sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Operação Salvaguarda

 



  Operação Salvaguarda, Roberto Causo. Capa: Isabela Guerra. 172 páginas. Campinas: Flyve, 2026.

 

  Depois de oito anos Roberto de Sousa Causo volta a lançar um novo livro situado no universo ficcional Galaxis. O último havia sido o romance Mestre das Marés, pela Devir Livraria, em 2018 – resenha aqui. Tanto tempo, de certa forma, se relaciona com a mudança no rumo da editora, que encerrou suas coleções de FC, fantasia e horror após a morte do editor Douglas Quinta Reis em 2017.

  Operação Salvaguarda pertence à série “As Lições do Matador”, protagonizada por Jonas Peregrino. Em Galaxis surgiu depois uma outra série, “Shiroma, a Matadora Ciborgue”, protagonizada por Shiroma, uma ciborgue programada para matar e que também ganhou um livro próprio: Shiroma Matadora Ciborgue (Devir Livraria, 2015) - resenha aqui.

  Mas mesmo com o hiato destes anos Causo publicou contos sobre os dois personagens principais em revistas e coletâneas evitando que o intervalo fosse mais sentido. Assim, em Operação Salvaguarda reencontramos o soldado Jonas Peregrino – que a cada nova leitura se revela para mim como um alter-ego de Causo que, inclusive, serviu no Exército –, agora em ação às voltas com uma guerra civil no planeta Atacama, colonizado pela aliança latino-americana.

  Conforme mostrado em aventuras anteriores, estamos no século XXV com a humanidade espalhada por uma parte da Via-Láctea – principalmente na região conhecida como a Esfera – subdividida em quatro zonas de expansão, onde a aliança da América Latina compartilha espaço e disputa poder com a dos Norte-Americanos, dos Asiáticos e os Euro-Russos. Fica claro, portanto, que a despeito da humanidade não ter se unificado politicamente num só estado conseguiu colonizar parte da galáxia. E a perspectiva das histórias é a latino-americana, para ressaltar a luta e inserção desta região menos afluente e poderosa nos jogos de poder com as outras alianças.

  Nesta nova aventura, Jonas Peregrino tem a patente de tenente, cronologicamente antes, portanto, do primeiro romance Glória Sombria (2007) – ver resenha aqui – e de Mestre das Marés (2018), onde já é capitão. Neste sentido é interessante acompanhar parte do processo de desenvolvimento do soldado, que demonstra muita habilidade com os armamentos, determinação em suas ações e um sentido ético e de justiça rigorosos, o que o distingue em suas atitudes, tanto para resolver as missões em que se envolve como em, por vezes, contrariar decisões e interesses de seus superiores e de políticos por vezes envolvidos.

  Como os que ocorrem nos eventos que provocaram a guerra civil na colônia de Atacama. Designado para coordenar a evacuação dos civis dos locais de conflito, o tenente Peregrino recebe uma missão adicional de levar até um general uma mensagem que pode levar ao fim das hostilidades. Mas isso é só o começo porque quase nada é o que parece, pois militares graúdos e o líder de uma das facções em guerra teriam, na verdade, motivos ocultos para provocar um conflito armado. No caso, as duas facções em disputa são os bolivarianos – liderados por Orlando Madero Paz – e os extramaduranos. É que os dois grupos não chegaram a um acordo em como gerenciar recursos naturais valiosos, como minerais raros, essenciais para dispositivos eletrônicos de uso civil e militar. E que podem render uma fortuna e tornar a colônia de Atacama importante nos esquemas estratégicos entre os blocos políticos humanos. Os bolivarianos – de Paz – são contra a exploração comercial em larga escala e os extramaduranos a favor.

  Contudo, conforme Peregrino irá amargamente descobrir esta polarização é superficial, pois, na verdade, existe uma conspiração entre políticos e militares em associação com um grupo criminoso de origem asiática para se aproveitar dos recursos de forma escusa, nem que para isso milhares de pessoas sejam mortas.

  A novela retoma o tema da corrupção, vista antes em outras histórias e ao problematizá-la num contexto futurista, expõe possíveis problemas econômicos e geopolíticos que podem se acentuar nos dias de hoje a partir da necessidade crescente das terras raras e minerais críticos. E no qual, vejam só, o Brasil tem a segunda reserva mundial. Soma-se, assim, aos tantos recursos naturais mais este fazendo do nosso país uma peça estratégica chave nos jogos de poder mundiais. Só espero que estejamos à altura de mais este desafio.

  Operação Salvaguarda tem muita ação de combate, talvez mais do que os anteriores, no qual Peregrino tem sua vida colocada em risco iminente de página a página. Este ritmo de ação intenso torna a leitura também tensa, prendendo o leitor, por assim dizer, à leitura. O romance anterior Mestre das Marés também teve este perfil, mas por ser maior, pôde reduzir um pouco esta sensação, onde tiroteios e explosões são quase uma constante. A este panorama mais bélico é contraposto os valores éticos de Peregrino, tanto em sua atuação como soldado, como pelas descobertas que vai encontrando, com uma decepção com políticos e militares que só faz crescer, tornando-o se não cínico, ávido em contribuir para reparar as injustiças e punir os culpados.

  Nesta novela, em particular, a narrativa não é linear. Vai e volta em torno dos acontecimentos, o que exige uma dose a mais de concentração do leitor. Se num primeiro momento pode soar um pouco confusa, também por causa da grande quantidade de informações sobre armas e equipamentos, devido à força da história esta estrutura narrativa termina por se justificar, estabelecendo uma espécie de mosaico que, em si, dialoga com as tramoias corruptas que emergirão no desenrolar. Um detalhe curioso é que alguns personagens e equipamentos militares foram nomeados em referências a pessoas do fandom. Esta prática não é incomum na FC em geral, embora pouco praticada na nossa, e serve como uma espécie de homenagem ou piada interna quase cifrada, que poucos perceberão. Mas é divertido.

  Importante é que embora Operação Salvaguarda anteceda histórias já publicadas, pode ser lida de forma autônoma, porque é uma aventura com interesse específico e no qual questões candentes de nossa própria realidade atual – como já dito – são discutidas em chave de space opera militar.

