quinta-feira, 3 de setembro de 2026

50 Anos de Jornada nas Estrelas

 



    50 Anos de Jornada nas Estrelas: A História Completa, Não Autorizada e Sem Censura - Volume 1 (The Fifty Year Mission), Edward Gross e Mark A. Altman. Capa: Estúdio Insólito. Tradução: Rodrigo Salem. 390 páginas. Rio de Janeiro: Globo, 2016. Lançamento original no mesmo ano.

 

    Neste setembro de 2026 Jornada nas Estrelas (Star Trek) completa 60 anos! No dia 8 de setembro de 1966 foi ao ar nas TVs americanas o episódio O Sal da Terra” (The Man Trap) na verdade o sexto produzido. Embora este livro tenha sido escrito e lançado para comemorar o cinquentenário, o interesse se mantém integralmente, pois o conteúdo permanece atual.

    Talvez o fato de a série ter se tornado o maior fenômeno popular da história da ficção científica, transcendendo em muito a fronteira da televisão, não seja suficientemente claro o quão difícil foi esse processo durante sua produção entre os anos de 1966 e 1969.

    Afinal, é uma das poucas, senão a única a ter dois pilotos, após a rejeição do primeiro, o ótimo “A Jaula” (The Cage), de 1964, e ter enfrentado duas ameaças de cancelamento (da primeira para a segunda temporada e desta para a terceira) até o encerramento com o episódio “O Intruso (Turnabout Intruder), em 3 de junho de 1969.

  Escrito por Edward Gross e Mark A. Altman, dois experientes jornalistas que se especializaram na série e com outros títulos publicados sobre ela – inclusive, li e tenho arquivadas muitas entrevistas de Gross publicadas na revista Starlog (1976-2009) –, o livro repassa em detalhes como nunca havia visto antes as dificuldades em viabilizar e manter a série em exibição. Mas vai bem mais fundo sobre toda a sua produção, ao mostrar os bastidores e aspectos da personalidade dos responsáveis pela série.

  Assim, centenas (sim centenas) de pessoas foram entrevistadas ao longo de três décadas, selecionadas e editadas para compor o livro. Muitas das quais, diga-se, realizadas especificamente para o projeto. Desta forma, temos a presença do criador da série Gene Roddenberry (1921-1991), e de quase todos os atores principais, com a ausência sentida de DeForest Kelley (1920-1999) o doutor McCoy – e do roteirista e produtor Gene L. Coon (1924-1973), este talvez a personalidade mais citada na voz de outros interlocutores.

    Temos, desta forma, uma gama impressionante de depoimentos curtos de produtores, roteiristas, diretores, atores, assistentes de produção os mais variados, secretárias e muitos fãs, pois parte vital para tornar Star Trek este fenômeno foi a participação deles.

    Mas como encadear de forma plausível tantos depoimentos? Suas aparições de acordo com o assunto abordado. Desta forma, em forma cronológica dos eventos em que a série foi produzida as entrevistas são publicadas, como se estivessem conversando entre si, no estilo de uma história oral. O trabalho para amarrar tudo isso deve ter sido hercúleo e o resultado foi muito bem sucedido.

   Na leitura da obra transparece a luta para que ela fosse produzida, pois na época nenhuma série de ficção científica voltada para adultos havia sido exibida na TV, mas apenas infantis ou com um grau de verossimilhança que deixava a plausibilidade científica num segundo plano. A ideia era a de ação e entretenimento, e Star Trek veio para mudar o paradigma. Os problemas começaram, portanto, pelo novo conceito que a séria se propunha, algo estranho para os executivos de TV, preocupados apenas em oferecer entretenimento para obter altos índices de audiência.

    Isso explica porque o piloto foi rejeitado. Mas, surpreendentemente, ganhou uma nova chance por ter impressionado pela qualidade do conteúdo. Era preciso apenas adaptar o formato para um modelo menos intelectualizado, mas sem abdicar de seu conceito de oferecer uma série de ficção científica mais inteligente.

    Assim, “Onde Nenhum Homem Jamais Esteve (Where no Man has Gone Before) foi aceito e a série passou a ser produzida pelo pequeno estúdio Desilu e exibida na rede de TV NBC, uma das três grandes do país, com veiculação de programação em nível nacional.

  Mas sempre houve duas tensões a cercar a produção e que só aumentaram com os passar do tempo. Os índices de audiência considerados baixos – apesar de serem os líderes de audiência no horário na maior parte da exibição – e os problemas de relacionamento entre a NBC e Gene Roddenberry. Ele já havia trabalhado com a emissora com a série The Lieutenant (1963-1964), e os seguidos desentendimentos levaram ao seu cancelamento precoce. Ambos puxavam a corda para o seu lado, a NBC voltada ao lucro e Roddenberry em produzir qualidade na TV. Em tese, isso não é novidade no ambiente do show business, mas é que Roddenberry era muito teimoso e centralizador.

    Desta forma, tal embate se manteve durante a produção de Star Trek. Tanto é que já no meio da primeira temporada – cerca de 15 episódios depois – ele soube de rumores de que a série seria descontinuada. Desesperado, contactou o escritor Harlan Ellison (1934-2018), com quem tinha bom contato, que criou um comitê de escritores de ficção científica e endereçou cartas à NBC e à imprensa defendendo a manutenção da série. Aqui temos, em particular, um aspecto que poderia ser mais explorado no livro, da proximidade de Roddenberry com os escritores de ficção científica, de como vários deles apoiaram a série e, mais que isso, escreveram roteiros, vários deles produzidos. Nomes importantes como o próprio Ellison, Robert Bloch (1917-1994), Theodore Sturgeon (1918-1985), Richard Matheson (1926-2013), Norman Spinrad (1940) e outros.

   A iniciativa foi bem sucedida e a série chegou ao fim da primeira temporada e renovada para a segunda. Nesta novos problemas foram adicionados, o principal deles a rivalidade crescente entre William Shatner (1931) e Leonard Nimoy (1931-2015). Shatner era o astro da série como o intrépido Capitão Kirk, mas o personagem de Nimoy, Spock, o superava em muito em popularidade e repercussão para além da série. Aliás, talvez tenha sido o vulcano o primeiro a romper as fronteiras da série para além da TV e da ficção científica. Spock virou um fenômeno popular, que intrigava por sua origem e, principalmente, personalidade misteriosa e que tinha no controle das emoções e na busca da lógica seus pontos de maior interesse. Nimoy queria um aumento de salário e por pouco não foi tirado da série. O chefão da NBC foi quem garantiu que seu salário fosse melhorado.

