quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Tempo Fechado, Bruce Sterling

Tempo Fechado (Heavy weather), Bruce Sterling, 340 páginas. Tradução de Carlos Angelo e capa de Vagner Vargas. São Paulo, Devir Livraria, 2008.

Este é o segundo livro do prestigiado autor americano Bruce Sterling. Primeiramente traduzido entre nós com Piratas de Dados (Islands in the Net), em 1991, também teve contos publicados nas revistas Isaac Asimov Magazine e Quark nos anos 1990. Mais recentemente Sterling recebeu atenção das editora Aleph e Devir, com a publicação do romance Máquina Diferencial (The Difference Engine), em 2012 pela primeira, e com contos em antologias pela segunda.
Principal ideólogo do movimento cyberpunk no início dos anos 1980, em Tempo Fechado o autor, assim como fez com o outro romance lançado no Brasil, expande as fronteiras temáticas tradicionais do movimento, que é essencialmente urbano e tecnológico.
Publicado originalmente no já não tão recente ano de 1994, Tempo Fechado encara de frente um dos temas mais atuais deste início de século XXI, as consequências humanas para as alterações climáticas que o planeta já enfrenta e que deve piorar muito pelas próximas décadas. Se em Piratas de dados, Sterling alargou o horizonte temático cyperpunk por abordar suas principais questões de um ponto de vista dos habitantes dos países em desenvolvimento – o que por si só revela a intenção política da questão –, daqueles que são mais receptores, consumidores  ou mesmo excluídos, do que os produtores das transformações políticas e socioeconômicas do planeta, em Tempo Fechado o autor explora os paradigmas do seu chamado movimento, saindo novamente de sua redoma urbana, tecnológica e pós-moderna, para explorará-la em grandes planícies do Texas e de Oklahoma, sob os efeitos de fenômenos meterológicos violentísismos e transformadores das relações humanas.
A história acontece em 2031, em um futuro bem próximo, portanto. Acompanhamos a trajetória de dois irmãos que acabam participando da Trupe Intempestiva, uma equipe de caçadores de tornados. Talvez você já os tenha visto em reportagens na TV, pois eles existem lá pelo Meio-Oeste dos Estados Unidos ou então no filme Twister (1995). Mas este grupo, além de perseguir os fenômenos naturais que já existem, tem como grande objetivo achar e documentar o chamado F6, um megatornado, acima da escala verificada na Terra, que está previsto apenas nos cálculos de um matemático brilhante e genioso, Jerry Mulcahey, que os une e lidera.
Os irmãos são Jane e Alex Unger. Ela é a namorada de Jerry e que se arrisca para resgatar o irmão de uma clínica clandestina mexicana para tratamento de um grave problema pulmonar que o atinge desde a infância. Ela leva Alex para a Trupe e este, doente e sem perspectiva, não tem muito a perder se juntando a um grupo de pessoas que, cada um à sua maneira, também nada tem de convencional. Como se fossem uns hippies, mas desencantados com qualquer ideologia, vivem em acampamentos improvisados, com água racionada, comendo carne de caça e vestindo roupas de papel. À moda do cyberpunk, porém, lidam com desenvoltura e rebeldia com aparelhos altamente tecnológicos, que os ajudam em suas pesquisas e perseguições aos tornados.
Alex, particularmente, é um sujeito estranho e doentio também em termos psicológicos, desajustado e niilista que, por irônico que possa ser, ilustra bem o tipo de juventude presente num mundo caótico em termos econômicos e prestes a ser devastado em termos climáticos. Nesse sentido, inclusive, talvez seja possível traçar um paralelo entre estas pessoas que abandonam suas vidas civilizadas – ao lado de um trabalho, amigos e família – para viver uma grande e perigosa aventura, com a própria existência do F6, uma anomalia causada pela grande mudança climática global acontecida nas primeiras décadas do século XXI.
O diálogo dos irmãos no fim do romance é exemplar nesse sentido:

“ – Nós somos gente de muita sorte, não é Alex?
“– Estamos vivos. Isso é ter sorte.
– Não temos sorte, Alex. Este não é um tempo de sorte. Estamos vivos, e estou contente por isso, mas somos gente da catástrofe. Nunca vamos ficar felizes ou seguros de verdade, nunca. Nunca, jamais.” (pág. 333).