  Causo tem se debruçado por praticamente duas décadas no universo Galaxis, colocando em perspectiva especulações relevantes sobre a conquista do espaço e o futuro político da humanidade. E a partir disso de suas relações com os recursos naturais e com a ameaça eventual de novas formas de vida na galáxia, como a misteriosa civilização dos tadais e seus temíveis soldados robôs, que são apenas citados brevemente nesta aventura, mas se tornarão centrais em histórias posteriores. E em todas elas, a figura íntegra de Jonas Peregrino serve de norte para a reflexão, principalmente, sobre os valores da justiça, do meio-ambiente e do que realmente pode dar sentido a uma vida mais decente, menos gananciosa e mais humana.

—Marcello Simão Branco


Astromemórias e SuBlinha



  Astromemórias, Roteiro e desenhos: Beralto. Apresentação: Henrique Magalhães. 62 páginas. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2026.

 

  Tomei conhecimento das histórias de quadrinhos de Beralto através do fanzine Juvenatrix, do amigo e fanzineiro de longa data Renato Rosatti. Este zine publica quadrinhos regularmente, embora não seja um zine de quadrinhos. E o gênero que mais publica é o horror. O artista Angelo Júnior, por exemplo, publica muitas HQs e capas no zine. Mas Beralto é diferente do habitual, e mesmo dentro do gênero que exercita, a ficção científica. E que me chamou a atenção também e principalmente pelo estilo e enfoque de suas histórias.

  Assim, por meio de um anúncio no próprio Juvenatrix, resolvi adquirir o álbum Astromemórias, em que o autor reúne um conjunto admirável destas HQs de estilo de traços suaves e limpos e com um enfoque físico-filosófico surpreendente. Tanto por explorar esta conexão que, afinal, está na raiz da própria Física ainda antes dela ter priorizado de forma inevitável a linguagem matemática para interpretar e perscrutar a realidade natural do universo, como também pela veia poética e existencial embutida. O que, de certa forma, traz de volta o conhecimento da Natureza para suas origens filosóficas.

  E a linha de condução desta conexão é uma inspirada poesia. Por meio dela estas discussões existenciais ganham relevo e levam longe a imaginação e especulação do leitor. A minha, pelo menos, trilhou estes caminhos. Alguns com sensações até inesperadas, dado o grau de acurada especulação e senso crítico do autor.

  O álbum contém 11 histórias, algumas mais curtas como, por exemplo, “Anatomia da Probabilidade”, “Vento Solitário”, “Algoritmo da Alma”, e a maioria mais extensas e onde Beralto desenvolve com mais vigor estas conexões especulativas eivadas de uma poesia filosófica e especulações sobre a condição quântica da realidade e do quanto ela pode vir a estabelecer alguma sabedoria e maturidade à frágil e caótica condição humana. Tão centrada em resultados materiais de curto prazo, cercada de dúvidas e motivada por ilusões e competições que não passam de vaidade diante da solidão e insegurança que a move. Nesta linha temos HQs notáveis como, por exemplo: “O Mergulhador Quântico”, “Tecelão do Espaço-Tempo”, “Cartógrafa de Silêncios”, “O Protocolo de Carbono”, “O Último Orbital”.

  Beralto atua no cenário dos quadrinhos nacionais desde meados dos anos 1980, já tendo publicado em vários zines e revistas nacionais. E é o nome artístico de Adalberto Carlos Paula de Sousa, que trabalha como coordenador da Fanzinoteca, do Instituto Federal Fluminense, na cidade de Macaé, Rio de Janeiro. E eu, como fanzineiro de origem dentro do fandom de FC, quero algum dia conhecer este lugar especial.

  Como bônus, o autor enviou gentilmente a HQ Djahoje n. 1, em formato de tira, no qual um alienígena chega à Terra e se depara com as curiosidades e contradições dos seres humanos. Uma FC ufológica que nos faz rir de nós mesmos.

  Em suma, com Astromemórias Beralto se insere na rica tradição poético-filosófica da FC, que reúne craques como Alejandro Jororowsky, Moebius (1938-2012) e brasileiros como Gazi Andraus e Edgar Franco – este inclusive capista de algumas edições do meu fanzine Megalon. E Beralto mantém o nível ao renovar esta tradição por sua hábil conexão do existencialismo poético de suas ideias e a vinculação com a expressão quântica da realidade.

 ***



  SuBlinha, Roteiro e desenhos: Beralto. 88 páginas. Com a participação de Edgar Franco e Sandro Leonardo. 88 páginas. Macaé: Edição do autor, 2026.

 

  Esta outra obra apresenta, pelo que me pareceu, apenas trabalhos inéditos, ou com maioria nesta condição. A proposta é, basicamente, a mesma, ou seja, histórias com alta carga filosófica existencialista num contexto de ficção científica. E talvez para acentuar ainda mais, conta com a presença de Edgar Franco – que também assina como Ciberpajé –, talvez o nome mais expressivo dos quadrinhos brasileiros de FC poético-filosófica.

  Beralto também explica que SuBlinha se trata não de um álbum, mas de um albunzine, porque conectado diretamente do autor para o leitor, sem filtro ou intermediário editorial. E por ele se reconhecer, antes de mais nada, como um artista do ambiente do fã. Que faz da prática de fanzinar uma expressão de suas ideias e de sua arte. E em consonância a isso apresenta trabalhos ainda mais viscerais e exploratórios do que Astromemórias.

  Pois SubLinha explora mais futuros e destinos sombrios e incertos e, desta forma, mais abertos a experiências ainda mais provocativas a respeito da condição da existência humana num universo que lhe é indiferente. Pois, no fundo, o que confere sentido à vida e tudo ao redor somos nós mesmos, numa expressão do que é ser humano.

  Temos 16 histórias interessantes por nos mergulharem num processo de suspensão da descrença – como típico da FC – e especulações sobre a existência, a vida e o sentido da realidade como a percebemos. Assim como em Astromemórias, mas com mais variações temáticas, o leitor é convidado a viajar por essas possibilidades. E se estiver disposto ao novo e ao diverso, e como sugere a boa FC, o resultado é um sentimento de devaneio e enlevação sobre os temas explorados. O que não é pouca coisa, pois se trata, em chave de FC, de questões profundas sobre a vida e a realidade.

 Algumas das histórias merecem mais destaque como, por exemplo, “A Sereia Gravitacional”, “O Ciclo Quebrado”, “Uma Manhã Perfeita” – com roteiro de Ciberpajé –, “O Buraco Negro que Escutava”, “O Guardião do Silêncio”, e as excepcionais “Areia e Pedra” e “O Último Horizonte.”

