compõe a série de FC infanto-juvenil “The Tripods”. Vale a pena procurar e ler estes também.

John Christopher mostra que há escritores de FC interessantes e necessários, entre os não muito conhecidos. E isso fica claro especialmente com Chung Li: A Agonia do Verde, pois é o tipo de obra que ecoa perfeitamente o argumento de Ray Bradbury (1920-2012), de que a melhor FC é aquela que nos alerta sobre problemas que podem ocorrer. Para que possamos, ao menos, tentar evitá-los.

Marcello Simão Branco



sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Mundo Perdido


O Mundo Perdido (The Lost World), Arthur Conan Doyle. Capa de Antonio Jeremias. Tradução de Luiz Horácio da Matta. 238 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica, no. 28. Original de 1912 e edição brasileira de 1982.

Mais conhecido e aclamado pelos contos e romances em torno do personagem Sherlock Holmes é certamente uma injustiça que os demais textos de Arthur Conan Doyle (1859-1930) tenham sido relegados a um segundo plano. Resultado de uma crítica elitista, pois podemos afirmar que pelo menos um de seus romances sempre foi muito popular e influente, O Mundo Perdido (The Lost World).
Esta aceitação foi imediata quando em 1912 a história foi publicada em partes na revista britânica Strand Magazine, e logo a seguir como livro próprio. O autor tinha plena ciência do perfil dos seus leitores, pois afirma antes de iniciá-la: “Terei realizado meu plano simples se der uma hora de prazer ao menino que é meio homem ou ao homem que é meio menino.” Sem nenhum demérito foi um livro escrito para entreter, em alto nível de aventura e especulação, a imaginação de leitores comuns, e não críticos e literatos nem sempre tão abertos a uma narrativa que prioriza a ação e o suspense. Mas Conan Doyle não produziu apenas bom entretenimento – o que já não seria pouco – mas um bom romance que equilibra de forma admirável rigor científico e a sensação do maravilhoso. Passa uma sensação de que ser cientista é uma das atividades humanas mais excitantes, misturando pesquisa com aventuras por terras incógnitas, onde a descoberta traz, além da satisfação pessoal e contribuição ao conhecimento, um prestígio que poucas profissões são capazes de oferecer.
O Mundo Perdido foi escrito no início do século XX período no qual o tema de mundos e civilizações perdidas estava na ordem do dia. Na verdade um pouco mais de tempo, já que, pelo menos, desde a segunda metade do século XIX a literatura popular havia produzido algumas histórias marcantes. Exemplos, entre outros, Viagem ao Centro da Terra (Voyage au Centre de la Terre, 1864) de Julio Verne (1828-1905), O Povo da Névoa (The People of the Mist, 1884), de H. Rider Haggard (1856-1925), A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau, 1896), de H.G. Wells (1866-1946), Tarzan, o Filho das Selvas (Tarzan fo the Apes, 1912), de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), e os brasileiros A Amazônia Misteriosa (1925), de Gastão Cruls (1988-1959), e República 3000 (1930), de Menotti del Picchia (1892-1988), dois clássicos da nossa FC que nada ficam a dever às histórias estrangeiras. Todas tratam, em linhas gerais, de povos e mundos perdidos, esquecidos mas que, surpreendentemente, são redescobertos, com efeitos espantosos para os personagens e, principalmente, os leitores.
A contribuição específica de Conan Doyle para o que se tornou mesmo um subgênero da ficção científica é o achado de um platô escondido na selva amazônica que revela que os dinossauros não foram extintos por completo. A elevação, inspirada no Monte Roraima, teria ficado isolada por milhões de anos, mantendo uma autonomia ecológica responsável pela sobrevivência dos dinossauros. Além disso, neste lugar insuspeito também convivem duas sociedades humanoides, uma mais próxima de ancestrais evolutivos humanos e outra plenamente humana, indígena. Talvez um leitor mais exigente possa torcer o nariz, e mesmo na época já se sabia que os humanos nunca haviam convivido com animais do período jurássico. De qualquer modo, na história os personagens especulam que os mamíferos humanoides vieram de fora deste mundo perdido, indo lá habitar com os saurópodes e terópodes de eras imemoriais.
O enredo acompanha a expedição liderada pelo professor George Challenger. Depois de uma primeira missão à Amazônia ele volta à Londres, mas sem ter provas concretas do que encontrou, é ridicularizado pela comunidade científica. Desafiado num congresso acadêmico, Challenger propõe uma nova expedição, que teria como participante o professor Summerlee, seu grande detrator. A eles se juntam o aventureiro Lorde John Roxton, e o jornalista Ed Malone. Assim, eles partem em direção à selva amazônica.