Diálogos como este transparecem, justamente, nos momentos que se seguem a transformações dramáticas. Seja por guerras ou, neste caso, devastações da natureza. E a ficção científica é pródiga em refletir sobre as grandes tragédias possíveis da época em que estão inseridas. Assim foi, por exemplo, nos tempos da Guerra Fria e a sombria perspectiva de um holocausto nuclear.
Sterling capta bem o que ainda não era a norma no momento que foi escrito, em termos de especulação sobre grandes perigos climáticos para a vida humana no planeta. Podemos pensar numa comparação dele com William Gibson, pois ambos são agudos especuladores socioculturais. Se Gibson é hábil em antecipar tendências, quase como um visionário tecnológico-cultural e, nesse sentido, com uma perspectiva analítica que parte mais da ótica da ação individual, Sterling segue numa trilha mais, digamos, estruturalista em suas especulações e, por isso, de fundo mais coletivo. Pois embora não aprofunde neste romance, ele trata de algumas mudanças políticas e socieconômicas ocorridas no tempo de vida dos personagens.
A história se passa poucos anos depois de um chamado Estado de Emergência, em grande parte ocasionado por uma colapso financeiro, devido a um desequilíbrio vinculado à excessiva liberdade especulativa, baseada em uma frágil estrutura tecnológica de base digital. Ora, isso soa como extremamente presciente do que estamos vivendo nos dias de hoje, quando, também devido ao descontrole especulativo-financeiro provocado pela falta de controle e regulamentação, atravessamos uma das piores crises da história do capitalismo. Mais dramático, Sterling imagina o colapso das próprias moedas nacionais e a emergência do que ele chama de Regime, provavelmente um governo de força próximo a uma ditadura no território dos Estados Unidos, muito significativo, já que jamais o país viveu fora do ordenamento democrático. Viria esta ruptura institucional devido a um colapso financeiro? Depende da magnitude, mas nos dias de hoje nem se imaginou tal situação.Que, contudo, chegou a ser especulada como eventualmente possível devido às ameaças terroristas que os norte-americanos viveram a partir de setembro de 2001.
Divagações à parte, como este não era o tema central da obra, sua discussão não destoa do mundo apresentado, ajudando a contextualizar o tipo de sociedade vigente às portas da chegada de um evento metereológico radical. Sim, a palavra é esta porque o F6 teria um poder de destruição maciço, esmigalhando uma cidade em poucos minutos e se tornaria uma tempestade permanente, semelhante à Grande Mancha Vermelha de Júpiter. Não é preciso muita imaginação ou conhecimento para intuir que tal fenômeno traria efeitos permanentes para o ambiente e a vida na Terra.
Afora este tema por si só fascinante, Bruce Sterling conduz o enredo com bom ritmo, equilibrando os dramas pessoais dos personagens aos eventos atmosféricos que movem a história, assim como o pano de fundo social em que está inserido. Nota-se que o autor realizou uma pesquisa séria sobre o tema para escrever o livro, chegando a acompanhar equipes de caças a tornados. Isso transparece no realismo das sequencias de perseguição e mesmo na construção de personagens verossímeis para o contexto imaginado.
Apesar disso, há um grupo de pessoas no romance, liderados pelo irmão de Jerry, Leo Mulcahey, que atuaria como terroristas e conspiradores para provocar a morte de pessoas na escala de milhões, sob a justificativa de que o mundo não aguenta tantas bocas para alimentar. Nada justifica tal barbaridade, ainda mais por um argumento tão fajuto. Atuariam derrubando governos legais, provocando guerras civis ou espalhando epidemias e moléstias com vacinas e drogas envenenadas. Todos estes planos mirabolantes são revelados quando Jane é socorrida do F6 e levada para um abrigo subterrâneo onde Leo e os outros estão. Esta sequencia é francamente tola, estranha e destoou do realismo científico e da verossimilhança temática vista no conjunto da obra. Desnecessária e ainda bem que secundária para não atrapalhar o desdobramento final da história.
Embora Tempo Fechado não tenha alcançado êxito em termos de premiações, pode ser visto como um dos livros mais atuais de sua carreira, pois chama a atenção para a responsabilidade humana no destino de todas as formas de vida no planeta. Com isso cumpre o seu papel de intelectual ativista em questões candentes, algo presente nos autores cyperpunks em geral, mas principalmente nele, o mais engajado politicamente. Se por um lado, há sempre o risco de uma obra como esta ser refém de sua época, neste caso Sterling acertou, pois cada vez mais as consequencias das mudanças climáticas são vitais em nosso cotidiano e certamente assim será nas próximas gerações.

