quarta-feira, 1 de julho de 2026

40 Anos da Vinda do Cometa de Halley

 

Imagem do Cometa de Halley obtida pela sonda soviética Vega 1 em 6 de março de 1986


Diário e Observações sobre o Cometa de Halley em 1986

 

Marcello Simão Branco

 

Quando o cometa de Halley reapareceu nas noites do planeta Terra há 40 anos eu, aos 18 anos, exercia uma atividade informal e entusiasmada de leitor de astronomia e observador do céu noturno. Para me incentivar ainda mais, meu saudoso pai comprou uma pequena luneta de cor branca para que eu pudesse acompanhar a chegada do cometa.

O relato que segue registra minhas impressões sobre a presença do astro no céu da cidade de São Paulo, misturando precisão de observação, as impressões pessoais de um jovem no início de sua vida adulta e parte dos resultados sobre a vinda do cometa.

Escrevi originalmente em manuscrito no anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, do astrônomo brasileiro Eugênio Scalise Júnior, lançado na época, e que trazia seis páginas finais para que o próprio leitor deixasse suas impressões, uma a cada mês, entre dez de setembro de 1985 e dez de maio de 1986 mas, como se verá, antecipei minha última observação. É um diário que ficou inédito por quatro décadas e decidi publicar agora em virtude da efeméride que, aliás, passou quase despercebida.

 

Diário & observações (páginas 91 a 96), Marcello Simão Branco, como anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, Eugênio Scalise Júnior. São Paulo: Diagrama & Texto, 96 páginas, 1985.

 



= 10 de setembro de 1985

O Halley ainda não é visto no céu noturno, encontrando-se a aproximadamente 2,98 Unidade Astronômica (UA) da Terra e 2,73 UA do Sol (dados exatos de 1º. de setembro).

O que ocorre é simplesmente a cada dia que passa uma crescente expectativa da sua aparição, que deverá ocorrer no fim de outubro e começo de novembro, em meio às Três Marias, na constelação de Órion (1º. a 30 de novembro).

 

= 10 de outubro de 1985

Apesar do Halley ainda não ser observado facilmente, a chuva de meteoros associados ao Halley já será uma amostra do que será sua passagem.

A Epsilon Orionidis (depois corrigi para Epsilon Orionis) ocorrerá de 15 a 31 deste mês, com máxima atividade em 21 de outubro.

Registra-se aqui a descoberta de astrônomos chineses a respeito do cometa Giacobini-Zinner que cruzou próximo ao Cometa de Halley no último dia 15 de setembro a 18 do mesmo mês, num encontro que ocorre somente a cada mil anos.

 

= 10 de novembro de 1985

Infelizmente não pude observar a chuva de meteoros relacionada ao Halley ocorrida no mês passado devido às constantes chuvas, e à poluição de São Paulo.

O cometa desde o dia primeiro deste mês já pode ser observado, mas com luneta ou binóculo. Até agora não consegui observar com minha luneta, pois a poluição de São Paulo é muito grande. Mas vou continuar tentando, pois, a partir do dia 18 deste mês, haverá melhores condições de observá-lo pois a Terra estará exatamente entre o Sol e o cometa.

 

= 10 de dezembro de 1985

Mais um mês passou e eu não observei o cometa, devido a poluição e a chuvas que vem ocorrendo.

Ver no bloco de anotações que a 23/11/1985 ocorreram duas descobertas a respeito do Halley. Assim como no começo do mês foi detectada a molécula de HCN no núcleo do cometa. (Eu escrevia num bloquinho as notícias curiosas sobre astronomia que lia em livros, jornais e revistas. Tenho comigo até hoje).

 

= 10 de janeiro de 1986

Com cuidado e muita paciência o cometa já é visto a olho nu como se fosse uma nuvem muito tênue. Eu ainda não o observei, mas o aguardo com expectativa. O Halley a 2 de janeiro cruzou a órbita da Terra, e se encontra atualmente na Constelação de Pegasus (de difícil observação).

