A Vida de H.P. Lovecraft
(A Dreamer and a Visionary: H.P. Lovecraft in his Time), S.T. Joshi. Tradução:
Bruno Gambarotto. Capa: Ronaldo Alves. 445 páginas. São Paulo: Hedra, 2014.
Lançamento original em 2001.
Sendo uma pessoa com
interesses variados e, por vezes imerso num determinado assunto, não dou a
devida atenção a outro tema de grande interesse. Assim é que só praticamente
uma década depois do lançamento no Brasil é que finalmente li a biografia de um
de meus autores mais caros. Outro fato que talvez tenha contribuído para esse
atraso é o fato de já à época ter lido bastante sobre o autor, mas o fato é que
a leitura deste livro mostrou o quanto eu ainda tinha que aprender.
Howard Phillips Lovecraft
(1890-1937) ficou por muitas décadas após sua morte envolto numa aura de
mistério por causa de sua personalidade, tida como solitária e idiossincrática.
Parte disso é verdade, mas há muita substância que justifica e, de certa forma,
desmistifica estes conceitos que se tornaram quase que estereotipados. Pois o
fato mais importante é que ele foi, ao mesmo tempo, se tornando mais e mais
relevante e popular através de suas histórias, ainda mais misteriosas e
idiossincráticas que sua vida pessoal.
Nascido em uma família
abastada na região da Nova Inglaterra, Lovecraft foi muito protegido e mimado,
cercado de todas as atenções quando criança. Primeiro por parte de sua mãe
superprotetora e depois de seu avô, sua primeira grande influência no mundo do
conhecimento e da imaginação. Precoce e muito inteligente, já pequeno escrevia,
pintava, realizava experiências químicas e observações astronômicas. Mas, de
certa forma, isso o tornou mais solitário em relação às crianças de sua idade,
que não o entendiam muito bem. Além disso, a perda precoce do pai e depois do
avô, mudaram muito sua vida, também por causa da decadência financeira que se
seguiu e que o acompanharia para sempre.
Mas o que S.T. Joshi vai
mostrar nesta biografia notável é que este berço de amplo apoio a seus
interesses intelectuais seria fundamental para desenvolver sua literatura e,
através dela, sua visão de mundo incomum e perturbadora. O conceito do cosmicismo
elaborado por Lovecraft em suas cartas e contos nos leva à compreensão
desencantada da condição humana frente à vida e ao universo. Que quem procura
dar algum sentido à realidade é a própria humanidade, mas externo a ela, reina
a indiferença da natureza. Ora, esta é uma noção perturbadora, mas que ajuda a
explicar cada vez mais o papel do ser humano frente ao universo.
O livro está fortemente
baseado nas milhares de cartas escritas por Lovecraft, além das de seus
correspondentes também. Joshi fez um trabalho de pesquisa admirável por sua
dedicação obsessiva em ter acesso a tudo que se relacionou com a vida de seu
biografado.
Assim, o livro é escrito
em ordem cronológica dos anos de vida de Lovecraft, identificando todas as suas
fases, tanto do ponto de vista pessoal, como de sua criação literária. Bem como
do contexto da literatura norte-americana na primeira metade do século XX e em
especial a corrente dos autores fãs, o fandom que se desenvolveu e do
surgimento e das características das revistas pulps, onde Lovecraft publicou
toda a sua obra.
Desta forma, por meio de
suas cartas, foi possível identificar a maior parte de sua rotina, suas
atividades literárias, a reclusão na juventude, a popularidade na comunidade de
fãs, a publicação das histórias em revistas obscuras, e suas frustrações
artísticas e pessoais. Principalmente com o fracasso de seu casamento, suas
dificuldades econômicas extremas, as frustrações em ser reconhecido e publicar
um livro, bem como sua doença final, que termina por se manifestar de forma
abrupta, apenas alguns meses antes do seu falecimento.
