terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Incrível Homem que Encolheu

O Incrível Homem que Encolheu (The Incredible Shrinking Man), Richard Matheson. 343 páginas. Tradução de Jacqueline Valpassos. Capa de Rodrigo Valpassos. Osasco: Editora Novo Século, 2010.


Nos últimos anos a editora Novo Século fez um ótimo trabalho ao publicar no país boa parte da obra de Richard Matheson. Primeiro republicou seu livro mais conhecido, o clássico Eu sou a Lenda (I am Legend, 1954), em 2007, no embalo do lançamento da terceira adaptação cinematográfica da história, acompanhado por vários dos seus melhores contos, num volume um tanto incomum, ao misturar um romance seguido por narrativas curtas. Já em 2009 lançou o inédito Hell House: A Casa Infernal (Hell House, 1971), romance impactante de horror, que também foi bem adaptado para o cinema, no início dos anos 1970. E em 2010 surgiu no Brasil outro texto clássico: O Incrível Homem que Encolheu, que também é seguido por vários dos seus notáveis contos de ficção científica, numa história por ele adaptada ao cinema. Sob a direção de Jack Arnold, é um dos melhores da safra gloriosa de filmes de FC da década de 1950.
Norte-americano nascido em 1926 e falecido em 2013 Richard Matheson foi um dos mais talentosos autores do gênero surgidos a partir dos anos 1950, ainda que não tenha ganhando tantos prêmios e popularidade como contemporâneos seus como, por exemplo, Philip K. Dick e Robert Silverberg. O autor, ao que parece, seguiu uma trajetória peculiar, semelhante à de Ray Bradbury, embora mais constante, de escrever textos excelentes em gêneros afins, como a ficção científica, a fantasia sombria e o horror, sendo que boa parte deles recebeu competentes adaptações para o cinema e a televisão, realizadas por ele mesmo. Não é à toa, por exemplo, que Matheson e Bradbury roteirizaram episódios para séries cultuadas como Além da Imaginação e Galeria do Terror, entre outras.
Este volume traz, além de O Incrível Homem que Encolheu, mais nove histórias curtas, entre contos e noveletas. Embora a motivação para esta resenha seja o romance, aproveitarei para analisar também as outras histórias.
Mesmo não sendo o seu primeiro romance publicado, O Incrível Homem que Encolheu (de 1956) tornou o autor mais conhecido, devido à versão para o cinema, em 1957. Mesmo assim, em termos de estrutura narrativa, é mais semelhante a um conto do que a um romance. Existe uma ideia principal que é explorada à exaustão: num belo dia, o infortunado Scott Carey recebe uma nuvem radioativa num passeio de barco e pouco depois começa a encolher inexoravelmente. Mesmo com esta estrutura talvez mais afeita a um texto mais enxuto, a extensão da história nos dá a chance de acompanhar de forma comovente os detalhes da profunda transformação da vida do personagem, em todos os aspectos: biológico, social, sentimental, existencial.
De seus 1m 82 cm, Scott Carey vai continuamente diminuindo de tamanho para espanto e assombro de sua esposa, de seu irmão, de sua filha e dos médicos que tentam curá-lo de todas as maneiras. Por fim, descobrem a causa de seu encolhimento, uma mistura entre pesticidadas e radiação numa combinação específica, mas mesmo retardá-la mostra-se uma tarefa frustrante e impossível.
Ao invés de contar a história de uma forma linear, como a realizada pela adaptação cinematográfica, o leitor é surpreendido com dois momentos: Dele já minúsculo, definhando dos centímetros para os milímetros e preso no interior de um agora gigantesco porão, e ao seu processo contínuo de diminuição em que aos poucos perde o emprego, tem seu feliz casamento destruído, torna-se vítima de toda sorte de infelicidades e crueldades, como quando tem de ser livrar de um pedófilo, de um grupo de adolescentes que o humilha e ao tornar-se atração do jornalismo sensacionalista. Desta maneira, Matheson deixou o drama mais intenso, além de enriquecer os dois momentos, num processo gradativo de aproximação entre um e outro.
Nesta história, Matheson retoma o tema do herói solitário e desafortunado que tem de lutar contra um mundo inteiro, tornando-se ele o diferente da norma. Mas se o Robert Neville, de Eu Sou a Lenda transforma-se um pária dentro de uma nova realidade, a Scott Carey nem isso é possível, pois ele é o único ser humano a conviver numa realidade cada vez mais macroscópica e hostil, numa dimensão de solidão e desamparo ainda maior.
Stephen King, que sempre o cita como uma de suas grandes influências, tentou realizar algo semelhante quando escreveu, sob o pseudônimo de Richard Bachman, o romance A Maldição do Cigano (Thinner, 1984), adaptado para a TV. Aqui com uma premissa de horror, um sujeito obeso atropela por acaso a mãe de um cigano e este o amaldiçoa com a perda inexorável de peso. Assim como Carey, Billy Halleck procura por todos os meios cessar o processo, primeiro com a ciência, depois com o sobrenatural. King adota uma narrativa linear, ao contrário de Matheson, mas a linha dramática da história é semelhante.
Por sua crueza e fatalismo, O Incrível Homem que Encolheu é mais triste e assustador, ainda que não seja depressivo. É que não há como deixar de se compadecer do drama e das agruras crescentes de Scott Carey em sobreviver nesta autêntica maldição que o acometeu. Se no ambiente externo, social e familiar, ele se torna uma aberração, encolhendo diariamente, tornando-se um anão e menos que isso, no porão tem de enfrentar dificuldades mais vitais, como alimentos, roupas e abrigo e meio a um ambiente selvagem e surpreendentemente inóspito. Sua grande batalha é com uma aranha viúva-negra que tenta arrastá-lo para a sua teia durante a maior parte da história. Por sinal, a capa da edição brasileira deixa de representar este combate mais importante para se fixar no gato da casa que não chega a representar uma grande ameaça a Carey. Ainda que a capa não seja ruim, acredito que não tenha sido a melhor decisão retirar a aranha da ilustração principal, conforme vista nas primeiras edições do romance e no cartaz do filme.
Já o texto é efetivo em sua simplicidade, fluência e exatidão descritiva, longe de perder-se numa autopiedade emocional e em grandes introspecções. Dentro deste contexto, há passagens dramáticas também belas, especialmente quando Carey conhece uma linda anã num circo e percebe que continua tendo os desejos de um homem além de, mais adiante, redescobrir outro sentido para a vida, depois de encolher a ponto de não ser mais visto a olho nu.
Scott Carey não se deixa abater – apesar de cogitar o suicídio algumas vezes –, e é em sua luta por sobrevivência que a narrativa adquire um grande alcance moral. Viver, continuar a despeito das maiores dificuldades e sofrimentos. Até que a sua nova e ínfima condição tenha uma justificativa própria, como ele mesmo atesta ao descobrir que o seu processo de diminuição não o torna menos inteligente e, sobretudo, menos humano. O Incrível Homem que Encolheu é um romance com premissa de ficção científica de dimensão metafísica e um desenvolvimento de pleno horror e superação, na jornada de Carey rumo ao desconhecido.

