segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A Vida de H.P. Lovecraft

 



    A Vida de H.P. Lovecraft (A Dreamer and a Visionary: H.P. Lovecraft in his Time), S.T. Joshi. Tradução: Bruno Gambarotto. Capa: Ronaldo Alves. 445 páginas. São Paulo: Hedra, 2014. Lançamento original em 2001.

 

    Sendo uma pessoa com interesses variados e, por vezes imerso num determinado assunto, não dou a devida atenção a outro tema de grande interesse. Assim é que só praticamente uma década depois do lançamento no Brasil é que finalmente li a biografia de um de meus autores mais caros. Outro fato que talvez tenha contribuído para esse atraso é o fato de já à época ter lido bastante sobre o autor, mas o fato é que a leitura deste livro mostrou o quanto eu ainda tinha que aprender.

    Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) ficou por muitas décadas após sua morte envolto numa aura de mistério por causa de sua personalidade, tida como solitária e idiossincrática. Parte disso é verdade, mas há muita substância que justifica e, de certa forma, desmistifica estes conceitos que se tornaram quase que estereotipados. Pois o fato mais importante é que ele foi, ao mesmo tempo, se tornando mais e mais relevante e popular através de suas histórias, ainda mais misteriosas e idiossincráticas que sua vida pessoal.

    Nascido em uma família abastada na região da Nova Inglaterra, Lovecraft foi muito protegido e mimado, cercado de todas as atenções quando criança. Primeiro por parte de sua mãe superprotetora e depois de seu avô, sua primeira grande influência no mundo do conhecimento e da imaginação. Precoce e muito inteligente, já pequeno escrevia, pintava, realizava experiências químicas e observações astronômicas. Mas, de certa forma, isso o tornou mais solitário em relação às crianças de sua idade, que não o entendiam muito bem. Além disso, a perda precoce do pai e depois do avô, mudaram muito sua vida, também por causa da decadência financeira que se seguiu e que o acompanharia para sempre.

    Mas o que S.T. Joshi vai mostrar nesta biografia notável é que este berço de amplo apoio a seus interesses intelectuais seria fundamental para desenvolver sua literatura e, através dela, sua visão de mundo incomum e perturbadora. O conceito do cosmicismo elaborado por Lovecraft em suas cartas e contos nos leva à compreensão desencantada da condição humana frente à vida e ao universo. Que quem procura dar algum sentido à realidade é a própria humanidade, mas externo a ela, reina a indiferença da natureza. Ora, esta é uma noção perturbadora, mas que ajuda a explicar cada vez mais o papel do ser humano frente ao universo.

    O livro está fortemente baseado nas milhares de cartas escritas por Lovecraft, além das de seus correspondentes também. Joshi fez um trabalho de pesquisa admirável por sua dedicação obsessiva em ter acesso a tudo que se relacionou com a vida de seu biografado.

    Assim, o livro é escrito em ordem cronológica dos anos de vida de Lovecraft, identificando todas as suas fases, tanto do ponto de vista pessoal, como de sua criação literária. Bem como do contexto da literatura norte-americana na primeira metade do século XX e em especial a corrente dos autores fãs, o fandom que se desenvolveu e do surgimento e das características das revistas pulps, onde Lovecraft publicou toda a sua obra.

    Desta forma, por meio de suas cartas, foi possível identificar a maior parte de sua rotina, suas atividades literárias, a reclusão na juventude, a popularidade na comunidade de fãs, a publicação das histórias em revistas obscuras, e suas frustrações artísticas e pessoais. Principalmente com o fracasso de seu casamento, suas dificuldades econômicas extremas, as frustrações em ser reconhecido e publicar um livro, bem como sua doença final, que termina por se manifestar de forma abrupta, apenas alguns meses antes do seu falecimento.

    Particularmente interessante também é que Joshi, além de ser um biógrafo sensível e respeitoso, é também um arguto crítico literário. Assim, ele comenta todas as histórias de Lovecraft, identifica suas influências, limitações e o progressivo amadurecimento do autor, principalmente a partir de meados dos anos 1920 quando dá início ao chamado ciclo de Cthulhu, por meio do qual Lovecraft escreve suas melhores histórias: “O Chamado de Cthulhu” (1926), “O Caso de Charles Dexter Ward” (1927), “A Cor que Caiu do Espaço” (1927) , “Um Sussurro nas Trevas” (1930), “Nas Montanhas da Loucura” (1931), “A Sombra Sobre Innsmouth” (1931) e “A Sombra Vinda do Tempo.” (1935).

    Joshi vai argumentar que este conjunto notável representou o afastamento de Lovecraft do horror mais sobrenatural ou de textos mais oníricos, para outros de caráter mais próximo da ficção científica. Daí que as histórias de Cthulhu sejam identificadas, justamente, como de um horror cósmico. E que o autor teria sofrido pessoalmente com esta mudança pois estes textos mais longos, mais elaborados em termos estéticos e com a inserção de uma explicação cósmica e ancestral dos horrores que assolam a humanidade, teria encontrado uma recepção mais fria e difícil por parte de seus editores e, principalmente, leitores. Pois ambos já haviam se acostumado com uma prosa mais rápida e com soluções temáticas mais violentas e sobrenaturais. Assim, a frustração dos anos finais de Lovecraft se relacionaria a esta mudança em sua característica literária e filosófica. Rejeitado por ser sofisticado para as revistas pulps da época – Weird Tales à frente –, e desconhecido e incompreendido pelo mainstream literário, que o rejeitou cinco vezes para editá-lo com um livro. Joshi, de forma instigante, especula que impacto poderia ocorrer na literatura de gênero norte-americana, caso Lovecraft tivesse ao menos um livro publicado em vida. Talvez despertasse um interesse para além do fandom, devido, justamente, à característica singular de seus temas e de sua prosa, além de chamar mais atenção para o horror e a ficção científica também.




