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domingo, 10 de janeiro de 2021

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon. Giz Editorial, São Paulo, 2012.
 
Escaldado pela leitura de um bom número de romances de ficção científica e literatura fantástica de autores brasileiros, que se revelaram obras medíocres, confesso que não nutria grandes esperanças ao iniciar a leitura. No entanto, achei este romance de terror surpreendentemente leve e interessante, com um clima de aventura que me lembra até o Inuyasha da Rumiko Takahashi. Claro que as diferenças são consideráveis: aqui o grupo é bem menor porém consideravelmente heterogêneo: Kaori, a vampira, ou “kyukesuki” em japonês; Migitê-no-Kitarô, o samurai sem um braço e não obstante, um terrível lutador; e Omitsu, a mulher-raposa ou “kitsume”, eu diria uma youkai como o Shippou do Inuyasha. No caso deste o grupo é formado, além do “hannyou” (mestiço de youkai e ser humano) Inuyasha, de Kagome (garota mística), Shippou (youkai-raposa), Miroku (monge com buraco de vento ou “kazaana”), Sango (humana, exterminadora de youkais) e Kirara, o gato que se transforma em fera voadora.
O trio, apesar das diferenças de temperamento e problemas de relacionamento, se une para caçar o “bakemono” (monstro) Shinkû, misterioso, oculto nas sombras e letal, um assassino dotado de grandes poderes e com o qual o samurai tem sérias contas a ajustar.
Giulia Moon não tornou a obra pesada, intercalando o drama e a aventura com pitadas de humor. É a “kitsune” Omitsu, que cria muitos problemas para Kitarô, quem se encarrega disso. Kitarô por sua vez é o personagem sério, aparentemente implacável mas que revela o seu lado humano, por exemplo, quando, vendo Kaori enfraquecida, permite que ela sugue um pouco do seu sangue, mordendo-lhe o pescoço. A própria Kaori, cujo aspecto é o de uma bela jovem, humaniza-se um pouco ao longo da história, tornando-se menos relaxada com suas roupas e higiene pessoal.
A autora fez bem em utilizar uma linguagem elevada, sem cair no estilo brutalista que infelizmente contaminou alguns dos nossos autores.
O seguinte diálogo mostra um pouco o difícil relacionamento do trio, o que não impede que se completem mutuamente:

“— Pensei ter-lhe dito para não matar humanos, 'kyuketsuki'.
— 'Kitsune' linguaruda — resmungou Kaori para Omitsu. — O samurai não havia percebido nada até você dar com a língua nos dentes.
— Não me ignore — rosnou Kitarô. — Estou falando com você.
Imperturbável, Kaori respondeu:
— 'Kyuketsukis' matam. Faz parte da nossa natureza.
Kitarô tomou outro gole de saquê.
— É fato — disse, limpando a boca com as cosas da mão. — Mas também é verdade que a minha profissão é eliminar 'bakemonos' maus. Os que matam gente.
— Os dois estavam roubando. E eu estava com fome — observou Kaori com secura. (...)”

Kaori é na verdade personagem de uma série da autora, ela aparece também em Kaori: Perfume de vampira e Kaori: Coração de vampira, obras que não tive ocasião de ler.
Miguel Carqueija
Rio de Janeiro, 4 de agosto de 2019.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon. 200 páginas. Ilustrações de Giulia Moon. Capa de Natalli Tami. Giz Editorial, São Paulo, 2012.

