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domingo, 25 de agosto de 2024

3%

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, Pedro Aguilera.  Série de tv com 33 episódios. Produção Boutique Filmes/Netflix, 2016-2020.

A indústria audiovisual é o grande fetiche dos autores de ficção fantástica. Mal escrevem os primeiros textos, já pensam em quais seriam os atores mais indicados para representarem os seus personagens, quase sempre artistas de Hollywood porque, afinal, sonhar não custa nada. Muitas vezes vezes essa mania é movida apenas pelo sentimento de veneração ao estrangeiro, mas não devemos nos enganar: chegar a indústria audiovisual ainda é o melhor caminho para se obter reconhecimento, fama e algum dinheiro extra. Pelo menos, é assim que funciona nos EUA: os autores geralmente ganham muito mais pelo licenciamento de direitos para cinema e para a tv do que com a venda direta dos seus escritos. Portanto, se é assim que funciona na matriz, deve funcionar aqui também. 
A internet, especialmente após o advento da banda larga, pareceu ser o canal que todos estavam esperando para a distribuição de obras audiovisuais, uma vez que prescinde das salas exibidoras e de um sistema de transmissão televisiva para fazer chegar o conteúdo ao expectador. Mas, infelizmente, não emergiram projetos bem sucedidos assim, embora tenham existido tentativas, como a série Animal, produzida em 2014 para a tv a cabo. Alguma coisa ainda faltava e parece que, finalmente, temos o caminho das pedras: o serviço de conteúdo por streaming
O primeiro seriado brasileiro de fc&f a despontar nesse ambiente foi 3%, distopia futurista original criada por Pedro Aguilera, cujo episódio piloto foi lançado no Youtube em 2011. Adquirida pela Netflix em 2016, tornou-se a primeira série brasileira na plataforma, com quatro temporadas e um total de 33 episódios produzidos. Na direção, revezam-se César Charlone, Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema.
Trata-se de uma produção sofisticada, com um elenco enorme que conta com atores conhecidos da teledramaturgia brasileira: João Miguel, Bianca Comparato, Zezé Mota, Michel Gomes, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Rafael Lozano, Viviane Porto, Samuel de Assis, Cynthia Senek, Laila Garin, Bruno Fagundes, Thais Lago, Fernando Rubro e Amanda Magalhães – até Ney Matogrosso faz uma participação especial – além de uma infinidade de coadjuvantes e figurantes que formam a população de uma favela miserável chamada Continente, que parece ser a única coisa que sobrou do Brasil num futuro pós holocausto, cuja explicação não é fornecida. 
Porém, há um lugar chamado Maralto onde uma elite vive em luxo e abundância. Uma vez por ano, ao longo dos últimos cem anos, o governo (que tem contornos corporativos) promove o Processo, uma espécie de "vestibular" cujo objetivo é selecionar, entre os jovens do Continente com vinte anos completos, os novos cidadãos para Maralto. Os testes são severos, em muitos casos, mortais, e valorizam aspectos físicos, intelectuais, morais e psicológicos dos candidatos. Apenas três por cento dos inscritos serão aprovados. A concorrência é feroz e trapacear é permitido. Na verdade, uma personalidade trapaceira é até valorizada, como vamos descobrir ao longo do extenuante processo, que também vai revelar a personalidade e a motivação de cada um dos candidatos. Também vamos descobrir que há um movimento revolucionário subterrâneo, pesadamente reprimido pela administração, cujo objetivo é acabar com o Processo. Mas não são apenas os candidatos que escondem esqueletos no armário: entre aqueles que estão "do lado de lá" também há segredos comprometedores, além de intrigas e traições veladas. Ninguém está plenamente seguro, nem mesmo em Maralto.
A cenografia é elegante, com uma estética futurista econômica. Muitas sequências foram gravadas nas dependências da Arena Corinthians, em Itaquera (SP). Também foram usados como locações o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), e a comunidade Heliópolis, em São Paulo (SP). Os efeitos especiais são competentes, assim como o desenho de produção. O roteiro tem bons diálogos, e uma narrativa tensa, que fica ainda mais perturbadora pela lentidão com que o Processo avança.
A série está disponível em 190 países e é elogiada no exterior, com uma avaliação muito boa no saite de resenhas Rotten Tomatoes: 85% de aprovação na primeira temporada. Também é muito inclusiva, com atores de todas as etnias, além de um cadeirante entre os personagens principais. 
O sucesso de 3% foi efeivamente convincente. Depois dele, o campo se abriu para a produção brasileira: O escolhido (2019, Netflix), Onisciente (2020, Netflix) Spectros (2020, Netflix), Desalma (2020, Globlo Play), A todo vapor (2020, Prime) e Cidade invisível (2021, Netflix) são alguns dos exemplos que se seguiram e a tendência não arrefeceu nem durante a pandemia. Isso já é, por si, um grande mérito para 3%, que merece ser lembrado como o ponto de virada da fc&f na indústria audiovisual brasileira.
— Cesar Silva

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Guerra do Velho

 

Guerra do Velho (Old Man´s War), John Scalzi. Tradução: Petê Rissatti. Capa: Pedro Inoue. 368 páginas. São Paulo: Aleph, 2016. Lançamento original em 2004.

 


Num futuro indefinido, a humanidade finalmente chegou às estrelas e colonizou planetas pela galáxia. Mas o que poderia representar um novo momento de glória, viu-se seriamente ameaçado com a concorrência violenta de espécies alienígenas. Pois, elas também disputavam a conquista e posse dos mesmos planetas disponíveis para a vida, já que, constatou-se que eles não eram abundantes, na parte mutuamente colonizada da Via-Láctea.

Como o leitor desta resenha percebe, a premissa é das mais instigantes: estamos no espaço e disputando-o com civilizações extraterrestres. Trata-se de um romance de FC de tema padrão, mas na melhor tradição de guerra espacial, um dos mais populares e praticados na história da FC, em especial da norte-americana. Colocando desta maneira, talvez pudesse ser apenas mais um entre tantos que já foram publicados. Mas há dois diferenciais. Primeiro, as particularidades do enredo e depois, a maneira como é narrado.

Os soldados das Forças Coloniais de Defesa (FCD), responsáveis por proteger os colonos, procurar novos planetas e servir como linha militar de defesa contra as espécies alienígenas inimigas, são todos formados por pessoas com 75 anos ou mais. Como o caso de John Perry, um publicitário, que após perder a esposa resolve se alistar. Mas o que realmente significa isso?

Os homens e mulheres idosos que se alistam ganham uma extensão de sua vida, embora em condições muito arriscadas, ao se tornarem soldados. Perry, assim como os outros e outras, passam por um período breve, mas intenso de exames e treinamentos até saberem o que de fato acontecerá com eles. Ninguém que se alista na Terra sabe. A FCD nunca revelou como transformam velhos em soldados que a defendem. E eles deixam o lar para sempre. Não podem voltar ou ter qualquer forma de contato.

Os novos soldados têm suas consciências transferidas para um novo corpo. Não uma réplica do antigo, mas um muito melhorado, jovem e com capacidades de força, velocidade e resistência inimagináveis para um ser humano normal. Se tornam supersoldados, com mecanismos internos de recuperação e regeneração em caso de acidentes ou ferimentos graves.

