terça-feira, 21 de julho de 2026

Portal de Capricórnio, Ursulla Mackenzie

Portal de Capricórnio
, Ursulla Mackenzie. 218 páginas. 2.a edição. São Paulo: UICLAP, 2019. Edição original: Anadarco, 2012. 

Romance de estreia da escritora paulista Ursulla Mackenzie, originalmente publicado em 2012, quando a autora ainda assinava M. R. Olivieri. O exemplar a que tive acesso foi publicado em 2019 através da plataforma de edição por demanda UICLAP. Trata-se de uma mistura de romance planetário, ucronia e transmigração, mas podemos simplificar as coisas e classificá-lo como fantasia. 
Conta a história de Dru Ruver, uma jovem que durante as férias no litoral descobre um livro com mapas e ilustrações intrigantes que parecem sugerir a existência de um portal através do qual se poderia acesar um outro mundo, em tese, a própria Terra vinte mil anos no passado. Um grupo de cientistas se forma para uma missão de exploração desse portal, que fica no interior de uma casa no litoral de São Paulo. As informações do livro se revelam verdadeiras e o grupo é transportado para um deserto repleto de monstros e armadilhas. O grupo se desmantela e cada membro vai ter de enfrentar sozinho os perigos desse mundo estranho e surpreendente. Mas eles não estão realmente sozinhos ali. Um empreendimento político-militar já se instalou naquele lugar e seu sucesso vai trazer riscos para os dois mundos. 
Mackenzie afirma que a inspiração para a história veio do maravilhamento que experimentou durante uma viagem à Praia de Santa Rita, em Ubatuba/SP, onde a casa descrita no romance realmente existe, sem o portal do tempo, provavelmente. O título Portal de Capricórnio faz referência ao Trópico de Capricórnio, que passa exatamente pela cidade. O estilo da história é weird, na linha de Edgar Rice Burrougs em Uma princesa de Marte e Pellucidar, com toques de O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. 
O livro esta dividido em duas partes bem evidentes. A primeira narra a expedição ao passado até o retorno ao presente e traz maior quantidade de mistérios e surpresas, com uma introdução realista que reforça o estranhamento da história. A segunda parte conta sobre a volta dos protagonistas para uma segunda viagem ao passado que, por ser uma repetição, já não causa tanto impacto, mas é tecnicamente mais consistente que o trecho inicial. 
A opção pela viagem no tempo é tímida pois, fica evidente que não se trata de uma ucronia. Vinte mil anos não seria tempo o bastante para determinar as profundas mudanças descritas como, por exemplo, os contornos dos continentes que, nessa época, já eram iguais aos de hoje. Além disso, a maior parte das criaturas que surgem na história nunca existiu na Terra, sugerindo uma viagem a outro mundo ou, melhor ainda, a outra realidade, que traria significados mais profundos à trama.
Significativa também é a forma literária adotada, que não faz uso de recuos nos parágrafos nem de travessões nos diálogos. Nada que cause grandes dificuldades à leitura, que é leve, agradável e dá prazer. Várias pontas soltas deixam a sensação de ganchos para uma sequência futura, embora já tenham se passado muitos anos e a autora não deu sinal de pretender publicar alguma coisa nesse sentido. Mas, se vier, vou querer ler.
Cesar Silva

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Os Dias do Cometa

 



   Os Dias do Cometa (In the Days of the Comet), H.G. Wells. Tradução: Marcos Santarrita. Capa: autoria não creditada. Orelha: Fausto Cunha. 251 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, coleção Mestres do Horror e da Fantasia, 1984. Publicação original de 1906.

 

     Neste ano de 2026 completa-se 40 anos da última aparição do Cometa de Halley nos céus da Terra. Em 1986 o evento astronômico foi cercado de muita expectativa, mas, infelizmente, o resultado foi decepcionante. Conto mais sobre isso logo antes desta resenha no meu "Diário e Observações" que escrevi sobre a passagem do astro  leia aqui.

     Já o romance Os Dias do Cometa, de H.G. Wells (1866-1946) foi escrito em 1906, prognosticando a volta do Halley em 1910. Como se sabe, neste ano a aparição foi espetacular, o que aumentou ainda mais as profecias místicas e pseudocientíficas sobre suas possíveis consequências. Nenhuma delas ocorreu, é claro, mas, de certa forma, Wells trabalhou seu livro neste contexto. Mas de uma forma bem peculiar.

     Nos primeiros anos do século XX, Wells já era um escritor conhecido e popular principalmente por seus romances de ficção científica. Livros que, efetivamente, se tornaram clássicos e pelo qual o autor continua sendo lido e interpretado até hoje. Para citar apenas duas destas obras-primas, A Máquina do Tempo (The Time Machine; 1895) e A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau; 1896).

