Imagem do Cometa de Halley obtida pela sonda soviética Vega 1 em 6 de março de 1986
Diário
e Observações sobre o Cometa de Halley em 1986
Marcello
Simão Branco
Quando o cometa
de Halley reapareceu nas noites do planeta Terra há 40 anos eu, aos 18 anos,
exercia uma atividade informal e entusiasmada de leitor de astronomia e
observador do céu noturno. Para me incentivar ainda mais, meu saudoso pai
comprou uma pequena luneta de cor branca para que eu pudesse acompanhar a
chegada do cometa.
O relato que
segue registra minhas impressões sobre a presença do astro no céu da cidade de
São Paulo, misturando precisão de observação, as impressões pessoais de um
jovem no início de sua vida adulta e parte dos resultados sobre a vinda do cometa.
Escrevi originalmente
em manuscrito no anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, do
astrônomo brasileiro Eugênio Scalise Júnior, lançado na época, e que trazia seis
páginas finais para que o próprio leitor deixasse suas impressões, uma a cada
mês, entre dez de setembro de 1985 e dez de maio de 1986 – mas, como se verá, antecipei minha última
observação. É um diário que ficou inédito por quatro décadas e decidi publicar
agora em virtude da efeméride que, aliás, passou quase despercebida.
Diário
& observações (páginas 91 a
96), Marcello Simão Branco, como anexo do livro A Volta do Cometa de
Halley, Eugênio Scalise Júnior. São Paulo: Diagrama & Texto, 96
páginas, 1985.
= 10 de setembro de 1985
O Halley ainda não é visto no céu noturno,
encontrando-se a aproximadamente 2,98 Unidade Astronômica (UA) da Terra e 2,73
UA do Sol (dados exatos de 1º. de setembro).
O que ocorre é simplesmente a cada dia que
passa uma crescente expectativa da sua aparição, que deverá ocorrer no fim de
outubro e começo de novembro, em meio às Três Marias, na constelação de Órion
(1º. a 30 de novembro).
= 10 de outubro de 1985
Apesar do Halley ainda não ser observado
facilmente, a chuva de meteoros associados ao Halley já será uma amostra do que
será sua passagem.
A Epsilon Orionidis (depois corrigi
para Epsilon Orionis) ocorrerá de 15 a 31 deste mês, com máxima atividade
em 21 de outubro.
Registra-se aqui a descoberta de
astrônomos chineses a respeito do cometa Giacobini-Zinner que cruzou próximo ao
Cometa de Halley no último dia 15 de setembro a 18 do mesmo mês, num encontro
que ocorre somente a cada mil anos.
= 10 de novembro de 1985
Infelizmente não pude observar a chuva de
meteoros relacionada ao Halley ocorrida no mês passado devido às constantes
chuvas, e à poluição de São Paulo.
O cometa desde o dia primeiro deste mês já
pode ser observado, mas com luneta ou binóculo. Até agora não consegui observar
com minha luneta, pois a poluição de São Paulo é muito grande. Mas vou
continuar tentando, pois, a partir do dia 18 deste mês, haverá melhores
condições de observá-lo pois a Terra estará exatamente entre o Sol e o cometa.
= 10 de dezembro de 1985
Mais um mês passou e eu não observei o
cometa, devido a poluição e a chuvas que vem ocorrendo.
Ver no bloco de anotações que a 23/11/1985
ocorreram duas descobertas a respeito do Halley. Assim como no começo do mês
foi detectada a molécula de HCN no núcleo do cometa. (Eu escrevia num
bloquinho as notícias curiosas sobre astronomia que lia em livros, jornais e
revistas. Tenho comigo até hoje).
= 10 de janeiro de 1986
Com cuidado e muita paciência o cometa já
é visto a olho nu como se fosse uma nuvem muito tênue. Eu ainda não o observei,
mas o aguardo com expectativa. O Halley a 2 de janeiro cruzou a órbita da
Terra, e se encontra atualmente na Constelação de Pegasus (de difícil
observação).