Perry, em particular, fica chocado com a situação, mas não há volta. Pois agora entendeu quando lhe disseram que ele renasceria, literalmente, para uma nova vida. E é uma vida de batalhas com várias espécies alienígenas, com diferentes graus de avanço tecnológico e de agressividade.

Scalzi no coloca diante de um futuro ao mesmo tempo promissor e sombrio. Promissor do ponto de vista do que a medicina poderá ser capaz de realizar. Se não alcançando a imortalidade, estendendo e aperfeiçoando a vida das pessoas a um nível fantástico. E sombrio, porque, mostra que o universo é um lugar muito hostil e potencialmente perigoso. E que, no limite, pode levar à extinção da raça humana. Isso porque as disputas bélicas são fratricidas e praticadas rotineiramente com diferentes espécies. John Perry se torna um soldado particularmente capaz e corajoso e, em seguidas missões, é promovido até se tornar capitão. Mas sem evitar que sofra muito, ao perder a maioria dos amigos desta nova vida.

Este romance vibrante de FC se inspira claramente no controvertido clássico de Robert A. Heinlein, Tropas Estelares (Starship Troopers; 1959), no qual também o militarismo era não apenas o primeiro plano da história, mas a própria razão da vida dos soldados, numa guerra interminável com uma espécie inteligente extremamente agressiva. Mas se não há em Scalzi o glamour da carreira militar e o pendor ideológico reacionário de Heinlein, é de se questionar por que, afinal, o modus operandi de todas as espécies alienígenas seja o mesmo, de violência como meio não só de conquista, mas de vida, como uma cultura própria. E nisso os seres humanos também estão incluídos.

Não há, de fato, base racional, para acreditar que uma civilização extraterrestre seja pacífica, mas por que todas seriam seu oposto? O que incomoda um pouco é que não é explorado qualquer tentativa de meio-termo. No sentido de negociações diplomáticas ou acordos comerciais que poderia estabelecer, se não um ambiente plenamente seguro de paz, ao menos uma convivência mais amistosa e que pudesse convergir para o desenvolvimento de interesses comuns que dissuadissem agressões militares tão fáceis de acontecer. Ao que parece a Terra foi empurrada para um contexto violento de conquista que já existia quando ela chegou ao espaço profundo. E, então, para se defender teve de adotar as mesmas estratégias. Mas isso não fica suficientemente claro na história.

Guerra do Velho renovou o subgênero da guerra futura, quando quase ninguém pensava isso ser possível, inaugurando o que se chamou de nova space opera. Além de Heinlein é possível perceber também a influência de Joe Haldeman com seu clássico Guerra Sem Fim (The Forever War; 1976), talvez o melhor romance de FC já escrito neste segmento temático, e que, ao contrário de Tropas Estelares, é um libelo anti-guerra, tomando o longo conflito dos EUA com o Vietnã como inspiração. É que John Perry lembra Wiliam Mandella, de Guerra Sem Fim. Também um sujeito meio desesperançado com as perspectivas de sua vida e que se alista e ganha uma nova oportunidade, renovando seu interesse, embora não glorificando a atividade militar em si. Adere a ele de forma pragmática, porque é o que melhor estava à disposição. Ainda mais no caso de Perry.

Outro aspecto particularmente estranho em Guerra do Velho é que todos os personagens são norte-americanos. Não faria mais sentido que as milhares de naves de combate da Terra pelo espaço sideral fossem tripuladas por soldados de todas as partes da planeta? Em algumas passagens é citada a Guerra Subcontinental, ocorrida em nosso mundo, mas não se avança muito no que poderia ser uma explicação para a provável manutenção da divisão política interna com países. Mas, no contexto geral, este aspecto não chega a incomodar numa aventura passada quase que inteiramente dentro de espaçonaves, muito bem descritas pelo autor, assim como, em especial, os conhecimentos médicos que permitiram a construção de novos seres, no qual eles mesmos são levados a questionar o quanto ainda são humanos. Ainda mais entre aqueles de uma unidade de elite, as Forças Especiais – apelidados de A Brigada Fantasma –, criados já adultos a partir de DNAs de soldados mortos. Inclusive, porque Perry descobrirá – ao ser salvo entre a vida e a morte após uma batalha – que uma soldado, Jane Sagan, foi criada com esta tecnologia a partir da sequência genética de sua finada esposa Kathy. De forma emocionante, Scalzi explora aqui como o sentimento do amor é forte e pode ir além do que nos acostumamos a pensar ou principalmente sentir.

John Scalzi tem uma escrita limpa, diálogos ágeis, personagens carismáticos e bom humor. Sim, me peguei gargalhando com algumas situações vividas pelos personagens. Ele sabe tirar o peso de um cenário violento e com mortes sempre à mostra, tornando a história não propriamente leve, mas fluente e interessante. Pois estas qualidades de sua prosa, somadas às muitas inovações temáticas, tornaram Guerra do Velho um sucesso, premiado com o John W. Campbell Memorial Award 2005 e finalista do Hugo de 2006. E, neste que foi seu primeiro romance publicado, abriu as portas para a construção de um amplo universo de histórias, principalmente com os romances As Brigadas Fantasma (The Ghost Brigades; 2006), A Última Colônia (The Last Colony; 2007) – ambos publicados pela Aleph –,  Zoe´s Tale (2008), The Human Division (2013) e o mais recente The End of All Things (2015).

Fica difícil não querer ler suas demais histórias neste universo fascinante e perigoso, mas acho improvável se deparar com o mesmo impacto deste romance inicial, primoroso, que renovou o subgênero de guerra futura e se constitui como um dos melhores e mais influentes livros de FC do século XXI até aqui.

Marcello Simão Branco

 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Interestelar

Interestelar (Idem), Greg Keyes. Baseado no roteiro de Jonathan Nolan e Christopher Nolan. Tradução: Vera Whately. Capa: Gabinete das Artes. 266 páginas. Rio de Janeiro: Gryphus Editora/Coleção Gryphus Geek, 2016. Lançamento original de 2014.

 


Quando lançado no cinema o filme Interestelar foi cercado de muita expectativa. Seus realizadores, os irmãos Christopher e Jonathan Nolan já haviam se estabelecido como dois dos artistas mais talentosos e inovadores do cinema norte-americano no século XXI. São deles, por exemplo, o perturbador Amnésia (Memento; 2000), a instigante e misteriosa FC A Origem (Inception; 2010) – este só de Christopher –, e a renovação da franquia do Batman, com três novos filmes. Talvez seja possível dizer que eles fizeram no cinema o que Frank Miller havia feito com o personagem nos quadrinhos.

Me recordo que quando vi Interestelar na tela grande fiquei perplexo e fascinado. Primeiro por um filme tão classudo de FC, como há muito não via em tela grande. E em segundo, e mais importante, pelo roteiro e desenvolvimento ser tão interessantes, ao explorar um tema de fronteira da Física teórica em uma perspectiva cósmica.

Interestelar é um dos melhores filmes de FC do século XXI, ao lado de Filhos da Esperança (Children of Men; 2006), Gravidade (Gravity; 2013) – ambos de Alfonso Cuarón – e Lunar (Moon; 2009), de Duncan Jones. Mas talvez seja o mais ambicioso deles, pois coloca em nível épico a exploração do espaço como nosso destino final, caso queiramos sobreviver a longo prazo como espécie.

