sexta-feira, 27 de julho de 2018

De jogos e festas, José J. Veiga

De jogos e festas, José J. Veiga. 190 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Desde 2015, quando se comemorou o centenário do nascimento do fantasista goiano José J. Veiga (1915-1999), e o catálogo do autor passou a integrar o acervo da Companhia das Letras, que iniciou a republicação de suas obras em uma coleção dedicada ao autor. Foram publicados em 2015 a coletânea Os cavalinhos do Platiplanto e os romances A hora dos ruminantes e Sombras de reis barbudos. Depois de um pequeno hiato, a coleção seguiu em frente em 2016 com o lançamento da coletânea De jogos e festas, publicada originalmente em 1980. O acabamento segue o padrão da coleção, com a capa ilustrada por Deco Frakas, mas sem capas duras desta vez.
Trata-se de uma seleta com apenas três textos, sendo duas novelas e um conto, além de um posfácio assinado por José Castello, em que comenta curiosidades sobre o autor e sua obra, principalmente a amizade com o também escritor João Guimarães Rosa.
Em respeito a opinião do autor, o volume não tem prefácio – o que é explicado por Castello –, e entra de cara na novela que dá nome ao livro e toma quase a metade de suas páginas. Esta é uma história de contornos realistas, em torno do mistério da morte de Vicente, cuja solução passa a ser o obsessão de seu irmão mais novo, Mário, que retornou à cidade natal depois de um período de afastamento. Há uma série de detalhes que o autor tece em torno desse mistério e de suas consequências familiares e sociais, mistérios estes que vão alterando a percepção e o comportamento de Mário que, aos poucos, vai assumindo a personalidade do irmão para tentar entender os motivos e o causador de sua morte, envolvendo-se com seus amigos, e demais pessoas de sue passado. A narrativa tem momentos oníricos característicos das obras de Veiga, mas sem a proposital indefinição do tempo da ação: desta vez, quando é sonho, sabemos que é.
Bem no centro do livro, temos o conto curto "Quando a Terra era redonda", o texto mais fantástico do volume. É escrito em forma de um artigo, como se fosse um texto de estudo acadêmico. Nele, o estudioso comenta, em algum momento do futuro distante, sobre as característica do mundo no tempo em que a Terra era redonda, pois em sua época ela não é mais: tornou-se chata assim com o tudo o que antes era arredondado. Assim, discute como, no passado, deveria ser a percepção de um mundo redondo, algo quase incompreensível para os habitantes do futuro. O texto é divertidíssimo, e dialoga com o clássico da ficção científica Planolâdia, do escritor britânico Edwin A. Abbott (1838-1926).
A segunda metade do volume é ocupada pela novela "O trono no morro", uma espécie de versão veiguiana a Grande Sertão: Veredas, de seu grande amigo Guimarães Rosa. O início do texto tem um tom de fantasia medieval, que vai se justificar ao final da leitura. A história é sobre Quintino que, quando jovem, foi "recrutado" pelo bando de Gumercindo Frade, cangaceiro violento que o inicia na arte da bala. Quintino sonha em voltar a vida pacífica e previsível de agricultor da qual foi sequestrado, mas seu talento com as armas acaba por torná-lo uma referência no grupo cangaceiro. Até o dia em que, depois de uma tocaia à traição que dizimou o bando, Quintino consegue escapar e se torna um pacato comerciante numa cidadezinha esquecida. O rumo da história muda radicalmente, saindo das correrias e tiroteios para uma relação social estável com a comunidade, onde Quintino vai encontrar o amor e a realização pessoal, bem como as tragédias da vida ordinária, que são tão ou mais dolorosas que aquelas enfrentadas no cangaço. Resta a Quintino a fuga para dentro de si mesmo.
Veiga nunca decepciona seus leitores. Trata-se de um verdadeiro gigante da narrativa, que faz emergir o maravilhoso das situações mais corriqueiras. Porque, afinal, a vida é por si só um milagre e cada detalhe dela é, em si, um fato tão fantástico quanto improvável, conforme o ponto de vista. Ponto de vista este que Veiga, como um experiente fotógrafo, é mestre em focalizar.
Cesar Silva

sábado, 21 de julho de 2018

O Templo do Passado


O Templo do Passado (Le Temple du Pasè), Stefan Wul. Tradução de André Varga. Capa de Lima de Freitas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta no. 85, 1964. 149 páginas. Lançado originalmente em 1957.

