sábado, 3 de fevereiro de 2024

O Enigma de Andrômeda

 



O Enigma de Andrômeda (The Andromeda Strain), Michael Crichton. Tradução: Fábio Fernandes. 305 páginas. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Lançamento original em 1969.

 

Este romance é um clássico do sub-gênero tecnothriller, que procura trabalhar com enredo de ação e suspense em torno de um problema científico e/ou tecnológico na fronteira do conhecimento. O Enigma de Andrômeda se distingue, ainda, pela abordagem a partir de uma perspectiva médica/biológica. Há outros romances nesta linha, mas talvez nenhum com o impacto deste. E isso além do fato de que a maioria dos tecnothrillers trilhou o caminho do suspense político em meio ao contexto da Guerra Fria e novos armamentos e tecnologias.

Nos anos 1960, em plena disputa pela primazia espacial e militar, os EUA criam um projeto secreto para explorar a possibilidade, teórica, em princípio, de estudar e desenvolver alguma arma biológica a partir de supostos microorganismos situados no espaço próximo à Terra. Para isso lançam alguns satélites de exploração até que um deles choca-se com um meteoro e entra na atmosfera. Qual não é a surpresa e o choque quando se descobre que o Scoop-7 matou quase todos os habitantes de Piedmont, uma cidadezinha do estado do Arizona.

Com isso é reunida uma equipe de cientistas lideradas pelo prêmio Nobel de Medicina Jeremy Stone. Na verdade, ele é que havia proposto ao governo a criação deste projeto anos antes – chamado de Wildfire –, mas não com objetivos militares, e sim científicos. Ele e mais três especialistas (um microbiologista, um patologista e um cirurgião) são levados a uma instalação subterrânea ultrassecreta no interior do estado de Nevada, em uma corrida contra o tempo para descobrir o que ocorreu em Piedmont, a partir dos destroços do satélite e dos dois únicos sobreviventes: um homem idoso e um bebê. Foi mesmo causado por um microorganismo? De origem terrestre ou alienígena? Quais suas propriedades, como age no organismo humano, qual o grau de contaminação e letalidade?

Como o leitor já deve ter notado, Crichton faz uma crítica ao governo norte-americano por perverter uma iniciativa que teria interesses científicos. Esta crítica pode ser estendida a muitos outros países, e deixa implícita a hipótese de que um processo de doença epidemiológica de consequências catastróficas pode ter sido criada num laboratório. Estas situações são muito prováveis, principalmente na época em que houve a rivalidade entre norte-americanos e soviéticos. E a exploração dessa possibilidade se tornou comum em muitas teorias da conspiração, principalmente quando uma nova doença contagiosa é descoberta. Mais recentemente, as suspeitas, fundadas ou não, sobre o surgimento da Covid-19 também estão nesse contexto.

O romance se desenvolve como se fosse os cinco dias da maior crise científica da história dos EUA. Cada capítulo se passa num deles e progressivamente as pesquisas avançam, bem como seus desdobramentos. Crichton escreve de forma intensa e com muito realismo, tratando o assunto com o conhecimento científico da época. Assim, as páginas tem um aspecto semidocumental, com a apresentação de relatórios médicos, descrições de experimentos biológicos, gráficos, tabelas, infográficos e até uma bibliografia acadêmica ao fim da obra, para quem quiser estudar o assunto de forma mais profunda. Mas nada disso torna o livro chato. Ao contrário: reforça ainda mais o teor realista da obra, tornando-a mais impressionante para o leitor.

Dessa forma, todas as teorias de vida extraterrestre são apresentadas – pelo menos até a época em que o livro foi escrito –, e uma delas, justamente, é esta da chamada panspermia. De microorganismos de origem extraterrestre que adentram em nosso planeta. E no caso da “Variante Andrômeda” se mostrando uma bactéria de aspecto mortal. Com uma estrutura interna diferente das estruturas celulares da Terra, uma espécie de hexágono cristalino – mas sem DNA, RNA, proteínas ou aminoácidos –, é mortal aos seres vivos do nosso planeta ao provocar uma rápida coagulação no interior do organismo, solidificando o sangue, por assim dizer. Contudo, como irão descobrir os cientistas, pode haver alguma esperança, pois ela sofre contínuas mutações ao contato com o oxigênio presente na Terra.

