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segunda-feira, 5 de julho de 2021

O Planeta dos Macacos

O Planeta dos Macacos (La Planète des Singes), Pierre Boulle. Tradução de André Telles. 205 páginas. Rio de Janeiro: Pocket Ouro/Agir Editora, 2005. Lançamento original em 1963.


Este é o tipo de livro que de tanto conhecermos a história por meio dos filmes no cinema, série de TV etc., desestimula a leitura, pois espera-se que, a despeito de algumas mudanças, o enredo e as sequências sejam basicamente as mesmas. Apesar disso sempre tive curiosidade em ler a obra original deste clássico do cinema de FC e, se, de fato demorei décadas a fazê-lo por causa desta sensação, achei por bem finalmente tirá-lo do fundo da estante e lê-lo.

Quando lançado, O Planeta dos Macacos causou sensação, tanto pela originalidade da proposta como pela moldura de FC e, principalmente, pelas questões importantes que discute com relação ao que nos faz humanos, de nossa relação com os animais e de uma provocação sobre a questão do racismo. Por tudo isso e pela forma competente como foi escrito, O Planeta dos Macacos é um clássico da ficção científica, embora eclipsado pelo estrondoso (e justo) sucesso do filme de 1968. Pierre Boulle (1912-1994) já era um autor mainstream bem-sucedido, que antes havia publicado outro best-seller A Ponte do Rio Kwai (Le Pont de la Rivière Kwai) (1952), que também se tornou um clássico do cinema sob a direção de David Lean, em 1957.

Ao iniciarmos a leitura, de saída há uma surpresa porque a história toda é um relato manuscrito lançado dentro de uma garrafa que vaga pelo espaço, e é resgatada por um casal que viaja num veleiro. É um recurso clichê, e soa ainda mais exótico e inverossímil neste caso: uma garrafa e um veleiro, como se estivéssemos diante de uma narrativa marítima e não na imensidão infinita do cosmo, embora a analogia entre o mar e o espaço sideral seja recorrente em muitas obras.

Uma missão espacial é lançada da Terra até a estrela Betelgeuse, a belíssima supergigante vermelha, visível a olho nu, como a alfa da Constelação de Órion, situada há aproximadamente 720 anos-luz da Terra – no livro a distância é cravada em 300 anos-luz. Devido aos efeitos de dilatação temporal, provocado pela proximidade da velocidade da luz, os três astronautas chegam ao seu destino como se poucos anos tivessem passado para eles, e três séculos para os habitantes do nosso planeta.

No filme, os astronautas são militares (três homens e uma mulher) e no livro, civis: um cientista, seu assistente e um jornalista. Por comparação, me parece mais plausível a mudança realizada na versão cinematográfica. Ao chegarem a um dos planetas de Betelgeuse, nomeado por eles de Soror (irmã em latim), são surpreendidos ao descobrirem uma linda mulher, Nova – tal qual no filme –, e sua tribo de humanos.

Basicamente, a partir deste encontro os principais acontecimentos são reproduzidos na adaptação para o cinema, embora neste caso, como é de se esperar, com algumas diferenças e mais ação: os humanos são selvagens e não falam; a nave é perdida; muitos humanos são mortos ou capturados por um pelotão de gorilas fortemente armados, e levados à cidade símia, onde são enjaulados para servirem em experiências biológicas. É aqui que Ulysse Mèrou, o jornalista – equivalente ao Capitão Taylor do filme –, também capturado, conhece o casal de chimpanzés Zira e Cornelius, cientistas com a mente mais aberta em relação aos humanos. E o destino dos seus companheiros é semelhante ao do filme: um morre no confronto com os gorilas e o outro é lobotimizado e se torna tão estúpido como os nativos.

Um ponto interessante do livro é a descrição mais apurada da sociedade símia, que no filme é mostrado de forma superficial. Os macacos racionais e civilizados dividem-se em três espécies, cada uma funções específicas no interior da organização social e política. Os orangotangos representam os políticos e os religiosos, ou seja, os setores mais conservadores, responsáveis também pela educação pública; os gorilas são aqueles que exercem as tarefas de segurança e trabalhos mais brutos; e os chimpanzés são os equivalentes aos cientistas e profissionais liberais, setores de classe média com uma visão mais liberal e progressista, e com menos poder de decisão frente aos orangotangos e gorilas. No passado distante, os gorilas governaram com mão de ferro, e houve uma guerra para a libertação da tirania. Com a paz, foi estabelecido este equilíbrio de poderes e funções que, até certo ponto, revelou-se bem-sucedido.



Ulysse é visto com curiosidade, perplexidade e, finalmente, como uma ameaça à civilização símia, especialmente depois de Cornelius descobrir as ruínas de uma cidade construída pelos humanos num passado de milhares de anos, e do nascimento de um menino, a partir de seu relacionamento com Nova.

Descobre-se ainda que houve um processo evolutivo invertido em Soror pois, assim como na Terra, a civilização dominante e única era a humana, que subjugava os macacos. Contudo, devido a uma espécie de doença chamada de “preguiça cerebral” (!) a humanidade foi perdendo sua resiliência e discernimento racional, ao mesmo tempo que os macacos aumentaram sua capacidade de imitar as caraterísticas humanas. Desta forma, houve uma inversão, com o macacos se tornando inteligentes, conscientes de si e racionais e os humanos decaindo para uma condição irracional, a ponto de perderem a linguagem e sua capacidade de comunicação. Ao que parece, Pierre Boulle está a defender uma tese aqui, mas o argumento é apresentado de forma muito ligeira e incompleta. Afinal o que aconteceu com a humanidade de Soror? Que espécie de apatia, torpor, “preguiça cerebral” é esta? Uma doença, por certo. Mas não ficou claro.