-- Marcello Simão Branco

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dia dos Independentes (Independents´ Day, EUA, 2016)


A produtora “The Asylum” costuma lançar cópias porcarias de filmes feitos com orçamentos milionários nos cinemas, sendo o destino o mercado de televisão e vídeo. São os chamados “mockbusters”, filmes apenas oportunistas e muito ruins, principalmente os elencos e roteiros.
Em resposta a “Independence Day – O Ressurgimento”, continuação do filme de 1996 sobre invasão alienígena, a produtora lançou “Dia dos Independentes” (que também recebeu o nome por aqui de “O Ultimato” quando exibido pelo canal de TV a cabo “SyFy”). A direção inexpressiva é de Laura Beth Love, mais conhecida pela fotografia de uma infinidade de tranqueiras modernas como as partes 3 e 4 da franquia “Sharknado”, onde tubarões se locomovem através de tornados e atacam as grandes cidades americanas.
A história é tão ruim que nem merece uma sinopse detalhada, e sim apenas uma abordagem bem superficial. O filme já começa com imensas naves espaciais surgindo em vários locais do mundo. Não sabendo se as intenções dos visitantes são pacíficas ou não, o exército americano tenta uma comunicação através de uma equipe liderada pela vice-presidente Raney (Fay Gauthier). Ela é auxiliada pelo General Roundtree (Sal Landi, creditado como Salvatore Garriola), o Capitão Goddard (Johnny Rey Diaz, creditado como Jonathan Ortiz), o Senador Randall Rayne (Jon Edwin Wright, creditado como Jon Wright), que é o marido da presidente, e pelo agente Taylor (Jude Lanston).
Eles tentam negociar com os alienígenas invasores, que querem a evacuação do planeta oferecendo de forma suspeita naves de transporte para a retirada da humanidade. Porém, uma milícia armada chamada “Terra Primeiro” oferece uma resistência gerando um confronto sangrento com os invasores do espaço.
Pela falta de criatividade onde o que interessa é copiar, temos aqui a já conhecida cena da Casa Branca sendo destruída pelos alienígenas, matando o presidente americano, obrigando a vice a assumir o cargo. E temos também aquelas frases banais e ridículas que só depreciam ainda mais o filme, como “é hora de explodir mais alguns ET´s, a gente vai resistir até a morte” e “esses desgraçados de alienígenas mexeram com o planeta errado”. Nada mais patético do que evidenciar o heroísmo americano como salvador da Terra e a única esperança da humanidade.
O elenco é desconhecido e é difícil imaginar como os atores encontram algum tipo de motivação para participar da realização de algo tão inexpressivo. O filho da presidente, Bobby (Mathew Poalillo), é um personagem extremamente irritante e chorão, e o ator medíocre ainda consegue tornar as coisas ainda piores. Sabemos que os efeitos de CGI são necessários em filmes de invasão alienígena, com naves rasgando o céu e tiroteios para todos os lados, e então podemos até tolerar essa questão em “Dia dos Independentes”, mas o grande problema mesmo é a história reciclada e totalmente previsível, que não desperta interesse.
Os filmes bagaceiros dos anos 50 do século passado, com suas histórias absurdas e muitas delas ingênuas, são eternamente mais divertidos justamente pelas características toscas de um cinema produzido dezenas de anos atrás. Mas, esses filmes do início do novo século produzidos pela “The Asylum” são difíceis de digerir até mesmo para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, principalmente pelos roteiros de péssima qualidade. Se essas porcarias um dia se tornarão cultuadas só o tempo dirá, mas o que é certo é que o espectador precisa ter muita tolerância para conseguir assistir um filme desses até o fim, sabendo antecipadamente que será um desperdício de tempo.
Imediatamente após seu lançamento, o filme já faz parte do limbo dos esquecidos e dispensáveis, e está no cemitério das tranqueiras que não agregam nada ao gênero. Passe longe ou tente assistir apenas para conhecer as bagaceiras da produtora “The Asylum”. 
(Juvenatrix – 19/09/16)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Monstro de Pedras Brancas (The Monster of Piedras Blancas, EUA, 1959)