O personagem principal é o professor Challenger, mas o condutor da narrativa é Ed Malone, pois a história é contada em primeira pessoa por ele, relatando os acontecimentos em missivas enviadas ao Dayle Gazette, o jornal em que trabalha. Chama a atenção de que a expedição procura confirmar o que já foi descoberto. Ou seja, não há um suspense sobre o que poderá vir. Mas sim da extensão do que virá pela frente. Isso me soou meio estranho e com certa expectativa desfeita sobre o potencial da aventura. Mas a forma como Conan Doyle a narra evitou plenamente algum sentimento de decepção. O texto é repleto de situações de perigo e desafio para os expedicionários, que têm suas vidas colocadas em risco quase que a cada página. Muito estimulante também é a força descritiva da selva amazônica em si, os rios enormes e caudalosos, a floresta fechada, os animais que a todo o momento surgem. Mesmo com algumas imprecisões geográficas perfeitamente compreensíveis, está quase na plenitude a exposição de uma selva indomável, misteriosa e cheia de surpresas. Tal como é a maior floresta da Terra e tudo aquilo que ela sempre suscitou na curiosidade científica ou na especulação artística ou crença sobrenatural.
Após chegaram ao platô nossos heróis são sabotados por um dos membros da equipe de apoio que corta a ponte que ligava o penhasco ao platô. Uma vingança contra Lorde Roxton que teria matado seu irmão numa expedição anterior. Agora eles estavam sem ter como descer, com poucas provisões e à mercê de descobertas ao mesmo tempo incríveis e arriscadas. O único apoio que passaram a ter foi a presença de Zambo, um dos empregados que ficou na superfície.
Mas é quando ficam efetivamente isolados que eles descobrem o tal mundo perdido: plantas exóticas, pequenos animais nunca vistos e o mais espantoso: espécies de répteis que deveriam estar extintos há dezenas de milhões de anos. Estegossauros, pterodáptilos, plessiossaurus e os terópodes carnívoros. Curiosamente, o Tiranossaurus Rex não é nomeado, mas supõe-se que se refira a ele, tal o seu tamanho e agressividade.
O romance se situa também no espírito do seu tempo com relação à posição do homem branco ocidental com os outros da selva amazônica, os negros e os mestiços. Sem surpresa os ingleses são mostrados como mais civilizados e inteligentes, superiores aos povos que os servem, retratados em mais de uma ocasião como inferiores e devotados à servir os súditos da rainha. Mas não há um racismo explícito, apenas a constatação de como o povo europeu, inglês em especial, se sentia e relacionava com culturas e comunidades ao redor de um mundo que, em boa parte, havia sido invadido por ele.
Podemos afirmar que a era da ficção científica espacial teve início a partir dos anos 1930, se desenvolvendo plenamente a partir da Golden Age dos anos 1940, estabelecendo mesmo um futuro de consenso, de que a nova e última fronteira estava no espaço sideral. Como apontado acima, a época em que O Mundo Perdido foi escrito o limite do desconhecido a ser desbravado ainda estava situado em nosso próprio planeta. Havia mesmo uma crença popular, embora não levada muito a sério pela comunidade científica, de que em regiões ainda inexploradas do planeta pudesse haver espécimes que sobreviveram às transformações geológicas e biológicas. Além disso, indo um pouco mais longe na imaginação, com a chance de haver alguma civilização perdida, apartada da história convencional. Tais histórias se filiam numa corrente da FC conhecida como romance planetário, embora possamos encontrar histórias deste tipo também situadas em outros planetas. Neste contexto, como já dito, O Mundo Perdido foi publicado, mas embora não tenha sido uma obra pioneira, mantém-se como uma das mais influentes para o gênero e a cultura popular ainda hoje.
Prova disso é que já em 1925 foi produzida a primeira versão para o cinema, ainda mudo. Irwin Allen (1916-1991) produziria o filme mais conhecido em 1960, estrelado por Claude Rains (1889-1967), Michael Rennie (1909-1971) e David Hedison, mais conhecido como o Capitão Lee Crane da série Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, 1964-1968). No Reino Unido ocorreram duas dramatizações radiofônicas, em 1938 e 1944 e, mais recentemente, entre 1999 e 2002 foi ao ar pela TNT uma série de TV, com três temporadas. Antes disso Land of the Lost foi produzida pela NBC, entre 1974 e 1976. Chamada no Brasil de Elo Perdido foi livremente inspirada na obra de Conan Doyle e muito exibida no país, durante os anos 1980 e 1990. Aqui as aventuras na Amazônia de outra era são vividas por um pai, seus filhos e um cachorro.
Em termos editoriais O Mundo Perdido tem recebido diversas edições em língua portuguesa. A primeira brasileira saiu pela Cia. Editora Nacional, em 1958 e a mais recente em 2018, num volume caprichado da Editora Todavia. Afora estas duas, mais a edição da Francisco Alves Editora em que me baseei para escrever esta resenha – aliás,  com a mais bela capa de todas as que pude ver em pesquisa na internet –, mais quatro saíram no Brasil. Sete no total, portanto. Por sinal o mesmo número de edições vistas em Portugal, a mais recente pela Publicações Europa-América, em 2003. São, simplesmente, 14 edições diferentes da mesma obra!
Já conhecia O Mundo Perdido através do filme de Irwin Allen, que vi diversas vezes numa época em que a “Sessão da Tarde” da Rede Globo exibia várias produções de FC. Talvez por isso, resisti em ler o livro, pois achava que como já conhecia a história não haveria grandes atrativos. Como quase sempre acontece com bons livros, felizmente me equivoquei, pois o romance de Arthur Conan Doyle é muito mais interessante, por apresentar personagens críveis e carismáticos, uma descrição competente da floresta e do mundo perdido, além do equilíbrio virtuoso entre o conhecimento da época e uma especulação destemida, como a que deve ser realizada pela melhor ficção científica.