Tenho uma história curiosa com este livro. Estava de férias com a família no interior de Santa Catarina. Era 19 de janeiro de 1989 e voltávamos para casa. Meu pai parou num posto de gasolina na saída de Joinville para abastecer o carro. Da janela da parte de trás eu vi um sebo. Sim, um sebo! Saí do carro e fui até lá, sob protestos dos meus acompanhantes. E foi aí que achei O Templo do Passado e mais uns dez outros livrinhos da Argonauta. Foi o momento mais feliz das férias e, até hoje, a única coisa que lembro dela.
Escolhi a esmo um dos livros. Era O Templo do Passado, que li durante todo o tempo da viagem de sete horas até São Paulo. Valeu muito a pena, pois o livro é sensacional. FC pulp da melhor cepa, e minha estreia com a ficção incrivelmente imaginativa de Stefan Wul.
Este pequeno romance é o quinto da carreira de Pierre Pairault (1922-2003), que escreveu toda a sua obra de ficção científica sob o pseudônimo de Stefan Wul. Foi publicado pela primeira vez na célebre coleção francesa Fleuve Noir, no. 106, em 1957, e é o quinto publicado na igualmente célebre Coleção Argonauta, de Portugal, em seu número 85, no ano de 1964.
Durante uma viagem espacial a nave sobre um acidente e entra velozmente na atmosfera de um planeta desconhecido. Foi tudo muito rápido, e com o choque a maioria da tripulação morreu instantaneamente. Inicialmente, quatro sobreviveram mas, em parte por causa dos ferimentos, apenas dois permaneceram vivos: o piloto Massir e o médico Jolt.
A nave foi seriamente avariada e eles percebiam que ela balançava de um lado para outro, subia de cima para baixo ou vice-versa. Para solucionar o mistério Massir sai da nave e adentra num ambiente surpreendente: o interior de uma gigantesca baleia! Mas como foram parar dentro dela? Não há como ter certeza mas, provavelmente, em sua queda a nave penetrou, tal como uma bala, no corpo do cetáceo. Desta forma, além de estarem dentro de um ser vivo, ainda se encontravam no fundo do mar.
Esta é uma típica história identificada com o que os americanos chamam de problem story, na qual os personagens são colocados em perigo e, para sair desta situação, tem de buscar soluções científicas ou tecnológicas. Pois, então,  depois de vencerem a estupefação e o desespero puseram-se a trabalhar com o que tinham à mão dentro da nave. Primeiro, retirá-la do interior do estômago da baleia e depois consertar a nave para decolarem novamente. Duas tarefas extremamente difíceis e improváveis. Mas eles conseguem injetar algumas substâncias moleculares no metabolismo da baleia, para provocar mutações que a fizessem deixar o mar e passasse a viver, gradativamente, na superfície.
Após algumas experiências frustradas Massir e Jolt finalmente conseguem o seu intento, pois a baleia desenvolve patas dianteiras e traseiras, que a permitem deixar a água e viver em terra. Nunca deixa de ser aquático, contudo, transformando-se num anfíbio, mas que passa a maior parte do tempo num ambiente intermediário: um enorme pântano, que lhe dá muito prazer! (As passagens em que a baleia assume a narrativa são encantadoras e nos fazem ter simpatia por ela).
Assim, quando ambos percebem que, na verdade, estavam numa situação ainda mais complicada, decidem sacrificar a baleia, apesar dos protestos de Jolt. Conseguem, depois, retirar a nave do interior do enorme corpo, que acabou por se liquefazer diante de poderosos compostos ácidos presentes na própria atmosfera do planeta, à base de ácidos clorídricos.
É interessante observar que em O Templo do Passado, Wul explora mais profundamente a aventura de uma missão no interior de um organismo, vista pela primeira vez em seu primeiro romance, Regresso a Zero (Retour à “0”), de 1956, quando uma equipe de cirurgiões operou um astronauta acidentado. Outro aspecto interessante é que Wul faz uso do seu conhecimento científico, pois era dentista de formação e profissão. Ele faz um largo e detalhado processo descritivo de como Jolt desenvolve os mecanismos possíveis para uma rápida mutação, além de também usar do próprio organismo da baleia para produzir oxigênio para eles. Nesse sentido é uma FC pulp com pendor hard bastante apurado.
Após a morte da baleia eles descobrem dezenas de ovos. Ela estava grávida e acaba gerando alguns bebês mutantes, anfíbios que, depois de adultos e se reproduzirem, produzem répteis, lagartos de vários tipos que passam a povoar a superfície do planeta. Passam-se anos, mas os dois não desistem de seu objetivo de consertar a nave e voltar para a Terra. Mas ao perceberem que os lagartos os adoram e são telepatas, acabam por se atrapalhar em seu objetivo, ficando, por fim, presos ao planeta desconhecido.
Mas a que se refere o templo do passado do título? Após ficar sozinho no planeta, Massir, fazendo uso de seus conhecimentos técnicos, constrói uma câmara à base de gelo cristalizado, onde hiberna na esperança de ser resgatado num futuro distante. O tal templo é finalmente descoberto alguns milhares de anos depois por uma expedição vinda exatamente da Terra. E o final do livro ainda reserva uma surpresa de cair o queixo. É um daqueles livros com um final extremamente impactante, que fica na memória por anos. Nesse sentido, relutei em voltar a ler o livrinho décadas depois. Mas redescobri o prazer da prosa fluente e direta, de personagens ativos e pragmáticos, e de uma imaginação pulpesca com raro paralelo dentro do campo da ficção científica, deste que é, possivelmente, o melhor livro de Stefan Wul.

