Neste setembro de 2026 Jornada
nas Estrelas (Star Trek) completa 60 anos! No dia 8 de setembro de
1966 foi ao ar nas TVs americanas o episódio “O Sal
da Terra” (The Man Trap) – na verdade o sexto
produzido. Embora este livro tenha sido escrito e lançado para comemorar o
cinquentenário, o interesse se mantém integralmente, pois o conteúdo permanece
atual.
Talvez o fato de a série
ter se tornado o maior fenômeno popular da história da ficção científica,
transcendendo em muito a fronteira da televisão, não seja suficientemente claro
o quão difícil foi esse processo durante sua produção entre os anos de 1966 e
1969.
Afinal, é uma das poucas,
senão a única a ter dois pilotos, após a rejeição do primeiro, o ótimo “A Jaula”
(The Cage), de 1964, e ter enfrentado duas ameaças de cancelamento (da primeira
para a segunda temporada e desta para a terceira) até o encerramento com o
episódio “O Intruso” (Turnabout Intruder), em 3 de
junho de 1969.
Escrito por Edward Gross
e Mark A. Altman, dois experientes jornalistas que se especializaram na série e
com outros títulos publicados sobre ela – inclusive, li e tenho arquivadas muitas
entrevistas de Gross publicadas na revista Starlog (1976-2009) –, o
livro repassa em detalhes como nunca havia visto antes as dificuldades em
viabilizar e manter a série em exibição. Mas vai bem mais fundo sobre toda a
sua produção, ao mostrar os bastidores e aspectos da personalidade dos
responsáveis pela série.
Assim, centenas (sim
centenas) de pessoas foram entrevistadas ao longo de três décadas, selecionadas
e editadas para compor o livro. Muitas das quais, diga-se, realizadas
especificamente para o projeto. Desta forma, temos a presença do criador da
série Gene Roddenberry (1921-1991), e de quase todos os atores principais, com
a ausência sentida de DeForest Kelley (1920-1999) –
o doutor McCoy – e do roteirista e produtor Gene L. Coon (1924-1973), este
talvez a personalidade mais citada na voz de outros interlocutores.
Temos, desta forma, uma
gama impressionante de depoimentos curtos de produtores, roteiristas,
diretores, atores, assistentes de produção os mais variados, secretárias e
muitos fãs, pois parte vital para tornar Star Trek este fenômeno foi a
participação deles.
Mas como encadear de
forma plausível tantos depoimentos? Suas aparições de acordo com o assunto
abordado. Desta forma, em forma cronológica dos eventos em que a série foi
produzida as entrevistas são publicadas, como se estivessem conversando entre
si, no estilo de uma história oral. O trabalho para amarrar tudo isso deve ter
sido hercúleo e o resultado foi muito bem sucedido.
Na leitura da obra
transparece a luta para que ela fosse produzida, pois na época nenhuma série de
ficção científica voltada para adultos havia sido exibida na TV, mas apenas
infantis ou com um grau de verossimilhança que deixava a plausibilidade científica
num segundo plano. A ideia era a de ação e entretenimento, e Star Trek
veio para mudar o paradigma. Os problemas começaram, portanto, pelo novo
conceito que a séria se propunha, algo estranho para os executivos de TV,
preocupados apenas em oferecer entretenimento para obter altos índices de
audiência.
Isso explica porque o
piloto foi rejeitado. Mas, surpreendentemente, ganhou uma nova chance por ter
impressionado pela qualidade do conteúdo. Era preciso apenas adaptar o formato para
um modelo menos intelectualizado, mas sem abdicar de seu conceito de oferecer
uma série de ficção científica mais inteligente.
Assim, “Onde Nenhum Homem
Jamais Esteve” (Where no Man has Gone Before) foi
aceito e a série passou a ser produzida pelo pequeno estúdio Desilu e exibida
na rede de TV NBC, uma das três grandes do país, com veiculação de programação
em nível nacional.
Mas sempre houve duas
tensões a cercar a produção e que só aumentaram com os passar do tempo. Os
índices de audiência considerados baixos – apesar de serem os líderes de
audiência no horário na maior parte da exibição – e os problemas de
relacionamento entre a NBC e Gene Roddenberry. Ele já havia trabalhado com a
emissora com a série The Lieutenant (1963-1964), e os seguidos
desentendimentos levaram ao seu cancelamento precoce. Ambos puxavam a corda
para o seu lado, a NBC voltada ao lucro e Roddenberry em produzir qualidade na
TV. Em tese, isso não é novidade no ambiente do show business, mas é que
Roddenberry era muito teimoso e centralizador.
