segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O Passa-Paredes

O Passa-Paredes (Le pasie-muraille), de Marcel Aymè. Tradução e orelhas: Fernando Py. Capa: Ipojucan. 162 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, Coleção Mestres do Horror e da Fantasia, 1982. Lançamento original de 1943.


Marcel Aymè (1902-1967), escritor pouco notado no Brasil, se destacou principalmente em seu país, a França, na segunda metade do século passado. Chama a atenção nesta coletânea de dez histórias, uma prosa limpa e coloquial, o humor e a fina ironia, um trânsito muito competente entre o cotidiano e o fantástico, além do caráter crítico ao seu tempo. Época dramática, em plena ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O conto “O Passa-Paredes”, que dá nome à coletânea, é o primeiro da lista e um dos momentos mais brilhantes. Nele, um modesto funcionário de uma repartição pública descobre, por acaso, que tem o poder de atravessar corpos sólidos. Após o espanto, que o leva, inclusive a procurar um médico – e que lhe receita uns comprimidos! –, se acostuma e passa a tirar proveito da situação. Não demora para que aflore outra parte de sua personalidade. Se torna um exímio assaltante que deixa bilhetinhos com o apelido Garou-Garou. Isso pega no imaginário do povo e ele se torna muito conhecido, para desmoralização da polícia. Acaba preso, mas sempre escapa… A história se tornou tão popular que ganhou até uma estátua em Paris – ver imagem abaixo –, e recebeu três adaptações no cinema (duas francesas e uma alemã), e uma minissérie na TV do seu país em 2016. Outra história sobre o mesmo tema do qual me lembro é o filme "Quarta Dimensão" (4D Man; 1959), de Irwin S. Yeaworth. Baseado num roteiro de Theodore Sturgeon, ao contrário do conto do francês, procura dar uma justificativa científica ao fenômeno de pessoas trespassarem objetos sólidos. É um filme de FC competente, mas sem a aura de meio de não se levar muito a sério de Aymé, o que garante a este parte do seu encanto.

Outra história insólita e divertida é “As Sabines”, no qual uma jovem possui o dom da ubiquidade. Como no conto anterior, ela se rende à tentação. Casada, mas entediada, arruma um amante atrás do outro. E não só em Paris, mas em Londres, e mundo afora. Chega a conviver com centenas ao mesmo tempo! É uma história que, mais que a anterior, flerta com o absurdo, ainda mais acentuado pelo tom humorístico – e ao mesmo tempo sarcástico – sobre o comportamento humano.

Em dois outros contos, Aymè explora a questão da ética religiosa e o valor da doutrina cristã. Em “A Lenda Poldova” e “O Oficial de Justiça”, o sobrenatural se insere na chegada ao céu de uma beata – no primeiro conto –, e de um, justamente, oficial de justiça, no segundo. Ambos, por motivos diferentes, têm dificuldades em serem aceitos por São Pedro no Paraíso – no segundo conto até Deus é chamado para resolver a controvérsia que se instala quando o oficial de justiça não é aceito, exatamente por exercer de forma corretíssima o seu trabalho, o que ocasionou a miséria e a humilhação de muita gente. Já o motivo da vetusta cristã não ser aceita, é que como era tempo de guerra, priorizou-se permitir a entrada dos mortos em batalha. Assim, quando ela morre de uma doença, ela é barrada e não se conforma, por ter sido sempre um exemplo de retidão e caridade. Mas quando descobre que o seu sobrinho ladrão e estuprador, morto na guerra, é aceito ela resolve dar um jeito nem um pouco ético de adentrar no céu.

O tom mais socialmente crítico é ainda mais acentuado, e sem o fantástico, na tocante noveleta “As Botas de Sete Léguas”, sobre a convivência de um menino pobre com colegas mais ricos em uma escola, a partir do desejo de todos de comprar as botas do título. Mas, do ponto de vista do fantástico e, principalmente, do subgênero da FC da viagem no tempo, duas outras histórias que se destacam: “O Cupom do Tempo” e “O Decreto”.

No primeiro, devido à crise econômica e escassez de alimentos, o governo baixa uma lei que delimita o tempo de vida de cada pessoa em cada mês. O critério é o da relevância da profissão de cada um. Claro, tudo muito arbitrário. Assim, tem gente que vai viver 5 dias, outros 10, e alguns o mês inteiro. Nos dias faltantes as pessoas ‘morrem’, ou seja, literalmente evaporam, para reaparecer no mês seguinte. Na história, acompanhamos as desventuras de um professor que teve sua vida reduzida à metade por mês. Embora não haja explicação de como tal situação seja possível – o que afasta o conto da FC e o vincula ao fantástico –, lembra o romance O Mundo de um Só Dia (Dayworld; 1985), de Philip José Farmer (1918-2009). Neste livro, o problema da superpopulação é contornado, ao se fazer cada pessoa viver só um dia por semana. Nos outros dias, ela fica em animação suspensa.

Já no conto “O Decreto”, a situação temporal que se manifesta é o do avanço dos anos. De novo, é o governo que baixa uma medida que adiante em 17 anos o calendário. Ou seja, de 1942 salta-se para 1959. Ação esdrúxula e sem efeito, não? Não, porque após a mudança, as pessoas despertam, efetivamente, mais velhas e com suas vidas alteradas, para melhor ou pior a depender de cada um. O mais insólito, contudo, é o que passa um funcionário público ao visitar um amigo que vive numa chácara, nos arrabaldes de Paris. Após uma forte chuva ele se perde e se depara com a presença de soldados alemães. Incrédulo no início, fica chocado ao descobrir que seu país está novamente invadido. Mas não: ele voltou a 1942. Tenta achar o caminho de volta para Paris, mas mesmo lá constata que os nazistas governam o país. Ele mesmo se pergunta se voltou mesmo à sua época ou se este seria um universo paralelo em que a guerra não terminou, apesar dele voltar a ser jovem novamente. É a melhor narrativa da coletânea e no que, Aymè, que escreveu estes contos durante a ocupação nazista, elocubra de forma instigante e angustiada uma saída para a humilhação e o pesadelo.

O conto que conclui a coletânea é “Esperando” e destoa dos outros. Isso porque mostra que a Segunda Guerra durou até 1972, e o povo passava por doenças e fome. Numa fila para receber pão, várias pessoas contam sua história triste e como suas vidas se tornaram miseráveis e sem esperança por causa do conflito. É uma história bem triste e mostra que, no fim das contas, Aymè se rendeu ao pessimismo pelo qual vivia a França no início dos anos 1940.

Afora esta ótima coletânea, o autor publicou muito durante as décadas de 1940 a 1960, quando faleceu. Muitos romances, contos, peças de teatro e roteiros para cinema, no qual o elemento fantástico vez por outra se tornava um meio de exploração da narrativa. No Brasil, além de O Passa-Paredes, teve publicado os infanto-juvenis A Égua Verde (Le jument verte; 1933), pela Record em 1968; Histórias do Gato Sentado (1972), pela Ediouro, e Os Bois (sem data), pela Anhambi, também sem data. E o romance O Sobrado (La maison basse; 1935), pela editora Pontes, em 2004.

Aymé mostra nesta coletânea que uma virtude da arte de escrever e contar histórias é, por meio de uma prosa simples e despojada, envolver o leitor e o fazer refletir sobre questões sensíveis e próximas a cada um de nós. E com o adicional, neste livro ao menos, de usar o recurso do fantástico e do sobrenatural para acentuar os problemas e contradições da condição humana e social. Um autor que merece mais atenção. No campo do fantástico e em geral.