– Marcello Simão Branco

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Memórias Encontradas numa Banheira, Stanislaw Lem

Memórias Encontradas numa Banheira (Pamiętnik znaleziony w wannie, de 1961), Stanislaw Lem, 180 páginas. Tradução de Mário Molina. Francisco Alves Editora, coleção Mundos da Ficção Científica, n. 36, 1985.

Se fosse possível definir em uma palavra este romance curto de ficção científica, seria “angustiante”.
Stanislaw Lem (1921-2006), mais conhecido como autor do clássico Solaris (1961), é um autor muito complexo do ponto de vista temático e intelectual. Sua verve satírica por vezes chega ao limite deste recurso, tornando-o incômodo e amargo. Este livro é o que poderia ser chamado de um dos mais "kafkianos" já escritos. Em qualquer relação dos livros que mais levam à frente as influências do imaginário e temática de Franz Kafka (1883-1924), este estaria na linha de frente, sem fazer feio ao que concebeu o escritor tcheco. Lem é cuidadoso e esperto o suficiente para não se calcar numa leitura explicitamente kafkiana, recusando a fácil acusação de estar realizando mais um dos famigerados pastiches.
O autor polonês recobre a prosa de uma situação tão absurda, que o próprio personagem que se indaga do absurdo em que está inserido, transforma-se, ele mesmo, no próprio absurdo.
Memórias Encontradas numa Banheira divide-se em duas partes claramente distintas. E o que torna o livro classificável como FC é o recurso à ciosa e interessantíssima introdução (que vale por si), às “memórias” propriamente ditas.
Uma praga de origem cósmica destrói os papéis de nosso planeta. Os que existem e os que são construídos. Todos os documentos, registros, livros e fontes de conhecimento e comunicação da humanidade baseados no papel são perdidos.
Entramos em colapso e no futuro distante, paleógrafos acham um manuscrito dentro de uma banheira em uma fortaleza subterrânea. E passam a decifrar o significado deste manuscrito, as memórias propriamente ditas, que passam a ser narradas em primeira pessoa, pelo sujeito que se transformará no peregrino do absurdo, do desatino sem fim, de um ir e vir em corredores, salas, escritórios, portas e elevadores à procura das instruções de sua missão, seja ela qual for.
O autor faz um libelo contra a onipotência do Estado totalitário. Sim, totalitário e não autoritário, pois em sua fortaleza subterrânea de inspiração político-religiosa todos são servidores cegos de uma ordem de reconstrução do mundo, só que esta ordem propriamente dita, dilui-se no próprio absurdo de regras e procedimentos já sem sentido, porque não questionados, apenas seguidos numa corrente sem fim de ordens, contra-ordens, ditames e não ditames, onde a forma vale mais que o conteúdo, sem que se perca de vista o peso da ideologia fundadora, mesmo que ela, em si, não faça mais sentido para ninguém individualmente.
Se o foco de Lem é o socialismo polonês, reprodutor imposto do soviético, sua alegoria política supera sua crítica factual, porque ela fala, em ampla escala, de todas as formas de opressão e do nonsense maior da suprema burocratização de todas as formas de relacionamento, no qual, nenhum humano é mais humano, pois não se reconhece nenhuma chance de individualidade e espírito crítico, num regime monolítico e opressor.
No fim da jornada nos resta apenas um sorriso amargo e uma sensação de angústia e libertação. Pena que o personagem que vislumbra uma saída do terror fique imerso em seus próprios medos e dúvidas e se imiscua no terror que em vão ele procurou entender.
Uma obra inteligente, instigante, e mantém sua atualidade como crítica que se pode fazer a qualquer forma de organização social que não priorize a liberdade individual e a pluralidade de escolhas e expressões humanas.

