quinta-feira, 3 de setembro de 2026

50 Anos de Jornada nas Estrelas

 



    50 Anos de Jornada nas Estrelas: A História Completa, Não Autorizada e Sem Censura - Volume 1 (The Fifty Year Mission), Edward Gross e Mark A. Altman. Capa: Estúdio Insólito. Tradução: Rodrigo Salem. 390 páginas. Rio de Janeiro: Globo, 2016. Lançamento original no mesmo ano.

 

    Neste setembro de 2026 Jornada nas Estrelas (Star Trek) completa 60 anos! No dia 8 de setembro de 1966 foi ao ar nas TVs americanas o episódio O Sal da Terra” (The Man Trap) na verdade o sexto produzido. Embora este livro tenha sido escrito e lançado para comemorar o cinquentenário, o interesse se mantém integralmente, pois o conteúdo permanece atual.

    Talvez o fato de a série ter se tornado o maior fenômeno popular da história da ficção científica, transcendendo em muito a fronteira da televisão, não seja suficientemente claro o quão difícil foi esse processo durante sua produção entre os anos de 1966 e 1969.

    Afinal, é uma das poucas, senão a única a ter dois pilotos, após a rejeição do primeiro, o ótimo “A Jaula” (The Cage), de 1964, e ter enfrentado duas ameaças de cancelamento (da primeira para a segunda temporada e desta para a terceira) até o encerramento com o episódio “O Intruso (Turnabout Intruder), em 3 de junho de 1969.

  Escrito por Edward Gross e Mark A. Altman, dois experientes jornalistas que se especializaram na série e com outros títulos publicados sobre ela – inclusive, li e tenho arquivadas muitas entrevistas de Gross publicadas na revista Starlog (1976-2009) –, o livro repassa em detalhes como nunca havia visto antes as dificuldades em viabilizar e manter a série em exibição. Mas vai bem mais fundo sobre toda a sua produção, ao mostrar os bastidores e aspectos da personalidade dos responsáveis pela série.

  Assim, centenas (sim centenas) de pessoas foram entrevistadas ao longo de três décadas, selecionadas e editadas para compor o livro. Muitas das quais, diga-se, realizadas especificamente para o projeto. Desta forma, temos a presença do criador da série Gene Roddenberry (1921-1991), e de quase todos os atores principais, com a ausência sentida de DeForest Kelley (1920-1999) o doutor McCoy – e do roteirista e produtor Gene L. Coon (1924-1973), este talvez a personalidade mais citada na voz de outros interlocutores.

    Temos, desta forma, uma gama impressionante de depoimentos curtos de produtores, roteiristas, diretores, atores, assistentes de produção os mais variados, secretárias e muitos fãs, pois parte vital para tornar Star Trek este fenômeno foi a participação deles.

    Mas como encadear de forma plausível tantos depoimentos? Suas aparições de acordo com o assunto abordado. Desta forma, em forma cronológica dos eventos em que a série foi produzida as entrevistas são publicadas, como se estivessem conversando entre si, no estilo de uma história oral. O trabalho para amarrar tudo isso deve ter sido hercúleo e o resultado foi muito bem sucedido.

   Na leitura da obra transparece a luta para que ela fosse produzida, pois na época nenhuma série de ficção científica voltada para adultos havia sido exibida na TV, mas apenas infantis ou com um grau de verossimilhança que deixava a plausibilidade científica num segundo plano. A ideia era a de ação e entretenimento, e Star Trek veio para mudar o paradigma. Os problemas começaram, portanto, pelo novo conceito que a séria se propunha, algo estranho para os executivos de TV, preocupados apenas em oferecer entretenimento para obter altos índices de audiência.

    Isso explica porque o piloto foi rejeitado. Mas, surpreendentemente, ganhou uma nova chance por ter impressionado pela qualidade do conteúdo. Era preciso apenas adaptar o formato para um modelo menos intelectualizado, mas sem abdicar de seu conceito de oferecer uma série de ficção científica mais inteligente.

    Assim, “Onde Nenhum Homem Jamais Esteve (Where no Man has Gone Before) foi aceito e a série passou a ser produzida pelo pequeno estúdio Desilu e exibida na rede de TV NBC, uma das três grandes do país, com veiculação de programação em nível nacional.