   Shatner, por sua vez, não escondeu o ciúme e tentou controlar as falas dos personagens, chegando a roubar algumas que seriam do oficial de ciências da Enterprise. O ator, inclusive, não se sai bem na visão dos atores do elenco e membros da produção. Por ironia, o mais favorável a ele é Nimoy, mesmo que sem grande entusiasmo. Isso porque a maior parte das ressalvas era com relação ao seu egocentrismo e individualismo, talvez insuflado pelo fato de passar a ter um concorrente ao seu estrelato.

    O Grande Pássaro da Galáxia – apelido de Roddenberry – se sai ainda pior na visão dos muitos entrevistados. Ninguém deixa de reconhecer sua criatividade e visão humanista que imprimiu à série, mas sua personalidade era muito problemática. Além de centralizador, as críticas resvalam para a vida pessoal, com seguidas falas sobre seu machismo e assédio sexual a várias mulheres. Os próprios trajes sumários das tripulantes se relacionam com isso. Além disso, sua saída da produção da série na terceira temporada é criticada, pois para os entrevistados ele colocou a vaidade acima da série, ao não concordar com a mudança de horário para a sexta-feira às dez e meia da noite.




    Uma das figuras centrais nos depoimentos foi Gene L. Coon. Sua entrada no meio da primeira temporada como produtor melhorou sensivelmente a qualidade dos roteiros, a interação entre os três personagens principais, e a dinâmica de produção da série. Ele foi contratado depois de Roddenberry admitir que não poderia continuar a trabalhar por até 18 horas por dia sete dias por semana. Tinha como parceiro apenas o dedicado produtor Robert H. Justman (1926-2008), mas este chegou até a ser internado por estafa.

    Muito do que de melhor Star Trek veio a consolidar é responsabilidade principal de Coon, em especial a ênfase no relacionamento pessoal entre Kirk, Spock e McCoy. Ele escreveu episódios clássicos como Um Gosto de Armageddon (A Taste of Armageddon), Semente do Espaço” (Space Seed), “Demônio na Escuridão” (The Devil in the Dark), “Missão de Misericórdia” (Errand of Mercy), “Metamorfose” (Metamorphosis), entre outros. Além disso, criou vários conceitos e ideias que se tornaram clássicos, como os klingons, o tratado de paz de Orgânia, a diretriz de não interferência, além de um equilíbrio entre ação, temas científicos e bom humor, principalmente nos diálogos ferinos e engraçados entre Spock e McCoy.

    Mas seu sucesso enciumou Roddenberry e ele deixou a produção perto do final da segunda temporada. Este fato é pouco lembrado, inclusive, quando se aborda a queda de qualidade da última temporada da série. Ele foi substituído por Fred Freiberger (1915-2003), escolha de Roddenberry que pensava em reassumir o comando da produção executiva da série e queria alguém mais subserviente. Mas, como se sabe, ele terminou por sair da produção e a responsabilidade principal pela condução ficou nas mãos de um sujeito que não conhecia e não tinha apreço pela série.

    Outro momento muito abordado e valorizado é a campanha de cartas dos fãs que salvaram a série do cancelamento, da segunda para a terceira temporada. O grande temor deles era que se a série não tivesse uma terceira temporada ela não seria reprisada, como era a norma da época. Ou seja, estaria tudo perdido. Liderada pelo casal Bjo (1933) e John Trimble (1939-2024) estima-se que perto de um milhão de cartas tenha chegado ao endereço da NBC, além fazerem uma enorme manifestação em frente à emissora. Algo nunca visto antes ou depois na história da indústria do entretenimento. Os executivos foram constrangidos a renovar por mais uma temporada – chegando a garantir a continuidade num anúncio de TV – e acusaram Roddenberry de estar atrás da campanha, ao que este retrucou: “Isso é muito lisonjeiro, porque se eu pudesse começar manifestações por todo o país a partir desta mesa, eu sairia da ficção científica e entraria para a política.

   Sem Coon, com um novo produtor e num horário ruim, o seriado caiu muito de qualidade, principalmente em relação aos roteiros, e se bem reparado até na condição física de alguns atores. Shatner, por exemplo, engordou. Episódios constrangedores foram ao ar como, por exemplo, O Cérebro de Spock” (Spock´s Brain) segundo Gross e Altman uma possível vingança de Coon contra Roddenberry, num episódio que não era para ser filmado –, “A Ciranda do Poder” (And the Children Shall Lead), “Caminho para o Éden” (The Way to Eden), “Por Traz da Cortina” (The Savage Curtain), e outros. Mas também alguns notáveis: “Todos os Nossos Ontens” (All Your Yestardays), “Não Há Beleza na Verdade?” (Is There in Truth no Beauty?), “Síndrome do Paraíso” (The Paradise Syndrome).

  Os índices de audiência se mantiveram modestos com a mudança de horário, na verdade caíram, embora ainda em primeiro lugar. Não sendo suficiente e sem uma liderança mais engajada no interior da produção para defender a série, ela foi encerrada mesmo na terceira temporada.

    O que veio depois é retratado no capítulo “Vida depois da morte”. A série foi mantida viva pelos fãs apaixonados, os trekkers, que se organizaram num fandom próprio, com a edição de muitos fanzines e a promoção de convenções que só cresceram em quantidade e número de fãs a partir da década de 1970. Todo este interesse abnegado levou ao interesse pela reprise da série – pois ela tinha as três temporadas de exibição – numa enorme rede de pequenas emissoras pelo interior do país, e sendo exibida não uma vez por semana como antes, mas diariamente e em diferentes horários por cada retransmissora.

    O livro capta bem estes dois momentos, o da organização de um vigoroso movimento de fãs e os detalhes e a repercussão das reprises, mas para nisso, infelizmente. Isso porque a versão brasileira do livro termina por aí. Pois a versão original cobre os primeiros 25 anos da trajetória da série, chegando, portanto, até 1991. Por isso, volume 1. Tanto é que o verdadeiro título original do livro é Fifty Year Mission: The Complete, Uncensored, Unauthorized Oral History of Star Trek: The First 25 Years. Já o segundo volume, inédito no Brasil, aborda de 1991 a 2016, com alguns filmes do cinema, a volta da série na TV, outras produzidas depois e os filmes dirigidos por J.J. Abrams (1960).