= 10 de fevereiro de 1986
Por duas vezes no mês de janeiro, quase
tive a certeza de observá-lo, mas não posso afirmar categoricamente que o
observei, pois, o Halley ainda não é o fascinante espetáculo visual que todos
esperam.
Atravessou a órbita de Vênus em 21 de
janeiro, e no dia 9 deste mês às 12h 52 min, chegou ao periélio depois de 76
anos.
= 10 de março de 1986
Estou decepcionado, pois vejo agora que a
passagem do Halley foi um grande lance de propaganda, tão forte que abafou o
que muitos astrônomos afirmavam antes: que a passagem de 1986 seria uma das
piores de todas. Apesar disso continuo com muita esperança de avistá-lo,
especialmente no mês que vem, quando ocorrerá sua máxima aproximação da Terra.
= 10 de abril de 1986
Muitos conhecidos meus, parentes, etc.
afirmam tê-lo visto, mas não sei se acredito, pois, a maioria confunde um
cometa, com Sírius por exemplo. Quanto a mim, amanhã dia 11 concentro minhas
últimas esperanças...
= 11 de abril de 1986
Aconteceu! Nem sombra do que foi
anunciado, mas na noite de sexta-feira, dia 11 de abril, entre 1 e 2h 45 min da
madrugada, eu o avistei e o contemplei a noroeste da Constelação de Centauro,
como uma fascinante, pequena bola ofuscada e nevoenta (com binóculo) e maior e
menos densa vista com minha luneta. Meu pai, irmão e minha mãe também o
avistaram comigo no quintal e em frente à nossa casa. Primeiro, olhei a olho
nu, e depois obtive a maravilhosa confirmação com os instrumentos. Nos dias 12
e 13 também o vi e depois ficou difícil a localização e não tenho certeza de vê-lo
outra vez, ficando apenas a lembrança de tê-lo visto.

Eu tinha uma casa "na roça" naquela época. Foi ali que começou a minha síndrome de Cassandra: eu via, avisava e ninguém acreditava.
ResponderExcluirO condomínio tinha cerca de vinte casas espalhadas por uma área enorme, com lago e três campos de futebol. Na noite em que fomos observar o Halley, todo mundo se reuniu no maior dos campos, com todas as luzes apagadas para enxergar melhor o céu.
Resultado: só eu vi.
Eu sabia onde procurar, sabia como um cometa deveria parecer e já o havia observado em outras noites. Também entendia que aquela não seria a aparição espetacular de 1910. Eu tinha 15 anos.
Avisei todo mundo. Ninguém acreditou. Ninguém entendeu. E algumas nuvens ainda resolveram atrapalhar.
Acho que algumas semanas depois, voltei ao mesmo lugar, mas desta vez no alto de um morro. Estávamos eu e alguns amigos. Eu levava um binóculo.
Quando você tem 15 anos, visão perfeita, um bom binóculo e passa algum tempo olhando fixamente para o céu, acontece uma coisa curiosa: você começa a enxergar o resto do cometa. Naquela noite o céu estava completamente limpo.
Consegui ver a cauda do Halley praticamente atravessando o céu inteiro. Bastava permanecer olhando por algum tempo para que os olhos se adaptassem. Existe até um fenômeno que Carl Sagan chamava de "visão desviada": percebemos detalhes muito tênues quando não olhamos diretamente para o objeto.
No fim, peguei papel e lápis e fiz um desenho do que estava vendo. No ano seguinte, ele chegou a ficar exposto no colégio.
Claro que, quarenta anos depois, o desenho acabou se perdendo no meio dos meus divórcios.
Claro que havia outras duas pessoas comigo que não conseguiram ver absolutamente nada. Para elas, um cometa deveria surgir desfilando pelo céu como nos filmes.
E, claro, ainda tive que explicar que as duas estrelas cadentes que apareceram naquela noite não eram o Halley.