*
Depois de ler uma história tão forte o melhor teria sido colocar o livro de lado e deixar-se absorver por suas emoções e implicações despertadas. Pelo menos é isso o que costumo fazer após a leitura de um livro especialmente interessante, como este que contém O Incrível Homem que Encolheu. Porém, o livro continua com mais nove histórias e isso provoca uma sensação de estranheza e certo desconforto, pois queria reter a última impressão do volume após ler a história título.
É possível que a intenção da Novo Século tenha sido de economizar, pois deve ter comprado alguns volumes de contos junto com os romances e ficou com receio de lançar as coletâneas como títulos próprios. Pode fazer sentido, mas seria melhor para o leitor saber desde o início que teria em mãos uma coleção de histórias curtas e não um romance seguido delas. Se foi este o motivo, não deveria haver receio com um autor deste calibre.


Em todo caso, após o desconforto inicial, o prazer da leitura é reiniciado, pois as demais histórias mantém o ótimo nível. São contos e noveletas escritas nas décadas de 60 e 70, as mais produtivas de sua carreira. Algumas delas são mesmo chocantes ao explorar os limites da miséria humana como em “O Teste”, “O Distribuidor” e “A Caixa”. No primeiro, em um futuro próximo, devido a uma superpopulação de idosos eles começam a ser eliminados quando se mostram senis ou inúteis para a sociedade. A narração enfoca o tema a partir de um filho que vê seu pai prestes a passar pela sinistra prova. Já a segunda mostra a figura de um sujeito que muda para uma vizinhança e procura se mostrar simpático e prestativo demais, até que suas reais intenções começam a se revelar de forma insidiosa. É uma curiosa variação sobre a figura do diabo. E na terceira história um estranho pacote é deixado na porta da casa de um casal. Após descobrirem que podem lucrar com uma caixa contida no seu interior, nem que com isso provoquem a morte de estranhos, a mulher é vencida pela curiosidade com consequências surpreendentes. Este conto recebeu uma boa adaptação para o cinema em 2009, estrelado por Cameron Diaz.
A maioria destas histórias está mais próxima do horror, não necessariamente sobrenatural e sim mais psicológico, com situações extremas a que são colocados os personagens, em especial em “Encurralado”. Muito conhecida através da adaptação para a TV norte-americana realizada pelo então jovem desconhecido Steven Spielberg, o texto de Matheson mantém o suspense de tirar o fôlego, numa história arrepiante. Uma obra-prima.
Neste volume, Matheson mostra, invariavelmente, pessoas lidando com grandes adversidades, ou em alguns casos, sendo o agente dela. No fundo, o mundo é um lugar muito hostil e indiferente às necessidades e dramas humanos; mas também o homem pode, por vezes, agir neste mesmo mundo para torná-lo ainda mais cruel para as outras pessoas ou seres vivos.

