segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Noite das Gaivotas (La Noche de las Gaviotas / Night of the Seagulls, Espanha, 1975)


Quarto e último filme da cultuada tetralogia dos mortos-vivos cegos do espanhol Amando de Ossorio. “A Noite das Gaivotas” é o sucessor de “A Noite do Terror Cego” (The Night of the Blind Terror, 1972), “O Retorno dos Mortos-Vivos” (The Return of the Evil Dead, 1973) e “O Galeão Fantasma” (The Ghost Galleon, 1974).
Uma ordem de cavaleiros templários com centenas de anos realiza cerimônias de magia negra idolatrando um demônio do mar, uma criatura bestial representada por uma estátua, que transformou os seguidores da seita em mortos-vivos esqueléticos vestindo trapos esfarrapados. Eles amaldiçoaram uma pequena vila à beira do mar, e para não destruí-la exigiram a cada sete anos, durante sete noites seguidas, o sacrifício de jovens e belas mulheres. Um médico, Dr. Henry Stein (Victor Petit) chega ao vilarejo com sua esposa Joan (Maria Kosti), para substituir o antigo médico (Javier de Rivera), ávido e impaciente pela transferência daquele lugar maldito. O casal é mal recebido pelos aldeões que não desejam os serviços médicos e não querem intrusos. Eles vivem numa aura de mistério e medo, escondendo um terrível segredo. Porém, uma única pessoa decide ajudá-los, a bela jovem Lucy (Sandra Mozarosky), que se oferece como empregada. Mas, as sinistras procissões noturnas na beira da praia e o desaparecimento de jovens mulheres desperta a atenção do Dr. Stein, que tenta descobrir a verdade e passa a lutar para defender sua vida, da esposa e de Lucy.   
Apesar de fazerem parte de um mesmo universo ficcional, os filmes com os mortos-vivos cegos de Amando de Ossorio podem ser conferidos isoladamente, com histórias independentes em torno de uma ideia central com os templários satanistas zumbis cadavéricos. Em “A Noite das Gaivotas”, temos uma incrível e constante atmosfera sombria com locações arrepiantes de gelar a espinha. E mesmo esbarrando nos velhos e tradicionais clichês do estilo, com efeitos bagaceiros (mas que divertem justamente pela tosquice), e pela narrativa por vezes lenta, é inegável sentir o efeito de horror autêntico escondido nos opressores castelos de pedras, iluminados por tochas de fogo. Além dos aldeões sempre rudes com forasteiros, escondendo segredos antigos, os rituais satânicos com sacrifícios humanos (com direito a corações arrancados e corpos devorados por caranguejos), e as misteriosas comitivas noturnas na praia, com sinos tocando e cantorias tristes simulando lamentos. Tem ainda os gritos agonizantes das gaivotas do título, ecoando pela noite e representando as almas sofridas das mulheres sacrificadas em nome de uma criatura demoníaca marinha, que lembra as feras indizíveis da literatura de H. P. Lovecraft. Não poderia faltar também um panaca com deficiência mental que sofre perseguições com pancadarias e apedrejamentos dos habitantes da vila. Ele é Teddy (interpretado por Jan Antonio Castro) e além de seu nome soar bem estranho, ele é resgatado pelo médico e sua esposa, e morre de medo dos mistérios que envolvem o vilarejo durante a noite. Entre os clichês explorados, tem também a cena dos sobreviventes encurralados numa casa, tentando suportar o ataque dos mortos-vivos sem olhos empunhando suas espadas, numa referência ao clássico americano “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), de George Romero. 
(Juvenatrix – 14/12/15)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Galeão Fantasma (El Buque Maldito / The Ghost Galleon, Espanha, 1974)


