sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Operação Salvaguarda

 



  Operação Salvaguarda, Roberto Causo. Capa: Isabela Guerra. 172 páginas. Campinas: Flyve, 2026.

 

  Depois de oito anos Roberto de Sousa Causo volta a lançar um novo livro situado no universo ficcional Galaxis. O último havia sido o romance Mestre das Marés, pela Devir Livraria, em 2018 – resenha aqui. Tanto tempo, de certa forma, se relaciona com a mudança no rumo da editora, que encerrou suas coleções de FC, fantasia e horror após a morte do editor Douglas Quinta Reis em 2017.

  Operação Salvaguarda pertence à série “As Lições do Matador”, protagonizada por Jonas Peregrino. Em Galaxis surgiu depois uma outra série, “Shiroma, a Matadora Ciborgue”, protagonizada por Shiroma, uma ciborgue programada para matar e que também ganhou um livro próprio: Shiroma Matadora Ciborgue (Devir Livraria, 2015) - resenha aqui.

  Mas mesmo com o hiato destes anos Causo publicou contos sobre os dois personagens principais em revistas e coletâneas evitando que o intervalo fosse mais sentido. Assim, em Operação Salvaguarda reencontramos o soldado Jonas Peregrino – que a cada nova leitura se revela para mim como um alter-ego de Causo que, inclusive, serviu no Exército –, agora em ação às voltas com uma guerra civil no planeta Atacama, colonizado pela aliança latino-americana.

  Conforme mostrado em aventuras anteriores, estamos no século XXV com a humanidade espalhada por uma parte da Via-Láctea – principalmente na região conhecida como a Esfera – subdividida em quatro zonas de expansão, onde a aliança da América Latina compartilha espaço e disputa poder com a dos Norte-Americanos, dos Asiáticos e os Euro-Russos. Fica claro, portanto, que a despeito da humanidade não ter se unificado politicamente num só estado conseguiu colonizar parte da galáxia. E a perspectiva das histórias é a latino-americana, para ressaltar a luta e inserção desta região menos afluente e poderosa nos jogos de poder com as outras alianças.

  Nesta nova aventura, Jonas Peregrino tem a patente de tenente, cronologicamente antes, portanto, do primeiro romance Glória Sombria (2007) – ver resenha aqui – e de Mestre das Marés (2018), onde já é capitão. Neste sentido é interessante acompanhar parte do processo de desenvolvimento do soldado, que demonstra muita habilidade com os armamentos, determinação em suas ações e um sentido ético e de justiça rigorosos, o que o distingue em suas atitudes, tanto para resolver as missões em que se envolve como em, por vezes, contrariar decisões e interesses de seus superiores e de políticos por vezes envolvidos.

  Como os que ocorrem nos eventos que provocaram a guerra civil na colônia de Atacama. Designado para coordenar a evacuação dos civis dos locais de conflito, o tenente Peregrino recebe uma missão adicional de levar até um general uma mensagem que pode levar ao fim das hostilidades. Mas isso é só o começo porque quase nada é o que parece, pois militares graúdos e o líder de uma das facções em guerra teriam, na verdade, motivos ocultos para provocar um conflito armado. No caso, as duas facções em disputa são os bolivarianos – liderados por Orlando Madero Paz – e os extramaduranos. É que os dois grupos não chegaram a um acordo em como gerenciar recursos naturais valiosos, como minerais raros, essenciais para dispositivos eletrônicos de uso civil e militar. E que podem render uma fortuna e tornar a colônia de Atacama importante nos esquemas estratégicos entre os blocos políticos humanos. Os bolivarianos – de Paz – são contra a exploração comercial em larga escala e os extramaduranos a favor.

  Contudo, conforme Peregrino irá amargamente descobrir esta polarização é superficial, pois, na verdade, existe uma conspiração entre políticos e militares em associação com um grupo criminoso de origem asiática para se aproveitar dos recursos de forma escusa, nem que para isso milhares de pessoas sejam mortas.

  A novela retoma o tema da corrupção, vista antes em outras histórias e ao problematizá-la num contexto futurista, expõe possíveis problemas econômicos e geopolíticos que podem se acentuar nos dias de hoje a partir da necessidade crescente das terras raras e minerais críticos. E no qual, vejam só, o Brasil tem a segunda reserva mundial. Soma-se, assim, aos tantos recursos naturais mais este fazendo do nosso país uma peça estratégica chave nos jogos de poder mundiais. Só espero que estejamos à altura de mais este desafio.