     Mas após esta do que podemos chamar de uma primeira fase de sua obra, ele inicia uma segunda, no qual os aspectos sociológicos e reformistas se sobressaem diante da criatividade da ficção científica – embora também na primeira fase sua crítica e sensibilidade social já estivessem presentes.

     Em Os Dias do Cometa encontramos um homem já idoso repassando as memórias de sua vida através de um diário pessoal. Escrevendo no alto de uma torre, ele recebe a visita inesperada de um jovem que passa, então, a ler os escritos, e dessa forma a história é contada.

    No caso, Willie Leadford relata o que foi o mundo antes e depois da Grande Mudança. Antes, ele mistura sua trajetória pessoal com a realidade social da Inglaterra. Morando com a mãe de aluguel num quarto e cozinha, trabalha numa fábrica de cerâmica onde passa a maior parte do tempo, ganha muito mal, e namora Nettie, uma garota socialmente mais bem posicionada. Mas, apesar de se gostarem, sua dificuldade financeira e seus valores diferentes terminam por afastá-los, embora ele lute desesperadamente para continuar com ela. Principalmente quando ela o troca por um jovem filho de um empresário. Justamente tudo o que ele mais abominava, ao enxergar como o mundo era socialmente desigual e injusto.

     Através da revolta do personagem, nesta primeira parte, Wells descreve com minúcias a miséria da classe trabalhadora fabril da época. Mas a um comentário socialmente crítico pungente, mais importante é sua sensibilidade ao mostrar o sofrimento dessas pessoas e o desprezo que sentia pela classe dominante. Assim, o jovem Willie, de certa forma, seria o próprio Wells, ambos militantes socialistas e participantes de reivindicações por melhores condições de trabalho e relações humanas mais solidárias.

     Mas onde está o cometa? Sim, pois em meio a esta juventude atribulada e explorada surge o cometa nos céus. A cada noite ele se torna maior, e não são poucos os que especulam sobre o fim dos tempos. Por sinal, as descrições sobre o cometa e suas características são especialmente bonitas. Mas Willie se irrita com a presença do astro, pois estaria desviando a atenção das pessoas dos seus verdadeiros problemas. Que se intensificam com um movimento grevista fortemente reprimido e o início de uma guerra com a Alemanha. Teria alguma coisa a ver com a presença do cometa? Sim, mas de uma forma totalmente diferente.

     Pois o principal da autobiografia de Willie aborda a mudança que aconteceu depois que o cometa atingiu sua máxima aproximação da Terra. Pois o astro soltou uma quantidade maciça de gases esverdeados que se misturou à atmosfera e mudou completamente a personalidade das pessoas depois de respirarem o novo ar. No caso, o nitrogênio se tornou respirável e, como se sabe, ocupa quase 80% da atmosfera terrestre.

   Pois com a Grande Mudança, todo individualismo, cobiça, inveja e valorização desmedida por interesses materiais se esvaiu. As pessoas se tornaram mais abertas a novidades, compreensivas, bem-humoradas e dispostas a construir uma nova sociedade, baseada em valores como a solidariedade, a igualdade e a fraternidade.

     Ou seja, a luta por um mundo melhor foi provocada pelos efeitos do cometa! É de se pensar que a humanidade tenha entrado numa espécie de transe, sob efeitos artificiais e que, de alguma forma poderia haver efeitos colaterais não planejados ou que o processo fosse passageiro. Mas não é o que acontece e, antes de mais nada Willie conta como os vapores verdes do cometa mudaram sua própria maneira de encarar a vida. Mais disposto, otimista e feliz.

     De certa forma uma espécie de deux ex machina surge e resolve a luta política em torno de um mundo mais justo. Mas isso poderia ser realmente argumentado se estivéssemos diante de um escritor menos capaz. Pois, através do recurso de um fenômeno natural externo, Wells narra em detalhes a construção desta nova sociedade, que ele imagina como a ideal. O sistema econômico capitalista é abolido, bem como a propriedade privada convencional. As pessoas trabalham juntas, em projetos coletivos de interesse social, dissipando as diferenças de classe antigas. Prevalece as cooperativas de produção nos mais diferentes setores da economia: agricultura, energia, transportes, comunicação, educação, saúde etc. Para organizar tudo isso são criados conselhos setoriais – coordenado por um governo central – onde os novos objetivos são traçados e as pessoas endereçadas de acordo com seus conhecimentos e aptidões.

     Wells não propunha um socialismo ao estilo marxista, mas sim o chamado socialismo fabiano, que defendia uma transição gradual e pacífica ao socialismo. Uma via reformista ao invés de revolucionária. Foi extremamente influente no Reino Unido entre o final do século XIX e as primeiras décadas de XX se misturando, com o tempo, com o movimento trabalhista.