O diretor e roteirista espanhol Amando de Ossorio (1918 / 2001) ficou eternizado na história do cinema de horror bagaceiro pela realização de quatro filmes sobre mortos-vivos cegos, que eram antigos cavaleiros templários satanistas. A quadrilogia é composta por “A Noite do Terror Cego” (La Noche del Terror Ciego / The Night of the Blind Terror, 1972), “O Retorno dos Mortos-Vivos” (El Ataque de los Muertos Sin Ojos / The Return of the Evil Dead, 1973), “O Galeão Fantasma” (El Buque Maldito / The Ghost Galleon, 1974) e “A Noite das Gaivotas” (La Noche de las Gaviotas / Night of the Seagulls, 1975). E, apesar de todos fazerem parte do mesmo universo ficcional, os filmes são independentes entre si.  
Em “O Galeão Fantasma”, o terceiro filme da série, a modelo Noemi (Bárbara Rey) está procurando sua amiga desaparecida Kathy (Blanca Estrada), e descobre com a fotógrafa Lillian (Maria Perschy) que ela está numa lancha em alto mar, junto com outra modelo, Lorena (Margarita Merino). Elas estão participando de uma ousada campanha de publicidade dos iates do empresário Howard Tucker (Jack Taylor). A ideia planejada seria um resgate no meio do oceano, despertando a atenção da mídia para a resistência dos barcos de Tucker, que garantiram a segurança delas até o salvamento. Porém, o plano sai de controle quando a lancha das moças encontra um antigo galeão holandês do século XVI navegando errante envolto numa névoa fantasmagórica. Elas sobem à bordo e encontram um cenário desolado e sem tripulantes.
Em paralelo, um grupo parte secretamente para resgatar as modelos, após conseguirem um contato por rádio onde elas reportaram o encontro com o navio fantasma. A equipe é formada pelas mulheres Noemi e Lillian, junto com Tucker, acompanhado do capanga Sergio (Manuel de Blas) e do cientista Prof. Gruber (Carlos Lemos), um estudioso do misterioso galeão, que nunca é detectado por radar ou instrumentos de navegação, mas que é assunto lendário em casos de desaparecimento de pequenos barcos. Eles descobrem o segredo do misterioso navio fantasma, por um preço que pode custar suas vidas.
Os zumbis são originários de uma ordem blasfema de cavaleiros templários que realizavam cultos satânicos, e que conseguiram dominar a morte por magia, transformando-se em criaturas esqueléticas vestindo capas surradas com capuzes sinistros. Em “O Galeão Fantasma”, o roteiro de Amando de Ossorio é bem forçado e inverossímil na forma como as vítimas encontram o navio sobrenatural, com a premissa de uma inconvincente campanha de marketing para promover o lançamento de barcos. E tem algumas cenas bagaceiras exageradas como o naufrágio do galeão sobrenatural num incêndio tosco. A narrativa também é lenta e cansativa em alguns momentos. Mas, em compensação, temos uma ideia interessante sobre um navio que vaga sem rumo por uma região quente em outra dimensão (com direito até para uma citação de homenagem para a cultuada “Zona do Crepúsculo” ou “Além da Imaginação”, no Brasil). Com seus tripulantes sendo esqueletos mortos-vivos que saem de seus caixões em busca do sangue dos intrusos de seu território. Além de várias cenas de perseguições (e uma em especial acompanhada de uma morte bem violenta), evidenciando uma constante atmosfera sombria e claustrofóbica, que somente os filmes antigos conseguiam realizar, mesmo com efeitos precários, sem a artificialidade da computação gráfica do cinema moderno. Um destaque que merece registro é a cena onde os mortos sem olhos emergem do mar, invadindo uma praia e contribuindo para um desfecho depressivo memorável. 
(Juvenatrix – 07/12/15)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Memórias Encontradas numa Banheira, Stanislaw Lem

Memórias Encontradas numa Banheira (Pamiętnik znaleziony w wannie, de 1961), Stanislaw Lem, 180 páginas. Tradução de Mário Molina. Francisco Alves Editora, coleção Mundos da Ficção Científica, n. 36, 1985.