A explicação, como se sabe, virá com a série de cinco filmes realizados entre 1968 e 1973 (e uma segunda extrapolação na série revisionista nos quatro filmes entre 2001 e 2017), no qual, grosso modo, a inteligência dos macacos é revelada a partir da fuga de alguns macacos após a explosão da Terra. Eles voltam no tempo e, entre outras consequências, se estabelece o costume de usar os macacos para trabalhos braçais e animais de estimação, depois de uma praga exterminar os cães e gatos. Seguem-se guerras, até que os primatas antropoides assumem o poder sobre seus antigos senhores. Na primeira versão cinematográfica está presente também uma contribuição relevante, ausente no livro, a da chamada Zona Proibida, uma região inabitável por conter resíduos radioativos advindos de um holocausto nuclear. Os chimpanzés, como Cornelius, intuem o que poderia ter provocado esta situação, mas o domínio do saber e da tradição controlado pelos orangotangos, impede o reconhecimento e divulgação do conhecimento. Em todo este desdobramento da primeira série no cinema, há uma vinculação central entre o contexto da Guerra Fria e as possíveis consequências da corrida nuclear.

No primeiro filme, a preservação que o Dr. Zaius, o líder dos orangotangos, ministro da Ciência e da Fé, faz da verdadeira origem dos macacos a partir da queda dos humanos tem um forte componente religioso, enfatizando a dicotomia entre o dogma da crença e a busca livre do conhecimento, só possível através da ciência. Corolário aqui é a discussão entre uma tendência criacionista, da tradição, contra uma evolutiva, da mudança.

Outro aspecto com o qual a obra costuma ser interpretada é de uma metáfora com o imperialismo europeu e, além disso, com o racismo, em especial aqueles historicamente praticados contra os negros. Mostrando uma situação de inversão do domínio branco e ocidental, haveria uma crítica à exploração, discriminação e violência. Mas creio que estas visões tenham sido mais vinculadas à época em que o livro foi escrito e, especialmente, quando do lançamento do primeiro filme, pois vivia-se os últimos anos das disputas por emancipação de colônias na África e à vigorosa emergência da luta pelos direitos civis, em especial nos Estados Unidos. Não que o racismo tenha diminuído, mas é que me pareceu que a interpretação evolucionista tenha ficado mais evidente ao ler a obra, levando em conta também o aspecto do relacionamento abusivo com relação aos animais, em especial com os grandes macacos, nosso parente mais próximo.

O livro é narrado com fluidez e segurança, embora curto, poderia ser mais longo, mostrando o bom escritor que Boulle foi. Este clássico da FC rendeu duas edições no Brasil. Esta com o qual escrevi esta resenha e uma mais recente, da Editora Aleph, de 2015, caprichada, com a inclusão de entrevistas com o autor e artigo de Braulio Tavares – recebeu uma segunda edição em 2019. Mas antes, em Portugal, foram lançadas edições, como as das editoras Ulisseia, Círculo de Leitores e Livros Unibolso, nas décadas de 1960 e 1970. Verdadeiras raridades, das quais tenho a fortuna de ter uma delas, a da Ulisseia, publicada em 1974.

Se o livro e o filme tem estruturas semelhantes, o final difere bastante. No romance, Ulysse, Nova e seu filho Sirius conseguem, com a ajuda de Zira e Cornelius, voltar à Terra, enquanto o filme mostra que, na verdade, devido a uma falha de navegação na trajetória da nave, eles pousaram, sem saber, na própria Terra, milhares de anos depois, dominada por uma civilização de macacos. Nada supera o impacto da cena final do filme, com Charlton Heston (Taylor) descobrindo a verdade chocante ao encontrar a cabeça da Estátua da Liberdade. É um dos momentos mais icônicos e impactantes da história do cinema. Mas o livro, em si, por tudo que comentei, nada deve à adaptação – que inclusive contou com a colaboração no roteiro do próprio Boulle, assim como nos filmes posteriores dos anos 1970 –, e também reserva no final, ao seu modo, uma surpresa de causar espanto.

Marcello Simão Branco


segunda-feira, 1 de março de 2021

Degelo em 2157

Degelo em 2157 (La Peur Géante), Stefan Wul. Tradução de André Varga. Capa de Lima de Freitas. 155 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 76, 1963. Lançado originalmente em 1957.


   Em 2157 um estranho fenômeno físico aparece. A água não congela mais a zero grau centígrado, mas cada vez a temperaturas mais negativas.

Bruno Daix, um engenheiro, é designado pelo chefe de uma empresa de refrigeradores em que trabalha, para ir até Paris investigar o caso com um eminente cientista. Mas este fenômeno foi apenas um prenúncio para a catástrofe que se seguiu. Toda a superfície da Terra foi invadida por maremotos gigantescos, provocados pelo derretimento súbito das calotas polares. Em especial o hemisfério norte ficou quase todo abaixo dos oceanos que subiram em ondas de quilômetros de altura.

Contudo, no século XXII, parte importante da afluência econômica se situa na África, principalmente do centro para o norte. É nesta região que se situa Afrança, um dos países mais poderosos, que é de onde Bruno Daix partiu, mais precisamente da capital In Salah.

No romance anterior de Wul, Missão em Sidar (Rayouns por Sidar) – resenhado aqui –, já havia sido mostrado que o personagem principal, Lorrain, também era um afrancês. E isso em 2023, quando a história acontece. Mas Wul não deu nenhuma explicação do que significava este prefixo junto à nacionalidade francesa. Pois bem. Afrança é a extensão do território francês pelo continente africano, tomando todo o Magreb e o Sahara, a partir da presença do país em sua colônia original, a Argélia. Wul sugere, então, que a presença imperialista francesa não apenas iria permanecer, mas se expandir, transformando a região numa das mais prósperas do planeta, em que triunfaria a francofonia. Assim, ao longo do livro, Wul expõe com detalhes este novo país de 500 milhões de habitantes, com cerca de dez vezes mais a população francesa dos anos 1950. Pelo exposto, portanto, Wul teria sido um defensor da manutenção da ocupação de seu país na Argélia, que tinha na época um vigoroso processo de resistência que, por fim, permitiu sua emancipação em 1962.