    Mas a editora Globo cortou a, digamos, segunda parte da história dos primeiros 25 anos. Poderia, ao menos ter chegado até o primeiro filme no cinema, o que incluiria os conteúdos da criação e veiculação da série animada (1973-1974), da tentativa mal sucedida da volta da série com os atores originais em 1977 e, finalmente, a decisão em levar adiante uma superprodução para o cinema, Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), de 1979.

    Mesmo assim, vale muito a pena ler este livro precioso com as histórias por trás da história da série mais popular e influente da ficção científica. Seja para o interessado por cultura popular, por ficção científica em geral, e, claro, principalmente para gerações de fãs, entre os quais me incluo, e que celebra estes sessenta anos. Vida longa e próspera à Jornada nas Estrelas!

Marcello Simão Branco

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Estação Perdido, China Miéville

Estação Perdido
(Perdido Street Station),  China Miéville. 608 páginas. Tradução de José Baltazar Pereira Júnior e Fábio Fernandes. São Paulo: Boitempo, 2016. 

Até a publicação deste romance, o escritor britânico China Miéville era pouco conhecido no Brasil, exceto por um restrito grupo de fãs de ficção científica internacional. Apenas dois de seus trabalhos haviam sido publicados anteriormente: King Rat (2008), Rei Rato no Brasil, saiu em 2011 pela editora Tarja, com praticamente nenhuma divulgação, e The city & the city (2009), no Brasil, A cidade e a cidade, saiu em 2014 pela editora Boitempo, conhecida pelo extenso catálogo de textos socialistas, que sofre de alguma antipatia entre os fãs brasileiros de ficção científica. Além do próprio Miéville, que é filiado ao Partido Comunista em seu país e trata de questões profundamente políticas em seus textos e também não é aceito com muito entusiasmo por esse público, ainda que tenha recebido, justamente por A cidade e a cidade, os mais prestigiosos prêmios da literatura especulativa na Inglaterra e nos EUA. Os brasileiros sempre tiveram uma certa inclinação para serem mais reais que o rei. Se torceu o nariz, que pena para você.
Perdido Street Station (2000), Estação Perdido no Brasil, foi publicado em 2016 também pela Boitempo, e é o primeiro romance da trilogia Bas-Lag, que conta com as sequências The scar (2002)* e Iron Council (2004). Trata-se de um romance de fantasia, que muitos classificam como New Weird, um estilo narrativo que não observa os protocolos comerciais dos gêneros populares e os mistura de modo indissociável. Logo, alguns poderiam afirmar que é um romance de horror, ou até de ficção científica, e não estariam errados.
É difícil de resumir, mas vou tentar. Estação Perdido conta a história de Isaac, um cientista meio maluco que tem teses um tanto exóticas e não é muito bem visto na universidade de Nova Crobuzon, magalópole onde diversas espécies inteligentes convivem em absoluta desarmonia urbana. As coisas começam a acontecer depois que  ele é procurado por Yagharek, um nobre do povo pássaro Garuda, que caiu em desgraça diante de sua comunidade e, como punição, teve as asas decepadas. Yagharek quer voltar a voar e, para isso, oferece todos os seus recursos, que não são poucos, para que Isaac encontre uma solução. Isaac inicia então uma meticulosa pesquisa em diversos campos, entre os quais a observação direta de seres voadores. Encomenda toda espécie de animais com asas, entre os quais se encontra uma bela lagarta que se recusa a comer os alimentos que lhe são oeferecidos. Isaac não sabe, mas esse pequeno animal é um macho de uma raríssima espécie de mariposa, contrabandeada de um laboratório do governo. E não é uma mariposa qualquer. Além de inteligente, é uma devoradora de mentes cuja posse é proibida. O problema já seria bem grande se esse exemplar fosse único na cidade. Mas ocorre que há mariposas fêmeas adultas em posse do chefão da máfia de Nova Crobuzon e, quando a mariposa macho de Issac atinge a fase voadora e escapa da gaiola onde era mantida, os problemas começam a se acumular. Juntas, as mariposas passam a se alimentar das mentes dos habitantes da cidade, deixando atrás de si uma longa fila de corpos vegetativos e, em breve, vão se reproduzir. Isaac terá de mover mundos e fundos para impedir que seus amigos (e o seu cliente garuda) sejam todos mortos, pelas mariposas, pela da polícia e pelos gangsters de cidade. 
É claro que este é apenas o plano geral da obra, de onde se destacam personagens profundos e interessantes pelos quais nos afeiçoamos, incluindo a própria nêmesis de Nova Crobuzon, as mortais e impiedosas mariposas. E quando achamos que nada maior poderia aparecer, surge o Tecelão, uma aranha interdimensional que está entre os seres mais espetaculares já criados na literatura fantástica. 
O texto de Miéville é avassalador desde os primeiros parágrafos. A sensação é de ser atropelado por um rolo compressor no olho de um tornado sensorial. Alguns capítulos são tão potentes que não dá para ler de uma vez só.
Tudo é espetacular e surpreendente em Estação Perdido: o estilo barroco, a narrativa veloz, personagens desprezíveis e ao mesmo tempo cativantes, seres extraordinários descritos em seus detalhes mais sórdidos, violência e paixão em doses generosas e muitas imagens tão espetaculares que parecem uma viagem de ácido. Praticamente todos os personagens mereciam histórias próprias, pois são muitos ricos em dilemas e contradições. O mundo de Estação Perdido é exuberante em nuances, culturas e civilizações, com tudo o que isso tem de bom e ruim. E o final é de acachapar. 
Talvez o nível de escatologia esteja um pouco acima do recomendado pela indústria cultural, mas não é nada que realmente embrulhe o estômago; é só o bastante para abrir nossas defesas. E ninguém sai de Estação Perdido sem deixar algo de si por lá.
Posso afirmar, sem medo de exagero, que é um  dos cinco melhores livros de fantasia já escritos. Não é um texto fácil mas cada página vale o esforço. 
— Cesar Silva

* A cicatriz, publicado pela Boitempo em 2025, com tradução de José Baltazar Pereira Júnior.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A Vida de H.P. Lovecraft

 



    A Vida de H.P. Lovecraft (A Dreamer and a Visionary: H.P. Lovecraft in his Time), S.T. Joshi. Tradução: Bruno Gambarotto. Capa: Ronaldo Alves. 445 páginas. São Paulo: Hedra, 2014. Lançamento original em 2001.

