segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O Conto da Aia

 



    O Conto da Aia (The Handmaid´s Tale), Margaret Atwood. Tradução: Ana Deiró. Capa: Laurindo Feliciano. 366 páginas. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. Lançamento original em 1985.

 

    Em algum momento do fim do século XX uma teocracia totalitária é instalada nos Estados Unidos. O próprio país é renomeado, agora é a República de Gilead. O presidente é assassinado e o Congresso invadido e metralhado. O grupo que assume o poder suspende a Constituição, “para garantir a ordem”, promete eleições para breve, mas claro, fortalece e institucionaliza um novo regime político. Ocorrem protestos e manifestações, mas como o grau de violência do regime é muito alto, elas acabam diminuindo.

    Em resumo este é o arcabouço político deste mundo sombrio. Mas isso é só a superfície, se posso colocar assim, de um contexto social tenebroso, e que tem o seu eixo de funcionamento sobre a condição da mulher. É uma teocracia fortemente patriarcal, baseada em algumas passagens do Velho Testamento, e que retira os direitos civis, ou mais que isso, humanos, das mulheres. Elas passam a depender de uma ordem que as condiciona a serem servidoras do regime, em várias categorias. Algumas, mais bem posicionadas ou mais velhas, como participantes secundárias, mas a grande maioria das mulheres é reduzida à condição de reprodutora, principalmente para substituir as mulheres mais velhas e inférteis da elite.

    Isso porque o que impulsionou o golpe de Estado e a instauração de uma nova ordem, baseada no mais rígido fundamentalismo do velho cristianismo – o que me lembra do que os talibãs tem feito às suas mulheres, numa odiosa teocracia baseada numa interpretação radical do islamismo – foi a crescente e generalizada queda de natalidade no país, que teria como causa principal doenças sexualmente transmissíveis – era a época do pânico causado pela Aids – e a contaminação tóxico-radiativa da água. Muitos homens também teriam ficado estéreis, mas toda a repressão recaiu sobre as mulheres, devido à sua condição desigual na sociedade, dos preconceitos historicamente justificados na Bíblia, e por ser ela, a única capaz de conceber um novo ser humano.

    A autora não reflete diretamente sobre isso, mas penso que a solução teocrática do fundamentalismo cristão possa ter sido inspirada na forte base puritana dos Estados Unidos, um país formado por egressos de perseguições religiosas, que criaram suas próprias comunidades, e que, a despeito, de terem institucionalizado um Estado centrado no laicismo e no direito individual, nunca abandonou suas raízes de intolerância e violência.

    A história é narrada em primeira pessoa por uma Aia (serva), que após tentar fugir com seu marido e filha, é capturada, deles separada e encaminhada para um local de doutrinação religiosa. Depois disso tudo, ela relata a sua chegada na casa de um Comandante. Um sujeito da elite, casado com uma mulher de meia-idade estéril, para que ela gere uma criança para o casal. Apesar da extrema opressão, de certa forma, as aias são valorizadas, pelo menos se bem sucedidas, pois à maioria das outras mulheres cabe a tarefa de empregadas nas casas dos ricos, doutrinadoras da fé teocrática, prostitutas – sim, há a revelação disso a certa altura da história – ou trabalhadoras braçais nas Colônias, onde o tempo médio de sobrevivência é de três anos, devido às condições escravizadas a que são submetidas.

    Offred, a aia do testemunho, que perdeu seu nome, assim como todas as outras, nos conta sua nova vida de forma íntima, sutil e comovente. Fico a pensar como que uma pessoa poderia sobreviver a tal nível de brutalidade? De certa forma, Offred – de Fred, o nome do Comandante – nos dá a resposta, quando fica sabendo que a aia anterior da casa havia cometido suicídio. Ela cogita fazer o mesmo, mas o que a impede é uma tênue e improvável esperança de rever sua filha, seu marido, sua mãe, ou Moira, sua melhor amiga.

    O Conto da Aia lembra 1984 na intensidade do regime totalitário e no grau de intimidade a que o leitor é colocado, pois as duas narrações ocorrem em primeira pessoa. Se o terror de Orwell é político, o de Atwood é religioso. Se no primeiro a perspectiva do oprimido é de um homem, neste é de uma mulher, e este talvez seja o principal diferencial em comparação a outras distopias. Também como em 1984, a teocracia de Gilead enfrenta uma guerra. Mas não se sabe se com inimigos internos ou externos. E nem se ela é real, servindo apenas como propaganda que justificaria um regime totalitário.