  Mas sempre houve duas tensões a cercar a produção e que só aumentaram com os passar do tempo. Os índices de audiência considerados baixos – apesar de serem os líderes de audiência no horário na maior parte da exibição – e os problemas de relacionamento entre a NBC e Gene Roddenberry. Ele já havia trabalhado com a emissora com a série The Lieutenant (1963-1964), e os seguidos desentendimentos levaram ao seu cancelamento precoce. Ambos puxavam a corda para o seu lado, a NBC voltada ao lucro e Roddenberry em produzir qualidade na TV. Em tese, isso não é novidade no ambiente do show business, mas é que Roddenberry era muito teimoso e centralizador.

    Desta forma, tal embate se manteve durante a produção de Star Trek. Tanto é que já no meio da primeira temporada – cerca de 15 episódios depois – ele soube de rumores de que a série seria descontinuada. Desesperado, contactou o escritor Harlan Ellison (1934-2018), com quem tinha bom contato, que criou um comitê de escritores de ficção científica e endereçou cartas à NBC e à imprensa defendendo a manutenção da série. Aqui temos, em particular, um aspecto que poderia ser mais explorado no livro, da proximidade de Roddenberry com os escritores de ficção científica, de como vários deles apoiaram a série e, mais que isso, escreveram roteiros, vários deles produzidos. Nomes importantes como o próprio Ellison, Robert Bloch (1917-1994), Theodore Sturgeon (1918-1985), Richard Matheson (1926-2013), Norman Spinrad (1940) e outros.

   A iniciativa foi bem sucedida e a série chegou ao fim da primeira temporada e renovada para a segunda. Nesta novos problemas foram adicionados, o principal deles a rivalidade crescente entre William Shatner (1931) e Leonard Nimoy (1931-2015). Shatner era o astro da série como o intrépido Capitão Kirk, mas o personagem de Nimoy, Spock, o superava em muito em popularidade e repercussão para além da série. Aliás, talvez tenha sido o vulcano o primeiro a romper as fronteiras da série para além da TV e da ficção científica. Spock virou um fenômeno popular, que intrigava por sua origem e, principalmente, personalidade misteriosa e que tinha no controle das emoções e na busca da lógica seus pontos de maior interesse. Nimoy queria um aumento de salário e por pouco não foi tirado da série. O chefão da NBC foi quem garantiu que seu salário fosse melhorado.

   Shatner, por sua vez, não escondeu o ciúme e tentou controlar as falas dos personagens, chegando a roubar algumas que seriam do oficial de ciências da Enterprise. O ator, inclusive, não se sai bem na visão dos atores do elenco e membros da produção. Por ironia, o mais favorável a ele é Nimoy, mesmo que sem grande entusiasmo. Isso porque a maior parte das ressalvas era com relação ao seu egocentrismo e individualismo, talvez insuflado pelo fato de passar a ter um concorrente ao seu estrelato.

    O Grande Pássaro da Galáxia – apelido de Roddenberry – se sai ainda pior na visão dos muitos entrevistados. Ninguém deixa de reconhecer sua criatividade e visão humanista que imprimiu à série, mas sua personalidade era muito problemática. Além de centralizador, as críticas resvalam para a vida pessoal, com seguidas falas sobre seu machismo e assédio sexual a várias mulheres. Os próprios trajes sumários das tripulantes se relacionam com isso. Além disso, sua saída da produção da série na terceira temporada é criticada, pois para os entrevistados ele colocou a vaidade acima da série, ao não concordar com a mudança de horário para a sexta-feira às dez e meia da noite.




    Uma das figuras centrais nos depoimentos foi Gene L. Coon. Sua entrada no meio da primeira temporada como produtor melhorou sensivelmente a qualidade dos roteiros, a interação entre os três personagens principais, e a dinâmica de produção da série. Ele foi contratado depois de Roddenberry admitir que não poderia continuar a trabalhar por até 18 horas por dia sete dias por semana. Tinha como parceiro apenas o dedicado produtor Robert H. Justman (1926-2008), mas este chegou até a ser internado por estafa.

    Muito do que de melhor Star Trek veio a consolidar é responsabilidade principal de Coon, em especial a ênfase no relacionamento pessoal entre Kirk, Spock e McCoy. Ele escreveu episódios clássicos como Um Gosto de Armageddon (A Taste of Armageddon), Semente do Espaço” (Space Seed), “Demônio na Escuridão” (The Devil in the Dark), “Missão de Misericórdia” (Errand of Mercy), “Metamorfose” (Metamorphosis), entre outros. Além disso, criou vários conceitos e ideias que se tornaram clássicos, como os klingons, o tratado de paz de Orgânia, a diretriz de não interferência, além de um equilíbrio entre ação, temas científicos e bom humor, principalmente nos diálogos ferinos e engraçados entre Spock e McCoy.