Há um ponto especialmente interessante de O Enigma de Andrômeda que poderia ter sido mais explorado, mas talvez não o tenha porque poderia encaminhar a história para um sentido mais especulativo. É a Teoria da Bactéria Mensageira, ou seja, da possibilidade do envio de um microorganismo como meio de comunicação de uma espécie inteligente a outra. Isso mesmo: uma civilização extra-solar enviaria ao espaço profundo uma forma de vida que poderia estabelecer alguma comunicação com outra espécie inteligente. No livro ela teria sido apresentada por um engenheiro de comunicações, num congresso de Astronáutica no começo dos anos 1960. Talvez não por acaso, pois o romance surgiu no contexto da efervescência da corrida espacial da época, e Crichton explorou, justamente, esta perspectiva biológica. Factível ou não, a ideia é fascinante.

Na época, Michael Crichton (1942-2008) havia se formado em Medicina pela Universidade de Harvard, mas já havia dado os primeiros passos na carreira de escritor. Contudo, antes deste livro havia publicado apenas com pseudônimos, e O Enigma de Andrômeda foi o primeiro assinado com seu próprio nome. O sucesso imediato fez sua carreira de escritor decolar. De fato, o livro foi rapidamente adaptado ao cinema, num filme ótimo que se tornou também um clássico, homônimo de 1971, dirigido por Robert Wise (1914-2005). Anos depois, em 2008, no ano da morte de Crichton, Ridley Scott produziu uma minissérie baseada na história.

De fato, e como o leitor pode ter percebido ao ler o resumo do enredo acima, a obra tem muitas qualidades, que se tornariam uma marca de Crichton: uma prosa direta, com personagens interessantes e ativos, colocados quase sempre em situações limite, com muita tensão e suspense, em torno de temas e eventos na fronteira do conhecimento, na maior parte das vezes relacionados à FC. Muito prolífico, ele se tornou também roteirista e diretor de filmes competentes. Exemplos: Westworld: Onde Ninguém tem Alma (Westworld; 1974), O Homem Terminal (The Terminal Man; 1974), a adaptação de outro thriller médico Coma (1978), baseado no romance do também médico Robin Cook, entre outros. Sempre com uma visão crítica e por vezes irônica sobre os rumos da relação do ser humano com a tecnologia e a pesquisa científica.

Em termos populares Crichton, muito presente a partir dos anos 1970 até a sua morte precoce aos 66 anos, é mais conhecido como autor do romance Parque dos Dinossauros (Jurassic Park; 1990), de fato mais uma de suas obras muito boas – e que recebeu aqui no Brasil o Prêmio Nova em 1992. Mas, em termos de contribuição original à FC, acredito que O Enigma de Andrômeda ainda seja o mais interessante e influente. A editora Aleph relançou a obra em 2018, e ela continua, portanto, acessível aos leitores brasileiros.

Marcello Simão Branco

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

A torre acima do véu, Roberta Spindler

A torre acima do véu
, Roberta Spindler. 272 páginas. São Paulo: Giz, 2014.