Sturges (John Harmon) é um homem viúvo que administra o funcionamento de um farol instalado numa construção à beira do mar, com o objetivo de alertar as diversas embarcações durante a noite sobre o perigo de acidentes contra os rochedos, responsáveis por muitos naufrágios. Ele tem uma jovem e bela filha, Lucille (Jeanne Carmen), que trabalha de garçonete num restaurante da pequena vila próxima, e é a namorada do jovem bioquímico Fred (Don Sullivan, das bagaceiras “O Gigante Monstro Gila” e “Teenage Zombies”). Quando assassinatos misteriosos e violentos começam a ocorrer na região, com vítimas degoladas e sem sangue, os moradores do vilarejo, especialmente o dono de um açougue, Kochek (Frank Arvidson), ficam assustados e creditam a responsabilidade das mortes para um lendário monstro que habita as cavernas nos penhascos logo abaixo do farol. Como Sturges parece esconder um terrível segredo, ele não é bem visto pelos habitantes, enfrentando problemas de relacionamento.
Mais mortes estranhas acontecem e o xerife George Matson (Forrest Lewis) está liderando as investigações, sempre fumando seu charuto e bastante intrigado pelas cabeças cortadas com precisão e a ausência de sangue nos cadáveres. Ele é auxiliado pelas perícias e análises do médico Dr. Sam Jorgenson (o inglês Les Tremayne, visto em outras bagaceiras divertidas do período como “Rastros do Espaço” e “Viagem ao Planeta Proibido”, além do clássico “A Guerra dos Mundos”). Devido ao crescente perigo ameaçando os moradores da pequena vila, e para interromper os assassinatos violentos, eles organizam um grupo para caçar o monstro. 


Dirigido por Irvin Berwick, com fotografia em preto e branco e curto (apenas 71 minutos), “O Monstro de Pedras Brancas” é mais um daqueles típicos filmes bagaceiros indispensáveis dos saudosos anos 50 do século passado, com seu roteiro simples e cheio de clichês, onde basicamente uma pequena cidade próxima do mar é atacada por um monstro carnívoro. E para os apreciadores dessas tranqueiras, a diversão está garantida justamente por esse tipo de história e pelos efeitos toscos de maquiagem com mortes violentas para a época, com um ator alto vestindo uma fantasia de borracha para interpretar o monstro assassino. Nesse caso, o trabalho é do ator Pete Dunn, que interpreta também outro personagem no filme, Eddie, um ajudante do açougue. Aliás, a concepção do monstro foi inspirada na criatura do clássico “O Monstro da Lagoa Negra” (Creature From the Black Lagoon, 1954), onde percebemos muitas similaridades. Isso pode ser explicado pelo fato do técnico em efeitos de maquiagem Jack Kevan, ter trabalhado na equipe que criou o famoso monstro que vivia nas águas escuras de uma região remota na Amazônia, e ele é o produtor de “O Monstro de Pedras Brancas”. Por curiosidade o nome do filme refere-se às rochas abaixo do farol, que pareciam brancas pela grande quantidade de gaivotas desorientadas que se lançavam para a morte à noite contra as pedras.
O monstro é uma mutação da família dos diplovertebrons, uma raça pré-histórica anfíbia extinta, e de tão tosco consegue despertar aquele bem vindo sentimento de nostalgia dos incontáveis filmes de baixo orçamento que eram produzidos com histórias parecidas, e que divertiam pelas características bagaceiras. E não falta a tradicional cena onde o monstro caminha carregando em seus braços a mocinha indefesa e desacordada.
Numa época que não existia computação gráfica, os efeitos eram toscos pela falta de recursos técnicos e indisponibilidade de investimentos para resultados com mais qualidade, mas ainda assim eram infinitamente mais divertidos. Até mesmo pela ingenuidade das histórias absurdas, quando em comparação com o cinema fantástico bagaceiro do início do século 21 com efeitos em CGI que não despertam o mesmo interesse pelo excesso de artificialidade, e que facilitam o trabalho preguiçoso dos realizadores em tentar contar uma história melhor.
Em 2005 foi lançado “The Naked Monster”, que é uma homenagem aos filmes “B” da década de 1950, com a participação de muitos atores veteranos, os quais tornaram possíveis e imortalizadas aquelas tranqueiras divertidas do passado. Com uma ideia de comédia de ficção científica e horror, o filme homenageia “O Monstro de Pedras Brancas” numa cena passada num farol, com os atores originais John Harmon e Jeanne Carmen. Curiosamente, um dos diretores dessa paródia é Wayne Berwick (filho de Irvin Berwick), que também esteve no filme de 1959, num papel menor interpretando o garoto Jimmy, que era manco de uma perna e corria aos gritos avisando para todos que o monstro tinha assassinado outra vítima.   
Também por curiosidade, vale citar que antigamente eu visitava os sebos do centro de São Paulo à procura de raridades sobre cinema fantástico, e comprei um poster gigante (70 x 90 cm) nacional e da época de lançamento do filme, com uma arte desenhada destacando o rosto do monstro. “O Terror Invade a Praia... Surge das Profundezas... O Monstro de Pedras Brancas”.
(Juvenatrix – 07/09/16)


sábado, 20 de agosto de 2016

Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira

Visão alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, M. Elisabeth Ginway. 210 páginas. Introdução de Andrew M. Gordon. Capa de Benson Chin. São Paulo: Devir Livraria, 2010.