  Histórias em quadrinhos como estas merecem ser conhecidas e apreciadas por um público mais amplo, embora a produção editorial deste albunzine não deva nada em termos de qualidade de edição. E neste sentido, tanto SuBlinha, como Astromemórias são duas das mais gratas surpresas que tive nos últimos anos no cenário dos quadrinhos brasileiros, e da nossa FC em particular.

—Marcello Simão Branco


sábado, 19 de setembro de 2026

Rei Rato, China Miéville

Rei Rato
(King Rat), China Miéville. 400 páginas. Tradução Alexandre Mandarino; São Paulo, Tarja, 2011.

Saul é um jovem com problemas de relacionamento com o pai, com quem vive em um apartamento na periferia de Londres. Ao voltar de uma viagem, Saul vai direto para o seu quarto sem falar com o pai que, pelo som da tv ligada, estava na sala, provavelmente cochilando. 
Depois de um sono atribulado, Saul é acordado com o barulho de socos na porta da casa: é a polícia. Aturdido, Saul abre a porta e é imediatamente imobilizado pelos policiais, que o levam para a delegacia sob custódia: seu pai está morto no jardim, arremessado da varanda do prédio. O delegado encarregado da investigação acredita que Saul é o culpado, mas o garoto, em estado de choque, não entende nada do que está acontecendo. 
Enquanto aguarda a definição do caso, Saul fica detido em uma cela da delegacia. Mas algo bizarro acontece: um estranho de aparência assustadora, que se apresenta como seu tio, o tira de lá, passando imperceptível pelos policiais. O estranho o apresenta ao submundo de Londres, entre becos, lixo e esgotos. A vida de Saul vai mudar para sempre e as revelações que ele descobrirá serão terríveis não somente para ele, mas também para seus amigos. 
Rei Rato, romance de autoria do escritor britânico China Miéville, é um livro raro hoje em dia no Brasil. Publicado em 2011 pela extinta editora Tarja – de propriedade dos fãs e escritores de literatura fantástica Richad Diegues e Gianpaolo Celli –, teve tiragem pequena e nunca foi reeditado. Miéville, contudo, ganhou notoriedade desde então e o título hoje atrai o interesse de seus muitos leitores. 
Rei Rato foi o romance de estreia de Miéville, que hoje conta com livros premiados como A cidade e a cidade (2009), Estação Perdido (2000) e A cicatriz (2002), todos publicados no Brasil pela editora Boitempo. Por isso, Rei Rato pode soar como um trabalho menor na obra do autor, mas essa é uma percepção anacrônica. De fato, Rei Rato não apresenta o mesmo ritmo frenético, nem a ousadia na construção de mundo dos demais títulos, mas pode-se perceber nele muitas das marcas de estilo do autor, como um alto nível de escatologia e violência,  personagens ambíguos e cativantes, questões políticas evidenciadas, e muita dor. Também há diversos temas dentro da história que ecoam nas obras posteriores. Miéville foi mais ortodoxo na contação da história, que é uma aventura juvenil hard core, regada a música drum and bass e grande quantidade de gírias londrinas explicadas em muitas notas.
A história narra o caminho de descoberta e amadurecimento de um adolescente que se vê envolvido em uma guerra ancestral entre as nações dos ratos, das aranhas e dos pássaros, contra o misterioso e enlouquecido Flautista de Hamellin, que quer exterminar todas elas.
Embora a fantasia do horror estejam muito imbricadas, não é tão óbvio classificar Rei Rato como um romance New Weird (como seus outros livros) porque não há absolutamente nada de ficção científica na história. Mas podemos dizer, sem receio de erro, que se trata de uma fantasia urbana sombria na qual os subterrâneos londrinos são tão importantes quanto os personagens da trama, talvez mais. 
Rei Rato talvez seja mais palatável, apesar da escatologia, para a leitura de quem achou Miéville um escritor difícil de acompanhar, pois trata-se de uma narrativa simples e sem muitas reviravoltas. Contudo, sua leitura prévia não vai ajudar a acompanhar melhor os livros seguintes, porque a velocidade só aumenta e a vertigem é inevitável. Aliás, já dá para sentir um pouco dela aqui, especialmente nas sequências de ação intensa, que beiram o gore. 
Se for possível obter um exemplar, não deixe de ler Rei Rato, e entenda por que o New Weird causou tanto rebuliço na ficção especulativa mundial, inclusive entre os leitores e escritores brasileiros.
— Cesar Silva

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

50 Anos de Jornada nas Estrelas

 



    50 Anos de Jornada nas Estrelas: A História Completa, Não Autorizada e Sem Censura - Volume 1 (The Fifty Year Mission), Edward Gross e Mark A. Altman. Capa: Estúdio Insólito. Tradução: Rodrigo Salem. 390 páginas. Rio de Janeiro: Globo, 2016. Lançamento original no mesmo ano.

 

    Neste setembro de 2026 Jornada nas Estrelas (Star Trek) completa 60 anos! No dia 8 de setembro de 1966 foi ao ar nas TVs americanas o episódio “O Sal da Terra” (The Man Trap) – na verdade o sexto produzido. Embora este livro tenha sido escrito e lançado para comemorar o cinquentenário, o interesse se mantém integralmente, pois o conteúdo permanece atual.

    Talvez o fato de a série ter se tornado o maior fenômeno popular da história da ficção científica, transcendendo em muito a fronteira da televisão, não seja suficientemente claro o quão difícil foi esse processo durante sua produção entre os anos de 1966 e 1969.

    Afinal, é uma das poucas, senão a única a ter dois pilotos, após a rejeição do primeiro, o ótimo “A Jaula” (The Cage), de 1964, e ter enfrentado duas ameaças de cancelamento (da primeira para a segunda temporada e desta para a terceira) até o encerramento com o episódio “O Intruso” (Turnabout Intruder), em 3 de junho de 1969.

  Escrito por Edward Gross e Mark A. Altman, dois experientes jornalistas que se especializaram na série e com outros títulos publicados sobre ela – inclusive, li e tenho arquivadas muitas entrevistas de Gross publicadas na revista Starlog (1976-2009) –, o livro repassa em detalhes como nunca havia visto antes as dificuldades em viabilizar e manter a série em exibição. Mas vai bem mais fundo sobre toda a sua produção, ao mostrar os bastidores e aspectos da personalidade dos responsáveis pela série.