—Marcello Simão Branco


sexta-feira, 15 de julho de 2022

O Auto da Maga Josefa

O Auto da Maga Josefa, Paola Siviero. Capa e ilustrações internas: Vito Quintans. 221 páginas. Belo Horizonte: Autêntica/Gutenberg, 2021.

 


O escritor Jeronymo Monteiro (1908-1970) afirmou na introdução de sua antologia clássica O Conto Trágico (1960), que quando realizou a pesquisa, se surpreendeu com uma dificuldade em encontrar histórias de horror de autores nacionais, pois imaginava que pelo fato do brasileiro ser tão crente e místico, existiriam em profusão.

Como eu e Cesar Silva dissemos em “Trajetória e Caracterização de uma Ficção de Horror Brasileira”, introdução da antologia As Melhores Histórias Brasileiras do Horror (2018), esta dificuldade não está relacionada ao enorme imaginário místico e sobrenatural do brasileiro, mas a uma certa resistência e desestimulo do ambiente literário e editorial em incentivar o seu desenvolvimento.

Em todo caso, nossos autores sempre escreveram histórias de horror e fantástico em grande quantidade, muitas vezes inseridas em outros contextos e com outras classificações, digamos, literariamente mais ‘nobres’. Mas conforme comprovamos em nossa antologia – e outras recentemente montadas – há um corpus sólido de obras importantes que consolidam o horror brasileiro como um gênero não só bastante praticado, mas com indiscutível qualidade.

Pois, ao ler este O Auto da Maga Josefa esta constatação só foi reforçada. Esta coletânea de contos interligados, ou se quiserem, um romance fix-up, é uma das melhores leituras de horror e fantástico brasileiro dos últimos anos. Talvez destas duas décadas do século XXI.

Paola Siviero apresenta um mundo encantado e assustador que não está longe de nós, embora se apresente de forma surpreendente e, por vezes, assustadora. Estou me referindo ao Nordeste, a região historicamente mais pobre do Brasil, atrasada economicamente, corrompida politicamente e amaldiçoada – o termo cabe neste contexto – em termos climáticos. Isso sem falar no preconceito que o povo nordestino tem de lidar com os das regiões economicamente mais desenvolvidas, do Sul e do Sudeste.

A autora mostra como, num lugar historicamente tão desfavorável, as explicações fantásticas e sobrenaturais fazem mais sentido. É como se as aventuras do caçador de demônios Toninho, da maga Josefa – filha do capeta – e de Véia, uma mula secular, nos mostrasse o Brasil do passado, do horror com a marca rural do século XIX e início do XX. Mas também de como este Brasil dos grotões, da miséria material e do infortúnio do destino, ainda existe, mesmo que as histórias ocorram no início dos anos 1960.

Em suas primeiras aventuras como caçador, Toninho conhece Josefa, uma mulher misteriosa e poderosa. Que impõe respeito e temor. Juntos, cada qual com seu motivo particular, decidem juntar forças para enfrentar os seres e eventos sobrenaturais e fantásticos que se misturam à realidade do interior do Nordeste. Em dez narrativas, perambulam pelo sertão e pelo agreste, lidando com destemor e alguma imprudência com lobisomem, zumbi, vampira, dragão, gênio, golem, chupa-cabra, o próprio diabo, entre outros seres fantásticos e malignos que levam o pânico e a desgraça ao povo simples, para o qual não há uma linha de separação entre o mundo dito natural e o sobrenatural. Como que a explicar a própria dureza de suas vidas, os eventos e os próprios seres fazem parte de seu imaginário e sua realidade.

Se numa coletânea há sempre alguns contos melhores e outros nem tanto, em O Auto da Maga Josefa é difícil fazer esta distinção. O nível médio das aventuras de Toninho e Josefa é muito bom. Histórias de horror e fantástico em que a maior qualidade está no equilíbrio entre a criatividade, a prosa limpa e fluente, a verossimilhança dos lugares e das pessoas, e uma boa dose de bom humor. Sim, apesar de estarmos diante de situações muitas vezes violentas e assustadoras, o relacionamento entre Josefa, Toninho e Véia é engraçado, dadas as particularidades de cada personagem, muito bem construídos em suas motivações e angústias. Principalmente a maga Josefa que, para além da profissão em si, tem uma justificativa pessoal, uma missão do qual depende seu próprio destino quando deixar este mundo.

Em sua “Nota da autora”, Siviero conta que este conjunto de histórias nasceu de uma provocação num debate entre escritores. De provar que seria possível escrever histórias fantásticas e de horror com personagens e temas brasileiros. Ora, esta é uma velha questão, defendida de forma arrojada dentro de um subgênero da ficção especulativa, a ficção científica. Do fim dos anos 1980 para cá, com o lançamento do Movimento Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, de Ivan Carlos Regina, toda uma geração de autores enveredou por esta linha. De certa forma, é até surpreendente que na segunda década do século XXI ainda paire na concepção de alguns autores uma dúvida como esta. Mas, em todo caso, assim como já feito antes não só na FC, mas também no horror e na fantasia, este O Auto da Maga Josefa comprova a viabilidade desta proposta. Aliás, mais que isso: mostra que esta é a melhor concepção para a construção de uma ficção especulativa brasileira de qualidade e relevância para a nossa história e cultura, além de trazer também uma voz própria do que nós podemos mostrar como uma verve brasileira para o fantástico. Pois para um autor alcançar a universalidade com sua literatura (ou arte) nada melhor do que abordar a sua realidade, o seu entorno, a sua história, o seu povo.

A primeira edição de O Auto da Maga Josefa saiu pela pequena editora Dame Blanche, especializada em publicar jovens autores brasileiros nos gêneros fantásticos, e o êxito ao ser premiada em 2019 com o Le Blanc e o Odisseia Fantástica, além de ser finalista do Argos – os três principais prêmios da literatura fantástica brasileira – levou a editora Autêntica a se interessar em relançar a obra. Aliás, é uma edição muito bonita, com a ilustração de capa e a de cada história a cargo do talento de Vito Quintans. Vale a pena adquirir esta edição também porque há um bônus: um livrinho no formato do cordel com mais uma aventura, “Conjurações e Terra Seca”, que se passa, inclusive, cinco anos depois da última história do livro – e claro, com inspiradas ilustrações de Quintans.

Fico a pensar que as aventuras de Josefa e Toninho poderiam render muitas outras histórias – como num seriado –, pois o potencial do fantástico e do sobrenatural sugerido neste universo ficcional nordestino é inesgotável. Mas seja por qual projeto Paola Siviero optar, acredito que a chance dela nos brindar com outras boas histórias é muito grande. Pois sua maior virtude é ser uma ótima contadora de histórias.

—Marcello Simão Branco

 


sexta-feira, 17 de junho de 2022

Invasão!

Invasão! (Footfall), de Larry Niven e Jerry Pournelle. Tradução: Ana Paula Simões Silva. Capa: Antônio Jeremias. 649 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica, n. 45, 1989. Lançamento original de 1985.

 


Este é, provavelmente, o maior romance sobre o tema da invasão alienígena já escrito. São quase 700 páginas na versão brasileira, ante 495 da norte-americana. Este tamanho não é casual, pois a proposta dos autores é contar uma história de tons épicos, ao mesmo tempo dramática e realista, apesar de ser ficção científica.

