segunda-feira, 12 de abril de 2021

"Cowboy Bebop", um seriado diferente

 


“COWBOY BEBOP”, um seriado diferente

Miguel Carqueija

 

            Anuncia-se para 2011 uma versão cinematográfica em imagem real para “Cowboy Bebop”. Em princípio é uma boa notícia, considerando que a série original é extraordinária e deixou muitas pontas soltas, com um final até certo ponto decepcionante.

            O seriado, dirigido por Shinishiro Watanabe (Estúdio Sunrise), consta de 26 episódios produzidos entre 1998 e 1999. Seguiu-se o mangá, desenhado por Hajime Yatate e que totalizou três volumes — saiu de 1999 a 2000. Finalmente em 2001 Watanabe dirigiu um OVA de longa-metragem, “Cowboy Bebop: tengoku no tobira”.

            Infelizmente o mangá e o filme longo apenas contam novos episódios avulsos, que nada acrescentam ao capítulo 26 do seriado, ou seja, não avançam com a saga ali bruscamente interrompida.

            Os personagens são poucos e o argumento muito interessante. É como se fosse um faroeste cósmico: os “cowboys” são caçadores de recompensas, que procuram criminosos com a cabeça a prêmio. A Bebop é uma nave onde viajam três deles: Spike Spiegel (ex-gangster da máfia chinesa “Dragão Vermelho”), Jet Black (ex-policial, com um braço mecânico) e Faye Valentine (cujo passado é misterioso). Ainda aparecem na Bebop o cachorro Ein, que é muito inteligente, e a excêntrica “haker” Ed, de treze anos.

            O nome “Ein”, por sinal, é uma abreviação de Einstein — para dar uma idéia da inteligência do cachorro. Quanto a Ed., a seu modo também é inteligentíssima, inigualável num computador, apesar de sua aparência desmazelada de “hyppie” e só andar descalça.

            Sem embargo da comicidade de diversos episódios a história tem uma raiz altamente dramática e um desfecho trágico. É uma história de crime, paixão e vingança, envolvendo um amor frustrado e um caso mal resolvido. Cínico, cético, Spike Spiegel já se considera morto e por isso liga pouco para a vida. Jet Black também tem um passado doloroso como policial, algo que lhe valeu a perda do braço. Quanto a Faye, que veio depois, é um caso curioso: atingida pelos cataclismos que vitimaram a Terra, planeta agora praticamente abandonado, foi levada em coma a Marte e permaneceu congelada por 54 anos, sendo resgatada sem ter envelhecido além dos 23 anos que tinha. Mas já foi acordada com o hospital cobrando os 54 anos de internação sem que ela pudesse pagar, tornando-se assim a pessoa mais endividada do Sistema Solar.

            É uma série que vale a pena assistir por seu dinamismo e criatividade.

 

Resenha iniciada em 7 de novembro de 2010 e somente completada em 12 de abril de 2021.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

O Capitão Barbosa e o Chimuti

 

O CAPITÃO BARBOSA E O CHIMUTI

Miguel Carqueija

 

Acompanhado por seu imediato Zé Peroba, o Capitão Barbosa caminhava célere por um dos corredores de Heliópolis, a estação interplanetária situada para além da nuvem de Oort e que era frequentada por diversas raças cósmicas.

Barbosa estava apressado, pois queria ir numa feira de mangás e animês que funcionava no nível 6. Em poucas horas teria de retornar à Terra.

De repente, pelo corredor em que ele seguia, vieram pela direção oposta dois sujeitos altos, escaniçados e ostentando antenas flexíveis. Eram dois chimutis, do planeta Chimutino, e por seus uniformes e insígnias dava para perceber que um deles era capitão e o outro imediato — portanto as mesmas categorias de Barbosa e Zé Peroba.

Eles estacaram, todos os quatro, bem defronte uns dos outros.

Surgiu um impasse: os terrestres seguiam pela direita, como é hábito na Terra; os chimutis, porém, como é hábito em seu planeta, seguiam pela esquerda.

— Droga! Outra vez problemas entre a esquerda e a direita! — resmungou o Capitão Barbosa.

— Choputiski Ypikusti! — falou o capitão chimuti, em tom bem arrogante.

— Prezado senhor, a direita é minha — respondeu Barbosa com firmeza.

— Mahulinski oritopis! Chopiltiski ypikasti, alolei matinsky!

— Impossível! Pelas regras do meu planeta, nós temos direito à direita!

— Prahatús pajutios! Hinski! Hinski!

— Capitão — arriscou timidamente o Zé Peroba — o senhor está entendendo alguma coisa?

— Bulufas! Mas não é por isso que eu vou entregar os pontos!

O imediato chimuti segredou qualquer coisa ao seu capitão, que deu de ombros.

— Prezado senhor — insistiu Barbosa — o senhor tem que nos ceder a direita.

— Capitão — interveio o Zé Peroba, enquanto os outros dois confabulavam — todo mundo está contornando a gente, sem ligar...

— Cala a boca, Zé Peroba! Quando eu precisar da sua opinião eu peço! E o senhor, comandante chimuti, não vai querer criar um incidente interplanetário! Além do mais eu não vou querer perder a feira de mangás e animês!

— Abdul ormatininski paafraim! Yhikut! Ypahust!