Se fosse possível definir em uma palavra este romance curto de ficção científica, seria “angustiante”.
Stanislaw Lem (1921-2006), mais conhecido como autor do clássico Solaris (1961), é um autor muito complexo do ponto de vista temático e intelectual. Sua verve satírica por vezes chega ao limite deste recurso, tornando-o incômodo e amargo. Este livro é o que poderia ser chamado de um dos mais "kafkianos" já escritos. Em qualquer relação dos livros que mais levam à frente as influências do imaginário e temática de Franz Kafka (1883-1924), este estaria na linha de frente, sem fazer feio ao que concebeu o escritor tcheco. Lem é cuidadoso e esperto o suficiente para não se calcar numa leitura explicitamente kafkiana, recusando a fácil acusação de estar realizando mais um dos famigerados pastiches.
O autor polonês recobre a prosa de uma situação tão absurda, que o próprio personagem que se indaga do absurdo em que está inserido, transforma-se, ele mesmo, no próprio absurdo.
Memórias Encontradas numa Banheira divide-se em duas partes claramente distintas. E o que torna o livro classificável como FC é o recurso à ciosa e interessantíssima introdução (que vale por si), às “memórias” propriamente ditas.
Uma praga de origem cósmica destrói os papéis de nosso planeta. Os que existem e os que são construídos. Todos os documentos, registros, livros e fontes de conhecimento e comunicação da humanidade baseados no papel são perdidos.
Entramos em colapso e no futuro distante, paleógrafos acham um manuscrito dentro de uma banheira em uma fortaleza subterrânea. E passam a decifrar o significado deste manuscrito, as memórias propriamente ditas, que passam a ser narradas em primeira pessoa, pelo sujeito que se transformará no peregrino do absurdo, do desatino sem fim, de um ir e vir em corredores, salas, escritórios, portas e elevadores à procura das instruções de sua missão, seja ela qual for.
O autor faz um libelo contra a onipotência do Estado totalitário. Sim, totalitário e não autoritário, pois em sua fortaleza subterrânea de inspiração político-religiosa todos são servidores cegos de uma ordem de reconstrução do mundo, só que esta ordem propriamente dita, dilui-se no próprio absurdo de regras e procedimentos já sem sentido, porque não questionados, apenas seguidos numa corrente sem fim de ordens, contra-ordens, ditames e não ditames, onde a forma vale mais que o conteúdo, sem que se perca de vista o peso da ideologia fundadora, mesmo que ela, em si, não faça mais sentido para ninguém individualmente.
Se o foco de Lem é o socialismo polonês, reprodutor imposto do soviético, sua alegoria política supera sua crítica factual, porque ela fala, em ampla escala, de todas as formas de opressão e do nonsense maior da suprema burocratização de todas as formas de relacionamento, no qual, nenhum humano é mais humano, pois não se reconhece nenhuma chance de individualidade e espírito crítico, num regime monolítico e opressor.
No fim da jornada nos resta apenas um sorriso amargo e uma sensação de angústia e libertação. Pena que o personagem que vislumbra uma saída do terror fique imerso em seus próprios medos e dúvidas e se imiscua no terror que em vão ele procurou entender.
Uma obra inteligente, instigante, e mantém sua atualidade como crítica que se pode fazer a qualquer forma de organização social que não priorize a liberdade individual e a pluralidade de escolhas e expressões humanas.

– Marcello Simão Branco

terça-feira, 24 de novembro de 2015

As Bodas de Satã (The Devil Rides Out, Inglaterra, 1968)