  Assim, centenas (sim centenas) de pessoas foram entrevistadas ao longo de três décadas, selecionadas e editadas para compor o livro. Muitas das quais, diga-se, realizadas especificamente para o projeto. Desta forma, temos a presença do criador da série Gene Roddenberry (1921-1991), e de quase todos os atores principais, com a ausência sentida de DeForest Kelley (1920-1999) – o doutor McCoy – e do roteirista e produtor Gene L. Coon (1924-1973), este talvez a personalidade mais citada na voz de outros interlocutores.

    Temos, desta forma, uma gama impressionante de depoimentos curtos de produtores, roteiristas, diretores, atores, assistentes de produção os mais variados, secretárias e muitos fãs, pois parte vital para tornar Star Trek este fenômeno foi a participação deles.

    Mas como encadear de forma plausível tantos depoimentos? Suas aparições de acordo com o assunto abordado. Desta forma, em forma cronológica dos eventos em que a série foi produzida as entrevistas são publicadas, como se estivessem conversando entre si, no estilo de uma história oral. O trabalho para amarrar tudo isso deve ter sido hercúleo e o resultado foi muito bem sucedido.

   Na leitura da obra transparece a luta para que ela fosse produzida, pois na época nenhuma série de ficção científica voltada para adultos havia sido exibida na TV, mas apenas infantis ou com um grau de verossimilhança que deixava a plausibilidade científica num segundo plano. A ideia era a de ação e entretenimento, e Star Trek veio para mudar o paradigma. Os problemas começaram, portanto, pelo novo conceito que a séria se propunha, algo estranho para os executivos de TV, preocupados apenas em oferecer entretenimento para obter altos índices de audiência.

    Isso explica porque o piloto foi rejeitado. Mas, surpreendentemente, ganhou uma nova chance por ter impressionado pela qualidade do conteúdo. Era preciso apenas adaptar o formato para um modelo menos intelectualizado, mas sem abdicar de seu conceito de oferecer uma série de ficção científica mais inteligente.

    Assim, “Onde Nenhum Homem Jamais Esteve” (Where no Man has Gone Before) foi aceito e a série passou a ser produzida pelo pequeno estúdio Desilu e exibida na rede de TV NBC, uma das três grandes do país, com veiculação de programação em nível nacional.

  Mas sempre houve duas tensões a cercar a produção e que só aumentaram com os passar do tempo. Os índices de audiência considerados baixos – apesar de serem os líderes de audiência no horário na maior parte da exibição – e os problemas de relacionamento entre a NBC e Gene Roddenberry. Ele já havia trabalhado com a emissora com a série The Lieutenant (1963-1964), e os seguidos desentendimentos levaram ao seu cancelamento precoce. Ambos puxavam a corda para o seu lado, a NBC voltada ao lucro e Roddenberry em produzir qualidade na TV. Em tese, isso não é novidade no ambiente do show business, mas é que Roddenberry era muito teimoso e centralizador.

    Desta forma, tal embate se manteve durante a produção de Star Trek. Tanto é que já no meio da primeira temporada – cerca de 15 episódios depois – ele soube de rumores de que a série seria descontinuada. Desesperado, contactou o escritor Harlan Ellison (1934-2018), com quem tinha bom contato, que criou um comitê de escritores de ficção científica e endereçou cartas à NBC e à imprensa defendendo a manutenção da série. Aqui temos, em particular, um aspecto que poderia ser mais explorado no livro, da proximidade de Roddenberry com os escritores de ficção científica, de como vários deles apoiaram a série e, mais que isso, escreveram roteiros, vários deles produzidos. Nomes importantes como o próprio Ellison, Robert Bloch (1917-1994), Theodore Sturgeon (1918-1985), Richard Matheson (1926-2013), Norman Spinrad (1940) e outros.

   A iniciativa foi bem sucedida e a série chegou ao fim da primeira temporada e renovada para a segunda. Nesta novos problemas foram adicionados, o principal deles a rivalidade crescente entre William Shatner (1931) e Leonard Nimoy (1931-2015). Shatner era o astro da série como o intrépido Capitão Kirk, mas o personagem de Nimoy, Spock, o superava em muito em popularidade e repercussão para além da série. Aliás, talvez tenha sido o vulcano o primeiro a romper as fronteiras da série para além da TV e da ficção científica. Spock virou um fenômeno popular, que intrigava por sua origem e, principalmente, personalidade misteriosa e que tinha no controle das emoções e na busca da lógica seus pontos de maior interesse. Nimoy queria um aumento de salário e por pouco não foi tirado da série. O chefão da NBC foi quem garantiu que seu salário fosse melhorado.

   Shatner, por sua vez, não escondeu o ciúme e tentou controlar as falas dos personagens, chegando a roubar algumas que seriam do oficial de ciências da Enterprise. O ator, inclusive, não se sai bem na visão dos atores do elenco e membros da produção. Por ironia, o mais favorável a ele é Nimoy, mesmo que sem grande entusiasmo. Isso porque a maior parte das ressalvas era com relação ao seu egocentrismo e individualismo, talvez insuflado pelo fato de passar a ter um concorrente ao seu estrelato.

    O Grande Pássaro da Galáxia – apelido de Roddenberry – se sai ainda pior na visão dos muitos entrevistados. Ninguém deixa de reconhecer sua criatividade e visão humanista que imprimiu à série, mas sua personalidade era muito problemática. Além de centralizador, as críticas resvalam para a vida pessoal, com seguidas falas sobre seu machismo e assédio sexual a várias mulheres. Os próprios trajes sumários das tripulantes se relacionam com isso. Além disso, sua saída da produção da série na terceira temporada é criticada, pois para os entrevistados ele colocou a vaidade acima da série, ao não concordar com a mudança de horário para a sexta-feira às dez e meia da noite.




    Uma das figuras centrais nos depoimentos foi Gene L. Coon. Sua entrada no meio da primeira temporada como produtor melhorou sensivelmente a qualidade dos roteiros, a interação entre os três personagens principais, e a dinâmica de produção da série. Ele foi contratado depois de Roddenberry admitir que não poderia continuar a trabalhar por até 18 horas por dia sete dias por semana. Tinha como parceiro apenas o dedicado produtor Robert H. Justman (1926-2008), mas este chegou até a ser internado por estafa.