– Marcello Simão Branco

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O que vale é ser feliz?

Os Vendedores de Felicidade (The Joy Makers), de James Gunn. Francisco Alves Editora – Coleção Mundos da Ficção Científica, 1984. Tradução de Reynaldo Guarany, texto das orelhas de Fausto Cunha e ilustração de capa de Antonio Jeremias. 243 páginas.

Sabe quando você pega um livro meio que por acaso na estante? Percebe que está lá há anos, tem um título interessante, uma capa bonita e é de um autor que, embora não tenha lido, sabe que é respeitado? Pois bem, tudo isso aconteceu comigo e me motivou a lê-lo no caso de Os Vendedores de Felicidade (The Joy Makers), do norte-americano James Gunn, publicado originalmente em 1961.
Este livro se insere na tradição das anti-utopias de sociedades construídas para serem perfeitas, de tal maneira que todos os problemas do homem seriam resolvidos. Mas não são. Nesse sentido, dialoga especialmente com Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley. Acredito que também é possível estabelecer conexões próximas com alguns contos e os dois romances de André Carneiro – Piscina Livre (1980) e Amorquia (1991) – com suas sociedades voltadas à imposição do prazer e do sexo.
James Gunn foi nomeado como Grande Mestre Nebula em 2006, o reconhecimento de  uma carreira de reputação sólida como crítico e acadêmico, tanto que venceu o Hugo com um celebrado estudo sobre um dos principais autores do gênero, Isaac Asimov: The Foundations of Science Fiction (1982), mas mostra-se também um autor talentoso e sensível nas três novelas que formam este romance fix-up.
Ainda era corrente nos anos 60 o expediente de juntar histórias antes publicadas de maneira independente em revistas do gênero na forma de livro. Por isso percebe-se uma certa desigualdade de estrutura como um todo, mas nada que comprometa, pois todas estão inseridas dentro de um mesmo universo ficcional conscientemente criado pelo autor.
A grande questão de Os Vendedores de Felicidade é a felicidade. Por que ela é tão importante? Por que temos tantas dificuldades em sermos felizes? E o que fazer para mantê-la quando a alcançamos?
Na primeira parte do livro, originalmente publicada como “The Unhappy Man”, um magnata egoísta é confrontado com o surgimento de uma organização que promete trazer a felicidade para as pessoas. Incomodado com o que acredita ser charlatanismo ele se submete a alguns dos testes, mas não se convence, embora tenha suas dores no corpo curadas por uma incrível cadeira com poderes medicinais. O que mais o desagrada é que a organização solicita que as pessoas que queiram adentrá-la têm de pagar uma quantia proporcional às suas posses e abandonar seu meio de vida, deixando tudo a cargo da Hedonics Inc. Ela cuida de tudo, de tal maneira que a pessoa não mais precisa ter preocupações materiais e pode viver, em tese, apenas para a busca do prazer e da alegria. Aos poucos toda a população é seduzida pela idéia do hedonismo, tanto que em 2003 é lançada a Declaração do Hedonismo, uma espécie de Declaração Universal dos Direitos do Homem. Com isso, ser infeliz se torna uma violação do sagrado direito – melhor dizendo, dever – de ser feliz. Depois de perder sua esposa e parte de sua indústria para a organização o magnata se vê em minoria, pede para voltar mas é rejeitado.