A produtora inglesa “Hammer” também contribuiu significativamente para o sub-gênero do cinema de horror que aborda o satanismo. No final dos anos 60 e início da década seguinte, tivemos um período com ótimos filmes com propostas similares, como “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, e “Balada Para Satã”, de Paul Wendkos. Em 1968 foi lançado “As Bodas de Satã”, com direção do especialista Terence Fisher, o mais importante cineasta do cultuado estúdio, e com o ícone Christopher Lee no elenco. O roteiro é do renomado escritor Richard Matheson, a partir de um livro de Dennis Wheatley, cujas histórias serviram de inspiração para “O Continente Esquecido” (1968) e “Uma Filha Para o Diabo” (1976), ambos também da “Hammer”.
Ambientado em 1929, os amigos Duque Nicholas de Richleau (Christopher Lee) e Rex Van Ryn (Leon Greene) prometeram ao pai falecido do jovem Simon Aron (Patrick Mower), que cuidariam dele. E pensando nisso, e após sem vê-lo por alguns meses, eles decidem visitá-lo em sua casa, surpreendendo-o no meio de uma estranha reunião de uma suposta sociedade astronômica. Como profundo conhecedor de doutrinas e ciências ocultas, o duque desconfia dos misteriosos diagramas desenhados no chão de um grande salão no andar de cima da casa e após encontrar galinhas escondidas numa cesta como se estivessem prontas para o abate num ritual de sacrifício, ele acredita que Simon faz parte de uma seita demoníaca. Ele tenta retirar o jovem e outra garota, Tanith Carlisle (Nike Arrighi), da influência maligna dos seguidores do culto, uma vez que eles estavam sendo preparados para um batismo num sabbath, onde passariam a servir o diabo. Então, Nicholas e o amigo Rex, apaixonado por Tanith, juntam esforços com a sobrinha do duque Marie Eaton (Sarah Lawson) e seu marido Richard (Paul Eddington), e todos tentam salvar os jovens das forças do mal e das garras do líder satânico Mocata (Charles Gray), mestre em nível superior do culto demoníaco.
“Na magia não existe o bem e o mal. É somente uma ciência. A ciência de fazer com que ocorram mudanças por meio da vontade própria. A reputação sinistra que a acompanha não tem fundamento. É baseada em superstições, não em observações objetivas”. Essas são as palavras de Mocata, e segundo ele, não há motivos para se temer a magia. Porém, não é o que se vê no filme, principalmente em cenas onde dezenas de seguidores do culto se banham freneticamente com o sangue fresco de um bode abatido em sacrifício, ou quando surge a presença física do demônio Baphomet numa missa negra, uma aparição extremamente sinistra, de uma criatura meio homem e meio bode.
É curioso notar que o ator Christopher Lee, segundo o site “IMDB” (Internet Movie Database), afirmou que “As Bodas de Satã” é seu filme preferido da “Hammer”, e ele esteve em muitas produções do estúdio, interpretando personagens de todos os tipos, principalmente o vampiro Conde Drácula. E que ele insistiu bastante com os produtores para filmarem uma história de Dennis Wheatley. Porém, contrapondo um pouco o entusiasmo de Christopher Lee, o filme é bem exagerado na fantasia, com demônios surgindo envolvidos em névoas, através de rituais sombrios, e parece bem estranho ver o cultuado ator recitando energicamente palavras mágicas de uma oração para combater o poder das trevas. O desfecho também é bastante previsível, onde podemos imaginar com razoável antecedência os rumos das ações, culminando com o manjado confronto final entre o bem e o mal e a óbvia punição para os derrotados.
Entre os momentos de destaque certamente vale registrar uma cena tensa envolvendo uma aranha gigante, que ameaça o Duque e seus amigos quando estão no interior de um círculo desenhado no chão, participando de um ritual para combater o demônio e tentar libertar os jovens Simon e Tanith de sua influência maligna. O enorme aracnídeo peludo utilizado na cena é real, filmado numa perspectiva que o faz parecer bem maior e imponente, realmente passando uma sensação imensa de desconforto, mesmo para quem não sofre de aracnofobia. 
Lançado em DVD no Brasil pela “Cult Classic”, os letreiros de abertura do filme são ilustrados por diversos símbolos e imagens de magia negra, causando um efeito interessante e perturbador logo no início.
(Juvenatrix – 24/11/15)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Terror no Triângulo das Bermudas (Bermuda Tentacles, EUA, 2014)