     No livro Wells propõe uma reestruturação urbanística e arquitetônica radical com a destruição da maior parte das casas, prédios e demais instalações do antigo regime. Isso sem falar nas curiosas e algo sombrias cerimônias públicas de queima de objetos pessoais considerados inúteis e que lembram a velha ordem. Neste particular, Wells exagera, com o incêndio coletivo de milhares de livros "velhos e empoeirados" que retratavam valores que deveriam ser superados.

     Se esta parte revela a radicalidade do que propunha o reformador social, no plano das relações pessoais Wells também ousa, ao criticar a família nuclear e a relação monogâmica entre homem e mulher. Propõe, no lugar, o que chama de famílias sociais e o amor livre e poligâmico. Fico a imaginar como foram recebidas tais ideias na Inglaterra pós-vitoriana do início do século XX!

    O final da obra, de certa forma, me pareceu estranho pois o leitor da biografia se mostra surpreso com o mundo retratado. Mas por que se ele nasceu nesta realidade anos depois? Talvez o desconcerto esteja relacionado ao mundo de antes do cometa. Mas, até onde me parece, não ficou bem resolvido.

    Como dito acima, Os Dias do Cometa se insere no início da fase derradeira da carreira de Wells, no qual a crítica e a reforma social se tornam mais importantes que a criação literária em si. No final da vida, o autor se ressentiu de que as obras que mais vendiam eram as da primeira fase. Queria ser reconhecido pelas obras de cunho socializante por entender que teriam mais a contribuir para a transformação de uma nova sociedade. De fato, embora elas demonstrem o vigor de sua crítica e sensibilidade antes às mazelas do capitalismo, é como escritor de ficção científica que Wells continua celebrado como um dos nomes mais importantes do gênero, pois o comentário social estava embutido em enredos inventivos e com inegável senso de aventura e de maravilhamento, tornando estas obras, antes de mais nada, prazerosas e estimulantes.

    Escrito poucos anos antes da chegada do Halley, Os Dias do Cometa se situa no contexto de outras obras que abordaram o fenômeno em sua época como, por exemplo, Der Rote Komet (1909), de Robert Heymann – que ecoa o cenário de Wells de forma quase direta, embora mais ameaçador, pois ao gás é contraposto uma forte luz vermelha que circunda a Terra ante a possível colisão de um cometa. E anos antes com Hector Servadac: Viagens e Aventuras pelo Mundo Solar (Hector Servadac: Voyages et Adventures à travers le Mondo Solaire; 1877), de Julio Verne, e ainda antes Edgar Allan Poe com o conto "A Conversa de Eiros e Charmion" (The Conversation of Eiros and Charmion; 1839). Mas o livro de Wells, mesmo não estando entre suas principais obras, é talvez o mais significativo com sua proposta de utopia e amor livre.

Marcello Simão Branco


40 Anos da Vinda do Cometa de Halley

 

Imagem do Cometa de Halley obtida pela sonda soviética Vega 1 em 6 de março de 1986


Diário e Observações sobre o Cometa de Halley em 1986

 

Marcello Simão Branco

 

Quando o cometa de Halley reapareceu nas noites do planeta Terra há 40 anos eu, aos 18 anos, exercia uma atividade informal e entusiasmada de leitor de astronomia e observador do céu noturno. Para me incentivar ainda mais, meu saudoso pai comprou uma pequena luneta de cor branca para que eu pudesse acompanhar a chegada do cometa.

O relato que segue registra minhas impressões sobre a presença do astro no céu da cidade de São Paulo, misturando precisão de observação, as impressões pessoais de um jovem no início de sua vida adulta e parte dos resultados sobre a vinda do cometa.

Escrevi originalmente em manuscrito no anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, do astrônomo brasileiro Eugênio Scalise Júnior, lançado na época, e que trazia seis páginas finais para que o próprio leitor deixasse suas impressões, uma a cada mês, entre dez de setembro de 1985 e dez de maio de 1986 mas, como se verá, antecipei minha última observação. É um diário que ficou inédito por quatro décadas e decidi publicar agora em virtude da efeméride que, aliás, passou quase despercebida.

 

Diário & observações (páginas 91 a 96), Marcello Simão Branco, como anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, Eugênio Scalise Júnior. São Paulo: Diagrama & Texto, 96 páginas, 1985.

 



= 10 de setembro de 1985

O Halley ainda não é visto no céu noturno, encontrando-se a aproximadamente 2,98 Unidade Astronômica (UA) da Terra e 2,73 UA do Sol (dados exatos de 1º. de setembro).

