segunda-feira, 20 de junho de 2016

Não Verás País Nenhum

Não Verás País Nenhum, Ignácio de Loyola Brandão. Global Editora, 11a. edição, São Paulo, 1985, 357 páginas. Lançado originalmente em 1981.

Durante os anos da ditadura militar (1964-1985) a literatura brasileira produziu algumas obras muito boas sobre a condição política e social do país. E, de forma surpreendente para alguns, a partir de um ponto de vista não convencional, pela metáfora, pelo fantástico e sobretudo pela ficção científica, também chamada para este caso específico de ficção distopica.
Talvez o livro mais importante e influente tenha sido Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Quando o escreveu, o autor já era reconhecido, tendo publicado obras importantes, inclusive, sobre aspectos da repressão, como o controverso Zero (1974), ainda hoje o seu livro de maior impacto. Também editou com sucesso a primeira versão da revista Planeta, na primeira metade dos anos 1970, quando publicava contos de ficção científica, inclusive de autores brasileiros. Vê-se, portanto, que o autor tem alguma comunicação com o gênero. Sendo assim, Não Verás País Nenhum deve interessar particularmente os leitores tradicionais do gênero.
Desconfio, entretanto, que poucos fãs brasileiros de ficção científica já o tenham lido. É realmente de se lamentar, pois se está diante de um verdadeiro livraço.[1] Foi, inclusive, publicado nos Estados Unidos e países europeus com premiações e críticas elogiosas,[2] o que atesta também o seu caráter universalista, mesmo abordando de forma profunda não só a ditadura, mas a própria ideia do que é ser brasileiro, especialmente a partir da segunda metade do século passado, isto é, urbanizado e em contato com mudanças tecnológicas.
Estamos no início do século XXI em São Paulo. A ditadura militar não terminou e perpetuou seus métodos de governo autoritário e sua repressão política e comportamental à sociedade. Temos como protagonista Souza, um ex-professor de História, que aposentado à força pelo regime, trabalha como um burocrata metódico e entediado. Além da ditadura política em si, o país passa por um desequilíbrio ecológico grave, com racionamento de água, calor intenso, alimentos artificiais e manufaturados, ausência quase total de vida animal e vegetal, nascimento de crianças deformadas e mutantes. Pois a floresta amazônica e as demais foram destruídas, transformadas em gigantescos desertos, o que explica as altas temperaturas durante o ano inteiro.
Situações próximas do surrealismo ilustram o contexto, como os banheiros públicos que reciclam a urina – com o requinte de selecionar as urinas mais saudáveis – para transformá-la em água, usada para beber e outros fins pelas pessoas. Os bolsões de calor, que provocam a queimadura até a morte, no início no Nordeste, mas no fim também em São Paulo, levando à construção de uma obra faraônica e inútil, uma quilométrica Grande Marquise para abrigar do calor os miseráveis e os sem-teto.
Desta forma tanto quanto uma distopia política, Não Verás País Nenhum também é uma distopia ecológica. Em que não apenas um Estado dispõe de forma autoritária e truculenta sobre os recursos da natureza, como a própria sociedade, além de não ter controle sobre as ações do governo, parece ter pouco apreço pelo meio-ambiente em si – destrói um museu sobre a natureza e uma reserva ecológica clandestina, por exemplo –, embora seja quem realmente sofra suas consequências danosas, já que os agentes estatais se protegem por meio de cúpulas climatizadas e refrigeradas.
Em acréscimo a esta degradação ambiental, o Brasil perdeu parte de seu território, principalmente o Nordeste, que se transforma numa Reserva Multinacional. Foi cedido a outros países e grupos econômicos internacionais, provavelmente por causa da dívida externa do país. Esta perda provoca um grande êxodo de nordestinos para o Sudeste, que os reprime construindo grandes cercas em tornos das áreas metropolitanas de suas principais metrópoles. Assim é que se concentra nos arredores de São Paulo, uma quantidade imensa de acampamentos, verdadeiro campo de refugiados dentro do próprio país. Sem poder voltar ao que perdeu. E sem poder entrar no que nunca, de fato, pôde desfrutar.
Neste contexto de repressão política e caos ambiental, o melhor tipo de emprego que se pode conseguir é por meio da adesão ao regime, ou seja, sendo militar ou um burocrata. Ou as duas coisas, os tais ‘militecnos’, que atuam em empresas estatais e cargos de direção do Estado – aqui chamado de Esquema – certamente uma alusão aos tecnocratas dos anos 1970 de nosso país. Para desgosto do antigo contestador Souza, há um militecno em sua família, seu jovem sobrinho. Há também os ‘civiltares’, espécie de segmento responsável pelo patrulhamento, espionagem e repressão do regime. Tropas de elite de cunho civil-militar, mantidas pelo Estado e por grupos privados que o apoiam, de caráter paramilitar, o que lhe abre a oportunidade de agir frontalmente às margens de lei já por si mesmas discricionárias.
Dentro deste cenário geral, o romance é narrado em dois planos que se justapõem, o macro e o micro. No micro, a história pessoal de Souza e de como é a sua vida neste país governado há cerca de 40 anos pelos militares. No macro, a contextualização social, política e ecológica desta realidade.
Impressiona o nível de detalhes que o autor elabora para construir a sua ditadura que nunca terminou. Nesta São Paulo, as pessoas vivem restritas aos seus bairros. Precisam de bilhetes especiais para transitar pela cidade. Se os perdem simplesmente não podem voltar para suas casas.