Talvez por isso tenha me interessado em ler a novelização anos depois, pois costumo evitar obras derivadas por crer que, em essência, nada acrescentam à original. Mas tive uma surpresa. O livro é muito bom. Segue passo a passo o filme, justamente por ser uma obra originada por um roteiro e não o inverso, quando costuma ocorrer mais liberdades em relação ao livro original. Mesmo para quem não viu o filme é uma obra interessante e competente por si mesma.

Tinha a expectativa de que o livro pudesse aprofundar algumas questões do filme como, por exemplo, o que teria causado o colapso climático da Terra. Mas a novelização é igual ao roteiro e esta questão de fundo fica num plano superficial. É um ponto de partida, não se detalha o que poderia ter inviabilizado a continuidade da vida no planeta. Como se, de certa forma, neste momento, já estivéssemos vivendo o início do problema. Assim sendo, não fica claro em que época a história se passa, mas se deduz que seja em algum momento do século XXI. Isso porque as memórias do mundo de hoje ainda estão presentes na nostalgia daqueles que viveram antes da catástrofe. O que poderia ser mais explorado, ao menos, é as causas do obscurantismo científico que se seguiu. Embora, seja intrigante que estejamos vivendo retrocessos semelhantes nesta altura da primeira metade do século. Além da crise climática que só piora, estamos envoltos numa tragédia mundial no curto prazo, a pandemia do novocoronavírus, a pior já vivida pela humanidade em número absoluto de mortos.

Com uma praga que está matando todos os vegetais, a vida na Terra está com seus dias contados.  Tempestades maciças de poeira são rotineiras e as fontes de alimentação se tornam escassas, aumentando a fome e a violência. A civilização regrediu em seus valores e hábitos, e repudia qualquer gasto que não seja para preservar o que sobrou. Assim, é chocante que até a História é ´recontada´, deturpando ou negando os avanços científico-tecnológicos de antes da crise. Ensina-se nas escolas, por exemplo, que o homem não pousou na Lua. Tudo não passou de propaganda política do governo. Ora, não há uma minoria que crê nesta bobagem atualmente? Isso sem falar no criacionismo e no terraplanismo. O analfabetismo científico, se não combatido, poderá nos conduzir a uma nova era de ignorância, autoritarismo e queda nos valores humanos.

Cooper é um ex-astronauta que teve de aprender a ser fazendeiro nesta nova realidade. Viúvo, cuida dos filhos (Tom e Murph) e é ajudado por seu sogro, Donald. Após uma tempestade de poeira, ele e Murph testemunham um fenômeno estranho no quarto dela, que os conduz até um local onde está instalada no subterrâneo o que restou da Nasa. Pois prepara-se, secretamente, o envio de uma missão ao espaço para poder colonizar outros planetas.

Após ser convidado, Cooper lidera a missão em direção a três planetas que orbitam um buraco negro, numa outra galáxia, numa distância de milhares ou milhões de anos-luz. Os planetas receberam visitas prévias de astronautas para informar se são viáveis à vida humana. Mas como chegaram lá? Por meio do recurso do buraco de minhoca, uma teoria especulativa relativística, que faz aproximar pontos distantes no espaço sem ser preciso percorrê-los de forma contínua. Uma espécie de túnel dimensional na estrutura do espaço-tempo. Tal ideia proposta no filme teve a consultoria do prestigioso físico Kip Thorne e já havia sido apresentada antes numa FC mais popular, no romance Contato (Contact; 1985), de Carl Sagan (1934-1996) e depois levado às telas num ótimo filme dirigido por Robert Zemeckis, em 1997, – curiosamente com o ator que interpreta Cooper em Interestelar, Matthew McConauguey, como um padre.

Contudo, a decisão de Cooper é muito difícil e marcará todo o restante de sua vida, embora se ele não a aceitasse não teria sido possível uma chance de esperança para a humanidade. Isso porque, é ele que envia as informações possíveis, no estranho fenômeno no quarto de Murph, que permite que a missão seja bem-sucedida. Tudo por causa dos efeitos da força da gravidade, que torna possível ir além das três dimensões e contornar o próprio tempo. Pois a história se sustenta num campo de especulação científica que, embora sólida, guarda uma relação muito próxima com os delírios imaginativos da própria FC. Sense of wonder!

Poucas vezes vi um filme de FC tão instigante e que desafia a inteligência do espectador. As soluções apresentadas são elegantes e didáticas e, tão importante quanto, equilibradas com o drama humano, no relacionamento especial e sofrido entre um pai e sua filha. Em resumo, o livro é bom, mas não acrescenta algo novo ao filme. Contudo, torna-se um prazer renovado ler a novelização e tomar, de uma outra perspectiva, um novo contato com esta obra-prima da FC.

                                                                                             Marcello Simão Branco


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

As Águas Vivas não Sabem de Si


As Águas Vivas não Sabem de Si, Aline Valek. Capa e projeto gráfico: Manon Bourgeade. Ilustração de capa: Shutterstock. 293 páginas. Rio de Janeiro: Editora Rocco, coleção Fantástica, 2016.



O mar não é um tema particularmente pródigo na ficção científica. Apesar de Júlio Verne haver praticamente inaugurado o subgênero com Vinte Mil Léguas Submarinas (Vingt Mille Lieues sous les Mers 1869), ele vem sendo explorado de forma mais intermitente, do que permanente. No século XX o autor mais importante a escrever ficção científica marítima foi Arthur C. Clarke (1917-2008), com dois romances interessantes: Odisséia no Mar (The Deep Range, 1957) e O Fantasma das Grande Banquisas (The Ghost from the Grand Banks, 1990) e, de fato, a imagem mais recorrente e popular é da série de TV Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, 1964-1968) e do ótimo filme de James Cameron, O Segredo do Abismo (The Abyss, 1989).

Dentro deste contexto é que este As Águas Vivas não Sabem de Si é ainda mais surpreendente, pois no interior da ficção científica brasileira um romance com este tema é, salvo engano, raro. Então, por si só já deveria ser interessante conhecer este que é o primeiro romance de Aline Valek, cronista e blogueira com muitos seguidores nas redes sociais. Não sei qual foi sua motivação, mas para além do primeiro interesse no assunto, a leitura vale ainda mais pela qualidade da prosa e pelos desdobramentos do enredo.

Com o objetivo inicial de testar trajes submarinos projetados para altas profundidades é estabelecida a Estação Auris, a 300 km abaixo da superfície. Para lá vão cinco tripulantes. O cientista-chefe Martin Davenport, seu assistente Maurício, a engenheira naval Susana e os mergulhadores Arraia e Corina. Isolados, imersos no fundo do mar e seus mistérios, como que intrusos num outro mundo. Mas mais que isso solitários em suas próprias dúvidas e segredos. Do que realmente os motivaram a participar da missão e suas reais intenções.

