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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Astronauta: Magnetar, Danilo Beyruth


Astronauta: MagnetarDanilo Beyruth. 80 páginas. Cores de Cris Peter. Editora Panini, coleção Graphic MSP, São Paulo, 2012.

Astronauta: Magnetar é uma novela gráfica escrita e ilustrada pelo premiado quadrinhista Danilo Beyruth, releitura adulta para o conhecido personagem infantil Astronauta, criado por Maurício de Sousa.
Nessa história, o Astronauta está literalmente perdido no espaço, próximo a uma estrela de nêutrons, quando sua mente começa a lhe pregar peças, um perigo mortal para alguém que está a milhões de anos-luz do seu planeta natal.
Fruto direto dos experimentalismos autorizados por Sousa nos vários álbuns comemorativos aos seus 50 anos de carreira, Astronauta: Magnetar inaugura o selo Graphic MSP, publicado pela editora Panini Comics.
Que se pese o talento de Beyruth, reconhecido pelos seus trabalhos anteriores, Necronauta Bando de dois, o que realmente atrai a atenção neste trabalho é a chancela de Maurício de Sousa, empresário que tem prestigio de sobra para garantir o sucesso de tudo aquilo em que toca. Porque, ao fim e ao cabo, o que Beyruth nos apresenta é uma boa história de ficção científica, como muitas outras que já tivemos por aí e nunca interessaram a  ninguém para além dos mais atentos fãs do gênero. Leitores esses que vão perceber claramente a forte influência da espetacular série francobelga Valerian, de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières que, sintomaticamente, nunca esteve na pauta dos editores brasileiros.
Além da aventura principal, o álbum traz um caderno de esboços de Beyruth e a primeira hq do personagem, produzida pelo próprio Maurício de Sousa. É, provavelmente, o mais significativo lançamento dos quadrinhos brasileiros em 2012.
Cesar Silva

sábado, 17 de janeiro de 2015

Chico Bento: Pavor espaciar

Chico Bento: Pavor espaciar, Gustavo Duarte. 80 páginas. Editora Panini, coleção Graphic MSP, São Paulo, 2013.

Depois de Astronauta: Magnetar e Turma da Mônica: Laços, é a vez de Chico Bento estrelar uma aventura especiar, quero dizer, especial, no álbum Pavor espaciar, terceira edição da coleção Graphic MSP. E, mais uma vez, trata-se de uma história de ficção científica, algo que, a princípio, parece não combinar muito com o simpático caipirinha de fala engraçada, mas o resultado é muito interessante.
O roteiro e os desenhos ficaram a cargo do premiado quadrinhista Gustavo Duarte, autor das edições independentes Có!TáxiBirds, e do álbum Monstros, publicado em 2012 pela Quadrinhos na Cia.
Pavor espaciar conta o que acontece numa certa noite quando, na ausência dos seus pais, Chico Bento, Zé Lelé, a galinha Giselda e o leitãozinho Torresmo, são abduzidos por um disco voador repleto de alienígenas tão feios quanto cheios de más intenções. Submetidos a experiências na mãos do sinistros ets, a turminha da roça vai depender da iniciativa atabalhoada de Chico Bento e da inteligência de Torresmo – cuja consciência foi trocada com Zé Lelé – para escapar dessa situação bizarra.
Enquanto foge pelos corredores aparentemente sem fim da grande espaçonave, Chico Bento e Zé Lelé, no corpo de Torresmo, passam por coisas insuspeitas, como aviões e navios desaparecidos no Triângulo das Bermudas, a roupa espacial do Astronauta, o esqueleto do Horácio e até um desacordado elefante verde, que vocês devem imaginar quem é, entre outras surpresinhas que vão divertir o leitor.
Diferentemente da versão realista que Danilo Beyruth deu ao Astronauta em Magnetar, Duarte manteve todas as características originais de Chico Bento, só explorando mesmo a concepção gráfica, com um estilo bem diverso do que estamos acostumados, repleto de movimento e amplas cenas panorâmicas. O colorido também é diferenciado, claro e suave, em poucos matizes.
A edição ainda traz extras, com amostras das etapas da produção e da técnica de Duarte, bem como um breve histórico do Chico Bento, com direito à reprodução de um sunday publicado em 1963 no suplemento juvenil do Diário de S. Paulo.
Gustavo Duarte e Maurício de Sousa prestam, assim, uma bela homenagem às histórias de ficção científica ufológica, como Contatos imediatos do terceiro grauSinaisGuerra dos mundos e outras, um gênero também muito praticado entre os autores brasileiros.
Chico Bento: Pavor Espaciar é uma publicação da Panini Comics, tem 80 páginas em cores e pode ser encontrado com capas duras ou em cartão plastificado.
Cesar Silva