Através da perspectiva de Souza, um intelectual sufocado pelo regime e que ainda carrega culpas dentro de si mesmo, Loyola extrapola a ditadura militar para o futuro próximo, sempre olhando para o passado. Este é um recurso válido, pois permite uma visão retrospectiva de como um futuro veria a ditadura dos anos 1970 e 1980. Em termos de ficção científica é manjado, com um observador exterior (geralmente um alienígena ou viajante do tempo) usado para comentar as mazelas de nossa civilização. Já no caso do livro, o observador é o próprio protagonista (em primeira pessoa), pois não há propriamente um encadeamento de sequencias no desenrolar da narrativa. Tanto que o romance recebe o subtítulo de “memorial descritivo”, embora por meio deste recurso o contexto geral seja aprofundado com o drama crescente vivido pelo protagonista. Ao invés do personagem se movimentar dentro de um mundo – e desta forma procurar modificá-lo –, é como se este mundo impulsionasse e transformasse o personagem.
Ademais, a decorrência mais comum desta linha de abordagem narrativa são as observações sarcásticas que ridicularizam o regime de uma forma geral.  Loyola é particularmente feliz com colocações agudas que provocam no leitor aquele sorriso torto no canto da boca, tanto de lembrança do fato, como de sua interpretação absolutamente demolidora do nonsense daquilo tudo. Então há os que se ‘locupletaram’(fala aqui de boa parte da classe média), os ministros ‘embriagados’, os corruptos e os apenas incompetentes. Chega a nomear algumas fases pelas quais passou o regime, de clara ressonância para quem o viveu, como por exemplo, os “Abertos 80”, uma referência ao processo de abertura que o regime viveu a partir de meados dos anos 1970 e que chegava ao auge no começo dos 1980, e à “Era Casuística”, esta dos anos 1970, quando os militares mudavam as regras eleitorais para favorecer os políticos do partido que os apoiava.[3]
Em meio a este contexto, surge um furo numa das mãos de Souza, pretexto para a virada definitiva em seu comportamento e para os rumos da própria história. Por medo do que lhe possa acontecer – ser preso e confinado ao isolamento, ou perder o emprego –, ele resiste em ir ao médico, apesar dos apelos de sua passiva e conservadora Adelaide, sua esposa. Passa também a enfrentar seu sobrinho milico e relaxa com sua higiene e alimentação, além de chegar atrasado para o trabalho.[4]
Souza vai gradativamente deixando sua resignação de lado, bem como sua segurança econômica, pois é demitido do emprego, abandonado por sua esposa e tem seu apartamento invadido por um grupo de estranhos, aliados de seu sobrinho, como parte de uma atividade de contrabando ilegal de alimentos. Muito deprimido com tantas mudanças pessoais, Souza é impotente para expulsar os invasores. Mas reage quando estes começam a matar aqueles que os incomodam, os pedintes e mutantes que aos poucos rompem os acampamentos e entram em São Paulo, aumentando ainda mais o caos social e o grau de opressão.
Souza teme ser morto e acaba sendo abandonado em um lixão na periferia da cidade. Vira um ninguém, como tantos pedintes, desempregados e refugiados que ele antes tinha pena, quando ainda possuía uma ocupação, residência e esposa. Neste processo de decadência pelo qual passa o protagonista, Loyola nos fala da degeneração social e moral da própria sociedade submetida ao um regime perverso e sem freios.
Outro aspecto interessante é que Loyola contrapõe o seu Brasil distópico como uma espécie de antítese da tradição da ficção científica anglo-americana. Chega a citar autores importantes do gênero e as supercivilizações tecnológicas que criaram e como teríamos engendrado por aqui o inverso: Uma urbe superpopulosa, poluída, caótica e sob uma ditadura. Como se realmente tivéssemos ficado sem ver país nenhum.
Mary Elisabeth Ginway, em Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Devir, 2005) observa outro aspecto, de que Loyola aproveita para criticar a ficção científica anglo-americana, vista por ele como excessivamente otimista, determinista ou mesmo ingênua sobre o impacto da tecnologia na sociedade e na ação dos indivíduos. Faz sentido, mas talvez da perspectiva dela – como uma americana – e não da perspectiva de quem faz a análise a partir de seu país, como o meu caso. Ou, creio, como na intenção original do autor.
Qual? A de um Brasil que a partir do autoritarismo falha definitivamente em ser o tal país do futuro, que se imaginava pudesse ser algo semelhante a algumas das utopias hedonistas e tecnicistas da ficção científica escrita no Norte. Nesta linha de interpretação, àquilo que se assemelhava a uma ficção científica para o Brasil teria de ser de má qualidade, no sentido de só podermos produzir anti-utopias para o nosso país. Mas, ao menos no caso de Loyola, com sofisticação.
Isso porque o romance lembra a estrutura paranoica vista na maior das anti-utopias, 1984, de George Orwell, embora pelo ponto de vista de sua ineficiência de gestão, ainda que com repressão. E uma estrutura existencial à lá Kafka, remontando a uma melancolia com o estado geral das coisas, ilustrada, claro, por situações absurdas. Mais absurdas ainda porque reais. Como o sumiço final do furo na mão de Souza, o último sujeito dos porquês em um mundo que se esqueceu de questionar a si mesmo e se entregou a um niilismo quase suicida.
Vale a pena citar ao menos uma passagem que mostra a sensibilidade crítica do autor com relação à postura das pessoas com respeito aos efeitos de um regime autocrata:

“Fomos nos habituando, de tal modo que passamos a pactuar com a tragédia, aceitando-a como cotidiano. Me espanta essa capacidade de acomodação da mentalidade, sua adaptação ao horror. Acredito que a gente possua um componente de perversidade que nos leva a encarar como normal esse pavor, a desejá-lo, às vezes, desde que não nos toque. Uma porcentagem de perversidade que tem sido alimentada pelo Esquema, essa coisa tão abstrata, que consegue se manter em meio à anarquia, ao caos estabelecido como ordem, à anomalia mascarada em progresso.” (página 191).

No fundo, Loyola descreve o fracasso do projeto de modernização do país e seus efeitos no cotidiano e mentalidade das pessoas. Uma opção de desenvolvimento importante não criada, mas ampliada de forma exagerada e distorcida pelos militares, por eles ufanistamente nomeada de “Brasil Potência”, com super usinas hidrelétricas e nucleares. E o autor escreveu justamente na época em que as esperanças do país renasciam, os anos 1980, por causa da liberalização política do regime e as perspectivas concretas que se avizinhava para o retorno da democracia.
Se o pessimismo da obra não coaduna com o momento específico que o país vivia, talvez seja porque o autor não acreditasse de fato que o país voltasse à ordem constitucional ou então de que mesmo nela o país já estaria inviável do ponto de vista de sua modernização e equidade social. Desta forma, Não Verás País Nenhum é o Brasil do futuro que nunca se realizou.[5]
Este é o melhor romance brasileiro de ficção científica já escrito. Um exemplo concreto das potencialidades de uma ficção de caráter especulativo que contesta a realidade e reflete sobre os problemas do país e do mundo contemporâneo. E, se possível, responda a alguma inquietação existencial do próprio autor.

Marcello Simão Branco

 [1] Em pesquisa do fanzine Megalon, ano XI, número 51, dezembro de 1998, sobre o melhor livro de ficção científica brasileira de todos os tempos, Não Verás País Nenhum ficou em oitavo lugar, com apenas dois votos.
[2] Recebeu, por exemplo, o Prêmio Illa, como o melhor livro latino-americano publicado na Itália em 1983, e resenhado no The New York Times Book Review.
[3] No artigo “Ventos de Mudança: A Ficção Científica Brasileira e a Transição Democrática”, argumento que Não Verás País Nenhum foi um romance que inaugurou uma mudança temática dentre aqueles que discutiram criticamente o regime militar. Pois quando escrito não se estava mais no período mais sombrio da repressão – da ficção distópica, mas sim no contexto do processo de liberalização do regime – uma ficção da abertura. Desta forma sinalizou, em termos literários, as novas perspectivas que se abriam para o Brasil. Ver em Semina: Revista de Ciências Sociais e Humanas, vol. 34, n. 2, 2013.
[4] Na coletânea Cadeiras Proibidas (1977), o autor retoma o tema no conto absurdista “O Homem do Furo na Mão”.
[5] No lançamento do livro Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro, de M. Elisabeth Ginway, em 27 de julho de 2005, Loyola afirmou, em um debate na livraria Fnac, em Pinheiros, São Paulo, que este livro foi a conclusão de sua trilogia sobre a ditadura militar. Teria começado com sua instauração com Zero (1974), analisado o codidiano das pessoas sob sua vigência na coletânea Cadeiras Proibidas (1977) e especulado o seu desfecho futuro com Não Véras País Nenhum (1981). Em termos literários, provavelmente, a melhor contribuição a este perído histórico do país. 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Os Náufragos do Selene

Os Náufragos do Selene (A Fall of Moondust), Arthur C. Clarke. Tradução de Jorge Luiz Calife. Capa de Victor Burton. 265 páginas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.


