segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tubarões de Gelo (Ice Sharks, EUA, 2016)


Como a moda é lançar filmes ridículos com ataques de tubarões, numa espécie de sub-gênero do cinema fantástico bagaceiro do início do século XXI, a parceria entre a produtora “The Asylum” e o canal de TV a cabo “SyFy”, conhecidos pelos filmes ruins, resultou em outra tranqueira chamada “Tubarões de Gelo” (Ice Sharks, 2016). A direção e o roteiro são de Emile Edwin Smith, que têm muitos trabalhos na área de efeitos visuais (como na franquia “Sharknado”), e dirigiu a tranqueira “Mega Shark vs. Mecha Shark” (2014).
As histórias são sempre as mesmas, e o objetivo é encontrar um meio de colocar tubarões atacando as pessoas, não importando como, onde ou os motivos. No Ártico, uma pequena estação de pesquisas chamada “Oásis” está trabalhando para identificar as razões do derretimento do gelo na região. Entre os técnicos e pesquisadores temos o casal David (Edward DeRuiter) e Tracy (Jenna Parker). Ao investigarem o misterioso desaparecimento de vários caçadores, eles descobrem que tubarões vindos da Groenlândia evoluíram e tornaram-se mais ágeis e violentos, atacando animais e pessoas rompendo facilmente as finas camadas de gelo enfraquecidas pelo derretimento. Os animais conseguem isolar a estação de pesquisas, que primeiramente flutua à deriva no mar, e depois afunda sem controle, obrigando seus ocupantes a lutarem pela vida combatendo os tubarões ávidos por suas carnes, enquanto esperam a possibilidade de resgate por um navio quebra gelo.
Trata-se de apenas mais um filme com história ruim e elenco inexpressivo, utilizando tubarões em efeitos vagabundos de computação gráfica. Tem algumas mortes sangrentas bem artificiais e cenas que tentam passar sem sucesso a tensão e claustrofobia de um ambiente fechado atacado pelas criaturas aquáticas assassinas. Mas, até os tubarões, que obviamente são os elementos principais da trama, aparecem pouco quando em comparação com outros filmes similares, e então temos menos cenas ridículas do que o habitual visto nas dezenas de produções genéricas do tema. O filme tenta ser sério, sem apelar para o tradicional “pastelão” que vemos na maioria dos filmes de tubarão, mas ainda assim não funcionou. Percebemos que o diretor preferiu investir mais num suspense com a luta dos pesquisadores para sobreviver ao ataque dos tubarões, mas o convite ao tédio é inevitável. O espectador, mesmo com muito esforço, não consegue estabelecer qualquer tipo de empatia com os personagens, não se importando com suas mortes. Se, até eles próprios não demonstram nenhuma reação convincente em relação à perda violenta dos amigos, é praticamente impossível para quem está assistindo também se importar com eles.
Seria ótimo se os realizadores parassem de explorar esses animais e os deixassem em paz nos oceanos.  
(Juvenatrix – 01/08/16)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Lago dos Tubarões (Shark Lake, 2015)


Os tubarões são os animais mais maltratados pelos roteiristas no cinema. São tantos os filmes ruins abordando essas feras do mar que uma missão de catalogação é bem difícil. Esses animais foram transformados em fantasmas, zumbis, demônios, monstros geneticamente modificados, criaturas pré-históricas, assassinos que habitam lagos e rios, criaturas que se locomovem através de tornados e avalanches, surgem debaixo da areia, e inúmeras outras coisas absurdas. Quase em sua totalidade, os filmes são patéticos ao extremo, e em alguns poucos e raros casos até proporcionam alguma diversão discreta justamente por suas características bagaceiras.
Não é o caso de “O Lago dos Tubarões” (Shark Lake, 2015), dirigido por Jerry Dugan. Aqui, a regra se mantém como um filme sem atrativos e totalmente descartável, tendo como único diferencial a presença no elenco do ator sueco Dolph Lundgren (das franquias “O Soldado Universal” e “Os Mercenários”), que aparece no cartaz apelativo estampando seu rosto para tentar chamar a atenção dos fãs. Ele que é um ator conhecido pelos filmes de ação com tiroteios, porradas, perseguições e explosões para todos os lados, mas que pertence a um escalão menor, ficando o topo desse gênero do cinema para astros lendários como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. Uma vez precisando de trabalho, Lundgren obviamente aceitou o papel, independente da história ruim e precariedade geral da produção, e teve como resultado apenas mais um filme que não agrega nada em sua carreira.
Ele é o viúvo Clint Gray, que passou cinco anos preso por fazer parte de um esquema de tráfico de animais, deixando sua filha pequena Carly (Lily Brooks O´Briant) para ser cuidada pela policial Meredith Hernandez (Sara Lane), xerife de uma pequena cidade americana no Estado de Nevada. As coisas começam a se complicar quando ocorrem mortes sangrentas misteriosas num lago, creditadas inicialmente e de forma equivocada para um urso. Porém, com a investigação de um professor de oceanografia, Peter Mayes (Michael Aaron Miligan), descobre-se logo que a autoria dos assassinatos brutais no lago é de uma família de tubarões (nem é “spoiler”, pois o título do filme já entrega a revelação). Resta ao herói Clint salvar a cidade da ameaça das feras aquáticas.
A história é carregada de clichês que não despertam interesse. As cenas de mortes não impressionam. Os efeitos em CGI vagabundo não convencem e só contribuem para tornar a produção ainda mais descartável. Tudo é muito óbvio e sem graça, num convite ao sono. Dolph Lundgren nem é o protagonista, ele aparece pouco e sua participação resume-se ao velho clichê de um personagem canastrão metido a durão, e que luta com os tubarões de borracha numa cena tão patética que dá pena. “O Lago dos Tubarões” certamente está entre os piores de todos os filmes ruins com tubarões, mesmo sem exagerar nas ideias absurdas que normalmente o cinema utiliza para ridicularizar essas feras das águas. Mas, a história é tão desinteressante que o resultado foi apenas mais um filme destinado ao limbo dos esquecidos.
(Juvenatrix – 26/07/16)

