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terça-feira, 18 de março de 2025

Carta de Sailor Moon a Batman

Prezado Senhor Batman:

Venho por meio desta responder ao seu amável convite para que nós, Sailors, ingressemos na Liga da Justiça.

É um convite honroso e agradeço de coração, falando também em nome de minhas companheiras.

Entretanto, lamento mas devo declinar deste convite, por amável que seja. Todas nós decidimos de comum acordo, na reunião que fizemos: Marte, Júpiter, Vênus, Mercúrio e eu própria.

É que, Batman, existe entre nós e vocês uma grande diferença de métodos e até de conceitos. Para começar, vocês são a Liga da Justiça, ou seja, defendem a Justiça, o que é muito bonito e salutar. No entanto falta um elemento importante: o Amor.

Porque nós, as Sailors, proclamamos que lutamos pelo Amor e pela Justiça, assim mesmo, colocando o Amor na frente. Vocês nem mencionam o Amor, que dirá colocá-lo em primeiro lugar. E afinal, pode a verdadeira Justiça ser feita sem o Amor?

Sim, Batman. Veja bem, existe um curioso raciocínio que assim diz: de tanto combater monstros você acaba virando um monstro.

Não estou afirmando que vocês são monstros mas talvez estejam a meio caminho disso.

A reputação que vocês têm é dúbia, e muitas imagens os mostram com esgares raivosos, punhos fechados, membros retesados, como se vocês só vivessem para lutar. Quanto ao amor, é virtude que vocês sequer mencionam, que dirá colocar como lema.

Vocês vivem num mundo tenebroso, cinzento. Nós temos do mundo, da vida, uma visão mais alegre, de cor azul 💙, amarela, cor-de-rosa, sabemos sorrir com efusão. Sabemos nos divertir e nos ocupar com os pequenos problemas das pessoas, e até dos animais.

Não acreditamos em resolver tudo na força bruta.

Afinal, Deus nos deu um mundo e um universo tão belos. Lutamos não só pelo amor ❤️, mas com amor e creia, nunca duvidamos ser este o caminho certo.

Antes de combater o mal, proteger o bem. Proteger os bons e se possível, purificar os maus.

Por isso peço que entenda, Senhor Batman, não duvidamos das suas boas intenções, mas estaríamos desvirtuando os nossos ideais se nos unissemos a vocês. Somos por demais diferentes. E creia, aqui no Japão somos amadas pelo que somos.

Com nosso afetuoso abraço

 

Sailor Moon

Em nome da equipe Sailor

 

Tóquio 🗼, 14 de março de 2025.

 

P.S.

Em tempo, eu não sei escrever tão bem (rs). A nossa intelectual, a Mercúrio, deu uma força para a carta sair bem escrita. Ela sempre é muito legal.


Nota: Sailor Moon, criada por Naoko Takeushi (Japão) em 1991. Batman criado por Bob Kane (EUA) em 1939.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Prêmio Odisseia 2024

Criado em 2019, o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica homenageia os favoritos de um júri composto por escritores convidados, dentre uma relação de obras publicadas no ano anterior especificamente inscritas para o certame. 
A edição 2024 anunciou seus vencedores durante a décima edição do congresso Odisseia de Literatura Fantástica, que aconteceu nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro, no Espaço Força e Luz, em Porto Alegre. 
Os jurados do Prêmio em 2024 foram Guilherme Smee, Nathália Xavier Thomaz, Simone Saueressig, Camila B. Kaihatsu, Cesar Silva, Lucas Viapiana, Enéias Tavares, Roberto de Sousa Causo, Carolina Mancini, Adrianna Alberti e Duda Falcão.
Os vencedores são: 
Projeto gráfico: A noite do cordeiro, Daniel Gruber, O Grifo.
Quadrinho fantástico: As confissões da Bahia em quadrinhos; Alexey Dodsworth e Cristina Lasaitis, dos autores.
Narrativa longa juvenil: Anomalia, vol. 1, Marcelo Cassaro e Marlon Teske, Jambô.
Narrativa curta horror: Corpo de barro, João Mendes, Escambau.
Narrativa curta fantasia: A Feira do Troca-Troca onde um filhote de onça vale um rádio de pilha, Auryo Jotha, Motim.
Narrativa curta  ficção científica: Esperando o dono, André Cáceres, Caos & Letras. 
Narrativa longa  horror: Os que sobem à noite, Thunder Dellú, Avec.
Narrativa longa  fantasia:  Jornadas extraordinárias a vidas distantes, Camila Fernandes e David Hoffmann, Sisko .
Narrativa longa ficção científica: Um milhão de mim, Cirilo S. Lemos, Draco.
Artigo fantástico: "O estranhamento na ficção do antropoceno", George Amaral, Teorias e reflexões sobre o Estranhamento na Ficção, Bandeirola.
Conto inédito: "Poeira oceânica", Patrícia H. Aafantis.
Todos os contos participantes desta última categoria podem ser lidos no segundo número da Revista Odisseia de Literatura Fantástica, publicação exclusiva que foi distribuída aos presentes durante o evento.
A lista completa dos indicados pode ser lida aqui. Parabéns aos vencedores!

terça-feira, 23 de julho de 2024

Os poucos & amaldiçoados: Os corvos de Mana'Olana; Felipe Cagno & Fabiano Neves

Os poucos & amaldiçoados: Os corvos de Mana'Olana; Felipe Cagno & Fabiano Neves; minissérie em 6 edições, 204 páginas. Timberwolf, 2020.