Aconteceu muito rápido e ninguém nunca soube de onde veio o miasma que cobriu todo o planeta. Quem respirava a névoa morria em dolorosa agonia, pelos menos esse foi o destino daqueles que tiveram sorte. 
Os arranha-céus das cidades, com centenas de andares, proporcionaram a uns poucos a possibilidade de sobreviver nos níveis mais altos, acima da névoa venenosa. Ali, esses miseráveis fundaram uma nova sociedade dominada por leis draconianas, devido a escassez extrema recursos, especialmente de energia, comida e água. Abaixo da linha da névoa, a vida também mudou. Humanos e animais transformados em selvagens antropófagos chamados de sombras, eventualmente sobem as escadas para caçar os últimos seres humanos encurralados no topo dos edifícios. 
Nesse ambiente insalubre vivem Beca e Edu, filhos de Lion, cidadãos da comunidade de Nova Superfície, sobreviventes que habitam um conjunto de prédios cuja sede está localizada nos últimos andares da Torre, o mais alto edifício da antiga megalópole de Rio-Aires. Beca é uma mergulhadora, exploradora especializada que, fazendo uso de cabos e outros equipamentos de escalada, desce aos andares próximos à linha da névoa em busca de qualquer dispositivo remanescente da antiga tecnologia que possa ser reaproveitado. Enquanto Beca cumpre a parte braçal do processo, Edu, seu irmão mais novo, e Lion, seu pai, um mergulhador aposentado, ficam numa central de computadores monitoranto os movimentos de Beca e mantendo cosntante contato de rádio de forma a mantê-la viva durante a missão. A história inicia durante uma dessas incursões, na qual Beca procura por um tipo de bateria de energia infinita cuja localização lhe foi passada por Rato, um informante não muito confiável. A operação acaba comprometida por um conflito com outra equipe de mergulhadores, e Beca acredita que foi traída por Rato. 
Esse desentendimento inicial progride a um conflito mais sério quando Edu, ao participar de um mergulho, acaba despencando para dentro da névoa, onde desparece completamente. Tudo leva a crer que Edu morreu, mas Rato pensa que ele ainda vive em algum lugar na superfície. Desesperados para resgatar Edu, Beca e Lion convencem os governantes de Nova Superfície a organizar uma missão de resgate na região dominada pela névoa venenosa e pelos sanguinários mutantes. E a aventura vai revelar muito mais sobre o que está por trás da névoa, de onde ela veio e por quê, e o papel de cada um nesse drama mortal.
A torre acima do véu é um romance originalmente publicado em 2014, pela Giz Editorial, e é essa a edição tratada nesta resenha. A autora, Roberta Spindler, é paraense de Belém e publicou anteriormente o romance Contos de Meigan: A fúria dos cártagos, em parceria com a também paraense Oriana Comesanha, publicado em 2012 pela Editora Dracaena. Também teve publicado o romance Heróis de Novigrat (Suma, 2018). 
Spindler tem um texto maduro e bem modelado, sem experimentalismos formais, seguindo a risca todos os protocolos da ficção de gênero numa mescla de fantasia, terror e ficção científica acessível aos leitores mais jovens para quem sua ficção é dirigida. Os personagens são estruturados com motivações bem calçadas, o que dá verossimilhança ao drama ainda que seja todo crivado de situações hiperbólicas incríveis. É justamente o bom desenvolvimento dos personagens que fleva o leitor a avançar, preocupado com o destino deles. 
A produção da Giz é caprichosa, com ótima revisão de Sandra Garcia Cortez e a ilustração 
expressiva de Rafael Victor que já bastou para capturar a minha atenção, numa das mais instigantes capas da ficção fantástica brasileira recente. 
Enquanto aguardamos a já anunciada continuação para A torre acima do véu, o romance acaba de ganhar nova edição pela Editora HarperCollins Brasil. Vale a leitura deste e dos demais trabalhos de Roberta Spindler, que tem progredido rapidamente no espaço editorial brasileiro. 
Cesar Silva

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Mestre das Marés


Mestre das Marés, Roberto de Sousa Causo. Arte de capa de Vagner Vargas. 288 páginas. São Paulo: Devir, Coleção Pulsar, 2018.

 

Este romance é o terceiro livro de Causo em seu universo ficcional GalAxis, e o segundo da série As Lições do Matador. O primeiro foi Glória Sombria (2013), que mostra uma das primeiras missões do herói Jonas Peregrino, e o segundo traz as aventuras de Shiroma: Matadora Cyborgue (2015). Neste meio tempo outras histórias curtas de ambos os personagens foram escritas e publicadas. Mestre das Marés é, isto sim, o trabalho mais ambicioso deste universo até o momento, e um dos melhores já escritos pelo autor.

Nesta nova missão, o Capitão Jonas Peregrino e sua unidade dos Jaguares são enviados para resgatar uma estação internacional de pesquisa, em órbita do planeta Firedrake Gamma-M, depois que ela é atacada pelas naves-robôs dos tadais, a misteriosa espécie alienígena que combate a expansão humana pela Via-Láctea e ameaça também outras civilizações alienígenas.

Os cientistas se refugiam no planeta, mas ele é duramente atingido por jatos relativíscos que começam a ser disparados pelo buraco negro dos arredores, e que era pesquisado pelos cientistas. Gamma-M tem sua atmosfera eliminada e é só uma questão de tempo para que seja inteiramente destruído pela singularidade, chamada pelos cientistas terrestres de Firedrake, o dragão que cospe fogo. Contudo, talvez a metáfora mais apropriada seja a de Mestre das Marés, a tradução do nome Agu-Du’svarah, dado pela antiga civilização do Povo de Riv — vistos antes na noveleta “A Alma de Um Mundo”.[1]

Conforme os cientistas da estação Roger Penrose — homenagem antecipada ao físico inglês vencedor do Nobel em 2020 — e Peregrino irão constatar, o ataque ocorreu porque nos subterrâneos do planeta oculta-se uma instalação tadai secreta, com dispositivos de alta tecnologia e informações que podem ajudar na guerra travada pela Terra e seus aliados contra os inimigos. A missão, então, passa a ser muito mais complexa e perigosa do que inicialmente prevista, pois além de resgatar os cientistas, Peregrino deve levar o que puder do dispositivo.