— Ypahust para você também! Faça o favor de nos ceder a direita!

— Lebrankoviski bestakoviski! Lolabrapia nujolinski! Alalá! Alalá!

— Não tem nada lá, não! Vamos resolver é aqui!

— Capitão Barbosa — e o Zé Peroba ousou tocar-lhe o pulso — esse pessoal usa a esquerda, alguém vai ter que ceder!

— Pois que não seja eu! A honra da Terra está em jogo!

— Mas se nós demorarmos muito não teremos tempo para ir na feira dos mangás!

Diante de argumento tão convincente, o Capitão Barbosa parou e refletiu por bem uns dois segundos.

— Bem, bem... ora, para não dizerem que eu sou radical e intransigente, capaz até de causar um incidente interplanetário por causa de uma ninharia, abrirei mão do meu direito à direita e a pecha de intransigente ficará com esse nosso amigo. Peroba, como diz o leão da montanha, saída pela esquerda!

Zé Peroba deu um suspiro de alívio. O que eles não perceberam foi que os dois alienígenas também haviam confabulado rapidamente, pois o motel aonde ia o capitão chimuti tinha hora para fechar, e ele por sua vez patrioticamente e também apressadamente por sua vez abriu mão da esquerda.

Os quatro se chocaram.

 

 

Rio de Janeiro, 19 de julho a 4 de agosto de 2019.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Viajantes no Tempo

Viajantes no Tempo (Voyagers in Time), Robert Silverberg, org. Capa de Luís Campos. Tradução de Eduardo Saló. 193 páginas. Portugal, Alfragide (Damaia): Editorial Panorama, Coleção Antecipação/Antologia no. 2, sem data. Lançamento original em 1967.

Durante alguns anos esta foi, provavelmente, a mais importante antologia de contos sobre viagem no tempo publicada em língua portuguesa. Embora o tema seja dos mais populares no gênero, não foram muitos os volumes de contos publicados no Brasil e em Portugal especificamente sobre o assunto. Em 2016 saiu em nosso país pela Editora Jangada As Melhores Histórias de Viagens no Tempo: Os Contos dos Autores Mais Consagrados da Ficção Científica, organizada por Harry Turtledove e Martin H. Greenberg – ver a resenha aqui. O livro, portentoso em tamanho e variadade temática, buscou realizar uma síntese do que de melhor o subgênero publicou no século XX. Mas, a despeito de ser realmente representativa, curiosamente, não incluiu nenhum dos contos publicados na precursora Viajantes no Tempo.

Em princípio isso poderia sugerir que esta antologia não seja tão boa assim. Mas não. Estamos diante de uma seleta de histórias excepcional e, na média, com qualidade superior à antologia mais recente. Talvez questões como preferências dos organizadores ou dificuldadades de negociação de direitos autorais podem explicar a discrepância.

Viajantes no Tempo foi organizado por Robert Silverberg que, além de ser um dos grandes autores do gênero, é também um reconhecido antologista e colaborador importante no subgênero, tanto em romances como, por exemplo, “Estação dos Exilados” (“Hawksbill Station”) (1967) – primeiro publicado como novela também em 1967 –, como nas duas histórias publicadas em ambas as antologias. Nesta com “Absolutamente Inflexível” (“Absolutely Inflexible”) (1956) e na outra com “Rumo a Bizâncio” (“Sailing to Byzantium”) (1985).

Silverberg escolheu onze histórias entre as décadas de 1930 e 1960 e para concluir o livro um excerto dos dois capítulos finais do clássico A Máquina do Tempo (The Time Machine) (1895), de H. G. Wells (1866-1946), quando o viajante do tempo acelera a máquina em direção a um futuro longinquo, num dos momentos mais inspirados de toda a ficção científica. Puro sense of wonder.

Mas a história que abre a antologia também é das melhores. Trata-se de “As Areias do Tempo” (“The Sands of Time”) (1937), de P. Schuyler Miller (1912-1974), um autor muito promissor, mas que terminou por se destacar como crítico do gênero nos anos 1950 e 1960. Um físico mostra a um paleontólogo provas de que viajou 60 milhões de anos, no período Cretácio, e esteve com dinossauros. Cético a princípio, o paleontólogo descobre que Donovan, o físico, tem uma máquina do tempo – em forma de ovo – e pretende voltar novamente. Mas desta viagem acontecimentos fantásticos surgem. Donovan encontra seres humanoides, provavelmente de outro planeta, altamente avançados mas que, devido ao fato dele se recusar a se juntar a eles e se afeiçoar à mulher do grupo, passa a ser perseguido com ela. Só um pode embarcar na máquina, estabelecendo um dilema de difícil solução. É uma novela de extraordinária inventividade e força narrativa, com muitos detalhes sobre os dinossauros e os humanoides que encontra num passado remotíssimo. De certa forma lembra o romance A Descronização de Sam Magruder (The Dechronization of Sam Magruder, Science Fiction Roman), do palentólogo George G. Simpson (1902-1984) – embora menos fatalista – e está entre as melhores histórias de viagem no tempo envolvendo dinossauros.