Quando escreveu Os Náufragos do Selene, Arthur C. Clarke (1917-2008) já era um nome consolidado no campo da ficção científica e da astronáutica. Havia estabelecido sua reputação nos anos 1950 com romances como O Fim da Infância (Childhood´s End, 1953) e A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars, 1956) – que se tornaram clássicos – e o influente ensaio A Exploração do Espaço (The Exploration of Space, 1952).
Clarke acabara de receber ainda o Prêmio Kalinga, da Unesco, por sua contribuição à divulgação da ciência e publicado, de qubra, o livro de não-ficção Perfil do Futuro (The Profiles of the Future, 1962). Neste cenário Os Náufragos do Selene (A Fall of Moondust) é um romance que sem a mesma ambição filosófico-cósmica dos anteriores, busca uma aproximação mais realista, entre uma ficção de caráter especulativo e o conhecimento científico da época.
O livro narra os efeitos dramáticos de um acidente com uma nave que fazia uma excursão por pontos turísticos da Lua, já no século XXI colonizada pela humanidade. Pois a nave Selene sofre um acidente numa superfície aparentemente segura ao afundar como se numa areia movediça estivesse, a algumas dezenas de metros abaixo da superfície do Mar da Sede.
Temos o que na linguagem da ficção científica se costuma chamar de uma “problem story”, ou seja, um enredo que procura explorar todas as possibilidades racionais para se solucionar um problema de caráter natural ou tecnológico, ou ambos no caso do romance em questão. Clarke pontua bem os acontecimentos derivados do acidente, entre o drama dos personagens próximos da morte, e a formação de hipóteses e alternativas técnicas para salvá-los.
O romance tem o mérito de não mergulhar num dramalhão convencional tão comum em histórias deste tipo e populares nos cinemas como “filmes catástrofes”, ao interligar as vidas pessoais dos infortunados com o drama coletivo que os une. Mas talvez o autor inglês tenha exagerado ao diluir demais a dramaticidade, com personagens que se comportam a maior parte do tempo com uma fleuma e racionalidade pouco verossímeis numa situação limite como esta. Por exemplo: após o acidente e sem notícias sobre um possível resgate passam boa parte do tempo em passatempos, como leitura oral de romances!
Se Clarke mostra-se fraco em aprofundar a densidade psicológica dos personagens, a força de Os Naufragos do Selene esta, justamente, na resolução da “problem story”. De como será possível localizar a nave, contactar os passageiros e tripulantes, e mantê-los vivos enquanto os engenheiros e técnicos imaginam como irão fazer para tirá-los de lá em segurança. Aliás, tal contraste ilustra bem as virtudes e limites do autor britânico, repetidas no restante de sua obra.
Clarke usa bem o recurso de estilo narrativo de contar a história a partir de perspectivas diferentes, se alternando, como a dos passageiros, dos administradores e engenheiros, e de um jornalista que, por sorte e faro profissional, descobre o acidente antes, e procura tirar proveito disso.
É pela interação entre a liderança do espirituoso comodoro Hansteen – a bordo de forma anônima na Selene – do inicialmente hesitante comandante da nave, Pat Harris e do engenheiro-chefe da administração lunar Lawrence, que lidera a equipe que busca salvar os náufragos, que o romance tira o seu melhor na tradição de resolução de um problema aparentemente complexo e de incerta solução. Páginas e páginas ao longo dos capítulos esmiúçam em detalhes as várias possibilidades de resgate possível, e como elas vão sendo descartadas para que outras surjam, sem que com isso, as vidas dos passageiros e tripulantes deixem de estar em constante perigo.
A Lua é um dos cenários preferidos da ficção científica, a começar com as aventuras de Julio Verne, e ainda mais quando o romance foi escrito, pois estava na crista da onda, devido à corrida espacial entre norte-americanos e soviéticos. Além de ser uma conquista científico-tecnológica sem par era, principalmente, um troféu para a propaganda da ideologia vencedora. Tanto que depois que os Estados Unidos lá chegaram o interesse foi declinando, e a União Soviética acabou nem enviando uma nave tripulada para lá. Pelo que tudo indica, neste início de século XXI os chineses devem ser os próximos a nos mandar notícias e imagens in loco daqui há alguns anos.
De qualquer forma, como atesta Os Náufragos do Selene, e outras várias boas histórias sobre a Lua no terreno da FC, nosso satélite natural é um destino inevitável para as próximas décadas. Estratégico mesmo para viagens mais ousadas: Marte e além.
Nesse contexto, quando já existem projetos concretos de turismo espacial em órbita, o romance deverá ganhar um novo interesse, já que com uma provável colonização da Lua, atividades turísticas como as retratadas no livro deverão existir até de forma rotineira.
No conjunto da obra de Clarke Os Náufragos do Selene não chega perto de seus clássicos, os citados e outros como, por exemplo, 2001, uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968) e Encontro com Rama (Rendesvous with Rama, 1973). Tem um status intermediário, talvez subestimado. Mas por sua inteligência especulativa, em equilíbrio com um senso de verossimilhança que deverá se tornar ainda mais realista nas próximas décadas, é um livro de renovado interesse. Tanto para os fãs de ficção científica, como para os que procuram um livro elegante na forma e instigante no conteúdo.