Desta forma, tal embate
se manteve durante a produção de Star Trek. Tanto é que já no meio da
primeira temporada – cerca de 15 episódios depois – ele soube de rumores de que
a série seria descontinuada. Desesperado, contactou o escritor Harlan Ellison
(1934-2018), com quem tinha bom contato, que criou um comitê de escritores de
ficção científica e endereçou cartas à NBC e à imprensa defendendo a manutenção
da série. Aqui temos, em particular, um aspecto que poderia ser mais explorado
no livro, da proximidade de Roddenberry com os escritores de ficção científica,
de como vários deles apoiaram a série e, mais que isso, escreveram roteiros,
vários deles produzidos. Nomes importantes como o próprio Ellison, Robert Bloch
(1917-1994), Theodore Sturgeon (1918-1985), Richard Matheson (1926-2013),
Norman Spinrad (1940) e outros.
A iniciativa foi bem
sucedida e a série chegou ao fim da primeira temporada e renovada para a
segunda. Nesta novos problemas foram adicionados, o principal deles a
rivalidade crescente entre William Shatner (1931) e Leonard Nimoy (1931-2015).
Shatner era o astro da série como o intrépido Capitão Kirk, mas o personagem de
Nimoy, Spock, o superava em muito em popularidade e repercussão para além da
série. Aliás, talvez tenha sido o vulcano o primeiro a romper as fronteiras da
série para além da TV e da ficção científica. Spock virou um fenômeno popular,
que intrigava por sua origem e, principalmente, personalidade misteriosa e que
tinha no controle das emoções e na busca da lógica seus pontos de maior
interesse. Nimoy queria um aumento de salário e por pouco não foi tirado da
série. O chefão da NBC foi quem garantiu que seu salário fosse melhorado.
Shatner, por sua vez, não
escondeu o ciúme e tentou controlar as falas dos personagens, chegando a roubar
algumas que seriam do oficial de ciências da Enterprise. O ator, inclusive, não
se sai bem na visão dos atores do elenco e membros da produção. Por ironia, o
mais favorável a ele é Nimoy, mesmo que sem grande entusiasmo. Isso porque a
maior parte das ressalvas era com relação ao seu egocentrismo e individualismo,
talvez insuflado pelo fato de passar a ter um concorrente ao seu estrelato.
O Grande Pássaro da
Galáxia – apelido de Roddenberry – se sai ainda pior na visão dos muitos
entrevistados. Ninguém deixa de reconhecer sua criatividade e visão humanista
que imprimiu à série, mas sua personalidade era muito problemática. Além de centralizador,
as críticas resvalam para a vida pessoal, com seguidas falas sobre seu machismo
e assédio sexual a várias mulheres. Os próprios trajes sumários das tripulantes
se relacionam com isso. Além disso, sua saída da produção da série na terceira
temporada é criticada, pois para os entrevistados ele colocou a vaidade acima
da série, ao não concordar com a mudança de horário para a sexta-feira às dez e
meia da noite.
Uma das figuras centrais
nos depoimentos foi Gene L. Coon. Sua entrada no meio da primeira temporada como
produtor melhorou sensivelmente a qualidade dos roteiros, a interação entre os
três personagens principais, e a dinâmica de produção da série. Ele foi
contratado depois de Roddenberry admitir que não poderia continuar a trabalhar
por até 18 horas por dia sete dias por semana. Tinha como parceiro apenas o dedicado
produtor Robert H. Justman (1926-2008), mas este chegou até a ser internado por
estafa.
Muito do que de melhor Star
Trek veio a consolidar é responsabilidade principal de Coon, em especial a
ênfase no relacionamento pessoal entre Kirk, Spock e McCoy. Ele escreveu
episódios clássicos como “Um Gosto de Armageddon” (A Taste of Armageddon), “Semente
do Espaço” (Space Seed), “Demônio na Escuridão” (The Devil in the Dark), “Missão
de Misericórdia” (Errand of Mercy), “Metamorfose” (Metamorphosis), entre
outros. Além disso, criou vários conceitos e ideias que se tornaram clássicos,
como os klingons, o tratado de paz de Orgânia, a diretriz de não interferência,
além de um equilíbrio entre ação, temas científicos e bom humor, principalmente
nos diálogos ferinos e engraçados entre Spock e McCoy.
Mas seu sucesso enciumou
Roddenberry e ele deixou a produção perto do final da segunda temporada. Este
fato é pouco lembrado, inclusive, quando se aborda a queda de qualidade da
última temporada da série. Ele foi substituído por Fred Freiberger (1915-2003),
escolha de Roddenberry que pensava em reassumir o comando da produção executiva
da série e queria alguém mais subserviente. Mas, como se sabe, ele terminou por
sair da produção e a responsabilidade principal pela condução ficou nas mãos de
um sujeito que não conhecia e não tinha apreço pela série.
