sexta-feira, 17 de abril de 2026

Tupinilândia, Samir Machado de Machado

Tupinilândia, Samir Machado de Machado. 454 páginas. São Paulo: Todavia, 2018. 

Nada é mais estimulante do que ler uma história em que o sentido de maravilhamento se faz presente. Isso é cada vez mais difícil para um leitor veterano, já tão distante daquela tenra idade em que tudo soa maravilhoso. O leitor da fantasia se esforça, busca por isso, mas raramente reencontra o mesmo senso do maravilhoso de suas primeiras leituras. No meu caso, eram os romances de Julio Verne, as aventuras do Tarzan de Edgar Rice Burrougs e os contos de Ray Bradbury. E ainda mais difícil é encontar esse tipo de sensação na literatura brasileira, tão sofrida quanto o povo daqui. São muitas tristezas, muitas tragédias, muita violência, que acampanham os habitantes de Pindorama desde o dia em que os navegantes portugueses desembarcaram em 1500. 
Por isso é preciso falar de Tupinilândia (Todavia, 2018). Nada poderia ser mais antropofágico, no sentido estrito de Mario de Andrade, do que este romance do escritor portoalegrense Samir Machado de Machado, autor com muita experiência no fantástico, tendo sido organizador e editor da revista Ficção de Polpa, publicada entre 2009 e 2013 pela Não Editora, um dos melhores periódicos literários do gênero no país. Machado também publicou antes alguns títulos bem recebidos pela crítica, como O professor de botânica (2008, Não) Quatro soldados (2013, Rocco) e Homens elegantes (2016, Rocco). 
Mas é em Tupinilândia que o fenômeno acontece. Trata-se de uma fabulação divertida e empolgante, cheia de ação e aventura, sem se afastar daquilo que nos une como nação. 
A história conta a aventura de um grande empreiteiro brasileiro que, depois de ter encontrado Walt Disney em sua visita ao Brasil em 1941, quando ainda criança, e apaixononado por cinema, nunca mais se afastou de ambos. Leitor ávido dos quadrinhos de Carl Barks, foi construindo ao longo da vida o projeto de um parque temático que repetisse no Brasil os mesmos conceitos de cultura e identidade para os brasileiros que a Disneylândia tem para os americanos. Ao herdar a fortuna da família, passa a investir parte de seu patrimônio na aventura de construir próximo às margens do Rio Xingu, em pela floresta amazônica paraense, a sua Tupinilândia. Enquanto a triste história do Brasil acontece lá fora, o projeto é tocado em segredo com o patrocínio grandes empresas nacionais.
Em 1984, em plena campanha eleitoral para escolher o primeiro presidente não militar depois dos vinte e um anos de ditadura, o parque está quase pronto, e para lá vai um seleto grupo de pessoas, entre empresários, apoiadores e familiares, convidados para conhecer o lugar em primeira mão. É claro, desde o princípio, que aquilo está fadado ao fracasso, mas algo tão grandioso não pode simplesmente acabar sem deixar consequências. E elas virão.
O romance está dividido em duas partes, mais um prólogo e um epilogo. A primeira parte, chamada "Versão Brasileira", conta sobre os dias finais de conclusão do ousado projeto e os dias da visita-piloto ao parque. Tupinilândia – o parque – é, obviamente, apenas uma criação de Machado, mas bem que poderia não ser. Na verdade, seria maravilhoso se fosse real. Deveria ser. 
Gosto especialmente do momento em que o autor, na figura de um jornalista contratado para escrever um livro sobre o parque, descreve as histórias em quadrinhos do personagem Arthur Arara, a versão tropical do Mickey Mouse. Como seria bom ler aquelas revistas! Sinceramente, espero que, algum dia, inspirado pela leitura de Tupinilândia – o romance –, algum quadrinhista decida dar corpo a elas, como aconteceu com as histórias de "O Escapista", citadas por Michael Chabon em seu aclamado romance As incríveis aventuras de Kavalier & Clay (2000). Mas o maravilhamento não para por aí. Na verdade, a coisa só melhora a cada capítulo.
Essa primeira parte está dividida em três apisódios, que levam nomes de grandes romances da ficção científica: "1984", "Admirável mundo novo" e "Não verás país nenhum".
A segunda parte tem o título de "Mundo perdido", que dá a dica do que aconteceu ao parque trinta anos depois, e também está dividida em três episódios, que homenageiam filmes de cinema do gênero: "Uma nova esperança", "A terra em que o dia parou" e "De volta para o futuro". 
O livro é uma colcha de retalhos de citações e homenagens, muitas das quais só os entendidos em cultura pop vão "pescar". Mas não é preciso tanto. Há muitas outras que são deliciosamente explícitas e constituem a maravilhosa recriação cenográfica do Brasil dos anos 1980, além de muitos outros detalhes que remetem a uma brasilidade sessentista e setentista que mesmo quem não a viveu vai reconhecer. E mais não digo, para não estragar as supresas. 
O que ainda posso dizer é que Tupinilândia é uma ficção política muito bem engendrada. Ótima narrativa, divertida, historicamente correta, cheia de referências que dão consistência à trama, com um clima meio delirante, meio onírico, mas profundamente brasileiro e politicamente oportuno.
O livro ainda traz, a moda dos romances de fantasia, um mapa de Tupinilândia com arte de Fernando Heynen e Kako, sendo que este último é também responsável pela ilustração espetacular da capa, numa representação da Tupinilândia em 2015 que sugere uma bandeira do Brasil com o Mickey Mouse ao centro. 
Coloque Tupinilândia agora em sua lista de leitura. Garanto que não vai se arrepender.
— Cesar Silva