O que ocorre é simplesmente a cada dia que passa uma crescente expectativa da sua aparição, que deverá ocorrer no fim de outubro e começo de novembro, em meio às Três Marias, na constelação de Órion (1º. a 30 de novembro).

 

= 10 de outubro de 1985

Apesar do Halley ainda não ser observado facilmente, a chuva de meteoros associados ao Halley já será uma amostra do que será sua passagem.

A Epsilon Orionidis (depois corrigi para Epsilon Orionis) ocorrerá de 15 a 31 deste mês, com máxima atividade em 21 de outubro.

Registra-se aqui a descoberta de astrônomos chineses a respeito do cometa Giacobini-Zinner que cruzou próximo ao Cometa de Halley no último dia 15 de setembro a 18 do mesmo mês, num encontro que ocorre somente a cada mil anos.

 

= 10 de novembro de 1985

Infelizmente não pude observar a chuva de meteoros relacionada ao Halley ocorrida no mês passado devido às constantes chuvas, e à poluição de São Paulo.

O cometa desde o dia primeiro deste mês já pode ser observado, mas com luneta ou binóculo. Até agora não consegui observar com minha luneta, pois a poluição de São Paulo é muito grande. Mas vou continuar tentando, pois, a partir do dia 18 deste mês, haverá melhores condições de observá-lo pois a Terra estará exatamente entre o Sol e o cometa.

 

= 10 de dezembro de 1985

Mais um mês passou e eu não observei o cometa, devido a poluição e a chuvas que vem ocorrendo.

Ver no bloco de anotações que a 23/11/1985 ocorreram duas descobertas a respeito do Halley. Assim como no começo do mês foi detectada a molécula de HCN no núcleo do cometa. (Eu escrevia num bloquinho as notícias curiosas sobre astronomia que lia em livros, jornais e revistas. Tenho comigo até hoje).

 

= 10 de janeiro de 1986

Com cuidado e muita paciência o cometa já é visto a olho nu como se fosse uma nuvem muito tênue. Eu ainda não o observei, mas o aguardo com expectativa. O Halley a 2 de janeiro cruzou a órbita da Terra, e se encontra atualmente na Constelação de Pegasus (de difícil observação).

 

= 10 de fevereiro de 1986

Por duas vezes no mês de janeiro, quase tive a certeza de observá-lo, mas não posso afirmar categoricamente que o observei, pois, o Halley ainda não é o fascinante espetáculo visual que todos esperam.

Atravessou a órbita de Vênus em 21 de janeiro, e no dia 9 deste mês às 12h 52 min, chegou ao periélio depois de 76 anos.

 

= 10 de março de 1986

Estou decepcionado, pois vejo agora que a passagem do Halley foi um grande lance de propaganda, tão forte que abafou o que muitos astrônomos afirmavam antes: que a passagem de 1986 seria uma das piores de todas. Apesar disso continuo com muita esperança de avistá-lo, especialmente no mês que vem, quando ocorrerá sua máxima aproximação da Terra.

 

= 10 de abril de 1986

Muitos conhecidos meus, parentes, etc. afirmam tê-lo visto, mas não sei se acredito, pois, a maioria confunde um cometa, com Sírius por exemplo. Quanto a mim, amanhã dia 11 concentro minhas últimas esperanças...

 

= 11 de abril de 1986

Aconteceu! Nem sombra do que foi anunciado, mas na noite de sexta-feira, dia 11 de abril, entre 1 e 2h 45 min da madrugada, eu o avistei e o contemplei a noroeste da Constelação de Centauro, como uma fascinante, pequena bola ofuscada e nevoenta (com binóculo) e maior e menos densa vista com minha luneta. Meu pai, irmão e minha mãe também o avistaram comigo no quintal e em frente à nossa casa. Primeiro, olhei a olho nu, e depois obtive a maravilhosa confirmação com os instrumentos. Nos dias 12 e 13 também o vi e depois ficou difícil a localização e não tenho certeza de vê-lo outra vez, ficando apenas a lembrança de tê-lo visto.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Quem teme a morte, Nnedi Okorafor

Quem teme a morte
(Who fears death), Nnedi Okorafor. Tradução de Mariana Mesquita. 521 páginas. São Paulo: Geração, 2014. Publicado originalmente em 2010. 