Como já mostrado nas histórias anteriores, no século XXV embora a Terra tenha se expandido pela galáxia suas divisões políticas internas continuaram. Peregrino é um militar da Latinoamérica, a menos afluente das alianças continentais. As outras são a Aliança Transatlântico-Pacífico e os Euro-Russos. Em meio às rivalidades políticas, os humanos vivem nas chamadas Zonas de Expansão, com um grande interesse pela Esfera, a região mais rica e habitada por civilizações alienígenas, como o já citado Povo de Riv. De certa forma, é uma amostra de incrível poder econômico, militar e tecnológico dos humanos, conseguir se espalhar pela galáxia, se equiparando a outras civilizações que, ao que parece, conseguiram sua união política interna.

Mas este contexto político maior é abordado de forma indireta, por meio das estratégias e intrigas entre as alianças para obter poder e influência entre os humanos e, destes, com outros povos da galáxia. Em Mestre das Marés tal contexto se desdobra aos poucos, principalmente quando vai se tornando claro que não há um mesmo objetivo entre os cientistas e Peregrino, quanto a quem deve ser o destinatário das valiosas informações do dispositivo tadai.

Contudo, a grande força do romance é a missão em si. Um grupo de naves espaciais se aproxima de um planeta que está sendo devorado por um buraco negro e ainda sob a ameaça de extermínio pelos inimigos tadais. Como diz o subtítulo, a aventura é mesmo uma “jornada ao inferno de um mundo destruído por um buraco negro”. O enredo se concentra na descida a Gamma-M e o drama explícito de, mais do que resgatar os cientistas, obter as informações dos tadais a tempo de não ser destruído por Agu-Dus’varah.

Causo narra com detalhes extremos toda a sequência de acontecimentos dramáticos, em que o risco de morte é iminente a cada virada de página. Isso dá uma sensação de certa angústia ao leitor, de se estar diante de verdadeiras situações-limite, em que cada decisão pode ser a última. Neste livro, mais do que nas histórias anteriores, é mostrado um Peregrino mais sensível ao drama que o cerca. Não em relação à missão militar em si, mas ao contexto de estar diante da maior força conhecida da natureza, o buraco negro. A médica da equipe dos cientistas o diagnostica com a “Síndrome de Reinhardt”, com aumento intenso da ansiedade e numa situação próxima do pânico, diante da sensação de descontrole e morte iminente — a popular síndrome do pânico. Para um militar em comando isso poderia ser embaraçoso, mas Peregrino contorna a situação, ao se concentrar nos objetivos em si de resgatar os cientistas e o dispositivo tadai.

Mesmo que o aspecto dramático da trama seja evidente, por vezes, é preciso um esforço do leitor em acompanhar capítulos com descrições detalhadas dos aspectos científicos e militares envolvidos na missão. Causo mostra que pesquisou muito para obter um resultado convincente, principalmente sobre os conceitos de Física relativos à dinâmica difícil de um buraco negro. Se ficasse apenas neste aspecto o romance já chamaria a atenção como uma peça de ficção científica hard extrema, talvez só com paralelo com os escritos de Jorge Luiz Calife, em seu Universo da Tríade. Mas em meio a este contexto mais árido, há a dimensão humana do sofrimento, entremeado com seguidas citações de Peregrino de trechos dos poemas de Dante Alighieri (1265-1321), no mergulho poético de extrema força simbólica religiosa de sua obra A Divina Comédia (1304-1311), em especial na seção relativa ao “Inferno”. Embora seja de se pensar como Peregrino fosse um especialista numa obra como essa, por outro lado é parte da densidade de um personagem que vai além das aparências. Neste sentido, tais paralelos entre o que ele e seus comandados viveram nas entranhas de um planeta prestes a ser destruído e as imagens poéticas de Dante, conferem uma dimensão épica à aventura.

Outro diferencial é a presença de uma jornalista que foi destacada para escrever um perfil nada amigável de Peregrino. Por cerca de metade do livro, as seções são entremeadas com a missão militar em si e as considerações pessoais nada simpáticas de Camila Lopes ao personagem de sua reportagem. Chega a causar incômodo a desconfiança da jornalista, para quem já acompanhou a postura ética de Peregrino em outras histórias, mas, como irá ser revelado, tudo fazia parte de um esquema oculto para prejudicar o prestígio de um militar que obteve grandes vitórias contra os tadais em missões anteriores.