– Marcello Simão Branco

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Shiroma Matadora Ciborgue


Shiroma Matadora Ciborgue, Roberto de Sousa Causo. Introdução de Nelson de Oliveira. Capa de Vagner Vargas. 241 páginas. São Paulo: Devir, 2015.

     
Desde 2008 Roberto de Sousa Causo escreve uma série de histórias no chamado Universo Galaxy, com aventuras militares espaciais na melhor tradição da space opera, com aventuras, intrigas políticas e muita tecnologia. De início elas foram pensadas para serem protagonizadas pelo Capitão Jonas Peregrino, mas pouco depois foi incorporada também uma segunda personagem, Shiroma, uma ciborgue treinada para matar.
Tanto Peregrino como Shiroma lideram histórias próprias dentro deste universo ficcional, não tendo, pelo menos até o momento, interagido um com o outro de forma direta. Habitam um mesmo contexto, situado no século XXV, em que a humanidade está profundamente envolvida na expansão e colonização da Via Láctea, nas chamadas Zonas de Expansão, sendo a região da Esfera a maior e mais rica, embora contestada pelos Tadai, alienígenas misteriosos que não mostram o seu rosto.
O universo ficcional de Peregrino e Shiroma contraria, em parte, o futuro de consenso, uma das convenções da FC norte-americana, de que no futuro a humanidade explorará o cosmos politicamente unida. A referência mais popular ao conceito é a série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek). Em parte, porque a humanidade continuou dividida politicamente, entre a América Latina – ao qual pertence o militar e a assassina –, os Norte-Americanos, os Asiáticos e os Euro-Russos. É de se pensar que, para que quatro alianças na Terra tenham condições de se expandir pelo espaço de forma autônoma, o nível de afluência econômica e de produção científico-tecnológica seja mais alto do que jamais chegou antes o capitalismo em sua história. Se em termos políticos, de fato, pode fazer mais sentido a continuidade da competição e conflito entre diferentes povos da Terra, em termos econômicos, por outro lado, uma solução de consenso – de juntar forças – faria mais sentido. A construção do consenso é muito difícil, mas a escassez de recursos poderá, talvez, levar, senão a uma união, a parcerias estratégicas em torno de objetivos comuns.
Embora Causo tenha desenvolvido bastante as aventuras de Peregrino, numa série intitulada “As Lições do Matador”, publicando ao menos quatro contos e o romance Glória Sombria (2009), em termos cronológicos de publicação a primeira aventura é de Shiroma, com o conto “Rosas Brancas”, em 2008. Isso porque, como afirma Causo no posfácio, ele escreveu este conto para a série de revistas “Portal”, de Nelson de Oliveira, embora ainda não tivesse consciência de que poderia partilhar o mesmo universo ficcional de Peregrino. Foi com a sequência dos seis contos publicados na série que ele incorporou Shiroma ao Universo Galaxys, acrescentando, assim, uma segunda protagonista e, mais interessante, com uma segunda linha narrativa – e levada à frente por uma mulher.
Shiroma Matadora Ciborgue reúne onze histórias com a personagem, cinco delas publicadas pela primeira vez neste volume. Elas estão dispostas em ordem cronológica das aventuras e não, necessariamente, na sequência em que foram publicadas. Foi uma decisão acertada, pois o leitor pode acompanhar de forma mais coerente os diferentes momentos vividos pela personagem e seu próprio desenvolvimento, muito embora algumas situações anteriores sejam lembradas em cada uma das histórias. Pode também ser considerado um romance fix-up, ao reunir diversas histórias de um mesmo universo ficcional.
Shiroma, na verdade não é seu nome de batismo. Quando criança chamava-se Bella Nunes, e foi sequestrada por um misterioso casal de criminosos Tera e Tiago, que passou a criá-la para torná-la uma espiã e matadora, a serviço dos seus interesses. A criança despertou atenção e cobiça pelo fato de ser um protótipo de um ciborgue com sistemas biocibernéticos supereficientes e indetectáveis. Sua primeira história “Rosas Brancas”, mostra como foi desenvolvida por seu pai, e retirada de sua mãe, morta por Tera e Tiago. O que fica claro desde o início é que Bella Nunes foi uma criança que perdeu a sua liberdade, ou nunca a teve, pois cresceu para se tornar um instrumento de interesses escusos.