sábado, 16 de julho de 2016

O Livro dos Contos Enfeitiçados

 O Livro dos Contos Enfeitiçados, Martha Argel. 166 páginas. São Paulo: Landy Editora – Coleção “Novos Caminhos: Literatura Fantástica”, 2006.


Esta coletânea de Martha Argel reúne sete contos que podemos classificar entre a fantasia tradicional e a sombria (dark fantasy), mas antes de analisar as histórias, chamo a atenção para a qualidade gráfica e editorial do livro. Uma bela ilustração de capa de Camila Mesquita, plenamente de acordo com a proposta da obra. Também a diagramação moderna e o tamanho do volume, em formato pocket, não muito habitual no mercado editorial brasileiro. Vale destacar ainda a pequena introdução da autora, didática e inteligente, situando e justificando o tema central da obra, a magia, tanto para o mundo racional, como para o fantástico.
    A noveleta “Amarelo... Amarelo” abre a coletânea. Nos mostra uma mulher que é obrigada a cuidar temporariamente de sua sobrinha de apenas três anos, depois da morte de seus pais em um acidente de carro. Pessoa solitária e egoísta, detesta a situação mas aos poucos se impressiona com uma certa semelhança da criança com ela própria. Contudo, o elemento fantástico da trama é a cor amarela. Beatrix, a menina, só gosta de amarelo e tem   poderes de transformar o que deseja nesta cor.
A narrativa acontece com muita desenvoltura e segurança, o que a torna interessante e agradável de se ler. O tema em si não é tão criativo e é possível que nas mãos de um autor menos sensível deixasse a desejar, o que não é o caso da autora.
      O conto seguinte é uma pérola, “Eu Detesto Futebol”. Um grupo de bruxas com nomes de flores e que se reúnem em um Jardim, resolvem acabar com o futebol, pois é um rival com a qual não podem competir pela atenção de seus maridos. Contudo, há os efeitos inesperados e invariavelmente perversos, afinal retirado o futebol fica o quê no lugar?
     Pois seus maridos inventaram outras ocupações ‘desagradáveis’, como clube do charuto, boxe e pinturas psicodélicas nas paredes da casa, para suprir a ausência do tão amado esporte bretão. Assim, elas resolvem recolocar as coisas nos seus lugares, pois, afinal, o problema não é, de fato, o futebol. Narrado em primeira pessoa por uma das bruxas, o texto remete diretamente ao contraste entre o universo subjetivo e misterioso das mulheres e o universo expansivo e mundano dos homens.
     Escrito em 1974, a história é rica por suas nuances, como os costumes alimentares e culturais da época, especialmente nostálgico para quem a viveu. Gostaria muito de ter publicado este conto em minha antologia Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998) e, se tiver a chance de relançá-la um dia, esta história está, desde já, selecionada.
     “O Verdadeiro Poder” vem a seguir e nos conta sobre a experiência de uma bruxa que ajudou um bruxo a salvar sua amada das garras de um demônio. A história se ancora em duas máximas: 1) Em troca do poder que possui os bruxos não podem amar e 2) o amor é o verdadeiro poder. Ou seja, eles alteram a realidade exterior com poderes sobrenaturais, mas o poder interior de transformação só os humanos mortais têm.
     É um conto em que o fantástico assume o primeiro plano, embora trabalhe com temas humanos, como o amor e a solidão. Apesar do texto correto, a história não entusiasma, talvez por parecer um pouco forçada no propósito de mostrar como poderia ser a atividade de feiticeiros em nosso cotidiano contemporâneo.
     O que já não é o caso do próximo conto, “O Olho Vermelho”. Esta uma história mais pendente para o horror, no qual o sobrenatural está a espreita, se insinua, mas não de forma explícita, sempre deixando uma dúvida no ar. E isso enriquece a trama. Uma velhinha que aluga um quarto, nele instala um alarme, o tal do ‘olho vermelho’, que acende quando algo se movimenta no interior do cômodo. Pois um novo inquilino fica obcecado, depois de ver no escuro, sozinho e deitado em sua cama, o tal do olho acender, indicando que alguma coisa estaria dentro do aposento. Sem saber se é sonho ou realidade, o fato é que ele não é o primeiro a passar por esta experiência no quarto.
     “Final Feliz” é uma espécie de sátira ao clichê do título e da vida supostamente idílica e romântica que uma jovem princesa teria. Sim, porque ao se opor aos estereótipos – não é bonita e encantadora – procura um Bruxo da Mata para conseguir um par.
    A exemplo de “Verdadeiro Poder” esta é uma história plena de fantasia. E, como tal, nada acrescenta, pois é apenas uma variação sobre temas por demais repetidos, ainda que tente, em seu desfecho, um final feliz diferente do convencional. Talvez mais atinado com a mulher emancipada desde começo de século XXI.
     A mesma questão da ‘variação sobre um tema’ é encontrada no próximo relato, justamente o que dá o título ao livro. Mas “O Livro dos Contos Enfeitiçados’ – outra história dark fantasy –, consegue ter um interesse próprio, nos jogos de imagens, no horror insinuado, no conceito sempre fascinante da biblioteca gigantesca e misteriosa, que abriga um livro capaz de horrores e encantamentos.
     Este conto demonstra a opção da autora por um público que creio, já lhe seja cativo, ou esteja em vias de: o leitor jovem, adolescente ou recém-adulto. Mas insisto que os temas não precisam, necessariamente, serem baseados em repetições com teores infantilóides. É possível escrever para qualquer público de maneira criativa e provocadora. O que não é o caso da terceira história com este perfil no livro, embora, como dito acima, ela seja boa por si mesma, graças ao despojamento narrativo com que ela é trabalhada.
   Uma novela fecha a coletânea, “Sofia”. Situa-se nos tempos atuais, no qual uma jovem é surpreendida por um estranho, ao ser abordada e raptada. E ele lhe diz ainda que ela é uma bruxa concebida para cumprir uma profecia. No mundo desta e de outras histórias deste volume fica clara a defesa da ideia de que humanos mortais e bruxos poderosos convivem. Só que a maioria dos primeiros não crê na existência dos bruxos. Ou quando acreditam, os veem de forma pejorativa e perigosa. De outro lado, nem todos os bruxos sabem que são bruxos e tomam-se apenas como humanos, como o caso de Sofia. Talvez haja nesta segunda ideia a tentativa de agradar uma comunidade de pessoas que acredite que possua poderes sobrenaturais, como quiromantes e clarividentes. Não é preciso pesquisar muito com pessoas do nosso próprio entorno social para achar alguém que crê ter tais talentos. Uma busca na internet, então, revela diversas comunidades de pessoas que se creem especiais.
     Sofia seria uma espécie de representante delas? Talvez, tanto é que na história tudo já estava escrito para chegar a este momento crucial de sua vida. Que é uma batalha duríssima com uma velha e poderosa bruxa. Esta, como se percebe no texto, maligna, sim, pois elas também existiriam.
Em resumo, sob a defesa deste argumento ou não, estamos diante de mais uma história com caracterização tradicional. O interesse maior pode estar na qualidade do texto da autora, de fato, novamente em alta, como exemplificado no primeiro parágrafo:

“O sol filtrava-se, oblíquo e persistente, entre as nuvens escuras, e dava mais vida ao verde da grama e às azaleias e hibiscos floridos. No fim da tarde de sábado, parecia que a praça tentava impregnar-se ao máximo da energia luminosa, como se soubesse que chegava ao fim a breve trégua da chuva naquele inverno especialmente úmido.” (página 109).

     Tem uma bela poesia por trás dos motivos naturais, com palavras e frases bem escolhidas, o que faz com que, de saída e de forma irresistível, sejamos despertados pelo prazer da leitura e interesse pela história, mesmo que logo depois nos deparemos com mais uma narrativa com tema padrão e sem maiores impactos.
    Em síntese esta é uma coletânea de qualidade razoável em temos temáticos e boa em termos literários. Martha Argel sugere ser uma escritora melhor do que os temas da maioria das histórias que mostra neste livro. Escreve bem, tem sensibilidade apurada, um estilo ora despojado, ora coloquial, que agrada a leitura e transmite verossimilhança. Por todas estas qualidades é possível esperar que nos apresente no futuro uma obra que traga um maior equilíbrio entre o conteúdo e seu estilo. Talvez com temas mais maduros ou com tratamentos menos convencionais.

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Terror Tropical (Dragon Wasps, EUA, 2012)


Dirigido por Joe Knee, “Terror Tropical” é outra bagaceira moderna com elementos de horror e ficção científica que o canal de TV a cabo “SyFy” gosta de exibir em sua programação. Faz parte daquela manjada equação que pode ser representada como “roteiro desinteressante” + “elenco inexpressivo” + “CGI vagabundo” = tranqueira dispensável.
O cientista entomologista Dr. Humphries (David Stasko), especialista em engenharia biogenética, está trabalhando para uma empresa misteriosa chamada “Transgen Tech” e se perde numa floresta tropical na América Central. Sua filha Gina (a polonesa Dominika Juillet) e a amiga Rhonda Guiterrez (Nikolette Noel) partem em sua procura, unindo-se com um grupo do exército americano que patrulha a floresta combatendo terroristas e traficantes, liderado por John Hammond (Corin Nemec) e entre os soldados, Willy Meyers (Benjamin Easterday). Ao investigarem a mata fechada, são obrigados a enfrentar dois grandes problemas, sendo um deles um grupo de guerrilheiros fortemente armados e supersticiosos, sob o comando de Jaguar (Gildon Roland), um líder violento que acredita em magia e na proteção de espíritos da floresta. O outro, bem pior, é enfrentar um inesperado ataque de vespas gigantes mutantes que cospem fogo.
O desfile de clichês é enorme. Tem o imperialismo americano num país “que não consegue cuidar de suas fronteiras”, o militar metido a herói, as piadas banais, o “cientista louco” (que nesse caso não tem quase importância na história, deixando o protagonismo para sua filha), os tiroteios óbvios na floresta, e os ataques dos insetos modificados geneticamente. De um filme apresentando vespas dragões incendiárias (daí o título) logicamente já se espera um roteiro absurdo e carregado de clichês, perdido numa avalanche de produções com temática similar. Talvez um dia num futuro distante, essas porcarias até possam se tornar cultuadas dentro de um estilo de cinema fantástico bagaceiro produzido exaustivamente nesse início de século XXI, de forma parecida com o que aconteceu com os nostálgicos filmes dos anos 1950. Porém, pelo menos por enquanto, filmes como esse “Terror Tropical” ainda são extremamente ruins e difíceis de assistir, com uma história patética e insetos gigantes não convincentes, criados por efeitos artificiais de computação gráfica.
Curiosamente, as filmagens ocorreram em Belize, na América Central. E Corin Nemec, o ator que interpretou o soldado durão e herói, também foi um dos produtores do filme. Seu nome está envolvido em inúmeras outras tranqueiras como “Tubarões Assassinos” (Raging Sharks, 2005), “Mosquito Man” (2005), “Tubarões da Areia” (Sand Sharks, 2012), “Dracano” (2013), “Robocroc” (2013) e “Pânico no Lago: Projeto Anaconda” (Lake Placid vs. Anaconda, 2015).
(Juvenatrix – 06/07/16)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Não Verás País Nenhum

Não Verás País Nenhum, Ignácio de Loyola Brandão. Global Editora, 11a. edição, São Paulo, 1985, 357 páginas. Lançado originalmente em 1981.