Marcello Simão Branco

Pânico no Lago: O Capítulo Final (Lake Placid: The Final Chapter, EUA, 2012)


Assim como os tubarões, os crocodilos também são maltratados pelo cinema fantástico bagaceiro, com muitos filmes ruins que contribuem para denegrir a imagem desses répteis.
É curioso mencionar como os realizadores da indústria de cinema são oportunistas e preguiçosos, pois existem várias franquias completamente desnecessárias, com muitos filmes todos iguais e com uma ideia central clichê tão explorada que não tem mais potencial para manter o assunto. Filmes interessantes e com bons elencos como “Anaconda” (1997) “Pânico na Floresta” (Wrong Turn, 2003) e “Pânico no Lago” (Lake Placid, 1999), estes últimos com seus péssimos títulos nacionais com a palavra “pânico” (graças à preguiça e falta de criatividade das distribuidoras brasileiras), não deveriam ter sequências. Pois todas as suas infindáveis continuações não passaram de pequenas variações da mesma história, e agregaram pouco ou quase nada aos respectivos universos ficcionais.
Sendo assim, é inevitável que o interesse do espectador se perca no meio de tanta porcaria, ficando muito difícil acompanhar as enormes franquias com filmes tranqueiras, até mesmo para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro.
O quarto episódio de “Pânico no Lago”, agora com o subtítulo “O Capítulo Final”, lançado em 2012 com direção de Don Michael Paul, copia a mesma ideia de “Sexta-Feira 13 – Parte 4” (1984) ao utilizar o mesmo subtítulo. Sendo que ambas as intermináveis franquias também não pararam por aí como anunciavam no título.
O roteiro de David Reed (que também escreveu a parte 3) não inova e mantém todos os mesmos clichês. O lago onde vivem os imensos crocodilos assassinos comedores de gente está agora isolado por uma cerca elétrica construída por um engenheiro do exército, Loflin (Paul Nicholls). Os imensos répteis são únicos e raros e ao invés de serem eliminados, eles são preservados para estudos, mesmo que isso signifique o risco de mais mortes acidentais com humanos incautos. Os problemas novamente surgem depois que um ônibus com estudantes adolescentes e integrantes da equipe escolar de natação, entra por engano num dos portões da cerca elétrica, levando os jovens ao seu destino como comida para os crocodilos.
Para combater os monstros e tentar resgatar os estudantes, temos a xerife local, Giove (a bela alemã Elisabeth Röhm), auxiliada pela caçadora e agente do governo Reba (Yancy Butler), uma mulher metida à Rambo e sobrevivente do filme anterior, que adora portar uma arma, atirar em crocodilos e fazer piadas idiotas. Entre os adolescentes acéfalos destinados a fornecer suas carnes para a dieta dos répteis, estão a apreciadora de livros e filha da xerife, Cloe (Poppy Lee Friar), sua amiga Elaine (Caroline Ford), e o amigo e interesse romântico Drew (Daniel Black). Além de Max (Benedict Smith), filho do engenheiro responsável pela cerca e que trabalha como vigia do portão. E para complicar as ações de resgate temos um caçador inescrupuloso, Jim Bickerman (o veterano Robert Englund, eternamente associado ao vilão Freddy Krueger, da série “A Hora do Pesadelo”). Ele tem interesse no DNA dos crocodilos como forma de obter dinheiro ilegal e possui relações com a família que vivia no lago e iniciou toda a história com esses répteis carnívoros.
Nessa parte 4 de “Pânico no Lago” temos muitas mortes sangrentas, com pessoas sendo rasgadas pelos dentes afiados e fornecendo suas carnes e ossos para serem devorados pelos crocodilos famintos. Mas, os efeitos de CGI tornam tudo muito artificial, diminuindo o impacto de violência nas cenas de ataques. Os personagens são todos patéticos e o elenco é inexpressivo, exceto talvez pelo carismático Robert Englund no papel do vilão e que deve ter aceitado participar para ajudar a pagar as contas, ou talvez para se divertir um pouco em seu final de carreira. E boa parte de nossa tolerância com a sua participação se deve aos bons e nostálgicos tempos de Freddy Krueger.
Apenas como curiosidade catalográfica, a série “Pânico no Lago” tem 5 filmes. O original foi lançado em 1999 e tem um elenco expressivo com Bill Pullman, Bridget Fonda, Oliver Platt e Brendan Gleeson. Depois foram lançadas as continuações em 2007 (parte 2), 2010 (parte 3) e 2015 (parte 5), sendo que esta foi chamada de “Pânico no Lago: Projeto Anaconda” (Lake Placid vs. Anaconda), com o crossover entre o crocodilo gigante com a cobra de tamanho descomunal da série “Anaconda”. Só comprovando que os realizadores oportunistas não estão interessados em boas histórias e sim apenas em tentar obter algum lucro, mesmo que pequeno, utilizando nomes que de alguma forma já fazem parte da cultura popular.
(Juvenatrix – 15/11/16)