O romance é contado do ponto de vista de Corina, uma jovem talentosa e rebelde que, depois de sofrer um acidente e ficar afastada do mergulho profissional, recebe uma nova oportunidade, através do contato com seu amigo Arraia. Mas o que a traz para o fundo do mar vai além de recuperar sua carreira, será uma tentativa de provar a si mesma que ainda pode viver a sua vida como sempre quis: de maneira independente e não convencional. Isso porque ela esconde que sofre de uma doença incurável que, dentro de no máximo alguns anos, a tornará incapaz de controlar o próprio corpo.

Mas não é só Corina que tem seus segredos. Arraia esconde seu alcoolismo, Susana se culpa por uma tragédia ocorrida num submarino, Maurício lida com uma espécie de paixão não assumida por seu guru, Martin, e este vive numa tentativa quase desesperada de provar sua tese e recuperar sua reputação diante da comunidade científica: de que há vida inteligente nas profundidades abissais dos oceanos. Cada um ao seu modo terá a chance se enfrentar seus problemas até os limites da própria viabilidade da missão. Por esta via o leitor já percebe que estamos diante de uma história com mais de uma camada. Na verdade o aspecto psicológico dá o tom da sequência dos acontecimentos. De certa forma a própria ação é movida pelas lutas internas de cada personagem e seus desdobramentos.

Mas, afinal, a grande pergunta é: haverá vida inteligente no fundo do mar? Se sim, como ela seria? Do ponto de vista temático este é o tema mais fascinante, mais aberto ao tipo de especulação que instiga o interesse do leitor de ficção científica. E, embora Valek, como disse, invista mais no aspecto intimista da narrativa, esta dimensão não está negligenciada. Pois a partir de um certo trecho do livro, os dramas pessoais dos personagens são entremeados com uma discussão altamente especulativa sobre as origens e evolução da vida na Terra. Pois se a vida teve início na água dos oceanos, ela progressivamente ganhou a superfície, possibilitando o surgimento de muitas novas espécies, entre elas, ao menos uma inteligente, com o sentido de ter consciência de si própria e da realidade que a cerca. Mas, e se neste processo evolutivo, alguma forma de vida inteligente marinha tivesse surgido e ficado por lá? Por que a inteligência deveria ter surgido necessariamente (ou apenas) entre as formas de vida terrestres?

Neste contexto os capítulos sobre a evolução da baleia, como uma espécie mamífera que abandonou a superfície para viver no mar, e os das águas vivas – seres que só se percebem como vivas nadando em bandos – quando uma delas se desgarra e passa a “saber de si”, são emocionantes. Mas o momento mais importante é o da descrição da possível espécie marítima que poderia ter surgido e evoluído para a inteligência há centenas de milhões de anos, os azúlis. Teriam eles realmente desaparecido nas fossas marítimas, há dezenas de quilômetros, no fundo dos oceanos, onde a luz do sol não chega?

A busca de Martin é pelo contato com este ser e, gradativamente, os dramas pessoais de cada personagem acabam se misturando com o objetivo da missão. Contudo, o que poderia nos encaminhar para uma solução quase que transcendente ou transformadora da forma como podemos compreender outros seres vivos e nossa própria presença no planeta, resvala para um certo anticlímax, após uma possível mensagem ser captada pela estação. É que, a este possível encontro, o plano volta a se concentrar no drama pessoal de Corina. É ela que, no fim das contas, vai adiante do que seria prudente, para tentar entender a mensagem misteriosa. Mas o preço que paga talvez seja alto demais para ela e, de certa forma, inconclusiva para os demais tripulantes e a missão.

Outro possível fascínio desta densa aventura submamarina é a conexão que pode ser feita com uma exploração espacial. De forma trocada, e isto é ressaltado no texto, é como se os tripulantes estivessem numa nave espacial explorando um outro planeta. Valek é competente em nos transmitir a sensação parecida de desbravamento, isolamento e solidão de uma viagem pelo espaço cósmico. Mas, como observa Brian Stableford em seu verbete “Under the Sea”, de The Encyclopedia of Science Fiction,1 é justamente isso que aproxima os dois subgêneros e, talvez, torne menos abordada a opção pelo mar. Pois no fundo, seria mais excitante olhar para fora e não para dentro, embora os mistérios e perguntas sejam semelhantes.

As Águas Vivas não Sabem de Si não foi premiada ou ao menos finalista de nenhum prêmio da comunidade brasileira de FC. Talvez porque o vínculo da autora seja mais com o mainstream do que por ausência de qualidade. Porque, com um senão ou outro, qualidade há, em especial na prosa da autora. Como escreve bem!

Antes do seu primeiro romance ela já havia publicado, por conta própria, duas coletâneas de contos e crônicas e seu trabalho mais recente é o romance Cidades Afundam em Dias Normais (2020), também pela Rocco, em que, ao que parece, prossegue nesta toada neomarítima. No início deste século uma cidade do Cerrado é tragada, inexplicavelmente, até ressurgir anos depois devido a uma crise climática. Não está claro se é tão ficção científica como As Águas Vivas não Sabem de Si, mas sugere ser tão interessante quanto.

 –– Marcello Simão Branco


1Ver em http://www.sf-encyclopedia.com/entry/under_the_sea.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

A Verdadeira História da Ficção Científica

A Verdadeira História da Ficção Científica: Do Preconceito à Conquista das Massas (The History of Science Fiction), Adam Roberts. Tradução de Mário Molina. Apresentação de Sílvio Alexandre. Prefácio à edição brasileira de Braulio Tavares. Posfácio de Gilberto Schoereder. 703 páginas. São Paulo: Editora Seoman, 2018. Lançamento original de 2016.

 


Este é um livro monumental, a começar pelo tamanho. Mas isso é o de menos, porque é uma obra que discute a FC de forma arrojada, com ideias próprias, sem receio de questionar certas convenções estabelecidas no campo, seja por parte dos fãs ou dos críticos. No contexto anglo-americano poderia ser visto como mais um dentre tantos livros que já abordaram criticamente a história do gênero e suas características. Mas Adam Roberts demonstra que ainda há muito a ser pesquisado e, eventualmente, descoberto em um gênero tão rico e diversificado.

Roberts é um autor reconhecido da FC britânica, publicou, entre outros, Salt (2000) e Jack Glass (2012) – vencedor do British SF e do John W. Campbell Memorial – além de ser professor de Literatura do Século XIX na Universidade de Londres. Sua tese central em A Verdadeira História da Ficção Científica é que a FC, como gênero literário, surgiu durante o século XVII, como expressão artística da Reforma Protestante, movimento religioso e político que fez frente ao predomínio da Igreja Católica Romana, do século XVI. A reforma teria desencadeado forças criadoras inovadoras, ao apresentar uma visão de mundo dessacralizada, baseada numa compreensão mais materialista da vida e do universo. Desta forma houve uma separação, no contexto da então ficção fantástica, entre criações de caráter mágico-religioso e outras materiais-científicas nas histórias publicadas. O domínio do racional e de uma atitude mais individualista semeou a literatura, permitindo que as especulações no terreno do fantástico adquirissem, gradativa e continuamente, novas características que iria inaugurar um novo gênero, a ficção científica. Mesmo assim, esta tensão entre o mágico/religioso e o profano/científico nunca desapareceu do cerne da ficção científica, podendo ser identificada, embora de forma menos evidente, em realizações recentes.