Desde que o mercado brasileiro de quadrinhos entrou em colapso, com a quebra de distribuidoras, bancas e livrarias, não restou aos artistas nenhum outro caminho que não o da produção independente através de financiamento direto, também chamado de crowdfunding, modalidade de comercialização antecipada que se assemelha a prosaica "vaquinha" entre amigos. Várias plataformas na internet oferecem o serviço, sendo a mais popular o Cartarse, que promove campanhas para todo tipo de proposta, desde livros e quadrinhos, até jogos, brinquedos e projetos sociais. Qualquer pessoa pode propor um projeto e também apoiar os projetos ofertados. E isso parece que tem dado muito certo para os artistas, pois há ótimos trabalhos sendo publicados assim, como nunca antes se viu. Infelizmente, as tiragens são bastante limitadas, pois são voltadas apenas para atender ao conjunto específico de apoiadores que o projeto conquistou na campanha. O material não entra em circulação, portanto, e sai das mãos dos autores diretamente para seus leitores. Uma vez esgotada a tiragem, é preciso propor uma nova ação de financiamento para reimprimir o material. 
Este é o caso de Os poucos & amaldiçoados: Os corvos de Mana'Olana, série de ficção científica criada pelo roteirista Felipe Cagno e o ilustrador Fabiano Neves, ambos profissonais experientes. Cagno é cineasta, formado pela FAAP, agraciado em 2015 com o Prêmio Angelo Agostini, da AQC-SP. Neves atua desde 2000 como ilustrador nos quadrinhos estrangeiros, tendo trabalhado com personagens como Red Sonja, Xena Princess Warrior, Marvel Zoombies e outros. A eles se uniram vários outos artistas, principalmente coloristas e letristas, para viabilizar o projeto proposto em seis episódios financiados individulamente entre 2019 e 2020, com cerca de mil apoiadores por edição e metas superadas em até quinhentos por cento.
A história é um faroeste futurista, que recebe influências evidentes de Apenas um peregrino, de Garth Ennis e Carlos Ezquerra, publicado no Brasil no início do século pela Devir Livraria, e também da série de romances A Torre Negra, de Stephen King – especialmente o volume Os lobos de Calla –, bem como a sua adaptação em quadrinhos publicada no Brasil pela Panini. Mas com uma importante diferença: o protagonista de Os corvos de Mana'Olana é uma mulher. Trata-se de uma pistoleira sem nome, chamada por todos de "Ruiva" devido a cor dos cabelos. Ela caça monstros num futuro em que os oceanos da Terra desapareceram e abundam feras sobrenaturais que ameaçam os poucos sobreviventes que herdaram o interminável  deserto em que o planeta se tornou. Dentre outras abominações, a Ruiva está a caça de uns corvos gigantes que sequestram crianças, e ela vai encontrá-los em Mana'Olana – região que antes era conhecida como o Havaí –, não sem ter que superar muitos contratempos no caminho, entre os quais se inclui alguma traição. 
Curiosamente, o futuro de Os poucos & amaldiçoados é em tudo similar a estética do velho oeste americano, com pistoleiros cavalgando pelos desertos em busca de riqueza e aventura, passando por vilarejos de mineiros e colonos mexicanos com seus saloons e prostíbulos, ruas de terra e nenhuma lei, mas com navios abandonados aqui e ali. Até as armas que a Ruiva usa são Colts Paterson. Explica-se: o momento em que o mundo "foi adiante", como diria Stephen King, foi no século XIX. Mas, de qualquer forma, uma história de ficção científica pós-apocaliptica que ainda tem demônios e assombrações, a última coisa que se pode exigir é verossimilhança. Isso fica a cargo da capacidade do autor em construir um ambiente que sustente a suspensão de incredulidade do leitor, no que ele consegue ser razoavelmente bem sucedido. 
Cada um dos cinco primeiros episódios tem trinta e duas páginas, e o último tem quarenta e quatro. Além da história em si, cada edição traz diversas pinups da Ruiva realizadas por artistas variados. As revistas têm ilustrações em cores impressas em papel cuchê e capas cartonadas com laminação brilhante. Quando foi lançada a sexta edição, o projeto ofereceu a opção de adquirir todos os seis volumes juntos em uma caixa especial. Mais tarde, o trabalho também foi ofertado em um único volume encadernado reunindo todas as edições. 
Os corvos de Mana'Olana foi apenas o primeiro arco de histórias do universo de Os poucos & amaldiçoados. Os autores promoveram campanhas para outras história no mesmo universo, como as edições encadernadas Nação sombria (2020) e Ambição sem volta (2021), e Dilúvio, segunda minissérie com a Ruiva, ainda em publicação.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Prêmio Le Blanc 2023

No dia 14 de julho, em evento presencial no Sesc São João de Meriti, no Rio de Janeiro, foram anunciados os vencedores da edição de 2023 do Prêmio Le Blanc, voltado a apontar os melhores do ano anterior em animação, jogos, histórias em quadrinhos e literatura fantástica. 
A apuração foi realizada em duas etapas: uma consulta popular pela internet indicou três finalistas em cada categoria, dentre os quais o ganhador foi definido por um juri de especialistas. 
Os vencedores de 2023 são:
Romance: A roda de Deus, Leonel Caldela, Jambô.
Coletânea: Assombros, Zé Wellington, Draco.
História em quadrinhos independente: Ovelha negra, Carlos Felipe Figueiras & B. Horn, Tapas.
História em quadrinhos: Sussurros do caos rastejante, Fábio Yabu & Fred Rubim, Jambô.
Série de tiras: Edifício Celeste, Thiago Krening.
Série de animação: Turma da Mônica, Cartoon Network, Mauricio de Sousa Produções & Split Studio.
Curta animado: Coelhitos e gambazitas, Thomas Larson.
Curta animado independente: Eu nunca contei a ninguém, Douglas Duan.
Longa animado: A lasanha assassina, Ale McHaddo.
Animação publicitária: Abertura de novela Cara e Coragem, Leonardo Fleury & Luciana Jordão.
Game eletrônico: Fobia – St. Dinfna hotel, Pulsatrix Studios.
RPG: O cordel do reino do sol encantado, Pedro Borges, New Order.
Criado em 2018, o Prêmio Le Blanc é organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Mídias Criativas (PPGMC) da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e pela Universidade Federal Fluminense (UFF). 
O nome é uma homenagem à André LeBlanc (1921-1998), haitiano radicado no Brasil com uma extensa e importante obra no campo da ilustração editorial.
A relação com todos os finalistas de cada categoria pode ser conferida aqui.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Prêmio Le Blanc 2022

Criado em 2018, o Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica é promovido pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-ECO/UFRJ e pela Universidade Veiga de Almeida-UVA, apurado em consulta popular pela internet. Seu diferencial é o alcance multimidiático, atingindo inclusive trabalhos em animação e em jogos eletrônicos. 
Os vencedores de 2022 são:
Romance: A nova América, Pedro Sasse, Parágrafo
Antologia/Coletânea: Farras fantásticas, Ian Fraser, Ricardo Santos e João Mendes, orgs., Corvus
História em quadrinhos independente: Aymará, Rita Foelker e Laudo Ferreira. Menção honrosa: Antologia Opera Sopa, Diogo Pavan.
História em quadrinhos: Crisálida, Vinícius Velo, Guará.
Série de tiras: Linha do trem, Raphael Salimena.
Série de animação: Mônica Toy, Maurício de Sousa Produções.
Curta animado: Aurora, a rua que queria ser um rio, Radhi Meron.
Curta animado independente: O papagaio e a pipa, Tiago Mal Portos. Menção honrosa: Missão Berço Esplêndido, Joel Caetano.
Longa animado: Bob Cuspe: Nós não gostamos de gente, César Cabral.
Animação publicitária: Tóquio 2020, Rede Globo.
Game para mobile: Hero among us, Fire Horse Studio.
Game para PC ou console: Unsighted, Studio Pixel Punk.