 

    Sendo uma pessoa com interesses variados e, por vezes imerso num determinado assunto, não dou a devida atenção a outro tema de grande interesse. Assim é que só praticamente uma década depois do lançamento no Brasil é que finalmente li a biografia de um de meus autores mais caros. Outro fato que talvez tenha contribuído para esse atraso é o fato de já à época ter lido bastante sobre o autor, mas o fato é que a leitura deste livro mostrou o quanto eu ainda tinha que aprender.

    Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) ficou por muitas décadas após sua morte envolto numa aura de mistério por causa de sua personalidade, tida como solitária e idiossincrática. Parte disso é verdade, mas há muita substância que justifica e, de certa forma, desmistifica estes conceitos que se tornaram quase que estereotipados. Pois o fato mais importante é que ele foi, ao mesmo tempo, se tornando mais e mais relevante e popular através de suas histórias, ainda mais misteriosas e idiossincráticas que sua vida pessoal.

    Nascido em uma família abastada na região da Nova Inglaterra, Lovecraft foi muito protegido e mimado, cercado de todas as atenções quando criança. Primeiro por parte de sua mãe superprotetora e depois de seu avô, sua primeira grande influência no mundo do conhecimento e da imaginação. Precoce e muito inteligente, já pequeno escrevia, pintava, realizava experiências químicas e observações astronômicas. Mas, de certa forma, isso o tornou mais solitário em relação às crianças de sua idade, que não o entendiam muito bem. Além disso, a perda precoce do pai e depois do avô, mudaram muito sua vida, também por causa da decadência financeira que se seguiu e que o acompanharia para sempre.

    Mas o que S.T. Joshi vai mostrar nesta biografia notável é que este berço de amplo apoio a seus interesses intelectuais seria fundamental para desenvolver sua literatura e, através dela, sua visão de mundo incomum e perturbadora. O conceito do cosmicismo elaborado por Lovecraft em suas cartas e contos nos leva à compreensão desencantada da condição humana frente à vida e ao universo. Que quem procura dar algum sentido à realidade é a própria humanidade, mas externo a ela, reina a indiferença da natureza. Ora, esta é uma noção perturbadora, mas que ajuda a explicar cada vez mais o papel do ser humano frente ao universo.

    O livro está fortemente baseado nas milhares de cartas escritas por Lovecraft, além das de seus correspondentes também. Joshi fez um trabalho de pesquisa admirável por sua dedicação obsessiva em ter acesso a tudo que se relacionou com a vida de seu biografado.

    Assim, o livro é escrito em ordem cronológica dos anos de vida de Lovecraft, identificando todas as suas fases, tanto do ponto de vista pessoal, como de sua criação literária. Bem como do contexto da literatura norte-americana na primeira metade do século XX e em especial a corrente dos autores fãs, o fandom que se desenvolveu e do surgimento e das características das revistas pulps, onde Lovecraft publicou toda a sua obra.

    Desta forma, por meio de suas cartas, foi possível identificar a maior parte de sua rotina, suas atividades literárias, a reclusão na juventude, a popularidade na comunidade de fãs, a publicação das histórias em revistas obscuras, e suas frustrações artísticas e pessoais. Principalmente com o fracasso de seu casamento, suas dificuldades econômicas extremas, as frustrações em ser reconhecido e publicar um livro, bem como sua doença final, que termina por se manifestar de forma abrupta, apenas alguns meses antes do seu falecimento.

    Particularmente interessante também é que Joshi, além de ser um biógrafo sensível e respeitoso, é também um arguto crítico literário. Assim, ele comenta todas as histórias de Lovecraft, identifica suas influências, limitações e o progressivo amadurecimento do autor, principalmente a partir de meados dos anos 1920 quando dá início ao chamado ciclo de Cthulhu, por meio do qual Lovecraft escreve suas melhores histórias: “O Chamado de Cthulhu” (1926), “O Caso de Charles Dexter Ward” (1927), “A Cor que Caiu do Espaço” (1927), O Horror de Dunwich (1928), “Um Sussurro nas Trevas” (1930), “Nas Montanhas da Loucura” (1931), A Sombra Sobre Innsmouth” (1931) e “A Sombra Vinda do Tempo.” (1935). Uma exceção a este conjunto é a novela A Busca Onírica por Kadath (1926-1927), expressão máxima do ciclo dos sonhos.

    Joshi vai argumentar que este conjunto notável representou o afastamento de Lovecraft do horror mais sobrenatural ou de textos mais oníricos, para outros de caráter mais próximo da ficção científica. Daí que as histórias de Cthulhu sejam identificadas, justamente, como de um horror cósmico. E que o autor teria sofrido pessoalmente com esta mudança pois estes textos mais longos, mais elaborados em termos estéticos e com a inserção de uma explicação cósmica e ancestral dos horrores que assolam a humanidade, teria encontrado uma recepção mais fria e difícil por parte de seus editores e, principalmente, leitores. Pois ambos já haviam se acostumado com uma prosa mais rápida e com soluções temáticas mais violentas e sobrenaturais. Assim, a frustração dos anos finais de Lovecraft se relacionaria a esta mudança em sua característica literária e filosófica. Rejeitado por ser sofisticado para as revistas pulps da época – Weird Tales à frente –, e desconhecido e incompreendido pelo mainstream literário, que o rejeitou cinco vezes para editá-lo com um livro. Joshi, de forma instigante, especula que impacto poderia ocorrer na literatura de gênero norte-americana, caso Lovecraft tivesse ao menos um livro publicado em vida. Talvez despertasse um interesse para além do fandom, devido, justamente, à característica singular de seus temas e de sua prosa, além de chamar mais atenção para o horror e a ficção científica também.




    Mas a riqueza ímpar desta biografia se baseia principalmente na proximidade com a vida de Lovecraft. De como ele tinha interesses intelectuais variados: química, teatro, cinema, e principalmente astronomia, por meio do qual escreveu e publicou fanzines por vários anos, entre eles o The Rhode Island Journal of Astronomy. Sua primeira grande frustração intelectual vai ser justamente a de não ter cursado uma universidade, onde pretendia se tornar um pesquisador dos céus. Menos por sua incapacidade e mais pelo seu colapso psicológico no fim de sua adolescência. O que hoje poderia ser chamado de síndrome de Burnout ou coisa parecida.