    Muito do que de melhor Star Trek veio a consolidar é responsabilidade principal de Coon, em especial a ênfase no relacionamento pessoal entre Kirk, Spock e McCoy. Ele escreveu episódios clássicos como “Um Gosto de Armageddon” (A Taste of Armageddon), “Semente do Espaço” (Space Seed), “Demônio na Escuridão” (The Devil in the Dark), “Missão de Misericórdia” (Errand of Mercy), “Metamorfose” (Metamorphosis), entre outros. Além disso, criou vários conceitos e ideias que se tornaram clássicos, como os klingons, o tratado de paz de Orgânia, a diretriz de não interferência, além de um equilíbrio entre ação, temas científicos e bom humor, principalmente nos diálogos ferinos e engraçados entre Spock e McCoy.

    Mas seu sucesso enciumou Roddenberry e ele deixou a produção perto do final da segunda temporada. Este fato é pouco lembrado, inclusive, quando se aborda a queda de qualidade da última temporada da série. Ele foi substituído por Fred Freiberger (1915-2003), escolha de Roddenberry que pensava em reassumir o comando da produção executiva da série e queria alguém mais subserviente. Mas, como se sabe, ele terminou por sair da produção e a responsabilidade principal pela condução ficou nas mãos de um sujeito que não conhecia e não tinha apreço pela série.

    Outro momento muito abordado e valorizado é a campanha de cartas dos fãs que salvaram a série do cancelamento, da segunda para a terceira temporada. O grande temor deles era que se a série não tivesse uma terceira temporada ela não seria reprisada, como era a norma da época. Ou seja, estaria tudo perdido. Liderada pelo casal Bjo (1933) e John Trimble (1939-2024) estima-se que perto de um milhão de cartas tenha chegado ao endereço da NBC, além fazerem uma enorme manifestação em frente à emissora. Algo nunca visto antes ou depois na história da indústria do entretenimento. Os executivos foram constrangidos a renovar por mais uma temporada – chegando a garantir a continuidade num anúncio de TV – e acusaram Roddenberry de estar atrás da campanha, ao que este retrucou: “Isso é muito lisonjeiro, porque se eu pudesse começar manifestações por todo o país a partir desta mesa, eu sairia da ficção científica e entraria para a política.”

   Sem Coon, com um novo produtor e num horário ruim, o seriado caiu muito de qualidade, principalmente em relação aos roteiros, e se bem reparado até na condição física de alguns atores. Shatner, por exemplo, engordou. Episódios constrangedores foram ao ar como, por exemplo, “O Cérebro de Spock” (Spock´s Brain) – segundo Gross e Altman uma possível vingança de Coon contra Roddenberry, num episódio que não era para ser filmado –, “A Ciranda do Poder” (And the Children Shall Lead), “Caminho para o Éden” (The Way to Eden), “Por Traz da Cortina” (The Savage Curtain), e outros. Mas também alguns notáveis: “Todos os Nossos Ontens” (All Your Yestardays), “Não Há Beleza na Verdade?” (Is There in Truth no Beauty?), “Síndrome do Paraíso” (The Paradise Syndrome).

  Os índices de audiência se mantiveram modestos com a mudança de horário, na verdade caíram, embora ainda em primeiro lugar. Não sendo suficiente e sem uma liderança mais engajada no interior da produção para defender a série, ela foi encerrada mesmo na terceira temporada.

    O que veio depois é retratado no capítulo “Vida depois da morte”. A série foi mantida viva pelos fãs apaixonados, os trekkers, que se organizaram num fandom próprio, com a edição de muitos fanzines e a promoção de convenções que só cresceram em quantidade e número de fãs a partir da década de 1970. Todo este interesse abnegado levou ao interesse pela reprise da série – pois ela tinha as três temporadas de exibição – numa enorme rede de pequenas emissoras pelo interior do país, e sendo exibida não uma vez por semana como antes, mas diariamente e em diferentes horários por cada retransmissora.

    O livro capta bem estes dois momentos, o da organização de um vigoroso movimento de fãs e os detalhes e a repercussão das reprises, mas para nisso, infelizmente. Isso porque a versão brasileira do livro termina por aí. Pois a versão original cobre os primeiros 25 anos da trajetória da série, chegando, portanto, até 1991. Por isso, volume 1. Tanto é que o verdadeiro título original do livro é Fifty Year Mission: The Complete, Uncensored, Unauthorized Oral History of Star Trek: The First 25 Years. Já o segundo volume, inédito no Brasil, aborda de 1991 a 2016, com alguns filmes do cinema, a volta da série na TV, outras produzidas depois e os filmes dirigidos por J.J. Abrams (1960).

    Mas a editora Globo cortou a, digamos, segunda parte da história dos primeiros 25 anos. Poderia, ao menos ter chegado até o primeiro filme no cinema, o que incluiria os conteúdos da criação e veiculação da série animada (1973-1974), da tentativa mal sucedida da volta da série com os atores originais em 1977 e, finalmente, a decisão em levar adiante uma superprodução para o cinema, Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), de 1979.

    Mesmo assim, vale muito a pena ler este livro precioso com as histórias por trás da história da série mais popular e influente da ficção científica. Seja para o interessado por cultura popular, por ficção científica em geral, e, claro, principalmente para gerações de fãs, entre os quais me incluo, e que celebra estes sessenta anos. Vida longa e próspera à Jornada nas Estrelas!

—Marcello Simão Branco

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Estação Perdido, China Miéville

Estação Perdido
(Perdido Street Station),  China Miéville. 608 páginas. Tradução de José Baltazar Pereira Júnior e Fábio Fernandes. São Paulo: Boitempo, 2016. 

