Os Soldados do Bode Preto (Soldiers of the Black Got), Marian O´Hearn. Tradução:
Gustavo Terranova Aversa. Capa: Natália Mieo Okamoto Aversa. 193 páginas. São
Paulo: Andarilho, 2024. Lançamento original de 1940.
Esta novela marca a estreia de mais uma
autora obscura no Brasil, a norte-americana Marian O´Hearn – do qual não se
sabe nem quando nasceu e morreu! –, e demarca uma das principais
características da série dos simpáticos livrinhos de FC&F da editora
Andarilho. A publicação de autores estrangeiros em domínio público, mas como se
fossem novos em folha, já que ninguém havia falado deles antes.
E neste caso em particular, a escolha foi
das mais felizes, pois Os Soldados do
Bode Preto é uma vibrante e movimentada história sobre bruxaria, e que tem
um fundo de verdade, já que a trama se passa em Salem. Esta cidade ficou
marcada de forma sombria na história dos Estados Unidos como local de uma das
maiores caças a bruxas. Nos anos de 1692 e 1693 cerca de 30 mulheres foram
acusadas e destas, 19 foram enforcadas. Praticamente todas com acusações
falsas, morreram de forma inocente.
Na história de O´Hearn estes mesmos
acontecimentos estão a vigorar, com execuções frequentes, só que não
enforcadas, mas queimadas – prática ocorrida principalmente na Europa da mesma
época. A ação é centrada em Hester Gurney, uma anciã que manipula ervas e vive
isolada numa cabana em meio a uma floresta nos arrabaldes de Salem. Ela
consagra sua sabedoria a Zabulon, uma das entidades do próprio Diabo. Sim, ela
é uma bruxa, pratica os feitiços, mas as queimadas são as mulheres que nada
sabem sobre tais poderes. Mas por quê?
Muito sagaz e inspirada, Hester utiliza
seus conhecimentos ocultos para manipular os poderosos e, com isso, sobreviver
em meio a um ambiente tão intolerante e perigoso. Pois os líderes da cidade a
procuram. Para curar um ente querido desenganado pela medicina autorizada, ou
em busca de poder e prosperidade. Comparecem em reuniões secretas de sabá em
sua cabana, saindo de lá marcados com a marca do bode preto. Sim, eles se
tornam os tais soldados do título, num pacto de proteção mútua entre eles e a
bruxa.
Mas quando ela descobre os motivos
verdadeiros da campanha de perseguição e execução de jovens mulheres, ela passa
a tirar ainda mais vantagem da situação. Isso porque os graúdos de Salem matam
as ´bruxas´ para se apropriar de forma indevida de seus pertences, rendas e
propriedades. Pois segundo a lei, os despojos deveriam ser revertidos para a
Prefeitura. Assim, as execuções ser tornam um negócio lucrativo, num sórdido
esquema que, ainda por cima, mantém toda a comunidade numa situação de
permanente tensão e desconfiança.
Em tese, qualquer comportamento
considerado diferente pode ser passível de punição, pois fica evidente como a
intolerância religiosa conduz ao fanatismo, perseguição e violência,
principalmente às mulheres, já submetidas a uma condição subalterna no contexto
de uma sociedade machista.
O mais interessante nesta história é que
esses temas são expostos por meio das ações dos personagens, com uma prosa
dinâmica e diálogos ágeis e inteligentes. A ênfase está na escalada dos
acontecimentos e a reflexão crítica fica implícita, não se tornando pesada
demais.
Na verdade, tive simpatia por Hester, a
única bruxa verdadeira, que se reconhece como tal, mas que, na realidade, não
faz mal a ninguém. Pelo contrário, usa seus poderes telúricos para proteger a
si e às perseguidas, além de ter o dom da cura, principalmente com crianças, o
que, mesmo que a contragosto, a torna uma figura valiosa para os sórdidos
hipócritas que governam a cidade.
Os
Soldados do Bode Preto foi capa da edição de janeiro de
1940 da prestigiada revista pulp Unknown
– a que pagava melhor na época –, editada pelo influente John W. Campbell, Jr,
e em 2016 recebeu uma pré-indicação para o Retro-Hugo de 1940, vencido por “If
This Goes On...”, de Robert A. Heinlein.
Isso atesta a qualidade de Marian O´Hearn,
o que é até estranho, já que é uma autora pouco conhecida até nos Estados
Unidos. De fato, se duvida até de sua existência, pois os pesquisadores Eric
Leif Davin em Partners in Wonder: Women
in the Birth of Science Fiction, 1926-1965 (2006) e Victoria Lamont em Westerns: A Women´s History (2016),
afirmam que ela é um pseudônimo de Anita Allen, uma contemporânea sua na mesma Unknown, mas do qual se sabe menos ainda
numa rápida pesquisa no Google. Por
outro lado, Delia O´Hara, sobrinha de O´Hearn afirma em seu blogue que sua tia
existiu. Segundo ela, O´Hearn teria nascido no estado de Massachussets, atuado
como jornalista esportiva (como Judy O´Hearn) e publicado romances de western e crime. Na FC&F, além da
história aqui resenhada, publicou também na Unknown,
a novela The Spark of Alla, serializada
nas edições de agosto a outubro de 1940. Campbell, conhecido como muito
exigente, gostou tanto destas histórias que comprou seu único romance, “No
Soul, No Death”, mas não chegou a publicar.
Por todas essas informações se percebe que
quase tanto quanto a história, é muito interessante saber quem foi o autor
dela, já que são figuras praticamente desconhecidas. Assim, daria um sabor
ainda maior às edições desta preciosa coleção – que infelizmente foi
descontinuada em outubro de 2025 – se os textos de introdução tivessem sido
mais caprichados com relação ao autor da obra.
Mas independente disso, Os Soldados do Bode Preto é uma ótima
aventura no subgênero bruxaria do horror, com alguns momentos com imagens
fantásticas de feitiçaria, através da carismática Hester Gurney, além de
denunciar de forma contundente a hipocrisia, o falso moralismo, a desonestidade
e os males causados pelo preconceito e o fanatismo religioso. E que, de forma
surpreendente, ecoa nos dias de hoje, marcado pelo recrudescimento do
autoritarismo e da intolerância religiosa.
—Marcello Simão Branco








