O Conto da Aia
(The Handmaid´s Tale), Margaret Atwood. Tradução: Ana Deiró. Capa: Laurindo
Feliciano. 366 páginas. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. Lançamento original em
1985.
Em algum momento do fim
do século XX uma teocracia totalitária é instalada nos Estados Unidos. O
próprio país é renomeado, agora é a República de Gilead. O presidente é
assassinado e o Congresso invadido e metralhado. O grupo que assume o poder
suspende a Constituição, “para garantir a ordem”, promete eleições para breve,
mas claro, fortalece e institucionaliza um novo regime político. Ocorrem
protestos e manifestações, mas como o grau de violência do regime é muito alto,
elas acabam diminuindo.
Em resumo este é o
arcabouço político deste mundo sombrio. Mas isso é só a superfície, se posso
colocar assim, de um contexto social tenebroso, e que tem o seu eixo de
funcionamento sobre a condição da mulher. É uma teocracia fortemente
patriarcal, baseada em algumas passagens do Velho Testamento, e que retira os
direitos civis, ou mais que isso, humanos, das mulheres. Elas passam a depender
de uma ordem que as condiciona a serem servidoras do regime, em várias
categorias. Algumas, mais bem posicionadas ou mais velhas, como participantes
secundárias, mas a grande maioria das mulheres é reduzida à condição de
reprodutora, principalmente para substituir as mulheres mais velhas e inférteis
da elite.
Isso porque o que
impulsionou o golpe de Estado e a instauração de uma nova ordem, baseada no
mais rígido fundamentalismo do velho cristianismo – o que me lembra do que os
talibãs tem feito às suas mulheres, numa odiosa teocracia baseada numa
interpretação radical do islamismo – foi a crescente e generalizada queda de
natalidade no país, que teria como causa principal doenças sexualmente
transmissíveis – era a época do pânico causado pela Aids – e a contaminação
tóxico-radiativa da água. Muitos homens também teriam ficado estéreis, mas toda
a repressão recaiu sobre as mulheres, devido à sua condição desigual na
sociedade, dos preconceitos historicamente justificados na Bíblia, e por
ser ela, a única capaz de conceber um novo ser humano.
A autora não reflete diretamente
sobre isso, mas penso que a solução teocrática do fundamentalismo cristão possa
ter sido inspirada na forte base puritana dos Estados Unidos, um país formado
por egressos de perseguições religiosas, que criaram suas próprias comunidades,
e que, a despeito, de terem institucionalizado um Estado centrado no laicismo e
no direito individual, nunca abandonou suas raízes de intolerância e violência.
A história é narrada em
primeira pessoa por uma Aia (serva), que após tentar fugir com seu marido e
filha, é capturada, deles separada e encaminhada para um local de doutrinação
religiosa. Depois disso tudo, ela relata a sua chegada na casa de um
Comandante. Um sujeito da elite, casado com uma mulher de meia-idade estéril,
para que ela gere uma criança para o casal. Apesar da extrema opressão, de
certa forma, as aias são valorizadas, pelo menos se bem sucedidas, pois à
maioria das outras mulheres cabe a tarefa de empregadas nas casas dos ricos,
doutrinadoras da fé teocrática, prostitutas – sim, há a revelação disso a certa
altura da história – ou trabalhadoras braçais nas Colônias, onde o tempo médio
de sobrevivência é de três anos, devido às condições escravizadas a que são
submetidas.
Offred, a aia do
testemunho, que perdeu seu nome, assim como todas as outras, nos conta sua nova
vida de forma íntima, sutil e comovente. Fico a pensar como que uma pessoa
poderia sobreviver a tal nível de brutalidade? De certa forma, Offred – de
Fred, o nome do Comandante – nos dá a resposta, quando fica sabendo que a aia
anterior da casa havia cometido suicídio. Ela cogita fazer o mesmo, mas o que a
impede é uma tênue e improvável esperança de rever sua filha, seu marido, sua
mãe, ou Moira, sua melhor amiga.
O Conto da Aia
lembra 1984 na intensidade do regime totalitário e no grau de intimidade
a que o leitor é colocado, pois as duas narrações ocorrem em primeira pessoa.
Se o terror de Orwell é político, o de Atwood é religioso. Se no primeiro a
perspectiva do oprimido é de um homem, neste é de uma mulher, e este talvez
seja o principal diferencial em comparação a outras distopias. Também como em 1984,
a teocracia de Gilead enfrenta uma guerra. Mas não se sabe se com inimigos
internos ou externos. E nem se ela é real, servindo apenas como propaganda que
justificaria um regime totalitário.