Prêmio Le Blanc 2021

Criado em 2018, o Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica é promovido pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-ECO/UFRJ e pela Universidade Veiga de Almeida-UVA, apurado em consulta popular pela internet. Seu diferencial é o alcance multimidiático, atingindo inclusive trabalhos em animação e em jogos eletrônicos. 
Os vencedores de 2021 são:
Romance: Não esqueça, Carol Façanha, Caligari.
Antologia: Terror na Amazônia, Girotto Brito, org.
História em quadrinhos: Anel Cardinale: As aventuras de Fabrício Bomtempo, Christian David & Ernani Cousandier, Libretos.
História em quadrinhos independente: Orixás: Os nove Eguns, Alex Mir.
Série de tiras: Hotel Maravilha, Douglas Mct.
Série de animação: Qualquer filme pra mim tá ótimo, Beto Gomez e Rafa Rosa.
Curta animado: De onde vêm os dragões, Grace Luzzi, Zumbi Filmes
Curta animado independente: TOM, Felippe Steffens.
Animação publicitária: He won’t hold you, Jacob, Daniel Bruson.
Longa animado: Miúda e o guardachuva, Amadeu Alban.
Game: Adore, Cadabra Games.

Prêmio Le Blanc 2020

Criado em 2018, o Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica é promovido pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-ECO/UFRJ e pela Universidade Veiga de Almeida-UVA, apurado em consulta popular pela internet. Seu diferencial é o alcance multimidiático, atingindo inclusive trabalhos em animação e em jogos eletrônicos. 
Os vencedores de 2020 são:
Romance: Snowglobe, Fábio M. Barreto (SOS Hollywood).
Antologia: Duendes: Contos sombrios de reinos invisíveis, Ana Lúcia Merege, org. (Draco).
História em quadrinhos: Elísio: Uma jornada ao inferno, Renato Dalmaso (Avec).
História em quadrinhos independente: Found footage, Marvin Rodriguez (Behemoth).
Série de tiras: Corenstein, vol 2: Como faz para parar?, Cora Ottoni (independente).
Série de animação: Irmão do Jorel (Copa).
Animação longa metragem: Cidade dos piratas, Otto Guerra.
Animação curta metragem: El churro (Estúdio Escola de Animação).
Animação curta metragem independente: Carne, Camila Kater.
Animação publicitária: Mulheres fantásticas (Campo 4).
Jogo mobile: Hoppia tale (LudicSide).
Jogo PC/console: Sky racket (Double Dash).

Prêmio Machado Darkside 2020

A editora Darkside Books, especializada em livros de horror, crime e dark fantasy, promoveu em 2020 o I Prêmio Machado Darkside de Literatura, Quadrinhos e Outras Narrativas que seleciona, para eventual publicação, trabalhos inéditos inscritos exclusivamente para o certame, com distribuição de troféus e prêmios em dinheiro. Os vencedores são:
Romance: Porco de raça, Bruno Ribeiro (publicado em 2021).
Quadrinhos: "Aurora", Rafael Calça e Diox.
Outras narrativas: "Dores do parto", Jessica Gonzatto (roteiro curta metragem).
Desenvolvimento de projetos: "Imaginários pluriversais: Narrativas representativas na ficção", Isa e Pétala Souza.
Não ficção: "O monstro no cinema", Alex Barbosa.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Prêmio Odisseia 2022

O Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica surgiu em 2019, como extensão do congresso de ficção fantástica Odisseia, criado em 2011 pelos escritores Duda Falcão, Cesar Alcázar e Christopher Kastensmidt. O prêmio distribui troféus aos favoritos de um júri composto por escritores convidados, selecionados em uma relação de obras publicadas no ano anterior especificamente inscritas para o certame. 
Estes foram os vencedores de 2022:
Projeto Gráfico: O novo horror, O Grifo.
Quadrinhos Fantásticos: Saros 136, Alexey Dodsworth e Ioannis Fiore, Draco.
Narrativa Longa Juvenil: O serviço de entregas monstruosas, Jim Anotsu, Intrinseca.
Narrativa Curta Horror: "A parte de dentro", Irka Barrios, O novo horror, O Grifo.
Narrativa Curta Fantasia: "Miolo de boi", Auryo Jotha, Farras fantásticas, Corvus.
Narrativa Curta  Ficção Científica: Você unlimited, Sabine Mendes Moura, Lendari.
Narrativa Longa  Horror: Claro escuro, Oscar Netarez; Draco, selo Dragão Negro.
Narrativa Longa  Fantasia: A única certeza é a morte, Marina Denser Mainardi, Editora Metamorfose.
Narrativa Longa Ficção Científica: O céu entre mundos, Sandra Menezes, Editora Malê.
Artigo Fantástico: "A literatura de FC&F brasileira na segunda década do século XXI", Marcello Simão Branco e Cesar Silva, Almanaque da Arte Fantástica Brasileira, Avec.

Prêmio Odisseia 2021

O Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica surgiu em 2019, como extensão do congresso de ficção fantástica Odisseia, criado em 2011 pelos escritores Duda Falcão, Cesar Alcázar e Christopher Kastensmidt. O prêmio distribui troféus aos favoritos de um júri composto por escritores convidados, selecionados em uma relação de obras publicadas no ano anterior especificamente inscritas para o certame. 
Estes foram os vencedores de 2021:
Narrativa Longa Literatura Juvenil: Ubuntu 2048, Raphael Silva; Kitembo.
Narrativa Longa Horror: A outra casa, Clecius Alexandre Duran, edição de autor.
Narrativa Curta Horror: "O alinhamento das estrelas", Juliane Vicente, Lovecraft re-imaginado, Diário Macabro.
Narrativa Longa Ficção Científica: Parthenon místico; Enéias Tavares; Darkside.
Narrativa Curta Ficção Científica: Não podemos esperar, Israel Neto, Nua.
Narrativa Longa Fantasia: Guirlanda rubra, Erick Santos Cardoso, Draco.
Narrativa Curta Fantasia: Lágrimas de carne, Fernanda Castro, Damme Blanche.
Capa e Projeto Gráfico: Parthenon místico; Darkside.
Quadrinhos: A cor que caiu do espaço; Romeu Martins, Val Oliveira & Sandro Zambi, Script.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Cowboy Bebop, um seriado diferente