Durante os anos da ditadura militar (1964-1985) a literatura brasileira produziu algumas obras muito boas sobre a condição política e social do país. E, de forma surpreendente para alguns, a partir de um ponto de vista não convencional, pela metáfora, pelo fantástico e sobretudo pela ficção científica, também chamada para este caso específico de ficção distopica.
Talvez o livro mais importante e influente tenha sido Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Quando o escreveu, o autor já era reconhecido, tendo publicado obras importantes, inclusive, sobre aspectos da repressão, como o controverso Zero (1974), ainda hoje o seu livro de maior impacto. Também editou com sucesso a primeira versão da revista Planeta, na primeira metade dos anos 1970, quando publicava contos de ficção científica, inclusive de autores brasileiros. Vê-se, portanto, que o autor tem alguma comunicação com o gênero. Sendo assim, Não Verás País Nenhum deve interessar particularmente os leitores tradicionais do gênero.
Desconfio, entretanto, que poucos fãs brasileiros de ficção científica já o tenham lido. É realmente de se lamentar, pois se está diante de um verdadeiro livraço.[1] Foi, inclusive, publicado nos Estados Unidos e países europeus com premiações e críticas elogiosas,[2] o que atesta também o seu caráter universalista, mesmo abordando de forma profunda não só a ditadura, mas a própria ideia do que é ser brasileiro, especialmente a partir da segunda metade do século passado, isto é, urbanizado e em contato com mudanças tecnológicas.
Estamos no início do século XXI em São Paulo. A ditadura militar não terminou e perpetuou seus métodos de governo autoritário e sua repressão política e comportamental à sociedade. Temos como protagonista Souza, um ex-professor de História, que aposentado à força pelo regime, trabalha como um burocrata metódico e entediado. Além da ditadura política em si, o país passa por um desequilíbrio ecológico grave, com racionamento de água, calor intenso, alimentos artificiais e manufaturados, ausência quase total de vida animal e vegetal, nascimento de crianças deformadas e mutantes. Pois a floresta amazônica e as demais foram destruídas, transformadas em gigantescos desertos, o que explica as altas temperaturas durante o ano inteiro.
Situações próximas do surrealismo ilustram o contexto, como os banheiros públicos que reciclam a urina – com o requinte de selecionar as urinas mais saudáveis – para transformá-la em água, usada para beber e outros fins pelas pessoas. Os bolsões de calor, que provocam a queimadura até a morte, no início no Nordeste, mas no fim também em São Paulo, levando à construção de uma obra faraônica e inútil, uma quilométrica Grande Marquise para abrigar do calor os miseráveis e os sem-teto.
Desta forma tanto quanto uma distopia política, Não Verás País Nenhum também é uma distopia ecológica. Em que não apenas um Estado dispõe de forma autoritária e truculenta sobre os recursos da natureza, como a própria sociedade, além de não ter controle sobre as ações do governo, parece ter pouco apreço pelo meio-ambiente em si – destrói um museu sobre a natureza e uma reserva ecológica clandestina, por exemplo –, embora seja quem realmente sofra suas consequências danosas, já que os agentes estatais se protegem por meio de cúpulas climatizadas e refrigeradas.
Em acréscimo a esta degradação ambiental, o Brasil perdeu parte de seu território, principalmente o Nordeste, que se transforma numa Reserva Multinacional. Foi cedido a outros países e grupos econômicos internacionais, provavelmente por causa da dívida externa do país. Esta perda provoca um grande êxodo de nordestinos para o Sudeste, que os reprime construindo grandes cercas em tornos das áreas metropolitanas de suas principais metrópoles. Assim é que se concentra nos arredores de São Paulo, uma quantidade imensa de acampamentos, verdadeiro campo de refugiados dentro do próprio país. Sem poder voltar ao que perdeu. E sem poder entrar no que nunca, de fato, pôde desfrutar.
Neste contexto de repressão política e caos ambiental, o melhor tipo de emprego que se pode conseguir é por meio da adesão ao regime, ou seja, sendo militar ou um burocrata. Ou as duas coisas, os tais ‘militecnos’, que atuam em empresas estatais e cargos de direção do Estado – aqui chamado de Esquema – certamente uma alusão aos tecnocratas dos anos 1970 de nosso país. Para desgosto do antigo contestador Souza, há um militecno em sua família, seu jovem sobrinho. Há também os ‘civiltares’, espécie de segmento responsável pelo patrulhamento, espionagem e repressão do regime. Tropas de elite de cunho civil-militar, mantidas pelo Estado e por grupos privados que o apoiam, de caráter paramilitar, o que lhe abre a oportunidade de agir frontalmente às margens de lei já por si mesmas discricionárias.
Dentro deste cenário geral, o romance é narrado em dois planos que se justapõem, o macro e o micro. No micro, a história pessoal de Souza e de como é a sua vida neste país governado há cerca de 40 anos pelos militares. No macro, a contextualização social, política e ecológica desta realidade.
Impressiona o nível de detalhes que o autor elabora para construir a sua ditadura que nunca terminou. Nesta São Paulo, as pessoas vivem restritas aos seus bairros. Precisam de bilhetes especiais para transitar pela cidade. Se os perdem simplesmente não podem voltar para suas casas.
