domingo, 3 de dezembro de 2023

Depois da Bomba

 Depois da Bomba (Dr. Bloodmoney, or How we Got Along after the Bomb), Philip K. Dick. Tradução: Eurico Fonseca. Capa: A. Pedro. 248 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, n. 309, sem data. Lançamento original em 1965.

 


O título do romance faz referência ao dr. Bruno Bluthgeld, cientista alemão que trabalha para o Exército dos EUA, e que se traduz como bloodmoney em inglês. Pois é da ação e consequência desse personagem que a trama se desenrola. No passado, presente e futuro. Isso porque em 1972, Bluthgeld esteve à frente de um teste nuclear realizado na atmosfera que redundou num fracasso catastrófico: uma enorme onda radioativa se espalhou pelos EUA, trazendo morte e doenças a milhares de pessoas.

Em 1981 Bluthgeld procura viver de forma anônima em São Francisco, com o rosto envolto numa máscara que esconde cicatrizes e com uma paranoia cada vez mais doentia, por se corroer pelo mal que causou e pelo qual é odiado pela maioria das pessoas. Ele procura ajuda de um psicanalista, o Dr. Stokstill, que trabalha em frente a uma loja de venda e conserto de aparelhos de TV. Onde está o afro-americano Stuart McConchie e também, mais recentemente, Hoppy Harrington, um deficiente que não tem braços e pernas – decorrente de sua mãe ter ingerido talidomida em sua gravidez –, mas que é muito inteligente e se move com uma espécie de cadeira mecânica altamente sofisticada.

Dick expõe, inicialmente, o contexto por meio desses personagens para, de súbito, jogar o leitor no holocausto nuclear. Sim, os EUA sofrem um ataque maciço, provavelmente da União Soviética, e tem o país praticamente destruído. A cidade onde os três vivem é destruída, e o restante da história se passa no que restou da Califórnia, onde alguns agrupamentos urbanos sobreviveram de forma precária – sem eletricidade, água, combustível e pouca comida –, e no interior foram criadas algumas comunidades relativamente autônomas e isoladas umas das outras, com suas próprias leis e formas de organização do poder.

Sete anos depois, em 1988, reencontramos Bluthgeld, Harrington e McConchie. O primeiro isolado num sítio onde cria ovelhas, o segundo integrado à comunidade de West Marin e o terceiro vivendo de bicos na pequena cidade de Berkeley. A eles somos apresentados a outros personagens, não menos que memoráveis em sua estranheza e humanidade como, por exemplo, a menina Edie Keller, que, devido a uma mutação genética provocada pelo ataque nuclear, leva em seu ventre o feto do irmão Bill, numa aliança siamesa, e no qual ele se comunica telepaticamente com ela, e com os mortos; e o astronauta Walter Dangerfield, que vive numa nave em órbita sozinho, já que no mesmo dia que partiria para Marte com sua esposa, foi surpreendido pelo ataque nuclear. Após a morte dela, virou uma espécie de disc jóquei, se comunicando com as comunidades na superfície por meio de transmissões radiofônicas, onde veicula músicas e leituras de romances.

Mas este conjunto singular de personagens se situa num contexto pós-apocalíptico, por vezes crível e por vezes estranho, embora não inteiramente impossível. Isso porque nesse novo mundo, os efeitos radioativos possibilitaram a emergência de inteligência e capacidade de comunicação com os humanos por parte de cães e gatos, além de ratos com inacreditáveis capacidades musicais e matemáticas. Além disso, várias pessoas apresentam diferentes tipos de mutações e deficiências. Contudo, os sobreviventes permaneceram na superfície da Terra, pelo menos após vários viverem nos primeiros anos em espaços subterrâneos, como fez McConchie.

Dick procura mostrar não propriamente uma tentativa de reconstrução social, mas sobretudo de sobrevivência e adaptação a este novo mundo. Com isso, passa a centrar a narrativa principalmente na comunidade de West Marin, para onde converge os personagens já citados e outros que lá vivem. Mas nem todos realmente se adaptam a esta nova realidade. Ao invés, e de forma gradativa, se deterioram psicologicamente, tornando-se uma ameaça para os demais.