A cada missão a rebatizada Shiroma mostra-se extremamente eficiente em eliminar seus alvos, fazendo uso tanto de suas habilidades como lutadora, como também de suas vantagens cibernéticas. De certo modo conta a seu favor também o fato de ser uma garota recém-saída da adolescência, surpreendendo seus oponentes que se deixam enganar por seu sexo e aparência frágil. Pois vemos esta situação se repetir em várias histórias, embora com a sucessão das missões seus oponentes passem a ver Shiroma mais segura e consciente do que representa. Isso se torna mais claro em histórias como “Arribação Rubra”, “Tempestade Solar” e, sobretudo a última, “Renegada”.
O que torna Shiroma uma personagem interessante é que ela não se transformou apenas numa máquina assassina, tão sem caráter quanto os criminosos que a criaram. Mesmo sendo utilizada para atividades ilegais, ela se ressente desta condição e se questiona a todo o momento. Sabe que o que faz é errado, que o casal que a criou não presta, e imagina como poderá, em algum momento, se desvencilhar desta situação de submissão. Recuperar, de certo modo, seu futuro que foi desviado, após o assassinato de sua mãe. Simbólico deste objetivo é a relação que estabelece com uma concha do mar, achada num planeta anônimo, ainda bem jovem. Sempre nos momentos difíceis ou de reflexão ela imagina falar com sua mãe ou com a criança inocente que foi um dia, ao ouvir a concha junto ao ouvido. Por onde vai, em cada missão num diferente canto da galáxia, a concha é a sua referência poética e ética do que poderia ter sido. Uma esperança de que poderá se libertar das garras que a aprisionam, e expressar sua verdadeira identidade.
Estas situações ambíguas de ilegalidade e retidão, força e fragilidade, violência e sonho, é o que estrutura a sua personalidade e a torna tão complexa e interessante, mesmo que seja difícil compreender como pôde conviver por tanto tempo com atividades tão vis sem se tornar também parte desta engrenagem de criminalidade e maldade. Lendo as histórias fiquei com uma sensação de que ela poderia romper este vínculo, sendo tão forte e hábil, não precisando se submeter ao casal de criminosos. Pois assim como ela amadurece como lutadora, também mudará sua relação de dependência com o casal, deixando seu destino aberto a novas possibilidades, conforme mostra a noveleta que encerra o volume, “Renegada”.
Uma história particularmente interessante é “A Extração”, pois é contada do ponto de vista de uma investigação no interior de uma nave espacial, para se descobrir o assassinato de um general num planeta gelado. É como se a missão de Shiroma fosse invertida, isto é, não se mostrou sua ação em si, mas as consequências do seu ato. Ela fica incógnita no interior da nave e é descoberta pelo diplomata Silvano Vieira de Mello, que terá suas próprias razões para decidir o que fazer com ela. Ele é o personagem principal desta história, uma homenagem ao renomado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário dos Direitos Humanos da ONU, que estava cotado para se tornar Secretário-Geral, quando morreu num atentado da Al Qaeda no Iraque em 2003.
Numa comparação das duas linhas narrativas lideradas por Peregrino e Shiroma, constatamos que nas aventuras de Jonas Peregrino mostra-se mais o contexto macro, político, de disputa pelo poder e da ameaça representada pelos Tadais, que ameaçam a expansão humana. Neste cenário ele se coloca, muitas vezes, como se fosse uma espécie de referência ética involuntária, por força dos acontecimentos em que é envolvido, em meio às intrigas políticas e militares. Já com Shiroma temos o contexto mais miúdo das relações em sociedade, as culturas e o cotidiano dos lugares em que parte para realizar suas missões. Pois ela se insere num contexto marginal e criminoso, ao contrário do mais institucionalizado – embora não menos perverso – de Peregrino.
Na introdução Nelson de Oliveira disse que deseja ver Peregrino e Shiroma atuando juntos numa mesma história, e também compartilho desta possibilidade, muito embora acredite que Shiroma ainda tenha muito potencial próprio a desenvolver, talvez agora no formato de um romance, a partir do desfecho desta coletânea. Enfim, um ótimo exemplo de uma ficção científica espacial de primeira qualidade, pois para além do cenário espacial deslumbrante, ganha ainda mais relevo com as discussões éticas e políticas que dizem respeito, antes de mais nada, a nós mesmos.