De volta a 2157 – aliás o título da Argonauta é bem melhor que o original, em português “medo gigante” –, em meio à catástrofe marítima Afrança se torna a nação que irá liderar um processo de recuperação econômica e militar, pois eis que surge no céu, logo após os tsunamis, dezenas de discos voadores ao redor do mundo.

Com isso, sai de cena a primeira hipótese de um colapso climático. A Terra teria sofrido uma invasão extraterrestre? Rapidamente se descobre que não, pois as naves vem, na verdade, do fundo dos mares. Sim, uma civilização aquática inteligente resolveu provocar a subida das águas para ocupar e dominar por inteiro o planeta, como reação radical à super exploração dos oceanos e redução dos habitats das espécies marinhas, pela caça, seca progressiva e poluição generalizada. De certa forma, há ecos do clássico A Guerra das Salamandras (War with the Newts) (1937), de Karel Capek.

Bruno Daix irá fazer parte dos esforços de reação militar – na condição de engenheiro e campeão de natação na juventude – adentrando num exército multinacional, que irá tentar revidar o ataque desfechado pelos torpedos, os seres aquáticos inteligentes, semelhantes às arraias.

Boa parte da história se move, então, nos preparativos para a reação bélica aos torpedos. Neste processo, alguns são capturados vivos e alguns linguistas são convocados para tentar decifrar alguma forma de comunicação com eles. Mas é Ki-Sien Tchei, a namorada de Daix, uma jornalista chinesa poliglota que descobrirá que os torpedos se comunicam por meio de impulsos magnéticos. Aqui é uma pena que o autor não desenvolveu mais a questão, pois não é feita nenhuma tentativa de diálogo com os seres.

Após o contato com os torpedos é mostrada uma cidade submarina, aos olhos de Bruno Daix, mas já com os torpedos mortos, pois a forma encontrada para derrotá-los não foi por meio de ações militares convencionais, mas sim pela criação de um vírus que foi inserido nas algas com as quais os inimigos se alimentavam.

Do conflito não se partiu para alguma forma de entendimento, ou troca de conhecimentos, uma perda para a humanidade e para a própria história, pois, como Wul mostra de forma superficial, os torpedos tinham uma tecnologia tão ou mais avançada que a espécie inteligente da superfície terrestre, com sua capacidade de mudar as características físicas da água, sua agricultura submarina cidades no fundo do mar e os próprios discos voadores. Mas a ênfase de Wul não se centrou nos detalhes de uma nova civilização, quase que tratando os torpedos como monstros marinhos.

De certa forma, esta opção mais superficial não surpreende, já que Wul se caracteriza por ser um escritor voltado essencialmente à imaginação e ao entretenimento. E, nesse sentido, sempre surpreende. Numa cena em que estão reunidos cientistas de todo o mundo para tentar entender o que são os torpedos, um deles diz que os colegas não deveriam estar tão surpresos porque há apenas alguns anos, haviam sido descobertos diplodocos nas florestas do Mato Grosso! Quando li isso, parei a leitura, pasmo com tal informação. Este é o Wul, que pode desconcertar o leitor a qualquer momento.

De qualquer forma há sim, embutida de forma indireta, uma crítica de Wul às consequências do estilo tecnológico e materialista, ao menos da sociedade ocidental, como já visto em livros anteriores como O Mundo dos Draags (Omns em Série) – resenha aqui – e Pré-História do Futuro (Niourk) – resenha aqui. No primeiro sobre a escravização dos humanos por uma espécie alienígena, e no segundo por causa de uma aniquilação nuclear. Em ambos, e também neste romance, a humanidade reage, como que para recuperar suas energias e valores vitais, que fizeram dela uma civilização, em algum momento, bem sucedida.

Degelo em 2157 é o quarto romance de Stefan Wul, o terceiro publicado na clássica coleção francesa de FC Fleuve Noir e o sexto a sair na coleção Argonauta, de Portugal. Ilustra mais um exemplo da prosa colorida e poderosa do mais pulp dos autores franceses e quicá, europeus, sem receio de apresentar ideias ousadas e desenvolvê-las com muita imaginação.

Marcello Simão Branco

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Os Malditos (These Are the Damned, Inglaterra, 1963, PB)

 


No final dos anos 1950, a produtora inglesa “Hammer” surgiu com a proposta de explorar novamente os tradicionais monstros do cinema de Horror como o vampiro “Drácula”, “Criatura de Frankenstein”, “Múmia”, “Fantasma da Ópera”, “Lobisomem”, entre outros. Apostando na fotografia colorida e no vermelho do sangue, tivemos muitos filmes que ficaram eternizados, agregando muito valor às carreiras de atores como Christopher Lee e Peter Cushing, que se transformaram em ícones do gênero.

Mas, não é só de filmes de horror com monstros que a “Hammer” é lembrada, pois o estúdio também tem em seu extenso catálogo filmes com histórias de ficção científica. No caso de “Os Malditos” (These Are the Damned, 1963), o tema é a paranoia atômica que foi criada nas décadas de 50 e 60 do século passado, com o medo do fim do mundo numa destruição com bombas nucleares, durante a guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, pelo domínio do planeta após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Com direção de Joseph Losey, fotografia em preto e branco e história baseada no livro “The Children of Light”, de H. L. Lawrence, o filme foi lançado em DVD no Brasil em 2015 pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”, e também recebeu anteriormente os títulos “O Mundo os Condenou” e apenas “Malditos”.

Um turista americano, Simon Wells (Macdonald Carey), está na Inglaterra em férias quando conhece a jovem Joan (Shirley Anne Field), irmã de King (Oliver Reed), o líder de uma gangue de motoqueiros arruaceiros que roubam turistas com o uso de violência. Simon e Joan acabam saindo juntos num passeio de barco, sendo perseguidos pelo irmão ciumento da garota.