Com distribuição da dupla dinâmica dos filmes bagaceiros do cinema fantástico tranqueira do século XXI, “SyFy” (na televisão a cabo) e “The Asylum” (em DVD e Blu-Ray), “Terror no Triângulo das Bermudas” não desaponta seus distribuidores, pois é mais uma porcaria colossal. A história é extremamente banal, explorando o exaustivo clichê sobre os mistérios do famoso “Triângulo das Bermudas”, e os efeitos especiais em CGI incomodam de tão exagerados e artificiais. O elenco é repleto de atores inexpressivos, exceto pelas presenças curiosas do experiente John Savage como o Presidente americano DeSteno, e pela agora veterana Linda Hamilton (a Sarah Connor de “O Exterminador do Futuro”, 1984). Ela que está em final de carreira e sem opções para ter que aceitar o papel de uma militar austera, a Almirante Linda Hansen, que fica o tempo todo falando grosso, dando ordens e fazendo pose de durona . A direção é de Nick Lyon, de outras porcarias como “A Invasão Zumbi” (2012).
O avião “Força Aérea Um” que transporta o presidente dos Estados Unidos (Savage), enfrenta uma forte tempestade e antes de explodir no ar, uma cápsula com o presidente é ejetada, caindo no mar na região do Triângulo das Bermudas, indo parar no fundo do oceano. Paralelamente, uma frota de navios da Marinha, sob o comando rígido da Almirante (Hamilton), é atacada por monstros com tentáculos imensos (daí o título original) de origem alienígena. Enquanto enfrentam a ameaça dos monstros, uma equipe de resgate liderada pelo Chefe Trip Oliver (Trevor Donovan) parte num pequeno submarino experimental para tentar localizar a cápsula com o presidente. Além de outros soldados, a equipe ainda conta com a consultoria de apoio técnico da engenheira Tenente Plummer (Mya Harrison) e o piloto do submarino, o Tenente Comandante Barclay (Richard Whiten). No fundo do mar, eles encontram uma caverna gigantesca com um cemitério de aviões e navios que estavam desaparecidos, numa especulação sobre o mistério do Triângulo das Bermudas. Eles teriam sido capturados para fornecerem energia com seus combustíveis para um posto avançado alienígena oculto nessa caverna subaquática. Os sempre heróis americanos precisam superar dois desafios, encontrar e salvar a vida do presidente, e vencer uma batalha contra uma ameaça de invasão alienígena.
“Terror no Triângulo das Bermudas” é um filme muito ruim, exagerado na computação gráfica e extremamente previsível. Mas, o pior de tudo mesmo é o roteiro com ideias já vistas centenas de vezes antes, com os mesmos clichês irritantes. Se não fosse a história patética, poderíamos até tentar com certo esforço nos divertir com as características bagaceiras como os monstros em CGI, as mortes sangrentas, a gigantesca nave alienígena, e com a atriz veterana Linda Hamilton nitidamente deslocada num papel de militar sisuda. Porém, é difícil aguentar os discursos americanos sobre heroísmo, exaltação do ego e atos de bravura com sacrifícios para o bem da humanidade. Aliás, se não fossem por eles, nosso planeta indefeso estaria condenado à destruição.
(Juvenatrix – 18/11/15)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, Edgar Indalecio Smaniotto

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar: Ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira, Edgar Indalecio Smaniotto. 196 páginas. Editora Corifeu, Rio de Janeiro, 2007.

