sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Astromemórias e SuBlinha



  Astromemórias, Roteiro e desenhos: Beralto. Apresentação: Henrique Magalhães. 62 páginas. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2026.

 

  Tomei conhecimento das histórias de quadrinhos de Beralto através do fanzine Juvenatrix, do amigo e fanzineiro de longa data Renato Rosatti. Este zine publica quadrinhos regularmente, embora não seja um zine de quadrinhos. E o gênero que mais publica é o horror. O artista Angelo Júnior, por exemplo, publica muitas HQs e capas no zine. Mas Beralto é diferente do habitual, e mesmo dentro do gênero que exercita, a ficção científica. E que me chamou a atenção também e principalmente pelo estilo e enfoque de suas histórias.

  Assim, por meio de um anúncio no próprio Juvenatrix, resolvi adquirir o álbum Astromemórias, em que o autor reúne um conjunto admirável destas HQs de estilo de traços suaves e limpos e com um enfoque físico-filosófico surpreendente. Tanto por explorar esta conexão que, afinal, está na raiz da própria Física ainda antes dela ter priorizado de forma inevitável a linguagem matemática para interpretar e perscrutar a realidade natural do universo, como também pela veia poética e existencial embutida. O que, de certa forma, traz de volta o conhecimento da Natureza para suas origens filosóficas.

  E a linha de condução desta conexão é uma inspirada poesia. Por meio dela estas discussões existenciais ganham relevo e levam longe a imaginação e especulação do leitor. A minha, pelo menos, trilhou estes caminhos. Alguns com sensações até inesperadas, dado o grau de acurada especulação e senso crítico do autor.

  O álbum contém 11 histórias, algumas mais curtas como, por exemplo, “Anatomia da Probabilidade”, “Vento Solitário”, “Algoritmo da Alma”, e a maioria mais extensas e onde Beralto desenvolve com mais vigor estas conexões especulativas eivadas de uma poesia filosófica e especulações sobre a condição quântica da realidade e do quanto ela pode vir a estabelecer alguma sabedoria e maturidade à frágil e caótica condição humana. Tão centrada em resultados materiais de curto prazo, cercada de dúvidas e motivada por ilusões e competições que não passam de vaidade diante da solidão e insegurança que a move. Nesta linha temos HQs notáveis como, por exemplo: “O Mergulhador Quântico”, “Tecelão do Espaço-Tempo”, “Cartógrafa de Silêncios”, “O Protocolo de Carbono”, “O Último Orbital”.

  Beralto atua no cenário dos quadrinhos nacionais desde meados dos anos 1980, já tendo publicado em vários zines e revistas nacionais. E é o nome artístico de Adalberto Carlos Paula de Sousa, que trabalha como coordenador da Fanzinoteca, do Instituto Federal Fluminense, na cidade de Macaé, Rio de Janeiro. E eu, como fanzineiro de origem dentro do fandom de FC, quero algum dia conhecer este lugar especial.

  Como bônus, o autor enviou gentilmente a HQ Djahoje n. 1, em formato de tira, no qual um alienígena chega à Terra e se depara com as curiosidades e contradições dos seres humanos. Uma FC ufológica que nos faz rir de nós mesmos.

  Em suma, com Astromemórias Beralto se insere na rica tradição poético-filosófica da FC, que reúne craques como Alejandro Jororowsky, Moebius (1938-2012) e brasileiros como Gazi Andraus e Edgar Franco – este inclusive capista de algumas edições do meu fanzine Megalon. E Beralto mantém o nível ao renovar esta tradição por sua hábil conexão do existencialismo poético de suas ideias e a vinculação com a expressão quântica da realidade.

 ***



  SuBlinha, Roteiro e desenhos: Beralto. 88 páginas. Com a participação de Edgar Franco e Sandro Leonardo. 88 páginas. Macaé: Edição do autor, 2026.

 

  Esta outra obra apresenta, pelo que me pareceu, apenas trabalhos inéditos, ou com maioria nesta condição. A proposta é, basicamente, a mesma, ou seja, histórias com alta carga filosófica existencialista num contexto de ficção científica. E talvez para acentuar ainda mais, conta com a presença de Edgar Franco – que também assina como Ciberpajé –, talvez o nome mais expressivo dos quadrinhos brasileiros de FC poético-filosófica.

  Beralto também explica que SuBlinha se trata não de um álbum, mas de um albunzine, porque conectado diretamente do autor para o leitor, sem filtro ou intermediário editorial. E por ele se reconhecer, antes de mais nada, como um artista do ambiente do fã. Que faz da prática de fanzinar uma expressão de suas ideias e de sua arte. E em consonância a isso apresenta trabalhos ainda mais viscerais e exploratórios do que Astromemórias.

  Pois SubLinha explora mais futuros e destinos sombrios e incertos e, desta forma, mais abertos a experiências ainda mais provocativas a respeito da condição da existência humana num universo que lhe é indiferente. Pois, no fundo, o que confere sentido à vida e tudo ao redor somos nós mesmos, numa expressão do que é ser humano.

  Temos 16 histórias interessantes por nos mergulharem num processo de suspensão da descrença – como típico da FC – e especulações sobre a existência, a vida e o sentido da realidade como a percebemos. Assim como em Astromemórias, mas com mais variações temáticas, o leitor é convidado a viajar por essas possibilidades. E se estiver disposto ao novo e ao diverso, e como sugere a boa FC, o resultado é um sentimento de devaneio e enlevação sobre os temas explorados. O que não é pouca coisa, pois se trata, em chave de FC, de questões profundas sobre a vida e a realidade.

 Algumas das histórias merecem mais destaque como, por exemplo, “A Sereia Gravitacional”, “O Ciclo Quebrado”, “Uma Manhã Perfeita” – com roteiro de Ciberpajé –, “O Buraco Negro que Escutava”, “O Guardião do Silêncio”, e as excepcionais “Areia e Pedra” e “O Último Horizonte.”

  Histórias em quadrinhos como estas merecem ser conhecidas e apreciadas por um público mais amplo, embora a produção editorial deste albunzine não deva nada em termos de qualidade de edição. E neste sentido, tanto SuBlinha, como Astromemórias são duas das mais gratas surpresas que tive nos últimos anos no cenário dos quadrinhos brasileiros, e da nossa FC em particular.

—Marcello Simão Branco


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