Anuncia-se para 2021 uma versão cinematográfica em imagem real para Cowboy Bebop. Em princípio é uma boa notícia, considerando que a série original é extraordinária e deixou muitas pontas soltas, com um final até certo ponto decepcionante.
O seriado, dirigido por Shinishiro Watanabe (Estúdio Sunrise), consta de 26 episódios produzidos entre 1998 e 1999. Seguiu-se o mangá, desenhado por Hajime Yatate e que totalizou três volumes – saiu de 1999 a 2000. Finalmente, em 2001, Watanabe dirigiu um OVA de longa-metragem, Cowboy Bebop: Tengoku no tobira.
Infelizmente, o mangá e o filme longo apenas contam novos episódios avulsos, que nada acrescentam ao capítulo 26 do seriado, ou seja, não avançam com a saga ali bruscamente interrompida.
Os personagens são poucos e o argumento muito interessante. É como se fosse um faroeste cósmico: os “cowboys” são caçadores de recompensas, que procuram criminosos com a cabeça a prêmio. A Bebop é uma nave onde viajam três deles: Spike Spiegel (ex-gangster da máfia chinesa “Dragão Vermelho”), Jet Black (ex-policial, com um braço mecânico) e Faye Valentine (cujo passado é misterioso). Ainda aparecem na Bebop o cachorro Ein, que é muito inteligente, e a excêntrica “haker” Ed, de treze anos.
O nome “Ein”, por sinal, é uma abreviação de Einstein — para dar uma ideia da inteligência do cachorro. Quanto a Ed., a seu modo também é inteligentíssima, inigualável num computador, apesar de sua aparência desmazelada de “hyppie” e só andar descalça.
Sem embargo da comicidade de diversos episódios, a história tem uma raiz altamente dramática e um desfecho trágico. É uma história de crime, paixão e vingança, envolvendo um amor frustrado e um caso mal resolvido. Cínico, cético, Spike Spiegel já se considera morto e, por isso, liga pouco para a vida. Jet Black também tem um passado doloroso como policial, algo que lhe valeu a perda do braço. Quanto a Faye, que veio depois, é um caso curioso: atingida pelos cataclismos que vitimaram a Terra, planeta agora praticamente abandonado, foi levada em coma a Marte e permaneceu congelada por 54 anos, sendo resgatada sem ter envelhecido além dos 23 anos que tinha. Mas já foi acordada com o hospital cobrando os 54 anos de internação sem que ela pudesse pagar, tornando-se assim a pessoa mais endividada do Sistema Solar.
É uma série que vale a pena assistir por seu dinamismo e criatividade.

— Miguel Carqueija
Resenha iniciada em 7 de novembro de 2010 e somente completada em 12 de abril de 2021.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Animal'z, Enki Bilal

Animal'z, Enki Bilal. Tradução de Fernando Scheibe. São Paulo: Nemo, 2012.

A ideia do fim do mundo exerce um fascínio irresistível em todos nós. Muito já foi escrito sobre isso, mas o assunto não se esgota: o tema transformou-se num dos mais rentáveis filões da ficção científica, mas a linha que separa a especulação válida da completa tolice é determinada pela preocupação do texto em antecipar as consequências das atitudes que estão sendo tomadas hoje. Nesse aspecto, Animal'z está entre as melhores peças do gênero.
Trata-se de uma sofisticada novela gráfica do quadrinhista sérvio Enki Bilal, publicada originalmente em 2009 pela editora belga Casterman e lançada em 2012 no Brasil pela Nemo, um selo da Editora Autêntica.
A leviana interferência humana sobre a natureza causou um severo desequilíbrio ambiental que ficou conhecido como Golpe de Sangue, e lançou o planeta numa nova era glacial, aniquilando a civilização. Os poucos sobreviventes tentam atingir os Eldorados, regiões quase míticas nas quais se acredita ainda ser possível a vida, mas o caminho para lá é difícil e perigoso. A água potável é rara, os meios de comunicação caíram e não há transporte aéreo e terrestre; as únicas formas de viajar são a pé, no lombo de um animal ou, para os mais afortunados, nos barcos.
Campos minados e radioatividade são perigos remanescentes dos tempos antigos, e as ruínas das cidades escondem canibais famintos a caça de carne fresca. Apesar das duras provas que a natureza impõe aos peregrinos, o verdadeiro perigo para o homem é mesmo o outro: encontros entre sobreviventes invariavelmente resultam em alguma morte, seja por acidente, por intolerância, ou mesmo por instinto de autopreservação.
A história começa a bordo de um luxuoso iate que navega em direção ao Estreito 17, um dos poucos acessos seguros a uma rota que se acredita levar até um dos Eldorados. A bordo, uma jovem sem muita perspectiva de chegar a qualquer lugar que seja: seu marido morreu num acidente improvável, empalado por um filhote de marlim arremessado por uma tempestade, e a moça agora viaja sob os cuidados de um servo eletrônico, um tipo de lagosta robótica, mistura de capitão e mordomo.
Quando um golfinho sobe a bordo e de suas entranhas emerge um homem desconhecido, é que realmente começa o pesadelo. Vamos descobrir que o Golpe de Sangue vai muito além de uma "simples" era do gelo. Os homens desse tempo não são mais como nós. Através de um milagre da tecnologia, eles podem alternar suas forma e natureza entre humano e animal.
Em outro ponto do oceano, um segundo iate também segue em direção ao Estreito 17, levando a bordo ninguém menos que o próprio inventor da tecnologia de hibridização, ele mesmo um híbrido que, assim como o inescrupuloso Doutor Morreau de H. G. Wells, ousou invadir o terreno do sagrado e, com isso, só colaborou para que as coisas ficassem ainda piores.
E, numa terceira linha narrativa, dois cavaleiros quase idênticos, separados entre si por exatos três quilômetros, caminham pela vastidão gelada em busca do local místico em que realizarão seu quarto e talvez definitivo duelo de morte. As narrativas vão se cruzar e determinar o futuro de cada um destes infelizes desesperados do fim do mundo.
A história tem o estilo descosturado que caracteriza as obras de Bilal, com personagens enigmáticos e atormentados que se debatem por algo que sequer sabem ser real. Isso, somado a ausência de uma contextualização sólida, dá a história tons claustrofóbicos estranhamente reforçados pela vastidão gelada do cenário, num diálogo muito próximo ao longa-metragem Quinteto (Quintet), ficção científica dirigida por Robert Altman em 1979.
Os desenhos são um espetáculo à parte, executados com habilidade de um mestre da anatomia, usando apenas lápis pastel sobre papel tonalizado, em cores frias que não variam muito além do cinza azulado, o preto e o branco. A arte é valorizada pelo acabamento gráfico da edição brasileira, que tem 104 páginas em papel cuchê fosco de boa gramatura e encadernação costurada em capa dura.
A Nemo investiu na publicação da obra de Bilal, um dos mais importantes ilustradores surgidos nos anos 1970 nas páginas da revista Metal Hurlant. Em 2012, a editora também trouxe aos leitores brasileiros a festejada Trilogia Nikopol, obra-prima que já tem inclusive uma adaptação para o cinema, Immortel (ad vitam), dirigida em 2004 pelo próprio Bilal.
Apesar das qualidades inegáveis, Animal'z não é uma história em quadrinhos fácil. A narrativa barroca e incômoda, ideias em estado bruto, texto fragmentado e a violência fria, quase gratuita, pode chocar os leitores que não estão acostumados ao estilo do autor, às especulações da ficção científica moderna ou aos modelos pós-modernos da narrativa literária. Ainda assim, é uma experiência muito recomendável.
Cesar Silva