domingo, 13 de novembro de 2016

984 - Prisioneiro do Futuro (984: Prisoner of the Future, Canadá, 1982)


O cineasta húngaro Tibor Takacs, que foi o responsável pelo cultuado “O Portão” (The Gate, 1987) e outras tranqueiras divertidas, teve como um de seus primeiros trabalhos a ficção científica distópica “984 – O Prisioneiro do Futuro”, produzido em 1979 e lançado em 1982, e que também tem o título original alternativo “The Tomorrow Man”.
“Algum dia no futuro existirá uma prisão de segurança máxima em algum lugar na América do Norte, mantendo prisioneiro de um novo regime.”
Essa introdução já permite visualizar a ideia central do filme: um futuro distópico, com o surgimento de um novo modelo político autoritário, que pune com rigor e violência seus oponentes, sem oportunidade de defesa ou comprovação de culpa.
Um executivo bem sucedido, Tom Weston (Stephen Markle) é levado para uma prisão de segurança máxima controlada por guardas robôs e administrada por um diretor sádico (Don Francks). Acusado de fazer parte de um grupo de empresários ricos e conspiradores que querem derrubar o governo liderado pelo Dr. Braxton Fontaine (Andrew Foot), que instaurou um “mundo novo” com o regime político chamado “O Movimento”. Sem chance de se defender, ele logo recebe a identificação numérica “984” (do título do filme), e torna-se um prisioneiro que sofre interrogatórios com lavagem cerebral e espancamentos (através do guarda Jeffries, interpretado por Stan Wilson) para admitir seu suposto crime contra a humanidade. E também para servir de diversão e alívio do tédio do diretor do presídio, que vigia tudo num sistema de monitoramento com câmeras e insinua um mistério perturbador sobre o mundo exterior.
O filme é claramente datado, onde percebemos características que nos remetem ao final dos anos 70 e década de 80 do século passado. A produção é paupérrima e os robôs futuristas com os olhos vermelhos que controlam o presídio são hilariantes de tão precários, se movimentando com rodinhas nos pés. As ações se concentram no ambiente sinistro e claustrofóbico da penitenciária, com uma atmosfera sufocante imposta pelas imensas paredes de concreto, alternando para alguns momentos no mundo exterior em flashbacks do personagem Tom Weston com sua família, no trabalho e em reuniões conspiratórias.
A história básica é interessante, mesmo sendo um clichê já muito explorado, e a intenção dos realizadores era apresentar o filme como piloto para uma série de TV cujo projeto foi cancelado. Curiosamente, ele não consegue se sustentar como longa metragem, com a sensação de repetição causando um incômodo inevitável, e ainda temos um roteiro confuso com informações soltas provavelmente de forma proposital para serem melhor exploradas caso se transformasse numa série televisiva. O ideal seria a exibição num formato menor, apenas como um episódio único de cerca de meia hora de alguma outra série de TV com histórias envolvendo elementos fantásticos..
Apesar dos problemas, “984 – Prisioneiro do Futuro” é um filme obscuro com uma atmosfera sombria e que garante alguns bons momentos de entretenimento para os apreciadores do cinema bagaceiro, principalmente nas cenas com os robôs toscos e no desfecho desolador e depressivo.
 (Juvenatrix – 13/11/16)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A Fuga do Terror (Blood Bath, EUA, 1976)