    Revelador também eram seus outros interesses, o seu prazer por caminhar e viajar. É incrível que nos três anos em que viveu em Nova York (1924-1926), mesmo casado, na maior parte do tempo só, pois Sonia Greene (1883-1972) se ausentava para trazer algum sustento a mais para eles, ele tenha perambulado por boa parte da grande cidade madrugadas a fio. Joshi conta que seus amigos escritores o advertiam do perigo de ser assaltado nas ruas. Mas quando isso aconteceu ele estava em casa dormindo, embora não tenha sofrido violência e só tenha sabido que parte de seu modesto guarda roupa havia sido furtado três dias depois.

    Após ter abandonado Sonia e voltado a viver em sua amada Providence com suas tias Lillian e Annie, Lovecraft, na verdade, passava boa parte do tempo em viagem pelo país. Chegava a ficar meses em movimento, a visitar pequenas cidades do interior que fossem parecidas com a arquitetura do século XVIII, o tempo que ele gostaria de ter vivido e que buscou de forma intensa descobrir os resquícios por pelo menos dez anos, até sua morte. Inclusive, tal atividade rendeu, na avaliação de Joshi, alguns diários de viagem admiráveis, alguns dos quais, inclusive acabaram por ser publicados postumamente. O leitor pode perguntar como ele fazia essas viagens, já que vivia sempre com pouco dinheiro. Viajava de trem e de ônibus, se hospedava em lugares muito modestos, quando não pernoitava em rodoviárias e comia muito pouco e mal. Com o tempo, este hábito alimentar pode ter contribuído para o câncer no intestino que o levou.

    Mas Joshi não se exime de abordar algumas questões controversas sobre Lovecraft, a pior delas seu indisfarçável racismo, aflorado nos anos em que saiu de sua província branca e aristocrática de Providence, e foi viver na cidade grande e cheia de imigrantes de Nova York. Como é sabido, algumas de suas histórias explicitam seu desconforto com o convívio com negros, latinos e judeus, a principal delas “O Horror em Red Rook” (1925). Joshi, um indiano radicado nos EUA e de pele parda, talvez fosse visto de forma desagradável pelo próprio Lovecraft, mas realiza uma crítica equilibrada e colocada no contexto da época, em que teorias “científicas” de raça eram populares, embora já estivessem desacreditadas pela antropologia.

    Também a simpatia de Lovecraft por Mussolini e Hitler não escapa a Joshi, e o seu tom é de choque e lamento, embora imagine que Lovecraft os apoiasse em relação à busca de alternativas à profunda depressão econômica na década de 1930 em seu país, e não compartilhasse das perseguições e barbaridades que só fizeram crescer quando o fascismo se tornou mais forte. Nesse contexto, Joshi comprova, por meio de cartas, que Lovecraft passou a defender posteriormente a adoção de um programa socialista moderado, indicando que talvez o que o movesse fosse menos o apoio a regimes totalitários e mais soluções urgentes para a crise do capitalismo.

    Num livro com o volume enorme de informações biográficas e literárias como esse seria de se esperar que houvesse um índice remissivo. Na edição original de 1996 – que eu tenho aqui comigo, H.P. Lovecraft: A Life – existe, e nesta edição da Hedra originalmente havia, mas, infelizmente, foi cortado. Um pecado, já que é o tipo de livro em que o uso do índice remissivo se faz consultar a todo momento da leitura, e também para busca de informações posteriores.

    E eu tive uma pequena e modesta participação em A Vida de H.P. Lovecraft (2014), pois fui procurado pela Hedra para publicar um anexo ao livro com a minha pesquisa bibliográfica sobra sua obra publicada em língua portuguesa. Infelizmente não foi dessa vez que esta pesquisa saiu em livro – o que ocorreria em 2017 na coletânea Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico, organizada por Bruno Costa para a editora Ex-Machina –, mas meu nome está nos agradecimentos no expediente, ao lado de Joshi e de Donavan K. Loucks. Esta honra para mim já bastou.

    Além disso, este livro, originalmente de 2001, é uma versão atualizada do já citado H.P. Lovecraft: A Life (1996), que venceu o Prêmio Bram Stoker como melhor livro de não-ficção do ano. E foi seguido em 2010 por uma nova edição, atualizada e ampliada: I Am Providence: The Life and Times of H.P. Lovecraft, volumes 1 e 2 (2010). Neste último, inclusive, há um acréscimo de 150 mil palavras. Uma quantidade de análise e informação maior do que este livro que estou a resenhar!

    Isso só demonstra como Lovecraft se tornou uma área de interesse particular, dentro dos gêneros fantásticos e da literatura em geral. De certa forma, ele viveu como quis e pagou um alto preço por sua liberdade de pensamento, criação literária e estilo de vida. Mas quem poderia imaginar – a começar por ele mesmo – de que haveria este grau de popularidade, pesquisa, publicações e influência cultural tantos anos depois de sua morte.

Marcello Simão Branco

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Portal de Capricórnio, Ursulla Mackenzie

Portal de Capricórnio
, Ursulla Mackenzie. 218 páginas. 2.a edição. São Paulo: UICLAP, 2019. Edição original: Anadarco, 2012. 