– Marcello Simão Branco

domingo, 24 de junho de 2018

O caminho do Louco, Alex Mandarino

Guerras do Tarot, Volume 1: O caminho do Louco, Alex Mandarino. 296 páginas. Avec Editora, Porto Alegre, 2016.

Um tema bastante explorado pela ficção de mistério são as sociedades secretas. Elas têm um carisma irresistível tanto entre autores quanto entre leitores, que fantasiam sobre o que acontece por trás das portas fechadas e das cortinas cerradas. Sinais secretos, roupas exóticas, divindades bizarras, rituais macabros, poderes insuspeitos e por aí vai. Uma aventura de James Bond não seria a mesma sem uma sociedade secreta.
Em O caminho do Louco, primeiro volume da série Guerras do Tarot, publicado em 2016 pela Avec Editora, o jornalista e tradutor carioca Alexandre Mandarino apresenta o conflito entre duas dessas sociedades, cada qual dotada de poderes sobrenaturais através dos quais pretendem controlar o mundo.
A história gira em torno de um documento misterioso, cuja simples leitura atrai a atenção de uma horda de assassinos sem alma que perseguem sem descanso o desavisado leitor, até matá-lo. Esses assassinos tenebrosos são tão ferozes quanto invisíveis, pois têm uma aparência de tal forma comum que passam despercebidos da atenção pública. Logo nas primeiras páginas, testemunhamos a ação de um deles quando encontra a sua presa, um padre que leu o que não devia. Mas o documento não estava mais com ele pois, minutos antes de ser atacado numa estação de trem na França, o encaminhara por correio a um importante bispo seu conhecido que, sem saber, vai se tornar o próximo alvo da horda assassina.
Enquanto um casal de ladrões com equipamentos de alta tecnologia invade uma empresa em Munique em busca de um certo documento, e um grupo de homens dotados de poderes sobre humanos rouba uma fortuna em ouro do banco do Vaticano, André Moire, jornalista brasileiro em crise existencial, abandona sua vida regrada e segura para embarcar num mochilão sem destino. Ele não sabe, mas está dando os primeiros passos no Caminho do Louco, que se insinua a ele em sonhos e visões enquanto caminha pelos sertões América. O mistério começa a se revelar quando André é finalmente confrontado, na cidade do México, por um agente do Tarot, sociedade secreta de objetivos incertos que afirma ser ele o novo Louco, o representante vivo desse arcano no baralho adivinhatório. Contudo, para ganhar seus poderes e assumir seu lugar na grande malha que sustenta a realidade, ele terá de cumprir uma peregrinação mística, visitando os avatares de cada um dos demais vinte e um arcanos maiores do Tarot espalhados pelo mundo. Ao longo de uma jornada sem muita convicção, instruído pelos arcanos O Mago, A Sacerdotisa, A Imperatriz e O Imperador, o Louco toma contato com os primeiros segredos dessa sociedade e tentar entender por que ele é tão importante nos planos dela.
Não faltam à história muitas cenas de ação com enfrentamentos violentos, incluindo lutas mortais com mestres em kung fu, parkour nos telhados de Paris e até perseguições de carros a quinhentos quilômetros por hora, tudo temperado com pitadas de super heróis e conspirações religiosas.
Mandarino, que atua como autor de contos desde os anos 1990, ficou mais conhecido no fandom a partir de suas contribuições à franquia Intempol, sendo que seu texto “O rabo da serpente” obteve boa classificação no Prêmio Argos de 2003. Mais recentemente, publicou nas antologias Sherlock Holmes: Aventuras secretas (2012, Draco) e Caminhos do fantástico (2012, Terracota), conto com o qual foi finalista no Argos 2013. Mandarino também foi editor da sofisticada revista eletrônica literária Hyperpulp, publicada entre 2011 e 2012. A redação de O caminho do Louco consumiu muitos anos de trabalho, pois Mandarino revelou que os primeiros esboços da história foram redigidos em 2001.
O autor demonstra grande domínio sobre as cenas de ação, com descrições vívidas e impactantes, próprias de quem vê a narrativa como um filme de cinema, com muitas explosões, correrias e lutas sangrentas, e os capítulos curtos dão bom ritmo à leitura. Há um grande número de personagens em diversas narrativas paralelas, que colabora para uma ampla percepção do mundo criado pelo autor. Contudo, o final do livro é inconclusivo pois, desde o princípio, fica clara a intenção do autor em escrever uma série. Para o bem ou para o mal, fica a garantia ao leitor ser impossível dar spoilers nesta resenha.
Cesar Silva

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Algo Sinistro vem por Aí


Algo Sinistro vem por Aí (Something Wicked this Way Comes), Ray Bradbury. 293 páginas. Tradução de Jorge Luiz Calife. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.