Em maio de 1995 astrônomos baseados no Havaí percebem que há uma nave alienígena em direção à Terra. Na verdade, os extraterrestres se estabeleceram no Sistema Solar em setembro de 1976, quando orbitaram o Sol e se dirigiram para uma lua de Saturno, onde ficaram escondidos. Ocultos, terminaram pacientemente os preparativos para o objetivo final da missão: invadir e viver em outro planeta, a Terra, escolhida por dois motivos práticos. O planeta que oferece as condições de vida mais semelhantes à de seu mundo na estrela mais próxima. Que ele já seja habitado, não é objeto de consideração moral por parte deles. Se irão alterar ou destruir formas de vida do planeta e, mesmo, modificar sua própria atmosfera.

Os fithp, seres semelhantes a filhotes de elefantes, com duas trombas frontais e couraças nas costas, se locomovem de forma ereta, chegando a cerca de três metros. São originários de um planeta de Alfa Centauri, a estrela mais próxima da Terra, planeta que eles chamam de Winterhome. Resolveram deixar seu habitat, chamado por eles de Homeworld, por causa de uma guerra global em que os que perderam tiveram como punição o exílio. Isso, apesar de, como eles dizem, a vida ter ficado inviabilizada em seu mundo. Viajaram numa nave gigantesca, com cerca de 2.500 km de extensão e 600 m de largura, se dividindo em duas categorias: os sleepers (os que saíram do planeta) e os spaceborn (os que nasceram na própria nave durante a viajem e a conduziram a seu destino), também chamados de o rebanho viajante. A missão começou, pelo tempo da Terra, em 1915. Ou seja, levaram 80 anos para completá-la.

A descoberta da chegada de uma civilização extraterrestre é explorada de forma verossímil, numa mistura de grande expectativa e incerteza. Quem são eles? De onde são e por que vieram? Seriam pacíficos ou não? No mundo de Niven & Pournelle a Terra ainda vive a Guerra Fria, com grande rivalidade entre os EUA e a URSS. E em parte devido a este contexto conflitivo, não se constrói uma convergência comum para lidar com a questão, tão inédita como potencialmente perigosa. Alguns políticos e militares – de ambos os lados – chegam mesmo a achar que um dos lados poderia se aliar com os alienígenas, e propõe até um ataque nuclear preventivo contra o inimigo. Por cerca da metade do livro, militares e políticos dos dois lados planejam suas duplas estratégias: 1) como lidar com o possível invasor? e 2) como lidar com o inimigo interno? Mas com a iminente chegada dos fithp, um deputado norte-americano – entusiasta da exploração do espaço –, é convidado para ir à Kosmograd, a estação orbital soviética, que serviria como primeiro elo de contato com os visitantes.

Em abril de 1995 a Thuktun Flishthy parte da lua de Saturno e, um mês depois, chega à Terra. Destrói a Kosmograd e não responde às tentativas de comunicação humana que, aliás, já estavam sendo feitas desde a sua descoberta. Com isso, para espanto e choque, a humanidade percebe que está sendo invadida, e nada mais será como antes em sua história.

Como já dito, é um romance massivo e que dá voz a dezenas de personagens – tem até uma lista deles e que não inclui todos! São muitas situações e histórias de vida entremeadas, numa estrutura de enredo que lembra o de uma telenovela. Até a invasão propriamente dita, por exemplo, cerca de um terço é dedicado às estratégias de mobilização e às vidas cotidianas de várias pessoas. É, assim, uma espécie de romance mosaico que tira sua força, principalmente, do tema maior, mas com particularidades da vida de pessoas comuns, algumas delas desnecessárias.

Contudo, o tipo de invasão dos fithp não é dos mais convencionais. Eles estabelecem sua supremacia do espaço. Com sua poderosa nave e dezenas de outras menores, disparam raios laser para destruir a infraestrutura e as instalações militares, principalmente dos EUA e da URSS. Assim, estradas, pontes, represas, sistemas de comunicação e energia são dizimados. Isso desestabiliza quase totalmente a rede de comando militar e a presença do Estado, levando à confusão, desinformação, desmobilização e anarquia. Os alienígenas estabelecem uma base inicial no estado norte-americano do Kansas, que é posteriormente destruída – assim como todo o território –, com mísseis intercontinentais soviéticos, numa ação conjunta dos dois antigos rivais. A estratégia dos invasores não é uma invasão terrestre clássica, mas sim subjugar os humanos e fazê-los de escravos, ou como eles dizem, novos membros do rebanho viajante.

Um aspecto curioso do livro é a presença de escritores de FC. Convocados pelo presidente dos EUA, eles formam “A Equipe da Ameaça”, um grupo de especialistas para aconselhamento sobre as razões da invasão e o possível comportamento dos alienígenas. Uma homenagem é feita explicitamente a Robert A. Heinlein (1907-1988), na figura do líder do grupo, o escritor Robert Anson. O perfil mostrado dos autores de FC no livro é de pessoas inteligentes e um tanto impertinentes e arrogantes. Estaria próximo da verdade ou, no fundo, é inconscientemente como Niven & Pournelle se enxergam?

De outro lado, os fithp também têm seus especialistas no comportamento da ‘presa’, como eles chamam os humanos. Contudo, o grau de conhecimento deles é muito pequeno, sendo constituído praticamente depois do contato inicial. Ora, por que não houve um grupo de pesquisa sobre a humanidade desde a chegada, dezenove anos antes? Talvez por se acharem muito superiores. Mas, aos poucos, com a convivência com os humanos que fazem de prisioneiros, percebem que cometeram um erro.

Os elefantídeos têm uma mentalidade de comportamento coletivo. Não tomam decisões importantes de forma individual, mas sempre em relação ao grupo a que pertencem. Não necessariamente através de consultas, mas respeitando as tradições e a ética entre eles. Além de se subdividirem entre os nativos – que detém a liderança – e os viajantes, há entre estes os dissidentes. Este subgrupo se insurge e questiona a invasão de outro planeta. Defendem que eles vivam no interior da nave, já que não conheceram outro ambiente de vida. Assim como a decisão tomada de invadir um mundo já habitado sem consideração moral alguma sobre as consequências, o motivo deles também é prático.

Como parte do plano de dominação, os alienígenas atiram um ‘foot’ em direção à Terra – um enorme meteoro que cai no Oceano Índico e destrói a Índia, além de provocar maremotos e chuvas globais de água salgada. Com isso, bilhões de seres humanos e animais são mortos e o próprio clima se torna mais temperado, bem de acordo com o de Homeworld. Tudo isso para que eles, possam viver na superfície da Terra, por isso, aliás, nomeada por eles de Winterhome – o mesmo nome de sua estrela de origem.

Parece que tudo está perdido, mas, secretamente, o governo dos EUA planeja e executa a missão Orion: a construção de uma nave espacial – chamada de Michael – cheia de armas laser e ogivas nucleares para combater os fithp. O nome não é casual, pois faz uma ilação óbvia com a passagem bíblica da expulsão de Lúcifer do Paraíso. É vencer ou perecer.

Invasão! contribui de forma efetiva para o subgênero, de certa forma, atualizando A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds; 1898), de H.G. Wells (1866-1946), o clássico de referência sobre o assunto. Se não tem a originalidade e o brilho literário do inglês, a dupla norte-americana é competente na condução de uma história cheia de drama, suspense e reviravoltas. O que talvez tenha ficado datado para além do necessário é o clima de rivalidade e paranoia da Guerra Fria, e os autores poderiam ter feito um esforço especulativo melhor sobre os desdobramentos deste contexto, já desacelerado quando escreveram o livro.