Eles passam a noite numa casa isolada localizada perto de uma estação militar secreta e entram em contato com um grupo misterioso de crianças que vivem em instalações subterrâneas da base do exército. Inocentes, elas recebem bem os estranhos, ajudando-os a se esconderem tanto do violento King quanto dos militares. Geladas e radioativas, as crianças fazem parte de um sinistro experimento científico confidencial, liderado pelo cientista Bernard (Alexander Knox), que esconde seu trabalho obscuro da amante Freya Neilson (Viveca Lindfors), uma artista que faz esculturas bizarras.

“Os Malditos” é um filme diferente da “Hammer”, bem longe dos monstros e horror gótico que normalmente caracteriza o estilo da produtora. Com a fotografia em preto e branco, a história pessimista explora o medo e tensão constantes gerados pela paranoia de uma catástrofe nuclear, com um projeto científico sombrio envolvendo as crianças “malditas”. A primeira metade é um pouco arrastada e a gangue de motoqueiros ladrões de turistas não desperta muito interesse. Mas, as coisas melhoram bastante quando efetivamente surgem as crianças sinistras, vítimas de uma conspiração militar com objetivos sombrios. Carregado de mistério, o grupo não tem contato com o mundo exterior, as crianças só conhecem as coisas no interior do subterrâneo e nem imaginam quem são seus pais, não fazendo a menor ideia do propósito do projeto científico em que fazem parte.

Entre as curiosidades, vale citar que o filme é um dos primeiros trabalhos do ator Oliver Reed, com uma carreira bem sucedida, e que esteve antes em “A Maldição do Lobisomem” (1962), também da “Hammer”, no papel do homem transformado em lobo. Também é curioso o fato de que as crianças misteriosas formavam um grupo de nove e todas tinham nomes de reis ou rainhas da história da Inglaterra, como Henry e Victoria, as principais crianças do grupo.

(Juvenatrix – 16/02/21)






quarta-feira, 10 de junho de 2020

Jasão e os Argonautas (Jason and the Argonauts, EUA / Inglaterra, 1963)



Jasão e os Argonautas” (Jason and the Argonauts, 1963), que também é conhecido no Brasil como “Jasão e o Velo de Ouro”, título que recebeu quando foi exibido na televisão, é um daqueles filmes antigos de puro entretenimento que passavam na saudosa “Sessão da Tarde” da TV Globo. Na época em que eram exibidas preciosidades do cinema fantástico como “O Planeta dos Macacos” (1968), “Viagem Fantástica” (1966), “Robur, o Conquistador do Mundo” (1961), “Destino: Lua” (1951), “Jornada ao Centro do Tempo” (1968), “Viagem ao Centro da Terra” (1959), entre outras.
Com direção de Don Chaffey e co-produção entre Estados Unidos e Inglaterra, o filme é muito conhecido entre os apreciadores do cinema fantástico do passado, principalmente por causa dos excepcionais efeitos especiais de Ray Harryhausen (1920 / 2013), um mestre na concepção de criaturas que ganham vida com a técnica de “stop motion”.
Na divertida história inspirada na mitologia grega, Jasão (Todd Armstrong), é o herdeiro do trono de Tessália, e pretende assumir o seu posto vinte anos depois que seu pai foi assassinado e o reino tomado por Pelias (Douglas Wilmer). Porém, Jasão acaba participando de um jogo manipulado pelos deuses do Olimpo, Zeus (Niall MacGinnis) e Hera (Honor Blackman), e reúne um grupo de guerreiros gregos que partem num navio de guerra para o fim do mundo. O objetivo é se apossar de um valioso artefato, o “Velo de Ouro” do título alternativo, um presente dos deuses para o reino de Cólquida, e que garante paz e prosperidade para o povo que o possuir.
No tortuoso caminho, Jasão e os argonautas, os tripulantes da nau “Argos” (mesmo nome de seu proprietário, interpretado por Laurence Naismith), recebem a ajuda limitada de Hera, a rainha dos deuses, e enfrentam grandes perigos que ameaçam suas vidas. Incluindo um gigante de bronze (“Talos”), guardião dos tesouros dos deuses numa ilha escondida; demônios alados (“harpias”), que atormentam um velho cego, Hermes (Michael Gwynn), que sabe como chegar ao destino final da expedição; um desmoronamento mortal na passagem do navio por um estreito das “Rochas Estrondosas”; um monstro de sete cabeças (“hidra”), que protege o “velo de ouro” de saqueadores; e finalmente um grupo de esqueletos guerreiros invocados do mundo dos mortos por vingança pelo rei Aeetes (Jack Gwillim).
Além ainda de enfrentar a traição de Acastus (Gary Raymond), filho de Pelias, infiltrado na expedição. Mas, para compensar a imensa quantidade de desafios mortais em sua jornada, Jasão encontra a bela Medea (Nancy Kovack), resgatada de um naufrágio e que o ajudou na localização do desejado “velo de ouro”.          
“Jasão e os Argonautas” é um clássico “B” da Fantasia com elementos de Horror, com uma história extremamente divertida e sem compromisso com a realidade, um mergulho no escapismo que traz a simples satisfação do entretenimento. Mas, o que principalmente faz do filme algo que fica guardado num lugar especial na memória, se destacando de tantos outros similares, são as criaturas animadas pelo mestre em “stop motion” Ray Harryhausen. Os efeitos de qualidade impecável são obtidos com um trabalho árduo na captação dos movimentos quadro a quadro da miniaturas dos monstros, com um resultado impressionante para a época da produção, e que desperta admiração até hoje. Particularmente, acho essa técnica mais interessante que os efeitos do cinema moderno com imagens geradas por computador, que muitas vezes soam tão artificiais que depreciam os filmes.
Um destaque certamente é a fascinante batalha de três argonautas com um pequeno exército de sete esqueletos criados em “stop motion”, sendo um dos melhores trabalhos de toda a bem sucedida carreira de Ray Harryhausen. Essa sequência serviu de inspiração para os esqueletos de “Uma Noite Alucinante 3” (1992), terceiro filme da trilogia “Evil Dead”, de Sam Raimi.
Seguem algumas pequenas curiosidades. O filme teve um final aberto, com um gancho para a continuação que não aconteceu. Com o fim da perigosa jornada de Jasão, surgiu uma vasta variedade de possibilidades para o herói, infelizmente não exploradas. O ator Todd Armstrong (1937 / 1992), que interpretou Jasão, teve uma carreira curta e “Jasão e os Argonautas” foi seu único trabalho relevante. Sua parceira em cena, Nancy Kovack, que fez a mocinha Medea, aparece pouco, somente a partir do último ato, apesar de seu nome figurar em destaque nos créditos.    