– Marcello Simão Branco



quinta-feira, 2 de junho de 2016

Bokurano


Bokurano (Bukurano), Hiroyuki Morita. Gonzo, Japão, 2007.

Um grupo de estudantes em férias, oito meninos e sete meninas, encontram uma caverna na praia. Dentro dela, um programador de computadores meio louco propõe a eles uma boa diversão: participar de um novo jogo que ele criou, para o qual são necessários exatamente quinze jogadores. Como as crianças estão entediadas, decidem aceitar. Para isso são levadas a "assinar" um contrato, colocando a palma da mão numa espécie de leitor ótico.
Depois disso, as crianças desmaiam e acordam na praia, achando que tudo não passou de um sonho. Até que começa a aparecer no mar um robô gigantesco e todas as crianças são teletransportadas para seu interior. Lá, reencontram o programador e ficam sabendo que uma das regras do jogo é que cada um deles pilote o robô em uma luta mortal contra um outro robô gigante. E que, como o robô usa a energia do piloto, este morre depois da luta.
Mas há segredos ainda mais tenebrosos por detrás do jogo, que envolvem inclusive a existência de todo o universo.
Bokurano é uma história de ficção científica de dimensões cósmicas, criada por Mohiro Kitoh, publicada originalmente no Japão em uma série de história em quadrinhos entre 2003 e 2009. Chegou ao Brasil na forma de uma série de desenhos animados exibida pela extinta emissora a cabo Animax, em 24 episódios semanais.
Apesar da aparência de uma aventura infanto juvenil, Bokurano é uma história dramática e realista, sendo que o único ponto de fantasia é a existência dos tais robôs gigantes, que são realmente enormes. Com centenas de metros de altura, destroem cidades inteiras durante os combates.
A escolha do piloto é aleatória e ninguém sabe quem será escolhido para o sacrifício: a criança só sabe que será a próxima a ocupar o posto de piloto quando uma estranha tatuagem surge em sua pele, uma expectativa de horror na vida todas delas. Enquanto o governo tenta descobrir o que está acontecendo, o que é aquele monstro e o que as crianças têm a ver com ele, elas tentam administrar suas vidas, cada qual com seus próprios problemas pessoais e familiares.
Mas, afinal, o que é o jogo? É real ou apenas uma simulação? De onde vêm os robôs? E por que eles lutam? As respostas serão dadas aos poucos por um bizarro avatar de nome Koyemshi que, apesar da aparência simpática, é um cretino de marca maior.
O seriado está disponível online no saite Crunchyroll, aqui.
Cesar Silva

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Mushishi

Mushishi (Mushishi), Hiroshi Nagahama, Japão 2006. Série com 26 episódios.

