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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Os Soldados do Bode Preto

 



Os Soldados do Bode Preto (Soldiers of the Black Got), Marian O´Hearn. Tradução: Gustavo Terranova Aversa. Capa: Natália Mieo Okamoto Aversa. 193 páginas. São Paulo: Andarilho, 2024. Lançamento original de 1940.

 

Esta novela marca a estreia de mais uma autora obscura no Brasil, a norte-americana Marian O´Hearn – do qual não se sabe nem quando nasceu e morreu! –, e demarca uma das principais características da série dos simpáticos livrinhos de FC&F da editora Andarilho. A publicação de autores estrangeiros em domínio público, mas como se fossem novos em folha, já que ninguém havia falado deles antes.

E neste caso em particular, a escolha foi das mais felizes, pois Os Soldados do Bode Preto é uma vibrante e movimentada história sobre bruxaria, e que tem um fundo de verdade, já que a trama se passa em Salem. Esta cidade ficou marcada de forma sombria na história dos Estados Unidos como local de uma das maiores caças a bruxas. Nos anos de 1692 e 1693 cerca de 30 mulheres foram acusadas e destas, 19 foram enforcadas. Praticamente todas com acusações falsas, morreram de forma inocente.

Na história de O´Hearn estes mesmos acontecimentos estão a vigorar, com execuções frequentes, só que não enforcadas, mas queimadas – prática ocorrida principalmente na Europa da mesma época. A ação é centrada em Hester Gurney, uma anciã que manipula ervas e vive isolada numa cabana em meio a uma floresta nos arrabaldes de Salem. Ela consagra sua sabedoria a Zabulon, uma das entidades do próprio Diabo. Sim, ela é uma bruxa, pratica os feitiços, mas as queimadas são as mulheres que nada sabem sobre tais poderes. Mas por quê?

Muito sagaz e inspirada, Hester utiliza seus conhecimentos ocultos para manipular os poderosos e, com isso, sobreviver em meio a um ambiente tão intolerante e perigoso. Pois os líderes da cidade a procuram. Para curar um ente querido desenganado pela medicina autorizada, ou em busca de poder e prosperidade. Comparecem em reuniões secretas de sabá em sua cabana, saindo de lá marcados com a marca do bode preto. Sim, eles se tornam os tais soldados do título, num pacto de proteção mútua entre eles e a bruxa.

Mas quando ela descobre os motivos verdadeiros da campanha de perseguição e execução de jovens mulheres, ela passa a tirar ainda mais vantagem da situação. Isso porque os graúdos de Salem matam as ´bruxas´ para se apropriar de forma indevida de seus pertences, rendas e propriedades. Pois segundo a lei, os despojos deveriam ser revertidos para a Prefeitura. Assim, as execuções ser tornam um negócio lucrativo, num sórdido esquema que, ainda por cima, mantém toda a comunidade numa situação de permanente tensão e desconfiança.

Em tese, qualquer comportamento considerado diferente pode ser passível de punição, pois fica evidente como a intolerância religiosa conduz ao fanatismo, perseguição e violência, principalmente às mulheres, já submetidas a uma condição subalterna no contexto de uma sociedade machista.

O mais interessante nesta história é que esses temas são expostos por meio das ações dos personagens, com uma prosa dinâmica e diálogos ágeis e inteligentes. A ênfase está na escalada dos acontecimentos e a reflexão crítica fica implícita, não se tornando pesada demais.

Na verdade, tive simpatia por Hester, a única bruxa verdadeira, que se reconhece como tal, mas que, na realidade, não faz mal a ninguém. Pelo contrário, usa seus poderes telúricos para proteger a si e às perseguidas, além de ter o dom da cura, principalmente com crianças, o que, mesmo que a contragosto, a torna uma figura valiosa para os sórdidos hipócritas que governam a cidade.




Os Soldados do Bode Preto foi capa da edição de janeiro de 1940 da prestigiada revista pulp Unknown – a que pagava melhor na época –, editada pelo influente John W. Campbell, Jr, e em 2016 recebeu uma pré-indicação para o Retro-Hugo de 1940, vencido por “If This Goes On...”, de Robert A. Heinlein.