Lançado no Brasil na época dos saudosos vídeos VHS pela “América Vídeo”, “A Fuga do Terror” (mais um péssimo título nacional) é uma obscura antologia de contos de horror, amarrados por uma história central. A produção é bagaceira ao extremo, com um roteiro pouco inspirado, num trabalho do diretor Joel M. Reed. Ele que também foi o responsável por outras tranqueiras como “O Incrível Show de Torturas” (1976), influenciado pelos filmes “gore” de H. G. Lewis, e “Night of the Zombies” (1981).
O elenco e equipe de produção de baixo orçamento de filmes de horror discute num jantar sobre histórias assustadoras, e cada um deles apresenta um conto do gênero. São quatro histórias independentes e outra de fundo envolvendo um mistério sobrenatural com o cineasta da produtora.
Na primeira história, temos o caso de um assassino de aluguel bem sucedido que utiliza técnicas eficazes em sua profissão, mas que é surpreendido pelo próprio artefato que estava utilizando para cumprir um dos trabalhos em que foi contratado. Em seguida, um marido descontente com a esposa decide eliminá-la, mas não imaginava as consequências trágicas para obter seu intento ao se envolver com magia negra e uma moeda que permite viajar para o passado. A próxima história é sobre um agiota que se aproveita do desespero de seus clientes endividados, porém ele acidentalmente é trancado num cofre e recebe a visita do fantasma de um homem lesado por seus negócios obscuros. O último conto mostra um lutador de artes marciais que estudou no Oriente, mas não gosta de seguir os mandamentos de disciplina que foram ensinados, e utiliza meios desonestos para administrar sua academia de lutas nos Estados Unidos. Após ser confrontado por um antigo mestre do templo onde foi doutrinado, envolvendo técnicas mágicas de luta, ele encontra um desfecho perturbador.
Apesar das ideias básicas das histórias até apresentarem algum potencial razoável para serem desenvolvidas, como a produção é extremamente tosca de uma forma geral, com efeitos paupérrimos e interpretações sofríveis do elenco, além da previsibilidade do roteiro e do pouco sangue em cena, o resultado final afastou as tentativas de estabelecer uma empatia com o espectador, tornando esta antologia de contos em algo pouco inspirado e destinado ao limbo dos esquecidos.
(Juvenatrix – 10/11/16)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O Vale Proibido (The Valley of Gwangi, EUA, 1969)


Numa época sem CGI, os efeitos dos monstros eram obtidos pela trabalhosa técnica “stop motion”, que teve no especialista Ray Harryhausen (1920 / 2013) o grande e eterno mestre. “O Vale Proibido” (The Valley of Gwangi, 1969), dirigido por James O´Connolly, é um daqueles típicos filmes da nostálgica “Sessão da Tarde” da TV Globo, uma aventura misturando elementos de western, fantasia, horror e ficção científica. A história é ambientada na virada do século 19 para 20, num vale proibido no México, onde dinossauros esquecidos pelo tempo viviam tranquilamente, até que os homens descobrissem essa região perdida e decidissem capturar um tiranossauro para exibição num circo.
“Gwangi” (do título original) é uma palavra nativa americana que significa “lagarto”, e tem referência ao vale onde ainda vivem animais pré-históricos, e que não deveriam ser importunados para não despertar uma maldição, conforme as palavras ameaçadoras de uma velha cigana cega, Tia Zorina (Freda Jackson). O vale, cercado por montanhas em círculo, picos gigantes e abismos profundos, ainda esconde monstros de uma época remota e que estariam supostamente extintos. E, depois que um cavalo anão, apelidado de “El Diablo”, é raptado dessa região inóspita com a intenção de ser apresentado como atração bizarra de um circo, a supersticiosa cigana organiza uma ação para devolvê-lo ao local de origem.
Em paralelo, a bela T. J.  (a polonesa Gila Golan), que lidera uma equipe de artistas circenses, ao lado de Champ (Richard Carlson) e de seu par romântico, o cowboy galã Tuck Kirby (James Franciscus), reúne um grupo para tentar capturar novamente o pequeno cavalo pré-histórico, e acabam encontrando o vale. O grupo também tem a companhia de um cientista paleontólogo, o Prof. Horace Bromley (Laurence Naismith), cujo interesse é estudar os animais de 50 milhões de anos atrás. Uma vez no vale proibido, eles enfrentam os ataques mortais de um réptil voador (pteranodonte), e de um temível tiranossauro, que está faminto por suas carnes. Porém, ele é capturado como atração de circo. Sem estrutura adequada para mantê-lo preso, o monstro foge e espalha o caos, causando grande confusão na cidade e experimentando a carne humana em sua dieta.
Diversão garantida, principalmente pelos efeitos especiais de Ray Harryhausen, dando vida aos impressionantes animais do mundo perdido de um vale onde o tempo parou, com direito até a um confronto mortal entre o tiranossauro e um elefante de nossos tempos.
“O Vale Proibido” é uma refilmagem de “The Beast of Hollow Mountain” (1956) e sua história tem elementos que nos remetem a outros filmes com ideias e temáticas similares. Como “O Mundo Perdido” (nas versões de 1925 e 1960), baseado em livro de Arthur Conan Doyle e que mostra uma região perdida no Amazonas que abrigava animais pré-históricos. E também “King Kong” (1933, e que teve versões mais modernas em 1976 e 2005), utilizando a ideia de capturar o monstro para uma exibição pública, terminando inevitavelmente em tragédia.  
O ator James Franciscus é lembrado por seu papel do astronauta Brent em “De Volta ao Planeta dos Macacos” (1970), Richard Carlson é um rosto conhecido pelos divertidos filmes bagaceiros do cinema fantástico como “The Magnetic Monster” (1953), “Veio do Espaço” (1953) e “O Monstro da Lagoa Negra” (1954). Já o inglês Laurence Naismith esteve em “A Aldeia dos Amaldiçoados” (1960) e “Jasão e o Velo de Ouro” (1963), outro clássico memorável de Ray Harryhausen.
(Juvenatrix – 01/11/16)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A casa assombrada, John Boyne