Este romance, em nossa língua, apareceu primeiro em Portugal, com o título de A Pegada (tradução literal), em dois volumes pela Gradiva, em 1987. Foi finalista do Prêmio Hugo 1986 e best-seller do The New York Times por semanas, e não foi a primeira parceria entre Larry Niven e Jerry Pournelle (1933-2017). Antes escreveram outro romance de FC apocalíptica, Lucifer´s Hammer (1977), sobre um cometa em rota de colisão com a Terra, e também The Mote in the God´s Eye (1974), sobre contato com alienígenas, num contexto de futuro distante. Ambos também bem recebidos pelos críticos e leitores. Estes autores, cada um com uma carreira solo importante, especialmente Larry Niven, fazem parte de uma corrente à extrema direita na FC norte-americana, abordando em suas ficções contextos favoráveis ao capitalismo, contra o Estado e com individualismo extremo. Tal postura os fez, inclusive, a participar dos governos republicanos de Ronald Reagan (1981-1989) e de George W. Bush (2001-2011), na condição de conselheiros de política externa.

Outra reflexão interessante de Invasão! é a de que não há base racional para considerarmos que uma civilização extraterrestre tecnologicamente muito mais avançada do que a nossa seria, necessariamente, pacífica. Tal tese foi muito aventada nos anos da Guerra Fria, lembro de Carl Sagan (1934-1996), a defendendo, de que uma condição necessária para a conquista do espaço, deveria passar pela superação de nossos problemas políticos e morais. Ora, mas em nossa própria História a norma é a de povos tecnológica e militarmente mais avançados conquistarem, dominarem e, mesmo, destruírem, os povos nativos. Claro que não devemos imaginar que seres de outros lugares do universo se movam pela mesma lógica e ação, mas também não temos como assegurar o contrário. Assim, Niven & Pournelle, com sua veia militarista e politicamente conservadora, estabeleceram um contraponto importante, neste debate candente, especialmente naquela época. Gostemos ou não de suas motivações ou visão de mundo.

 —Marcello Simão Branco

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Armadilha em Zarkass

 

Armadilha em Zarkass (Piège sur Zarkass), Stefan Wul. Tradução: Álvaro Simões. Capa: Lima de Freitas. 181 páginas. Lisboa: Editora Livros do Brasil, Coleção Argonauta, n. 90, 1964. Lançamento original de 1958.

 

Dois agentes do serviço secreto do governo terrestre partem para Zarkass, um planeta do sistema de Alfa Centauro, para investigar a possível invasão de uma raça alienígena distante e com a qual naves da Terra já haviam entrado em combate anteriormente, os triângulos. Assim chamados por causa do formato de suas astronaves, já que eles jamais foram vistos.

Com a informação de que uma nave dos alienígenas caiu numa floresta afastada das principais cidades, eles partem junto a zarkassianos nativos, ´selvagens´, assim chamados pelos próprios zarkassianos urbanos, ditos ´evoluídos’. Depois de uma travessia longa e difícil por uma selva fechada e cheia de surpresas e perigos, Laurent e Darcel localizam a nave. Por sinal, a expedição em si, na primeira das três partes do livro, é a melhor passagem do romance, pois Wul, como lhe é habitual, exibe o seu melhor quando solta sua imaginação. Aqui no caso na criação de uma flora e fauna desconcertante e colorida, que inclui grama almiscarada, largartos-leões, macacos com cabeça de boi, cobras aladas, flores carnívoras, corolas que se debruçam sobre o rio para beber água, kwiis (macacos-anões), árvores que se mexem, um gavik (meio lagarto e meio peixe) e alguns outros seres não menos exóticos.

Se o leitor já leu outros livros de Wul vai reparar que Armadilha em Zarkass tem um enredo muito parecido com Missão em Sidar (Rayons pour Sidar; 1957) – ver a resenha aqui. Pois também há agentes infiltrados numa missão secreta no meio de uma selva inóspita e perigosa num planeta que também orbita Alfa Centauro, sob protetorado da Terra, mas que está para ser dominado por uma outra espécie alienígena. Além disso, também em Sidar há uma ótima descrição da fauna e flora locais, mas em Zarkass, o autor foi mais além. Assim, talvez possamos relacionar as duas histórias como pertencentes a um mesmo universo ficcional, embora Wul não deixe pistas mais diretas sobre esta intenção.

Após retirarem da nave dos alienígenas vários componentes internos, Laurent e Darcel partem para a capital de Zarkass, mas são surpreendidos e presos, sob a falsa alegação de que portariam uma doença contagiosa da Terra. Na verdade, os zarkassianos já estavam sob domínio dos triângulos – cuja aparência real era insetoide e de tamanho minúsculo – que se travestiam de humanoides, com vários deles ocupando um corpo semelhante ao dos zarkassianos tornando difícil sua identificação.

Laurent consegue fugir, mas após se disfarçar com as vestes do antigo sacertote-rei do planeta, Safass-Thin, se transforma gradual e dolorosamente em um zarkassiano. Ele passa a ser visto, simplesmente, como a reencarnação do antigo líder, que exercerá um papel vital na reviravolta dos acontecimentos em relação à presença dos triângulos.

A armadilha, portanto, tem um duplo sentido. Primeiro na transformação do espião humano num alienígena, e depois na volta inesperada do antigo governante que lutará pela expulsão dos invasores do espaço distante. Mas o que é mais sutil é que isto não representará, necessariamente, a independência de Zarkass. Pois o limite da rebeldia estará na saída dos triângulos, mantendo-se sob o domínio político da Terra. Aqui, talvez mais do que em Missão em Sidar, o aspecto imperialista se faz presente, numa linha que remete à francofonia, especialmente a exercida nas colônias do país na África. Como já apontado antes em Degelo em 2157 (La Peur Géante; 1957) – ver resenha aqui –, Wul, embora crítico de certos pormenores da presença francesa, nutria certa simpatia ou condescendência. A tentativa de reconciliação de Zarkass, quando tinha tudo para romper de vez com a Terra, mostra isso. Revela, talvez, um paternalismo implícito com relação a povos e culturas não ocidentais.

Neste romance, um dos três últimos que ele publicou na clássica coleção de bolso francesa Fleuve Noir – precursora da portuguesa Argonauta – as soluções cientificamente delirantes cedem espaço para um desfecho mais mágico e sobrenatural.

O mais interessante, contudo, é que os agentes da transformação do status quo são os próprios zarkassianos, ao contrário de outros de seus romances, no qual são os terrestres que agem. Em parte, para se beneficiarem, e em parte para ajudarem alguma civilização sob algum tipo de ameaça. Mas, como dito, acima, sem significar uma plena libertação.

—Marcello Simão Branco

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Repique Macabro e Outras Histórias Estranhas

 

Repique Macabro e Outras Histórias Estranhas, de Robert Aickman. Traduções: Alcebiades Diniz, Bruno Costa, Oscar Nestarez e Ronaldo Gomes. Capa: Casa Rex/Tulio Caetano. Artigo: Cid Vale Ferreira. Posfácio: Philip Challinor. 286 páginas. São Paulo: Ex Machina/Sebo Clepsidra, 2021.