Particularmente
interessante também é que Joshi, além de ser um biógrafo sensível e respeitoso,
é também um arguto crítico literário. Assim, ele comenta todas as histórias de
Lovecraft, identifica suas influências, limitações e o progressivo
amadurecimento do autor, principalmente a partir de meados dos anos 1920 quando
dá início ao chamado ciclo de Cthulhu, por meio do
qual Lovecraft escreve suas melhores histórias: “O Chamado de Cthulhu” (1926), “O
Caso de Charles Dexter Ward” (1927), “A Cor que Caiu do Espaço” (1927) , “Um
Sussurro nas Trevas” (1930), “Nas Montanhas da Loucura” (1931), “A Sombra Sobre
Innsmouth” (1931) e “A Sombra Vinda do Tempo.” (1935).
Joshi vai argumentar que
este conjunto notável representou o afastamento de Lovecraft do horror mais
sobrenatural ou de textos mais oníricos, para outros de caráter mais próximo da
ficção científica. Daí que as histórias de Cthulhu sejam identificadas,
justamente, como de um horror cósmico. E que o autor teria sofrido pessoalmente
com esta mudança pois estes textos mais longos, mais elaborados em termos
estéticos e com a inserção de uma explicação cósmica e ancestral dos horrores
que assolam a humanidade, teria encontrado uma recepção mais fria e difícil por
parte de seus editores e, principalmente, leitores. Pois ambos já haviam se
acostumado com uma prosa mais rápida e com soluções temáticas mais violentas e
sobrenaturais. Assim, a frustração dos anos finais de Lovecraft se relacionaria
a esta mudança em sua característica literária e filosófica. Rejeitado por ser
sofisticado para as revistas pulps da época – Weird Tales à frente –, e
desconhecido e incompreendido pelo mainstream literário, que o rejeitou
cinco vezes para editá-lo com um livro. Joshi, de forma instigante, especula
que impacto poderia ocorrer na literatura de gênero norte-americana, caso
Lovecraft tivesse ao menos um livro publicado em vida. Talvez despertasse um
interesse para além do fandom, devido, justamente, à característica singular de
seus temas e de sua prosa, além de chamar mais atenção para o horror e a ficção
científica também.
Mas a riqueza ímpar desta
biografia se baseia principalmente na proximidade com a vida de Lovecraft. De
como ele tinha interesses intelectuais variados: química, teatro, cinema, e
principalmente astronomia, por meio do qual escreveu e publicou fanzines por
vários anos, entre eles o The Rhode Island Journal of Astronomy. Sua
primeira grande frustração intelectual vai ser justamente a de não ter cursado
uma universidade, onde pretendia se tornar um pesquisador dos céus. Menos por
sua incapacidade e mais pelo seu colapso psicológico no fim de sua
adolescência. O que hoje poderia ser chamado de síndrome de Burnout ou coisa
parecida.
Revelador também eram
seus outros interesses, o seu prazer por caminhar e viajar. É incrível que nos
três anos em que viveu em Nova York (1924-1926), mesmo casado, na maior parte
do tempo só, pois Sonia Greene (1883-1972) se ausentava para trazer algum
sustento a mais para eles, ele tenha perambulado por boa parte da grande cidade
madrugadas a fio. Joshi conta que seus amigos escritores o advertiam do perigo
de ser assaltado nas ruas. Mas quando isso aconteceu ele estava em casa
dormindo, embora não tenha sofrido violência e só tenha sabido que parte de seu
modesto guarda roupa havia sido furtado três dias depois.
Após ter abandonado Sonia
e voltado a viver em sua amada Providence com suas tias Lillian e Annie,
Lovecraft, na verdade, passava boa parte do tempo em viagem pelo país. Chegava
a ficar meses em movimento, a visitar pequenas cidades do interior que fossem
parecidas com a arquitetura do século XVIII, o tempo que ele gostaria de ter
vivido e que buscou de forma intensa descobrir os resquícios por pelo menos dez
anos, até sua morte. Inclusive, tal atividade rendeu, na avaliação de Joshi,
alguns diários de viagem admiráveis, alguns dos quais, inclusive acabaram por
ser publicados postumamente. O leitor pode perguntar como ele fazia essas
viagens, já que vivia sempre com pouco dinheiro. Viajava de trem e de ônibus,
se hospedava em lugares muito modestos, quando não pernoitava em rodoviárias e
comia muito pouco e mal. Com o tempo, este hábito alimentar pode ter
contribuído para o câncer no intestino que o levou.