O mais comum a todas estas
distopias, contudo, é formar uma nova humanidade. Como se fosse possível
recomeçar do zero. Assim, em 1984 temos a reescrita da História – sua
falsificação – e no Conto da Aia, sua anulação, pois a própria linguagem
escrita é proibida. Livros, revistas, jornais, panfletos, publicidade, são
destruídos. Claro que a elite continua a hipocritamente ter algum acesso ao que
sobrou de tudo isso. Mas ao povo em geral, pune-se de formas severas como, por
exemplo, amputação da mão a quem for pego de forma reincidente com um texto
escrito.
Numa sociedade como essa,
para se criar uma nova humanidade, é preciso desumanizá-la, e reduzi-la a um só
código de comportamento moral, rígido e violentamente controlado. Passa a ser
uma existência pobre e triste, pois tudo é pecaminoso e ameaçador à nova ordem.
Vive-se com desconfiança e medo de tudo, e o melhor a fazer é ficar calado e
obedecer. Esta é a realidade como descrita de forma pungente por Offred, o que
nos faz se compadecer de seu drama e nos indignar com esta ordem de terror. Que
expõe diariamente sua barbárie ao exibir publicamente, num muro que circundava
uma antiga universidade, corpos de infratores executados.
Assim, Offred nos fala de
sua nova rotina extremamente controlada, seus medos, e esperanças, e o romance
ainda extrai mais impacto porque entremeia o tempo presente, com “o tempo de
antes”, suas memórias e da condição livre que possuía. Desta forma, ela nos
conta, de uma perspectiva pessoal e de uma pessoa comum, o que levou ao
estabelecimento deste regime horroroso, e como ela pode sobreviver a ele com
alguma dignidade. Isso porque, ela não cedeu à lavagem cerebral do centro de
doutrinação e retém em seu íntimo alguma rebeldia.
Como uma jovem bonita,
ela acaba por despertar o interesse do Comandante e também do motorista da
casa. Mas ao medo inicial de ser denunciada, de certa forma, aprende a tirar
alguma vantagem das relações proibidas com os dois. Até que, depois de descobrir
que sua companheira de caminhada diária – sim ela podia sair para fora de casa
por algumas horas, se em parceria com outra aia, principalmente para comprar
alimentos para a casa –, desapareceu – ela, que lhe revelou a existência de uma
organização de resistência chamada Mayday, sabe que sua presença na casa do
Comandante pode estar com os dias contados.
Ao fim incerto e aflitivo
de Offred, a autora conclui com um capítulo metaficional, “Notas Históricas”,
no qual um pesquisador explica que o relato que lemos foi encontrado em fitas
cassete dentro de um cofre abandonado. Tudo isso é revelado no ano de 2195, já
num regime político pós-Gilead, mais liberal e com os direitos civis e
políticos recuperados. Mas que deixa transparecer os efeitos que deixou, não
sendo mais a sociedade democrática de antes do terror.
O Conto da Aia
é um livro poderoso, das melhores distopias que já li e que nada fica a dever a
clássicos como 1984 ou Fahrenheit 451 (1953), de Ray
Bradbury. Como disse antes, a perspectiva da opressão à mulher é especialmente
relevante, numa sociedade em que a luta por direitos e igualdade continua mundo
afora. Mesmo nos países democráticos ocidentais, nos quais, principalmente nos últimos
anos, movimentos conservadores questionam e tentar limitar os direitos das
mulheres.
Houve uma primeira edição
no Brasil a esta da Rocco, A História da Aia, publicada em 1987 pela Marco
Zero. E a obra foi justamente reconhecida, dentro e fora da comunidade da FC,
tendo recebido o prêmio Arthur C. Clarke em 1987, e sido finalista do Nebula de
1986, além de ter levado, no âmbito do mainstream, o prêmio Governor
General´s Award, no Canadá, seu país de origem, em 1985. Recebeu uma adaptação razoável
ao cinema em 1990, chamada no Brasil de A Decadência de uma Espécie, e
uma celebrada série de TV, entre os anos de 2017-2025. Talvez motivada pelo
impacto da série, Atwood publicou em 2019 O Testamento (The
Testaments), uma nova história passada 15 anos após os eventos da primeira,
e que procura detalhar um pouco mais a vida de outras mulheres no interior do
regime, principalmente as chamadas “tias”, as doutrinadoras das aias, bem como
do que poderia ter acontecido com a protagonista da primeira história. Não
tenho como não deixar de me interessar por conhecer esta nova obra, embora
acredite que o essencial já esteja contido neste excepcional e muito necessário
de ser lido, O Conto da Aia.
—Marcello Simão Branco