A casa assombrada (This house is haunted), John Boyne. Tradução de Henrique de Breia e Szolnoky. 296 páginas. Editora Companhia das Letras, 2015.

O apelo sinistro que um casarão antigo evoca no espírito humano é irresistível e os muitos fenômenos naturais que ocorrem nesse tipo de construção, como ruídos geralmente causados pela acomodação do madeirame, pelo vento assoviando nas frestas e por animais abrigados em suas paredes, e visões causadas pelo reconhecimento de padrões em seus detalhes barrocos, contribuem ainda mais para criar uma aura de mistério e assombro. Não é de admirar, portanto, que algumas das mais assustadores histórias de horror têm em construções assombradas os seus principais protagonistas: A assombração da casa da colina, de Shirley Jackson, A casa sobre o abismo, de William H. Hodgson, A casa das bruxas, de H. P. Lovecraft, O iluminado, de Stephen King, e O castelo de Otranto, de Horace Walpole, são apenas alguns exemplos que demonstram ser este um dos mais bem explorados filões do gênero.
O bem sucedido escritor irlandês John Boyne, que fez enorme sucesso com o premiado drama O menino do pijama listrado – também adaptado para o cinema – decidiu enveredar por esse auspicioso território em A casa assombrada, romance ao estilo gótico que homenageia esse modelo narrativo, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
A história conta como Eliza Caine, jovem londrina de meados do século 19, responde a um anúncio de jornal para o emprego de governanta em Gaudlin Hall, propriedade na área rural da Inglaterra, depois que, com a morte do pai, fica sem recursos de subsistência na capital. O trabalho parece adequado a ela, que tem experiência como professora de crianças, tarefa que será sua principal função nesse emprego. Contudo, muitos mistérios cercam o trabalho, a começar do momento em que Eliza desembarca do trem na pequena estação de Norfolk. A falta de informações sobre suas responsabilidades no trabalho, a ausência de seus empregadores, o estado de decadência do casarão e a estranheza das duas crianças das quais terá de cuidar, Isabella e Eustace, tornam as primeiras horas de Eliza em Gaudlin Hall numa espécie de pesadelo surreal, que não melhora em nada quando, ao deitar para sua primeira noite de sono, sente duas mãos agarrarem suas pernas sob os cobertores.
Contudo, Eliza é uma mulher decidida e resolve enfrentar toda e qualquer adversidade para cuidar das duas crianças inocentes colocadas sob sua responsabilidade. Sua busca por informações na área urbana do condado revela ser ainda mais perturbadora, pois as pessoas a hostilizam de forma evidente. A única fonte confiável de informação parece ser o advogado encarregado de administrar a propriedade, mas ele também a evita e, mesmo quando confrontado diretamente, foge do assunto. Mesmo com tantas dificuldades, agravadas por acidentes graves e bizarros que ocorrem constantemente com ela no interior do casarão, Eliza investiga a história que se esconde atrás das paredes de Gaudlin Hall, que envolve a morte de várias governantas que a antecederam no emprego, e conclui que há um fantasma na casa. Pior, há pelo menos dois.
Embora a história se passe em 1869, o texto de Boyne é moderno e não tenta emular o estilo das narrativas góticas da época, o que tira parte do romantismo que geralmente envolve o gênero. Além do mais, Boyne não é um autor de horror e as poucas tentativas para assustar o leitor são leves e discretas. Cenas de suspense, nas quais um autor especializado no gênero faria o leitor se retorcer em agonia, são rápidas e derivativas, parecendo que o autor ficou com dó dos leitores e decidiu poupá-los de detalhes sórdidos. Um pouco desse efeito é causado pela narrativa em primeira pessoa, com a própria Eliza contando a história. Sendo uma mulher cética e pragmática, não dá muita importância ao sobrenatural e enfrenta os fenômenos como se fossem situações corriqueiras, ainda que mortais.
Ou seja, A casa assombrada acaba por não ser um livro de horror, mas sim um drama familiar de raízes naturalistas com um leve pendão para o espiritismo. Por sorte, o autor evitou habilmente não fazer o romance soar proselitista ou doutrinário, sendo assim uma leitura agradável e positivista, que pode ser lido sem problemas mesmo por leitores que não gostam de histórias de terror. Os fãs de Boyne estão seguros.
Cesar Silva