Depois da publicação de Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro, em 2005, M. Elisabeth Ginway tornou-se, com justiça, a maior especialista em ficção científica brasileira. E não apenas para a comunidade literária internacional, mas também entre os brasileiros que acompanham de perto o gênero.
Cinco anos depois a mesma Devir que publicara seu livro pioneiro nos brinda com este Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, que reúne os seus textos mais importantes escritos antes e depois de Ficção Científica Brasileira, vistos antes em revistas acadêmicas norte-americanas e nas edições de 2005 e 2009 do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.[1]
Neste segundo livro, temos uma amostra mais abrangente do trabalho e dos interesses de Ginway, mas no mesmo sentido de compreender a realidade social e cultural do Brasil pela perspectiva agora não apenas da ficção científica, mas também do fantástico literário e do horror.
O livro está dividido em cinco tópicos diferentes, cada um deles com artigos de temas semelhantes que estabelecem um profícuo diálogo temático e analítico.
O primeiro tópico é “O Gênero Ficção Científica no Contexto Brasileiro”, com o mais longo ensaio do livro “Um Modelo para Analisar a Ficção Científica do Terceiro Mundo: O Caso do Brasil”, o mais importante do livro. Ela propõe uma espécie de tipologia conceitual para compararmos as formas como o gênero é praticado tanto entre os países desenvolvidos como nos em desenvolvimento, do ponto de vista da análise de ícones básicos do gênero, como o robô e o alienígena, e temas recorrentes, como a ecologia e a presença feminina, estes dois últimos mais ligados às transformações modernizantes vividas pelos países em desenvolvimento, o Brasil em especial, a partir da década de 1960. Também são abordados temas de épocas mais recentes, a partir dos anos 1980 e sua Segunda Onda, como a ficção científica hard, o cyberpunk e as histórias alternativas, entre outros.
Nas palavras da autora: “A ficção científica escrita no Terceiro Mundo exige ferramentas críticas diferentes daquelas tipicamente aplicadas à ficção científica anglo-americana e europeia, pois a mudança de contexto muitas vezes determina uma reinterpretação das premissas básicas do gênero.” (página 17). Este argumento defende que o gênero não é primordialmente de “primeiro mundo”, mas um fenômeno multicultural e, como tal, se enriquece com a comparação de como diferentes culturas a praticam, expandindo o gênero, tornando-o mais rico, complexo e democrático. Em suas palavras, “a ficção científica no Brasil (e em outras nações em desenvolvimento) está modificando o gênero em aspectos que têm implicações a longo prazo.” (página 55).[2]
Na segunda parte da obra, três artigos distintos, mas inter-relacionados analisam ícones clássicos da ficção científica, como os robôs, os ciborgues e a terra devastada. O objetivo é vinculá-los com aspectos da sociedade brasileira, de como estes ícones são reinterpretados de acordo com aspectos ligados à sua compreensão de conceitos como raça, nacionalidade e perspectivas de desenvolvimento socioeconômico, a partir de uma postura crítica das histórias, embora como ela mostra em alguns casos, de certa resignação com uma posição subalterna do país em relação aos de Primeiro Mundo, em especial as histórias situadas nos anos 1960. Especialmente interessante é sua análise “Do Implantado ao Ciborgue: O Corpo Social na Ficção Científica Brasileira”, em que é mostrado, por meio da análise de algumas histórias, como os implantes passam a ser compreendidos menos como uma invasão com subtexto político, e mais como uma espécie de assimilação para uso local, brasileiro.
