Matacão,
uma Lenda Tropical
(Through the Arc of the Rain Forest), Karen Tei Yamashita. Tradução:
Cristina Maria Teixeira Stevens e Carolina Berard. Capa: Ronaldo Lopes de
Oliveira. 254 páginas. São Paulo: Zipango, 2003. Lançamento original de 1990.
Este é um romance muito pouco conhecido,
mesmo entre os especialistas da ficção científica brasileira. Foi publicado no
início do século por uma editora pequena e que, salvo engano, nem existe mais.
Especializada em autores japoneses radicados no exterior, lançou entre nós a autora nipo-americana
Karen Tei Yamashita, que viveu uma década no Brasil, antes de voltar aos
Estados Unidos.
A história de Matacão se passa em algum momento do futuro próximo, com o
surgimento de uma enorme superfície de plástico, de alguns milhares de
hectares, numa fazenda no interior da Amazônia. Ela teria surgido em
decorrência da deterioração da natureza, no qual os resíduos industriais teriam
sido canalizados através de rios subterrâneos até a grande floresta, e surgindo
finalmente à luz do dia como resultado de décadas de devastação.
A aparição do Matacão muda a vida de uma
série de personagens, que terminam por convergir suas vidas para a grande
estrutura. A começar pelo imigrante japonês Kazumasa Ishimaru, que vem morar em
São Paulo por conhecer um primo que já vivia na metrópole paulista. Ele é
acompanhado por uma bola do tamanho de uma de tênis, que orbita sua cabeça.
Perto de Kazumasa mora o casal Batista, que se tornam os maiores especialistas
e criadores de pombos do país, inaugurando uma verdadeira febre de culto aos
pássaros. Assim como Chico Paco, um garoto caiçara do Nordeste que se torna
peregrino após uma de suas promessas ter se tornado realidade, e também Mané
Pena, o dono do local onde surgiu o Matacão, que atua como um curandeiro
especializado nos supostos poderes terapêuticos da pena dos pombos. Para
completar o quadro, há o executivo norte-americano Jonathan B. Tweep, que, com
seus três braços, depois de revolucionar a empresa GGG, vem ao Matacão para
explorar suas possibilidades comerciais, tornando-se rapidamente um dos homens
mais ricos do mundo.
Como se vê, à estrutura surpreendente do
Matacão soma-se outras figuras tão mais bizarras e improváveis, cada qual à sua
maneira com suas vidas alteradas por causa de suas habilidades excepcionais e
que meio que se completam quando passam a viver na Amazônia.
A história tem um tom que mistura a sátira
e o sarcasmo, com as trajetórias e acontecimentos dos personagens sendo
narrados em primeira pessoa pela bola que convive com Kazumasa. Assim, ela é
livre para observações das mais espirituosas sobre os humanos e suas
idiossincrasias, ainda mais que impulsionados por estas pessoas diferentes da
norma e em meio à descoberta de uma superfície de plástico no interior da
floresta verde. Mas a um contexto que, em princípio poderia nos encaminhar para
a FC – o que não deixa de ser também –, a ênfase e o desenvolvimento ocorrem,
em termos temáticos, para o absurdismo e o realismo fantástico, estabelecendo
um diálogo com obras deste subgênero tão praticado na América Latina.
Assim, há um tom marcadamente delirante e
irreal em quase tudo o que ocorre, com uma tendência para os eventos se tornarem
uma corrente irresistível de desdobramentos. Por exemplo, todos querem ter um
pombo, todos passam a usar penas para tudo, a sociedade é quase que tomada por
um frenesi de promessas e missões religiosas, e assim por diante. Há uma
espécie de maximização dos atributos indiretos dos personagens, e é o
norte-americano que trabalha de forma incansável para lucrar com tudo isso. Ele
transforma a GGG num faz tudo, ao ponto de mudar sua sede principal para o
Matacão, com o intuito de pesquisá-lo e, claro, obter o maior dividendo
possível dessa nova ´dádiva´. A própria estrutura se torna um local de turismo
e peregrinação, sendo rapidamente ocupada com todo tipo de gente em busca não
se sabe bem o quê.
Lendo história me veio à lembrança o
clássico Além do Humano (More Than Human; 1953), de
Theodore Sturgeon (1918-1985), com seus personagens marginalizados da sociedade,
mas que, unindo suas habilidades especiais – principalmente mentais – se afirmam
coletivamente como uma nova etapa da evolução humana, a gestalt. Mas se
no livro de Sturgeon viceja o preconceito em termos individuais, o mesmo não
ocorre no Matacão. Antes há um sentimento de estranhamento e fascínio com
alguém que tem uma bola envolta da cabeça, ou um executivo de três braços que
se casa com uma mulher com três seios. E se em Além do Humano há uma
convergência coletiva, em Matacão os rumos dos personagens seguem um processo
individualizado.
Talvez isso ajude a explicar porque,
apesar dos sucessos materiais dos personagens, eles se sintam solitários e
saudosos de quando tinham uma vida mais simples e anônima. A autora explora bem
estes sentimentos contraditórios, numa reflexão sobre os desdobramentos que o
sucesso pode trazer na vida das pessoas. Mais reconhecimento e admiração, mas
também mais solidão e responsabilidade.
Mas haverá um limite para este novo mundo
permeado pelo uso do plástico amazônico. Em decorrência do uso generalizado do
produto em quase todos os setores da vida social e econômica, surge uma
epidemia de tifo, inicialmente nos pombos, que passa para os humanos, causando
uma verdadeira tragédia humana e colapso econômico. Aqui, Yamashita reverte o
que, em certo sentido, dava o tom da narrativa: uma exaltação da livre
iniciativa e das maravilhas do capitalismo, com sua prosperidade e realização
pessoal. Pois tudo, no fim das contas, se revela uma quimera, com os sucessos
individuais e a riqueza coletiva se voltando contra a sociedade como um todo. O
preço será muito alto, inclusive para a maioria dos personagens.
Se como disseram Marx e Engels no Manifesto
do Partido Comunista (1848), "tudo que é sólido desmancha no ar, tudo
que era sagrado é profanado, e as pessoas serão forçadas a encarar com
serenidade sua posição social e suas relações recíprocas", o romance de
Yamashita direciona este célebre pensamento menos nas contradições da sociedade
e da economia, e sim da economia para com o meio-ambiente. Pois, mesmo o
Matacão chegará ao seu termo, deixando um sentimento amargo no leitor, pois, ao
que parece, da maneira como as pessoas agiram, haverá um retorno, aqui no caso
da própria natureza, esgotada em seus recursos devido a exploração desmedida
potencializada pelo sistema capitalista.
Yamashita publicou outro livro tendo o
Brasil como cenário, Brazil-Maru (1992), leciona literatura
asiático-americana na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, e deveria ser
redescoberta, talvez até com a republicação de Matacão que, por sinal,
nesta edição da obscura Zipango recebeu uma edição muito caprichada, na capa
dura, na ótima orelha, no projeto gráfico e na ilustração de capa. Tornou-se um
livro raro, mas, como disse, é atual e cada vez mais necessário, como uma obra
de arte que reflete e denuncia, com a chave do fantástico e do
multiculturalismo, a crise climática que já se tornou uma ameaçadora realidade.
—Marcello Simão Branco