  Operação Salvaguarda tem muita ação de combate, talvez mais do que os anteriores, no qual Peregrino tem sua vida colocada em risco iminente de página a página. Este ritmo de ação intenso torna a leitura também tensa, prendendo o leitor, por assim dizer, à leitura. O romance anterior Mestre das Marés também teve este perfil, mas por ser maior, pôde reduzir um pouco esta sensação, onde tiroteios e explosões são quase uma constante. A este panorama mais bélico é contraposto os valores éticos de Peregrino, tanto em sua atuação como soldado, como pelas descobertas que vai encontrando, com uma decepção com políticos e militares que só faz crescer, tornando-o se não cínico, ávido em contribuir para reparar as injustiças e punir os culpados.

  Nesta novela, em particular, a narrativa não é linear. Vai e volta em torno dos acontecimentos, o que exige uma dose a mais de concentração do leitor. Se num primeiro momento pode soar um pouco confusa, também por causa da grande quantidade de informações sobre armas e equipamentos, devido à força da história esta estrutura narrativa termina por se justificar, estabelecendo uma espécie de mosaico que, em si, dialoga com as tramoias corruptas que emergirão no desenrolar. Um detalhe curioso é que alguns personagens e equipamentos militares foram nomeados em referências a pessoas do fandom. Esta prática não é incomum na FC em geral, embora pouco praticada na nossa, e serve como uma espécie de homenagem ou piada interna quase cifrada, que poucos perceberão. Mas é divertido.

  Importante é que embora Operação Salvaguarda anteceda histórias já publicadas, pode ser lida de forma autônoma, porque é uma aventura com interesse específico e no qual questões candentes de nossa própria realidade atual – como já dito – são discutidas em chave de space opera militar.

  Causo tem se debruçado por praticamente duas décadas no universo Galaxis, colocando em perspectiva especulações relevantes sobre a conquista do espaço e o futuro político da humanidade. E a partir disso de suas relações com os recursos naturais e com a ameaça eventual de novas formas de vida na galáxia, como a misteriosa civilização dos tadais e seus temíveis soldados robôs, que são apenas citados brevemente nesta aventura, mas se tornarão centrais em histórias posteriores. E em todas elas, a figura íntegra de Jonas Peregrino serve de norte para a reflexão, principalmente, sobre os valores da justiça, do meio-ambiente e do que realmente pode dar sentido a uma vida mais decente, menos gananciosa e mais humana.

—Marcello Simão Branco


Astromemórias e SuBlinha



  Astromemórias, Roteiro e desenhos: Beralto. Apresentação: Henrique Magalhães. 62 páginas. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2026.

 

  Tomei conhecimento das histórias de quadrinhos de Beralto através do fanzine Juvenatrix, do amigo e fanzineiro de longa data Renato Rosatti. Este zine publica quadrinhos regularmente, embora não seja um zine de quadrinhos. E o gênero que mais publica é o horror. O artista Angelo Júnior, por exemplo, publica muitas HQs e capas no zine. Mas Beralto é diferente do habitual, e mesmo dentro do gênero que exercita, a ficção científica. E que me chamou a atenção também e principalmente pelo estilo e enfoque de suas histórias.

  Assim, por meio de um anúncio no próprio Juvenatrix, resolvi adquirir o álbum Astromemórias, em que o autor reúne um conjunto admirável destas HQs de estilo de traços suaves e limpos e com um enfoque físico-filosófico surpreendente. Tanto por explorar esta conexão que, afinal, está na raiz da própria Física ainda antes dela ter priorizado de forma inevitável a linguagem matemática para interpretar e perscrutar a realidade natural do universo, como também pela veia poética e existencial embutida. O que, de certa forma, traz de volta o conhecimento da Natureza para suas origens filosóficas.

  E a linha de condução desta conexão é uma inspirada poesia. Por meio dela estas discussões existenciais ganham relevo e levam longe a imaginação e especulação do leitor. A minha, pelo menos, trilhou estes caminhos. Alguns com sensações até inesperadas, dado o grau de acurada especulação e senso crítico do autor.