Kaori está se tornando rapidamente um ícone no ambiente da dark fantasy brasileira. Isso porque, depois de aparecer com regularidade em antologias e coletâneas, chega em pouco tempo ao seu terceiro romance, com boa aceitação de público e crítica - os dois primeiros são Kaori: Perfume de vampira (2009) e Kaori 2: Coração de vampira (2011), ambos da Giz Editorial. Não é para menos, Giulia Moon é sem dúvida uma das mais gratas revelações recentes da literatura fantástica nacional que, além de um texto enxuto, suave e envolvente, domina muito bem os protocolos do gênero.
Kaori é uma vampira secular, originária do Japão feudal que, por capricho do destino, veio habitar em São Paulo. Ela é linda, sensual, imortal e feroz, e sua presença exala um perfume irresistível tanto aos homens quanto às mulheres. A maior parte de suas histórias se passa nos dias atuais, mas a autora decidiu inovar desta vez.
Kaori e o samurai sem braço é o que muita gente gosta de chamar de "prequela", anglicismo pavoroso que significa uma aventura que, cronologicamente, se passa antes da primeira história de uma série. Contudo, o romance inicia nos dias de hoje, com a sensual vampira fazendo uma visita a Takezo, um velho amigo de "profissão". Conversa vai, conversa vem, Kaori conta ao amigo uma história de sua juventude no Japão, quando ainda era ainda uma kyuketsuki (vampira, em japonês) selvagem e inexperiente. Ela lembra de como foi surpreendida por um terremoto violento e ficou presa sob os escombros de uma residência, e de como foi salva, praticamente destroçada, por um estranho e destemido vagabundo e sua acompanhante. Protegida e alimentada, ela recupera pouco a pouco sua consciência e vigor, para se ver enredada numa situação da qual não tinha como sair. Seu salvador era Kuroshima Kitarô, o lendário samurai maneta caçador de monstros, e sua serviçal mágica Omitsu, uma kistune, um ser da natureza misto de mulher e raposa. Kitarô tinha uma proposta irrecusável: ele quer que ela o ajude, durante um ano, a localizar um monstro muito pior, Shinku, um demônio transmorfo que matou sua família. Em troca, ele não acaba com a existência da vampira. Findo o acordo, Kitarô promete libertar Kaori. E se ela não aceitasse, morreria ali mesmo.
Enfraquecida e sem alternativa, Kaori aceita o acordo, mas o início da relação é tenso. Conforme o trio persegue o rastro de Shinku e enfrenta outros monstros pelo caminho, Kaori recupera suas forças, mas também percebe que Kitarô é honrado e a confiança começa a se estabelecer entre eles. No final, será preciso todo o habilidade, coragem e confiança destes três improváveis aliados para confrontar o poderoso e astuto Shiku.
O romance se desenvolve em forma episódica, com os trio de guerreiros enfrentando diversos demônios e monstros antes do confronto final com Shinku. Essas histórias funcionam como um espaço de desenvolvimento dos personagens e das relações de confiança e amor que vão se formando entre eles, mas nem por isso deixam de ser divertidas e, por muito pouco, não roubam o espetáculo, tal o carinho com que Giulia tratou cada uma delas. O romance, com certeza, não ficaria melhor sem elas.
Outro grande mérito de Kaori e o samurai sem braço é a cuidadosa pesquisa que a autora realizou sobre o ambiente japonês do século 18, seus cenários naturais, arquitetura e costumes, bem como os termos originais, devidamente explicados em notas de pé-de-página, que não deixam nada sem o devido esclarecimento, uma verdadeira viagem de Giulia Moon às suas origens étnica e cultural.
Além disso, o livro é decorado com belíssimas ilustrações realizadas pela própria autora, que é designer profissional e demonstra aqui toda a qualidade de sua arte, valorizada pela elegante produção gráfica do volume.
Posso afirmar que, sem dúvida alguma, ninguém está fazendo mais e melhor que Giulia Moon no que se refere à dark fantasy no Brasil. E, se tivermos sorte, podemos esperar muito mais de Kaori e de Giulia Moon nos próximos anos.
— Cesar Silva

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Dama-Morcega, Giulia Moon

A dama-morcega: Narrativas de terror fantástico, Giulia Moon. 160 páginas. Prefácio de Rubens Francisco Lucchetti. Coleção Novos Caminhos: Literatura Fantástica, Landy Editora, São Paulo, 2006.