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Planeta Fantasma

 



O Planeta Fantasma (A Wreath of Stars), Bob Shaw. Tradução: Eurico Fonseca. Capa: A. Pedro. 187 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, coleção Argonauta, n. 362, 1987. Publicado originalmente em 1976.

 

Este romance curto de FC aborda de forma inventiva e despojada o tema do universo paralelo ao nosso. Há muitas obras sobre este assunto e, rapidamente, me recordo do clássico O Despertar dos Deuses (The Gods Themselves; 1973), de Isaac Asimov (1920-1992). Mas se neste o contato entre os universos foi resultado de uma experiência científica, em O Planeta Fantasma ele ocorre como desdobramento de um evento cósmico, per si, já bastante espetacular.

Em 1993, Clyde Thornton, um astrônomo amador, descobre que um planeta errante está a se aproximar da Terra. Estudos posteriores revelam que o agora batizado Planeta de Thornton passará através do nosso planeta, pois é um astro de antineutrino. Com a notícia, o pânico se instaura e muitos anunciam que o apocalipse chegou. Mas, os cientistas afirmam que não há motivo para isso, pois passaria desapercebido, se não tivesse sido descoberto por causa da lente especial chamada magnilux. Os óculos com esta lente se tornam populares, e a visão de Thornton passando pela Terra não deixa de ser impressionante. O planeta errante acaba capturado pela órbita do Sol e deverá visitar novamente a Terra dentro de 92 anos. Mas, no fim das contas, o pânico se esvai e o interesse permanece apenas na comunidade científica.

Pelo menos até os mineiros no interior de uma caverna de Barandi – um novo país africano saído de uma guerra de libertação –, ao usarem os óculos especiais avistarem seres estranhos, translúcidos e azulados por entre as rochas. Quem seriam eles? Seres sobrenaturais? Alucinações?

A investigação passa a ser comandada pelo engenheiro Gilbert Snook, um dos responsáveis pelos trabalhos na mina, apesar da resistência do governo que acredita que tudo não passe de crendices e superstições. Snook é esperto e divulga a notícia na imprensa estrangeira, ajudando a impedir que os trabalhadores fossem punidos por se recusarem a continuar no trabalho e não houvesse investigação alguma.

A partir daí, junta-se ao engenheiro um astrônomo, uma funcionária da ONU e um jornalista que – amparados pela repercussão internacional do caso – tentam desvendar o mistério. Ainda mais que é constatado que tal fenômeno também tem se repetido em outros lugares do planeta, todos situados na linha do equador. O norte do Brasil, inclusive, é um desses locais.

Pois os tais seres não são fantasmas, como foram inicialmente chamados, mas seres de um universo paralelo ao nosso. O mundo deles recebe o nome de Avernus, numa referência a um dos deuses da mitologia grega que vive nas profundezas. Isso porque, os avernianos se situam, paralelamente, ao interior da Terra. Mundos concêntricos, mas não simétricos, e em constante movimento de um em relação ao outro.