Mestre da Marés é um dos melhores romances hard da ficção científica brasileira. Não que haja muitos neste subgênero entre nós, mas, como já disse, o autor é eficaz em trabalhar de forma didática tantos conceitos, justificando-os como necessários para o tipo de história que está sendo narrada, e tornando palatável para o leitor. O romance ainda é complementado por uma seção de “anexos”, com várias informações e curiosidades sobre o Universo GalAxis. Trabalho caprichado.

Apesar de ser o maior texto já escrito sobre este universo, muitas questões são deliberadamente deixadas em aberto com a conclusão do romance. As informações do dispositivo tadai foram realmente perdidas? A que interesses de fato serviam os cientistas da Roger Penrose? Qual o possível papel das outras alianças terrestres rivais da Latinoamérica? Quais os segredos do misterioso Povo de Riv, possivelmente o maior aliado dos humanos, mas com seus próprios interesses na guerra? Além, é claro da persistência do mistério dos próprios tadais. É um empolgante universo ficcional em construção, que só instiga o leitor a continuar a acompanhar as próximas aventuras.

Marcello Simão Branco

 * * *

Agora em janeiro de 2024, o Universo GalAxis completa 15 anos. Para comemorar a data está disponível quatro papéis de parede ilustrados por Vagner Vargas. Podem ser baixados gratuitamente: http://universogalaxis.com.br/universo-galaxis-faz-15-anos-em-2023/

 


[1]     Publicado primeiro na antologia Space Opera: Jornadas Inimagináveis em uma Galáxia não Muito Distante, organizada por Hugo Vera e Larissa Caruso. Editora Draco, 2012.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Prêmio Litera 2023

Iniciativa do perfil  TT Literário, o Prêmio Litera ranqueia, em consulta popular através de formulários online, os favoritos do público nas categorias Protagonista literário, Casal literário, Amizade, Meme ou confusão literária, Hype literário, Sáfico, Merecia mais, Página de promoção, Book influencer, Lançamento independente, Capa, Ilustrador, Lançamento LGBTQIA+, Romance, Romance brasileiro, Fantasia, Fantasia brasileira, Ficção científica e Suspense/thriller brasileiro.  Algumas das categorias são exclusivas para trabalhos brasileiros, nas demais as produções estrangeiras e nacionais concorrem em igualdade de condições. A título de registro, transcrevemos aqui as dez primeiras posições das categorias que envolvem a ficção de gênero. São elas:
Ficção científica
1- 24h para correr, Marina S. Dutra
2- Aurora, Vitória Souza 
3- Marea infinitus, Lis Vilas Boas
4- Incompletos, Laís dos Passos
5- Anima: Ameaça virtual, Mariana Madelinn, Carol Vidal & Ricardo Santos
6- Vigilantes e o multiverso do caos, Denise Flaibam
7- As foices, Neal Shusterman
8- Uma galáxia multicor e os confins do universo, Becky Chambers
9-  A torre acima do véu, Roberta Spindler
10- Nós fazemos o mundo, de N. K Jemisin.
Fantasia
1- Marcada com sangue, Tracy Deon
2- A hospedeira do caos: Espelho d'água, Marcella Albuquerque
3- Caledrina Cefyr e a fonte perdida, Gabriela Costa
4- Tulipa Luz e os fantasmas do passado, Lolline Huntar'z
5- Os devaneios de Rory Agnes, Anne C. Freitas
6- Aurora dourada, Pamela Guerardi
7- Nilue, Thais Lopes
8- Entre beijos e flechas, Vanessa Freitas
9- Pequenas maldições: Criaturas nefastas, Caroline Carnevalle
10- Divinos rivais, Rebecca Ross.
Fantasia brasileira
1- O invasor de sonhos, Gricia Mendes
2- Até o amanhecer, Vanessa Freitas
3- Entre beijos e flexas, Vanessa Freitas
4- Prata manchada, Fernanda Redfield
5- Servante: Fogo e obediência, S. C. Deborah
6- Mensageiro do legado, Thainá Fernandez
7- Tulipa Luz e os fantasmas do passado, Lolline Huntar'z
8- Sangue de areia, Mari Lima
9- Aurora dourada, Pamela Gerardt
10- A sereia sem dons, Cristina Bomfim.
Thriller/suspense brasileiro 
1- Em quadrados, Ana Camarinha
2- A cópia, Gabby Meister
3- O mistério da casa incendidada, Rafael Weschenfelder
4- Trem de louco, Bruno de Deus
5- A outra Ana, Vinicius Oliveira Rocha
6- Xuxa preta, Alan de Sá
7- Acalanto, Auryo Jotha
8- O monstro dançante, Gabrielli Casseta
9- Medeia morta, Claudia Lemes
10- Má influência, Dan Rodriguez.
A organização do Prêmio Litera não informa os detallhes editoriais de cada título. 
Mais posições destas e de outras categorias podem ser garimpadas no perfil do prêmio, aqui.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Naquela época tínhamos um gato/Os saltitantes seres da Lua, Olyveira Daemon