  O álbum contém 11 histórias, algumas mais curtas como, por exemplo, “Anatomia da Probabilidade”, “Vento Solitário”, “Algoritmo da Alma”, e a maioria mais extensas e onde Beralto desenvolve com mais vigor estas conexões especulativas eivadas de uma poesia filosófica e especulações sobre a condição quântica da realidade e do quanto ela pode vir a estabelecer alguma sabedoria e maturidade à frágil e caótica condição humana. Tão centrada em resultados materiais de curto prazo, cercada de dúvidas e motivada por ilusões e competições que não passam de vaidade diante da solidão e insegurança que a move. Nesta linha temos HQs notáveis como, por exemplo: “O Mergulhador Quântico”, “Tecelão do Espaço-Tempo”, “Cartógrafa de Silêncios”, “O Protocolo de Carbono”, “O Último Orbital”.

  Beralto atua no cenário dos quadrinhos nacionais desde meados dos anos 1980, já tendo publicado em vários zines e revistas nacionais. E é o nome artístico de Adalberto Carlos Paula de Sousa, que trabalha como coordenador da Fanzinoteca, do Instituto Federal Fluminense, na cidade de Macaé, Rio de Janeiro. E eu, como fanzineiro de origem dentro do fandom de FC, quero algum dia conhecer este lugar especial.

  Como bônus, o autor enviou gentilmente a HQ Djahoje n. 1, em formato de tira, no qual um alienígena chega à Terra e se depara com as curiosidades e contradições dos seres humanos. Uma FC ufológica que nos faz rir de nós mesmos.

  Em suma, com Astromemórias Beralto se insere na rica tradição poético-filosófica da FC, que reúne craques como Alejandro Jororowsky, Moebius (1938-2012) e brasileiros como Gazi Andraus e Edgar Franco – este inclusive capista de algumas edições do meu fanzine Megalon. E Beralto mantém o nível ao renovar esta tradição por sua hábil conexão do existencialismo poético de suas ideias e a vinculação com a expressão quântica da realidade.

 ***



  SuBlinha, Roteiro e desenhos: Beralto. 88 páginas. Com a participação de Edgar Franco e Sandro Leonardo. 88 páginas. Macaé: Edição do autor, 2026.

 

  Esta outra obra apresenta, pelo que me pareceu, apenas trabalhos inéditos, ou com maioria nesta condição. A proposta é, basicamente, a mesma, ou seja, histórias com alta carga filosófica existencialista num contexto de ficção científica. E talvez para acentuar ainda mais, conta com a presença de Edgar Franco – que também assina como Ciberpajé –, talvez o nome mais expressivo dos quadrinhos brasileiros de FC poético-filosófica.

  Beralto também explica que SuBlinha se trata não de um álbum, mas de um albunzine, porque conectado diretamente do autor para o leitor, sem filtro ou intermediário editorial. E por ele se reconhecer, antes de mais nada, como um artista do ambiente do fã. Que faz da prática de fanzinar uma expressão de suas ideias e de sua arte. E em consonância a isso apresenta trabalhos ainda mais viscerais e exploratórios do que Astromemórias.

  Pois SubLinha explora mais futuros e destinos sombrios e incertos e, desta forma, mais abertos a experiências ainda mais provocativas a respeito da condição da existência humana num universo que lhe é indiferente. Pois, no fundo, o que confere sentido à vida e tudo ao redor somos nós mesmos, numa expressão do que é ser humano.

  Temos 16 histórias interessantes por nos mergulharem num processo de suspensão da descrença – como típico da FC – e especulações sobre a existência, a vida e o sentido da realidade como a percebemos. Assim como em Astromemórias, mas com mais variações temáticas, o leitor é convidado a viajar por essas possibilidades. E se estiver disposto ao novo e ao diverso, e como sugere a boa FC, o resultado é um sentimento de devaneio e enlevação sobre os temas explorados. O que não é pouca coisa, pois se trata, em chave de FC, de questões profundas sobre a vida e a realidade.

 Algumas das histórias merecem mais destaque como, por exemplo, “A Sereia Gravitacional”, “O Ciclo Quebrado”, “Uma Manhã Perfeita” – com roteiro de Ciberpajé –, “O Buraco Negro que Escutava”, “O Guardião do Silêncio”, e as excepcionais “Areia e Pedra” e “O Último Horizonte.”

  Histórias em quadrinhos como estas merecem ser conhecidas e apreciadas por um público mais amplo, embora a produção editorial deste albunzine não deva nada em termos de qualidade de edição. E neste sentido, tanto SuBlinha, como Astromemórias são duas das mais gratas surpresas que tive nos últimos anos no cenário dos quadrinhos brasileiros, e da nossa FC em particular.

—Marcello Simão Branco