Algumas ideias das histórias fantásticas são tão absurdas que é necessário que o autor use técnicas narrativas especiais para manter o interesse do expectador/leitor. Entretanto, algumas poucas encontram uma abordagem tão naturalista e emotiva que nos pegamos desejando que aquilo fosse real.
É o caso de Mushishi, série japonesa em desenho animado exibida no Brasil em 2010 pela extinta tv a cabo Animax, que se destacou na programação por ser uma história singela e não violenta, de estilo adulto e sem aqueles personagens "zoiúdos" que caracterizam os animes.
Trata-se uma fantasia eminentemente pastoral, que conta as histórias de Ginko, uma médico andarilho que ajuda as pessoas do Japão antigo em questões relacionadas a um tipo de ser vivo invisível, nem vegetal nem animal, conhecido como mushi.
Os mushis compartilham o mundo com os homens e animais, mas geralmente não interagem conosco. Ocupam um plano intermediário e mal notam a nossa existência. Não são maus mas, como todos os seres vivos, farão o que for preciso para sobreviver e muitas vezes isso significa interferir na vida dos homens, geralmente de forma imprevisível e essa intervenção pode ser perigosa e até mortal. É justamente nos casos mais graves que Ginko revela sua utilidade.
Desde muito jovem, Ginko demonstrou ter afinidade com os mushis, que pode enxergar facilmente, por isso os conhece muito bem. Não pode ficar muito num mesmo lugar porque alguma coisa nele atrai os mushis. Então, Ginko se tornou um mestre dos mushis peregrino, sempre movendo-se de aldeia em aldeia, ajudando os que têm problemas com os bichinhos.
A história da vida de Ginko também é um mistério revelado aos poucos. Sua aparência anacrônica, com cabelos alvos e olhos muito verdes, contrasta com o tipo físico dos japoneses. Suas roupas algo modernas também parecem deslocadas naquele universo rural.
A violência física, tão comum nos animes, é algo que não tem lugar em Mushishi. Ela eventualmente se apresenta sim, mas de forma velada, em preconceitos, desprezo e autoritarismo; armas, nem mesmo uma espada.
As histórias são calmas e suaves, traduzindo um verdadeiro espírito zen budista. A natureza é parte importante da trama e muitas vezes é a intervenção dos homens nela que causa problemas com os mushis, que dependem muito do equilíbrio ambiental.
A abertura do desenho tem uma poética toda especial, com uma trilha sonora no estilo folk norte americano.
Como a natureza dos mushis está além do espaço e do tempo, a interação dos homens com eles pode criar singularidades estranhas, o que permite histórias de diversos gêneros. Embora seja fundamentalmente um seriado de fantasia, algumas histórias chegam as franjas da ficção científica e do horror.
O seriado é baseado na história em quadrinhos homônima criada por Yuki Urushibara, publicada originalmente entre 1999 e 2008 na revista Afternoon. Tem 26 episódios ao todo e um bem produzido longa metragem em live-action lançado em 2007, dirigido por ninguém menos que Katsuhiro Otomo, mais conhecido entre os brasileiros pela hq Akira. Vale a pena procurar pela série, que tem parte de seus episódios legalmente disponível no saite Crunchyroll, aqui.
Cesar Silva

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira

Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, Lainister de Oliveira Esteves. 256 páginas. Editora Escrita Fina, Rio de Janeiro, 2010.