Com isso, Roberts vai contra a corrente que, se do ponto de vista filosófico, não descarta por completo esta argumentação, a entende como secundária, pois situa a emergência da FC como resultado mais direto da Revolução Industrial, com seu extraordinário progresso material e inovações científico-tecnológicas, que mudou de forma radical as relações sociais. Contudo, creio que o autor é convincente, pois a própria emergência do capitalismo está associada a este processo de mudança de postura de longo prazo a respeito da condição humana, pois relaciona-se não só às ideias da Reforma, mas ao Renascimento antes e ao Iluminismo depois. Nesse sentido, esta permanência da dualidade entre o espiritual e o racional poderia ser identificada por esta base mais filosófica, que justificou sua emergência.

Desta forma, Roberts volta alguns séculos na identificação dos primórdios das histórias de FC. Ou seja, no século XVII, ao invés da tradicional consideração sobre o século XIX, com o romance Frankenstein (1818), de Mary Shelley e as figuras emblemáticas de Júlio Verne e H.G. Wells – estes dois, inclusive, com direito a um saboroso capítulo conjunto.

Contudo, a pesquisa histórica realizada pelo autor é o seu maior achado. Nos cinco primeiros capítulos ele defende extensamente sua tese por meio da apresentação e análise de dezenas de contos e romances, dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Desvenda obras raras e obscuras, com detalhes impressionantes de quem leu – ou teve contato direto – com a maioria delas. Talvez nem fosse preciso justificá-las em torno de seu argumento. A simples exposição comentada das obras já é um ganho relevante e que desmonta a tese do início da FC no século XIX. A própria ideia de uma “proto-FC” deve ser bastante relativizada, mostrando que o gênero é bem mais antigo e presente na história da literatura.

Roberts narra uma história cronológica da FC, portanto, com 16 capítulos ao todo – dois a mais que a primeira edição de 2006 – percorrendo, após as eras precursoras o período que nos é contemporâneo, os séculos XX e XXI. É certo que outros – e ótimos livros – fizeram isso antes em língua inglesa, mas é a primeira vez que tal empreendimento é colocado à disposição do leitor brasileiro.[1] E o autor não se limita à FC como fenômeno literário. A partir do século XX inclui a discussão sobre o gênero no cinema, rádio, televisão, histórias em quadrinhos, artes visuais e plásticas, música e videogames. E tudo colocado em perspectiva, mostrando como cada uma das artes contribuíram para o desenvolvimento da FC. Outro trabalho notável por si só.

Mas talvez o núcleo duro do desenvolvimento contemporâneo do gênero esteja mesmo situado nas décadas de 1930 a 1970 do século passado. É o que mais define e identifica o que se tornou e ainda é a FC nos dias de hoje. Da era das pulp magazines nos EUA, depois de forma central na Golden Age dos anos 1940 e 1950, até o desdobramento com a New Wave, nos anos 1960 e 1970. Se com as revistas populares norte-americanas a FC conheceu sua primeira massificação, ela trouxe um certo rebaixamento no estilo literário, fazendo com que o gênero passasse a ser ligado a alguns símbolos estereotipados, como a nave espacial, a pistola de raios, o robô e o extraterrestre – além, é claro, com as mulheres seminuas nas capas das revistas, pois a prioridade era fisgar um leitor jovem, branco e masculino. Em todo caso, na Golden Age dos anos 1940 e 1950 haverá um aperfeiçoamento destas características com o surgimento de uma nova geração de autores, não desvinculados do pulp, mas com maior apuro literário e rigor científico nas histórias. Aqui creio que Roberts foi um pouco duro com estas fases, apontando mais suas limitações, como o conservadorismo político e as deficiências literárias, como se fossem uma norma generalizada. Faltou enfatizar mais a renovação temática vigorosa, com autores que, especialmente nos anos 1950, amadureceram para publicar obras maiúsculas, que se tornaram clássicas. Alguns exemplos: As Crônicas Marcianas (1950), de Ray Bradbury; O Fim da Infância (1953), de Arthur C. Clarke, e Mais que Humano (1953), de Theodore Sturgeon – este aliás, um autor não comentado no livro.

Isso porque Roberts não esconde sua maior afinidade intelectual com a New Wave, um movimento literário que mais que renovar, direcionou a FC para novos horizontes, em termos de qualidade literária e ousadia temática. Assim, o gênero se aproximou de experiências literárias do mainstream e provocou o campo com introdução de temas como o sexo, o feminismo, as drogas, a igualdade racial, o meio-ambiente, além de uma postura mais democrática, em si, mais condizente com a essência da FC. Um gênero literário movido pelo novo, aberto a novidades, crítico do status quo e sensível à alteridade, de outros povos, culturas e estilos de vida. Polemizou com as características mais bem comportadas da Golden Age, mas olhando de forma retrospectiva fica a impressão de que a causa principal do mal-estar tenha sido menos os temas tratados e mais as experimentações literárias, na forma como muitas narrativas foram desenvolvidas. O leitor tradicional do gênero não estava acostumado com isso.

A FC que veio depois reverberou mais os paradigmas da New Wave, com o surgimento do cyperpunk e de uma corrente mais humanista, a partir dos anos 1980, até chegar ao contexto pós-colonial e multicultural do século XXI. Aliás, não se pode deixar de lembrar que esta é uma história do gênero do ponto de vista do centro de sua produção, o mercado norte-americano e britânico. Para além dele é dada alguma atenção à FC francesa, alemã, russa e japonesa, nesta ordem. Talvez fosse pedir demais um novo esforço de pesquisa para locais menos pujantes como, por exemplo, a América Latina, mas é uma lacuna dentro do contexto maior.[2]

Outra ideia importante do livro é que a FC se tornou majoritariamente um fenômeno de expressão visual, a partir do filme Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas. Creio que isso seja difícil de contestar, pois nas décadas posteriores o cinema de FC tornou-se o mais popular e lucrativo de Hollywood. Aliás, não só o cinema pois, como demonstra o autor, a paisagem visual se tornou a marca mais identificável do gênero, ou seja, também na publicidade e nos videogames. Ao contrário do que postula o autor, entretanto, não entendo que este aspecto tenha assumido o lugar principal do gênero em si, mas sim como fenômeno cultural e de mercado. Isso não é pouco, é claro, mas o núcleo central de criação do gênero, continua sendo a literatura. É ela que mais inova, e mais estabelece novas tendências que, se bem sucedidas, transbordam para outras artes, de consumo mais rápido. A maior parte dos artistas com maior influência no campo prossegue sendo os escritores.

E se, ao menos para mim, é na literatura que a FC continua a apresentar as ideias mais relevantes para o desenvolvimento do gênero, a sua “conquista das massas” se dá em termos mais populares, não necessariamente em termos de reconhecimento crítico. É verdade que nos EUA e na Europa a FC goza de certa respeitabilidade – e a publicação de um livro como este ilustra isso –, mas aqui em nossas paragens tropicais a realidade é outra, como bem observa Gilberto Schoereder no posfácio. O subtítulo da obra para a edição brasileira capta bem o alcance do argumento de Roberts, uma massificação popular e crítica, mas o mesmo não ocorre na ficção científica brasileira, ainda a lutar por espaço nas grandes editoras, por mais financiamento de produções audiovisuais e mais respeitabilidade crítica por parte expressiva da academia e do jornalismo cultural.

