Astromemórias,
Roteiro e desenhos: Beralto. Apresentação: Henrique Magalhães. 62 páginas. João
Pessoa: Marca de Fantasia, 2026.
Tomei conhecimento das
histórias de quadrinhos de Beralto através do fanzine Juvenatrix, do amigo e fanzineiro de longa data Renato Rosatti.
Este zine publica quadrinhos regularmente, embora não seja um zine de
quadrinhos. E o gênero que mais publica é o horror. O artista Angelo Júnior,
por exemplo, publica muitas HQs e capas no zine. Mas Beralto é diferente do
habitual, e mesmo dentro do gênero que exercita, a ficção científica. E que me
chamou a atenção também e principalmente pelo estilo e enfoque de suas
histórias.
Assim, por meio de um
anúncio no próprio Juvenatrix,
resolvi adquirir o álbum Astromemórias,
em que o autor reúne um conjunto admirável destas HQs de estilo de traços
suaves e limpos e com um enfoque físico-filosófico surpreendente. Tanto por
explorar esta conexão que, afinal, está na raiz da própria Física ainda antes
dela ter priorizado de forma inevitável a linguagem matemática para interpretar
e perscrutar a realidade natural do universo, como também pela veia poética e existencial
embutida. O que, de certa forma, traz de volta o conhecimento da Natureza para
suas origens filosóficas.
E a linha de condução
desta conexão é uma inspirada poesia. Por meio dela estas discussões
existenciais ganham relevo e levam longe a imaginação e especulação do leitor.
A minha, pelo menos, trilhou estes caminhos. Alguns com sensações até
inesperadas, dado o grau de acurada especulação e senso crítico do autor.
O álbum contém 11
histórias, algumas mais curtas como, por exemplo, “Anatomia da Probabilidade”, “Vento
Solitário”, “Algoritmo da Alma”, e a maioria mais extensas e onde Beralto
desenvolve com mais vigor estas conexões especulativas eivadas de uma poesia filosófica
e especulações sobre a condição quântica da realidade e do quanto ela pode vir
a estabelecer alguma sabedoria e maturidade à frágil e caótica condição humana.
Tão centrada em resultados materiais de curto prazo, cercada de dúvidas e
motivada por ilusões e competições que não passam de vaidade diante da solidão
e insegurança que a move. Nesta linha temos HQs notáveis como, por exemplo: “O
Mergulhador Quântico”, “Tecelão do Espaço-Tempo”, “Cartógrafa de Silêncios”, “O
Protocolo de Carbono”, “O Último Orbital”.
Beralto atua no cenário
dos quadrinhos nacionais desde meados dos anos 1980, já tendo publicado em
vários zines e revistas nacionais. E é o nome artístico de Adalberto Carlos
Paula de Sousa, que trabalha como coordenador da Fanzinoteca, do Instituto
Federal Fluminense, na cidade de Macaé, Rio de Janeiro. E eu, como fanzineiro
de origem dentro do fandom de FC,
quero algum dia conhecer este lugar especial.
Como bônus, o autor enviou
gentilmente a HQ Djahoje n. 1, em
formato de tira, no qual um alienígena chega à Terra e se depara com as
curiosidades e contradições dos seres humanos. Uma FC ufológica que nos faz rir
de nós mesmos.
Em suma, com Astromemórias Beralto se insere na rica tradição
poético-filosófica da FC, que reúne craques como Alejandro Jororowsky, Moebius (1938-2012)
e brasileiros como Gazi Andraus e Edgar Franco – este inclusive capista de
algumas edições do meu fanzine Megalon. E Beralto mantém o nível ao renovar
esta tradição por sua hábil conexão do existencialismo poético de suas ideias e
a vinculação com a expressão quântica da realidade.
***
SuBlinha,
Roteiro e desenhos: Beralto. 88 páginas. Com a participação de Edgar Franco e
Sandro Leonardo. 88 páginas. Macaé: Edição do autor, 2026.
Esta outra obra
apresenta, pelo que me pareceu, apenas trabalhos inéditos, ou com maioria nesta
condição. A proposta é, basicamente, a mesma, ou seja, histórias com alta carga
filosófica existencialista num contexto de ficção científica. E talvez para
acentuar ainda mais, conta com a presença de Edgar Franco – que também assina
como Ciberpajé –, talvez o nome mais expressivo dos
quadrinhos brasileiros de FC poético-filosófica.
Beralto também explica
que SuBlinha se trata não de um
álbum, mas de um albunzine, porque conectado diretamente do autor para o
leitor, sem filtro ou intermediário editorial. E por ele se reconhecer, antes
de mais nada, como um artista do ambiente do fã. Que faz da prática de fanzinar uma expressão de suas ideias e
de sua arte. E em consonância a isso apresenta trabalhos ainda mais viscerais e
exploratórios do que Astromemórias.
Pois SubLinha explora mais futuros e destinos sombrios e incertos e,
desta forma, mais abertos a experiências ainda mais provocativas a respeito da
condição da existência humana num universo que lhe é indiferente. Pois, no
fundo, o que confere sentido à vida e tudo ao redor somos nós mesmos, numa expressão
do que é ser humano.
Temos 16 histórias
interessantes por nos mergulharem num processo de suspensão da descrença – como
típico da FC – e especulações sobre a existência, a vida e o sentido da
realidade como a percebemos. Assim como em Astromemórias,
mas com mais variações temáticas, o leitor é convidado a viajar por essas
possibilidades. E se estiver disposto ao novo e ao diverso, e como sugere a boa
FC, o resultado é um sentimento de devaneio e enlevação sobre os temas explorados.
O que não é pouca coisa, pois se trata, em chave de FC, de questões profundas
sobre a vida e a realidade.
Algumas das histórias
merecem mais destaque como, por exemplo, “A Sereia Gravitacional”, “O Ciclo
Quebrado”, “Uma Manhã Perfeita” – com roteiro de
Ciberpajé –, “O Buraco Negro que Escutava”, “O Guardião do Silêncio”, e as
excepcionais “Areia e Pedra” e “O Último Horizonte.”
Histórias em quadrinhos
como estas merecem ser conhecidas e apreciadas por um público mais amplo,
embora a produção editorial deste albunzine não deva nada em termos de
qualidade de edição. E neste sentido, tanto SuBlinha,
como Astromemórias são duas das mais
gratas surpresas que tive nos últimos anos no cenário dos quadrinhos
brasileiros, e da nossa FC em particular.
—Marcello
Simão Branco


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