Entre os principais livros de Ray Bradbury (1920-2012) Something Wicked this Way Comes foi o mais tardio a ser publicado no Brasil. E o mestre nos insere mais uma vez em uma pequena cidade do interior americano neste seu romance, publicado originalmente no já distante ano de 1962.
Romances, por sinal, são minoria na obra deste contista por excelência. Além deste escreveu Fahrenheit 451, um libelo a favor da liberdade e da civilização, publicado em 1953 – um livro, aliás, cada vez mais valorizado. Aqui no Brasil, desde 2017, inspira o nome de uma ótima revista de resenhas, a 451; nos EUA recebe em 2018 uma nova adaptação audiovisual, numa minissérie da HBO.
Alguém pode lembrar-se do celebrado As Crônicas Marcianas (1950), mas em verdade este livro é o que se costuma chamar de fix-up – um romance com pequenas histórias interligadas – e não propriamente uma única história longa, como o caso deste Algo Sinistro Vem por Aí, uma de suas obras mais longas – pelo menos no fantástico.
Esta história tem ecos diretos de sua obra-prima O País de Outubro (1955), uma das mais belas coletâneas já escritas, pois também acontece em um certo outubro. Bradbury começa o livro situando este mês em relação aos outros porque, para ele, seria tão especial e diferente, que poderia ser interpretado à luz do fantástico. As aulas já recomeçaram há um mês, já deu tempo dos jovens se reencontrarem e se acostumarem com a situação, estamos em pleno outono no hemisfério norte, e o desfecho promete uma inesquecível noite de Halloween.
Nesta cidadezinha não identificada, tão igual a centenas pelo interior profundo dos Estados Unidos, mas que poderia ser em qualquer país, o tal Halloween chegou antes no ano em questão. É a súbita chegada de um parque de diversões. Especialmente na vida de dois garotos, Will Halloway e James Nightshade, que ficam imediatamente fascinados. Verão pouco depois que a vida deles e de outros habitantes nunca mais será a mesma.
Não tarda para que eles adentrem ao parque e tomem contato com situações muito além de uma simples diversão para uma cidadezinha sem graça do interior. Coisas insólitas acontecem, primeiro com pessoas próximas a eles, como a professora Foley e o vendedor de para-raios. Mas sobretudo depois da experiência do carrossel, ao verem um homem girar para trás e rejuvenescer, eles estão como que tomados por um outro mundo, como num caminho sem volta.
Não é um parque normal, se é que algum é, mas possui poderes e modifica as pessoas, realizando, de alguma forma, seus desejos inconfessáveis. Os artistas e seres bizarros do parque disso se aproveitam para atrair, seduzir e, finalmente, capturar aqueles mais curiosos ou sensíveis às suas tentações.
O homem ilustrado – que já havia protagonizado um belo romance fix-up, Uma Sombra Passou por Aqui (1951) –, retorna neste livro como o mestre de cerimônias do parque, também chamado de Senhor Dark. Suas inúmeras ilustrações móveis pelo corpo fascinam a todos e ele como que hipnotiza os que dele se aproximam. Há ainda o Esqueleto, a Bruxa, o Anão, e o Senhor Cooger, que depois de ir para frente no carrossel quase morre de tão velho e numa sequencia fantástica – presenciada pelos garotos –, é ressuscitado em uma cadeira elétrica.
O romance é dividido em três partes: chegadas, buscas e partidas. A primeira fala basicamente do parque de diversão e o que desperta em alguns dos personagens. Desta forma, ele não é apresentado em termos narrativos, com suas atrações e personagens numa sequencia linear. Estes surgem por meio da interação com os habitantes da cidade, o que torna o relato mais intimista e particularizado, isto é, a partir do sentimento e ponto de vista de cada um que interage com, por exemplo, a sala dos espelhos, o carrossel, a bruxa ou o temível homem ilustrado.
As “Buscas” da segunda parte são realizadas pelos seres, que saem do parque pelas altas horas da noite, em perseguição aos dois garotos. É que eles perceberam o que este parque de fato representa, muito mais do que uma simples e inocente diversão. Os seres querem as pessoas, recrutá-las como suas possíveis novas atrações, seduzindo-as com os poderes que oferece, como o mais irresistível deles, a fonte da juventude.
Will e Jim contam com a ajuda de Charles, o pai de Will, um solitário zelador da biblioteca pública da cidade. Pesquisando nos jornais antigos eles descobrem que o parque já esteve outras vezes por lá, e que retorna em média a cada 50 ou 60 anos. Quase depois de uma geração inteira de vida da própria cidade. Com a memória coletiva esmaecida o parque retorna, captura alguns poucos dos seus habitantes, mantém para os demais a fachada de um parque de diversões como os outros e parte para outras paragens da mesma forma que chegou neste, para depois de anos retornar ao mesmo local.
Charles, Will e Jim se defrontam com os seres da noite, tanto no interior da biblioteca, nas ruas escuras da cidade e, principalmente, no interior do parque para onde são fatalmente levados. Em “Partidas” temos uma viagem de autodescoberta sobre os valores importantes da vida: humildade, desprendimento, solidariedade, confiança e, sobretudo, alegria. Pois como os três descobrem, a única arma de que dispõe é a alegria, é o bem-estar, pois o Senhor Dark e seus seguidores são fortes e quase imortais porque se alimentam da inveja, do egoísmo, da vaidade e da maldade humana.
É uma história rica em significados que, por si mesma, já evoca imagens fortes no imaginário das pessoas. A atração por um parque de diversão – ou de um circo – é como uma abertura para que entremos em um mundo de fantasia, de realização de sonhos e anseios impossíveis de se alcançar na vida cotidiana, tão modorrenta e cheia de responsabilidades.
A escolha de uma dupla de garotos de 14 anos é oportuna, ainda mais por eles estarem na adolescência, aquela fase da vida onde somos invadidos por várias dúvidas, curiosidades, angústias e possibilidades. Remete à ideia de que a iminência da vida adulta é cheia de riscos e de que é hora de caminhar sozinho. Também por aí se pode interpretar que a chegada de uma atração estranha a uma cidade pequena e de hábitos previsíveis, representa um risco de desestruturação da ordem.
Por este aspecto, também o ato do tal parque ser do mal poderia ser interpretado de uma forma conservadora, no sentido de que não devemos ir muito longe em nossas fantasias, porque elas nos tiram do eixo e nos levam para caminhos errados ou que não mais controlamos. Dizendo de outra forma, tornar-se adulto ou ir embora com o parque. Mas com Bradbury tal viés não se dá, porque os próprios seres de outono são carentes, solitários e contraditórios. Pois se alimentam de nossas fraquezas e isso é o que está subjacente na obra: a valorização da amizade, da confiança e, principalmente, o sentimento de alegria. Para muito além de regras e códigos do que é socialmente visto como “certo”.
O posfácio é interessante porque Bradbury revela a razão de dedicar o livro ao ator e dançarino Gene Kelly (1912-1996). É que o autor escreveu um roteiro para Kelly dirigir. Mas este não encontrou nenhum produtor que se interessasse, fazendo com que Bradbury transformasse o roteiro em um romance. Posteriormente, em 1983, foi produzido o longa-metragem, dirigido por Jack Clayton (1921-1995).
 Embora Algo Sinistro Vem por Aí tenha como protagonistas uma dupla de garotos e o pai de um deles conserve um espírito jovial, é um romance para um público adulto. Pode ser classificado como um dark fantasy (ou fantasia sombria, se preferir), com fortes elementos sobrenaturais. E narrada por um escritor tão naturalmente talentoso, que pode agradar a qualquer tipo de leitor. Seja o aficcionado pelo gênero, ou pelo autor, ou simplesmente por uma narrativa bem escrita e bem contada.