domingo, 15 de setembro de 2019

Prêmio Le Blanc 2019

No dia 9 de maio de 2019, aconteceu a entrega da segunda edição do Prêmio Le Blanc para os melhores trabalhos de 2018 nas categorias literatura fantástica, quadrinhos, animação e jogos. A entrega aconteceu durante a Semana Internacional de Quadrinhos (SIQ) na Escola de Comunicação da UFRJ.
O Prêmio Le Blanc é uma promoção da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) e da Universidade Veiga de Almeida (UVA).
Eis os vencedores:
Romance nacional: Auto da maga Josefa, Paola Lima Siviero, Editora Dame Blanche.
Antologia nacional: Fractais tropicais, Nelson de Oliveira, org., Sesi-SP Editora.
Romance traduzido: Despertar, Octavia Butler, Editora Morro Branco.
Antologia traduzida: Crônicas de espada e feitiçaria, Gardner Dozois, Editora LeYa Brasil.
Quadrinho independente nacional: The guardian: Em busca da luz, Gustavo Piacentin. 
Quadrinho nacional: Bartolomeu, Victor Moura, Editora Caligari.
Quadrinho traduzido: Mort Cinder, Alberto Breccia, Editora Figura.
Série de tiras nacional: Mar menino, Paulo Moreira.
Animação nacional: Superdrags, Combo Estúdio.
Animação longa: Tito e os pássaros, Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar & Andre Catoto Dias. 
Animação nacional curta: Gravidade, Amir Admoni.
Animação publicitária: "A queda", Zombie Studio/Hospital do Amor.
Jogo nacional mobile: Dandara, Raw Fury.
Jogo nacional console: Sword Legacy: Omen, Firecast Studio; Fableware: Narrative Design.
Cesar Silva

Prêmio Le Blanc 2018

A Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-ECO/UFRJ e a Universidade Veiga de Almeida-UVA anunciaram, em cerimônia oficial realizada no Rio de Janeiro no dia 11 de maio de 2018, os vencedores do I Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica para lançamentos em 2017, promoção ligada à Semana Internacional de Quadrinhos-SIQ. 
Diz o texto de divulgação: "André Le Blanc foi um artista haitiano com passagens no Brasil e nos Estados Unidos, cuja obra aqui lhe fez merecedor da Ordem do Cruzeiro do Sul. Além de ter trabalhado com concept design de animação, Le Blanc foi o responsável pelas mais icônicas ilustrações da obra infantil de Monteiro Lobato e um dos nomes mais importantes entre os ilustradores que adaptaram clássicos da literatura brasileira para quadrinhos na revista Edição Maravilhosa, da extinta editora Ebal. O prêmio Le Blanc é uma homenagem a esse grande artista, brasileiro de coração".
O prêmio foi apurado em consulta popular pela internet. São estes os vencedores:
Literatura
- Romance: Guanabara Real: Alcova da morte, Enéias Tavares, Nikelen Witter,‎ Andre Zanki Cordenonsi, Avec;
- AntologiaMitografias, Vol. I: Mitos modernos, Leonardo Henrique Tremeschin, Andriolli Costa e Lucas Rafael Ferraz, orgs., independente;
- Romance estrangeiro: Jardins da Lua, Steven Erikson, Arqueiro;
- Antologia estrangeira: Mulheres perigosas, George R. R. Martin, org., LeYa/Omelete
Animação
- Série: Irmão do Jorel, Juliano Enrico, Copa Studio;
- Longa: Historietas assombradas (para crianças malcriadas), Victor Hugo Borges, dir., Copa Studio;
- Curta: Trevas à parte, Maurício Maia, dir., Estúdio Escola de Animação;
- Animação publicitária: Abertura Novo mundo; Luciana Jordão/Leonardo Fleuri, dir., Koi Factory.
Histórias em Quadrinhos
- Comercial: A infância do Brasil, José Aguiar, Avec;
- Independente: Necromorfus, Gabriel Arrais e Rafael Vasconcellos Leite;
- Série: Linha do trem, Raphael Salimena;
- Estrangeira: Alena; Kim W. Andersson, Avec.
Cesar Silva

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Pau e pedra, Peter Kuper

Pau e pedra (Sticks and stones), Peter Kuper. 132 páginas. Quadrinhos na Cia, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Quadrinho é literatura? Eis a questão. Muita gente concorda que as histórias em quadrinhos são literatura tão sofisticada quanto os livros exclusivamente em texto. Outros defendem que comparar os quadrinhos à literatura é um reducionismo, que tira dos quadrinhos seu próprio espaço na medida em que o constrange frente a uma arte que tem muito mais tempo de desenvolvimento.
Entendo que haja aqui um problema de autoestima dos autores de quadrinhos que, no Brasil, têm muito menores oportunidades de se fazer visíveis, sem falar na luta contra o preconceito que ainda grassa no mainstream. Contudo, em outros mercados, essa síndrome de vira-latas não procede, pois autores de quadrinhos têm, muitos deles, mais visibilidade e fama que muitos escritores tradicionais.
No campo da ficção científica, esse divergência é ainda mais notável. No Brasil, onde o gênero ainda engatinha em busca de personalidade, são raros os quadrinhos que ombreiam a literatura, que, por sua vez, também não é muita. Mas no exterior, esse contorno também não procede. Obras como O eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, Akira, de Katsuhiro Otomo, e Nausicaa do Vale dos Ventos, de Hayao Miyazaki, são usualmente considerados como expoentes da literatura de ficção científica mundial. A estes certamente podemos acrescentar Pau e pedra, de Peter Kuper, uma narrativa que dá um novo conceito ao termo "romance gráfico": a história é contada exclusivamente através de desenhos, sem nenhum texto.
Esse estilo de narrativa, conhecido no Brasil como quadrinho mudo, não é novidade. Nos jornais, as tiras do Reizinho (The little king, de Otto Soglow, 1931) e Pinduca (Henry, de Carl Anderson, 1932) estão entre as mais conhecidas. Mesmo assim, a ausência do textos é um recurso razoavelmente incomum na arte. Mas o norte americano Peter Kuper tem no quadrinho mudo o seu estado natural. Antes de Pau e pedra, publicado originalmente em 2004, Kuper vem exercitado a narrativa sem palavras desde 1997, quando assumiu Spy vs. Spy, série cômica publicada periodicamente na revista Mad, criação do cartunista cubano Antonio Prohias.
Pau e pedra é uma fábula sobre poder e intolerância, contada de forma sensível, mas não menos chocante. Um bebê de pedra é cuspido da boca de um vulcão. Lentamente, enquanto cresce e amadurece, desenvolve habilidades físicas e intelectuais que permitem que ele domine uma população de pequenos seres de pedra que o ajudam a construir sua cidadela. Mas o gigante também desenvolve um caráter dominador, praticamente escravizando seus súditos, que o idolatram como a um deus. Um dia, conduzido por um de seus exploradores, o tirano de pedra descobre, numa área isolada próxima ao seu castelo, uma comunidade de seres de madeira, que vivem em idílio pastoral. O povo de pedra ataca e escraviza o povo de madeira, para levar para sua cidade aquele novo e confortável material. Com os seres de madeira, também encontram pedras preciosas, que se tornam o grande tesouro do gigante. Contudo, entre o povo de pedra, há aqueles que discordam da forma com que o gigante governa, mas isso acaba por fazer com que todos os dissidentes, de pedra e de madeira, sejam aprisionados numa cela no alto das muralhas. Mas a maldade e a ganância não podem durar para sempre.
Os desenhos de Kuper são simples e esquemáticos, com um ótimo tratamento de claro/escuro. Curioso é a interpretação que Kuper dá a narrativa quanto ao espírito da cena: no estado de paz, os desenhos ganham cores vibrantes, contrastando com o cinzento predominante no restante da história.
A edição da Quadrinhos na Cia é elegante, em papel couchê de alta gramatura, que dá ao volume uma dignidade própria dos livros. Mas o formato incomum, praticamente quadrado, destaca a edição tanto entre o padrão dos livros quanto dos álbuns de quadrinhos em geral.
Pau e pedra foi premiado com a medalha de ouro de 2004, pela Society of Illustrators.
Cesar Silva