    Mas seu sucesso enciumou Roddenberry e ele deixou a produção perto do final da segunda temporada. Este fato é pouco lembrado, inclusive, quando se aborda a queda de qualidade da última temporada da série. Ele foi substituído por Fred Freiberger (1915-2003), escolha de Roddenberry que pensava em reassumir o comando da produção executiva da série e queria alguém mais subserviente. Mas, como se sabe, ele terminou por sair da produção e a responsabilidade principal pela condução ficou nas mãos de um sujeito que não conhecia e não tinha apreço pela série.

    Outro momento muito abordado e valorizado é a campanha de cartas dos fãs que salvaram a série do cancelamento, da segunda para a terceira temporada. O grande temor deles era que se a série não tivesse uma terceira temporada ela não seria reprisada, como era a norma da época. Ou seja, estaria tudo perdido. Liderada pelo casal Bjo (1933) e John Trimble (1939-2024) estima-se que perto de um milhão de cartas tenha chegado ao endereço da NBC, além fazerem uma enorme manifestação em frente à emissora. Algo nunca visto antes ou depois na história da indústria do entretenimento. Os executivos foram constrangidos a renovar por mais uma temporada – chegando a garantir a continuidade num anúncio de TV – e acusaram Roddenberry de estar atrás da campanha, ao que este retrucou: “Isso é muito lisonjeiro, porque se eu pudesse começar manifestações por todo o país a partir desta mesa, eu sairia da ficção científica e entraria para a política.

   Sem Coon, com um novo produtor e num horário ruim, o seriado caiu muito de qualidade, principalmente em relação aos roteiros, e se bem reparado até na condição física de alguns atores. Shatner, por exemplo, engordou. Episódios constrangedores foram ao ar como, por exemplo, O Cérebro de Spock” (Spock´s Brain) segundo Gross e Altman uma possível vingança de Coon contra Roddenberry, num episódio que não era para ser filmado –, “A Ciranda do Poder” (And the Children Shall Lead), “Caminho para o Éden” (The Way to Eden), “Por Traz da Cortina” (The Savage Curtain), e outros. Mas também alguns notáveis: “Todos os Nossos Ontens” (All Your Yestardays), “Não Há Beleza na Verdade?” (Is There in Truth no Beauty?), “Síndrome do Paraíso” (The Paradise Syndrome).

  Os índices de audiência se mantiveram modestos com a mudança de horário, na verdade caíram, embora ainda em primeiro lugar. Não sendo suficiente e sem uma liderança mais engajada no interior da produção para defender a série, ela foi encerrada mesmo na terceira temporada.

    O que veio depois é retratado no capítulo “Vida depois da morte”. A série foi mantida viva pelos fãs apaixonados, os trekkers, que se organizaram num fandom próprio, com a edição de muitos fanzines e a promoção de convenções que só cresceram em quantidade e número de fãs a partir da década de 1970. Todo este interesse abnegado levou ao interesse pela reprise da série – pois ela tinha as três temporadas de exibição – numa enorme rede de pequenas emissoras pelo interior do país, e sendo exibida não uma vez por semana como antes, mas diariamente e em diferentes horários por cada retransmissora.

    O livro capta bem estes dois momentos, o da organização de um vigoroso movimento de fãs e os detalhes e a repercussão das reprises, mas para nisso, infelizmente. Isso porque a versão brasileira do livro termina por aí. Pois a versão original cobre os primeiros 25 anos da trajetória da série, chegando, portanto, até 1991. Por isso, volume 1. Tanto é que o verdadeiro título original do livro é Fifty Year Mission: The Complete, Uncensored, Unauthorized Oral History of Star Trek: The First 25 Years. Já o segundo volume, inédito no Brasil, aborda de 1991 a 2016, com alguns filmes do cinema, a volta da série na TV, outras produzidas depois e os filmes dirigidos por J.J. Abrams (1960).

    Mas a editora Globo cortou a, digamos, segunda parte da história dos primeiros 25 anos. Poderia, ao menos ter chegado até o primeiro filme no cinema, o que incluiria os conteúdos da criação e veiculação da série animada (1973-1974), da tentativa mal sucedida da volta da série com os atores originais em 1977 e, finalmente, a decisão em levar adiante uma superprodução para o cinema, Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture), de 1979.

    Mesmo assim, vale muito a pena ler este livro precioso com as histórias por trás da história da série mais popular e influente da ficção científica. Seja para o interessado por cultura popular, por ficção científica em geral, e, claro, principalmente para gerações de fãs, entre os quais me incluo, e que celebra estes sessenta anos. Vida longa e próspera à Jornada nas Estrelas!

Marcello Simão Branco