Sob o Trópico de
Capricórnio, Pedro Carcereri. Capa: Amanda Pomar. 97
páginas. Belo Horizonte: Letramento, 2018.
O ano é 2065, e o Brasil
se tornou uma ditadura sob o controle quase total do Estado sobre os cidadãos, continuamente
monitorados e classificados, além de centralizar o sistema econômico. Isso
porque, devido a uma gravíssima crise energética global, a saída do governo foi
produzir eletricidade através do esgoto, e o consumo de cannabis foi instituído
para que as pessoas pudessem ter mais apetite. Mas os alimentos oferecidos pelo
mercado supervisionado pelo Estado são de péssima qualidade, todos
ultraprocessados. Não deixa de ser irônico que se recorreu a uma planta, cujo
uso recreativo no Brasil é ilícito e moralmente condenado, para salvar a
viabilidade socioeconômica do país.
Nesse contexto, temos a
aventura de Daniel, um cultivador de cannabis cadastrado pelo governo, que é
sequestrado por um grupo de insurgentes, os Peabiru. Além de se oporem
politicamente, criaram colônias agrícolas clandestinas situadas no interior do
Paraná. Aqui vale notar que “peabiru” existiu séculos atrás, como uma
longuíssima trilha indígena pré-colombiana que atravessava a América do Sul e
ligava o litoral brasileiro, na região de São Vicente (litoral do estado de São
Paulo), até os Andes, no Peru.
A intenção dos rebeldes é
reestabelecer o cultivo e o consumo de alimentos naturais, orgânicos,
produzidos diretamente da terra. Isso porque o Estado transformou toda a
produção agrícola em transgênica, utilizando até um novo tipo de solo, o
sintético. Assim, Daniel é integrado para ajudar nas pesquisas com o objetivo
de se atingir, via laboratório, uma recombinação genética que restaure as
plantas em sua concepção original.
Apesar de Daniel não ser
botânico e nem agrônomo, sua escolha se relaciona com o fato de ter trabalhado
no passado com Max, seu chefe de uma loja de cultivo e venda de produtos
agrícolas modificados, que o ensinou na tarefa específica em lidar com a
cannabis. Mas Max sumiu misteriosamente dez anos atrás, e agora reaparece como
o líder da organização.
Este Brasil distópico
lembra um pouco o romance Após o Fim (Make Room! Make Room!;
1966), de Harry Harrison (1925-2012), mais conhecido pela excelente versão para
o cinema, No Mundo de 2020 (Soylent Green; 1973), em que os
alimentos também são produzidos exclusivamente pelo Estado, mas para dar
resposta a um mundo superpovoado.
No futuro próximo
brasileiro, existem também pessoas geneticamente alteradas chamadas de sebosos.
Na verdade, resultados de experiências mal sucedidas, abandonadas ainda
crianças à própria sorte, vivendo como párias pelas ruas das cidades. Tidas
como deficientes do ponto de vista intelectual, tem aparências físicas com
pouca variação entre si, mas são fisicamente fortes e resistentes. No livro,
dezenas delas se amontoam na Praça da Sé, em São Paulo, numa amostra de
desumanidade, tornada mais explícita ao ser permitida ou conivente pelas leis e
as autoridades públicas. Duas delas, Gusta e Janete, conseguem se tornar
membros dos Peabiru, e terão um papel de destaque nos desdobramentos dos planos
de sabotagem. Que pretende reintroduzir nas fazendas sintéticas sementes
naturais para que possa prejudicar o sistema econômico e, eventualmente,
reintroduzir uma alimentação mais saudável.
A novela – e não romance
como catalogado – é dinâmica e enxuta, vai direto aos pontos, mas talvez um
pouco demais, pois deixa algumas questões meio soltas e, principalmente, o
final inconcluso. Não se sabe se os planos deram certo e nem que destino teve o
próprio protagonista.
Este livro de FC absolutamente
fora do ambiente do fandom, só poderia ter se tornado conhecido por mim através
do próprio autor, que gentilmente o enviou para meu endereço. A quem agradeço
e, mais que isso, indico fortemente para que seja conhecido.
É uma história de FC
distópica criativa e inteligente, com uma verve crítica e irônica, e com um
ritmo de acontecimentos de crescente suspense, tornando a leitura difícil de
ser interrompida. Se fosse mais longa, como poderia ter sido, se tornaria um page
turner.
Na orelha da obra, temos
uma foto do jovem autor, mineiro de Juiz de Fora, apresentado como escritor e
diretor de cinema. Talvez mais artista do audiovisual mesmo, pois informa a
direção de dois curtas metragens: Modorra e Maria Cachoeira, além
do longa Último Toque – na internet consta a direção de mais um
longa-metragem Fé pelo Clima. Ao que parece todos filmes com temática
ambientalista. Além disso atua como curador e crítico de arte, tendo lecionado
Arte, Cultura e Linguagem, na Universidade Federal de Juiz de Fora.
Sob o Trópico de
Capricórnio é seu primeiro livro, e se anuncia na
mesma orelha, a elaboração de um novo, Mulher é Água!, mas talvez não
tenha sido concluído, pois não encontrei informação mais atualizada.
Pedro Carcereri merece
ser conhecido pelo fandom de FCB, nem que seja apenas por este livro, pois
especula de forma competente sobre um Brasil do futuro próximo, que em meio a
um colapso energético envereda para um regime autoritário. Trabalha, assim, com
talvez duas questões candentes dos nossos tempos: a crise e destino da nossa
democracia e uma crise de energia que se anuncia pelos danos ambientais
provocados por sua exploração com fins econômicos.
—Marcello Simão Branco