Romance de estreia da escritora paulista Ursulla Mackenzie, originalmente publicado em 2012, quando a autora ainda assinava M. R. Olivieri. O exemplar a que tive acesso foi publicado em 2019 através da plataforma de edição por demanda UICLAP. Trata-se de uma mistura de romance planetário, ucronia e transmigração, mas podemos simplificar as coisas e classificá-lo como fantasia. 
Conta a história de Dru Ruver, uma jovem que durante as férias no litoral descobre um livro com mapas e ilustrações intrigantes que parecem sugerir a existência de um portal através do qual se poderia acesar um outro mundo, em tese, a própria Terra vinte mil anos no passado. Um grupo de cientistas se forma para uma missão de exploração desse portal, que fica no interior de uma casa no litoral de São Paulo. As informações do livro se revelam verdadeiras e o grupo é transportado para um deserto repleto de monstros e armadilhas. O grupo se desmantela e cada membro vai ter de enfrentar sozinho os perigos desse mundo estranho e surpreendente. Mas eles não estão realmente sozinhos ali. Um empreendimento político-militar já se instalou naquele lugar e seu sucesso vai trazer riscos para os dois mundos. 
Mackenzie afirma que a inspiração para a história veio do maravilhamento que experimentou durante uma viagem à Praia de Santa Rita, em Ubatuba/SP, onde a casa descrita no romance realmente existe, sem o portal do tempo, provavelmente. O título Portal de Capricórnio faz referência ao Trópico de Capricórnio, que passa exatamente pela cidade. O estilo da história é weird, na linha de Edgar Rice Burrougs em Uma princesa de Marte e Pellucidar, com toques de O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. 
O livro esta dividido em duas partes bem evidentes. A primeira narra a expedição ao passado até o retorno ao presente e traz maior quantidade de mistérios e surpresas, com uma introdução realista que reforça o estranhamento da história. A segunda parte conta sobre a volta dos protagonistas para uma segunda viagem ao passado que, por ser uma repetição, já não causa tanto impacto, mas é tecnicamente mais consistente que o trecho inicial. 
A opção pela viagem no tempo é tímida pois, fica evidente que não se trata de uma ucronia. Vinte mil anos não seria tempo o bastante para determinar as profundas mudanças descritas como, por exemplo, os contornos dos continentes que, nessa época, já eram iguais aos de hoje. Além disso, a maior parte das criaturas que surgem na história nunca existiu na Terra, sugerindo uma viagem a outro mundo ou, melhor ainda, a outra realidade, que traria significados mais profundos à trama.
Significativa também é a forma literária adotada, que não faz uso de recuos nos parágrafos nem de travessões nos diálogos. Nada que cause grandes dificuldades à leitura, que é leve, agradável e dá prazer. Várias pontas soltas deixam a sensação de ganchos para uma sequência futura, embora já tenham se passado muitos anos e a autora não deu sinal de pretender publicar alguma coisa nesse sentido. Mas, se vier, vou querer ler.
Cesar Silva

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Os Dias do Cometa

 



   Os Dias do Cometa (In the Days of the Comet), H.G. Wells. Tradução: Marcos Santarrita. Capa: autoria não creditada. Orelha: Fausto Cunha. 251 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, coleção Mestres do Horror e da Fantasia, 1984. Publicação original de 1906.

 

     Neste ano de 2026 completa-se 40 anos da última aparição do Cometa de Halley nos céus da Terra. Em 1986 o evento astronômico foi cercado de muita expectativa, mas, infelizmente, o resultado foi decepcionante. Conto mais sobre isso logo antes desta resenha no meu "Diário e Observações" que escrevi sobre a passagem do astro  leia aqui.

     Já o romance Os Dias do Cometa, de H.G. Wells (1866-1946) foi escrito em 1906, prognosticando a volta do Halley em 1910. Como se sabe, neste ano a aparição foi espetacular, o que aumentou ainda mais as profecias místicas e pseudocientíficas sobre suas possíveis consequências. Nenhuma delas ocorreu, é claro, mas, de certa forma, Wells trabalhou seu livro neste contexto. Mas de uma forma bem peculiar.

     Nos primeiros anos do século XX, Wells já era um escritor conhecido e popular principalmente por seus romances de ficção científica. Livros que, efetivamente, se tornaram clássicos e pelo qual o autor continua sendo lido e interpretado até hoje. Para citar apenas duas destas obras-primas, A Máquina do Tempo (The Time Machine; 1895) e A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau; 1896).

     Mas após esta do que podemos chamar de uma primeira fase de sua obra, ele inicia uma segunda, no qual os aspectos sociológicos e reformistas se sobressaem diante da criatividade da ficção científica – embora também na primeira fase sua crítica e sensibilidade social já estivessem presentes.

     Em Os Dias do Cometa encontramos um homem já idoso repassando as memórias de sua vida através de um diário pessoal. Escrevendo no alto de uma torre, ele recebe a visita inesperada de um jovem que passa, então, a ler os escritos, e dessa forma a história é contada.

    No caso, Willie Leadford relata o que foi o mundo antes e depois da Grande Mudança. Antes, ele mistura sua trajetória pessoal com a realidade social da Inglaterra. Morando com a mãe de aluguel num quarto e cozinha, trabalha numa fábrica de cerâmica onde passa a maior parte do tempo, ganha muito mal, e namora Nettie, uma garota socialmente mais bem posicionada. Mas, apesar de se gostarem, sua dificuldade financeira e seus valores diferentes terminam por afastá-los, embora ele lute desesperadamente para continuar com ela. Principalmente quando ela o troca por um jovem filho de um empresário. Justamente tudo o que ele mais abominava, ao enxergar como o mundo era socialmente desigual e injusto.

     Através da revolta do personagem, nesta primeira parte, Wells descreve com minúcias a miséria da classe trabalhadora fabril da época. Mas a um comentário socialmente crítico pungente, mais importante é sua sensibilidade ao mostrar o sofrimento dessas pessoas e o desprezo que sentia pela classe dominante. Assim, o jovem Willie, de certa forma, seria o próprio Wells, ambos militantes socialistas e participantes de reivindicações por melhores condições de trabalho e relações humanas mais solidárias.

     Mas onde está o cometa? Sim, pois em meio a esta juventude atribulada e explorada surge o cometa nos céus. A cada noite ele se torna maior, e não são poucos os que especulam sobre o fim dos tempos. Por sinal, as descrições sobre o cometa e suas características são especialmente bonitas. Mas Willie se irrita com a presença do astro, pois estaria desviando a atenção das pessoas dos seus verdadeiros problemas. Que se intensificam com um movimento grevista fortemente reprimido e o início de uma guerra com a Alemanha. Teria alguma coisa a ver com a presença do cometa? Sim, mas de uma forma totalmente diferente.

     Pois o principal da autobiografia de Willie aborda a mudança que aconteceu depois que o cometa atingiu sua máxima aproximação da Terra. Pois o astro soltou uma quantidade maciça de gases esverdeados que se misturou à atmosfera e mudou completamente a personalidade das pessoas depois de respirarem o novo ar. No caso, o nitrogênio se tornou respirável e, como se sabe, ocupa quase 80% da atmosfera terrestre.

   Pois com a Grande Mudança, todo individualismo, cobiça, inveja e valorização desmedida por interesses materiais se esvaiu. As pessoas se tornaram mais abertas a novidades, compreensivas, bem-humoradas e dispostas a construir uma nova sociedade, baseada em valores como a solidariedade, a igualdade e a fraternidade.