domingo, 15 de abril de 2018

Magda, Rafa Campos Rocha

Magda, Rafa Campos Rocha. 144 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia, São Paulo, 2016.

Por muito tempo restrita ao ambiente amador, publicada em fanzines e edições de autor, a ficção científica agora ocupa espaços bem mais evidentes, em editoras de porte com boa distribuição nas livrarias. Outra prova que o gênero deixou de ser o patinho feio do mercado é a frequência com que o gênero tem sido abordado pelas histórias em quadrinhos, com produções de porte sendo oferecidas com alguma regularidade, inclusive por autores brasileiros, o que há alguns anos era impensável. Isso é decorrente do crescimento do interesse pela arte, mas também do desenvolvimento de uma consciência do gênero entre os autores da nova geração, mais acostumados à tecnologia e aos apelos da cultura pop.
É por isso que temos a chance de ter publicado Magda, de Rafa Campos Rocha, pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia, novela gráfica de ficção científica de grande impacto visual, que trafega também pelas sendas do horror splatter, que é aquele que espirra sangue e vísceras para todos os lados.
Tudo começou quando cientistas brasileiros desenterraram uma rocha, que pensavam ser um meteorito. Ao partirem a pedra, libertaram um vírus poderoso do longínquo passado do planeta que, antes que se dessem conta, escapou do complexo e contaminou a sociedade, transformando pessoas em assassinos furiosos descerebrados literalmente sedentos de sangue humano. Rio de Janeiro e São Paulo se transformam em áreas de contenção, bombardeadas continuamente para evitar que a praga se alastre.
Contudo, não foi apenas o vírus que saiu daquele ovo. Ali também hibernava uma entidade que, ao ser despertada, invadiu o corpo de uma das cientistas - Magda - e com ela estabeleceu uma relação simbiótica. Magda passou a partilhar sua consciência com a invasora, a qual chama de Máquina, que lhe deu uma séria de poderes, mas cobra um preço alto por isso: a fome por sangue e carne humanos.
A história começa num campo de sobreviventes em algum lugar no interior do país, onde a praga dos transformados ainda não se estabeleceu. Os poucos transformados que ali aparecem tornam-se alimento de Magda, que mantém sua condição mutagênica em segredo dos membros da comunidade. Porém, a ausência de incidentes com os transformados chama atenção das forças armadas, que para lá enviam uma força de ocupação que pretende investigar o fenômeno. Instigada pela Máquina, Magda retorna para o local em que as coisas começaram, e o caminho será repleto de confrontos violentos, carnificina e desmembramentos.
Há ecos aqui de várias obras do cinema e da tv, como se pode perceber. A mais evidente é o seriado The walking dead, sucesso dos quadrinhos e da tv, que conta a história de um grupo de sobreviventes depois do apocalipse zumbi, mas também é forte a influência da franquia  de videogame e cinema Resident evil, e mais particularmente do filme de cinema Species  (A experiência, 2001). Apesar disso, Magda consegue sustentar independência autoral, na medida em que se apoia em cenários e maneirismos brasileiros (como não poderia deixar de ser), no estilo despojado, quase amador, dos traços do autor - que continuamente roubam do leitor a suspensão da incredibilidade - e o também evidente diálogo com "A metamorfose", de Franz Kafka: a máquina tem a aparência de uma barata enorme que muitas vezes assume a forma física da personagem.
Por trás dessa trama por si só subversiva, acontece o drama familiar entre Magda, sua amante e uma jovem que ambas têm como filha, e a velha falácia da maldição hereditária que vai dar tom humano à essa narrativa fantástica e grotesca.
O paulistano Rafa Campos Rocha é um artista experiente, professor de História da Arte, cenógrafo e artista plástico, publicou na PiauíFolha de S. Paulo, e Vice, entre outros. Magda é seu segundo álbum pela Quadrinhos na Cia; o primeiro foi Deus essa gostosa, de 2012.

domingo, 7 de janeiro de 2018

O karma de Gaargot, Sergio Macedo

O karma de Gaargot, Sergio Macedo. 48 páginas, Editora Massao Ohno, São Paulo, 1973.