Se no centro anglo-americano teme-se por uma “evaporação” da FC junto ao mainstream – numa citação de Roberts ao influente crítico Gary K. Wolfe –, aqui ainda paira uma marginalidade em relação ao centro da produção e reflexão cultural. Nesse sentido, A Verdadeira História da Ficção Científica é útil também para colocar em perspectiva a realidade da nossa FC junto ao centro de produção do gênero.

Em termos editoriais, vale uma observação. No início da obra é informado que os livros publicados no Brasil viriam com o título nacional primeiro, e o título original entre parênteses. Isso é seguido por todo o livro, mas de forma errática. Identifiquei algumas obras publicadas em nosso país – e em Portugal, com grande tradição de consumo por parte do fã brasileiro –, sem o título em português. O caso é que existe pesquisa bibliográfica sobre as obras publicadas no Brasil e em Portugal, como, por exemplo, os dois volumes de Quem é Quem na Ficção Científica, de R.C. Nascimento.[3] Tiveram uma tiragem pequena, mas de acesso possível por parte da editora, já que ela teve contato com algumas pessoas oriundas do fandom. Fica a sugestão, caso haja uma segunda edição.

Do ponto de vista pessoal, ler este livro foi uma experiência estimulante, pois pude compartilhar com o autor impressões e opiniões sobre várias obras e autores, especialmente os das décadas de 1940, 1950 e 1960, em que boa parte da FC estrangeira foi disponibilizada no Brasil e em Portugal. Nem sempre com opiniões convergentes, mas ainda assim interessantes, me fazendo relembrar e reavaliar sobre muitas obras e autores. Como se vê, portanto, é um livro de História e análise literária, e menos de divulgação sobre o gênero e suas características.

Nesse sentido, não deixa de ser curioso que nestes últimos anos, em que muita FC tem sido publicada no Brasil, poucas obras sobre o gênero apareceram. Ao contrário dos anos 1980, quando o mercado editorial era pequeno e bons livros, mais de divulgação, foram lançados. Seja como for, a publicação de A Verdadeira História da Ficção Científica deve ser celebrada, pois aumenta significativamente o grau de conhecimento sobre o gênero para os brasileiros, incentiva o debate e a reflexão, e abre possíveis campos de pesquisas que possam dar continuidade e problematizar as ideias corajosas deste livro excelente.

 – Marcello Simão Branco



[1] Na verdade, livros de FC de autores brasileiros também contaram a história do gênero, mas como capítulos da obra, não como seu aspecto principal.  Dentre eles o mais próximo neste contexto é Introdução a Uma História da Ficção Científica, de Léo Godoy Otero. São Paulo: Lua Nova, 1987.

[2] O Brasil é citado duas vezes no livro, mas sem mencionar o gênero em si como um movimento presente no país. Primeiro com o livro Páginas da História do Brasil Escrita no Ano 2000 (1868-1872), de Joaquim Felício dos Santos – sobre a difusão global da FC já no século XIX – e a refilmagem de Robocop (2014), do diretor brasileiro José Padilha.

[3] O primeiro é Quem é Quem na Ficção Científica – Volume 1: A Coleção Argonauta. Editora Scortecci, 1985. E o segundo é Quem é Quem na Ficção Científica – Volume II: Catálogo de Ficção Científica em Língua Portuguesa 1921-1993 (1994). Edição de autor. Nascimento publicou ainda Argonauta 500: Uma Edição Comemorativa. Clube de Leitores de Ficção Científica/Qanat Fantasia e Ficção Científica, 1999.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Lista de filmes de horror, suspense, ficção científica e fantasia lançados nos cinemas brasileiros em 2016

Confiram uma lista sugerida de filmes de horror, suspense, ficção científica e fantasia lançados nos cinemas brasileiros durante o ano de 2016

A lista abaixo pode não estar completa, mas serve como uma interessante referência dos filmes com elementos fantásticos (Horror, Ficção Científica, Suspense, Fantasia) que entraram em cartaz no circuito comercial dos cinemas brasileiros no ano de 2016, num total de 56 filmes.


1º semestre
* A 5ª Onda (The 5th Wave, EUA, 2016) – estreou em 21/01/16 (ficção científica)
* Deadpool (EUA / Canadá, 2016) – estreou em 11/02/16 (ação com elementos de ficção científica)
* Boneco do Mal (The Boy, EUA / Canadá / China, 2016) – estreou em 18/02/16 (horror)
* Orgulho e Preconceito e Zumbis (Pride and Prejudice and Zombies, EUA / Inglaterra, 2016) – estreou em 25/02/16 (horror)
* Deuses do Egito (Gods of Egypt, EUA / Austrália, 2016) – estreou em 25/02/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Presságios de Um Crime (Solace, EUA, 2015) – estreou em 25/02/16 (thriller)
* A Bruxa (The Witch, EUA / Canadá / Inglaterra / Brasil, 2015) – estreou em 03/03/16 (horror)
* Boa Noite, Mamãe (Ich seh ich seh, Áustria, 2014) – estreou em 10/03/16 (thriller)
* A Série Divergente: Convergente (The Divergent Series: Allegiant, EUA, 2016) – estreou em 10/03/16 (ficção científica)
* Mundo Cão (Brasil, 2016) – estreou em 17/03/16 (thriller)
* Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman vs. Superman: Dawn of Justice, EUA, 2016) – estreou em 24/03/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Visões do Passado (Backtrack, Austrália, 2015) – estreou em 31/03/16 (thriller)
* Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane, EUA, 2016) – estreou em 07/04/16 (horror)
* Mogli: O Menino Lobo (The Jungle Book, EUA, 2016) – estreou em 14/04/16 (aventura com elementos de fantasia)
* O Escaravelho do Diabo (Brasil, 2016) – estreou em 14/04/16 (thriller)
* Mente Criminosa (Criminal, EUA / Inglaterra, 2016) – estreou em 14/04/16 (thriller com elementos de FC)
* O Caçador e a Rainha do Gelo (Huntsman: Winter´s War, EUA, 2016) – estreou em 21/04/16 (aventura com elementos de fantasia)
* No Mundo da Lua (Atrapa la Bandera / Capture the Flag, Espanha, 2015) – estreou em 21/04/16 (animação com elementos de FC)
* Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, EUA, 2016) – estreou em 28/04/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Martyrs (EUA, 2015) – estreou em 05/05/16 (horror)
* O Conto dos Contos (Il Racconto dei Racconti / Tale of Tales, Itália / França / Inglaterra, 2015) – estreou em 12/05/16 (fantasia)
* X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, EUA, 2016) – estreou em 19/05/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass, EUA, 2016) – estreou em 26/05/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos (EUA, 2016) – estreou em 02/06/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, EUA, 2016) – estreou em 09/06/16 (horror)
* As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras (Teenage Mutant Ninja Turtles: Out of the Shadows, EUA, 2016) – estreou em 16/06/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Independence Day: O Ressurgimento (Independence Day: Resurgence, EUA, 2016) – estreou em 23/06/16 (ficção centífica)