Quem teme a morte é romance New Weird afrofuturista da escritora nigeriana-americana Nnedi Okorafor, ganhador dos prêmios World Fantasy e Otherwise.
É possivelmente o primeiro romance publicado no Brasil sob a classificação de afrofuturista. Antes, até haviam os livros de Samuel R. Delany publicados nos anos 1960 e 1970, mas que não eram classificados assim então, bem como os contos de Octavia Buttler publicados na versão brasileira do periódico literário Isaac Asimov Magazine, na década de 1990. 
O cenário é o de uma sociedade medieval em guerra genocida. As pessoas usam tecnologias no dia a dia, como computadores e tablets, além de aparelhos que retiram água da atmosfera, visto que o planeta é dominado por um extenso deserto, resultado de um cataclismo ambiental cujos motivos foram há muito esquecidos. 
A história narra a vida trágica de uma jovem feiticeira mestiça nascida de um estupro e que, por isso, é vítima de preconceito em uma sociedade machista que vive sob o estigma de uma antiga maldição. Ela busca vingança do homem que estuprou sua mãe, ele também um feiticeiro poderoso, líder da nação inimiga. 
A característica mais evidente do livro é o foco no protagonismo negro, nem sempre tão evidente em outros autores ditos afrofuturistas. O texto é perturbador e impactante, com fortes contornos feministas, e o desfecho ambíguo exige a participação do leitor. Muitas coisas não são explicadas claramente, o que pode incomodar os leitores mais cartesianos. Decerto que concorrem ali muitos aspectos da cultura africana que podem escapar ao leitor que não compartilha deles. Os brasileiros até temos alguma vantagem nisso devido a nossa colonização africana mas, ainda assim, talvez não seja o bastante. A mim, confesso que escaparam muitas coisas. Mas talvez tais mistérios sejam porque Quem teme a morte é apenas o primeiro de uma série de romances, que conta ainda com The book of Phoenix (2015), She who knows (2024), One way witch (2025) e The daughter who remains (a ser publicado em 2026). 
Além dos prêmios a Quem teme a morte, Okorafor também ganhou os prêmios Hugo e Nebula por Binti (2016), e mais um Hugo e o Locus por Akata (2018), ambos traduzidos no Brasil pela editora Record.
Quem teme a morte é uma boa história e, de modo geral, lembra outro romance afrofuturista recente, Lua de sangue, de N. K. Jemisin (Morro Branco, 2022), por conta do extenso uso de magia e também do cenário desértico.
Quem teme a morte pode ser lido gratuitamente na biblioteca pública digital BibliOn.
— Cesar Silva

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Os Soldados do Bode Preto

 



Os Soldados do Bode Preto (Soldiers of the Black Got), Marian O´Hearn. Tradução: Gustavo Terranova Aversa. Capa: Natália Mieo Okamoto Aversa. 193 páginas. São Paulo: Andarilho, 2024. Lançamento original de 1940.

 

Esta novela marca a estreia de mais uma autora obscura no Brasil, a norte-americana Marian O´Hearn – do qual não se sabe nem quando nasceu e morreu! –, e demarca uma das principais características da série dos simpáticos livrinhos de FC&F da editora Andarilho. A publicação de autores estrangeiros em domínio público, mas como se fossem novos em folha, já que ninguém havia falado deles antes.

E neste caso em particular, a escolha foi das mais felizes, pois Os Soldados do Bode Preto é uma vibrante e movimentada história sobre bruxaria, e que tem um fundo de verdade, já que a trama se passa em Salem. Esta cidade ficou marcada de forma sombria na história dos Estados Unidos como local de uma das maiores caças a bruxas. Nos anos de 1692 e 1693 cerca de 30 mulheres foram acusadas e destas, 19 foram enforcadas. Praticamente todas com acusações falsas, morreram de forma inocente.

Na história de O´Hearn estes mesmos acontecimentos estão a vigorar, com execuções frequentes, só que não enforcadas, mas queimadas – prática ocorrida principalmente na Europa da mesma época. A ação é centrada em Hester Gurney, uma anciã que manipula ervas e vive isolada numa cabana em meio a uma floresta nos arrabaldes de Salem. Ela consagra sua sabedoria a Zabulon, uma das entidades do próprio Diabo. Sim, ela é uma bruxa, pratica os feitiços, mas as queimadas são as mulheres que nada sabem sobre tais poderes. Mas por quê?

Muito sagaz e inspirada, Hester utiliza seus conhecimentos ocultos para manipular os poderosos e, com isso, sobreviver em meio a um ambiente tão intolerante e perigoso. Pois os líderes da cidade a procuram. Para curar um ente querido desenganado pela medicina autorizada, ou em busca de poder e prosperidade. Comparecem em reuniões secretas de sabá em sua cabana, saindo de lá marcados com a marca do bode preto. Sim, eles se tornam os tais soldados do título, num pacto de proteção mútua entre eles e a bruxa.