Muitas vezes, a diferença entre uma impressão e uma certeza pode ser mínima. E a impressão que a ficção especulativa sempre fez parte da literatura brasileira era uma convicção que eu tinha comigo. Mas sempre foi difícil argumentar com precisão quando se tratava de citar exemplos. Mas tenho que confessar que, afora alguns títulos e autores mais destacados que sempre são lembrados nesses momentos, dava até a mim mesmo a sensação que talvez estivesse forçando a tese para além do que ela poderia se sustentar.
A antipatia da crítica especializada pela ficção de gênero, que sempre desconsidera essa classificação para textos de autores canônicos, mantinha as referências à distância, sempre que possível. Parecia ser necessário um prolongado e exaustivo trabalho de pesquisa acadêmica para tirar esses trabalhos dos cofres da memória, esquecidos em livros obscuros e jornais antigos, como tem feito o pesquisador Braulio Tavares em diversas antologias recentes, como Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003) e Páginas do futuro: Contos brasileiros de ficção científica (2011), ambos publicados pela editora Casa da Palavra.
A estes volumes junta-se agora Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, organizado por Lainister de Oliveira Esteves para a Editora Escrita Fina. Na verdade, este trabalho foi publicado em 2010, mas somente agora o descobri. Esteves é um pesquisador carioca, doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e especializado em História Cultural, e este trabalho ilustra muito bem o carinho que o organizador tem para com a literatura brasileira.
Como o nome já diz, a antologia é formada por treze textos de horror de autoria de nove escritores canônicos já em domínio público: Álvares de Azevedo (1931-1852), Bernardo Guimarães (1825-1884), Machado de Assis (1839-1908), Aluísio de Azevedo (1857-1913), Thomaz Lopes (1879-1913), João do Rio (1881-1921), Gonzaga Duque (1886-1911), Humberto de Campos (1886-1934) e Lima Barreto (1881-1922). Destes autores, quatro já são bastante conhecidos entre os leitores de ficção fantástica: Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto, mas os demais são gratas novidades no arcabouço da ficção fantástica nacional.
O primeiro conto selecionado pelo organizador, que decidiu dar ao volume um tratamento mais ou menos cronológico, é "Bertram", uma das cinco sangrentas histórias que formam Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, o trabalho de horror mais conhecido das letras nacionais publicado originalmente em 1885. É justamente o texto mais forte do conjunto, com a história de um conquistador que vai até as últimas consequências por um rabo de saia. O estilo elegante de Azevedo reporta diretamente a Edgar Alan Poe.
"A dança dos ossos", de Bernardo Guimarães, publicado no livro Lendas e romances, de 1871, é uma sequência de três pequenos 'causos' de assombração, confrontando o racional e o irracional a partir de um assassinato brutal motivado por ciúmes.
Machado de Assis comparece com dois textos. Em "Sem olhos", publicado em 1876 no Jornal da Família, o narrador conta a história mórbida de seu vizinho de pensão, um homem incomum enlouquecido pela proximidade da morte. É curioso notar uma certa similaridade deste trabalho, em especial, às narrativas de H. P. Lovecraft, autor norte-americano que desenvolveu sua obra posteriormente, sem os componentes intolerantes deste, contudo. "A causa secreta", publicado 1875 na Gazeta de Notícias, é menos sobrenatural e, por isso mesmo, mais perturbador, pois trata de um distúrbio psicológico algo comum, o sadismo. A narrativa se resume a fatos simples, mas assustadores, que permeiam a vida de um casal e um amigo, num triângulo amoroso insuspeito.
Aluísio de Azevedo também comparece com dois textos. "O impenitente", publicado em 1898 na coletânea Pegadas, é uma narrativa clássico de horror gótico, em que um padre descontrolado pela paixão por uma mulher, tem uma experiência aterrorizante durante uma noite de insônia. O segundo texto do autor é o clássico "Demônios", a narrativa mais longa do volume, publicado em 1893 na coletânea de mesmo nome. É uma história surrealista, que flerta com a ficção científica, antecipando diversos temas do gênero. Conta a transformação por que passa o protagonista e toda a sua realidade a partir do momento em que as estrelas começam a se apagar.
"O defunto", publicado em 1907 por Thomaz Lopes, explora um tema recorrente no gênero: o enterrado vivo. Um homem desperta de seu sono cataléptico aprisionado em uma cripta de pedra e mármore. Ainda que tenha alguma liberdade para se deslocar, ar para respirar e a luz do sol que ilumina o lugar por uma pequena fresta, todos os seus esforços não permitem que ele saia dali. Conforme os dias passam, a fome e a sede ganham contornos cada vez mais mais desesperadores.
João do Rio era um autor que eu conhecia só de ouvir falar, e fiquei surpreso com a força dos dois textos de sua autoria que o organizador selecionou para esta antologia. Em "Dentro da noite", um homem conta aos companheiros de uma viagem de trem noturna, como sua vida desmoronou por causa de uma compulsão bizarra, e o excelente "O bebê de tartalana rosa", que conta a experiência desconcertante de um libertino durante a madrugada de uma quarta-feira de cinzas. Os dois trabalhos foram publicados respectivamente em 1906 e 1908 na Gazeta da Noite.
Gonzaga Duque é outra grata novidade, com o conto "Confirmação", uma história de fantasma com pendões de ficção científica, publicada originariamente em 1914 na coletânea Horto das mágoas. Conta o que acontece durante um experimento conduzido por um cientista em uma sessão de espiritismo.
Os dois textos de Humberto de Campos exploram a linha do terror, ou seja, o medo gerado a partir de um evento não sobrenatural, ambos publicados coletânea O monstro e outros contos, de 1932. "O juramento" acompanha ao relato de um bêbado louco que conta como sobreviveu a captura de uma tribo de índios antropófagos, e "Retirantes" mostra a dor e o desespero de uma velha matrona decadente cuja única escapatória à seca terrível que assola sua terra é ir embora dali. Mas, para isso, ela precisa de roupas.
Lima Barreto, autor que tem vários outros textos ligados a ficção fantástica, fecha a seleta com o conto "O cemitério", publicado em 1956 na coletânea Marginália, no qual um homem passando por um cemitério se encanta com a fotografia de uma jovem ali sepultada.
A antologia ainda conta com os ensaios "Uma literatura envolta em sombras", que contextualiza os contos selecionados, e "Sobre os autores", com biografias breves de cada autor apresentado, ambos assinados pelo organizador.
Percebe-se a evolução do gênero ao longo dos textos, que começam com o recorrente medo do morto e da morte, que também caracterizou as primeiras obras do gênero em outras culturas, avançando para questões psicológicas e patológicas conforme a morte se desmistificou, chegando até a especulações de ordem científica, o que demonstra que a literatura brasileira não esteve alheia ao gênero e fez uso dele de forma consistente. Percebe-se também que o exercício do gênero esteve intimamente vinculado a literatura popular publicada nos periódicos, que se define assim esse como o espaço "pulp" que a literatura nacional não experimentou plenamente.
Além de muito divertido, Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira é um volume valioso para aqueles que buscam entender o desenvolvimento da literatura de gênero no Brasil e seu valor dentro do cânone nacional.
Cesar Silva

quarta-feira, 18 de maio de 2016

As aventuras de Sir Charles Mogadom e do Conde Euphrates de Açafrão, Arthur, Rubens e Carlos Matuck