Snook é quem faz os contatos com os seres, principalmente com um deles, Felleth. A comunicação entre ambos é de caráter telepático, por meio das habilidades mentais dos avernianos. E uma das constatações interessantes é que, ao compartilhar por milhões de anos em biosferas concêntricas, teria ocorrido uma transferência de saberes. Desta forma poderiam ser explicadas as várias crenças de há muito tempo sobre a existência de sociedades e um mundo sob a superfície da Terra.

Os avernianos – que se referem a si mesmos como a Gente – são mamíferos, bissexuais, vegetarianos e com uma expectativa de vida centenária. Como dito, se comunicam, principalmente, por meio de telepatia e tem uma organização social patriarcal, mas com estruturas de poder informais, regidas por um conselho de especialistas. Além disso, Avernus é um mundo com uma superfície quase totalmente aquática, com várias pequenas ilhas em sua faixa equatorial e o céu é sempre nublado. Tanto é que uma das descobertas mais chocantes a partir do contato com a Terra é a existência das estrelas. Nunca viram o céu noturno.

Mas a este contexto instigante, há o imbróglio político. Isso porque não há um consenso entre o presidente e o líder militar de Barandi sobre o que fazer com a descoberta e interferência dos estrangeiros, pois poderia colocar em risco o destino político da jovem nação. O presidente querendo legitimidade através do reconhecimento da ONU e o líder militar através da força. Em meio à discussão, digamos, mais científica, Bob Shaw caracteriza muito bem a situação política, numa interessante reflexão sobre os rumos políticos possíveis em nações pobres que obtém a independência. Certamente uma alusão às várias nações africanas que viveram processos de emancipação política na segunda metade do século XX, a maioria delas, inclusive, libertadas do julgo britânico, nação de origem do próprio autor.

Pelo que foi comentado, o leitor percebe que estamos diante de um romance que se desenvolve em várias camadas. A das descobertas científicas, mais ligadas ao lúdico e ao maravilhoso, e a que se assenta no realismo da situação política do mundo à época. Mas isso não faz com que a história tenha se tornado datada, pois Shaw é habilidoso em não reforçar estereótipos e preconceitos.

Aliás, chama a atenção, além da inteligência e criatividade, o bom senso e respeito no tratamento dos personagens e culturas diferentes, o que sobressai também no choque cultural com a nova civilização paralela à nossa. É como se houvesse dois planos de equivalência comparativa: do ocidente imperialista para as nações descolonizadas e do nosso mundo e seus valores em relação a um outro com características bem diferentes, pelo exposto, menos materialista e mais aberto à diversidade.

Bob Shaw (1931-1996) escreve tão bem que quase não se percebe que estamos diante de uma tradução portuguesa. Tem uma prosa fluente, personagens interessantes e contraditórios, e move o desenvolvimento do enredo de forma a surpreender o leitor até o final. Escritor norte-irlandês com uma carreira sólida na FC britânica, Shaw tinha a habilidade de escrever de forma a atrair mesmo leitores não habituados à FC. Um aspecto reconhecido por críticos e por ele mesmo.

O Planeta Fantasma não está entre seus livros mais lembrados, mas pode ser situado entre os melhores, por todas as qualidades que já externei nesta resenha. Entre o final dos anos 1970 e na década de 1980 escreveu dois romances premiados com o British Science Fiction Award e que estabeleceram seu prestígio: Orbitsville (1975) e Os Balonautas (The Ragged Astronauts;1986) – Argonauta 408 e 409 – e que renderam mais dois livros cada um. Mas antes ele já havia chamado a atenção pela criação do conceito do ´vidro lento´: um recurso tecnológico que permitiria enxergar o passado, conforme exposto em outro de seus livros notáveis, Outros Dias, Outros Olhos (Light of Other Days; 1966), publicado pela Argonauta em seu número 457. Esta coleção, inclusive, publicou mais sete livros dele, e no Brasil saíram dois: a coletânea A Invasão Silenciosa (Tomorrow Lies; 1973) e o romance Crime no Tempo B (Dagger of the Mind; 1979), ambos pela coleção Fantastic, da Tecnoprint, nos anos 1980. Há muito o que ler dele, portanto.

Se Shaw não está entre os escritores de primeira linha na FC, se situa muito bem entre aqueles que valem ser conhecidos por terem uma voz própria e se consolidarem no gênero por alguns dos seus aspectos mais valiosos: uma engenhosidade criativa quase juvenil equilibrada com uma perspectiva crítica da realidade. Isso está longe de ser trivial.

Marcello Simão Branco