Mas quando ela descobre os motivos verdadeiros da campanha de perseguição e execução de jovens mulheres, ela passa a tirar ainda mais vantagem da situação. Isso porque os graúdos de Salem matam as ´bruxas´ para se apropriar de forma indevida de seus pertences, rendas e propriedades. Pois segundo a lei, os despojos deveriam ser revertidos para a Prefeitura. Assim, as execuções ser tornam um negócio lucrativo, num sórdido esquema que, ainda por cima, mantém toda a comunidade numa situação de permanente tensão e desconfiança.

Em tese, qualquer comportamento considerado diferente pode ser passível de punição, pois fica evidente como a intolerância religiosa conduz ao fanatismo, perseguição e violência, principalmente às mulheres, já submetidas a uma condição subalterna no contexto de uma sociedade machista.

O mais interessante nesta história é que esses temas são expostos por meio das ações dos personagens, com uma prosa dinâmica e diálogos ágeis e inteligentes. A ênfase está na escalada dos acontecimentos e a reflexão crítica fica implícita, não se tornando pesada demais.

Na verdade, tive simpatia por Hester, a única bruxa verdadeira, que se reconhece como tal, mas que, na realidade, não faz mal a ninguém. Pelo contrário, usa seus poderes telúricos para proteger a si e às perseguidas, além de ter o dom da cura, principalmente com crianças, o que, mesmo que a contragosto, a torna uma figura valiosa para os sórdidos hipócritas que governam a cidade.




Os Soldados do Bode Preto foi capa da edição de janeiro de 1940 da prestigiada revista pulp Unknown – a que pagava melhor na época –, editada pelo influente John W. Campbell, Jr, e em 2016 recebeu uma pré-indicação para o Retro-Hugo de 1940, vencido por “If This Goes On...”, de Robert A. Heinlein.

Isso atesta a qualidade de Marian O´Hearn, o que é até estranho, já que é uma autora pouco conhecida até nos Estados Unidos. De fato, se duvida até de sua existência, pois os pesquisadores Eric Leif Davin em Partners in Wonder: Women in the Birth of Science Fiction, 1926-1965 (2006) e Victoria Lamont em Westerns: A Women´s History (2016), afirmam que ela é um pseudônimo de Anita Allen, uma contemporânea sua na mesma Unknown, mas do qual se sabe menos ainda numa rápida pesquisa no Google. Por outro lado, Delia O´Hara, sobrinha de O´Hearn afirma em seu blogue que sua tia existiu. Segundo ela, O´Hearn teria nascido no estado de Massachussets, atuado como jornalista esportiva (como Judy O´Hearn) e publicado romances de western e crime. Na FC&F, além da história aqui resenhada, publicou também na Unknown, a novela The Spark of Alla, serializada nas edições de agosto a outubro de 1940. Campbell, conhecido como muito exigente, gostou tanto destas histórias que comprou seu único romance, “No Soul, No Death”, mas não chegou a publicar.

Por todas essas informações se percebe que quase tanto quanto a história, é muito interessante saber quem foi o autor dela, já que são figuras praticamente desconhecidas. Assim, daria um sabor ainda maior às edições desta preciosa coleção – que infelizmente foi descontinuada em outubro de 2025 – se os textos de introdução tivessem sido mais caprichados com relação ao autor da obra.

Mas independente disso, Os Soldados do Bode Preto é uma ótima aventura no subgênero bruxaria do horror, com alguns momentos com imagens fantásticas de feitiçaria, através da carismática Hester Gurney, além de denunciar de forma contundente a hipocrisia, o falso moralismo, a desonestidade e os males causados pelo preconceito e o fanatismo religioso. E que, de forma surpreendente, ecoa nos dias de hoje, marcado pelo recrudescimento do autoritarismo e da intolerância religiosa.

Marcello Simão Branco

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Uma estrela vermelha, Alexander Bogdánov

Uma estrela vermelha
(Красная звезда), Alexander Bogdánov. 322 páginas. Tradução de Thais Rocha. São Paulo: Cartola, 2020. Edição original de 1908.