(Juvenatrix – 10/06/20)







domingo, 31 de maio de 2020

Missão em Sidar


Missão em Sidar (Rayons pour Sidar), Stefan Wul. Tradução do Eng. Gomes dos Santos. Capa de Lima de Freitas. 151 páginas. Lisboa: Edições Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 72, 1963. Lançado originalmente em 1957.

 Estamos em 2023 e a conquista do espaço avançou bem mais do que em nossa realidade. A Terra mantém um governo de colonização no planeta Sidar, que orbita Alfa do Centauro, a estrela mais próxima do Sol, situada a 4,3 anos-luz. Mas, depois de assinar um tratado de cessão de Sidar aos alienígenas de Xress – outro planeta do sistema de Alfa do Centauro –, os terráqueos preparam-se para evacuar o planeta.
Neste contexto chega a Sidar o físico afrancês Lorrain – assim mesmo com o “a”, mas sem maiores explicações –, que pretende resgatar o seu robô Lionel, que perdeu contato com seu dono. Muitos terrestres têm como companhia um androide, igual ao seu proprietário, mas que tem sua vida garantida apenas na medida em que o dono esteja vivo. Pelo nível de intimidade ambígua mostrada nesta relação, parece ser comum a substituição de um companheiro humano, e no caso de um homem, uma mulher, sugerindo daí, talvez, um tipo de relação homoafetiva.
Em meio à transição que vive Sidar a tarefa de Lorrain é muito complicada, pois o planeta é quase que inteiramente tomado por uma vegetação intensa e fechada, habitada por animais perigosos. Depois de contactar Marco, um administrador de uma vila local, que está deprimido pela perda de seu robô Marcial, Lorrain segue para a província de Horb, onde seu robô Lionel havia se instalado. Na verdade a tarefa vai muito além do mero reencontro sentimental, pois ambos estão em Sidar numa missão secreta.
Após ser ferido pelos nativos de Horb – que vivem como tribos indígenas –, Lorrain surpreendentemente morre. Lionel o recolhe e guarda numa câmara frigorífica com o objetivo de ressuscitá-lo, pois o sucesso da missão depende da atuação da dupla. Mas como assim, ressuscitá-lo? Sim, existe uma tecnologia capaz de reviver quem morre, mas Wul não dá maiores detalhes de como isso seria possível. Lionel tem de voltar com urgência para Gayam – a maior cidade de Sidar –, para cumprir sua missão. No caminho ele encontra Marcial, reduzido apenas à cabeça, depois de sofrer um acidente com a queda de uma rocha. Aliás, a razão do sumiço de Lionel ocorrera por motivo semelhante, desfigurado com o ataque de um krotang, um dos mais terríveis predadores. Levando Lorrain num saco mortuário e a cabeça de Marcial – que retém sua consciência e memória – Lionel termina por reencontrar com Marco e, com sua ajuda, colocar em prática seus objetivos.
Com um ritmo veloz de acontecimentos Missão em Sidar é o quinto romance de Stefan Wul publicado na clássica coleção francesa Fleuve Noir e, curiosamente, traduzido apenas para Portugal e Finlândia.1 O romance está dividido em três partes: a chegada de Lorrain e seu encontro com Lionel; a peregrinação do androide para ressuscitar seu dono e salvar a missão, e a terceira parte, onde ocorre o desenlace final.
Na verdade a Terra não queria ceder Sidar aos belicosos xressianos, pois estes pretendiam ocupar o planeta com o extermínio da população local. Mas interesses políticos e econômicos prevaleceram na votação dos membros da Assembleia Solar. Com isso, secretamente, é elaborado um plano para infiltrar Lionel em Sidar para que este preparasse o terreno até a chegada de Lorrain e, assim, colocar em prática o combinado para impedir a ocupação dos xressianos.
Como dá pra notar Wul trata da questão do imperialismo, assim como já visto no romance anterior O Mundo dos Draagsresenhado aqui. Mas se neste havia uma metáfora da escravidão, aqui estamos diante de uma disputa política de dois impérios (Terra e Xress) pela posse de Sidar – e chega a lembrar um pouco a disputa entre britânicos e franceses por territórios dos árabes desunidos após a Primeira Guerra Mundial. Pois em Sidar também não havia um povo politicamente coeso em torno de um mesmo objetivo. Mas embora não torne evidente uma discussão maior sobre o tema e nem critique a colonização em si, mas a opção entre uma boa e outra ruim – que levaria ao genocídio –, o romance se insere no contexto da década de 1950, no qual a França vivia um problema sério com as lutas emancipatórias de sua principal colônia africana, a Argélia, que se aproximava de sua independência, mas com firme oposição de parte do establishment francês.
Neste sentido alguns romances de FC pulp de Wul mostram-se eivados por um subtexto político, acrescentando um conteúdo crítico para além da mera aventura de entretenimento, com o qual ele é mais identificado. E que, em Missão em Sidar nos leva ao clímax quando os planos de Lorrain e Lionel entram em ação, com a retirada de Sidar da órbita de Alfa do Centauro até tornar-se um novo planeta do sistema solar - situação já mostrada em Pré-História do Futuro (Niourk, 1957), onde é a Terra que escapa de sua órbita - ver a resenha aqui
Wul explica como isso seria possível – em mais uma proeza criativa depois da cena da ressuscitação de Lorrain –, com passagens que justificam sua fama como um autor inventivo e capaz de conduzir o leitor a sensações verdadeiramente delirantes.