Isso atesta a qualidade de Marian O´Hearn, o que é até estranho, já que é uma autora pouco conhecida até nos Estados Unidos. De fato, se duvida até de sua existência, pois os pesquisadores Eric Leif Davin em Partners in Wonder: Women in the Birth of Science Fiction, 1926-1965 (2006) e Victoria Lamont em Westerns: A Women´s History (2016), afirmam que ela é um pseudônimo de Anita Allen, uma contemporânea sua na mesma Unknown, mas do qual se sabe menos ainda numa rápida pesquisa no Google. Por outro lado, Delia O´Hara, sobrinha de O´Hearn afirma em seu blogue que sua tia existiu. Segundo ela, O´Hearn teria nascido no estado de Massachussets, atuado como jornalista esportiva (como Judy O´Hearn) e publicado romances de western e crime. Na FC&F, além da história aqui resenhada, publicou também na Unknown, a novela The Spark of Alla, serializada nas edições de agosto a outubro de 1940. Campbell, conhecido como muito exigente, gostou tanto destas histórias que comprou seu único romance, “No Soul, No Death”, mas não chegou a publicar.

Por todas essas informações se percebe que quase tanto quanto a história, é muito interessante saber quem foi o autor dela, já que são figuras praticamente desconhecidas. Assim, daria um sabor ainda maior às edições desta preciosa coleção – que infelizmente foi descontinuada em outubro de 2025 – se os textos de introdução tivessem sido mais caprichados com relação ao autor da obra.

Mas independente disso, Os Soldados do Bode Preto é uma ótima aventura no subgênero bruxaria do horror, com alguns momentos com imagens fantásticas de feitiçaria, através da carismática Hester Gurney, além de denunciar de forma contundente a hipocrisia, o falso moralismo, a desonestidade e os males causados pelo preconceito e o fanatismo religioso. E que, de forma surpreendente, ecoa nos dias de hoje, marcado pelo recrudescimento do autoritarismo e da intolerância religiosa.

Marcello Simão Branco

 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

VII Prêmio ABERST de Literatura - 2024

Criado em 2018, o Prêmio ABERST é uma promoção da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, e aponta os melhores trabalhos especificamente inscritos para o certame,  publicados pela primeira vez entre 1 de julho do ano anterior e 30 de junho do ano corrente. 
Os vencedores da edição de 2024 foram anunciados no dia 6 de dezembro de 2024, em evento presencial transmitido pela internet. A divulgação oficial não forneceu os detalhes editorais dos trabalhos premiados. 
Os ganhadores são: 
Projeto gráfico - Prêmio Sebastião Salgado: Uma oração para ninguém, Larissa Brasil;
Quadrinhos de crime ou terror - Prêmio Catacumba: O fantasma da ópera em São Paulo, Larissa Palmieri e Al Stefano;
Narrativa curta de ficção de crime - Prêmio Lúcia Machado de Almeida: Morte na hospedaria: O primeiro caso de Bento, Anne van den Bedum;
Narrativa curta de suspense - Prêmio Stella Carr: O último adeus de Sarah, Yasmin Callado;
Narrativa curta de terror - Prêmio Lygia Fagundes Telles: Corpo de barro, João Mendes;
Narrativa curta século 21 - Prêmio Maria Firmina dos Reis: Augúrio, Marcello A. Galvão;
Narrativa longa de ficção de crime - Prêmio Rubem Fonseca: O nome dela é Luana, Eberson Terra e Gustavo Nascimento;
Narrativa longa de suspense - Prêmio Cláudia Lemes: O olho de Gibraltar, Sergio P. Rossoni;
Narrativa longa de terror - Prêmio Rubens Lucchetti: O apocalipse amarelo: Uma torre para Cthulhu, Diego Vieira;
Narrativa longa século 21 - Prêmio Eliana Alves Cruz: O deslize, Vicento Hughes;
Narrativa infanto-juvenil/jovem adulto - Prêmio Marcos Rey: O dente do iguanodonte, A. Z. Cordenonsi;
Prêmio Revelação 2024: Marcelo Trigueiros;
Prêmio Grand ABERST: Rodrigo Ortiz Vinholo.
Também foram distribuidos prêmios destaque e menç
ões honrosas em diversas categorias. Para conhecer a relação completa, assita o vídeo da cerimônia de premiação, aqui.
Parabéns aos vencedores.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Prêmio Argos 2024