Através da perspectiva de Souza, um intelectual sufocado pelo regime e que ainda carrega culpas dentro de si mesmo, Loyola extrapola a ditadura militar para o futuro próximo, sempre olhando para o passado. Este é um recurso válido, pois permite uma visão retrospectiva de como um futuro veria a ditadura dos anos 1970 e 1980. Em termos de ficção científica é manjado, com um observador exterior (geralmente um alienígena ou viajante do tempo) usado para comentar as mazelas de nossa civilização. Já no caso do livro, o observador é o próprio protagonista (em primeira pessoa), pois não há propriamente um encadeamento de sequencias no desenrolar da narrativa. Tanto que o romance recebe o subtítulo de “memorial descritivo”, embora por meio deste recurso o contexto geral seja aprofundado com o drama crescente vivido pelo protagonista. Ao invés do personagem se movimentar dentro de um mundo – e desta forma procurar modificá-lo –, é como se este mundo impulsionasse e transformasse o personagem.
Ademais, a decorrência mais comum desta linha de abordagem narrativa são as observações sarcásticas que ridicularizam o regime de uma forma geral.  Loyola é particularmente feliz com colocações agudas que provocam no leitor aquele sorriso torto no canto da boca, tanto de lembrança do fato, como de sua interpretação absolutamente demolidora do nonsense daquilo tudo. Então há os que se ‘locupletaram’(fala aqui de boa parte da classe média), os ministros ‘embriagados’, os corruptos e os apenas incompetentes. Chega a nomear algumas fases pelas quais passou o regime, de clara ressonância para quem o viveu, como por exemplo, os “Abertos 80”, uma referência ao processo de abertura que o regime viveu a partir de meados dos anos 1970 e que chegava ao auge no começo dos 1980, e à “Era Casuística”, esta dos anos 1970, quando os militares mudavam as regras eleitorais para favorecer os políticos do partido que os apoiava.[3]
Em meio a este contexto, surge um furo numa das mãos de Souza, pretexto para a virada definitiva em seu comportamento e para os rumos da própria história. Por medo do que lhe possa acontecer – ser preso e confinado ao isolamento, ou perder o emprego –, ele resiste em ir ao médico, apesar dos apelos de sua passiva e conservadora Adelaide, sua esposa. Passa também a enfrentar seu sobrinho milico e relaxa com sua higiene e alimentação, além de chegar atrasado para o trabalho.[4]
Souza vai gradativamente deixando sua resignação de lado, bem como sua segurança econômica, pois é demitido do emprego, abandonado por sua esposa e tem seu apartamento invadido por um grupo de estranhos, aliados de seu sobrinho, como parte de uma atividade de contrabando ilegal de alimentos. Muito deprimido com tantas mudanças pessoais, Souza é impotente para expulsar os invasores. Mas reage quando estes começam a matar aqueles que os incomodam, os pedintes e mutantes que aos poucos rompem os acampamentos e entram em São Paulo, aumentando ainda mais o caos social e o grau de opressão.
Souza teme ser morto e acaba sendo abandonado em um lixão na periferia da cidade. Vira um ninguém, como tantos pedintes, desempregados e refugiados que ele antes tinha pena, quando ainda possuía uma ocupação, residência e esposa. Neste processo de decadência pelo qual passa o protagonista, Loyola nos fala da degeneração social e moral da própria sociedade submetida ao um regime perverso e sem freios.
Outro aspecto interessante é que Loyola contrapõe o seu Brasil distópico como uma espécie de antítese da tradição da ficção científica anglo-americana. Chega a citar autores importantes do gênero e as supercivilizações tecnológicas que criaram e como teríamos engendrado por aqui o inverso: Uma urbe superpopulosa, poluída, caótica e sob uma ditadura. Como se realmente tivéssemos ficado sem ver país nenhum.
Mary Elisabeth Ginway, em Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Devir, 2005) observa outro aspecto, de que Loyola aproveita para criticar a ficção científica anglo-americana, vista por ele como excessivamente otimista, determinista ou mesmo ingênua sobre o impacto da tecnologia na sociedade e na ação dos indivíduos. Faz sentido, mas talvez da perspectiva dela – como uma americana – e não da perspectiva de quem faz a análise a partir de seu país, como o meu caso. Ou, creio, como na intenção original do autor.
Qual? A de um Brasil que a partir do autoritarismo falha definitivamente em ser o tal país do futuro, que se imaginava pudesse ser algo semelhante a algumas das utopias hedonistas e tecnicistas da ficção científica escrita no Norte. Nesta linha de interpretação, àquilo que se assemelhava a uma ficção científica para o Brasil teria de ser de má qualidade, no sentido de só podermos produzir anti-utopias para o nosso país. Mas, ao menos no caso de Loyola, com sofisticação.
Isso porque o romance lembra a estrutura paranoica vista na maior das anti-utopias, 1984, de George Orwell, embora pelo ponto de vista de sua ineficiência de gestão, ainda que com repressão. E uma estrutura existencial à lá Kafka, remontando a uma melancolia com o estado geral das coisas, ilustrada, claro, por situações absurdas. Mais absurdas ainda porque reais. Como o sumiço final do furo na mão de Souza, o último sujeito dos porquês em um mundo que se esqueceu de questionar a si mesmo e se entregou a um niilismo quase suicida.
Vale a pena citar ao menos uma passagem que mostra a sensibilidade crítica do autor com relação à postura das pessoas com respeito aos efeitos de um regime autocrata:

“Fomos nos habituando, de tal modo que passamos a pactuar com a tragédia, aceitando-a como cotidiano. Me espanta essa capacidade de acomodação da mentalidade, sua adaptação ao horror. Acredito que a gente possua um componente de perversidade que nos leva a encarar como normal esse pavor, a desejá-lo, às vezes, desde que não nos toque. Uma porcentagem de perversidade que tem sido alimentada pelo Esquema, essa coisa tão abstrata, que consegue se manter em meio à anarquia, ao caos estabelecido como ordem, à anomalia mascarada em progresso.” (página 191).

No fundo, Loyola descreve o fracasso do projeto de modernização do país e seus efeitos no cotidiano e mentalidade das pessoas. Uma opção de desenvolvimento importante não criada, mas ampliada de forma exagerada e distorcida pelos militares, por eles ufanistamente nomeada de “Brasil Potência”, com super usinas hidrelétricas e nucleares. E o autor escreveu justamente na época em que as esperanças do país renasciam, os anos 1980, por causa da liberalização política do regime e as perspectivas concretas que se avizinhava para o retorno da democracia.
Se o pessimismo da obra não coaduna com o momento específico que o país vivia, talvez seja porque o autor não acreditasse de fato que o país voltasse à ordem constitucional ou então de que mesmo nela o país já estaria inviável do ponto de vista de sua modernização e equidade social. Desta forma, Não Verás País Nenhum é o Brasil do futuro que nunca se realizou.[5]
Este é o melhor romance brasileiro de ficção científica já escrito. Um exemplo concreto das potencialidades de uma ficção de caráter especulativo que contesta a realidade e reflete sobre os problemas do país e do mundo contemporâneo. E, se possível, responda a alguma inquietação existencial do próprio autor.