2º semestre
* Caça-Fantasmas (Ghostbusters, EUA, 2016) – estreou em 14/07/16 (comédia com elementos de horror)
* A Última Premonição (Visions, EUA, 2015) – estreou em 14/07/16 (horror)
* Batman: A Piada Mortal (Batman: The Killing Joke, EUA, 2016) – estreou em 21/07/16 (animação com elementos de fantasia)
* O Bom Gigante Amigo (The BFG, EUA / Canadá / Inglaterra, 2016) – estreou em 28/07/16 (aventura com elementos de fantasia)
* O Diabo Mora Aqui (The Fostering, Brasil, 2015) – estreou em 28/07/16 (horror)
* Esquadrão Suicida (Suicide Squad, EUA, 2016) – estreou em 04/08/16 (ação com elementos de fantasia)
* Quando as Luzes se Apagam (Lights Out, EUA, 2016) – estreou em 18/08/16 (horror)
* Águas Rasas (The Shallows, EUA, 2016) – estreou em 25/08/16 (horror)
* Sono da Morte, O (Before I Wake, EUA, 2016) – estreou em 01/09/16 (horror)
* Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, EUA, 2016) – estreou em 01/09/16 (ficção científica)
* O Homem nas Trevas (Don´t Breathe, EUA, 2016) – estreou em 08/09/16 (horror)
* Bruxa de Blair (Blair Witch, EUA, 2016) – estreou em 15/09/16 (horror)
* O Silêncio do Céu (Brasil, 2016) – estreou em 22/09/16 (thriller)
* O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine´s Home for Peculiar Children, EUA / Inglaterra / Bélgica, 2016) – estreou em 29/09/16 (aventura com elementos de fantasia)
* Meu amigo, o Dragão (Pete´s Dragon, EUA, 2016) – estreou em 29/09/16 (aventura com elementos de fantasia)
* A Maldição da Floresta (The Hallow, EUA / Inglaterra / Irlanda, 2015) – estreou em 06/10/16 (horror)
* Lâminas da Morte – A Maldição de Jack, o Estripador (Razors: The Return of Jack the Ripper, Inglaterra, 2016) – estreou em 06/10/16 (horror)
* 12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição (The Purge: Election Year, EUA / França, 2016) – estreou em 06/10/16 (horror com elementos de ficção científica)
* Inferno (EUA / Japão / Turquia / Hungria, 2016) – estreou em 13/10/16 (thriller)
* Ouija – Origem do Mal (Ouija – Origin of Evil, EUA, 2016) – estreou em 20/10/16 (horror)
* A Garota no Trem (The Girl on the Trasin, EUA, 2016) – estreou em 27/10/16 (thriller)
* Doutor Estranho (Doctor Strange, EUA, 2016) – estreou em 02/11/16 (ação com elementos de fantasia)
* Através da Sombra (Brasil, 2015) – estreou em 10/11/16 (horror)
* Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them, EUA / Inglaterra, 2016) – estreou em 17/11/16 (aventura com elementos de fantasia)
* A Chegada (Arrival, EUA, 2016) – estreou em 24/11/16 (ficção científica)
* O Quarto dos Esquecidos (The Disappointments Room, EUA, 2016) – estreou em 24/11/16 (horror)
* Anjos da Noite: Guerras de Sangue (Underworld: Blood Wars, EUA, 2016) – estreou em 01/12/16 (horror)
* Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, EUA, 2016) – estreou em 15/12/16 (ficção científica)
* Invasão Zumbi (Busanhaeng / Train to Busan, Coréia do Sul, 2016) – estreou em 29/12/16 (horror)



(Juvenatrix)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Prêmio Argos 2017

Organizado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. Reconhece os melhores trabalhos em romance e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa em 2016, por meio de votação dos seus sócios. O evento de entrega aos vencedores ocorreu no Campus Tijuca da Universidade Veiga de Almeida, no dia 16 de dezembro de 2017, na cidade do Rio de Janeiro.
Na categoria Romance, o vencedor foi O esplendor, de Alexey Dodsworth, publicado pela Editora Draco.
Na categoria Conto, venceu "O grande livro do fogo", de Ana Lúcia Merege, publicado na antologia Medieval: Contos de uma era fantástica, da Editora Draco. A antologia, organizada por Ana Lucia Merege e Eduardo Kasse, também levou o prêmio em sua própria categoria.
Douglas Quinta Reis, publisher da Livraria Devir, recentemente falecido, foi homenageado com um prêmio especial pelo seu trabalho adiante dessa editora em prol da fc&f brasileira.
Cesar Silva

Prêmio Argos 2016

Organizado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. Reconhece os melhores trabalhos em romance e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa em 2015, por meio de votação dos seus sócios. O evento de entrega aos vencedores ocorreu durante feira literária LER, no Boulevard Olí­mpico, no dia 26 de novembro de 2016, na cidade do Rio de Janeiro.
Na categoria Romance, o vencedor foi O império de diamante, de João Beraldo, publicado pela Editora Draco. Na categoria Conto, venceu "O último caçador branco", Luiz Felipe Vasques, publicado na antologia Monstros gigantes: Kaiju, também publicado pela da Editora Draco. A mesma antologia, organizada por Luiz Felipe Vasques e Daniel Ribas, levou o prêmio em sua própria categoria.
Erik Sama, proprietário da Draco, foi homenageado com um prêmio especial pelo trabalho adiante de sua editora.
Cesar Silva

sábado, 3 de agosto de 2019

O Manuscrito de Saragoça


O Manuscrito de Saragoça (Manuscrit trouvé a Saragose), Jan Potocki. Tradução de José Sanz. Capa de Benson Chin sobre arte de Gustave Doré. Orelha de Gumercindo Rocha Dorea. 165 páginas. São Paulo: Edições GRD/Devir Brasil, 2016. Original publicado entre 1804 e 1847.