Marcello Simão Branco

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Pré-História do Futuro

Pré-História do Futuro (Niourk), Stefan Wul. Tradução de Mário Henrique Leiria. Capa de Lima de Freitas. 199 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil: Coleção Argonauta no. 56, 1960. Lançado originalmente em 1957.

Este é o segundo romance de Stefan Wul, publicado na coleção francesa Fleuve Noir, no. 57, em 1957, após sua estreia na mesma coleção em 1956 com Regresso a Zero (Retour à “O”). E é também o segundo do autor publicado na coleção Argonauta.
Se no primeiro romance Wul abordou um tema principal – disputa de poder entre a Terra e a Lua – com desdobramentos para a abordagem de temas secundários – como, por exemplo, a belíssima sequência da cirurgia miniaturizada no interior do corpo humano –, em Pré-História do Futuro temos um enredo mais centrado e definido, abrindo a oportunidade de maior aprofundamento dramático da história.
A civilização humana praticamente acabou depois de uma guerra nuclear. As cidades foram destruídas e não há mais mares e oceanos, só terra firme em infindáveis florestas e pradarias, algumas com altos níveis de radioatividade. Os humanos decaíram para uma nova pré-história, vivendo como caçadores e coletores organizados em tribos que apenas lutam para sobreviver. Caçam, entre outros animais cães, para comer! Outrora seus melhores amigos.
Numa destas tribos lidera Thoz, louro, alto e forte. Ele impõe sua liderança mais por sua força física do que pela inteligência, mas com eles vive também O Velho, respeitado por ser o único capaz de se comunicar com os deuses. Esta comunicação ocorre quando ele parte para o alto das montanhas e traz de sua jornada utensílios úteis à vida coletiva. Objetos estranhos, na verdade retirados de Niourk que, como se tornará claro ao longo do texto, é simplesmente o que sobrou de Nova York. A ação se passa entre as localidades do Caribe, como Hait, Jamai, Santiag de Cuba e o que restou da antiga costa leste norte-americana, cujas maiores ruínas encontram-se, justamente, em Niourk.
Numa das visitas do Velho à “morada dos deuses” ele não retorna. Uma expedição liderada por Thoz sai à sua procura, mas não o encontra, embora não ouse entrar em Niourk. Nesse meio tempo um pária que vive com a tribo, um garoto negro – discriminado e maltratado – resolve procurar o Velho de forma independente. Após chegar e percorrer a metrópole em ruínas encontra uma pistola laser e se espanta e encanta com seu novo poder. O rapaz encontra o Velho morto, e devora os miolos do seu cérebro para combinar sua nova força advinda da arma com a sapiência do sábio.
Neste novo mundo surge uma espécie inteligente, os polvos. Chamados de “monstros” pelos humanos guerreiam em busca de terras e alimentos. Numa dessas disputas levam a melhor, mas com a volta do rapaz negro, a vantagem volta aos homens, que os matam em grande quantidade e os devoram.
A tribo agora liderada pelo rapaz negro se sente vitoriosa e marcha para Niourk. Mas, subitamente, as pessoas ficam doentes e morrem rapidamente depois de apresentarem uma estranha luminosidade no corpo. É que os polvos eram seres radioativos e, ao comê-los, as pessoas também ficaram. Nos polvos a radioatividade lhes permitiu uma transformação cognitiva. Nos humanos a morte. Embora também doente o rapaz negro não sofre os efeitos de forma tão intensa, e parte para explorar Niourk, ao lado de um urso que encontrou pela selva.
Pouco antes do holocausto nuclear um pequeno grupo fugiu para Vênus e lá recomeçou a civilização. Numa missão à Terra uma de suas naves sofre um acidente e apenas três tripulantes sobrevivem, e adentram nas ruínas de Niourk. Um deles morre, mas os outros encontram o rapaz negro. Tratam de sua doença e percebem que a radioatividade o tornara superinteligente.
 Agora respeitado e temido Alf – o nome que ganha dos venusianos, uma corruptela de Alfabeto –, lê rapidamente todos os livros que encontra, e torna-se extremamente sagaz. Num verdadeiro salto evolutivo.
Assim como em Regresso a Zero (1956), neste livro o final é absolutamente delirante em termos de imaginação. Sem revelar todos os detalhes, basta dizer que Alf conserta a nave dos venusianos, cria uma nova civilização artificial para ele comandar e transforma a própria Terra numa nave que viaja em direção ao centro da galáxia!
Embora seja puro sense of wonder na melhor tradição pulp o desfecho destoa do tom elaborado ao longo da narrativa, bastante pessimista quanto à viabilidade de um reerguimento da civilização. Nesse contexto surge um novo (super) homem, e justamente daquele considerado inferior pelos outros, por causa da cor de sua pele.
O título original se refere à Niourk, corruptela da mais importante cidade do seu tempo, Nova York, acentuando, por meio de sua queda, à da própria humanidade. Mas o título português é mais interessante. Isso porque pode ser visto como uma alusão à História do Futuro (1718), do Padre Antonio Vieira, a primeira narrativa utópica da língua portuguesa. Pois se para Vieira o futuro reservaria ao povo português a liderança num novo império cristão, para Wul, sua pré-história do futuro não se refere à construção de uma nova e utópica civilização, mas centra-se num único e incrível humano produzido, de forma aleatória, para tornar-se quase que um ser divino. Resta saber que tipo de civilização humanoide, mas artificial, Alf irá construir.