Uma estrela vermelha é uma coletânea de textos especulativos do escritor russo Alexander Bogdánov (1873-1928) que, por um bom tempo, foi ativista no processo revolucionário que levou a Rússia do regime czarista para o comunismo soviético. Também foi um homem interessado em conceitos ligados à imortalidade, e todo o seu pensamento está retratado nas novelas e poemas que compõem o volume organizado e publicado pela Editora Cartola em 2020. São eles "Uma estrela vermelha" (novela), "O engenheiro Menni" (novela), "Festival da imortalidade" (noveleta) e os poemas "Um marciano preso na Terra", "Natasha", "Nina", "No céu da juventude brilha...", "O sino afundado de Hauptmann" e "Vozes do destino". O volume ainda conta com uma longa introdução história sobre o autor e sua obra, assinada pelo pesquisador e professor Alexander Meireles da Silva (UFG).
A parte principal do livro é composta pelas novelas "Uma estrela vermelha" e "O engenheiro Menni". A primeira narra a aventura de um russo do início do século XX que é levado a Marte e todas dificuldades físcas e psicológicas que enfrenta para se enquadrar na sociedade comunista marciana. Em "O engenheiro Menni", o melhor momento da coletânea, somos levados ao passado da história marciana, quando o grande engenheiro Menni, uma espécie de herói planetário, propôs e executou a construção dos canais marcianos que levaram o planeta de uma sociedade capitalista para o comunismo. A novela e os poemas que completam a seleta são peças livres, mais ou menos correlacionadas com as narrativas principais, mas que podem ser apreciadas individualmente. 
Apesar do que se espera do discurso de um ativista comunista, o texto das novelas não é proselitista. Era de se esperar que Bogdánov pensasse no comunismo como uma evolução política natural do capitalismo, uma uma vez que o comunismo proletário só pode surgir em um ambiente em que houvesse a guerra entre classes. Contudo, em muitos momentos, o discurso de Bogdánov soa ambíguo e inseguro, como se o autor não tivesse muita certeza das benesses do socialismo, mesmo em comparação com os vícios perversos do sistema capitalista, muito bem delineados na novela "O engenheito Menni". A questão fica como tema para reflexão dos leitores, que continua intrigante mesmo à luz do "capitalismo vitorioso" deste do século XXI. 
Uma estrela vermelha não é um livro fácil de ler. O texto é demasiadamente descritivo, os conflitos são internalizados, não há muita ação e os aspectos filosóficos ocupam as discussões de forma mais evidenciada. A edição da Cartola, infelizmente, não é das melhores pois apresenta muitos muitos erros ortográficos que poderiam ter sido corrigidos com uma revisão mais atenta. Minha leitura foi na versão digital, disponível no acervo da biblioteca digital BibliOn, mas imagino que as falhas ortográficas também devam estar presentes na edição impressa. Apesar das dificuldades, é um livro significativo que merece a leitura atenta. 
Há ainda uma outra edição do título no Brasil, publicada pela Boitempo em 2020 – e também disponível na BibliOn – contudo, apresenta apenas a novela que lhe dá título. Para uma visão mais ampla do trabalho de Bogdánov, vale a pena procurar pela edição da Cartola.
— Cesar Silva

sábado, 2 de maio de 2026

Matacão, uma Lenda Tropical

 



Matacão, uma Lenda Tropical (Through the Arc of the Rain Forest), Karen Tei Yamashita. Tradução: Cristina Maria Teixeira Stevens e Carolina Berard. Capa: Ronaldo Lopes de Oliveira. 254 páginas. São Paulo: Zipango, 2003. Lançamento original de 1990.

 

Este é um romance muito pouco conhecido, mesmo entre os especialistas da ficção científica brasileira. Foi publicado no início do século por uma editora pequena e que, salvo engano, nem existe mais. Especializada em autores japoneses radicados no exterior, lançou entre nós a autora nipo-americana Karen Tei Yamashita, que viveu uma década no Brasil, antes de voltar aos Estados Unidos.

A história de Matacão se passa em algum momento do futuro próximo, com o surgimento de uma enorme superfície de plástico, de alguns milhares de hectares, numa fazenda no interior da Amazônia. Ela teria surgido em decorrência da deterioração da natureza, no qual os resíduos industriais teriam sido canalizados através de rios subterrâneos até a grande floresta, e surgindo finalmente à luz do dia como resultado de décadas de devastação.

A aparição do Matacão muda a vida de uma série de personagens, que terminam por convergir suas vidas para a grande estrutura. A começar pelo imigrante japonês Kazumasa Ishimaru, que vem morar em São Paulo por conhecer um primo que já vivia na metrópole paulista. Ele é acompanhado por uma bola do tamanho de uma de tênis, que orbita sua cabeça. Perto de Kazumasa mora o casal Batista, que se tornam os maiores especialistas e criadores de pombos do país, inaugurando uma verdadeira febre de culto aos pássaros. Assim como Chico Paco, um garoto caiçara do Nordeste que se torna peregrino após uma de suas promessas ter se tornado realidade, e também Mané Pena, o dono do local onde surgiu o Matacão, que atua como um curandeiro especializado nos supostos poderes terapêuticos da pena dos pombos. Para completar o quadro, há o executivo norte-americano Jonathan B. Tweep, que, com seus três braços, depois de revolucionar a empresa GGG, vem ao Matacão para explorar suas possibilidades comerciais, tornando-se rapidamente um dos homens mais ricos do mundo.