     Ou seja, a luta por um mundo melhor foi provocada pelos efeitos do cometa! É de se pensar que a humanidade tenha entrado numa espécie de transe, sob efeitos artificiais e que, de alguma forma poderia haver efeitos colaterais não planejados ou que o processo fosse passageiro. Mas não é o que acontece e, antes de mais nada Willie conta como os vapores verdes do cometa mudaram sua própria maneira de encarar a vida. Mais disposto, otimista e feliz.

     De certa forma uma espécie de deux ex machina surge e resolve a luta política em torno de um mundo mais justo. Mas isso poderia ser realmente argumentado se estivéssemos diante de um escritor menos capaz. Pois, através do recurso de um fenômeno natural externo, Wells narra em detalhes a construção desta nova sociedade, que ele imagina como a ideal. O sistema econômico capitalista é abolido, bem como a propriedade privada convencional. As pessoas trabalham juntas, em projetos coletivos de interesse social, dissipando as diferenças de classe antigas. Prevalece as cooperativas de produção nos mais diferentes setores da economia: agricultura, energia, transportes, comunicação, educação, saúde etc. Para organizar tudo isso são criados conselhos setoriais – coordenado por um governo central – onde os novos objetivos são traçados e as pessoas endereçadas de acordo com seus conhecimentos e aptidões.

     Wells não propunha um socialismo ao estilo marxista, mas sim o chamado socialismo fabiano, que defendia uma transição gradual e pacífica ao socialismo. Uma via reformista ao invés de revolucionária. Foi extremamente influente no Reino Unido entre o final do século XIX e as primeiras décadas de XX se misturando, com o tempo, com o movimento trabalhista.

     No livro Wells propõe uma reestruturação urbanística e arquitetônica radical com a destruição da maior parte das casas, prédios e demais instalações do antigo regime. Isso sem falar nas curiosas e algo sombrias cerimônias públicas de queima de objetos pessoais considerados inúteis e que lembram a velha ordem. Neste particular, Wells exagera, com o incêndio coletivo de milhares de livros "velhos e empoeirados" que retratavam valores que deveriam ser superados.

     Se esta parte revela a radicalidade do que propunha o reformador social, no plano das relações pessoais Wells também ousa, ao criticar a família nuclear e a relação monogâmica entre homem e mulher. Propõe, no lugar, o que chama de famílias sociais e o amor livre e poligâmico. Fico a imaginar como foram recebidas tais ideias na Inglaterra pós-vitoriana do início do século XX!

    O final da obra, de certa forma, me pareceu estranho pois o leitor da biografia se mostra surpreso com o mundo retratado. Mas por que se ele nasceu nesta realidade anos depois? Talvez o desconcerto esteja relacionado ao mundo de antes do cometa. Mas, até onde me parece, não ficou bem resolvido.

    Como dito acima, Os Dias do Cometa se insere no início da fase derradeira da carreira de Wells, no qual a crítica e a reforma social se tornam mais importantes que a criação literária em si. No final da vida, o autor se ressentiu de que as obras que mais vendiam eram as da primeira fase. Queria ser reconhecido pelas obras de cunho socializante por entender que teriam mais a contribuir para a transformação de uma nova sociedade. De fato, embora elas demonstrem o vigor de sua crítica e sensibilidade antes às mazelas do capitalismo, é como escritor de ficção científica que Wells continua celebrado como um dos nomes mais importantes do gênero, pois o comentário social estava embutido em enredos inventivos e com inegável senso de aventura e de maravilhamento, tornando estas obras, antes de mais nada, prazerosas e estimulantes.

    Escrito poucos anos antes da chegada do Halley, Os Dias do Cometa se situa no contexto de outras obras que abordaram o fenômeno em sua época como, por exemplo, Der Rote Komet (1909), de Robert Heymann – que ecoa o cenário de Wells de forma quase direta, embora mais ameaçador, pois ao gás é contraposto uma forte luz vermelha que circunda a Terra ante a possível colisão de um cometa. E anos antes com Hector Servadac: Viagens e Aventuras pelo Mundo Solar (Hector Servadac: Voyages et Adventures à travers le Mondo Solaire; 1877), de Julio Verne, e ainda antes Edgar Allan Poe com o conto "A Conversa de Eiros e Charmion" (The Conversation of Eiros and Charmion; 1839). Mas o livro de Wells, mesmo não estando entre suas principais obras, é talvez o mais significativo com sua proposta de utopia e amor livre.

Marcello Simão Branco


40 Anos da Vinda do Cometa de Halley

 

Imagem do Cometa de Halley obtida pela sonda soviética Vega 1 em 6 de março de 1986


Diário e Observações sobre o Cometa de Halley em 1986

 

Marcello Simão Branco

 

Quando o cometa de Halley reapareceu nas noites do planeta Terra há 40 anos eu, aos 18 anos, exercia uma atividade informal e entusiasmada de leitor de astronomia e observador do céu noturno. Para me incentivar ainda mais, meu saudoso pai comprou uma pequena luneta de cor branca para que eu pudesse acompanhar a chegada do cometa.

O relato que segue registra minhas impressões sobre a presença do astro no céu da cidade de São Paulo, misturando precisão de observação, as impressões pessoais de um jovem no início de sua vida adulta e parte dos resultados sobre a vinda do cometa.

Escrevi originalmente em manuscrito no anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, do astrônomo brasileiro Eugênio Scalise Júnior, lançado na época, e que trazia seis páginas finais para que o próprio leitor deixasse suas impressões, uma a cada mês, entre dez de setembro de 1985 e dez de maio de 1986 mas, como se verá, antecipei minha última observação. É um diário que ficou inédito por quatro décadas e decidi publicar agora em virtude da efeméride que, aliás, passou quase despercebida.

 

Diário & observações (páginas 91 a 96), Marcello Simão Branco, como anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, Eugênio Scalise Júnior. São Paulo: Diagrama & Texto, 96 páginas, 1985.

 



= 10 de setembro de 1985

O Halley ainda não é visto no céu noturno, encontrando-se a aproximadamente 2,98 Unidade Astronômica (UA) da Terra e 2,73 UA do Sol (dados exatos de 1º. de setembro).

O que ocorre é simplesmente a cada dia que passa uma crescente expectativa da sua aparição, que deverá ocorrer no fim de outubro e começo de novembro, em meio às Três Marias, na constelação de Órion (1º. a 30 de novembro).

 

= 10 de outubro de 1985

Apesar do Halley ainda não ser observado facilmente, a chuva de meteoros associados ao Halley já será uma amostra do que será sua passagem.