Volta e meia, o pesquisador de quadrinhos nacionais se depara com um nome surpreendente que, por razões imperdoáveis, não está na ponta da língua de todos os leitores. Às vezes é uma revista, que publicou obras de qualidade, mas teve uma distribuição limitada e poucos a conheceram; outras é uma hq, que apresentou um estilo inovador, mas, justamente por estar muito adiante de sua época, não galvanizou atenção; ou ainda um artista que, apesar de ter desenvolvido um trabalho meritório, caiu no esquecimento ao longo do tempo. Estes três aspectos podem ser observados simultaneamente em O karma de Gaargot, de autoria do mineiro Sergio Macedo, originalmente publicada em forma de seriado na revista Grilo nos anos 1970, e reunida em álbum em 1973 pelo importante editor independente Massao Ohno.
Primeiro, a revista. Massao Ohno deu à este álbum um tratamento sui-generis, com pranchas impressas em papéis diferentes e páginas de seda separando algumas delas, num acabamento luxuoso para os padrões editoriais da época. De muitas formas, o álbum remete ao igualmente transgressor e raro Saga de Xan, resenhado aqui.
Segundo, a obra em si. Trata-se de uma peça de ficção científica distópica sobre uma sociedade industrial dominada por um governo totalitário e totalmente dependente da tecnologia – que divide o mundo com seres híbridos de homens, animais e máquinas – quando surge um artefato desconhecido nos céus, chamado por eles de Aparição. Essa máquina indestrutível e inexpugnável é uma espécie de inteligência cósmica, que elege um único ser humano entre os oprimidos para ser transcendido. Enquanto esse homem passa pelas diversas etapas da evolução consciente e inconsciente, o governo tenta todas as formas de destruir a Aparição.
Trata-se, obviamente, de uma alegoria ao estado opressor em que o Brasil estava submetido a época da publicação e que duraria ainda muitos anos após sua conclusão. Mas é também um tratado filosófico sobre a relação com a natureza e o outro, sendo, dessa forma, uma das primeiras peças do quadrinho nacional a abordar a questão ambiental – ainda que de forma transversal – e a filosofar abertamente, algo que, anos depois, se tornara praticamente um gênero nos fanzines nacionais, batizado por seus praticantes como "quadrinho filosófico". Além disso, temos ali a estética extremamente autoral de Macedo como ilustrador, com desenhos que se desdobram em detalhes minuciosos e técnicas variadas, que passam pelo bico de pena, pincel e, especialmente, o pontilhismo, com resultados muito expressivos ainda que unicamente em preto em branco. Sem esquecer a linguagem repleta de licenças poéticas, como se fosse uma estado futuro do português.
E, finalmente, o autor. Sérgio Macedo é um caso singular nos quadrinhos nacionais. Sua obra tem aspectos extremamente ousados, afinada com as propostas político-sociais da época, quando a contracultura ainda estava muito fresca na mente dos artistas e do público. Reconhecemos mais os efeitos dessa escola na música, com o tropicalismo de Os Mutantes e Tom Zé, na poesia concretista de Augusto de Campos e Décio Pignatari, e no cinema de Glauber Rocha, por exemplo. Sérgio Macedo é o grande expoente desse momento cultural no quadrinho brasileiro, autor de um trabalho que, à época, só encontrava paralelo na arte de Philippe Druillet e Moebius, artistas europeus de vanguarda. Tanto é que, pouco depois de publicar este material, Macedo transferiu-se para a Europa e tornou-se colaborador contumaz na revista Metal Hurlant, fundada em 1975 por esses dois artistas ao lado do jornalista Jean-Pierre Dionnet, que viria a revolucionar a linguagem dos quadrinhos no mundo inteiro.
Macedo reside hoje no Taiti e continua a trabalhar para o mercado europeu, onde tem diversos álbuns publicados. Apesar de toda essa importância, o autor foi pouquíssimo publicado no Brasil. Além do O karma de Gaargot, Macedo teve publicado aqui apenas Xingu! (Devir, 2007), com uma história baseada nas experiências do autor que viveu algum tempo entre os índios kayapó. Na Europa, esse álbum recebeu o nome de Brazil! e faz parte de uma série de cinco títulos contando as aventuras do explorador Vic Voyage.
O karma de Gaargot é um trabalho que merece e precisa ser resgatado para as novas gerações, devido à importância histórica e estética que, a sua época, manteve o quadrinho brasileiro na ponta de lança do quadrinho mundial.
Cesar Silva

sábado, 25 de novembro de 2017

Um Editor Apaixonado

A morte inesperada de Douglas Quinta Reis deixou todos passados, surpresos, e tristes. Havia estado com ele três dias antes na Devir conversando sobre as provas finais da antologia As Melhores Histórias Brasileiras de Horror e ele me recebeu com o bom humor de sempre. Ainda no dia seguinte falei com ele ao telefone para tirar algumas dúvidas sobre a concepção da capa, e ele estava com aquele ar de apressado por tantas tarefas, mas atento para que o trabalho ficasse o melhor possível.
A primeira lembrança que tenho dele é numa reunião do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), acho que em 1988 ou 1989, ainda na Livraria Paisagem, que ficava numa galeria na Avenida São Luís, Centro de São Paulo. Eu estava no clube há pouco mais de um ano, e o Douglas aparecia de vez em quando. Após esta reunião lembro que todos os presentes foram para a livraria BookCentre, que ficava numa travessa da Rua 7 de Abril, onde ficamos extasiados com a grande quantidade de livros importados de FC. O Douglas, naquele dia, tinha ido retirar um exemplar da The Magazine of Fantasy & Science Fiction, como fazia todos os meses.
Embora gostasse de ler livros de ficção científica a maior paixão do Douglas era mesmo os quadrinhos, onde ele esteve à frente, como um dos fundadores da Devir, na publicação de um catálogo enorme e de grande qualidade de obras e artistas do primeiro nível, do Brasil e do exterior, além de abrir espaço para muitos jovens talentos. Na mesma Devir Douglas também publicou livros de role playing games (RPG), um dos pioneiros no Brasil, desta febre de jogos baseados em histórias que cresceu a partir dos anos 1990.
Depois de alguns anos retomei meu contato com o Douglas, através do Roberto de Sousa Causo, que estava à frente da coleção Pulsar de FC na Devir. Causo meu abriu as portas num momento em que eu estava terminando o doutorado e, com a bolsa expirada, vivia de bicos para pagar as contas. Ele e o Douglas me passaram vários pequenos trabalhos, onde pude, além de contar com um dinheirinho útil, aprender mais sobre o processo editorial. Desde revisão e digitação de livros até parecer para obras enviadas, sou grato a ambos por esta oportunidade. Logo depois eu e o Cesar Silva, que publicávamos o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica na Tarja Editorial, procuramos o Douglas para ver se poderíamos passar a publicá-lo na Devir. Foi fácil, pois o Douglas nos apoiou de forma entusiasmada, ciente do seu papel de incentivador, promotor da ficção científica brasileira.
Graças a ele eu e Cesar publicamos cinco edições do Anuário (2009 a 2013), e eu ainda tive a chance única de organizar a antologia Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política, em 2011, dentro do selo Pulsar. Incrível é que o Douglas não fazia restrições quanto ao tamanho do livro. Lembro que quando numa reunião lhe disse, preocupado, que imaginava que o livro inicialmente previsto para 300 páginas, passaria das 400, ele nem pestanejou: “Melhor assim, mais histórias para ler!”.
Devido a tantas atividades que misturavam edições de quadrinhos, RPG e literatura, além da parte administrativa na qual também atuava, o fato é que ele era uma pessoa muito ocupada, mas estava sempre disposto a ouvir novas ideias e acompanhar os projetos em andamento. E mesmo que a FC não fosse o carro-chefe da editora ele foi, provavelmente, o publisher brasileiro que esteve à frente da maior quantidade de coleções de FC&F ao mesmo tempo: Pulsar, para FC; Quimera, para Fantasia; Pentagrama, para o Horror; Enciclopédia Galáctica, para obras de não-ficção, e ainda Asas do Vento, para livrinhos de bolso de FC&F. É verdade que a maioria destas coleções não teve regularidade, devido, principalmente, a alguns problemas de reestruturação financeira pelo qual a editora passou no últimos anos, mas elas, ainda hoje, não foram oficialmente descontinuadas.
No plano pessoal o Douglas era humilde, avesso a badalações e não se envolvia nas polêmicas estéreis e, por vezes, destrutivas, nos círculos do fandom. Tinha mais o que fazer sendo um editor profissional e competente e, acima de tudo, um apaixonado pelos gêneros fantásticos, generoso e parceiro abriu portas e oportunidades para vários talentos que não teriam o mesmo espaço em outras editoras. Pois além de amparar vários projetos, permitiu aos autores participarem ativamente de todo o processo editorial, atuando em parceria com ele e os outros profissionais da Devir. Quem já trabalhou com outras editoras sabe que esta não é a praxe, e isso me fez também aprender mais no que diz respeito ao trabalho editorial.
Com a morte de Douglas Quinta Reis não sei quais rumos a Devir tomará, e espero que seja o melhor possível. Mas é provável que tenhamos fechado um ciclo, pois será difícil encontrar alguém tão dedicado e aberto a novas ideias como ele. Fará falta e o melhor que podemos fazer é prosseguir com a mesma postura com que ele nos abrigou e fez da Devir uma editora respeitada no mercado editorial. Vá em paz, companheiro.
Marcello Simão Branco