O dr. Bluthgeld é paranoico e acha que vai ser descoberto e assassinado, principalmente por qualquer pessoa nova que apareça em West Marin. Um professor chega a ser executado pela comunidade quando se descobre que pretendia realmente matá-lo. Mas ele, de fato, passa a imaginar que provocou o próprio holocausto e precisa provocar outro para uma nova “purificação” da humanidade. Louco ou não, o fato é que seus poderes imaginários passam a ter alguma espécie de realidade, quando tempestades terríveis se abatem sobre West Marin. Isso provoca a reação de Hoppy Harrington, um sujeito tão habilidoso manualmente, a despeito – ou por causa – de sua debilidade, quanto ressentido pelas humilhações do passado. Com crescente influência e megalomania imagina-se como a salvação de uma possível nova danação.

Um sentimento que vai se tornando cada vez mais nítido com o avançar da leitura é de irrealidade. Como se fossemos colocados dentro de um sonho que, aparentemente, não é nosso, mas que não conseguimos nos desvencilhar. Como bem apontou David Pringle, no livro Science Fiction: The 100 Best Novels (1985) – que incluiu este romance de Dick –, é como se o leitor sonhasse o sonho de outro, e dentro do seu contexto particular, se tornasse crível, mesmo com situações cada vez mais inverossímeis.

Dick apresentou dois títulos iniciais para Depois da Bomba: In Earth´s Diurnal Course e A Terran Odissey, mas acabou por concordar com a sugestão do prestigioso editor Donald Wollheim (1914-1990), numa alusão ao filme de sucesso da época, Doutor Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to StopWorrying and Love the Bomb; 1964), de Stanley Kubrick. E embora não seja intencional, pode ser visto como uma instigante especulação sobre as consequências de um mundo devastado pela guerra insanamente desejada pelo general louco interpretado por George C. Scott.

É a contribuição de Dick ao tema do pós-apocalipse nuclear, talvez o mais abordado pela FC durante a segunda metade do século XX, dado o grau de pesadelo próximo que se instaurou não só nos EUA, mas, em todo o mundo. Dick o faz à sua maneira, expondo principalmente, a desesperança e perturbação das pessoas, com efeitos também físicos sobre muitos deles. Vários personagens são mesmo passíveis de certa comiseração, num futuro que perdeu o sentido e, no qual, inclusive, o suicídio não provoque mais tanta perplexidade ou repúdio.

Depois da Bomba foi finalista do Prêmio Nebula em 1965, escrito no período tematicamente mais maduro de Philip K. Dick, a década de 1960, ao lado de outros romances tão misteriosos quanto fascinantes como, por exemplo, O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle; 1962), Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (The Three Stigmata of Palmer Eldritch; 1965), O Caçador de Androides (Do Androids Dream of Electric Sheep; 1968) e Ubik (Ubik; 1969). Ora, todos eles foram publicados no Brasil, menos Depois da Bomba – que recebeu, inclusive uma segunda edição em Portugal, pela coleção Antecipação número 3, com o título de Os Sobreviventes –, numa ausência que chega a ser espantosa, dada sua relevância para a FC e para o conjunto da obra do autor.

Marcello Simão Branco

 

2 comentários:

  1. Muito boa resenha, bem aprofundada. Aqueles resumos que aparecem nos livros da Argonauta fazem uma ode sem fim as obras mas terminam em não explicar nada, isso quando não deixam um bom livro com a impressão de ser ruim. Outro livro de Dick que senti muita dificuldade em terminar foi " Os 3 estigmas de Palmer Eldrich" Gostaria muito de ler sua opinião sobre ele também. Acho que muita coisa ficou obscura, comecei a ler e parei duas vezes no meio.

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  2. Os 3 Estigmas de Palmer Eldrich é obscuro de propósito, pois faz parte da perturbação mental do personagem. É um livro fascinante, que merece ser relido.

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