A Epsilon Orionidis (depois corrigi para Epsilon Orionis) ocorrerá de 15 a 31 deste mês, com máxima atividade em 21 de outubro.

Registra-se aqui a descoberta de astrônomos chineses a respeito do cometa Giacobini-Zinner que cruzou próximo ao Cometa de Halley no último dia 15 de setembro a 18 do mesmo mês, num encontro que ocorre somente a cada mil anos.

 

= 10 de novembro de 1985

Infelizmente não pude observar a chuva de meteoros relacionada ao Halley ocorrida no mês passado devido às constantes chuvas, e à poluição de São Paulo.

O cometa desde o dia primeiro deste mês já pode ser observado, mas com luneta ou binóculo. Até agora não consegui observar com minha luneta, pois a poluição de São Paulo é muito grande. Mas vou continuar tentando, pois, a partir do dia 18 deste mês, haverá melhores condições de observá-lo pois a Terra estará exatamente entre o Sol e o cometa.

 

= 10 de dezembro de 1985

Mais um mês passou e eu não observei o cometa, devido a poluição e a chuvas que vem ocorrendo.

Ver no bloco de anotações que a 23/11/1985 ocorreram duas descobertas a respeito do Halley. Assim como no começo do mês foi detectada a molécula de HCN no núcleo do cometa. (Eu escrevia num bloquinho as notícias curiosas sobre astronomia que lia em livros, jornais e revistas. Tenho comigo até hoje).

 

= 10 de janeiro de 1986

Com cuidado e muita paciência o cometa já é visto a olho nu como se fosse uma nuvem muito tênue. Eu ainda não o observei, mas o aguardo com expectativa. O Halley a 2 de janeiro cruzou a órbita da Terra, e se encontra atualmente na Constelação de Pegasus (de difícil observação).

 

= 10 de fevereiro de 1986

Por duas vezes no mês de janeiro, quase tive a certeza de observá-lo, mas não posso afirmar categoricamente que o observei, pois, o Halley ainda não é o fascinante espetáculo visual que todos esperam.

Atravessou a órbita de Vênus em 21 de janeiro, e no dia 9 deste mês às 12h 52 min, chegou ao periélio depois de 76 anos.

 

= 10 de março de 1986

Estou decepcionado, pois vejo agora que a passagem do Halley foi um grande lance de propaganda, tão forte que abafou o que muitos astrônomos afirmavam antes: que a passagem de 1986 seria uma das piores de todas. Apesar disso continuo com muita esperança de avistá-lo, especialmente no mês que vem, quando ocorrerá sua máxima aproximação da Terra.

 

= 10 de abril de 1986

Muitos conhecidos meus, parentes, etc. afirmam tê-lo visto, mas não sei se acredito, pois, a maioria confunde um cometa, com Sírius por exemplo. Quanto a mim, amanhã dia 11 concentro minhas últimas esperanças...

 

= 11 de abril de 1986

Aconteceu! Nem sombra do que foi anunciado, mas na noite de sexta-feira, dia 11 de abril, entre 1 e 2h 45 min da madrugada, eu o avistei e o contemplei a noroeste da Constelação de Centauro, como uma fascinante, pequena bola ofuscada e nevoenta (com binóculo) e maior e menos densa vista com minha luneta. Meu pai, irmão e minha mãe também o avistaram comigo no quintal e em frente à nossa casa. Primeiro, olhei a olho nu, e depois obtive a maravilhosa confirmação com os instrumentos. Nos dias 12 e 13 também o vi e depois ficou difícil a localização e não tenho certeza de vê-lo outra vez, ficando apenas a lembrança de tê-lo visto.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Quem teme a morte, Nnedi Okorafor

Quem teme a morte
(Who fears death), Nnedi Okorafor. Tradução de Mariana Mesquita. 521 páginas. São Paulo: Geração, 2014. Publicado originalmente em 2010. 

Quem teme a morte é romance New Weird afrofuturista da escritora nigeriana-americana Nnedi Okorafor, ganhador dos prêmios World Fantasy e Otherwise.
É possivelmente o primeiro romance publicado no Brasil sob a classificação de afrofuturista. Antes, até haviam os livros de Samuel R. Delany publicados nos anos 1960 e 1970, mas que não eram classificados assim então, bem como os contos de Octavia Buttler publicados na versão brasileira do periódico literário Isaac Asimov Magazine, na década de 1990. 
O cenário é o de uma sociedade medieval em guerra genocida. As pessoas usam tecnologias no dia a dia, como computadores e tablets, além de aparelhos que retiram água da atmosfera, visto que o planeta é dominado por um extenso deserto, resultado de um cataclismo ambiental cujos motivos foram há muito esquecidos. 
A história narra a vida trágica de uma jovem feiticeira mestiça nascida de um estupro e que, por isso, é vítima de preconceito em uma sociedade machista que vive sob o estigma de uma antiga maldição. Ela busca vingança do homem que estuprou sua mãe, ele também um feiticeiro poderoso, líder da nação inimiga. 
A característica mais evidente do livro é o foco no protagonismo negro, nem sempre tão evidente em outros autores ditos afrofuturistas. O texto é perturbador e impactante, com fortes contornos feministas, e o desfecho ambíguo exige a participação do leitor. Muitas coisas não são explicadas claramente, o que pode incomodar os leitores mais cartesianos. Decerto que concorrem ali muitos aspectos da cultura africana que podem escapar ao leitor que não compartilha deles. Os brasileiros até temos alguma vantagem nisso devido a nossa colonização africana mas, ainda assim, talvez não seja o bastante. A mim, confesso que escaparam muitas coisas. Mas talvez tais mistérios sejam porque Quem teme a morte é apenas o primeiro de uma série de romances, que conta ainda com The book of Phoenix (2015), She who knows (2024), One way witch (2025) e The daughter who remains (a ser publicado em 2026). 
Além dos prêmios a Quem teme a morte, Okorafor também ganhou os prêmios Hugo e Nebula por Binti (2016), e mais um Hugo e o Locus por Akata (2018), ambos traduzidos no Brasil pela editora Record.
Quem teme a morte é uma boa história e, de modo geral, lembra outro romance afrofuturista recente, Lua de sangue, de N. K. Jemisin (Morro Branco, 2022), por conta do extenso uso de magia e também do cenário desértico.
Quem teme a morte pode ser lido gratuitamente na biblioteca pública digital BibliOn.
— Cesar Silva