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Douglas Quinta Reis (1954-2017)

Se há uma coisa que não gosto de escrever são obituários, que adio o máximo que posso. Fica ainda mais difícil quando se trata de uma pessoa é próxima, como é o caso. Mas não posso me furtar a testemunhar aqui o passamento de Douglas Quinta Reis que, por muitos anos, foi o meu principal editor.
Reis foi um dos fundadores da Devir Livraria que, ao longo dos anos 1980, montou um esquema próprio de distribuição de revistas importadas, para o qual criou o boletim Recado Devir, fanzine que marcou uma geração de leitores. A Devir também ficou conhecida pela publicação de livros de RPG e card games, jogos que se tornaram grandes coqueluches dos anos 1990. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, a Devir também se envolveu com a publicação de quadrinhos de artistas nacionais e estrangeiros – sempre apresentados na forma de álbuns de luxo –, e com a literatura fantástica, para a qual mantinha selos exclusivos para ficção científica, horror e fantasia, de autores brasileiros e estrangeiros, clássicos e modernos. Reis era como um malabarista que mantém muitos pratos girando ao mesmo tempo na ponta de varetas, sem derrubar nenhum e sem perder a classe. O trabalho adiante de todas essas linhas editoriais ao longo dos 30 anos da Devir colaborou decisivamente para estabelecer no Brasil um segmento hoje muito disputado, o da chamada cultura geek.
Conheci Reis em 1995 quando me lancei a tarefa de realizar a primeira de quatro convenções anuais de horror, as HorrorCons. Logo de cara, e com toda boa vontade e gentileza que sempre o caracterizaram, Reis se aproximou do evento, patrocinou cartazes de divulgação e esteve presente em todas elas. Mais tarde, acolheu a publicação do meu Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, do qual publicou cinco edições, sem falar em vários outros projetos dos quais participei direta e indiretamente. Neste momento estávamos envolvidos na preparação de uma antologia de contos de horror, que organizei ao lado de Marcello Simão Branco – que também foi meu parceiro nas HorrorCons e no Anuário –, e estávamos em contato quase diário. Foi um choque receber a notícia de sua morte repentina, vitimado por um ataque cardíaco fulminante na noite de 12 de outubro. Até porque Reis não tinha histórico algum, era jovem e ativo. Divertido, bem informado e sempre pronto para um bom papo - sem falar nas lições sobre edição que passava naturalmente durante as conversas - era um prazer compartilhar sua presença.
Seu corpo foi velado e enterrado no dia 14 de outubro no Cemitério da Quarta Parada, em São Paulo.
A Devir continua e torcemos por seu sucesso, mas por certo que não será a mesma sem a presença de Douglas Quinta Reis. Não há dúvida que testemunhamos aqui o fim de uma era.
Cesar Silva

sábado, 23 de setembro de 2017

O cão de caça e outras histórias, Lovecraft & Gou Tanabe

O cão de caça e outras histórias, (The hound e other stories) H. P. Lovecraft & Gou Tanabe, 176 páginas, Editora JBC, São Paulo, 2015

O escritor americano H. P. Lovecraft (1890-1937) tornou-se, ao longo dos últimos trinta anos, um dos autores literários mais adaptados para os quadrinhos, concorrendo em prestígio com Edgar Allan Poe e Ray Bradbury.
Na coletânea O cão de caça e outras histórias, traduzida em 2015 pela Editora JBC, encontramos ótimas adaptações de três histórias clássicas do mestre do horror, com roteiro e desenhos intensos do mangaka Gou Tanabe.
Em "O templo" ("The temple"), num raro cenário de guerra na obra de Lovecraft, o último sobrevivente a bordo de um submarino alemão naufragado se vê diante dos portões e escadarias de uma cidade perdida nas profundezas do mar. "O cão de caça" ("The hound", também conhecido no Brasil como "O sabujo"), conta a história de dois amigos em busca de emoções bizarras que, ao encontrar um raro artefato numa sepultura, são amaldiçoados para sempre. "A cidade sem nome" ("The nameless city") fecha a edição, com o relato de um explorador que encontra, sob as areias do deserto, a necrópole de uma antiga civilização que ainda mantém segredos terríveis em seu interior.
Tanabe, que tem em seu currículo as séries Kasane, Mr. Nobody e The outsider, é senhor de um traço acadêmico realista que combina perfeitamente com o estilo das histórias tenebrosas de Lovecraft, em nada lembrando as caricaturas dos mangás mais populares.
Por enquanto, só tivemos a felicidade de encontrar esta edição no Brasil, mas há notícias que Tanabe adaptou mais histórias de Lovecraft. Tomara que as editoras nacionais traduzam mais trabalhos dessa série, que é uma das melhores já realizadas a partir da obra do Cavalheiro de Providence.
Cesar Silva