Mas Joshi não se exime de
abordar algumas questões controversas sobre Lovecraft, a pior delas seu
indisfarçável racismo, aflorado nos anos em que saiu de sua província branca e
aristocrática de Providence, e foi viver na cidade grande e cheia de imigrantes
de Nova York. Como é sabido, algumas de suas histórias explicitam seu
desconforto com o convívio com negros, latinos e judeus, a principal delas “O
Horror em Red Rook” (1925). Joshi, um indiano radicado nos EUA e de pele parda,
talvez fosse visto de forma desagradável pelo próprio Lovecraft, mas realiza
uma crítica equilibrada e colocada no contexto da época, em que teorias
“científicas” de raça eram populares, embora já estivessem desacreditadas pela
antropologia.
Também a simpatia de
Lovecraft por Mussolini e Hitler não escapa a Joshi, e o seu tom é de choque e
lamento, embora imagine que Lovecraft os apoiasse em relação à busca de
alternativas à profunda depressão econômica na década de 1930 em seu país, e
não compartilhasse das perseguições e barbaridades que só fizeram crescer
quando o fascismo se tornou mais forte. Nesse contexto, Joshi comprova, por
meio de cartas, que Lovecraft passou a defender posteriormente a adoção de um
programa socialista moderado, indicando que talvez o que o movesse fosse menos
o apoio a regimes totalitários e mais soluções urgentes para a crise do
capitalismo.
Num livro com o volume
enorme de informações biográficas e literárias como esse seria de se esperar
que houvesse um índice remissivo. Na edição original de 1996 – que eu tenho
aqui comigo, H.P. Lovecraft: A Life – existe, e nesta edição da Hedra
originalmente havia, mas, infelizmente, foi cortado. Um pecado, já que é o tipo
de livro em que o uso do índice remissivo se faz consultar a todo momento da
leitura, e também para busca de informações posteriores.
E eu tive uma pequena e
modesta participação em A Vida de H.P. Lovecraft (2014), pois fui
procurado pela Hedra para publicar um anexo ao livro com a minha pesquisa
bibliográfica sobra sua obra publicada em língua portuguesa. Infelizmente não
foi dessa vez que esta pesquisa saiu em livro – o que ocorreria em 2017 na coletânea
Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico, organizada por Bruno Costa
para a editora Ex-Machina –, mas meu nome está nos agradecimentos no expediente,
ao lado de Joshi e de Donavan K. Loucks. Esta honra para mim já bastou.
Além disso, este livro,
originalmente de 2001, é uma versão atualizada do já citado H.P. Lovecraft:
A Life (1996), que venceu o Prêmio Bram Stoker como melhor livro de
não-ficção do ano. E foi seguido em 2010 por uma nova edição, atualizada e
ampliada: I Am Providence: The Life and Times of H.P. Lovecraft, volumes
1 e 2 (2010). Neste último, inclusive, há um acréscimo de 150 mil palavras. Uma
quantidade de análise e informação maior do que este livro que estou a resenhar!
Isso só demonstra como
Lovecraft se tornou uma área de interesse particular, dentro dos gêneros
fantásticos e da literatura em geral. De certa forma, ele viveu como quis e
pagou um alto preço por sua liberdade de pensamento, criação literária e estilo
de vida. Mas quem poderia imaginar – a começar por ele mesmo – de que haveria
este grau de popularidade, pesquisa, publicações e influência cultural tantos
anos depois de sua morte.
—Marcello
Simão Branco








