sexta-feira, 19 de junho de 2026

Quem teme a morte, Nnedi Okorafor

Quem teme a morte
(Who fears death), Nnedi Okorafor. Tradução de Mariana Mesquita. 521 páginas. São Paulo: Geração, 2014. Publicado originalmente em 2010. 

Quem teme a morte é romance New Weird afrofuturista da escritora nigeriana-americana Nnedi Okorafor, ganhador dos prêmios World Fantasy e Otherwise.
É possivelmente o primeiro romance publicado no Brasil sob a classificação de afrofuturista. Antes, até haviam os livros de Samuel R. Delany publicados nos anos 1960 e 1970, mas que não eram classificados assim então, bem como os contos de Octavia Buttler publicados na versão brasileira do periódico literário Isaac Asimov Magazine, na década de 1990. 
O cenário é o de uma sociedade medieval em guerra genocida. As pessoas usam tecnologias no dia a dia, como computadores e tablets, além de aparelhos que retiram água da atmosfera, visto que o planeta é dominado por um extenso deserto, resultado de um cataclismo ambiental cujos motivos foram há muito esquecidos. 
A história narra a vida trágica de uma jovem feiticeira mestiça nascida de um estupro e que, por isso, é vítima de preconceito em uma sociedade machista que vive sob o estigma de uma antiga maldição. Ela busca vingança do homem que estuprou sua mãe, ele também um feiticeiro poderoso, líder da nação inimiga. 
A característica mais evidente do livro é o foco no protagonismo negro, nem sempre tão evidente em outros autores ditos afrofuturistas. O texto é perturbador e impactante, com fortes contornos feministas, e o desfecho ambíguo exige a participação do leitor. Muitas coisas não são explicadas claramente, o que pode incomodar os leitores mais cartesianos. Decerto que concorrem ali muitos aspectos da cultura africana que podem escapar ao leitor que não compartilha deles. Os brasileiros até temos alguma vantagem nisso devido a nossa colonização africana mas, ainda assim, talvez não seja o bastante. A mim, confesso que escaparam muitas coisas. Mas talvez tais mistérios sejam porque Quem teme a morte é apenas o primeiro de uma série de romances, que conta ainda com The book of Phoenix (2015), She who knows (2024), One way witch (2025) e The daughter who remains (a ser publicado em 2026). 
Além dos prêmios a Quem teme a morte, Okorafor também ganhou os prêmios Hugo e Nebula por Binti (2016), e mais um Hugo e o Locus por Akata (2018), ambos traduzidos no Brasil pela editora Record.
Quem teme a morte é uma boa história e, de modo geral, lembra outro romance afrofuturista recente, Lua de sangue, de N. K. Jemisin (Morro Branco, 2022), por conta do extenso uso de magia e também do cenário desértico.
Quem teme a morte pode ser lido gratuitamente na biblioteca pública digital BibliOn.
— Cesar Silva

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Os Soldados do Bode Preto

 



Os Soldados do Bode Preto (Soldiers of the Black Got), Marian O´Hearn. Tradução: Gustavo Terranova Aversa. Capa: Natália Mieo Okamoto Aversa. 193 páginas. São Paulo: Andarilho, 2024. Lançamento original de 1940.

 

Esta novela marca a estreia de mais uma autora obscura no Brasil, a norte-americana Marian O´Hearn – do qual não se sabe nem quando nasceu e morreu! –, e demarca uma das principais características da série dos simpáticos livrinhos de FC&F da editora Andarilho. A publicação de autores estrangeiros em domínio público, mas como se fossem novos em folha, já que ninguém havia falado deles antes.

E neste caso em particular, a escolha foi das mais felizes, pois Os Soldados do Bode Preto é uma vibrante e movimentada história sobre bruxaria, e que tem um fundo de verdade, já que a trama se passa em Salem. Esta cidade ficou marcada de forma sombria na história dos Estados Unidos como local de uma das maiores caças a bruxas. Nos anos de 1692 e 1693 cerca de 30 mulheres foram acusadas e destas, 19 foram enforcadas. Praticamente todas com acusações falsas, morreram de forma inocente.

Na história de O´Hearn estes mesmos acontecimentos estão a vigorar, com execuções frequentes, só que não enforcadas, mas queimadas – prática ocorrida principalmente na Europa da mesma época. A ação é centrada em Hester Gurney, uma anciã que manipula ervas e vive isolada numa cabana em meio a uma floresta nos arrabaldes de Salem. Ela consagra sua sabedoria a Zabulon, uma das entidades do próprio Diabo. Sim, ela é uma bruxa, pratica os feitiços, mas as queimadas são as mulheres que nada sabem sobre tais poderes. Mas por quê?