Naquela época tínhamos um gato/Os saltitantes seres da Lua
, Olyveira Daemon. 216 páginas. São Paulo: edição de autor, 2023. Publicado em ebook.

Afinal, quem é Olyveira Daemon? 
Não há mistério. Trata-se da personalidade pós-lobotômica do ser fragmentário antigamente conhecido por Nelson de Oliveira, escritor mainstream, ou quase isso, que logrou ganhar o Prêmio Fundação Cultural da Bahia por sua primeira coletânea, Os saltitantes seres da Lua, publicada em 1997. E, como se não fosse suficiente, abiscoitou também o importante Prêmio Casas de Las Américas em 1998 pela coletânea Naquela época tínhamos um gato (escrita antes, publicada depois), ambas reunidas agora em uma única edição, "parcialmente revisada", como diz o próprio Olyveira na página de rosto da nova edição. 
Quando ganhei uma cópia deste livro, o autor mandou jogar fora as edições anteriores. Talvez as revisões não tenham sido tão parciais assim. De qualquer forma, foi uma ótima iniciativa recuperar essas duas publicações que estavam esgotadas e eram difíceis de encontrar. Embora eu me recorde de ter lido Naquela época tínhamos um gato por volta de dez anos atrás, todos os contos, de ambos os títulos, me pareceram tão fresquinhos como se tivessem sido escritos agorinha mesmo. 
Lembro que, na primeira leitura, já havia ali o indisfarçável experimentalismo com estilos de discurso e linguagem, que me causou mais estranhamento do que os enredos propriamente ditos. Desta vez, os experimentos estão ainda mais acentuados e levam o leitor desavisado ao quase desespero cognitivo. Sobrevivi porque já esperava por isso mas, mesmo assim, a leitura desta reedição é uma experiência estética incomum. 
Olyveira Daemon não dá trégua ao leitor. De um texto em que todas as letras "i" são substituídas por "y" e as "c" por "k", segue-se outro escrito em portunhol, e outro no qual os pontos finais são trocados por barras verticais, sinais de parágrafo (§) e outros grafismos, ou em que as letras "o" viram círculos pretos, ou certas palavras são substituídas por falsos cognatos muito marotos, ou os nomes dos personagens antecedem suas falas como em um roteiro de teatro, e assim por diante. Quanto mais avança a leitura, mais profundas as ousadias. 
Mas não só de experimentos de linguagem vive o heterônimo de Nelson de Oliveira. As histórias também são arrojadas, indo do realismo naturalista de "Éramos todos bandoleiros", e ">Os insetos , o silêncio", passando pelo absurdismo de "Kadáver kauteloso eskondido num baú" e "Encanador", pela fantasia de "A vysão vermelha de Vyctor, ao vento", pelo humor escrachado de "Qüiprocó na Sé", até pela ficção científica de "The body snatchers". Alguns são curtinhos, praticamente vinhetas de duas ou três páginas, outros são robustos, ocupando dezenas delas, formando uma seleta de trinta contos no total. Em alguns intervalos entre os contos, surgem comentários espirituosos do autor, chamados de "Notas-anedotas" que ajudam a contextualizar os textos quanto às propostas do autor. O volume é completado por um prefácio assinado pelo jornalista e também escritor André Cáceres.
A coletânea é empolgante quanto as perspectivas que propõe para a estética literária, especialmente com relação a ficção fantástica que tem na suspensão da descrença um fundamento considerado incontornável e que é extemamente vulnerável ao mais leve experimentalismo na linguagem. 
Olyveira Daemon prova que a fcf brasileira engatinha no que se refere a ousadia formal, mas temo que os autores do gênero talvez não comprem a ideia com facilidade. Um dia, quem sabe? 
Enquanto isso, festejamos o fato de existir um Olyveira Daemon para sacudir os protocolos embolorados da velha pulp fiction.
Cesar Silva