Ao longo dos primeiros anos deste século, evoluiu um novo subgênero na ficção fantástica, para além da ficção científica, do horror e da fantasia: a ficção vampírica, que se justifica pela grande quantidade de romances com vampiros publicados nos últimos anos. Nesse modelo, temos ficções alternativa, científica, de horror e de fantasia, cada qual usando instrumental próprio mas, invariavelmente, prestando sua homenagem a esse que é um dos principais mitos modernos.
Dentro deste subgênero, é claro que se destacam as histórias de terror, mas vai longe o tempo em que uma história de vampiro tinha que dar medo. Os vampiros ganharam status romântico, símbolo de uma humanidade transcendente, através do qual se pode discutir uma infinidade de situações dramáticas que, ainda que possíveis com a narrativa realista, ganham laivos contrastantes que permitem abordagens mais amplas, como em toda a ficção fantástica. Essa receita já se apresenta também com outros personagens típicos da literatura de horror, e a escritora e artista gráfica Giulia Moon tem dado colaboração importante ao modelo.
Autora das coletâneas Luar de vampiros (Scortecci, 2003) e Vampiros no espelho & outros seres obscuros (Landy, 2004), Giulia montou uma variada coleção de monstrinhos adoravelmente líricos, tão poéticos e suaves que bem poderiam estar em livros infantis. Justifica-se a autora que diz morrer de medo de assombração.
Do mesmo modo, os onze contos que compõe A dama-morcega agradam tanto ao leitor habituado ao gênero do horror quanto aquele que geralmente teme o estranho. Os horrores de Giulia Moon são ternos e familiares, imagens de sonho que estranham, mas não aterrorizam, que assustam um pouquinho, mas não causam pesadelos, e carregam o leitor para aquele período iluminado da vida, quando o canto escuro do quintal era tão aconchegante em seu mistério que sonhamos em um dia poder voltar a ele.
O prefácio do volume é assinado por ninguém menos que o mestre do horror brasileiro, o escritor multimídia Rubens Francisco Lucchetti, que escreveu a maior parte dos roteiros de cinema para os filmes de José Mojica Marins e Ivan Cardoso, e que, em parceria com outro mestre do horror, o ilustrador Nico Rosso, deu forma a boa parte da mitologia brasileira dos vampiros nas histórias em quadrinhos das revistas de terror ao longo dos anos 1960/70. Apesar de importante, Lucchetti é atencioso com os apreciadores de horror, e seu entusiasmo com o trabalho de Giulia Moon é, sem dúvida, sincero. E qualquer livro que tenha um prefácio desse calibre já começa bem. Também colabora com a boa impressão o cuidado gráfico do volume, em formato de bolso, com uma belíssima capa aveludada e diagramação limpa e elegante.
Depois de uma pequeníssima introdução, só mesmo para situar o leitor desavisado, Giulia apresenta o conto "Luna errante", uma história de lobisomens, mais exatamente de uma lobisomem às avessas. Ela vive a maior parte do tempo com sua alcateia, em forma de lobo e, eventualmente, transforma-se em mulher para caminhar entre os homens de vida curta, fazer amor com eles e, talvez, comê-los. Sua maldição não é ser loba, mas ter se apaixonado sinceramente em uma de suas aventuras na cidade dos homens. Um homem que desaparece, deixando-a infeliz em sua vida de loba, até que muito tempo depois, ele reaparece, heroico e envelhecido, para cumprir sua promessa de amor que, entretanto, não vai apagar a tristeza do coração da loba.
O segundo conto é o melhor de toda a antologia, por resumir perfeitamente todo o conjunto de propostas estéticas e líricas que Giulia ensaiou no volume. "Júnior e seu gnuko" conta a história do menino Júnior e seu amigo invisível. Esse amigo, entretanto, apesar de divertido, não é lá muito bem intencionado. Vive propondo brincadeiras estranhas que quase sempre implicam em algum tipo de vivissecção. Mas Júnior é um bom menino e mantêm seu amigo invisível, a quem chama de Gnuko, bem comportado. Mas um dia as coisas fogem do controle, Gnuko materializa-se, enorme, bem no meio do pátio da escola, pondo a garotada em polvorosa. Júnior mantêm-se firme, mas parece que sua autoridade não será suficiente para controlá-lo desta vez. Uma história assustadora e divertida, narrada com singeleza e sensibilidade.
A seguir temos "O vampiro e a donzela", em que a autora volta ao seu monstrinho favorito. Uma vampira envolvente apaixona-se por um homem, mas ele ama outra mulher e a despreza. Ela passa a persegui-lo e torturá-lo, até reduzi-lo a farrapos. Então, finalmente, o seduz para depois matá-lo, mas não executa o plano e o abandona, moribundo, para descobrir que, contra todos os prognósticos, ela ficou grávida dele. Apesar do tratamento inovador, a história parece prometer mais naquilo que não contou: seria uma boa história erótica, se devidamente recheada das cenas picantes de praxe, mas seria ainda melhor se mostrasse o tipo de gravidez e descendência que essa vampira teria.