Muito sagaz e inspirada, Hester utiliza seus conhecimentos ocultos para manipular os poderosos e, com isso, sobreviver em meio a um ambiente tão intolerante e perigoso. Pois os líderes da cidade a procuram. Para curar um ente querido desenganado pela medicina autorizada, ou em busca de poder e prosperidade. Comparecem em reuniões secretas de sabá em sua cabana, saindo de lá marcados com a marca do bode preto. Sim, eles se tornam os tais soldados do título, num pacto de proteção mútua entre eles e a bruxa.

Mas quando ela descobre os motivos verdadeiros da campanha de perseguição e execução de jovens mulheres, ela passa a tirar ainda mais vantagem da situação. Isso porque os graúdos de Salem matam as ´bruxas´ para se apropriar de forma indevida de seus pertences, rendas e propriedades. Pois segundo a lei, os despojos deveriam ser revertidos para a Prefeitura. Assim, as execuções ser tornam um negócio lucrativo, num sórdido esquema que, ainda por cima, mantém toda a comunidade numa situação de permanente tensão e desconfiança.

Em tese, qualquer comportamento considerado diferente pode ser passível de punição, pois fica evidente como a intolerância religiosa conduz ao fanatismo, perseguição e violência, principalmente às mulheres, já submetidas a uma condição subalterna no contexto de uma sociedade machista.

O mais interessante nesta história é que esses temas são expostos por meio das ações dos personagens, com uma prosa dinâmica e diálogos ágeis e inteligentes. A ênfase está na escalada dos acontecimentos e a reflexão crítica fica implícita, não se tornando pesada demais.

Na verdade, tive simpatia por Hester, a única bruxa verdadeira, que se reconhece como tal, mas que, na realidade, não faz mal a ninguém. Pelo contrário, usa seus poderes telúricos para proteger a si e às perseguidas, além de ter o dom da cura, principalmente com crianças, o que, mesmo que a contragosto, a torna uma figura valiosa para os sórdidos hipócritas que governam a cidade.




Os Soldados do Bode Preto foi capa da edição de janeiro de 1940 da prestigiada revista pulp Unknown – a que pagava melhor na época –, editada pelo influente John W. Campbell, Jr, e em 2016 recebeu uma pré-indicação para o Retro-Hugo de 1940, vencido por “If This Goes On...”, de Robert A. Heinlein.

Isso atesta a qualidade de Marian O´Hearn, o que é até estranho, já que é uma autora pouco conhecida até nos Estados Unidos. De fato, se duvida até de sua existência, pois os pesquisadores Eric Leif Davin em Partners in Wonder: Women in the Birth of Science Fiction, 1926-1965 (2006) e Victoria Lamont em Westerns: A Women´s History (2016), afirmam que ela é um pseudônimo de Anita Allen, uma contemporânea sua na mesma Unknown, mas do qual se sabe menos ainda numa rápida pesquisa no Google. Por outro lado, Delia O´Hara, sobrinha de O´Hearn afirma em seu blogue que sua tia existiu. Segundo ela, O´Hearn teria nascido no estado de Massachussets, atuado como jornalista esportiva (como Judy O´Hearn) e publicado romances de western e crime. Na FC&F, além da história aqui resenhada, publicou também na Unknown, a novela The Spark of Alla, serializada nas edições de agosto a outubro de 1940. Campbell, conhecido como muito exigente, gostou tanto destas histórias que comprou seu único romance, “No Soul, No Death”, mas não chegou a publicar.

Por todas essas informações se percebe que quase tanto quanto a história, é muito interessante saber quem foi o autor dela, já que são figuras praticamente desconhecidas. Assim, daria um sabor ainda maior às edições desta preciosa coleção – que infelizmente foi descontinuada em outubro de 2025 – se os textos de introdução tivessem sido mais caprichados com relação ao autor da obra.

Mas independente disso, Os Soldados do Bode Preto é uma ótima aventura no subgênero bruxaria do horror, com alguns momentos com imagens fantásticas de feitiçaria, através da carismática Hester Gurney, além de denunciar de forma contundente a hipocrisia, o falso moralismo, a desonestidade e os males causados pelo preconceito e o fanatismo religioso. E que, de forma surpreendente, ecoa nos dias de hoje, marcado pelo recrudescimento do autoritarismo e da intolerância religiosa.

Marcello Simão Branco