    Mas a riqueza ímpar desta biografia se baseia principalmente na proximidade com a vida de Lovecraft. De como ele tinha interesses intelectuais variados: química, teatro, cinema, e principalmente astronomia, por meio do qual escreveu e publicou fanzines por vários anos, entre eles o The Rhode Island Journal of Astronomy. Sua primeira grande frustração intelectual vai ser justamente a de não ter cursado uma universidade, onde pretendia se tornar um pesquisador dos céus. Menos por sua incapacidade e mais pelo seu colapso psicológico no fim de sua adolescência. O que hoje poderia ser chamado de síndrome de Burnout ou coisa parecida.

    Revelador também eram seus outros interesses, o seu prazer por caminhar e viajar. É incrível que nos três anos em que viveu em Nova York (1924-1926), mesmo casado, na maior parte do tempo só, pois Sonia Greene (1883-1972) se ausentava para trazer algum sustento a mais para eles, ele tenha perambulado por boa parte da grande cidade madrugadas a fio. Joshi conta que seus amigos escritores o advertiam do perigo de ser assaltado nas ruas. Mas quando isso aconteceu ele estava em casa dormindo, embora não tenha sofrido violência e só tenha sabido que parte de seu modesto guarda roupa havia sido furtado três dias depois.

    Após ter abandonado Sonia e voltado a viver em sua amada Providence com suas tias Lillian e Annie, Lovecraft, na verdade, passava boa parte do tempo em viagem pelo país. Chegava a ficar meses em movimento, a visitar pequenas cidades do interior que fossem parecidas com a arquitetura do século XVIII, o tempo que ele gostaria de ter vivido e que buscou de forma intensa descobrir os resquícios por pelo menos dez anos, até sua morte. Inclusive, tal atividade rendeu, na avaliação de Joshi, alguns diários de viagem admiráveis, alguns dos quais, inclusive acabaram por ser publicados postumamente. O leitor pode perguntar como ele fazia essas viagens, já que vivia sempre com pouco dinheiro. Viajava de trem e de ônibus, se hospedava em lugares muito modestos, quando não pernoitava em rodoviárias e comia muito pouco e mal. Com o tempo, este hábito alimentar pode ter contribuído para o câncer no intestino que o levou.

    Mas Joshi não se exime de abordar algumas questões controversas sobre Lovecraft, a pior delas seu indisfarçável racismo, aflorado nos anos em que saiu de sua província branca e aristocrática de Providence, e foi viver na cidade grande e cheia de imigrantes de Nova York. Como é sabido, algumas de suas histórias explicitam seu desconforto com o convívio com negros, latinos e judeus, a principal delas “O Horror em Red Rook” (1925). Joshi, um indiano radicado nos EUA e de pele parda, talvez fosse visto de forma desagradável pelo próprio Lovecraft, mas realiza uma crítica equilibrada e colocada no contexto da época, em que teorias “científicas” de raça eram populares, embora já estivessem desacreditadas pela antropologia.

    Também a simpatia de Lovecraft por Mussolini e Hitler não escapa a Joshi, e o seu tom é de choque e lamento, embora imagine que Lovecraft os apoiasse em relação à busca de alternativas à profunda depressão econômica na década de 1930 em seu país, e não compartilhasse das perseguições e barbaridades que só fizeram crescer quando o fascismo se tornou mais forte. Nesse contexto, Joshi comprova, por meio de cartas, que Lovecraft passou a defender posteriormente a adoção de um programa socialista moderado, indicando que talvez o que o movesse fosse menos o apoio a regimes totalitários e mais soluções urgentes para a crise do capitalismo.

    Num livro com o volume enorme de informações biográficas e literárias como esse seria de se esperar que houvesse um índice remissivo. Na edição original de 1996 – que eu tenho aqui comigo, H.P. Lovecraft: A Life – existe, e nesta edição da Hedra originalmente havia, mas, infelizmente, foi cortado. Um pecado, já que é o tipo de livro em que o uso do índice remissivo se faz consultar a todo momento da leitura, e também para busca de informações posteriores.

    E eu tive uma pequena e modesta participação em A Vida de H.P. Lovecraft (2014), pois fui procurado pela Hedra para publicar um anexo ao livro com a minha pesquisa bibliográfica sobra sua obra publicada em língua portuguesa. Infelizmente não foi dessa vez que esta pesquisa saiu em livro – o que ocorreria em 2017 na coletânea Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico, organizada por Bruno Costa para a editora Ex-Machina –, mas meu nome está nos agradecimentos no expediente, ao lado de Joshi e de Donavan K. Loucks. Esta honra para mim já bastou.

    Além disso, este livro, originalmente de 2001, é uma versão atualizada do já citado H.P. Lovecraft: A Life (1996), que venceu o Prêmio Bram Stoker como melhor livro de não-ficção do ano. E foi seguido em 2010 por uma nova edição, atualizada e ampliada: I Am Providence: The Life and Times of H.P. Lovecraft, volumes 1 e 2 (2010). Neste último, inclusive, há um acréscimo de 150 mil palavras. Uma quantidade de análise e informação maior do que este livro que estou a resenhar!

    Isso só demonstra como Lovecraft se tornou uma área de interesse particular, dentro dos gêneros fantásticos e da literatura em geral. De certa forma, ele viveu como quis e pagou um alto preço por sua liberdade de pensamento, criação literária e estilo de vida. Mas quem poderia imaginar – a começar por ele mesmo – de que haveria este grau de popularidade, pesquisa, publicações e influência cultural tantos anos depois de sua morte.

Marcello Simão Branco