Como se vê, à estrutura surpreendente do Matacão soma-se outras figuras tão mais bizarras e improváveis, cada qual à sua maneira com suas vidas alteradas por causa de suas habilidades excepcionais e que meio que se completam quando passam a viver na Amazônia.

A história tem um tom que mistura a sátira e o sarcasmo, com as trajetórias e acontecimentos dos personagens sendo narrados em primeira pessoa pela bola que convive com Kazumasa. Assim, ela é livre para observações das mais espirituosas sobre os humanos e suas idiossincrasias, ainda mais que impulsionados por estas pessoas diferentes da norma e em meio à descoberta de uma superfície de plástico no interior da floresta verde. Mas a um contexto que, em princípio poderia nos encaminhar para a FC – o que não deixa de ser também –, a ênfase e o desenvolvimento ocorrem, em termos temáticos, para o absurdismo e o realismo fantástico, estabelecendo um diálogo com obras deste subgênero tão praticado na América Latina.

Assim, há um tom marcadamente delirante e irreal em quase tudo o que ocorre, com uma tendência para os eventos se tornarem uma corrente irresistível de desdobramentos. Por exemplo, todos querem ter um pombo, todos passam a usar penas para tudo, a sociedade é quase que tomada por um frenesi de promessas e missões religiosas, e assim por diante. Há uma espécie de maximização dos atributos indiretos dos personagens, e é o norte-americano que trabalha de forma incansável para lucrar com tudo isso. Ele transforma a GGG num faz tudo, ao ponto de mudar sua sede principal para o Matacão, com o intuito de pesquisá-lo e, claro, obter o maior dividendo possível dessa nova ´dádiva´. A própria estrutura se torna um local de turismo e peregrinação, sendo rapidamente ocupada com todo tipo de gente em busca não se sabe bem o quê.

Lendo história me veio à lembrança o clássico Além do Humano (More Than Human; 1953), de Theodore Sturgeon (1918-1985), com seus personagens marginalizados da sociedade, mas que, unindo suas habilidades especiais – principalmente mentais – se afirmam coletivamente como uma nova etapa da evolução humana, a gestalt. Mas se no livro de Sturgeon viceja o preconceito em termos individuais, o mesmo não ocorre no Matacão. Antes há um sentimento de estranhamento e fascínio com alguém que tem uma bola envolta da cabeça, ou um executivo de três braços que se casa com uma mulher com três seios. E se em Além do Humano há uma convergência coletiva, em Matacão os rumos dos personagens seguem um processo individualizado.

Talvez isso ajude a explicar porque, apesar dos sucessos materiais dos personagens, eles se sintam solitários e saudosos de quando tinham uma vida mais simples e anônima. A autora explora bem estes sentimentos contraditórios, numa reflexão sobre os desdobramentos que o sucesso pode trazer na vida das pessoas. Mais reconhecimento e admiração, mas também mais solidão e responsabilidade.

Mas haverá um limite para este novo mundo permeado pelo uso do plástico amazônico. Em decorrência do uso generalizado do produto em quase todos os setores da vida social e econômica, surge uma epidemia de tifo, inicialmente nos pombos, que passa para os humanos, causando uma verdadeira tragédia humana e colapso econômico. Aqui, Yamashita reverte o que, em certo sentido, dava o tom da narrativa: uma exaltação da livre iniciativa e das maravilhas do capitalismo, com sua prosperidade e realização pessoal. Pois tudo, no fim das contas, se revela uma quimera, com os sucessos individuais e a riqueza coletiva se voltando contra a sociedade como um todo. O preço será muito alto, inclusive para a maioria dos personagens.

Se como disseram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista (1848), "tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que era sagrado é profanado, e as pessoas serão forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas", o romance de Yamashita direciona este célebre pensamento menos nas contradições da sociedade e da economia, e sim da economia para com o meio-ambiente. Pois, mesmo o Matacão chegará ao seu termo, deixando um sentimento amargo no leitor, pois, ao que parece, da maneira como as pessoas agiram, haverá um retorno, aqui no caso da própria natureza, esgotada em seus recursos devido a exploração desmedida potencializada pelo sistema capitalista.

Yamashita publicou outro livro tendo o Brasil como cenário, Brazil-Maru (1992), leciona literatura asiático-americana na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, e deveria ser redescoberta, talvez até com a republicação de Matacão que, por sinal, nesta edição da obscura Zipango recebeu uma edição muito caprichada, na capa dura, na ótima orelha, no projeto gráfico e na ilustração de capa. Tornou-se um livro raro, mas, como disse, é atual e cada vez mais necessário, como uma obra de arte que reflete e denuncia, com a chave do fantástico e do multiculturalismo, a crise climática que já se tornou uma ameaçadora realidade.

Marcello Simão Branco