Na terceira parte, Ginway agrupa artigos que abordam gêneros diferentes, mas próximos, como a fantasia, as utopias e as histórias alternativas, além da ficção científica hard. Aqui a análise tem contornos menos comparativos com modelos estrangeiros e centra-se na compreensão das histórias a partir das alegorias possíveis com aspectos da realidade brasileira, como a do vampiro tropical como um agente do multiculturalismo e a reinterpretação crítica da história brasileira pela ótica da história alternativa que é, para ela, socialmente engajada e politicamente emancipatória na ficção de Gerson Lodi-Ribeiro. Outra análise é da ficção científica hard de Jorge Luiz Calife, por meio de uma ótica que ela chama de híbrida, entre a utopia da conquista espacial e do futuro de consenso super-tecnológico, com a distopia em sua crítica do período autoritário. Em suas palavras: “Os romances de Calife são os primeiros a combinar a escala épica do mito, sense of wonder, e a crença na tecnologia no Brasil. De muitas maneiras ele faz a ponte entre o otimismo tecnológico do início do século xx, e as preocupações quanto ao regime autoritário do Brasil, expressas pela ficção distópica posterior.” (página 144).
A próxima seção é dedicada às autoras na ficção científica brasileira, com três artigos, abordando Dinah Silveira de Queiroz, Finisia Fideli em textos específicos e outras autoras sobre temas mais gerais e recentes dentro do gênero no país. Vale destacar a sua observação sobre a inversão nas vozes dos protagonistas que, num primeiro momento são masculinos, para depois eles serem parodiados e finalmente as mulheres assumem o papel principal, talvez numa indicação da mudança e lenta emancipação feminina na sociedade brasileira, ainda que ainda distante de se constituir numa relação mais igualitária.
A última seção trata da ditadura militar sob a ótica da ficção científica e do fantástico, com um artigo mais geral bastante didático e dois sobre a literatura fantástica dos principais autores brasileiros neste segmento, José J. Veiga e Murilo Rubião. Em suma, a abordagem analisa as contradições do processo de modernização econômica do país sob uma direção política populista (nos anos 1950) e autoritária (nos anos 1960 e 1970). O que a análise de Ginway sugere é que os textos destes dois autores apontam mais os erros e os excessos que beiram o absurdo, do que a sinalização de possibilidades de integração social e desenvolvimento na sociedade brasileira. Talvez possamos dizer que o problema não é o processo de modernização em si, mas o déficit democrático, a falta de legitimidade, em que ele foi conduzido.
No conjunto o livro é muito rico e instigante, pois oferece uma grande variedade de análises e interpretações agudas e, por vezes, surpreendentes da realidade social e cultural brasileira, não apenas por ser do ângulo da ficção científica, mas por vir de uma observadora “alienígena”. Mas o grande mérito está situado mais na proposta bem-sucedida de compreender o Brasil pela perspectiva cultural da literatura de gênero do que pelo fato da analista ser uma estrangeira. Isso porque Ginway demonstra muita solidez em seus conceitos e amplo conhecimento sobre a ficção científica e literatura brasileira em geral.
Sua metodologia comparativa exercida, por vezes, através da análise dos efeitos da fábula e sobretudo pelas associações alegóricas,  distinguem este conjunto de artigos e sua primeira obra como um esforço notável para analisar a cultura brasileira, tanto do ponto de vista literário, como dos chamados estudos culturais, com uma coragem sem paralelo em relação aos seus colegas brasileiros em tempos recentes, ao reunir dezenas de autores e apresentando-os com sua visão particular e inovadora da literatura que praticam, não temendo as inevitáveis polêmicas ao analisar autores atuais.
Em resumo, o que Ginway mostra é a riqueza complexa da cultura brasileira através de sua trajetória histórica, pela luz de um gênero aberto a novas experiências temáticas e especulativas, como a ficção científica. Por este ângulo em particular é que este Visão Alienígena deve ser recomendado, pois demonstra as possibilidades de riqueza analítica da fc escritas por brasileiros em compreender a realidade social e cultural de seu país a partir de cada época.