"Perdido" é uma narrativa típica de Além da imaginação, de fato há muitas histórias nesse seriado que são semelhantes a ela, por isso é uma história previsível. O que lhe dá substância é a narrativa calorosa e lírica. Um menino se desencontra de sua turma de excursão, perde o ônibus e fica vagando na estrada, sem destino. Conforme caminha, confabula consigo mesmo, meio choramingando, meio praguejando. Tem um encontro soturno e, quando está prestes a entrar em pânico, o ônibus finalmente volta para pegá-lo, pois ele não podia ficar pra trás. De jeito nenhum.
O conto seguinte não é fantástico. Trata-se de uma espécie de homenagem aos gatos, esses seres estranhos que algumas pessoas gostam de ter por companhia e que já inspiraram diversas histórias deliciosas. Em "O paraíso", um gato vê sua realidade virar de cabeça para baixo quando a violência humana macula a cozinha em que ele mora. Toda placidez de seu caráter, moldado por uma vida de conforto e bem estar, submerge na ferocidade animal ao ver sua dona ser atacada por um estuprador. O leitor que já teve um gato em sua vida, certamente vai se emocionar com esta história.
Em "O ser obscuro", uma mulher que não tem muito o que fazer espiona seu vizinho esquisitão. Não há como não se identificar com um e outro, típicos habitantes citadinos, daqueles que gostam de viver sozinhos ou em meio aos livros. Uma noite, o esquisitão bate a porta da mulher. Ele está apavorado com algo que rasteja em sua biblioteca. A casa do homem é, em si, um panorama de fantasia: livros velhos por toda parte, em estantes, espalhados pelo chão, caídos e amontoados. Um monte deles emana uma presença ameaçadora, que apavora o homem. Uma história para apavorar os ratos de sebo, mas que tem o efeito contrário: afinal, que rato de sebo não sonha encontrar o seu próprio exemplar do Necronomicon perdido em alguma estante empoeirada, por uma bagatela?
"O herói e o diabrete" apropria-se de um personagem criado por um outro autor, Adriano Siqueira, o editor do site Adorável Noite no qual Giulia estreou o seu trabalho literário. Apesar do conto não o nomear, trata-se de Valente, um cavaleiro medieval heróico, como devem ser os cavaleiros medievais, mas um tanto convencido e tolo, que vai enfrentar uma bruxa poderosa. Ele leva em seu ombro um diabrete inútil, que só faz dar trabalho, mas se revela a arma secreta que derrota o monstro. Porém, o herói não poderá colher os louros de sua vitória. Como sempre, morre em circunstâncias desagradáveis e acaba sendo escravizado por seu diabrete, agora transformado num grande demônio, a qual terá de servir, acorrentado em seu ombro. A história é divertida, bem contada e tem imagens vívidas, mas é um bolo com cerejinhas que só os frequentadores do Adorável Noite vão saborear completamente.
Maya, a vampira preferida de Giulia, retorna no conto novaiorquino "Perigosa ilusão". A predadora, que tem uma paixão doentia por seu mordomo, decide arrumar um sósia do mesmo para, em seu fim-de-semana de folga, realizar algumas de suas fantasias. O conto tem sustentação própria, mas parece depender um tanto dos trabalhos com a personagem vistos em outros livros. Não se explica o porquê de Maya ter esse desvio de conduta e como o mordomo mantêm o poder sobre ela. Para quem vê a coisa de fora, como no meu caso, parece uma espécie de variação a um possível platonismo entre Bruce Wayne, o Batman, e seu mordomo Alfred. Uma brincadeirinha de internet que, como no conto anterior, só quem é iniciado vai aproveitar.
"A tia madrinha" é outra variação, desta vez sobre as histórias de fadas. Não chega a ser um conto, é mais uma vinheta de aproximadamente 700 palavras, na qual um demônio chamado Gertrudes conta como e porque resolveu poupar uma de suas vítimas, um menino com potencial psicopata, para mais tarde transformá-lo também num monstro.
"A dama-morcega" é o conto mais longo e mais elaborado do volume. Inspirado na primeira mulher-gorila dos freak shows brasileiros – a quem é dedicado –, conta a história de uma vampira mantida em cativeiro para exibição em um circo de aberrações na São Paulo do início do século XX. Numa apresentação, é vista por um médico que atesta a autenticidade da criatura, ao mesmo tempo que se encanta por ela. A vampira consegue iludir o tratador e o mata, mas o médico a captura e passa então a mantê-la prisioneira em seu laboratório, onde recebe visitas de um amigo confidente. Aos poucos o médico enlouquece, enquanto a vampira recupera sua beleza, segurança e, finalmente, a liberdade. Há muitas citações e homenagens no conto, mas não assumem a preponderância da narrativa, que tem méritos próprios.
"Pé-de-moleque em dezembro" encerra a coletânea, outro conto muito curto que narra o encontro de Saci Pererê com o menino Jesus numa certa noite de Natal. Não há um enredo para além do diálogo filosófico entre os dois protagonistas, mas o conto é forte e merecia mais destaque pois, de certa maneira, homenageia o modernismo, tão polêmico no meio dos autores de ficção fantástica brasileira.
Disse R. F. Lucchetti sobre Giulia Moon, no prefácio: "Fiquei encantado com essa jovem criatura das trevas". A dama-morcega é uma leitura agradável, divertida e, como disse o mestre, encantadora.
Cesar Silva