 


Em sua primeira publicação no Brasil, o britânico Robert Aickman (1914-1981) se diferencia enormemente do padrão médio das histórias sobrenaturais e fantásticas. Pode parecer um exagero, mas estamos diante de um autor que faz de suas histórias uma experiência para além de um bom entretenimento. E talvez por isso não tenha constituído uma carreira popular, mesmo em sua terra, que dirá de outras paragens mais distantes. Aickman tem um texto direto e fluente, mas, ao mesmo tempo, intrigante e desconcertante.

Autor de prestígio inegável e algumas obras-primas, selecionadas neste volume especial que ora tenho em mãos, é, também, um autor fora dos padrões convencionais. Suas histórias de horror têm componentes sobrenaturais, mas nada é óbvio. Pelo contrário, o leitor está sujeito a surpresas e momentos de puro desconcerto sobre o que acontece com o personagem e com si mesmo. Ao invés da construção de narrativas mais explícitas ou referentes aos padrões do gênero, Aickman os subverte. Estamos diante de um autor que faz da imbricação entre a riqueza de ambientação de cenários e o desenvolvimento de personagens complexos, o contexto para sugerir sensações, que podem ser de surpresa, medo, inquietação ou desconcerto total sobre as implicações. Talvez por isso e, ao que parece, sem querer parecer pedante, Aickman se definia como um autor de strange tales, em vez de simplesmente como de horror, ou ghost stories, como alguns críticos o definem. A sensação de estranhamento faz parte do seu ethos, presente em todas as histórias desta coletânea, com diferentes tons e desdobramentos.

Este volume contém nove de suas 48 histórias curtas publicadas em sua carreira, entre as décadas de 1950 e 1980. Não é informado, contudo, se elas foram selecionadas entre suas coletâneas originais, embora seja o mais provável, pois não achei nenhuma delas com o mesmo conteúdo da que foi traduzida para a língua portuguesa. Em todo caso, a seleção é de altíssimo nível. Uma amostra relevante do que de melhor escreveu Robert Aickman e do trabalho competente de escolha das histórias.

“The Hospice” (1975) abre o livro. É a história de um homem que, ao pegar um atalho para voltar para casa, se perde. Já no início da noite, se depara com uma espécie de pousada. Pretende apenas fazer uma refeição rápida e seguir seu rumo. Mas, ao entrar no local, o que parecia banal vai ganhando contornos cada vez mais estranhos. Um animal o morde e some; ao pedir um jantar frugal, lhe é servido um banquete; uma mulher bonita se oferece a ele; não há telefone e, sem gasolina no carro, é obrigado a passar a noite e dividir um quarto com um sujeito muito estranho, que sugere que a hospedaria é, na verdade, uma espécie de asilo. Ao amanhecer procura se esvair do local e, mais que isso, de uma experiência tão inusitada como perturbadora.

Se a primeira história fala de um sujeito que adentra numa realidade oculta, em “As Espadas” (“The Swords”; 1975) estamos diante de um jovem que vivencia sua primeira experiência sexual. Sem dúvida, uma situação no qual paira tanto a insegurança quanto o desejo. Mas esta tensão é levada ao paroxismo. Numa viagem de negócios por uma cidadezinha do interior, um jovem encontra um decadente parque de diversões. Entra numa tenda e se depara com um show no qual uma mulher é repetidamente trespassada por espadas. Confuso, deixa o local por receio de que possa chegar a sua vez de participar do espetáculo. Mas, ao reencontrá-la no dia seguinte, é tomado por um desejo incontrolável, que o fará levá-la ao seu quarto de hotel. Narrada em primeira pessoa, o que acentua o caráter confessional, pode parecer convencional, mas em se tratando de Aickman, o desfecho é não menos que intrigante.

Em “Repique Macabro” (“Ringing the Changes”; 1964), a história que serve de título ao livro, um jovem casal recém-casado decide passar a lua-de-mel numa pequena e desconhecida cidade litorânea da Inglaterra. Mas ao chegar ouvem o badalo incessante de sinos, além da total ausência de pessoas na rua. No hotelzinho que reservaram estranham ao saber que só uma pessoa está hospedada – e há muito tempo. E os sinos aumentam em quantidade e volume. Chega a noite sem luar e as coisas ficam cada vez mais obscuras. Sem aguentar mais os sinos e o comportamento estranho da dona do hotel e seu filho, eles resolvem ir embora. Mas não há ninguém para conduzi-los a lugar algum. Em certo momento da noite, os sinos silenciam, mas começa então uma procissão de pessoas gritando, cantando e dançando nas ruas, até invadirem o hotel. Um verdadeiro pesadelo de medo se estabelece, numa situação tão surpreendente quanto aterradora, que pegou de surpresa um casal convencional que só queria um lugar tranquilo para se amar. Há muito tempo que não ficava tão envolvido com uma história de horror. Como se fosse próxima, fiquei apreensivo ao virar mais uma página, num drama que envolve o despertar dos mortos. Obra-prima.

O tom de estranheza se acentua ainda mais em “Ravissante” (1968). Anos após fazer amizade com um pintor fracassado, um sujeito recebe uma carta informado a morte do artista e de que ele era um dos beneficiários do testamento. Além do valor de 100 libras – relevante na época –, ele levou também um quadro e uma maleta com seus escritos, cedidos por sua esposa. Ela sempre ausente e antipática à época em que ele conviveu com o casal. Ao abrir a maleta, o sujeito encontra um relato de viagem feita pelo pintor à Bélgica, onde conheceu a enigmática Madame A., viúva de um pintor que ele admirava. Pois ela, mesmo idosa, acabou por envolvê-lo num jogo de sensualidade assustador, por meio do contato com as roupas íntimas de sua filha adotiva. É uma história dentro de uma história que aborda os meandros do fazer artístico e suas motivações, muitas vezes incompreensíveis ao próprio artista. Além de um estranho jogo de poder e erotismo entre uma mulher que se revela poderosa – como uma bruxa? – ante um sujeito que se submete de forma desconcertada e inexorável.

A noveleta seguinte, “Niemandswasser” (1975), acentua o aspecto sobrenatural. Um príncipe tem uma desilusão amorosa, vê seu amigo sofrer um acidente que lhe decepa uma das mãos e, deprimido, se isola da sociedade à espera de seu fim. Neste contexto mórbido, ele descobre que o acidente com seu amigo foi provocado por uma mulher tão linda quanto terrível, que saiu de dentro de um lago, onde, eventualmente, ele também terá de encarar seu destino. Estamos diante de um conto sobre a lenda de uma sereia, e o aspecto fatalista torna a leitura um pouco sufocante.

O que não é o caso de “Páginas do Diário de uma Menina” (“Pages from a Young Girl´s Journal”; 1975), primeiramente publicada em The Magazine of Fantasy & Science Fiction, em 1973 e vencedora do World Fantasy Award em 1975, quando da publicação na coletânea Cold Hand in Mine. Segue a linha das duas histórias anteriores, com mulheres poderosas, ainda que no caso desta o desenvolvimento seja progressivo e não aparente. Em viagem pelo interior da Itália com seus pais, no início do século XIX, uma menina pré-adolescente inglesa registra os fatos e sentimentos em seu diário. Após eles chegarem à cidade de Ravena, são hospedados num casarão por uma condessa, e depois de uma festa, a jovem sofre uma transformação brutal ao conhecer um cavalheiro estranho que lá compareceu. De uma garota tímida e sensível, se transforma numa predadora movida a sangue e desejo. De maneira muito hábil somos expostos à construção de uma vampira, mas o que mais chama a atenção é a completa mudança de personalidade da protagonista. A ponto de não mais ser reconhecida por seus próprios pais. Excelente narrativa de horror vampírico, ao mostrar o ponto de vista de alguém que passa de vítima a algoz. Esta história é complementada no livro pelo bom ensaio “Páginas de uma Iniciação pelo Sangue”, de Cid Vale Ferreira.