Outro momento muito
abordado e valorizado é a campanha de cartas dos fãs que salvaram a série do
cancelamento, da segunda para a terceira temporada. O grande temor deles era
que se a série não tivesse uma terceira temporada ela não seria reprisada, como
era a norma da época. Ou seja, estaria tudo perdido. Liderada pelo casal Bjo (1933)
e John Trimble (1939-2024) estima-se que perto de um milhão de cartas tenha
chegado ao endereço da NBC, além fazerem uma enorme manifestação em frente à
emissora. Algo nunca visto antes ou depois na história da indústria do
entretenimento. Os executivos foram constrangidos a renovar por mais uma
temporada – chegando a garantir a continuidade num anúncio de TV – e acusaram
Roddenberry de estar atrás da campanha, ao que este retrucou: “Isso é muito
lisonjeiro, porque se eu pudesse começar manifestações por todo o país a partir
desta mesa, eu sairia da ficção científica e entraria para a política.”
Sem Coon, com um novo
produtor e num horário ruim, o seriado caiu muito de qualidade, principalmente em
relação aos roteiros, e se bem reparado até na condição física de alguns
atores. Shatner, por exemplo, engordou. Episódios constrangedores foram ao ar
como, por exemplo, “O Cérebro de Spock” (Spock´s
Brain) – segundo Gross e Altman uma possível vingança de Coon contra Roddenberry, num episódio que não era para ser filmado –,
“A Ciranda do Poder” (And the Children Shall Lead), “Caminho para o Éden” (The
Way to Eden), “Por Traz da Cortina” (The Savage Curtain), e outros. Mas também
alguns notáveis: “Todos os Nossos Ontens” (All Your Yestardays), “Não Há Beleza
na Verdade?” (Is There in Truth no Beauty?), “Síndrome do Paraíso” (The
Paradise Syndrome).
Os índices de audiência
se mantiveram modestos com a mudança de horário, na verdade caíram, embora ainda
em primeiro lugar. Não sendo suficiente e sem uma liderança mais engajada no
interior da produção para defender a série, ela foi encerrada mesmo na terceira
temporada.
O que veio depois é
retratado no capítulo “Vida depois da morte”. A série foi mantida viva pelos
fãs apaixonados, os trekkers, que se organizaram num fandom
próprio, com a edição de muitos fanzines e a promoção de convenções que só
cresceram em quantidade e número de fãs a partir da década de 1970. Todo este
interesse abnegado levou ao interesse pela reprise da série – pois ela tinha as
três temporadas de exibição – numa enorme rede de pequenas emissoras pelo
interior do país, e sendo exibida não uma vez por semana como antes, mas
diariamente e em diferentes horários por cada retransmissora.
O livro capta bem estes dois momentos, o da organização de um vigoroso movimento de fãs e os detalhes e
a repercussão das reprises, mas para nisso, infelizmente. Isso porque a versão
brasileira do livro termina por aí. Pois a versão original cobre os primeiros
25 anos da trajetória da série, chegando, portanto, até 1991. Por isso, volume
1. Tanto é que o verdadeiro título original do livro é Fifty Year Mission:
The Complete, Uncensored, Unauthorized Oral History of Star Trek: The First 25
Years. Já o segundo volume, inédito no Brasil, aborda de 1991 a 2016, com alguns
filmes do cinema, a volta da série na TV, outras produzidas depois e os filmes
dirigidos por J.J. Abrams (1960).
Mas a editora Globo
cortou a, digamos, segunda parte da história dos primeiros 25 anos. Poderia, ao
menos ter chegado até o primeiro filme no cinema, o que incluiria os conteúdos
da criação e veiculação da série animada (1973-1974), da tentativa mal sucedida
da volta da série com os atores originais em 1977 e, finalmente, a decisão em levar
adiante uma superprodução para o cinema, Jornada nas Estrelas: O Filme (Star
Trek: The Motion Picture), de 1979.
Mesmo assim, vale muito a
pena ler este livro precioso com as histórias por trás da história da série
mais popular e influente da ficção científica. Seja para o interessado por
cultura popular, por ficção científica em geral, e, claro, principalmente para gerações
de fãs, entre os quais me incluo, e que celebra estes sessenta anos. Vida longa
e próspera à Jornada nas Estrelas!
—Marcello Simão Branco