O próximo conto já entrega o tema no título: “Encontro Consigo Próprio” (“… And It Comes Out Here”) (1950), de Lester del Rey (1915-1993). Há uma exploração minuciosa sobre o paradoxo do viajante no tempo que volta ao passado e encontra com seu eu 30 anos mais jovem, para depois voltar ao futuro e de novo ao passado. Como questiona o próprio personagem: “Quem construiu a máquina do tempo?”. Seu eu do passado ou o que veio do futuro? Conto interessante, bem no espírito da Golden Age, de priorizar a ação e o conceito, ao invés de um possível drama existencial sobre a condição do personagem.

De certa forma esta abordagem mais intimista está presente em “Projeto Brooklyn” (“Brooklyn Project”) (1948), de William Tenn (1920-2010). Numa época indefinida um experimento ultra-secreto de um governo envia, ao mesmo tempo, uma esfera metálica ao passado e outra ao futuro. Após uma primeira tentativa descobriu-se que a Terceira Lei de Newton (para a massa em movimento) também se aplica à viagem no tempo. Ou seja, ao enviar algo, por exemplo, ao passado, o local da experiência é arremessado a um futuro equivalente! Agora, os cientistas, ao que parece, organizaram a experiência – com fins militares – para evitar possíveis danos e efeitos inesperados. Estipulam que as esferas viajarão em 25 períodos do passado e seus respectivos futuros. Contudo, a cada retorno das esferas a realidade do presente é modificada, inclusive na constituição física e orgânica dos cientistas e jornalistas presentes! Ótimo conto, em que o autor explora mais uma vertente possível dos eventuais efeitos minúsculos que a presença de matéria em outras épocas poderia desencadear, modificando radicalmente o presente. E, ainda por cima, com uma boa dose de humor, que lhe é característico, tornando a narrativa ainda mais saborosa.

A história a seguir é uma das que mais estranhei a ausência na antologia citada acima, que se propõe a ser um cânone do subgênero, pois é das mais antologizadas. E ao contrário do que sugere o título “Os Assassinos de Maomé” (“The Men who Murdered Mohammed”) (1964), de Alfred Bester (1913-1987), não estamos diante de eventuais modificações na História em consequência da morte do criador do islamismo. Ele é apenas um dentre outros personagens históricos que são mortos para aplacar a fúria de um cientista ao ver sua esposa nos braços de outro homem. Isso porque ao matar inicialmente o avô da mulher, ele constata que nada mudou. Ela continua aos beijos com seu amante. Desesperado, procede então aos assassinatos de figuras conhecidas da História.

Em tom jocoso e irônico, Bester especula que cada indivíduo tem sua própria história particular, não adiantando interferir na linha temporal, em tese, comum a todos. De certo modo é como se cada ser vivente habitasse num espaço-tempo próprio, um universo só seu, mas que compartilharia as diversas experiências particulares com outros indivíduos. Que ideia desconcertante! Imagine se for possível uma realidade como esta. E em certo sentido não sabemos pois, afinal, ninguém voltou no tempo e nos contou como foi.

Já a próxima história aborda o tema da criogenia e é curioso, pois não estamos diante de uma história de viagem no tempo convencional, mas de um renascimento num futuro indefinido. É o que nos conta Poul Anderson (1926-2001) em “O Tempo Cura” (“Time Heals”) (1949). O período para despertar é quando a medicina tenha evoluído para a cura da doença, no caso o câncer. Em seus estágio finais da enfermidade Hart se submete à experiência. Entra num casulo hermeticamente fechado, é congelado e quase instantâneamente desperta. É informado pelo médico do futuro que está no ano 2941, novecentos anos à frente! Mas seu entusiamo aos poucos é desestimulado. Sim, é curado, mas após passar por uma série de exames e testes psicológicos, ele percebe que a sociedade desta época não sabe como integrá-lo socialmente. Não há mais liberdade individual, o controle é a norma. Vem menos do Estado – que formalmente não existe mais – mas do conceito de grupos sociais com as mesmas afinidades e aptidões. Tudo gira em torno do pertencimento a grupos que são quase auto-suficientes, pois não há mais família e formas de expressar a iniciativa e a consciência própria. Hart teve curada a sua doença orgânica, mas não tendo mais como se adaptar a um novo mundo, percebeu que, talvez, seu sonho tenha sido uma quimera. Excelente história de FC, em que o tom de crítica social sobre a identidade e as diferenças de valores chega a questionar até o nosso limite para que continuemos a nos considerar humanos.

Larry Niven é o autor da próxima história “Rua de Sentido Único” (“Wrong-Way Street”) (1965). Em 1985 foi descoberta uma base alienígena na Lua, permitindo a colonização. Atuando em pesquisas por lá, o físico Myke Capoferri aciona de forma acidental uma máquina e some, para descobrir que voltou ao passado. É um conto de teor fatalista, pois o personagem não sabe como voltar, já que não conhece como o artefato funciona. Mas a história ainda reserva uma revelação sobre os alienígenas. De certa forma, houve uma certa indefinição sobre o eixo principal, se é a viagem no tempo ou a civilização extraterrestre, o que enfraqueceu o conto.