A segunda parte nos leva para um futuro mais distante. Em “The Naked Sun”, o mundo está completamente dominado pela doutrina hedonista, tratada de uma forma científica. A sociedade inteira responde ao chamado Conselho, que governa tudo e designa instrutores para cada bairro das cidades para que cuidem das eventuais infelicidades das pessoas. Isso porque nem todos estão preparados ou se adaptam a esta felicidade, pois ela se torna um fardo, ao destruir a criatividade e a motivação das pessoas. A história segue do ponto de vista de um destes instrutores, um sujeito que procura seguir os tais preceitos hedonistas à risca com seus pacientes. E isso o torna um problema para o Conselho, pois neste momento os sonhos e fantasias ministrados às pessoas passam pelo comércio de drogas e uma mecanização cada vez maior das atividades. Perseguido para ser lobotizado e trazido novamente à “felicidade”, ele não tem alternativa senão fugir para um dos planetas colonizados, para onde iam os rebeldes.
Na terceira história, “Name Your Pleasure”, estamos em Vênus. Duzentos anos depois da chegada dos colonos eles estão começando a ter os primeiros êxitos em seu processo de terraformização do planeta. É quando surgem seres em duplicata dos habitantes, ameaçando a harmoniosa convivência social baseada em princípios do hedonismo. Afora Vênus, também há colônias estabelecidas em Marte, Ganimedes e Calisto. Mas como a Terra está mais próxima, é enviado um emissário para procurar respostas e pedir ajuda ao que acreditam ser uma invasão extraterrestre. Ao chegar à Terra, ele a encontra vazia, com todas as construções em pé, tudo funcionando perfeitamente, mas sem as pessoas. Todos os seres que a habitam são robôs que desempenham as mais diferentes funções. É avistado por um ser de aparência humana, mas para descobrir que é um duplo – um androide – igual aos que há em seu planeta natal. Com isso percebe que a invasão vinha da própria Terra, pois já que as pessoas sucumbiram por “excesso de felicidade”, a organização impessoal e mecanizada que controla a Terra quer levar esta mesma felicidade para as outras colônias, já que foi programada para trazer a máxima satisfação a todos os seres humanos. Ele encontra uma mulher e com ela luta para impedir os planos. Chega a encontrar várias pessoas mantidas inconscientes flutuando dentro de uma câmara semelhante a um útero, como que em preparo para renascer em um momento adequado. As pessoas foram conduzidas por meio de ilusões sofisticadas a este estado original de satisfação de todo ser humano, a proteção do ventre materno. Sem saberem se, afinal, eles mesmos não estariam vivendo uma ilusão e na verdade imersos na mesma câmara uterina, abandonam o planeta, voltando para Vênus.
Como disse antes, falta certa harmonia de enredo entre as histórias, natural já que não é um romance no formato tradicional. Nesse sentido, está ausente também explicações mais completas e genéricas de como funcionaria a sociedade, embora elas sejam esboçadas implicitamente através das ações dos personagens. Mas tais opções de ordem metodológica não chegam a atrapalhar a força das histórias e do livro como um todo, que ainda tem cada capítulo iniciado por epígrafes sobre a felicidade, que são também um charme à parte.
Apesar de publicado há quase meio século Os Vendedores de Felicidade continua pertinente na sociedade atual, cada vez mais impessoal e hedonista, por conferir uma importância exagerada à beleza do corpo e à busca do prazer sem limites, numa deturpação da ideia de felicidade. Uma das razões é que ela não deve ser vista como um modelo único, destituído de valores morais e motivações de ordem ética que a embasem. Pois uma felicidade deste tipo não se sustenta. E ainda assim, afinal, mesmo uma verdadeira felicidade responderia aos nossos anseios? Será mesmo que viemos a este mundo para sermos felizes? Ou seria apenas a melhor parte daquilo que vivenciamos? No fim das contas, a lucidez maior está com um dos personagens, quando ele afirma que cada homem tem o direito de buscá-la à sua maneira, de escolher suas próprias ilusões.
Marcello Simão Branco