Marcello Simão Branco




[1] Em 2005,  “O gênero fantasia no Brasil: Globalizando e abrasileirando O Senhor dos Anéis”, e em 2009 “Um garimpo no monte de sucata pós-moderno: O pós-humano na ficção científica brasileira contemporânea (2006-2009)”.
[2] De fato, os escritos multiculturais ganharam força com o processo de globalização; uma outra tendência, com possíveis implicações de longo prazo para o gênero, é a possível convergência entre o gênero e o mainstream.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A Maldição de Ghor (Dark Echoes, Iugoslávia / EUA, 1977)


Um exemplar tosco e bagaceiro do cinema fantástico de meados dos anos 1970, numa co-produção entre a antiga Iugoslávia e Estados Unidos, dirigido e escrito pelo americano George Robotham (1921 / 2007), em seu único trabalho nesse ofício, uma vez que sua carreira foi como ator de séries de TV e principalmente dublê. Estamos falando de “A Maldição de Ghor” (Dark Echoes), lançado no Brasil em VHS, com a típica história de uma pequena cidade no meio das montanhas amaldiçoada por um fantasma zumbi vingativo.
Em 1874 um navio com cerca de oitenta pessoas afundou num lago próximo de uma cidadezinha na Áustria. A culpa pelo naufrágio recaiu para o capitão Manfred Ghor (Norman Marshall), que voltou do mundo dos mortos para se vingar dos moradores da cidade, especialmente os descendentes dos promotores responsáveis por sua condenação. Quando mortes violentas começam a acontecer, aterrorizando a cidade e dando-lhe a fama de assombrada, um detetive da polícia, Inspetor Woelke (Wolfgang Brook), coordena as investigações e chama para ajudá-lo seu amigo americano Bill Cross (Joel Fabiani), que tem poderes mediúnicos. Juntamente com uma jornalista, Lisa Bruekner (Karin Dor), eles investigam os assassinatos, entrevistam os moradores como a misteriosa Sra. Ziemler (a atriz húngara Hanna Hertelendy), que tem um corvo de estimação e lidera um estranho culto secreto de feitiçaria, e tentam localizar o fantasma do capitão Ghor.
A história é um grande clichê, sem novidades e previsível do início ao fim, principalmente no desfecho. Mas, independente disso, o filme até diverte justamente pelas características bagaceiras da produção, somadas às atuações inexpressivas do elenco e dos efeitos toscos do monstro assassino, com um trabalho risível de maquiagem, numa época sem computação gráfica. Tem também boas cenas com mortes violentas como uma decapitação sangrenta. A condução da investigação policial não empolga e é até bem sonolenta, mas o filme tenta passar um clima sinistro no interior de cavernas e nas ruínas de um castelo de uma pequena cidade atormentada por um fantasma em busca de vingança contra seus algozes. Além de interessantes sequências aquáticas quando um grupo de mergulhadores investiga o barco naufragado no fundo do lago e é surpreendido pelo capitão Ghor apodrecido e ansioso para aumentar sua coleção de vítimas.
As primeiras cenas de ataques do fantasma zumbi até conseguem estabelecer um atmosfera sombria onde o assassino sobrenatural não é visto, aparecendo apenas sua sombra e ouvindo seus grunhidos nos últimos momentos que antecedem a morte das vítimas. E depois que ele é mostrado, com uma maquiagem tosca de cadáver podre, suas aparições tornam-se os destaques do filme, justamente pelas características bagaceiras. Vale conhecer o obscuro “A Maldição de Ghor” por curiosidade e para comprovar como os efeitos toscos são bem mais divertidos que o CGI vagabundo do cinema tranqueira do século XXI.
(Juvenatrix – 10/08/16)

sábado, 6 de agosto de 2016

O Perigo Vem do Lago (Beneath, EUA, 2013)