A história seginte ocorre num contexto político bastante sombrio. É “Fluxo” (“Flux”) (1963), de Michael Moorcock. Num futuro próximo a Europa enfrenta uma crise econômica grave em decorrência da superpopulação. Um cientista é, então, enviado numa máquina do tempo para dez anos à frente, com o objetivo de trazer respostas ao problema que ameaça o Velho Mundo numa guerra civil. Ao chegar ao seu destino Max File encontra o continente sob as ruínas de uma guerra que queria evitar. Ao tentar regressar, o aparelho aparentemente acelera, pois File vai encontrar a Terra habitada por lagartos falantes e uma atmosfera tóxica. Contudo, não era bem isso, pois o tempo não segue um fluxo contínuo, mas sim aleatório, com vários caminhos e realidades possíveis. É uma ótima história, que dialoga com a de Alfred Bester, e talvez pudesse render mais se desenvolvida no tamanho de um romance, tais são as possibilidades abertas com premissa tão perturbadora.

Na sequência vem o conto “Alarme na Bolsa” (“Dominoes”) (1953), de Cyril M. Kornbluth (1923-1958). Um dos maiores financistas de Nova York encomenda a um cientista a construção de uma máquina do tempo. Não pretende subsidiar o conhecimento científico, tem um interesse puramente financeiro. Will Born, então, viaja dois anos no futuro para conhecer que ações estariam mais valorizadas e lucrar com isso em sua época. Mas os efeitos se revelam surpreendentes para os seus lucros e os negócios de toda a bolsa de valores. É um conto bem narrado sobre a velha máxima: “cuidado com o que você deseja, pois você pode conseguir”. Mas no caso em questão, os resultados não são compensadores.

O que de certa forma também ocorre com os resultados da experiência revelada no conto “Boletim do Conselho de Administração do Instituto de Pesquisas Avançadas, em Marmouth, Massachusets” (“A Bulletin from the Trustees of the Institute for the Advanced Research at Marmouth, Mass.”) (1964), de Wilma Shore (1913-2006). O conto se refere a uma gravação achada nos arquivos de um instituto de pesquisa, com uma entrevista realizada por um dos seus cientistas – recentemente falecido – com um homem do futuro. Então, por meio dela, os demais pesquisadores ficam a saber da experiência. Mas, assim como o Dr. Gerber – o cientista que fez a pesquisa – pouco se descobre sobre o futuro em 2061, porque o viajante trazido ao passado mostra-se estranhamente evasivo e alheio sobre as perguntas a respeito dos mais diferentes assuntos de sua época.

Depois destas histórias mais curiosas do que propriamente instigantes, o nível volta a subir com o conto “O Repouso do Viajante” (“Traveler´s Rest’), de David I. Masson (1915-2007). Um planeta vive sob uma guerra intensa há muitos anos. O soldado H é ferido numa batalha e recebe baixa. Recomeça a vida como civil, casa, tem filhos, abre um pequeno negócio bem-sucedido mas, anos depois, é reconvocado. Contado assim não sugere uma história de viagem no tempo, mas o caso é que o planeta existe com faixas variadas de tempo, de acordo com a latitude. Pode-se ir ou voltar, sentir contagens de tempo diferentes, mas, ao que parece, o caos é, de alguma forma, sublimado por causa da intensidade da guerra. Como o próprio protagonista vai intuir após voltar ao serviço ativo nem se sabe ao certo quem é o inimigo. Será mesmo que existe um? O conto tem muitas sutilezas – entre elas, a mudança do nome do personagem a cada mudança no curso do tempo –, que só lendo com atenção se apreende. Uma história notável, não por acaso incluída também na antologia World´s Best Science Fiction 1966, editada por Terry Carr e Donald A. Wolheim.

Robert Silverberg, o organizador do livro, comparece com “Absolutamente Inflexível” (“Absolutely Inflexible”) (1956). Eu já havia resenhado este conto quando escrevi o livro Os Mundos Abertos de Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004), e nesta nova leitura minha impressão não difere da primeira experiência. Assim sendo, reproduzo aqui o que escrevi na época.

No século XVIII os viajantes que sempre vem do passado são detidos e enviados para uma prisão perpétua na Lua. E a razão é que eles podem contaminar a população desta época, visto que há 200 anos todas as doenças acabaram eliminando a imunidade das pessoas. A narrativa se centra em Mahler, a figura responsável por encaminhar os viajantes. Até que aparece um deles que diz ter viajado numa máquina bidirecional, que viaja para o o futuro e o passado. A máquina fica em mãos de Mahler que resolve comprovar a veracidade do artefato. É o tipo de conto com boa premissa, mas que logo é percebida por um leitor mais atento, que advinha o que acontecerá com a história. Isso enfraquece o efeito, ainda que o desfecho seja dos mais instigantes.