Um dos filões editoriais que tem sido atacado com entusiasmo pelos fãs brasileiros de ficção científica e fantasia é o dos estudos acadêmicos. Há até pouco tempo, contavam-se nos dedos de uma única mão os livros de não-ficção disponíveis em língua portuguesa sobre o gênero.
Os títulos históricos, publicados ao longo do século 20, geralmente tratavam da produção estrangeira, sendo que o mais importante texto sobre a ficção científica produzida no Brasil foi, por muito tempo, o prefácio escrito por Fausto Cunha para a edição brasileira de No mundo da ficção científica (Science fiction reader's guide), de L. David Allen (Summus Editorial, SD).
Em 2007, os leitores interessados nesse tipo de literatura puderam compartilhar das conclusões de A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, publicado pela Editora Corifeu, dissertação de mestrado de Edgar Indalecio Smaniotto sobre a vida e a obra do escritor luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar que, em 1875, teve publicado em dois volumes o romance O Doutor Benignus, obra considerada como um dos primeiros exemplos da ficção científica brasileira. A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNESP de Marília, orientada pela Professora Doutora Christina de Rezende Rubim, que também assina o prefácio do volume.
Smaniotto é um jovem professor que atua no ensino fundamental da cidade de Marília, onde nasceu e reside. Também é colaborador frequente das publicações do fandom brasileiro, geralmente com textos de análise literária.
O trabalho está dividido em seis partes principais. As duas primeiras são “Augusto Emílio Zaluar: Esboço de uma trajetória” e “Entre o relato de viagem e a moderna antropologia”, e dizem mais respeito ao homem Zaluar, sua biografia e sua participação da vida político-cultural na capital do Império Brasileiro. Neles, sabemos que Zaluar nasceu em Lisboa em 1826 e não completou os estudos em medicina para dedicar-se ao ofício de escrever, principalmente na área jornalística. Porém, como não havia possibilidade de se sustentar exclusivamente da escrita em seu país natal, em 1850 Zaluar migrou para o Brasil e aqui se estabeleceu como jornalista. Seus interesses nas ciências, especialmente na antropologia, o levaram a se dedicar aos estudos sobre o homem brasileiro e o seu lugar no mundo. Zaluar acompanhava atentamente os trabalhos das missões científicas no Brasil e isso fica claro na leitura de O Doutor Benignus, pois Zaluar faz questão de citar cada um dos seus inspiradores, inaugurando junto com o gênero uma mania que está cada vez mais em destaque entre os autores brasileiros de ficção científica e fantasia. O conhecimento de Zaluar a respeito do trabalho de campo dos antropólogos está retratado no romance na figura de William River, personagem sequestrado por uma tribo de índios caiapós na Ilha do Bananal, destino final da expedição de Benignus.
Na terceira parte, “A origem do homem: monogenismo e poligenismo”, descobrimos que Zaluar compartilhava da teoria de que o homem teria se originado na América – especialmente no Brasil – e que tinha confiança que mais cedo ou mais tarde essa teoria seria confirmada. Por isso seu personagem em O Doutor Benignus vai encontrar um crânio humano fossilizado, preservado numa providencial caverna no planalto central.
Até aqui, a leitura da dissertação de Smaniotto é conquistada a duras penas. O texto é truncado e repleto de citações e notas de rodapé, algumas bastante longas. Embora o tema não seja enfadonho, não parece ao leitor que se trata de um trabalho sobre ficção fantástica pois o que se falou esteve principalmente associado à pessoa de Zaluar. Entretanto, na segunda metade, o texto ganha contornos pungentes na medida em que Smaniotto aborda os temas que levaram os estudiosos a classificarem o romance de Zaluar com ficção científica de fato.
A teoria da habitabilidade dos mundos é o tema  da quarta parte do estudo, “Seres imaginários do espaço”. Aqui aparece a fascinação de Zaluar pelas teorias do cientista francês Camille Flammarion sobre a habitabilidade dos outros planetas dos Sistema Solar, e até mesmo do Sol e das estrelas, misturando ciência com doutrinas espiritualistas numa real antecipação do que viria a ser a popular ideia dos discos voadores, muitas décadas depois. Mas o trecho em que Benignus trava contato com um habitante do Sol – um ser feito de luz e energia radiante – acontece durante um sonho do sábio, depois de adormecer sobre os restos calcinados de um meteorito recém-precipitado. É curioso notar que a expedição de Benignus foi proposta principalmente para comprovar que o Sol seria habitado, e Zaluar argumenta que seu personagem teria essa certeza apenas por observar as manchas do Sol por seu telescópio. Sendo essas manchas, na interpretação do autor, fenômenos similares ao olho de um furacão, na sua lógica, a superfície do Sol seria fria e, portanto, habitada. Simples assim. Comprovada a habitabilidade do Sol, fica também comprovada a habitabilidade de qualquer outro astro.
A ficção de Zaluar frente a seus contemporâneos Júlio Verne e H. G. Wells é tema em “Estabelecendo comparações: o Doutor Benignus diante do romance científico europeu”. Nesta parte encontra-se o melhor do estudo para o leitor interessado em ficção científica. Smaniotto faz um relato rápido sobre a influência explícita de Júlio Verne na prosa de Zaluar, especialmente quando este insere um balão na sua história, a moda de Cinco semanas em balão, de Verne. Smaniotto observa ali a antecipação da dirigibilidade dos balões, tecnologia que só seria conquistada no início do século 20 por Alberto Santos Dumont. Apesar de ser uma interpretação romântica e uma forma de dar a Zaluar um arremedo da autoridade verniana, é um exagero. Zaluar definitivamente não deu dirigibilidade alguma ao seu balão em O Doutor Benignus, que só chegou aonde chegou – e no momento mais que oportuno diga-se de passagem – por conta de uma tempestade que o carregou na direção certa. Pelo menos neste caso, Zaluar não antecipou nada.
Mas as melhores sacadas de Smaniotto estão nas comparações com Wells, especialmente na análise das diferenças culturais na representação do alienígena. Para Wells, o alienígena é um agressor, uma força de ocupação que humilha a arrogância britânica, enquanto que para Zaluar o alienígena é um ser espiritualmente evoluído que traz uma mensagem pacífica e edificante, e reconhece a promessa de um futuro glorioso para o país.
Smaniotto prepara o fechamento de seu trabalho na sexta e última parte, intitulada “A formação de um mito cultural: o alienígena na literatura brasileira”. Aqui, Smaniotto cita principalmente Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da brasilianista Elisabeth Ginway (Devir, 2005) e Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, de Roberto de Sousa Causo (UFMG, 2003), como referências para concluir que o mito do alienígena é uma característica da ficção científica brasileira, na medida em que valida todos os demais componentes da mítica nacional, colocando O Doutor Benignus numa posição de importância para as letras e especialmente para os estudiosos da ficção científica no Brasil.
Cesar Silva