– Marcello Simão Branco

sábado, 12 de maio de 2018

Gigantes adormecidos, Sylvain Neuvel

Gigantes adormecidos (Sleeping giants), Sylvain Neuvel. 308 páginas. Tradução de Michel Teixeira. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016.

O acaso levou a pequena Rose a encontrar, numa cratera na mata, um artefato intrigante: uma enorme mão de metal. Passado o susto, a menina seguiu sua vida e tornou-se uma cientista destacada, enquanto a mão gigante foi levada para os porões do governo americano e acabou esquecida, até que uma agência tão secreta que nem se sabe nome dela, comandada por um homem tão misterioso quanto poderoso, volta a se debruçar sobre a escultura. Convocada para prestar esclarecimentos, a agora Dra. Rose Franklin, Ph.D., cientista sênior do Instituto Enrico Fermi da Universidade de Chicago, é convidada para coordenar os trabalhos de pesquisa a respeito do artefato, o que ela acaba aceitando. Além da Dra. Rose, também são recrutados a irascível piloto de helicópteros Kara Resnik, o circunspecto militar Ryan Mitchell e o gênio universitário Vincent Coulture. Juntos, eles passam a estudar profundamente o artefato, assim como outros que são posteriormente encontrados espalhados pelo mundo, que parecem ser partes de uma mesma máquina: um robô gigante em forma de mulher, abandonado na Terra por uma civilização antiga.
É claro que eles vão montar o robô e também que ele vai funcionar. Mas a falta de informações adequadas sobre seus controles, bem como as dificuldades anatômicas para pilotar a máquina, vão causar toda a sorte de tragédias, sem falar nos problemas políticos que a simples existência de tal dispositivo passa a suscitar em todo o mundo. Acrescente-se a receita um perturbado triangulo amoroso, e temos uma bomba muito pior que a atômica prestes a por fogo no mundo.
Esta é a história do romance Gigantes adormecidos, livro de estreia do escritor canadense Sylvain Neuvel, Ph.D, em Linguística pela Universidade de Chicago, que chamou a atenção do fandom americano quando de sua publicação, em abril de 2016. O livro chegou aos brasileiros poucos meses depois, com tradução de Michel Teixeira, pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Fica claro, já pelo título, que se trata do primeiro episódio de uma série: se são "gigantes adormecidos", certamente há mais de um desses colossos. O outro, ou outros, ficaram para as sequências. Além do mais, a ficha catalográfica revela que se trata do "Livro 1 dos arquivos Têmis", seja lá o que isso for. Ou seja, vem mais por aí.
Apesar de não ser conclusiva, a história deste primeiro volume é bastante movimentada, com fugas e perseguições, resgates perigosos, conflitos internacionais, dramas amorosos e até algum sexo.
Mas o melhor mesmo, que dá sabor à leitura, é o estilo narrativo em forma de entrevistas e depoimentos em que se alternam os personagens, com grandes lapsos entre um e outro, de modo que o leitor tem que estabelecer, por sua própria conta, as relações de causa e consequência entre um e outro capítulos. Mas não há grandes dificuldades de entendimento, pois a história é linear e bastante simples. E não deixe de ler  até a última linha, pois lá está o instigante gancho para a segunda parte, Waking gods, cuja publicação nos EUA está prevista para abril de 2017.
Por hora, vale degustar este Gigantes adormecidos, que recoloca o Brasil na rota dos lançamentos recentes da fc norte americana.
Cesar Silva