Marcello Simão Branco

 [1] Em pesquisa do fanzine Megalon, ano XI, número 51, dezembro de 1998, sobre o melhor livro de ficção científica brasileira de todos os tempos, Não Verás País Nenhum ficou em oitavo lugar, com apenas dois votos.
[2] Recebeu, por exemplo, o Prêmio Illa, como o melhor livro latino-americano publicado na Itália em 1983, e resenhado no The New York Times Book Review.
[3] No artigo “Ventos de Mudança: A Ficção Científica Brasileira e a Transição Democrática”, argumento que Não Verás País Nenhum foi um romance que inaugurou uma mudança temática dentre aqueles que discutiram criticamente o regime militar. Pois quando escrito não se estava mais no período mais sombrio da repressão – da ficção distópica, mas sim no contexto do processo de liberalização do regime – uma ficção da abertura. Desta forma sinalizou, em termos literários, as novas perspectivas que se abriam para o Brasil. Ver em Semina: Revista de Ciências Sociais e Humanas, vol. 34, n. 2, 2013.
[4] Na coletânea Cadeiras Proibidas (1977), o autor retoma o tema no conto absurdista “O Homem do Furo na Mão”.
[5] No lançamento do livro Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro, de M. Elisabeth Ginway, em 27 de julho de 2005, Loyola afirmou, em um debate na livraria Fnac, em Pinheiros, São Paulo, que este livro foi a conclusão de sua trilogia sobre a ditadura militar. Teria começado com sua instauração com Zero (1974), analisado o codidiano das pessoas sob sua vigência na coletânea Cadeiras Proibidas (1977) e especulado o seu desfecho futuro com Não Véras País Nenhum (1981). Em termos literários, provavelmente, a melhor contribuição a este perído histórico do país. 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Os Náufragos do Selene

Os Náufragos do Selene (A Fall of Moondust), Arthur C. Clarke. Tradução de Jorge Luiz Calife. Capa de Victor Burton. 265 páginas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.


Quando escreveu Os Náufragos do Selene, Arthur C. Clarke (1917-2008) já era um nome consolidado no campo da ficção científica e da astronáutica. Havia estabelecido sua reputação nos anos 1950 com romances como O Fim da Infância (Childhood´s End, 1953) e A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars, 1956) – que se tornaram clássicos – e o influente ensaio A Exploração do Espaço (The Exploration of Space, 1952).
Clarke acabara de receber ainda o Prêmio Kalinga, da Unesco, por sua contribuição à divulgação da ciência e publicado, de qubra, o livro de não-ficção Perfil do Futuro (The Profiles of the Future, 1962). Neste cenário Os Náufragos do Selene (A Fall of Moondust) é um romance que sem a mesma ambição filosófico-cósmica dos anteriores, busca uma aproximação mais realista, entre uma ficção de caráter especulativo e o conhecimento científico da época.
O livro narra os efeitos dramáticos de um acidente com uma nave que fazia uma excursão por pontos turísticos da Lua, já no século XXI colonizada pela humanidade. Pois a nave Selene sofre um acidente numa superfície aparentemente segura ao afundar como se numa areia movediça estivesse, a algumas dezenas de metros abaixo da superfície do Mar da Sede.
Temos o que na linguagem da ficção científica se costuma chamar de uma “problem story”, ou seja, um enredo que procura explorar todas as possibilidades racionais para se solucionar um problema de caráter natural ou tecnológico, ou ambos no caso do romance em questão. Clarke pontua bem os acontecimentos derivados do acidente, entre o drama dos personagens próximos da morte, e a formação de hipóteses e alternativas técnicas para salvá-los.
O romance tem o mérito de não mergulhar num dramalhão convencional tão comum em histórias deste tipo e populares nos cinemas como “filmes catástrofes”, ao interligar as vidas pessoais dos infortunados com o drama coletivo que os une. Mas talvez o autor inglês tenha exagerado ao diluir demais a dramaticidade, com personagens que se comportam a maior parte do tempo com uma fleuma e racionalidade pouco verossímeis numa situação limite como esta. Por exemplo: após o acidente e sem notícias sobre um possível resgate passam boa parte do tempo em passatempos, como leitura oral de romances!
Se Clarke mostra-se fraco em aprofundar a densidade psicológica dos personagens, a força de Os Naufragos do Selene esta, justamente, na resolução da “problem story”. De como será possível localizar a nave, contactar os passageiros e tripulantes, e mantê-los vivos enquanto os engenheiros e técnicos imaginam como irão fazer para tirá-los de lá em segurança. Aliás, tal contraste ilustra bem as virtudes e limites do autor britânico, repetidas no restante de sua obra.
Clarke usa bem o recurso de estilo narrativo de contar a história a partir de perspectivas diferentes, se alternando, como a dos passageiros, dos administradores e engenheiros, e de um jornalista que, por sorte e faro profissional, descobre o acidente antes, e procura tirar proveito disso.
É pela interação entre a liderança do espirituoso comodoro Hansteen – a bordo de forma anônima na Selene – do inicialmente hesitante comandante da nave, Pat Harris e do engenheiro-chefe da administração lunar Lawrence, que lidera a equipe que busca salvar os náufragos, que o romance tira o seu melhor na tradição de resolução de um problema aparentemente complexo e de incerta solução. Páginas e páginas ao longo dos capítulos esmiúçam em detalhes as várias possibilidades de resgate possível, e como elas vão sendo descartadas para que outras surjam, sem que com isso, as vidas dos passageiros e tripulantes deixem de estar em constante perigo.
A Lua é um dos cenários preferidos da ficção científica, a começar com as aventuras de Julio Verne, e ainda mais quando o romance foi escrito, pois estava na crista da onda, devido à corrida espacial entre norte-americanos e soviéticos. Além de ser uma conquista científico-tecnológica sem par era, principalmente, um troféu para a propaganda da ideologia vencedora. Tanto que depois que os Estados Unidos lá chegaram o interesse foi declinando, e a União Soviética acabou nem enviando uma nave tripulada para lá. Pelo que tudo indica, neste início de século XXI os chineses devem ser os próximos a nos mandar notícias e imagens in loco daqui há alguns anos.
De qualquer forma, como atesta Os Náufragos do Selene, e outras várias boas histórias sobre a Lua no terreno da FC, nosso satélite natural é um destino inevitável para as próximas décadas. Estratégico mesmo para viagens mais ousadas: Marte e além.
Nesse contexto, quando já existem projetos concretos de turismo espacial em órbita, o romance deverá ganhar um novo interesse, já que com uma provável colonização da Lua, atividades turísticas como as retratadas no livro deverão existir até de forma rotineira.
No conjunto da obra de Clarke Os Náufragos do Selene não chega perto de seus clássicos, os citados e outros como, por exemplo, 2001, uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968) e Encontro com Rama (Rendesvous with Rama, 1973). Tem um status intermediário, talvez subestimado. Mas por sua inteligência especulativa, em equilíbrio com um senso de verossimilhança que deverá se tornar ainda mais realista nas próximas décadas, é um livro de renovado interesse. Tanto para os fãs de ficção científica, como para os que procuram um livro elegante na forma e instigante no conteúdo.