O Prêmio Argos de Literatura Fantástica, promovido anuamente desde 2000 pelo Clube dos Leitores de Ficção Científica-CLFC, reconhece os melhores trabalhos em romance, antologia e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa publicados no ano anterior. 
A escolha dos vencedores é realizada em um primeiro turno com votação exclusiva entre os membros do Clube, que indica cinco finalistas depois votados publicamente através de formulários divulgados nas redes sociais. 
Os vencedores da edição 2024 foram anunciados, em cerimônia presencial, no último dia 13 de dezembro no miniauditório da Universidade Veiga de Almeida, na cidade do Rio de Janeiro. São eles:
Romance: Um milhão de mim, Cirilo Lemos, Draco;
Antologia: Mundos paralelos: Ficção científica, Ana Rüsche, org., GloboClube;
História Curta: "Despertar na aurora sideral"
Juliane Vicente, Suprassuma 2, Suma.
Parabéns aos premiados.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Prêmio Odisseia 2024

Criado em 2019, o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica homenageia os favoritos de um júri composto por escritores convidados, dentre uma relação de obras publicadas no ano anterior especificamente inscritas para o certame. 
A edição 2024 anunciou seus vencedores durante a décima edição do congresso Odisseia de Literatura Fantástica, que aconteceu nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro, no Espaço Força e Luz, em Porto Alegre. 
Os jurados do Prêmio em 2024 foram Guilherme Smee, Nathália Xavier Thomaz, Simone Saueressig, Camila B. Kaihatsu, Cesar Silva, Lucas Viapiana, Enéias Tavares, Roberto de Sousa Causo, Carolina Mancini, Adrianna Alberti e Duda Falcão.
Os vencedores são: 
Projeto gráfico: A noite do cordeiro, Daniel Gruber, O Grifo.
Quadrinho fantástico: As confissões da Bahia em quadrinhos; Alexey Dodsworth e Cristina Lasaitis, dos autores.
Narrativa longa juvenil: Anomalia, vol. 1, Marcelo Cassaro e Marlon Teske, Jambô.
Narrativa curta horror: Corpo de barro, João Mendes, Escambau.
Narrativa curta fantasia: A Feira do Troca-Troca onde um filhote de onça vale um rádio de pilha, Auryo Jotha, Motim.
Narrativa curta  ficção científica: Esperando o dono, André Cáceres, Caos & Letras. 
Narrativa longa  horror: Os que sobem à noite, Thunder Dellú, Avec.
Narrativa longa  fantasia:  Jornadas extraordinárias a vidas distantes, Camila Fernandes e David Hoffmann, Sisko .
Narrativa longa ficção científica: Um milhão de mim, Cirilo S. Lemos, Draco.
Artigo fantástico: "O estranhamento na ficção do antropoceno", George Amaral, Teorias e reflexões sobre o Estranhamento na Ficção, Bandeirola.
Conto inédito: "Poeira oceânica", Patrícia H. Aafantis.
Todos os contos participantes desta última categoria podem ser lidos no segundo número da Revista Odisseia de Literatura Fantástica, publicação exclusiva que foi distribuída aos presentes durante o evento.
A lista completa dos indicados pode ser lida aqui. Parabéns aos vencedores!

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Prêmio Jabuti 2024

O Prêmio Jabuti é a mais prestigiosa premiação do ambiente editorial brasileiro. Promovido pela Câmara Brasileira do Livro, inaugurou em 2020 a categoria: "Romance de Entretenimento", que contempla livros de  ficção científica, fantasia e horror, entre outros gêneros. Os finalistas de cada categoria são escolhidos por um juri de três especialistas na área, dentre uma lista de inscritos para o certame. 
Além do vencedor, vale a pena citar também todos os finalistas da categoria, pois o reconhecimento da CBL é por si muito significativo. Os vencedores e os demais finalistas de 2024 são:
Romance de Entretenimento
Vencedor: O crime do bom nazista, Samir Machado de Machado, Todavia.
Finalistas: A noite do cordeiro, Daniel Gruber, O Grifo; Mariposa vermelha, Fernanda Castro, Suma; O homem da Patagônia, Paulo Stucchi, Jangada; Os canibais da Rua do Arvoredo, Tailor Diniz, Citadel.
A relação completa dos vencedores de todas as categorias do 66º Prêmio Jabuti pode ser conferida aqui.