Este é um dos livros mais estranhos que já vi. Talvez a história da obra seja tão misteriosa e fantástica quanto à do próprio livro. Tive o primeiro contato em junho de 1990 quando comprei a primeira edição publicada no Brasil, na coleção Literatura Fantástica, das Edições GRD, em 1965. Mas só em 2016 adquiri a edição ao qual esta resenha se baseia. Na verdade, tem o mesmo conteúdo e tradução, apenas com uma nova capa e tamanho. Estas duas edições da GRD foram entremeadas por uma de mesmo título publicada pela editora Brasiliense, em 1988.
O leitor pode perguntar por que passo estas informações, mas é que, de certa forma, elas estão de acordo com as peculiaridades do livro em questão. Isso porque O Manuscrito de Saragoça surgiu inicialmente em 1804, mas de forma incompleta. Em parte tal perda se deve ao suicídio do autor em 1815. Os originais franceses perderam-se, depois foram reivindicados por outros autores, novas partes surgiram, com contestações sobre a real autoria dos textos, até que em 1847 teria chegado ao conteúdo completo, numa versão traduzida para o polonês e publicada em Leipzig, na Alemanha, chegando às 66 narrativas que compõe a saga.
Mas as edições brasileiras têm apenas 14 destas narrativas, que foi a versão que se consolidou inicialmente após a morte do autor. Ora, estamos diante, então, de um livro muito incompleto. Confesso que me senti um pouco enganado e frustrado. Será que leria o livro se soubesse disso? Talvez não, mas se não o tivesse feito estaria perdendo uma das histórias mais fantásticas e saborosas que já me deparei.
Em meio às guerras de conquista de Napoleão, no início do século XIX, um oficial do Exército francês acha numa casa abandonada na cidade de Saragoça, na Espanha, um manuscrito com as páginas espalhadas pelo chão. Começa a ler e fica totalmente absorvido, mesmo estando escrito em espanhol, língua da qual ele pouco entende. Leva consigo os manuscritos, e logo depois é preso por inimigos espanhóis, e sob o julgo de um capitão, que descobriu que os manuscritos contavam a histórias de um de seus ancestrais. A pedido do prisioneiro o militar traduz a obra para o francês. E é a história deste manuscrito que nós leitores também passamos a ler.
Pelas terras da Espanha acompanhamos as aventuras de Alphonse van Horden, filho de um oficial de prestígio do reinado espanhol que sai de sua localidade em terras francesas para se apresentar ao rei. Mas durante a viagem se depara com situações que desafiam sua sanidade e fé no cristianismo. Por vários momentos ele se pergunta se de fato viveu os acontecimentos ou se não passaram de sonhos ou alucinações. De certa forma o leitor também fica em dúvida, pelo menos em alguns momentos, mas como o fantástico e o sobrenatural crescem na narrativa, acabam assumindo o protagonismo dos eventos e seus significados.
Alfhonse parte de uma estalagem em Venta Quemada com dois ajudantes. Apavorados por relatos de fantasmas e assassinatos na região desaparecem misteriosamente. Sozinho, Alphonse toma conhecimento do enforcamento de dois irmãos que roubavam e matavam nos arredores, fica em dúvida se prossegue, mas, em nome da honra de seu cargo e sua família, segue adiante. No Vale de Los Hermanos pernoita em um castelo, onde é surpreendido pela presença de duas lindas mulheres, Emina e Ziibeddé, que se dizem suas primas. Elas oferecem comida e hospedagem, e depois quando Alphonse se preparava para dormir o seduzem. Mas ele acorda pela manhã ao lado dos dois enfocados, sem rastros das duas mulheres. Teria mesmo as encontrado ou foi tudo um sonho?
A partir desta experiência começamos a adentrar no mundo fantástico da Espanha profunda, com seus castelos, igrejas, montanhas e cavernas secretas, isso sem falar nas figuras exóticas que surgem, interagem com Alphonse, e contam suas histórias, que se constituem em si novas narrativas que formam o contexto misterioso, oculto, sempre por se revelar, em torno da vida e da fé do oficial a serviço do rei cristão.
A estrutura do romance é comparada a outros dois clássicos da literatura universal, As Mil e Uma Noites (século IX), sem autoria definida, e O Decameron (1348-1353), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), com as histórias dentro de uma história, mas cada obra com suas particularidades. Nestas duas mais antigas, os próprios narradores é que contam as histórias, enquanto no livro de Potocki são as pessoas que o protagonista encontra pelo caminho é que relatam os eventos que estão indiretamente ligados ele. A atmosfera das aventuras contadas por suas primas, um padre ermitão, um ladrão fugitivo, um possuído pelo diabo, dois irmãos cabalistas, e por ciganos, são permeados pelo inusitado de situações e seres sobrenaturais. Assim, surgem fantasmas, demônios, vampiros, que se ora se travestem de belas mulheres ou homens que se apresentam como benfeitores para tentar confundir Alphonse. Chama a atenção também o erotismo presente em várias situações, seja entre homens e mulheres ou entre mulheres. Tudo com sugestão, mas com plena força de efeitos. Cada uma das histórias mostra a vida pregressa das pessoas que ele encontra e elas acabam por interagir com a própria trajetória dele que, de encontro em encontro percebe que não consegue avançar sempre voltando ao mesmo local de onde teve início a história.
De forma engenhosa Potocki nos insere numa teia de tramas e conspirações onde o conceito de real e irreal se confunde de forma crescente, e o recurso metalinguístico de estarmos diante de um manuscrito que é contado com histórias dentro de uma história só torna a leitura mais desconcertante. Em certos momentos parece que há uma perda da linha narrativa, mas ao final de cada relato percebemos que cada uma delas cumpre uma etapa no processo de compreensão do plano mais geral. Assim, é um livro que narra as quatorze narrativas que correspondem a quatorze dias de sua jornada, e é realmente uma pena que o livro termina ao final de uma delas sem conclusão alguma do que irá acontecer ou que tipo de destino aguarda Alphonse em sua jornada.
O Manuscrito de Saragoça é um romance gótico com forte apelo sobrenatural e religioso. A realidade apresentada é cristã e a fé de Alphonse é testada a todo o momento por meio de eventos sobrenaturais e, principalmente, por outras crenças que surgem nas jornadas, como a das primas mulçumanas, no casal de cabalistas, no padre que pede que ele confesse seus pecados ou no chefe cigano. De certa forma é como se estas outras formas de compreensão do mundo do além estivesse a cercar da fé cristã, numa espécie de conspiração mágica com o intuito de, através da eventual conversão de Alphonse a alguma delas, subjugar o cristianismo dele e do reino espanhol.
Escrito entre o fim do século XVIII e o início do XIX o livro também se situa numa espécie de transição de costumes e mentalidades entre o fim da Idade Média e o início da modernidade, e ele se expressa, justamente através da jornada do mundo antigo (interior rural, aldeias, líderes religiosos, eventos sobrenaturais) para outro pretensamente mais civilizado, de onde ele parte no início e espera concluir sua missão. Resta saber se Alphonse conseguirá manter sua fé cristã na jornada em direção a um mundo mais racional.
Nesse sentido vejam o que escreveu o editor Gumercindo Rocha Dorea (das Edições GRD) na dedicatória do meu volume da edição de 1965: “Marcello cuidado com este volume! O mundo que aí se encontra está tentando (se é que já não conseguiu) dominar o mundo.” É o velho temor do desafio à fé cristã e seus valores, num processo que se anunciava como de desencantamento do mundo, para usar a expressão com que Max Weber (1864-1920), interpretou a passagem do mundo sacro (tradicional) ao laico (moderno). Potocki tinha em mente sua época, mas esta ideia continua, em alguma medida, presente nos cristãos do mundo, desafiados, justamente pela modernidade que se instaurou e outras crenças que permanecem influentes como forma de interpretar e influenciar o mundo.
A obra recebeu duas adaptações. Uma produção polonesa ao cinema em 1965 – lançada em DVD no Brasil, mas já esgotada –, e uma minissérie de TV na França, em 1973. Raridades que se somam aos mistérios em torno da obra. Mas a boa notícia é a de que sim, está disponível em língua portuguesa a edição completa da obra. As 66 jornadas foram reunidas em dois volumes pela editora portuguesa Cavalo de Ferro, em 2010. Se você leitor que não leu o livro já se interessou a partir desta resenha, imagine para alguém que como eu leu apenas parte da narrativa. Mas seja por qual edição você se deparar, valerá, em primeiro lugar o prazer da leitura. É escrito com beleza e uma fruição acima da média e, também por isso, fadado a seduzir o leitor. Mas, cuidado. Sendo ou não cristão a advertência do Gumercindo faz sentido: pode abalar sua visão de mundo e os valores que têm como corretos. É um livro fascinante e provocador.

– Marcello Simão Branco