    O mais comum a todas estas distopias, contudo, é formar uma nova humanidade. Como se fosse possível recomeçar do zero. Assim, em 1984 temos a reescrita da História – sua falsificação – e no Conto da Aia, sua anulação, pois a própria linguagem escrita é proibida. Livros, revistas, jornais, panfletos, publicidade, são destruídos. Claro que a elite continua a hipocritamente ter algum acesso ao que sobrou de tudo isso. Mas ao povo em geral, pune-se de formas severas como, por exemplo, amputação da mão a quem for pego de forma reincidente com um texto escrito.

   Numa sociedade como essa, para se criar uma nova humanidade, é preciso desumanizá-la, e reduzi-la a um só código de comportamento moral, rígido e violentamente controlado. Passa a ser uma existência pobre e triste, pois tudo é pecaminoso e ameaçador à nova ordem. Vive-se com desconfiança e medo de tudo, e o melhor a fazer é ficar calado e obedecer. Esta é a realidade como descrita de forma pungente por Offred, o que nos faz se compadecer de seu drama e nos indignar com esta ordem de terror. Que expõe diariamente sua barbárie ao exibir publicamente, num muro que circundava uma antiga universidade, corpos de infratores executados.

    Assim, Offred nos fala de sua nova rotina extremamente controlada, seus medos, e esperanças, e o romance ainda extrai mais impacto porque entremeia o tempo presente, com “o tempo de antes”, suas memórias e da condição livre que possuía. Desta forma, ela nos conta, de uma perspectiva pessoal e de uma pessoa comum, o que levou ao estabelecimento deste regime horroroso, e como ela pode sobreviver a ele com alguma dignidade. Isso porque, ela não cedeu à lavagem cerebral do centro de doutrinação e retém em seu íntimo alguma rebeldia.

    Como uma jovem bonita, ela acaba por despertar o interesse do Comandante e também do motorista da casa. Mas ao medo inicial de ser denunciada, de certa forma, aprende a tirar alguma vantagem das relações proibidas com os dois. Até que, depois de descobrir que sua companheira de caminhada diária – sim ela podia sair para fora de casa por algumas horas, se em parceria com outra aia, principalmente para comprar alimentos para a casa –, desapareceu – ela, que lhe revelou a existência de uma organização de resistência chamada Mayday, sabe que sua presença na casa do Comandante pode estar com os dias contados.

    Ao fim incerto e aflitivo de Offred, a autora conclui com um capítulo metaficional, “Notas Históricas”, no qual um pesquisador explica que o relato que lemos foi encontrado em fitas cassete dentro de um cofre abandonado. Tudo isso é revelado no ano de 2195, já num regime político pós-Gilead, mais liberal e com os direitos civis e políticos recuperados. Mas que deixa transparecer os efeitos que deixou, não sendo mais a sociedade democrática de antes do terror.

    O Conto da Aia é um livro poderoso, das melhores distopias que já li e que nada fica a dever a clássicos como 1984 ou Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury. Como disse antes, a perspectiva da opressão à mulher é especialmente relevante, numa sociedade em que a luta por direitos e igualdade continua mundo afora. Mesmo nos países democráticos ocidentais, nos quais, principalmente nos últimos anos, movimentos conservadores questionam e tentar limitar os direitos das mulheres.

    Houve uma primeira edição no Brasil a esta da Rocco, A História da Aia, publicada em 1987 pela Marco Zero. E a obra foi justamente reconhecida, dentro e fora da comunidade da FC, tendo recebido o prêmio Arthur C. Clarke em 1987, e sido finalista do Nebula de 1986, além de ter levado, no âmbito do mainstream, o prêmio Governor General´s Award, no Canadá, seu país de origem, em 1985. Recebeu uma adaptação razoável ao cinema em 1990, chamada no Brasil de A Decadência de uma Espécie, e uma celebrada série de TV, entre os anos de 2017-2025. Talvez motivada pelo impacto da série, Atwood publicou em 2019 O Testamento (The Testaments), uma nova história passada 15 anos após os eventos da primeira, e que procura detalhar um pouco mais a vida de outras mulheres no interior do regime, principalmente as chamadas “tias”, as doutrinadoras das aias, bem como do que poderia ter acontecido com a protagonista da primeira história. Não tenho como não deixar de me interessar por conhecer esta nova obra, embora acredite que o essencial já esteja contido neste excepcional e muito necessário de ser lido, O Conto da Aia.

—Marcello Simão Branco