 

= 10 de fevereiro de 1986

Por duas vezes no mês de janeiro, quase tive a certeza de observá-lo, mas não posso afirmar categoricamente que o observei, pois, o Halley ainda não é o fascinante espetáculo visual que todos esperam.

Atravessou a órbita de Vênus em 21 de janeiro, e no dia 9 deste mês às 12h 52 min, chegou ao periélio depois de 76 anos.

 

= 10 de março de 1986

Estou decepcionado, pois vejo agora que a passagem do Halley foi um grande lance de propaganda, tão forte que abafou o que muitos astrônomos afirmavam antes: que a passagem de 1986 seria uma das piores de todas. Apesar disso continuo com muita esperança de avistá-lo, especialmente no mês que vem, quando ocorrerá sua máxima aproximação da Terra.

 

= 10 de abril de 1986

Muitos conhecidos meus, parentes, etc. afirmam tê-lo visto, mas não sei se acredito, pois, a maioria confunde um cometa, com Sírius por exemplo. Quanto a mim, amanhã dia 11 concentro minhas últimas esperanças...

 

= 11 de abril de 1986

Aconteceu! Nem sombra do que foi anunciado, mas na noite de sexta-feira, dia 11 de abril, entre 1 e 2h 45 min da madrugada, eu o avistei e o contemplei a noroeste da Constelação de Centauro, como uma fascinante, pequena bola ofuscada e nevoenta (com binóculo) e maior e menos densa vista com minha luneta. Meu pai, irmão e minha mãe também o avistaram comigo no quintal e em frente à nossa casa. Primeiro, olhei a olho nu, e depois obtive a maravilhosa confirmação com os instrumentos. Nos dias 12 e 13 também o vi e depois ficou difícil a localização e não tenho certeza de vê-lo outra vez, ficando apenas a lembrança de tê-lo visto.

 

Um comentário:

  1. Eu tinha uma casa "na roça" naquela época. Foi ali que começou a minha síndrome de Cassandra: eu via, avisava e ninguém acreditava.

    O condomínio tinha cerca de vinte casas espalhadas por uma área enorme, com lago e três campos de futebol. Na noite em que fomos observar o Halley, todo mundo se reuniu no maior dos campos, com todas as luzes apagadas para enxergar melhor o céu.

    Resultado: só eu vi.

    Eu sabia onde procurar, sabia como um cometa deveria parecer e já o havia observado em outras noites. Também entendia que aquela não seria a aparição espetacular de 1910. Eu tinha 15 anos.

    Avisei todo mundo. Ninguém acreditou. Ninguém entendeu. E algumas nuvens ainda resolveram atrapalhar.

    Acho que algumas semanas depois, voltei ao mesmo lugar, mas desta vez no alto de um morro. Estávamos eu e alguns amigos. Eu levava um binóculo.

    Quando você tem 15 anos, visão perfeita, um bom binóculo e passa algum tempo olhando fixamente para o céu, acontece uma coisa curiosa: você começa a enxergar o resto do cometa. Naquela noite o céu estava completamente limpo.

    Consegui ver a cauda do Halley praticamente atravessando o céu inteiro. Bastava permanecer olhando por algum tempo para que os olhos se adaptassem. Existe até um fenômeno que Carl Sagan chamava de "visão desviada": percebemos detalhes muito tênues quando não olhamos diretamente para o objeto.

    No fim, peguei papel e lápis e fiz um desenho do que estava vendo. No ano seguinte, ele chegou a ficar exposto no colégio.

    Claro que, quarenta anos depois, o desenho acabou se perdendo no meio dos meus divórcios.

    Claro que havia outras duas pessoas comigo que não conseguiram ver absolutamente nada. Para elas, um cometa deveria surgir desfilando pelo céu como nos filmes.

    E, claro, ainda tive que explicar que as duas estrelas cadentes que apareceram naquela noite não eram o Halley.

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