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escuridão Total sem Estrelas

Escuridão Total sem Estrelas (Full Dark, No Stars), Stephen King. 390 páginas. Tradução de Viviane Diniz. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015.


Quando vi o livro em uma livraria pensei que se tratava de mais uma obra sobre a ausência de luz. Afinal, Escuridão Total sem Estrelas sugere isso, ainda mais pelo design do livro, com capa e contra-capa preta e as folhas pintadas de preto em sua espessura. E o efeito é marcante. Se assim fosse, faria companhia a autores tão bons e diversos como o nosso André Carneiro (1922-2014), o inglês John Wyndham (1903-1969) e o português José Saramago (1922-2010).
Tal impressão me agradou pela perspectiva de ver um autor como King abordar o tema, mas se desfez quando percebi que as quatro histórias – duas novelas e duas noveletas – tratavam, isto sim, da escuridão da alma humana. Nas sombras que habitam em cada um de nós, nos pensamentos escuros, ruins que temos vez por outra, especialmente quando diante de grandes problemas ou dificuldades. Normalmente afastamos rapidamente tais pensamentos – nos reprimindo por tê-los –, mas nas narrativas deste livro, King mostra como tais alternativas más podem, eventualmente, se tornar tentadoras, e aflorarem. Para a ilusão de um alívio imediato que se transforma num pesadelo de proporções inimagináveis.
Este fato é especialmente verdadeiro no caso da primeira história, “1922”. Por causa de uma disputa em torno da herança de uma propriedade, um casal se desentende, pois ele quer incorporar o terreno à fazenda em que já vivem, e ela quer vender para recomeçar a vida na cidade. De saída já sabemos que as coisas tiveram o pior desfecho, já que ele, num quarto de hotel, anos depois escreve uma confissão de como tramou com o filho adolescente a morte da sua esposa e mãe de seu filho. Colocar esta novela como a primeira do livro foi muito arriscado pois é extremamente chocante, tanto pelo ato em si, pela violência desencadeada e, principalmente, pelo que acontece depois na vida do pai e do filho. Confesso que tive de parar a leitura em certos momentos e, embora ficasse com a narrativa remoendo na cabeça durante o dia, me incomodava a perspectiva de enfrentá-la depois, mesmo querendo saber o que iria acontecer. Tudo vai mal para os dois, e a tentativa de escrever a confissão parece sugerir uma certa expiação do pai pelo ato em si e por ter incluído o pobre do fillho. Além de ser uma história pesada e violenta é muito triste. Dos textos mais fortes que li de Stephen King. E olha que li boa parte do que ele já escreveu.
“Gigante do Volante” conta a história de uma escritora que após apresentar uma palestra em uma biblioteca numa cidadezinha do interior do Maine, é surpreendida quando um pneu de seu carro fura na estrada. Até aí nada demais, mas surge um homenzarrão para ajudá-la. Sim, ele troca o pneu, mas não fica só nisso. Ela é estuprada e espancada, e só escapa porque finge estar morta. Para seu horror é colocada dentro de um cano de esgoto num matagal ao lado dos corpos de outras vítimas do monstro. A partir daí ela descobre que existe uma outra persona de si mesma, como se nascesse uma nova, pois o que faz nada tem a ver com a pacata escritora de histórias de suspense adocicado. Mas o mais inacreditável ainda está por vir, na figura da bibliotecária que a havia contratado, e sua ligação com o estuprador. Embora King não defenda que se faça justiça com as próprias mãos é uma história que toma partido da vítima e a justificativa para seus atos.