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Prêmio Argos 2023

O Prêmio Argos de Literatura Fantástica, criado em 2000, é promovido anualmente pelo Clube de Leitores de Ficção Científica e reconhece os melhores trabalhos em romance, antologia e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa publicados no ano anterior. 
Em 2023, o método de escolha dos vencedores mudou, sendo realizado um primeiro turno de votação exclusiva entre os membros do Clube que indicam cinco finalistas em cada categoria, depois votados publicamente através de formulários digitais na internet.
Os vencedores em 2023 são:
Romance: Estação das moscas, Cirilo Lemos, coleção Dragão Negro, Draco;
Demais finalistas: Baluartes: Terra sombria, Clinton Davisson, Avec; Bem mal me quer, Hache Pueyo, Dame Blanche; O fantasma de Cora, Fernanda Castro, Gutenberg; Paradoxo de Theséus, Alexey Dodsworth, Draco.
Antologia: Os Pilares de Melkart, Ana Lúcia Merege, Draco;
Demais  finalistas: A study in ugliness e outras histórias, Hache Pueyo, Lethe Press; Fator Morus, Lu Evans, org., Nebula; Mafaverna: Democracia, Jana Bianchi e Diogo Ramos, orgs., NDI; Outros Brasis da ficção a vapor, Davenir Viganon, Caligo.
Conto:  Jogo do destino, Ana Lúcia Merege, Draco;
Demais  finalistas: Fica com Mi-go esta noite, Carlos Relva, do autor; O renascer dos deuses, Oghan N'thanda, do autor; "Planeta Quilombo", G .G. Diniz, Mafagafo 5; Sankofa, Juliane Vicente, da autora.
Parabéns aos ganhadores!

domingo, 3 de dezembro de 2023

Depois da Bomba

 Depois da Bomba (Dr. Bloodmoney, or How we Got Along after the Bomb), Philip K. Dick. Tradução: Eurico Fonseca. Capa: A. Pedro. 248 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, n. 309, sem data. Lançamento original em 1965.

 


O título do romance faz referência ao dr. Bruno Bluthgeld, cientista alemão que trabalha para o Exército dos EUA, e que se traduz como bloodmoney em inglês. Pois é da ação e consequência desse personagem que a trama se desenrola. No passado, presente e futuro. Isso porque em 1972, Bluthgeld esteve à frente de um teste nuclear realizado na atmosfera que redundou num fracasso catastrófico: uma enorme onda radioativa se espalhou pelos EUA, trazendo morte e doenças a milhares de pessoas.

Em 1981 Bluthgeld procura viver de forma anônima em São Francisco, com o rosto envolto numa máscara que esconde cicatrizes e com uma paranoia cada vez mais doentia, por se corroer pelo mal que causou e pelo qual é odiado pela maioria das pessoas. Ele procura ajuda de um psicanalista, o Dr. Stokstill, que trabalha em frente a uma loja de venda e conserto de aparelhos de TV. Onde está o afro-americano Stuart McConchie e também, mais recentemente, Hoppy Harrington, um deficiente que não tem braços e pernas – decorrente de sua mãe ter ingerido talidomida em sua gravidez –, mas que é muito inteligente e se move com uma espécie de cadeira mecânica altamente sofisticada.

Dick expõe, inicialmente, o contexto por meio desses personagens para, de súbito, jogar o leitor no holocausto nuclear. Sim, os EUA sofrem um ataque maciço, provavelmente da União Soviética, e tem o país praticamente destruído. A cidade onde os três vivem é destruída, e o restante da história se passa no que restou da Califórnia, onde alguns agrupamentos urbanos sobreviveram de forma precária – sem eletricidade, água, combustível e pouca comida –, e no interior foram criadas algumas comunidades relativamente autônomas e isoladas umas das outras, com suas próprias leis e formas de organização do poder.

Sete anos depois, em 1988, reencontramos Bluthgeld, Harrington e McConchie. O primeiro isolado num sítio onde cria ovelhas, o segundo integrado à comunidade de West Marin e o terceiro vivendo de bicos na pequena cidade de Berkeley. A eles somos apresentados a outros personagens, não menos que memoráveis em sua estranheza e humanidade como, por exemplo, a menina Edie Keller, que, devido a uma mutação genética provocada pelo ataque nuclear, leva em seu ventre o feto do irmão Bill, numa aliança siamesa, e no qual ele se comunica telepaticamente com ela, e com os mortos; e o astronauta Walter Dangerfield, que vive numa nave em órbita sozinho, já que no mesmo dia que partiria para Marte com sua esposa, foi surpreendido pelo ataque nuclear. Após a morte dela, virou uma espécie de disc jóquei, se comunicando com as comunidades na superfície por meio de transmissões radiofônicas, onde veicula músicas e leituras de romances.