A novela a seguir é “O Quarto Interior” (“The Inner Room”; 1966), das mais fascinantes do livro. Lene – novamente uma menina –, ganha uma casa de bonecas no seu aniversário. Comprada numa loja de antiguidades, não é propriamente um brinquedo, mas uma espécie de maquete. De estilo gótico e assustador era mobiliada e habitada por várias bonecas. De tão grande, teve de ser transportada por uma perua. A história se passa no período entre guerras e, por meio da casa, a vida de Lene e sua família é contada, com diferentes destinos para cada um, a maioria estranhos e nada felizes. Já adulta e viúva, num certo dia Lene se perde em um bosque ao tentar pegar um atalho para chegar numa vila. E, em meio à chuva, relâmpagos e trovões, se depara com a casa. Mas não é tudo. O que é realmente incrível é quem ela encontrará em seu interior, e que consequência poderá trazer para a ela. Pois através da casa, no qual a realidade e o sobrenatural se sobrepõe, Lene vive uma revelação sobre suas culpas e terrores, que, aparentemente, estavam controlados.

 Sensação semelhante é mostrada na novela “Bosque Adentro” (In the Wood; 1968). O casal Harry e Margareth Sawyer viaja para a Suécia, onde ele trabalha na construção de uma estrada. Após passar alguns dias em Sovastad, ele tem de ir a Estocolmo, e ela pede para ficar hospedada num lugar que havia visto num dos passeios com os casais colegas de trabalho. Margareth ficara encantada com Kurhus, uma hospedaria localizada próximo ao topo de uma montanha e rodeada por bosques. De início tudo parecia belo, mas a estranheza só fez crescer à medida que ela adentrou no recinto. Não há serviços adequados e o lugar fica vazio a maior parte do tempo. Mesmo assim, ela conhece outra hóspede inglesa, e fica a saber que em Kurhus ninguém dorme. Nunca. Era um lugar habitado por insones. Sem esperança de cura, para o que era, de fato, uma doença.

Menos que alarmada, Margareth ficou intrigada, ainda mais com o estranho bosque, onde os insones vagavam feito zumbis. Incomodada e, aos poucos, assustada, ela foi embora no dia seguinte para Sovastad, onde aguardaria o retorno do marido. Mas, tão estranho ao que ela experimentou na hospedaria, foi a reação das pessoas à sua presença, de volta ao mundo dos normais. Tratada de forma seca, rude e com certa pena, como se ela fosse uma condenada, tal qual os perdidos da hospedaria. Novela perturbadora, no qual o horror se apresenta de forma singular, numa situação limítrofe entre o psicológico e o sobrenatural, ou melhor, estranho, e se acentua de forma desestabilizadora. Tanto para os personagens, como para o leitor. O melhor texto da coletânea, ao lado de “Repique Macabro”. E, que me deixou perplexo, ao reverberar pelo resto do dia as implicações sobre a transformação de Margareth.

A coletânea é concluída com “O Mar Cor de Vinho” (The Wine-Dark Sea; 1966). Em mais uma das quatro histórias com viajantes, somos apresentados a Grigg, um turista inglês em viagem pelas ilhas gregas. Apesar dos cenários paradisíacos, ele estava entediado, até que, ao ver um barco chegar a uma pequena ilha, ficou interessado em conhecê-la. Principalmente depois das seguidas negativas das pessoas, dizendo que seria impossível ir até lá, pois ninguém teria interesse no lugar. Ele acaba por furtar uma lancha sem dono e vai para a ilha. Mas o que ele encontra no lugar está além de qualquer experiência de viagem – ou mesmo de vida – que ele jamais poderia imaginar. A ilha é uma antiga cidadela de origem antiga e desconhecida, habitada por três mulheres lindas que se identificam como feiticeiras, pois assim são chamadas pelas pessoas do lugar onde Grigg havia viajado. Elas não são gregas – os abominam como “estúpidos” –, mas tampouco turcas ou albanesas. Vivem de forma despojada e em contato íntimo com a natureza, desprovidas de luxo e de desejos materiais. Até que um evento terrível e decisivo mudará o destino de todos eles. Mais uma história intrigante, cheia de significados e abertas a muitas interpretações. Grande desfecho para o livro.

Podemos dizer que o que mais caracteriza as ficções de Aickman mostradas nesta coletânea, é tanto o estranhamento em si, quanto a inadequação entre a vida moderna, e algumas coisas que existiam e meio que ficaram para trás, ou à margem. Mas que, contudo, continuam presentes como uma espécie de passivo e se revelam em toda a sua força e desestabilidade quando descobertas por pessoas com alguma sensibilidade para além do lugar-comum da mediocridade cotidiana. Mas, infelizmente para elas, pagam um preço alto demais para suas crenças, identidade e, em alguns casos, suas próprias vidas.

As editoras Ex Machina e Sebo Clepsidra fizeram uma grande contribuição ao conhecimento literário do fantástico e sobrenatural ao lançarem Robert Aickman no Brasil. É um bom exemplo de que há autores importantes, com algo realmente valioso a mostrar a serem lançados no mercado editorial brasileiro. E o fato de serem editoras de nicho, com um trabalho editorial de alta qualidade, só vai de encontro ao perfil literário do próprio autor. Ele mesmo um escritor influente entre uma pequena elite literária em língua inglesa, conhecido ainda por poucos, mas que merece sair de certo ostracismo. Como salienta o verbete sobre ele em The Encyclopedia of Fantasy (1997): “… Aickman é de interesse absorvente em nosso contexto porque demonstra a gama de significados que podem ser extraídos de dispositivos de qualquer forma de literatura fantástica, quando esses dispositivos são tratados com seriedade por um escritor de alta qualidade.” Assim, se sua ficção estranha, de fato, pode provocar ou consternar leitores mais comuns, ele merece ser lido e apreciado por aqueles que buscam, justamente, uma literatura que tem uma prosa refinada, mas ainda mais, encaminha o leitor para lugares e situações absolutamente desconcertantes. Ninguém que leu este livro será o mesmo depois de terminá-lo.

 —Marcello Simão Branco

 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Uma Breve História do Somnium

 

Marcello Simão Branco[1]

 

Capa do número 58, dezembro de 1992.


Quando o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) foi criado, em dezembro de 1985, uma de suas principais molas mestras foi uma publicação que divulgasse as atividades da entidade, dos sócios e a própria ficção científica.

Assim, rapidamente, cerca de um mês depois, em janeiro de 1986 foi lançado o Boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica. Nesta edição não havia um logotipo para a publicação e o editorial do fundador do clube, R.C. Nascimento (1943-2013), anunciava dois concursos: 1) para a escolha do nome definitivo do boletim e 2) para a criação de um logotipo oficial para o clube.

Assim, até o número seis, a publicação não teve um nome definido, até que o número sete estampava no alto da capa: Somnium. Belo nome que se refere ao conto de mesmo nome do astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), responsável também pelas leis fundamentais da mecânica celeste, que recebem, justamente o seu nome. O conto é importante para o desenvolvimento histórico da ficção científica, ao imaginar, por meio de sonhos, a chegada humana à Lua.