Marcello Simão Branco


1Segundo o Internet Speculative Fiction Database: http://www.isfdb.org/cgi-bin/title.cgi?1179049.

domingo, 25 de novembro de 2018

O Chicote e o Corpo (The Whip and the Body, Itália / França, 1963)



Lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras Primas do Terror – Volume 1”, “O Chicote e o Corpo” (The Whip and the Body) é um filme de horror gótico dirigido pelo especialista italiano Mario Bava e com Christopher Lee como vilão.
Curto, com apenas 78 minutos de duração, a história é ambientada na Europa do século XIX, num castelo à beira do mar, de propriedade do Conde Vladimir Menliff (Gustavo De Nardo, creditado como Dean Ardow). Lá vivem também seu filho Cristiano (Tony Kendall), prestes a se casar com a noiva Nevenka (Daliah Lavi), além de Katia (Evelyn Stewart, creditada como Isli Oberon) e os empregados Giorgia (Harriet Medin, creditada como Harriet White) e Losat (Luciano Pigozzi, creditado como Alan Collins). O ambiente fica bastante tenso com a chegada de Kurt Menliff (Christopher Lee), outro filho do conde, que já teve um relacionamento conturbado com Nevenka e foi o responsável pelo suicídio de Tanya, a filha da empregada Giorgia, após outro romance mal resolvido.
Kurt é recebido com hostilidade pela família, com conflitos constantes e sentimentos de desconfiança e ódio. Depois que ele é assassinado misteriosamente, como num plano de vingança, as tensões no castelo se intensificam ainda mais e Nevenka passa a sofrer terrivelmente com alucinações e ataques do fantasma perturbado de Kurt, que retorna da tumba para assombrar o castelo.
O cineasta Mario Bava (1914 / 1980), de clássicos como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror” (1963) e “O Planeta dos Vampiros” (1965), entre outros, é considerado um mestre italiano do Horror gótico. Em “O Chicote e o Corpo” temos a tradicional ambientação sombria de um castelo imponente no alto de uma montanha beirando o mar. Com o barulho constante de fortes ventanias e ondas se chocando contra as rochas, contribuindo ainda mais para uma atmosfera sinistra que perdura o tempo todo pelos aposentos e becos escuros do castelo, com suas passagens secretas e armaduras medievais decorativas. Vozes, sombras, o horror à espreita, mortes, perseguições, loucura, todos esses elementos juntos para fazer do castelo um palco de pesadelos num horror gótico de gelar a alma dos vivos.
Christopher Lee (1922 / 2015), com seu currículo de quase 300 filmes, está imponente como sempre, no papel de um vilão que chicoteia uma mulher e assombra o castelo da família em busca de vingança contra seus detratores.

Eu te assusto? Você gostava de mim antes. Você sempre gostou de violência. Você não mudou nada. Você não mudou e nunca mudará.” – Kurt para Nevenka    

(Juvenatrix – 25/11/18)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Matango, a Ilha da Morte (Matango / Attack of the Mushroom People, Japão, 1963)


A parceria entre os japoneses Ishiro Honda (na direção) e Eiji Tsuburaya (nos efeitos especiais) trouxe uma infinidade de filmes divertidos do cinema fantástico bagaceiro. “Matango, a Ilha da Morte” é mais um deles, uma produção japonesa da “Toho” de 1963, e que tem o sonoro título em inglês “Attack of the Mushroom People”, ou numa tradução literal, “Ataque das Pessoas Cogumelo”.
Um grupo descontraído de jovens formado por cinco homens e duas mulheres está passeando num iate em alto mar. Formado pelo empresário e dono do barco Masafumi Kasai (Yoshio Tsuchiya), o capitão Naoyuki Sakuda (Hiroshi Koizumi), o marinheiro Senzô Koyama (Kenji Sahara), o professor de psicologia Kenji Murai (Akira Kubo), a estudante Akiko Sôma (Miki Yashiro), o escritor de livros de mistério Etsurô Yoshida (Hiroshi Tachikawa), e a atriz e cantora Mami Sekiguchi (Kumi Mizuno). Após enfrentarem uma inesperada tempestade no mar, o barco fica seriamente avariado com os instrumentos de navegação quebrados, e uma vez perdidos e à deriva, eles encontram uma ilha onde desembarcam na procura de recursos para sobrevivência. Explorando o local em busca de alimentos, encontram um navio naufragado e destruído encalhado na beira da praia. Eles decidem investigar e descobrem evidências que revelam ser um navio de pesquisas científicas sobre os efeitos da radiação em testes com explosões nucleares.
Utilizando o navio como um refúgio para sobreviverem enquanto não conseguem sair da ilha, eles encontram um pequeno estoque de alimentos conservados em latas e tentam se organizar para enfrentarem o isolamento forçado. Porém, o grupo de náufragos não imaginava que as dificuldades os levariam a diversos conflitos de relacionamento, além de encontrar uma grande quantidade de cogumelos gigantes alucinógenos na ilha que transformam quem os ingerirem em monstros mutantes.
“Matango, a Ilha da Morte” é um cultuado e divertido filme japonês, situado no sempre interessante sub-gênero do cinema fantástico conhecido como “homem transformado em monstro”. Nesse caso, as pessoas náufragas perdidas numa misteriosa ilha que pode ter recebido os efeitos radioativos de explosões de bombas nucleares, são transformadas em criaturas mutantes deformadas parecidas com cogumelos gigantes. A transformação ocorre depois que elas, famintas e desesperadas na luta pela sobrevivência, cedem à tentação de comer os cogumelos. Os monstros são muito interessantes, coloridos, envoltos numa atmosfera sinistra na floresta com névoa, em efeitos toscos de maquiagem com roupas de borracha, mas que funcionam de forma convincente, compondo as melhores cenas do filme.
E o roteiro também explora com eficiência o desgaste progressivo das relações entre os sobreviventes, pois com o passar do tempo os conflitos tornam-se constantes na luta pela vida. Evidenciando a existência da sempre recorrente linha frágil que separa o comportamento social com trabalho em equipe para o bem comum, das ações egoístas e selvagens para os interesses individuais perante situações turbulentas pela sobrevivência. Um fato claramente comprovado numa frase retirada do filme: “As frágeis barreiras da sociedade se desintegravam frente ao desejo de conseguir sobreviver a todo custo”.
(Juvenatrix – 29/09/15)

sábado, 6 de junho de 2015

O Beijo do Vampiro (The Kiss of the Vampire, Inglaterra, 1963)