Viajantes no Tempo foi o segundo volume publicado numa coleção voltada apenas a antologias, que a Editorial Panorama procurou publicar em paralelo com a coleção tradicional, Antecipação – esta com 67 edições. O número um foi Terrestres e Estranhos (Earthmen and Strangers), originalmente organizada também por Robert Silverberg, mas acrescida de contos de autores portugueses sob a organização de Lima Rodrigues, uma terceira, Obras-Primas da Ficção Científica (Masterpieces of Science Fition) organizada em dois volumes por Sam Moskowitz.1

Após a leitura destas histórias fica claro que o tema da viagem no tempo é quase que inesgotável em suas possibilidades de comentário social e exploração dos seus paradoxos. Talvez seja por estas razões que o subgênero seja tão popular entre os leitores e dos mais praticados entre os escritores. E neste livro em particular a seleção das histórias deixa isso muito claro. Pode ser difícil de achar em sebos, mas se o leitor ficou interessado vale a pena procurar. Terá em mãos uma amostra de alta qualidade sobre um tema tão fascinante

Marcello Simão Branco

1 Segundo Caio Luiz Cardoso Sampaio em sua coluna “Colecionando”, do fanzine Somnium, no. 36, dezembro de 1988, teriam sido publicadas mais quatro edições, mas sem confirmação. Mesmo uma pesquisa na internet não solucionou a dúvida.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Degelo em 2157

Degelo em 2157 (La Peur Géante), Stefan Wul. Tradução de André Varga. Capa de Lima de Freitas. 155 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 76, 1963. Lançado originalmente em 1957.


   Em 2157 um estranho fenômeno físico aparece. A água não congela mais a zero grau centígrado, mas cada vez a temperaturas mais negativas.

Bruno Daix, um engenheiro, é designado pelo chefe de uma empresa de refrigeradores em que trabalha, para ir até Paris investigar o caso com um eminente cientista. Mas este fenômeno foi apenas um prenúncio para a catástrofe que se seguiu. Toda a superfície da Terra foi invadida por maremotos gigantescos, provocados pelo derretimento súbito das calotas polares. Em especial o hemisfério norte ficou quase todo abaixo dos oceanos que subiram em ondas de quilômetros de altura.

Contudo, no século XXII, parte importante da afluência econômica se situa na África, principalmente do centro para o norte. É nesta região que se situa Afrança, um dos países mais poderosos, que é de onde Bruno Daix partiu, mais precisamente da capital In Salah.

No romance anterior de Wul, Missão em Sidar (Rayouns por Sidar) – resenhado aqui –, já havia sido mostrado que o personagem principal, Lorrain, também era um afrancês. E isso em 2023, quando a história acontece. Mas Wul não deu nenhuma explicação do que significava este prefixo junto à nacionalidade francesa. Pois bem. Afrança é a extensão do território francês pelo continente africano, tomando todo o Magreb e o Sahara, a partir da presença do país em sua colônia original, a Argélia. Wul sugere, então, que a presença imperialista francesa não apenas iria permanecer, mas se expandir, transformando a região numa das mais prósperas do planeta, em que triunfaria a francofonia. Assim, ao longo do livro, Wul expõe com detalhes este novo país de 500 milhões de habitantes, com cerca de dez vezes mais a população francesa dos anos 1950. Pelo exposto, portanto, Wul teria sido um defensor da manutenção da ocupação de seu país na Argélia, que tinha na época um vigoroso processo de resistência que, por fim, permitiu sua emancipação em 1962.

De volta a 2157 – aliás o título da Argonauta é bem melhor que o original, em português “medo gigante” –, em meio à catástrofe marítima Afrança se torna a nação que irá liderar um processo de recuperação econômica e militar, pois eis que surge no céu, logo após os tsunamis, dezenas de discos voadores ao redor do mundo.

Com isso, sai de cena a primeira hipótese de um colapso climático. A Terra teria sofrido uma invasão extraterrestre? Rapidamente se descobre que não, pois as naves vem, na verdade, do fundo dos mares. Sim, uma civilização aquática inteligente resolveu provocar a subida das águas para ocupar e dominar por inteiro o planeta, como reação radical à super exploração dos oceanos e redução dos habitats das espécies marinhas, pela caça, seca progressiva e poluição generalizada. De certa forma, há ecos do clássico A Guerra das Salamandras (War with the Newts) (1937), de Karel Capek.

Bruno Daix irá fazer parte dos esforços de reação militar – na condição de engenheiro e campeão de natação na juventude – adentrando num exército multinacional, que irá tentar revidar o ataque desfechado pelos torpedos, os seres aquáticos inteligentes, semelhantes às arraias.

Boa parte da história se move, então, nos preparativos para a reação bélica aos torpedos. Neste processo, alguns são capturados vivos e alguns linguistas são convocados para tentar decifrar alguma forma de comunicação com eles. Mas é Ki-Sien Tchei, a namorada de Daix, uma jornalista chinesa poliglota que descobrirá que os torpedos se comunicam por meio de impulsos magnéticos. Aqui é uma pena que o autor não desenvolveu mais a questão, pois não é feita nenhuma tentativa de diálogo com os seres.

Após o contato com os torpedos é mostrada uma cidade submarina, aos olhos de Bruno Daix, mas já com os torpedos mortos, pois a forma encontrada para derrotá-los não foi por meio de ações militares convencionais, mas sim pela criação de um vírus que foi inserido nas algas com as quais os inimigos se alimentavam.

Do conflito não se partiu para alguma forma de entendimento, ou troca de conhecimentos, uma perda para a humanidade e para a própria história, pois, como Wul mostra de forma superficial, os torpedos tinham uma tecnologia tão ou mais avançada que a espécie inteligente da superfície terrestre, com sua capacidade de mudar as características físicas da água, sua agricultura submarina cidades no fundo do mar e os próprios discos voadores. Mas a ênfase de Wul não se centrou nos detalhes de uma nova civilização, quase que tratando os torpedos como monstros marinhos.