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Piteco: Ingá, Shiko.

Piteco: Ingá, Shiko. 82 páginas. Editora Panini, coleção Graphic MSP, São Paulo, 2013.

Desde que surgiram as primeiras divulgações dos títulos que comporiam a coleção Graphic MSP, formada por adaptações mais ou menos livres dos personagens de Maurício de Sousa por outros artistas do traço, o que mais me entusiasmou foi o do Piteco. Isso porque o personagem sempre foi um dos que mais me cativaram dentro de sua produção, além de ser um dos menos explorados. Também porque Piteco remete ao Brucutu (Alley Oop), personagem clássico de V. T. Hamlin que sempre teve histórias incríveis, sinal do potencial de Piteco caso ousasse também se aproximar da ficção científica.
Outro detalhe que me animou foi saber que o artista convidado para realizar o trabalho era o incrível Shiko, quadrinhista paraibano atualmente domiciliado na Itália, revelado nos fanzines no início do século, cujos trabalhos tive a honra de publicar em algumas das últimas edições do Hiperespaço.
E, de fato, não me decepcionei. Piteco: Ingá, quarto volume da coleção, é o melhor até o momento. As ideias ousadas e os desenhos sensuais e soberbamente coloridos de Shiko caíram muito bem nesta versão realista, que parece receber influências de importantes obras da ficção científica antropológica como A guerra do fogo, de J.-H. Rosny, e O clã da caverna do urso, de Jean Auel.
A história conta como a tribo de Lem, onde vivem Piteco e seus amigos, tem que superar as diferenças com seus inimigos para conseguir sobreviver a uma seca que devasta o seu território. Mas, antes disso, o herói terá de empreender uma longa jornada em busca de Thuga, a sacerdotisa da aldeia, que foi raptada pelos temíveis homens-tigre. Acompanhado de Beleléu e Ogra, Piteco confronta diversas entidades mitológicas brasileiras, como o boitatá e o curupira, além de animais extintos como as aves do terror e o anhanguera, entre outros, em concepções tão elegantes quanto assustadoras.
Impressionam as belas versões de Shiko para Thuga e Ogra, carregadas de uma sensualidade primitiva, tal como as valentes guerreiras das histórias de espada e feitiçaria de Robert E. Howard. A aventura também faz referência à Pedra do Ingá, importante petróglifo localizado na Paraíba, no qual estão gravadas inscrições rupestres com milhares de anos.
Como Shiko não se incomodou em ser rigoroso nas referências científicas, não podemos dizer que Piteco: Ingá seja ficção científica. De fato, a obra se enquadra mais como fantasia, num universo em que animais extintos de diversas eras, seres mágicos, animais de outras regiões e homens de culturas e traços afro-mediterrâneos habitam a América do Sul de pelo menos cinco mil anos atrás. Mesmo assim, contribui de maneira importante para com a discussão de uma fantasia tipicamente brasileira, revelando pontos de convergência com trabalhos literários recentes de Simone Saueressig (Os sóis da América), Roberto de Sousa Causo (A sombra dos homens) e Christopher Kastensmidt (A bandeira do elefante e da arara).
A edição tem 84 páginas em cores, incluindo as capas, e ainda traz um caderno com desenhos de pré-produção comentados, além de um histórico do personagem original, criado em 1963. Altamente recomendada.
Cesar Silva