A produtora inglesa “Hammer” tem em seu vasto catálogo vários filmes de vampirismo, muitos deles com a dupla Christopher Lee e Peter Cushing liderando os elencos. Mas, também tem filmes sem a presença desses astros, como “O Beijo do Vampiro”, que traz Clifford Evans no papel do caçador de vampiros e Noel Willman no papel do líder de uma seita vampírica. A direção é do australiano Don Sharp, de “Rasputin – O Monge Louco” (66), e o roteiro é de autoria do produtor Anthony Hinds, utilizando o pseudônimo John Elder.
A história é ambientada no início do século XX, onde um casal em lua de mel, Gerald Harcourt (Edward de Souza) e Marianne (Jennifer Daniel), está viajando de carro por estradas remotas da Alemanha quando a falta de gasolina os obriga a se hospedar num decadente hotel pouco frequentado. Os proprietários são um casal de idosos formado por Bruno (Peter Madden) e Anna (Vera Cook), que dizem que não recebem hóspedes há muito tempo e apenas um dos quartos está ocupado. O outro hóspede é o Prof. Zimmer (Clifford Evans), um homem rude e alcoólatra, estudioso de ocultismo e que está na região com objetivos misteriosos investigando as atividades de uma família que vive num imenso castelo vizinho. O sinistro e refinado cientista Dr. Ravna (Noel Willman) é o dono do imponente mausoléu de pedra, onde vive com um casal de filhos, Carl (Barry Warren) e Sabena (Jacquie Vallis). Os jovens viajantes são então convidados para uma festa no castelo e não imaginariam que no local existe um culto vampírico liderado pelo Dr. Ravna, exilado de sua cidade natal devido uma falha num de seus experimentos científicos, e que ficou encantado com a beleza de Marianne, desejando o seu ingresso na sociedade secreta de sugadores de sangue.
Mesmo sem os tradicionais “Drácula” e “Prof. Van Helsing”, “O Beijo dos Vampiros” é mais uma preciosidade da “Hammer” dentro da temática dos vampiros humanos, seres bestiais que se alimentam do sangue de outros humanos. A narrativa é lenta, com uma atmosfera gótica e de horror sutil, sem violência e com pouca exposição de sangue, mas com as tradicionais características do estilo tão cultuado pelos fãs do estúdio, com um castelo tétrico, um baile com máscaras sinistras e bizarras de gelar a espinha, aldeões vivendo em constante medo, lindas vampiras sedutoras e um culto vampírico secreto. Tem até um ataque de dezenas de morcegos (de borracha e manipulados por barbantes) invocados num ritual de magia negra pelo Prof. Zimmer, contra os discípulos da seita do Dr. Ravna, numa similaridade com o ataque dos pássaros no filme de Alfred Hitchcock lançado no mesmo ano de 1963. Com direito a toques de erotismo de belas mulheres vampiras sendo sugadas pelos morcegos. 
Curiosamente, o filme teve uma versão americana estendida, produzida para a televisão, com o acréscimo de mais personagens e que recebeu o título de “Kiss of Evil”. “O Beijo do Vampiro” é o terceiro filme de vampirismo da “Hammer” em ordem cronológica, sucedendo “O Vampiro da Noite” (58), com a dupla Lee e Cushing, e “As Noivas do Vampiro” (60), com Cushing sozinho.   
(Juvenatrix - 06/06/15)

domingo, 29 de março de 2015

A Maldição da Chorona (La Maldición de la Llorona, México, 1963)