De certa forma, esta opção mais superficial não surpreende, já que Wul se caracteriza por ser um escritor voltado essencialmente à imaginação e ao entretenimento. E, nesse sentido, sempre surpreende. Numa cena em que estão reunidos cientistas de todo o mundo para tentar entender o que são os torpedos, um deles diz que os colegas não deveriam estar tão surpresos porque há apenas alguns anos, haviam sido descobertos diplodocos nas florestas do Mato Grosso! Quando li isso, parei a leitura, pasmo com tal informação. Este é o Wul, que pode desconcertar o leitor a qualquer momento.

De qualquer forma há sim, embutida de forma indireta, uma crítica de Wul às consequências do estilo tecnológico e materialista, ao menos da sociedade ocidental, como já visto em livros anteriores como O Mundo dos Draags (Omns em Série) – resenha aqui – e Pré-História do Futuro (Niourk) – resenha aqui. No primeiro sobre a escravização dos humanos por uma espécie alienígena, e no segundo por causa de uma aniquilação nuclear. Em ambos, e também neste romance, a humanidade reage, como que para recuperar suas energias e valores vitais, que fizeram dela uma civilização, em algum momento, bem sucedida.

Degelo em 2157 é o quarto romance de Stefan Wul, o terceiro publicado na clássica coleção francesa de FC Fleuve Noir e o sexto a sair na coleção Argonauta, de Portugal. Ilustra mais um exemplo da prosa colorida e poderosa do mais pulp dos autores franceses e quicá, europeus, sem receio de apresentar ideias ousadas e desenvolvê-las com muita imaginação.

Marcello Simão Branco

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Os Malditos (These Are the Damned, Inglaterra, 1963, PB)

 


No final dos anos 1950, a produtora inglesa “Hammer” surgiu com a proposta de explorar novamente os tradicionais monstros do cinema de Horror como o vampiro “Drácula”, “Criatura de Frankenstein”, “Múmia”, “Fantasma da Ópera”, “Lobisomem”, entre outros. Apostando na fotografia colorida e no vermelho do sangue, tivemos muitos filmes que ficaram eternizados, agregando muito valor às carreiras de atores como Christopher Lee e Peter Cushing, que se transformaram em ícones do gênero.

Mas, não é só de filmes de horror com monstros que a “Hammer” é lembrada, pois o estúdio também tem em seu extenso catálogo filmes com histórias de ficção científica. No caso de “Os Malditos” (These Are the Damned, 1963), o tema é a paranoia atômica que foi criada nas décadas de 50 e 60 do século passado, com o medo do fim do mundo numa destruição com bombas nucleares, durante a guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, pelo domínio do planeta após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Com direção de Joseph Losey, fotografia em preto e branco e história baseada no livro “The Children of Light”, de H. L. Lawrence, o filme foi lançado em DVD no Brasil em 2015 pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”, e também recebeu anteriormente os títulos “O Mundo os Condenou” e apenas “Malditos”.

Um turista americano, Simon Wells (Macdonald Carey), está na Inglaterra em férias quando conhece a jovem Joan (Shirley Anne Field), irmã de King (Oliver Reed), o líder de uma gangue de motoqueiros arruaceiros que roubam turistas com o uso de violência. Simon e Joan acabam saindo juntos num passeio de barco, sendo perseguidos pelo irmão ciumento da garota.

Eles passam a noite numa casa isolada localizada perto de uma estação militar secreta e entram em contato com um grupo misterioso de crianças que vivem em instalações subterrâneas da base do exército. Inocentes, elas recebem bem os estranhos, ajudando-os a se esconderem tanto do violento King quanto dos militares. Geladas e radioativas, as crianças fazem parte de um sinistro experimento científico confidencial, liderado pelo cientista Bernard (Alexander Knox), que esconde seu trabalho obscuro da amante Freya Neilson (Viveca Lindfors), uma artista que faz esculturas bizarras.

“Os Malditos” é um filme diferente da “Hammer”, bem longe dos monstros e horror gótico que normalmente caracteriza o estilo da produtora. Com a fotografia em preto e branco, a história pessimista explora o medo e tensão constantes gerados pela paranoia de uma catástrofe nuclear, com um projeto científico sombrio envolvendo as crianças “malditas”. A primeira metade é um pouco arrastada e a gangue de motoqueiros ladrões de turistas não desperta muito interesse. Mas, as coisas melhoram bastante quando efetivamente surgem as crianças sinistras, vítimas de uma conspiração militar com objetivos sombrios. Carregado de mistério, o grupo não tem contato com o mundo exterior, as crianças só conhecem as coisas no interior do subterrâneo e nem imaginam quem são seus pais, não fazendo a menor ideia do propósito do projeto científico em que fazem parte.

Entre as curiosidades, vale citar que o filme é um dos primeiros trabalhos do ator Oliver Reed, com uma carreira bem sucedida, e que esteve antes em “A Maldição do Lobisomem” (1962), também da “Hammer”, no papel do homem transformado em lobo. Também é curioso o fato de que as crianças misteriosas formavam um grupo de nove e todas tinham nomes de reis ou rainhas da história da Inglaterra, como Henry e Victoria, as principais crianças do grupo.