Até a publicação deste romance, o escritor britânico China Miéville era pouco conhecido no Brasil, exceto por um restrito grupo de fãs de ficção científica internacional. Apenas dois de seus trabalhos haviam sido publicados anteriormente: King Rat (2008), Rei Rato no Brasil, saiu em 2011 pela editora Tarja, com praticamente nenhuma divulgação, e The city & the city (2009), no Brasil, A cidade e a cidade, saiu em 2014 pela editora Boitempo, conhecida pelo extenso catálogo de textos socialistas, que sofre de alguma antipatia entre os fãs brasileiros de ficção científica. Além do próprio Miéville, que é filiado ao Partido Comunista em seu país e trata de questões profundamente políticas em seus textos e também não é aceito com muito entusiasmo por esse público, ainda que tenha recebido, justamente por A cidade e a cidade, os mais prestigiosos prêmios da literatura especulativa na Inglaterra e nos EUA. Os brasileiros sempre tiveram uma certa inclinação para serem mais reais que o rei. Se torceu o nariz, que pena para você.
Perdido Street Station (2000), Estação Perdido no Brasil, foi publicado em 2016 também pela Boitempo, e é o primeiro romance da trilogia Bas-Lag, que conta com as sequências The scar (2002)* e Iron Council (2004). Trata-se de um romance de fantasia, que muitos classificam como New Weird, um estilo narrativo que não observa os protocolos comerciais dos gêneros populares e os mistura de modo indissociável. Logo, alguns poderiam afirmar que é um romance de horror, ou até de ficção científica, e não estariam errados.
É difícil de resumir, mas vou tentar. Estação Perdido conta a história de Isaac, um cientista meio maluco que tem teses um tanto exóticas e não é muito bem visto na universidade de Nova Crobuzon, magalópole onde diversas espécies inteligentes convivem em absoluta desarmonia urbana. As coisas começam a acontecer depois que  ele é procurado por Yagharek, um nobre do povo pássaro Garuda, que caiu em desgraça diante de sua comunidade e, como punição, teve as asas decepadas. Yagharek quer voltar a voar e, para isso, oferece todos os seus recursos, que não são poucos, para que Isaac encontre uma solução. Isaac inicia então uma meticulosa pesquisa em diversos campos, entre os quais a observação direta de seres voadores. Encomenda toda espécie de animais com asas, entre os quais se encontra uma bela lagarta que se recusa a comer os alimentos que lhe são oeferecidos. Isaac não sabe, mas esse pequeno animal é um macho de uma raríssima espécie de mariposa, contrabandeada de um laboratório do governo. E não é uma mariposa qualquer. Além de inteligente, é uma devoradora de mentes cuja posse é proibida. O problema já seria bem grande se esse exemplar fosse único na cidade. Mas ocorre que há mariposas fêmeas adultas em posse do chefão da máfia de Nova Crobuzon e, quando a mariposa macho de Issac atinge a fase voadora e escapa da gaiola onde era mantida, os problemas começam a se acumular. Juntas, as mariposas passam a se alimentar das mentes dos habitantes da cidade, deixando atrás de si uma longa fila de corpos vegetativos e, em breve, vão se reproduzir. Isaac terá de mover mundos e fundos para impedir que seus amigos (e o seu cliente garuda) sejam todos mortos, pelas mariposas, pela da polícia e pelos gangsters de cidade. 
É claro que este é apenas o plano geral da obra, de onde se destacam personagens profundos e interessantes pelos quais nos afeiçoamos, incluindo a própria nêmesis de Nova Crobuzon, as mortais e impiedosas mariposas. E quando achamos que nada maior poderia aparecer, surge o Tecelão, uma aranha interdimensional que está entre os seres mais espetaculares já criados na literatura fantástica. 
O texto de Miéville é avassalador desde os primeiros parágrafos. A sensação é de ser atropelado por um rolo compressor no olho de um tornado sensorial. Alguns capítulos são tão potentes que não dá para ler de uma vez só.
Tudo é espetacular e surpreendente em Estação Perdido: o estilo barroco, a narrativa veloz, personagens desprezíveis e ao mesmo tempo cativantes, seres extraordinários descritos em seus detalhes mais sórdidos, violência e paixão em doses generosas e muitas imagens tão espetaculares que parecem uma viagem de ácido. Praticamente todos os personagens mereciam histórias próprias, pois são muitos ricos em dilemas e contradições. O mundo de Estação Perdido é exuberante em nuances, culturas e civilizações, com tudo o que isso tem de bom e ruim. E o final é de acachapar. 
Talvez o nível de escatologia esteja um pouco acima do recomendado pela indústria cultural, mas não é nada que realmente embrulhe o estômago; é só o bastante para abrir nossas defesas. E ninguém sai de Estação Perdido sem deixar algo de si por lá.
Posso afirmar, sem medo de exagero, que é um  dos cinco melhores livros de fantasia já escritos. Não é um texto fácil mas cada página vale o esforço. 
— Cesar Silva

* A cicatriz, publicado pela Boitempo em 2025, com tradução de José Baltazar Pereira Júnior.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A Vida de H.P. Lovecraft

 



    A Vida de H.P. Lovecraft (A Dreamer and a Visionary: H.P. Lovecraft in his Time), S.T. Joshi. Tradução: Bruno Gambarotto. Capa: Ronaldo Alves. 445 páginas. São Paulo: Hedra, 2014. Lançamento original em 2001.

 

    Sendo uma pessoa com interesses variados e, por vezes imerso num determinado assunto, não dou a devida atenção a outro tema de grande interesse. Assim é que só praticamente uma década depois do lançamento no Brasil é que finalmente li a biografia de um de meus autores mais caros. Outro fato que talvez tenha contribuído para esse atraso é o fato de já à época ter lido bastante sobre o autor, mas o fato é que a leitura deste livro mostrou o quanto eu ainda tinha que aprender.

    Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) ficou por muitas décadas após sua morte envolto numa aura de mistério por causa de sua personalidade, tida como solitária e idiossincrática. Parte disso é verdade, mas há muita substância que justifica e, de certa forma, desmistifica estes conceitos que se tornaram quase que estereotipados. Pois o fato mais importante é que ele foi, ao mesmo tempo, se tornando mais e mais relevante e popular através de suas histórias, ainda mais misteriosas e idiossincráticas que sua vida pessoal.

    Nascido em uma família abastada na região da Nova Inglaterra, Lovecraft foi muito protegido e mimado, cercado de todas as atenções quando criança. Primeiro por parte de sua mãe superprotetora e depois de seu avô, sua primeira grande influência no mundo do conhecimento e da imaginação. Precoce e muito inteligente, já pequeno escrevia, pintava, realizava experiências químicas e observações astronômicas. Mas, de certa forma, isso o tornou mais solitário em relação às crianças de sua idade, que não o entendiam muito bem. Além disso, a perda precoce do pai e depois do avô, mudaram muito sua vida, também por causa da decadência financeira que se seguiu e que o acompanharia para sempre.