De certa forma isto ocorre também – e de forma ainda mais terrível – na novela que fecha o volume, “Um Bom Casamento”. Num dia qualquer uma mulher vai até a garagem da casa em busca de um par de pilhas para o controle remoto da TV, e descobre que seu amado e fiel marido é um serial killer. Ela encontra casualmente os documentos de uma das vítimas do famoso assassino que se identifica como Beadie. O que fazer? Esta pergunta a move durante todo o tempo, principalmente depois que o próprio marido descobre que ela soube de seu segredo, e nada faz contra ela. Como que a pedir um pacto em nome do casamento, dos filhos e, claro, pela própria vida dela. A solução encontrada pode ser discutível, mas é amplamente justificada. Principalmente em nome das muitas mulheres que ele estuprou, mutilou e assassinou ao longo de quase quarenta anos.
A terceira narrativa é a única com um elemento sobrenatural. Em “Extensão Justa”, um doente de câncer vê a chance de sobreviver ao fazer um acordo improvável com um camelô à beira da estrada. Ele nota que o vendedor nada vende, apenas fica sentado em uma cadeira e expõe sobre uma mesinha uma plaquinha com os dizeres: “extensão justa” que, no caso, se trata de oferecer um período a mais daquilo que mais se deseja. Pode ser tempo, dinheiro, carreira, amor, saúde. Claro que existe uma contrapartida, e deve haver uma transferência. No caso, alguém deve ser prejudicado, uma pessoa que seja odiada pelo beneficiado. Após uma breve hesitação ele afirma que é seu amigo de infância que deve receber tudo de ruim que paira sobre ele. Afinal, roubou sua primeira namorada e é muito mais bem sucedido economicamente. Com o pacto o câncer vai embora, sua vida financeira melhora, e seu amigo perde a esposa – a mesma antiga namorada – de câncer, um de seus filhos morre num acidente e outro fica seriamente doente, além da vida financeira da família piorar muito. O que espanta nesta história é como o personagem que faz o acordo com o Diabo é insensível a tudo o que acontece com seu amigo, com o qual ele continua convivendo. Ele vai ficando mais saudável e feliz quanto mais desgraças acontecem com o objeto de seu ódio.
Como observa Stephen King no seu ótimo posfácio, a pergunta recorrente que inspirou cada uma destas histórias é a de que ninguém conhece verdadeiramente outra pessoa, por mais presente, íntima ou amada que ela seja. Claro que o desconhecimento não precisa ser sobre algo necessariamente ruim, mas esta é a premissa do livro, quer dizer, mesmo de quem jamais desconfiaríamos coisas muito más podem surgir. É o que descobre a mulher brutalmente morta em “1922”; o que a escritora descobre sobre si mesma após ser violentada; a esposa feliz que, de repente descobre que seu marido é o oposto radical do que acreditava; e o cara que também descobre em si mesmo o bem estar de fazer o mal a alguém que sempre lhe foi bem próximo. Ora, em “1922” o tema motivador das ações é a ganância; em “Gigante do Volante” é a vingança; em “Extensão Justa” é a inveja e em “Um Bom Casamento” estamos diante de uma situação de ilusão, de auto-engano.
Para nossa fortuna Stephen King escreve muito e é profusamente publicado no Brasil. A qualidade de sua obra é acima da média, ou seja, mesmo um King menor muitas vezes é mais interessante do que outros autores no melhor de sua forma. Escuridão Total sem Estrelas recebeu os prêmios Bram Stoker e British Fantasy em 2010 na categoria “melhor coletânea”, e se distingue como um grande momento do autor. As quatro narrativas propõe uma questão fundamental e como cada personagem vai responder de acordo com suas circunstâncias e motivações. Um livro com histórias poderosas, que desestabiliza os personagens, transformando de forma definitiva suas vidas e, sobretudo, incomoda e perturba o leitor. Quantos escritores são capazes disso?

– Marcello Simão Branco