Mas este conjunto singular de personagens se situa num contexto pós-apocalíptico, por vezes crível e por vezes estranho, embora não inteiramente impossível. Isso porque nesse novo mundo, os efeitos radioativos possibilitaram a emergência de inteligência e capacidade de comunicação com os humanos por parte de cães e gatos, além de ratos com inacreditáveis capacidades musicais e matemáticas. Além disso, várias pessoas apresentam diferentes tipos de mutações e deficiências. Contudo, os sobreviventes permaneceram na superfície da Terra, pelo menos após vários viverem nos primeiros anos em espaços subterrâneos, como fez McConchie.

Dick procura mostrar não propriamente uma tentativa de reconstrução social, mas sobretudo de sobrevivência e adaptação a este novo mundo. Com isso, passa a centrar a narrativa principalmente na comunidade de West Marin, para onde converge os personagens já citados e outros que lá vivem. Mas nem todos realmente se adaptam a esta nova realidade. Ao invés, e de forma gradativa, se deterioram psicologicamente, tornando-se uma ameaça para os demais.




O dr. Bluthgeld é paranoico e acha que vai ser descoberto e assassinado, principalmente por qualquer pessoa nova que apareça em West Marin. Um professor chega a ser executado pela comunidade quando se descobre que pretendia realmente matá-lo. Mas ele, de fato, passa a imaginar que provocou o próprio holocausto e precisa provocar outro para uma nova “purificação” da humanidade. Louco ou não, o fato é que seus poderes imaginários passam a ter alguma espécie de realidade, quando tempestades terríveis se abatem sobre West Marin. Isso provoca a reação de Hoppy Harrington, um sujeito tão habilidoso manualmente, a despeito – ou por causa – de sua debilidade, quanto ressentido pelas humilhações do passado. Com crescente influência e megalomania imagina-se como a salvação de uma possível nova danação.

Um sentimento que vai se tornando cada vez mais nítido com o avançar da leitura é de irrealidade. Como se fossemos colocados dentro de um sonho que, aparentemente, não é nosso, mas que não conseguimos nos desvencilhar. Como bem apontou David Pringle, no livro Science Fiction: The 100 Best Novels (1985) – que incluiu este romance de Dick –, é como se o leitor sonhasse o sonho de outro, e dentro do seu contexto particular, se tornasse crível, mesmo com situações cada vez mais inverossímeis.

Dick apresentou dois títulos iniciais para Depois da Bomba: In Earth´s Diurnal Course e A Terran Odissey, mas acabou por concordar com a sugestão do prestigioso editor Donald Wollheim (1914-1990), numa alusão ao filme de sucesso da época, Doutor Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to StopWorrying and Love the Bomb; 1964), de Stanley Kubrick. E embora não seja intencional, pode ser visto como uma instigante especulação sobre as consequências de um mundo devastado pela guerra insanamente desejada pelo general louco interpretado por George C. Scott.

É a contribuição de Dick ao tema do pós-apocalipse nuclear, talvez o mais abordado pela FC durante a segunda metade do século XX, dado o grau de pesadelo próximo que se instaurou não só nos EUA, mas, em todo o mundo. Dick o faz à sua maneira, expondo principalmente, a desesperança e perturbação das pessoas, com efeitos também físicos sobre muitos deles. Vários personagens são mesmo passíveis de certa comiseração, num futuro que perdeu o sentido e, no qual, inclusive, o suicídio não provoque mais tanta perplexidade ou repúdio.

Depois da Bomba foi finalista do Prêmio Nebula em 1965, escrito no período tematicamente mais maduro de Philip K. Dick, a década de 1960, ao lado de outros romances tão misteriosos quanto fascinantes como, por exemplo, O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle; 1962), Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (The Three Stigmata of Palmer Eldritch; 1965), O Caçador de Androides (Do Androids Dream of Electric Sheep; 1968) e Ubik (Ubik; 1969). Ora, todos eles foram publicados no Brasil, menos Depois da Bomba – que recebeu, inclusive uma segunda edição em Portugal, pela coleção Antecipação número 3, com o título de Os Sobreviventes –, numa ausência que chega a ser espantosa, dada sua relevância para a FC e para o conjunto da obra do autor.

Marcello Simão Branco