O cinema antigo de horror mexicano tem algumas preciosidades que não podem ficar esquecidas. Essa é uma produção de 1961, porém lançada dois anos depois, com fotografia em preto e branco, dirigida e escrita por Rafael Baledón, a partir de uma história de Fernando Galiana, que por sua vez utilizou elementos de uma lenda popular sobre uma mulher fantasma que chora de forma assustadora.
Na história do filme, a jovem Amelia (a venezuelana Rosita Arenas, de “La Momia Azteca Contra el Robot Humano” / “The Robot vs. The Aztec Mummy”, 1958), recém casada com Jaime (Abel Salazar, de “El Barón del Terror” / “The Brainiac”, 1962), recebe o convite para visitar sua tia Selma (Rita Macedo), que não vê há 15 anos e que mora solitária num casarão afastado no meio de uma floresta. A casa de aspecto sombrio é conhecida na região por ser assombrada e temida pelos moradores das aldeias próximas por causa da ocorrência misteriosa de assassinatos noturnos na estrada em seus arredores, cuja autoria é investigada sem sucesso pelo capitão da polícia local (Mario Sevilla), e onde as vítimas são encontradas sem sangue. Chegando ao destino, o casal é recebido pelo rude serviçal Juan (Carlos López Moctezuma), manco e com o rosto desfigurado. No encontro da jovem Amelia com sua tia Selma, logo é informada a real intenção do convite, com a revelação da existência de uma maldição familiar envolvendo a antiga bruxa maléfica Marina, que renegou todos os seus bens e adquiriu um poder sobrenatural das trevas. Ela foi executada com uma lança no peito, e ficou conhecida como “a mulher chorona”, devido seus gritos aterrorizantes de agonia (daí o título original). Seu cadáver apodrecido está escondido no porão da casa, aguardando apenas a oportunidade de ressurgir entre os vivos. E como elas eram suas únicas descendentes, a ideia seria reviver a feiticeira num ritual de magia negra, no aniversário de 25 anos de Amelia, cujo presente seria o seu sacrifício, dando a vida para trazer a antiga bruxa de volta.
A Maldição da Chorona” é uma pérola do cinema gótico com todas as suas tradicionais características de um horror sutil, mas extremamente eficiente na elaboração de uma atmosfera sombria e sinistra. Temos a carruagem como meio de transporte da época, tornando sempre árdua e demorada a tarefa de se locomover; a floresta com árvores secas e aspecto fantasmagórico envoltas numa tenebrosa névoa espessa; e o casarão frio e deprimente de pedra, repleto de passagens secretas e ambientes tétricos, decorado por teias de aranha, habitado por ratos e morcegos e protegido por imensos cães assassinos, que mais parecem guardiões dos portais do inferno. Estão também presentes aqueles esperados clichês que contribuem de forma decisiva para a construção de um clima mórbido como o serviçal demente com o rosto desfigurado; o porão sinistro que esconde um segredo aterrador; e a música tétrica de um órgão tocando acordes de gelar a espinha. Além de um espelho mágico que reflete a personalidade sombria escondida na jovem Amelia, que é vítima de uma maldição familiar; um alçapão que serve de inesperada armadilha; e os gritos estridentes de uma mulher chorona ecoando pelos corredores do casarão. Sem contar a presença de um homem preso no sótão, deformado pela loucura (no caso, é o marido de Selma, o Dr. Daniel Jaramillo, interpretado por Enrique Lucero, e que perdeu a sanidade nos anos forçados de reclusão, vivendo como um animal). A maquiagem da maléfica Selma, quando transformada em bruxa, com o rosto modificado simulando a região dos olhos como escuras cavidades vazias, é um dos pontos fortes do filme, passando a sensação do Mal absoluto.
Curto, com apenas uma hora e quinze minutos de duração, e com uma constante atmosfera de tensão e horror sugerido, “A Maldição da Chorona” é recomendável para apreciadores do cinema gótico e histórias de bruxas e maldição familiar, e para quem procura por produções antigas (nesse caso, da década de 60 do século passado) fora do tradicional mercado americano ou europeu.     
(Juvenatrix - 29/03/15)




domingo, 22 de fevereiro de 2015

Desafio ao Além (The Haunting, 1963)


“Uma casa má e velha, do tipo que algumas pessoas chamam de assombrada. É como um país não descoberto esperando ser explorado. Hill House se manteve por 90 anos e poderá se manter por mais 90. O silêncio cobre sólido a madeira e a pedra de Hill House, e seja o que for que andou lá, andou sozinho”
Esse é o prólogo de “Desafio ao Além”, produção em preto e branco dirigida por Robert Wise, o mesmo cineasta de “O Túmulo Vazio” (45), “O Dia Em Que a Terra Parou” (51) e “O Enigma de Andrômeda” (71), entre outros. O roteiro de Nelson Gidding é baseado no livro “Assombração na Casa da Colina” (The Haunting of Hill House), escrito em 1959 por Shirley Jackson.
O antropólogo Dr. John Markway (Richard Johnson) aluga uma misteriosa e imensa mansão chamada “Hill House” por alguns dias, com o objetivo de realizar estudos e pesquisas sobre os estranhos fenômenos que dão fama de assombrada para a casa. Ele convida duas mulheres para participar da missão, Eleanor Lance (Julie Harris), que tem alguns distúrbios psicológicos decorrentes de muitos anos de sofrimento ao cuidar de sua mãe doente, e Theodora (Claire Bloom), que possui poderes extra-sensoriais. Completa o time o herdeiro da mansão, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn), cético e piadista, cujo único interesse é conhecer melhor o imóvel que fará parte de seu patrimônio. A ideia do cientista é coletar informações e provas da existência do sobrenatural, mas não imaginava que o grupo teria que lutar para manter a sanidade no ambiente sombrio da mansão, conhecida por sua história de tragédias, mortes e loucura.
Não falta o casal de sinistros caseiros, o Sr. Dudley (Valentine Dyall) e esposa (Rosalie Crutchley), que alerta os visitantes do perigo noturno de Hill House, algo que se transformaria num clichê muito explorado posteriormente. As hipóteses que poderiam explicar as perturbações da casa como o movimento de águas subterrâneas, eletricidade, pressão do ar, manchas solares, tremores de terra, foram substituídas por batidas grotescas e aterradoras nas paredes e portas, gritos e sussurros, além de ambientes misteriosamente frios e tétricos. “Desafio ao Além” é um exercício de puro horror insinuado, onde não se vê os fantasmas ou uma única gota de sangue, mas os efeitos de luz e sombra, sons sinistros e a cena da “porta.que respira”, que tornou-se famosa, promovem um perturbador estado de desconforto, acentuado pela ótima performance do elenco aterrorizado, principalmente a dupla de mulheres convidadas pelo cientista.
Curiosamente, tivemos uma refilmagem em 1999 com Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Owen Wilson, que recebeu o título nacional de “A Casa Amaldiçoada”. Sua história abandonou o horror psicológico e sugerido do clássico de 1963, priorizando as cenas gráficas com mortes violentas e sangue. E em 1973 foi lançada a preciosidade “A Casa da Noite Eterna” (The Legend of Hell House), com roteiro do especialista Richard Matheson baseado em sua obra homônima, e com Roddy McDowall liderando o elenco. A história é bem similar à obra-prima de Robert Wise, porém com um horror mais explícito. Mas, o resultado é igualmente interessante e recomendável, juntando-se ao clássico dos anos 60 e situando-se entre os mais representativos filmes do sub-gênero de casas assombradas de todos os tempos.
(Juvenatrix - 03/01/15)