sábado, 14 de novembro de 2015

O Filme Essencial sobre os Mistérios da Existência

O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet), Suécia, 1957, 95 minutos. Direção e roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça Pintura sobre a Madeira (1954). Com Max Von Sidow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Pope, Bibi Andersson, Inga Gill, Erik Strandmark, Gunnel Lindblom, Anders Ek, Bertil Anderberg, Gunnar Olsson e Inga Landgre. Disponível em DVD pela Versátil Home Video.

O cineasta e dramaturgo sueco Ingmar Bergman (1918-2007), é mundialmente reconhecido como um dos mais influentes cineastas já surgidos. Destacou-se como tema recorrente de sua obra uma busca transcendente, metafísica, sobre as razões da existência humana e sua eventual ligação com algo além, Divino. Pois bem. Em O Sétimo Selo (1957), esta questão básica da vida é colocada de uma forma frontal, crua e perturbadora, como poucas vezes vista no cinema. E, para inserir e justificar o comentário desta obra dentro do gênero Horror, o fato é que Bergman, em primeiro lugar, trata de um tema que é horror em estado puro: a morte que espreita cada um de nós. E em segundo, de uma forma mais direta, pois cobre a narrativa com elementos fantásticos. Não o fantástico por si mesmo, mas como um eficiente recurso de parábola alegórica, conferindo uma forte impressão às questões refletidas. E chama a atenção também, o fato deste filme ser um dos poucos de sua filmografia a abrir mão de um tratamento essencialmente realista para os temas transcendentes que aborda.
Filmada em belíssimo preto e branco, a história se passa na Idade Média, contando a trajetória de regresso de um cavaleiro, Antonius Block (numa interpretação marcante de Max von Sydow) e seu escudeiro Jons, das Cruzadas, onde pela lâmina de suas espadas haviam subjugado ‘infiéis’ em nome do Deus cristão. Deprimidos e cansados, apreendem a inutilidade de suas ações, buscando algum sentido para toda aquela matança e para o mundo sombrio que testemunhavam. Uma época de perseguições religiosas, com pessoas sendo rotineiramente queimadas vivas em praças públicas, além da terrível chegada da Peste Negra (a peste bulbônica, transmitida por ratos contaminados por pulgas infectadas).
Assim, o mundo estava imerso no medo, na superstição e na presença cotidiana da morte, que a todos poderia levar de uma hora para outra. A peste matava de maneira rápida e dolorida e ceifou nesta época simplesmente um terço da população da Europa. Em termos percentuais foi a maior tragédia da história humana até os dias de hoje.
Bergman foi fundo no tema da procura de um sentido para a vida, em um ambiente tão sombrio e macabro. O cineasta afirmou certa vez em uma entrevista que “neste filme, o cavaleiro regressa da cruzada como, em nossos dias, um soldado volta da guerra. Na Idade Média, os homens viviam sob o terror da peste. Hoje vivem sob o terror da bomba.” Estava-se, então, em plena Guerra Fria, sob o possível holocausto nuclear. Desta maneira, O Sétimo Selo pode ser interpretado como uma alegoria do século XX e do mundo que ainda vivemos neste início do século XXI, em forma de lenda medieval. “O tema é bastante simples” – completa o diretor –, “o homem e sua procura eterna de Deus, tendo apenas a morte como única certeza.”
Ao participar das Cruzadas e testemunhar aquele mundo intolerante e degradado, o cavaleiro Block quer uma explicação, seja qual for, para entender que aquilo que fez e está presenciando não é uma completa perda de tempo. Em suma, ele deseja saber, e não crer.
Numa das sequências explicitamente fantásticas – que irá se repetir por todo o filme –, Block encontra a Morte, à beira de uma praia deserta. Com rosto cadavérico, sob uma longa túnica negra e carregando a temível foice em uma das mãos, Ela se anuncia para levá-lo deste mundo. Mais surpreso por poder vê-la do que pelo que isso significa, Block propõe um acordo: um jogo de xadrez. Caso ele vença, a Morte lhe daria mais alguns anos de vida. A proposta é aceita e eles vão, por todo o filme, travando um insólito duelo. Mesmo com toda a bagagem de espectador de filmes de horror, esta presença da Morte, personificada de uma maneira tão verdadeira, em um mundo tão incerto e dilacerado, realmente impressiona, não pelo medo em si, mas pelas implicações do que a Morte realmente representa na vida de cada um de nós.