O livro ilustrado As aventuras de Sir Charles Mogadom e do Conde Euphrates de Açafrão é um trabalho coletivo que os irmãos Arthur, Rubens e Carlos Matuck produziram ao longo de praticamente toda a vida. 
Trata-se, à primeira vista, de um álbum de histórias em quadrinhos, mas uma observação mais atenta revela que é mais do que isso. Cada um dos quadros é uma obra de arte em si, delicadamente produzida em lápis de cor, num efeito belo e de muita personalidade. Não há balões, nem onomatopeias, nada que se sobreponha aos desenhos, com todo o texto composto abaixo dos quadros, como numa prancha de Príncipe Valente.
São apresentados dez episódios mais alguns fragmentos, comentados pelo jornalista Oscar D'Ambrósio, que ainda brinca com os personagens da narrativa, entrevistados na edição.
O texto, tal qual as ilustrações, é poético e delicado. A história se passa na imaginária cidade de Damar, onde os cientistas Sir Charles Mogadom e do Conde Euphrates de Açafrão desenvolvem pesquisas incomuns sobre a natureza das coisas. Damar esparrama-se à sombra de uma gigantesca árvore que, a certa altura, libera sementes voadoras que serão a inspiração de Alberto Santos Dumont para seus projetos voadores. A presença de Dumont abre um leque de possibilidades interessantes para o trabalho, pois de uma certa maneira o instala no gênero steampunk, muito popular entre os fãs de ficção científica, e mesmo numa possível história alternativa, uma vez que detalhes da vida real de Dumont são citados na aventura.
A história ainda faz referência a muitas personalidades ligadas aos quadrinhos, como Flavio Colin, Angelo Agostini, George Remi, Carl Barks, Hal Foster, Winsor McCay, Ub Iwerks, Floyd Gottfredson e Ziraldo.
O álbum, que é uma publicação da Editora Terceiro Nome, tem 160 páginas em cores, com capa dura e sobrecapa. Com certeza, uma das mais luxuosas e significativas publicações de 2010 tanto na área dos quadrinhos quando da fc&f brasileira.

Os lançamentos da fcf&h no Brasil em 2015

Está disponível para download gratuito a primeira edição do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira, que dá sequência ao trabalho realizado até 2014 pelo Anuário Brasileiro de Arte Fantástica, com uma ampla lista de livros de literatura de ficção científica, fantasia e horror publicados no Brasil em 2015.
A proposta é a mesma do Anuário, de catalogar os lançamentos e relançamentos de fcf&h de autores nacionais e estrangeiros, albergando também as edições virtuais. A edição tem 34 páginas e relaciona 696 títulos, sendo 282 nacionais e 414 estrangeiros.
Apesar de ampla, a pesquisa não é absoluta, pois é praticamente impossível relacionar tudo o que se publica no país, uma vez que muitas edições são lançadas regionalmente e sua divulgação não alcança a pesquisa, mas o levantamento cumpre seus objetivos na medida em que, seguindo os mesmos critérios do Anuário, monta um panorama bastante confiável da publicação do gênero por aqui.
Podemos observar a evolução do mercado na figura abaixo, na qual foram computados, ano a ano desde 2004, os números da publicação de autores brasileiros (em azul), estrangeiros (em vermelho) e o total geral (em verde). Houve um crescimento contínuo e explosivo até 2010, quando a crise começou a se manifestar derrubando fortemente a quantidade de lançamentos do ano seguinte e, ainda que 2012 tenha sido o melhor ano do período estudado, desde então os números têm sofrido quedas sucessivas, especialmente no que se refere a publicação de autores locais, colocando o mercado de 2015 no pior patamar desde 2009.
Também percebemos que a publicação de autores nacionais, que havia superados a de estrangeiros traduzidos entre 2010 e 2013, em 2015 voltou a ficar bem abaixo, como também aconteceu em 2014. Isso é decorrente da recuperação da credibilidade do gênero entre as grandes editoras que, contudo, não se reflete positivamente para os autores nacionais porque elas preferem traduzir estrangeiros.
Mas as notícias não são ruins de todo, pois os lançamentos de 2015 mostram-se estáveis em relação ao ano anterior.
Para os mais curiosos, a última página do Almanaque relata todos os números de 2015, não apenas os totais, mas também os subtotais por formato e gênero. Os levantamentos dos anos anteriores podem ser obtidos nas edições do Anuário, algumas delas disponíveis gratuitamente aqui.