    Mas o que S.T. Joshi vai mostrar nesta biografia notável é que este berço de amplo apoio a seus interesses intelectuais seria fundamental para desenvolver sua literatura e, através dela, sua visão de mundo incomum e perturbadora. O conceito do cosmicismo elaborado por Lovecraft em suas cartas e contos nos leva à compreensão desencantada da condição humana frente à vida e ao universo. Que quem procura dar algum sentido à realidade é a própria humanidade, mas externo a ela, reina a indiferença da natureza. Ora, esta é uma noção perturbadora, mas que ajuda a explicar cada vez mais o papel do ser humano frente ao universo.

    O livro está fortemente baseado nas milhares de cartas escritas por Lovecraft, além das de seus correspondentes também. Joshi fez um trabalho de pesquisa admirável por sua dedicação obsessiva em ter acesso a tudo que se relacionou com a vida de seu biografado.

    Assim, o livro é escrito em ordem cronológica dos anos de vida de Lovecraft, identificando todas as suas fases, tanto do ponto de vista pessoal, como de sua criação literária. Bem como do contexto da literatura norte-americana na primeira metade do século XX e em especial a corrente dos autores fãs, o fandom que se desenvolveu e do surgimento e das características das revistas pulps, onde Lovecraft publicou toda a sua obra.

    Desta forma, por meio de suas cartas, foi possível identificar a maior parte de sua rotina, suas atividades literárias, a reclusão na juventude, a popularidade na comunidade de fãs, a publicação das histórias em revistas obscuras, e suas frustrações artísticas e pessoais. Principalmente com o fracasso de seu casamento, suas dificuldades econômicas extremas, as frustrações em ser reconhecido e publicar um livro, bem como sua doença final, que termina por se manifestar de forma abrupta, apenas alguns meses antes do seu falecimento.

    Particularmente interessante também é que Joshi, além de ser um biógrafo sensível e respeitoso, é também um arguto crítico literário. Assim, ele comenta todas as histórias de Lovecraft, identifica suas influências, limitações e o progressivo amadurecimento do autor, principalmente a partir de meados dos anos 1920 quando dá início ao chamado ciclo de Cthulhu, por meio do qual Lovecraft escreve suas melhores histórias: “O Chamado de Cthulhu” (1926), “O Caso de Charles Dexter Ward” (1927), “A Cor que Caiu do Espaço” (1927), “O Horror de Dunwich” (1928), “Um Sussurro nas Trevas” (1930), “Nas Montanhas da Loucura” (1931), “A Sombra Sobre Innsmouth” (1931) e “A Sombra Vinda do Tempo.” (1935). Uma exceção a este conjunto é a novela “A Busca Onírica por Kadath” (1926-1927), expressão máxima do “ciclo dos sonhos”.

    Joshi vai argumentar que este conjunto notável representou o afastamento de Lovecraft do horror mais sobrenatural ou de textos mais oníricos, para outros de caráter mais próximo da ficção científica. Daí que as histórias de Cthulhu sejam identificadas, justamente, como de um horror cósmico. E que o autor teria sofrido pessoalmente com esta mudança pois estes textos mais longos, mais elaborados em termos estéticos e com a inserção de uma explicação cósmica e ancestral dos horrores que assolam a humanidade, teria encontrado uma recepção mais fria e difícil por parte de seus editores e, principalmente, leitores. Pois ambos já haviam se acostumado com uma prosa mais rápida e com soluções temáticas mais violentas e sobrenaturais. Assim, a frustração dos anos finais de Lovecraft se relacionaria a esta mudança em sua característica literária e filosófica. Rejeitado por ser sofisticado para as revistas pulps da época – Weird Tales à frente –, e desconhecido e incompreendido pelo mainstream literário, que o rejeitou cinco vezes para editá-lo com um livro. Joshi, de forma instigante, especula que impacto poderia ocorrer na literatura de gênero norte-americana, caso Lovecraft tivesse ao menos um livro publicado em vida. Talvez despertasse um interesse para além do fandom, devido, justamente, à característica singular de seus temas e de sua prosa, além de chamar mais atenção para o horror e a ficção científica também.




    Mas a riqueza ímpar desta biografia se baseia principalmente na proximidade com a vida de Lovecraft. De como ele tinha interesses intelectuais variados: química, teatro, cinema, e principalmente astronomia, por meio do qual escreveu e publicou fanzines por vários anos, entre eles o The Rhode Island Journal of Astronomy. Sua primeira grande frustração intelectual vai ser justamente a de não ter cursado uma universidade, onde pretendia se tornar um pesquisador dos céus. Menos por sua incapacidade e mais pelo seu colapso psicológico no fim de sua adolescência. O que hoje poderia ser chamado de síndrome de Burnout ou coisa parecida.

    Revelador também eram seus outros interesses, o seu prazer por caminhar e viajar. É incrível que nos três anos em que viveu em Nova York (1924-1926), mesmo casado, na maior parte do tempo só, pois Sonia Greene (1883-1972) se ausentava para trazer algum sustento a mais para eles, ele tenha perambulado por boa parte da grande cidade madrugadas a fio. Joshi conta que seus amigos escritores o advertiam do perigo de ser assaltado nas ruas. Mas quando isso aconteceu ele estava em casa dormindo, embora não tenha sofrido violência e só tenha sabido que parte de seu modesto guarda roupa havia sido furtado três dias depois.

    Após ter abandonado Sonia e voltado a viver em sua amada Providence com suas tias Lillian e Annie, Lovecraft, na verdade, passava boa parte do tempo em viagem pelo país. Chegava a ficar meses em movimento, a visitar pequenas cidades do interior que fossem parecidas com a arquitetura do século XVIII, o tempo que ele gostaria de ter vivido e que buscou de forma intensa descobrir os resquícios por pelo menos dez anos, até sua morte. Inclusive, tal atividade rendeu, na avaliação de Joshi, alguns diários de viagem admiráveis, alguns dos quais, inclusive acabaram por ser publicados postumamente. O leitor pode perguntar como ele fazia essas viagens, já que vivia sempre com pouco dinheiro. Viajava de trem e de ônibus, se hospedava em lugares muito modestos, quando não pernoitava em rodoviárias e comia muito pouco e mal. Com o tempo, este hábito alimentar pode ter contribuído para o câncer no intestino que o levou.