Exibido pelo canal de TV a cabo “SyFy”, “O Perigo Vem do Lago” (Beneath) parece tratar-se num primeiro momento de apenas mais um filme bagaceiro com tubarões. É até compreensível a comparação, pois ao invés de um tubarão assassino temos um imenso peixe carnívoro que ataca um grupo de jovens num barco à deriva num lago. Porém, a história traz elementos interessantes, ao contrário das incontáveis tranqueiras com roteiros completamente desprovidos de conteúdo. Nesse filme dirigido por Larry Fessenden (que também é ator e produtor com muitos trabalhos no currículo), o foco é evidenciar a fragilidade da amizade entre os jovens, que em situações perigosas com ameaças reais de morte, permite que venha à tona a verdadeira face da natureza humana. Outro diferencial é a troca dos efeitos vagabundos de CGI que tornam tudo muito artificial por um monstro mecânico de borracha que devora suas vítimas, lembrando aquelas preciosas bagaceiras dos anos 1950 que faziam do cinema fantástico de baixo orçamento uma grande opção de diversão sem compromisso.
Em “O Perigo Vem do Lago”, seis estudantes que acabaram de se formar decidem se reunir pela última vez para comemorar a amizade da escola, antes de cada um deles tomar seus próprios rumos em novos desafios. O grupo é formado por quatro homens e duas mulheres. Eles decidem passear de barco num lago localizado numa região rural próxima à propriedade do avô de Johnny (Daniel Zovatto), e que parece esconder um segredo mortal em suas águas. O grupo de amigos é ainda formado pelo nerd Zeke (Griffin Newman), que gosta de filmar tudo que acontece, além da morena Deb (Mackenzie Rosman), os irmãos Matt (Chris Conroy) e Simon (Jonny Orsini), e a loira Kitty (Bonnie Dennison), que é a namorada de Matt, o líder do grupo.
A diversão com direito a nadar no lago e beber cerveja logo é interrompida quando um enorme peixe com dentes pontiagudos ataca o grupo e começa a colecionar vítimas, degustando o sangue e carne humanos. A partir daí, sem remos e com rachaduras no casco do barco, eles não conseguem voltar para a segurança da margem do lago, E precisam lutar por suas vidas combatendo o monstro e também uns aos outros, depois que os laços de amizade que pareciam fortes se rompem facilmente com conflitos. Onde cada um deles passa a defender seus próprios interesses, não hesitando em colocar em prática e hipocrisia da raça humana com traição e exposição do rancor que todos carregam dentro de si.
No final das contas, o filme é simples e não tem nada de especial, utilizando uma ideia básica com clichês já muito explorados. Mas, o fato dos realizadores optarem em não utilizar ridículos efeitos de computação gráfica para o monstro aquático e contar uma história destacando o conflito entre os personagens num ambiente ameaçador de morte com desfecho pessimista, já o torna diferente da infinidade de produções do mesmo tema, as quais priorizam CGI vagabundo com histórias fúteis e dispensáveis.
(Juvenatrix – 05/08/16)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tubarões de Gelo (Ice Sharks, EUA, 2016)


Como a moda é lançar filmes ridículos com ataques de tubarões, numa espécie de sub-gênero do cinema fantástico bagaceiro do início do século XXI, a parceria entre a produtora “The Asylum” e o canal de TV a cabo “SyFy”, conhecidos pelos filmes ruins, resultou em outra tranqueira chamada “Tubarões de Gelo” (Ice Sharks, 2016). A direção e o roteiro são de Emile Edwin Smith, que têm muitos trabalhos na área de efeitos visuais (como na franquia “Sharknado”), e dirigiu a tranqueira “Mega Shark vs. Mecha Shark” (2014).
As histórias são sempre as mesmas, e o objetivo é encontrar um meio de colocar tubarões atacando as pessoas, não importando como, onde ou os motivos. No Ártico, uma pequena estação de pesquisas chamada “Oásis” está trabalhando para identificar as razões do derretimento do gelo na região. Entre os técnicos e pesquisadores temos o casal David (Edward DeRuiter) e Tracy (Jenna Parker). Ao investigarem o misterioso desaparecimento de vários caçadores, eles descobrem que tubarões vindos da Groenlândia evoluíram e tornaram-se mais ágeis e violentos, atacando animais e pessoas rompendo facilmente as finas camadas de gelo enfraquecidas pelo derretimento. Os animais conseguem isolar a estação de pesquisas, que primeiramente flutua à deriva no mar, e depois afunda sem controle, obrigando seus ocupantes a lutarem pela vida combatendo os tubarões ávidos por suas carnes, enquanto esperam a possibilidade de resgate por um navio quebra gelo.
Trata-se de apenas mais um filme com história ruim e elenco inexpressivo, utilizando tubarões em efeitos vagabundos de computação gráfica. Tem algumas mortes sangrentas bem artificiais e cenas que tentam passar sem sucesso a tensão e claustrofobia de um ambiente fechado atacado pelas criaturas aquáticas assassinas. Mas, até os tubarões, que obviamente são os elementos principais da trama, aparecem pouco quando em comparação com outros filmes similares, e então temos menos cenas ridículas do que o habitual visto nas dezenas de produções genéricas do tema. O filme tenta ser sério, sem apelar para o tradicional “pastelão” que vemos na maioria dos filmes de tubarão, mas ainda assim não funcionou. Percebemos que o diretor preferiu investir mais num suspense com a luta dos pesquisadores para sobreviver ao ataque dos tubarões, mas o convite ao tédio é inevitável. O espectador, mesmo com muito esforço, não consegue estabelecer qualquer tipo de empatia com os personagens, não se importando com suas mortes. Se, até eles próprios não demonstram nenhuma reação convincente em relação à perda violenta dos amigos, é praticamente impossível para quem está assistindo também se importar com eles.
Seria ótimo se os realizadores parassem de explorar esses animais e os deixassem em paz nos oceanos.  
(Juvenatrix – 01/08/16)