A sugestão do nome foi do sócio carioca José dos Santos Fernandes e venceu com quatro votos, entre os 20 sócios que votaram. Isso porque houve uma dispersão entre os nomes votados: FC Boletim 3 votos; Jornal dos Aficcionados, Andarilhos do Amanhã e Terceiro Planeta, todos com dois e Orbit News, Panfletária, FC em Notícias e Science Fiction Explorer com um, além de uma abstenção.[2] Observando os nomes, ao meu ver, é até de espantar que “Somnium” tenha vencido de forma tão apertada, pois é, de longe, o nome mais bonito e representativo do que é ser um fã do gênero.

Embora seja um fanzine, em termos técnicos, digamos assim, o Somnium é um clubzine. Ou seja, uma revista de clube. Na prática apenas diferencia um fanzine que é produzido por uma associação de fãs, de outro que é fruto da iniciativa de um ou mais sócios de maneira independente. A maioria doa fanzines editados teve esta característica mundo afora, e também no Brasil. Neste sentido, o Somnium pode ser identificado, em termos históricos, como o quarto clubzine da história da ficção científica brasileira (FCB). O primeiro foi o O Cobra, da Associação Brasileira de Ficção Científica (ABFC), de meados dos anos 1960, de São Paulo; o segundo o Boletim Antares, do Clube de Ficção Científica Antares, do início dos anos 1980, de Porto Alegre (RS) e o terceiro, praticamente junto com o gaúcho, o Star News, da Sociedade Astronômica Star Trek (SAST), também de São Paulo, que existiu por cerca de dez anos. Mas nenhum deles teve a relevância e longevidade do Somnium, que extrapolou sua condição de clubzine para se tornar uma publicação de referência para toda a FCB.

Mas antes disto se tornar realidade, em suas primeiras edições, o Somnium tinha o perfil mais interno de uma publicação corporativa, ao divulgar basicamente os comunicados da diretoria, lançamentos de livros, cartas dos sócios e os novos membros que adentravam à associação a cada edição. Mas, não demorou muito para que passasse a publicar em suas páginas material inédito produzido pelos sócios, principalmente artigos e contos. Pois foi quando este conteúdo passou a fazer parte do principal das páginas do Somnium, é que ele começou a adquirir sua identidade e importância, primeiramente para a valorização do CLFC e seus sócios, e depois para o gênero como um todo no país.

Desde os primórdios, uma característica editorial se impôs: a de publicar somente colaborações inéditas e se de estrangeiros, com a devida autorização. Desta forma, o Somnium começou a adotar uma linha editorial de aspecto profissional e de busca pelo ineditismo e qualidade em suas páginas. Pode-se dizer que esta decisão influenciou a maioria dos fanzines que surgiram depois, inclusive o meu próprio, o Megalon.[3]

Desta forma, incentivou-se o envio de colaboração para as páginas do Somnium, principalmente artigos e contos, mas também resenhas e ilustrações. A iniciativa deu certo, pois em pouco tempo, a publicação era menos um clubzine do que um fanzine na prática. Ou seja, a divulgação institucional diminuiu em prol de uma vívida e volumosa quantidade de material produzido pelos sócios. Nascimento, que no início acumulava as funções de presidente e editor do Somnium, também inovou ao criar colunas e seções fixas dentro do fanzine. Por um lado, uma decisão pragmática, já que garantia a cada edição um espaço definido, sem correr o risco de faltar material devido ao não envio dos sócios, e de outro, definir espaços de crítica e reflexão em cada seção ou coluna definida. Esta característica também se espraiou por outros fanzines, cada um com seu perfil e linha editorial específica.

Assim, ao longo da primeira década, colunas importantes surgiram, como a de resenhas de Gilberto Schoereder – credenciado por seu importante estudo Ficção Científica (Francisco Alves Editora, 1986) –, outra de crítica aos contos publicados no próprio Somnium, ocupada na maior parte do tempo por Fábio Fernandes, que também se ocupou de outra coluna com análise dos livros traduzidos no Brasil; outra sobre livros, “Colecionando”, de Caio Luiz Cardoso Sampaio, a respeito das coleções publicadas no Brasil e em Portugal, uma fonte de informação preciosa e útil ainda hoje; uma com a análise sobre um escritor, o “Autor do Mês”, revezada entre alguns sócios, mas escrita principalmente por Kleverson Bicalho Neves; e a mais esperada de todas, “As Crônicas do André”, com comentários, causos e anedotas do mais celebrado escritor brasileiro de FC André Carneiro (1922-2014), que estreou em abril de 1987. Outras vieram posteriormente, mas pode-se dizer que estas estabeleceram a estrutura editorial que alicerçou o fanzine.

Também ajudou na rápida consolidação destas características editoriais a regularidade, pois em pelo menos os quatro primeiros anos, o Somnium foi mensal. Até onde sei este foi o único fanzine brasileiro de FC, com tal abrangência de assuntos e seções, a estabelecer esta marca. Não falhava: sempre na terceira semana de cada mês chegava em casa pelo correio o envelope pardo com o Somnium! Imagine o que era isso na segunda metade dos anos 1980, quando o intercâmbio com as notícias sobre o gênero quase não existia fora do ambiente restrito do fandom, e não havia a internet. Eu pessoalmente vibrava quando o Somnium chegava em casa, ávido para ler as novidades e os artigos, contos, ilustrações e os textos dos colunistas. E a chegada na terceira semana do mês não era casual, pois acontecia uma semana antes do último sábado do mês, quando ocorria a reunião mensal do clube. Assim, parte da reunião era dedicada, justamente, a repercutir o conteúdo publicado.


Capa do número 65, dezembro de 1996.


O Somnium e outros fanzines eram muito procurados por colaboradores nos primeiros dez anos da Segunda Onda da FCB, pois eram raros os espaços de publicação profissional, especialmente em editoras. Assim, uma nova geração de jovens escritores e críticos se exercitou regularmente nas páginas do Somnium, nomes que se tornariam destaques e a maioria com carreiras posteriores como, por exemplo, Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Cesar Silva, Fábio Fernandes, Finísia Fideli, Gilberto Schoereder, Gerson Lodi-Ribeiro, Ivan Carlos Regina, José Carlos Neves, José dos Santos Fernandes, Lúcio Manfredi, Martha Argel, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo, Roberto Schima, Sylvio Gonçalves e outros.

Tal profusão de talentos em suas páginas deu frutos rapidamente, pois já em 1987, na primeira edição do Prêmio Nova de Ficção Científica, criado por Roberto de Sousa Causo, o Somnium venceu na categoria “Melhor Fanzine”. Tal feito se repetiria mais três vezes: em 1989 – empatado com o Megalon –, 1991 e 1994 – aqui não como fanzine, mas como “Melhor Publicação Semi-Profissional”. O Nova existiu até 1996, por dez edições, portanto, e talvez a irregularidade verificada a partir do início dos anos 1990 tenha prejudicado a chance de vencer por mais vezes, mas também porque a concorrência com outros fanzines da época era forte, principalmente com o Megalon, que também por sempre se manter regular, de certa forma ocupou a ausência do Somnium, e levou o prêmio por sete vezes.

Mas em termos de ficção o Somnium foi o maior vencedor. Foram oito, das dez edições. Entre os principais trabalhos, alguns se tornaram clássicos como, por exemplo: “Pela Valorização da Vida”, (1987) e “A Derradeira Publicidade do Hebefrênico Alfredo” (1988), ambos de Ivan Carlos Regina, “Sympathy for the Devil”, de Braulio Tavares (1989), “Tocar os Anjos”, de Roberto de Sousa Causo (1991) – que também venceu o Prêmio Tapìrài 1992 –, e “O Vampiro de Nova Holanda”, de Gerson Lodi-Ribeiro (1996). A publicação levou ainda um Prêmio Argos em 2000 com o conto “Sete Vezes Besta, Sete Vezes Homem”, de Ivan Carlos Regina.