(Juvenatrix – 16/02/21)






segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

As Águas Vivas não Sabem de Si


As Águas Vivas não Sabem de Si, Aline Valek. Capa e projeto gráfico: Manon Bourgeade. Ilustração de capa: Shutterstock. 293 páginas. Rio de Janeiro: Editora Rocco, coleção Fantástica, 2016.



O mar não é um tema particularmente pródigo na ficção científica. Apesar de Júlio Verne haver praticamente inaugurado o subgênero com Vinte Mil Léguas Submarinas (Vingt Mille Lieues sous les Mers 1869), ele vem sendo explorado de forma mais intermitente, do que permanente. No século XX o autor mais importante a escrever ficção científica marítima foi Arthur C. Clarke (1917-2008), com dois romances interessantes: Odisséia no Mar (The Deep Range, 1957) e O Fantasma das Grande Banquisas (The Ghost from the Grand Banks, 1990) e, de fato, a imagem mais recorrente e popular é da série de TV Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, 1964-1968) e do ótimo filme de James Cameron, O Segredo do Abismo (The Abyss, 1989).

Dentro deste contexto é que este As Águas Vivas não Sabem de Si é ainda mais surpreendente, pois no interior da ficção científica brasileira um romance com este tema é, salvo engano, raro. Então, por si só já deveria ser interessante conhecer este que é o primeiro romance de Aline Valek, cronista e blogueira com muitos seguidores nas redes sociais. Não sei qual foi sua motivação, mas para além do primeiro interesse no assunto, a leitura vale ainda mais pela qualidade da prosa e pelos desdobramentos do enredo.

Com o objetivo inicial de testar trajes submarinos projetados para altas profundidades é estabelecida a Estação Auris, a 300 km abaixo da superfície. Para lá vão cinco tripulantes. O cientista-chefe Martin Davenport, seu assistente Maurício, a engenheira naval Susana e os mergulhadores Arraia e Corina. Isolados, imersos no fundo do mar e seus mistérios, como que intrusos num outro mundo. Mas mais que isso solitários em suas próprias dúvidas e segredos. Do que realmente os motivaram a participar da missão e suas reais intenções.

O romance é contado do ponto de vista de Corina, uma jovem talentosa e rebelde que, depois de sofrer um acidente e ficar afastada do mergulho profissional, recebe uma nova oportunidade, através do contato com seu amigo Arraia. Mas o que a traz para o fundo do mar vai além de recuperar sua carreira, será uma tentativa de provar a si mesma que ainda pode viver a sua vida como sempre quis: de maneira independente e não convencional. Isso porque ela esconde que sofre de uma doença incurável que, dentro de no máximo alguns anos, a tornará incapaz de controlar o próprio corpo.

Mas não é só Corina que tem seus segredos. Arraia esconde seu alcoolismo, Susana se culpa por uma tragédia ocorrida num submarino, Maurício lida com uma espécie de paixão não assumida por seu guru, Martin, e este vive numa tentativa quase desesperada de provar sua tese e recuperar sua reputação diante da comunidade científica: de que há vida inteligente nas profundidades abissais dos oceanos. Cada um ao seu modo terá a chance se enfrentar seus problemas até os limites da própria viabilidade da missão. Por esta via o leitor já percebe que estamos diante de uma história com mais de uma camada. Na verdade o aspecto psicológico dá o tom da sequência dos acontecimentos. De certa forma a própria ação é movida pelas lutas internas de cada personagem e seus desdobramentos.

Mas, afinal, a grande pergunta é: haverá vida inteligente no fundo do mar? Se sim, como ela seria? Do ponto de vista temático este é o tema mais fascinante, mais aberto ao tipo de especulação que instiga o interesse do leitor de ficção científica. E, embora Valek, como disse, invista mais no aspecto intimista da narrativa, esta dimensão não está negligenciada. Pois a partir de um certo trecho do livro, os dramas pessoais dos personagens são entremeados com uma discussão altamente especulativa sobre as origens e evolução da vida na Terra. Pois se a vida teve início na água dos oceanos, ela progressivamente ganhou a superfície, possibilitando o surgimento de muitas novas espécies, entre elas, ao menos uma inteligente, com o sentido de ter consciência de si própria e da realidade que a cerca. Mas, e se neste processo evolutivo, alguma forma de vida inteligente marinha tivesse surgido e ficado por lá? Por que a inteligência deveria ter surgido necessariamente (ou apenas) entre as formas de vida terrestres?

Neste contexto os capítulos sobre a evolução da baleia, como uma espécie mamífera que abandonou a superfície para viver no mar, e os das águas vivas – seres que só se percebem como vivas nadando em bandos – quando uma delas se desgarra e passa a “saber de si”, são emocionantes. Mas o momento mais importante é o da descrição da possível espécie marítima que poderia ter surgido e evoluído para a inteligência há centenas de milhões de anos, os azúlis. Teriam eles realmente desaparecido nas fossas marítimas, há dezenas de quilômetros, no fundo dos oceanos, onde a luz do sol não chega?