Este filme, que não é de horror em termos estritos, é muito efetivo no sentido de despertar no espectador sentimentos centrais e incômodos: como a dúvida sobre a razão da vida e a inevitabilidade da morte. Onde Deus entra nisso? Conforme o próprio Block descobre, não há uma resposta definitiva. Ao invés, apenas o aumento da dúvida, da angústia, especialmente em três momentos. Primeiro, quando ele se aproxima da jovem ‘bruxa’ que será queimada e lhe interroga, esperando encontrar Deus através do Diabo, mas no olhar da torturada não vê nada além do medo. Depois, quando descobre que um dos principais fundamentos da religião é a semeadura do medo. Um homem contaminado pela peste pergunta a Jons se ele, de alguma forma, pode aliviar sua dor. Em tom áspero, o escudeiro diz que se o homem sente medo, deve correr para os braços dos padres. “Talvez eles possam ter alguma explicação”. Mas esta suposta explicação é definitivamente desconsiderada, quando Block – numa cena antológica, de tantas –, pergunta à própria Morte, qual o sentido da vida. “Onde está Deus?” Para o seu choque, a Morte diz nada saber. Fria como uma máquina, apenas está ali para executar seu trabalho: retirá-lo do mundo. Bergman nos coloca aí diante da temível condição do “nada”.
Este é um dos filmes mais profundos que já assisti. E suas discussões existenciais são ainda emolduradas por um estilo brilhante, com a intensidade dramática já inerente ao tema, sendo ampliada pela interpretação dos atores, pelo roteiro enxuto e cortante, pela cenografia fiel à época, nas composições e tomadas de câmara experimentais, além da música ora sussurrante, ora impactante que pontua as diferentes situações da obra.
Mas o filme não termina como uma reflexão pessimista da condição humana, que a nada restaria a não ser se corroer de dúvida ante a fatalidade da morte. Isso porque, uma espécie de esperança é vislumbrada, na presença do jovem casal de artistas e seu bebê. O amor partilhado e a valorização de fatos simples e solidários conferem, assim, uma espécie de significado concreto à nossa breve passagem pela Terra. E se na primeira vez que vi o filme, deixei a sala cheio de dúvidas e melancolia, ao revê-lo outras vezes, sinto-me existencialmente reconfortado, ao compreender um pouco melhor a réstia de esperança concreta que Bergman transmite, especialmente na ambígua e até lírica cena final desta obra-prima.

-- Marcello Simão Branco