E ainda que não tenha vencido um prêmio – porque no ano em questão não havia a categoria para artigo – vale lembrar do “Movimento Supernova: Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”, escrito por Ivan Carlos Regina, publicado no número 30, em junho de 1988. Quase que instantaneamente se tornou a peça mais polêmica e influente da FCB, além da principal marca distintiva da Segunda Onda: a busca por uma ficção científica com características brasileiras, em termos de identidade e qualidade.

Além disso, para se ter uma noção de seu impacto no fandom, entre fins dos anos 1980 e início dos 1990, o Somnium tinha tal evidência, que chegou a ser parodiado, com outro fanzine chamado Zomnium, publicado por sócios do Rio de Janeiro. Assim, a publicação passou por fases diferentes, sendo esta primeira, de longe, a mais importante. Isso porque, como já indicado, a partir do momento que começou a ter dificuldades em manter-se regular, começou a perder relevância para outros fanzines. Contribuiu para isso também, um certo renascimento do espaço editorial para os autores, com a publicação da revista Isaac Asimov Magazine (IAM) – versão brasileira de sua homônima norte-americana – entre 1990 e 1993. Pois houve uma colaboração próxima e intensa de vários dos mais destacados sócios do clube com a publicação, com contos, artigos e traduções de histórias. Mas após o fim súbito e traumático da IAM, o fandom se desarticulou, pois voltou a ter menos espaço e com uma crise na sua principal associação e seu fanzine. Mesmo assim, o Somnium teve bons momentos nas mãos de outros editores, pois nunca abdicou de sua principal marca: a qualidade do conteúdo e a relevância de seus colaboradores.

Estes editores do que podemos chamar de uma segunda fase, pós-IAM foram: Carlos André Mores, Christiano de Melo Nunes, Luís Marcos da Fonseca, Marcello Simão Branco – editei três números: 63, 64 e 65, em 1996 –, Alfredo Keppler, Cesar Silva e Matias Perazoli, e ainda um período com vários editores em conjunto: Alfredo Keppler, Ataíde Tartari, Matias Perazoli, Roberto de Sousa Causo. Todos eles ainda proporcionaram números importantes, pelo menos até meados dos anos 2000, quando finalmente entrou no que poderíamos chamar de uma terceira fase, a digital, que se estende até os dias de hoje.[4]

Pois foi justamente após a histórica centésima edição, editada por Alfredo Kepler, que ocorreu a mudança para o formato digital, com a edição seguinte (101), editada por Ana Cristina Rodrigues, em 2008. Assim, o Somnium foi impresso até o número 100 (1986-2007) e tem sido digital, de 2008 em diante. Nesta nova fase, três características têm se destacado: a irregularidade, o grande número de páginas e um tema principal para cada edição. O número 103, por exemplo, homenageou Ray Bradbury (1920-2012) e o 110 Issac Asimov (1920-1992). Já o de 113, homenageou o escritor brasileiro Max Mallman (1968-2016), e o 114 foi dedicado ao criador do CLFC e o mais importante editor da história da publicação: R.C. Nascimento. Nesta fase do século XXI, houve também mais editores em menos edições, com nomes como Daniel Borba, Ricardo Guilherme dos Santos, Ricardo Herdy e Marcelo Biguetti, o mais recente. Uma característica de relevo que tem se mantido é o espaço aberto para os autores brasileiros – sócios ou não – publicarem e divulgarem seus trabalhos, principalmente os surgidos dos anos 2000 em diante.

Em suma, o Somnium é uma instituição histórica da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, sendo o mais antigo fanzine brasileiro de FC publicado de forma ininterrupta, de 1986 até os dias de hoje, mesmo ressalvando a irregularidade que passou a fazer parte de sua trajetória, de meados dos anos 1990 em diante. Mas o mais significativo é a sua resiliência, ao manter viva uma linha de continuidade entre a Segunda e a Terceira Onda da FCB, e ilustrando neste aspecto, não só suas mudanças de forma e conteúdo, mas também de geração, com novos colaboradores e talentos que tem se firmado nestes anos recentes.

 

Referências:

Borba, Daniel, ed. Somnium, Clube de Leitores de Ficção Científica, número 102, 2012.

Branco, Marcello Simão. “Nova: Uma História de Polêmicas e Realizações”, Prêmio Nova de Ficção Científica: Os Primeiros Dez Anos, Marcello Simão Branco, org. Biblioteca Essencial da Ficção Científica Brasileira, volume 3, 1998.

Branco, Marcello Simão. “Uma História dos Prêmios Brasileiros de Ficção Científica”, Silva Cesar; Branco, Marcello Simão, eds., Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2008. Tarja Editorial, 2009.

Branco, Marcello Simão. “30 Anos do Clube de Leitores de Ficção Científica”. In: Almanaque da Arte Fantástica Brasileira, 2015.

Herdy, Ricardo, ed. Somnium, Clube de Leitores de Ficção Científica, número 113, 2017.

Keppler, Alfredo. Somnium: Índice Remissivo: Números 1 ao 78, Clube de Leitores de Ficção Científica, 2000.

Keppler, Alfredo, ed. Somnium, Clube de Leitores de Ficção Científica, número 100, 2007.

Nascimento, R.C. Boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica, números 0 a 6, Clube de Leitores de Ficção Cientitica, janeiro a maio, 1986.

Rodrigues, Ana Cristina, ed. Somnium, Clube de Leitores de Ficção Científica, número 101, 2008.

Santos, Ricardo Guilherme, ed. Somnium, Clube de Leitores de Ficção Científica, número 110, 2014.

Silva, Cesar. “Somnium 114”. In: Mensagens do Hiperespaço, 2018.

 



[1]  Sócio número 83, entrou no CLFC em maio de 1987.

[2] Mais nomes foram sugeridos, mas sem votação. São eles: Albedum, Aldebaranis, Bofísica, Crepúsculo Estelar, Enfírio, Escalar Infinitus, Galaxian, Linha Base, Luzestrela, Pressão Braquial, Science Fiction Journal, Selenews, Sonda Planetária, Star´s Explorer e Vento Solar. Um total de 24 sugestões, num quadro associativo de 34 sócios.

[3] Criado em setembro de 1988 por mim e Renato Rosatti, e editado apenas por mim a partir de 1991, teve 71 edições regulares até maio de 2004, e mais uma edição extra (72), em dezembro de 2017. É o mais premiado fanzine da história da FCB, com 7 prêmios Nova, três prêmios Argos e um prêmio Tapìrài.

[4] Na segunda metade dos anos 1990, para suprir a irregularidade crônica do Somnium, que gerava muitas críticas e cobranças por parte dos sócios, foi criado o Informativo Mensal CLFC. Um segundo clubzine, de caráter mais noticioso, sobre as atividades do clube e dos sócios, além de lançamentos de livros e eventos. Eventualmente, também publicou contos. Manteve-se regular por cerca de cinco anos, sob a edição de nomes como Adriana Simon, Ataíde Tartari, Daniela Bittencourt, Fábio Barreto, Humberto Fimiani, Matias Perazoli e R.C. Nascimento, mas no início dos anos 2000 foi descontinuado.