    Mas Joshi não se exime de abordar algumas questões controversas sobre Lovecraft, a pior delas seu indisfarçável racismo, aflorado nos anos em que saiu de sua província branca e aristocrática de Providence, e foi viver na cidade grande e cheia de imigrantes de Nova York. Como é sabido, algumas de suas histórias explicitam seu desconforto com o convívio com negros, latinos e judeus, a principal delas “O Horror em Red Rook” (1925). Joshi, um indiano radicado nos EUA e de pele parda, talvez fosse visto de forma desagradável pelo próprio Lovecraft, mas realiza uma crítica equilibrada e colocada no contexto da época, em que teorias “científicas” de raça eram populares, embora já estivessem desacreditadas pela antropologia.

    Também a simpatia de Lovecraft por Mussolini e Hitler não escapa a Joshi, e o seu tom é de choque e lamento, embora imagine que Lovecraft os apoiasse em relação à busca de alternativas à profunda depressão econômica na década de 1930 em seu país, e não compartilhasse das perseguições e barbaridades que só fizeram crescer quando o fascismo se tornou mais forte. Nesse contexto, Joshi comprova, por meio de cartas, que Lovecraft passou a defender posteriormente a adoção de um programa socialista moderado, indicando que talvez o que o movesse fosse menos o apoio a regimes totalitários e mais soluções urgentes para a crise do capitalismo.

    Num livro com o volume enorme de informações biográficas e literárias como esse seria de se esperar que houvesse um índice remissivo. Na edição original de 1996 – que eu tenho aqui comigo, H.P. Lovecraft: A Life – existe, e nesta edição da Hedra originalmente havia, mas, infelizmente, foi cortado. Um pecado, já que é o tipo de livro em que o uso do índice remissivo se faz consultar a todo momento da leitura, e também para busca de informações posteriores.

    E eu tive uma pequena e modesta participação em A Vida de H.P. Lovecraft (2014), pois fui procurado pela Hedra para publicar um anexo ao livro com a minha pesquisa bibliográfica sobra sua obra publicada em língua portuguesa. Infelizmente não foi dessa vez que esta pesquisa saiu em livro – o que ocorreria em 2017 na coletânea Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico, organizada por Bruno Costa para a editora Ex-Machina –, mas meu nome está nos agradecimentos no expediente, ao lado de Joshi e de Donavan K. Loucks. Esta honra para mim já bastou.

    Além disso, este livro, originalmente de 2001, é uma versão atualizada do já citado H.P. Lovecraft: A Life (1996), que venceu o Prêmio Bram Stoker como melhor livro de não-ficção do ano. E foi seguido em 2010 por uma nova edição, atualizada e ampliada: I Am Providence: The Life and Times of H.P. Lovecraft, volumes 1 e 2 (2010). Neste último, inclusive, há um acréscimo de 150 mil palavras. Uma quantidade de análise e informação maior do que este livro que estou a resenhar!

    Isso só demonstra como Lovecraft se tornou uma área de interesse particular, dentro dos gêneros fantásticos e da literatura em geral. De certa forma, ele viveu como quis e pagou um alto preço por sua liberdade de pensamento, criação literária e estilo de vida. Mas quem poderia imaginar – a começar por ele mesmo – de que haveria este grau de popularidade, pesquisa, publicações e influência cultural tantos anos depois de sua morte.

—Marcello Simão Branco

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Portal de Capricórnio, Ursulla Mackenzie

Portal de Capricórnio
, Ursulla Mackenzie. 218 páginas. 2.a edição. São Paulo: UICLAP, 2019. Edição original: Anadarco, 2012. 

Romance de estreia da escritora paulista Ursulla Mackenzie, originalmente publicado em 2012, quando a autora ainda assinava M. R. Olivieri. O exemplar a que tive acesso foi publicado em 2019 através da plataforma de edição por demanda UICLAP. Trata-se de uma mistura de romance planetário, ucronia e transmigração, mas podemos simplificar as coisas e classificá-lo como fantasia. 
Conta a história de Dru Ruver, uma jovem que durante as férias no litoral descobre um livro com mapas e ilustrações intrigantes que parecem sugerir a existência de um portal através do qual se poderia acesar um outro mundo, em tese, a própria Terra vinte mil anos no passado. Um grupo de cientistas se forma para uma missão de exploração desse portal, que fica no interior de uma casa no litoral de São Paulo. As informações do livro se revelam verdadeiras e o grupo é transportado para um deserto repleto de monstros e armadilhas. O grupo se desmantela e cada membro vai ter de enfrentar sozinho os perigos desse mundo estranho e surpreendente. Mas eles não estão realmente sozinhos ali. Um empreendimento político-militar já se instalou naquele lugar e seu sucesso vai trazer riscos para os dois mundos. 
Mackenzie afirma que a inspiração para a história veio do maravilhamento que experimentou durante uma viagem à Praia de Santa Rita, em Ubatuba/SP, onde a casa descrita no romance realmente existe, sem o portal do tempo, provavelmente. O título Portal de Capricórnio faz referência ao Trópico de Capricórnio, que passa exatamente pela cidade. O estilo da história é weird, na linha de Edgar Rice Burrougs em Uma princesa de Marte e Pellucidar, com toques de O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. 
O livro esta dividido em duas partes bem evidentes. A primeira narra a expedição ao passado até o retorno ao presente e traz maior quantidade de mistérios e surpresas, com uma introdução realista que reforça o estranhamento da história. A segunda parte conta sobre a volta dos protagonistas para uma segunda viagem ao passado que, por ser uma repetição, já não causa tanto impacto, mas é tecnicamente mais consistente que o trecho inicial. 
A opção pela viagem no tempo é tímida pois, fica evidente que não se trata de uma ucronia. Vinte mil anos não seria tempo o bastante para determinar as profundas mudanças descritas como, por exemplo, os contornos dos continentes que, nessa época, já eram iguais aos de hoje. Além disso, a maior parte das criaturas que surgem na história nunca existiu na Terra, sugerindo uma viagem a outro mundo ou, melhor ainda, a outra realidade, que traria significados mais profundos à trama.
Significativa também é a forma literária adotada, que não faz uso de recuos nos parágrafos nem de travessões nos diálogos. Nada que cause grandes dificuldades à leitura, que é leve, agradável e dá prazer. Várias pontas soltas deixam a sensação de ganchos para uma sequência futura, embora já tenham se passado muitos anos e a autora não deu sinal de pretender publicar alguma coisa nesse sentido. Mas, se vier, vou querer ler.
— Cesar Silva