A busca de Martin é pelo contato com este ser e, gradativamente, os dramas pessoais de cada personagem acabam se misturando com o objetivo da missão. Contudo, o que poderia nos encaminhar para uma solução quase que transcendente ou transformadora da forma como podemos compreender outros seres vivos e nossa própria presença no planeta, resvala para um certo anticlímax, após uma possível mensagem ser captada pela estação. É que, a este possível encontro, o plano volta a se concentrar no drama pessoal de Corina. É ela que, no fim das contas, vai adiante do que seria prudente, para tentar entender a mensagem misteriosa. Mas o preço que paga talvez seja alto demais para ela e, de certa forma, inconclusiva para os demais tripulantes e a missão.

Outro possível fascínio desta densa aventura submamarina é a conexão que pode ser feita com uma exploração espacial. De forma trocada, e isto é ressaltado no texto, é como se os tripulantes estivessem numa nave espacial explorando um outro planeta. Valek é competente em nos transmitir a sensação parecida de desbravamento, isolamento e solidão de uma viagem pelo espaço cósmico. Mas, como observa Brian Stableford em seu verbete “Under the Sea”, de The Encyclopedia of Science Fiction,1 é justamente isso que aproxima os dois subgêneros e, talvez, torne menos abordada a opção pelo mar. Pois no fundo, seria mais excitante olhar para fora e não para dentro, embora os mistérios e perguntas sejam semelhantes.

As Águas Vivas não Sabem de Si não foi premiada ou ao menos finalista de nenhum prêmio da comunidade brasileira de FC. Talvez porque o vínculo da autora seja mais com o mainstream do que por ausência de qualidade. Porque, com um senão ou outro, qualidade há, em especial na prosa da autora. Como escreve bem!

Antes do seu primeiro romance ela já havia publicado, por conta própria, duas coletâneas de contos e crônicas e seu trabalho mais recente é o romance Cidades Afundam em Dias Normais (2020), também pela Rocco, em que, ao que parece, prossegue nesta toada neomarítima. No início deste século uma cidade do Cerrado é tragada, inexplicavelmente, até ressurgir anos depois devido a uma crise climática. Não está claro se é tão ficção científica como As Águas Vivas não Sabem de Si, mas sugere ser tão interessante quanto.

 –– Marcello Simão Branco


1Ver em http://www.sf-encyclopedia.com/entry/under_the_sea.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon. Giz Editorial, São Paulo, 2012.
 
Escaldado pela leitura de um bom número de romances de ficção científica e literatura fantástica de autores brasileiros, que se revelaram obras medíocres, confesso que não nutria grandes esperanças ao iniciar a leitura. No entanto, achei este romance de terror surpreendentemente leve e interessante, com um clima de aventura que me lembra até o Inuyasha da Rumiko Takahashi. Claro que as diferenças são consideráveis: aqui o grupo é bem menor porém consideravelmente heterogêneo: Kaori, a vampira, ou “kyukesuki” em japonês; Migitê-no-Kitarô, o samurai sem um braço e não obstante, um terrível lutador; e Omitsu, a mulher-raposa ou “kitsume”, eu diria uma youkai como o Shippou do Inuyasha. No caso deste o grupo é formado, além do “hannyou” (mestiço de youkai e ser humano) Inuyasha, de Kagome (garota mística), Shippou (youkai-raposa), Miroku (monge com buraco de vento ou “kazaana”), Sango (humana, exterminadora de youkais) e Kirara, o gato que se transforma em fera voadora.
O trio, apesar das diferenças de temperamento e problemas de relacionamento, se une para caçar o “bakemono” (monstro) Shinkû, misterioso, oculto nas sombras e letal, um assassino dotado de grandes poderes e com o qual o samurai tem sérias contas a ajustar.
Giulia Moon não tornou a obra pesada, intercalando o drama e a aventura com pitadas de humor. É a “kitsune” Omitsu, que cria muitos problemas para Kitarô, quem se encarrega disso. Kitarô por sua vez é o personagem sério, aparentemente implacável mas que revela o seu lado humano, por exemplo, quando, vendo Kaori enfraquecida, permite que ela sugue um pouco do seu sangue, mordendo-lhe o pescoço. A própria Kaori, cujo aspecto é o de uma bela jovem, humaniza-se um pouco ao longo da história, tornando-se menos relaxada com suas roupas e higiene pessoal.
A autora fez bem em utilizar uma linguagem elevada, sem cair no estilo brutalista que infelizmente contaminou alguns dos nossos autores.
O seguinte diálogo mostra um pouco o difícil relacionamento do trio, o que não impede que se completem mutuamente:

“— Pensei ter-lhe dito para não matar humanos, 'kyuketsuki'.
— 'Kitsune' linguaruda — resmungou Kaori para Omitsu. — O samurai não havia percebido nada até você dar com a língua nos dentes.
— Não me ignore — rosnou Kitarô. — Estou falando com você.
Imperturbável, Kaori respondeu:
— 'Kyuketsukis' matam. Faz parte da nossa natureza.
Kitarô tomou outro gole de saquê.
— É fato — disse, limpando a boca com as cosas da mão. — Mas também é verdade que a minha profissão é eliminar 'bakemonos' maus. Os que matam gente.
— Os dois estavam roubando. E eu estava com fome — observou Kaori com secura. (...)”

Kaori é na verdade personagem de uma série da autora, ela aparece também em Kaori: Perfume de vampira e Kaori: Coração de vampira, obras que não tive ocasião de ler.
Miguel Carqueija
Rio de Janeiro, 4 de agosto de 2019.