– Marcello Simão Branco



quinta-feira, 2 de junho de 2016

Bokurano


Bokurano (Bukurano), Hiroyuki Morita. Gonzo, Japão, 2007.

Um grupo de estudantes em férias, oito meninos e sete meninas, encontram uma caverna na praia. Dentro dela, um programador de computadores meio louco propõe a eles uma boa diversão: participar de um novo jogo que ele criou, para o qual são necessários exatamente quinze jogadores. Como as crianças estão entediadas, decidem aceitar. Para isso são levadas a "assinar" um contrato, colocando a palma da mão numa espécie de leitor ótico.
Depois disso, as crianças desmaiam e acordam na praia, achando que tudo não passou de um sonho. Até que começa a aparecer no mar um robô gigantesco e todas as crianças são teletransportadas para seu interior. Lá, reencontram o programador e ficam sabendo que uma das regras do jogo é que cada um deles pilote o robô em uma luta mortal contra um outro robô gigante. E que, como o robô usa a energia do piloto, este morre depois da luta.
Mas há segredos ainda mais tenebrosos por detrás do jogo, que envolvem inclusive a existência de todo o universo.
Bokurano é uma história de ficção científica de dimensões cósmicas, criada por Mohiro Kitoh, publicada originalmente no Japão em uma série de história em quadrinhos entre 2003 e 2009. Chegou ao Brasil na forma de uma série de desenhos animados exibida pela extinta emissora a cabo Animax, em 24 episódios semanais.
Apesar da aparência de uma aventura infanto juvenil, Bokurano é uma história dramática e realista, sendo que o único ponto de fantasia é a existência dos tais robôs gigantes, que são realmente enormes. Com centenas de metros de altura, destroem cidades inteiras durante os combates.
A escolha do piloto é aleatória e ninguém sabe quem será escolhido para o sacrifício: a criança só sabe que será a próxima a ocupar o posto de piloto quando uma estranha tatuagem surge em sua pele, uma expectativa de horror na vida todas delas. Enquanto o governo tenta descobrir o que está acontecendo, o que é aquele monstro e o que as crianças têm a ver com ele, elas tentam administrar suas vidas, cada qual com seus próprios problemas pessoais e familiares.
Mas, afinal, o que é o jogo? É real ou apenas uma simulação? De onde vêm os robôs? E por que eles lutam? As respostas serão dadas aos poucos por um bizarro avatar de nome Koyemshi que, apesar da aparência simpática, é um cretino de marca maior.
O seriado está disponível online no saite Crunchyroll, aqui.
Cesar Silva