terça-feira, 18 de julho de 2023

Prêmio Le Blanc 2023

No dia 14 de julho, em evento presencial no Sesc São João de Meriti, no Rio de Janeiro, foram anunciados os vencedores da edição de 2023 do Prêmio Le Blanc, voltado a apontar os melhores do ano anterior em animação, jogos, histórias em quadrinhos e literatura fantástica. 
A apuração foi realizada em duas etapas: uma consulta popular pela internet indicou três finalistas em cada categoria, dentre os quais o ganhador foi definido por um juri de especialistas. 
Os vencedores de 2023 são:
Romance: A roda de Deus, Leonel Caldela, Jambô.
Coletânea: Assombros, Zé Wellington, Draco.
História em quadrinhos independente: Ovelha negra, Carlos Felipe Figueiras & B. Horn, Tapas.
História em quadrinhos: Sussurros do caos rastejante, Fábio Yabu & Fred Rubim, Jambô.
Série de tiras: Edifício Celeste, Thiago Krening.
Série de animação: Turma da Mônica, Cartoon Network, Mauricio de Sousa Produções & Split Studio.
Curta animado: Coelhitos e gambazitas, Thomas Larson.
Curta animado independente: Eu nunca contei a ninguém, Douglas Duan.
Longa animado: A lasanha assassina, Ale McHaddo.
Animação publicitária: Abertura de novela Cara e Coragem, Leonardo Fleury & Luciana Jordão.
Game eletrônico: Fobia – St. Dinfna hotel, Pulsatrix Studios.
RPG: O cordel do reino do sol encantado, Pedro Borges, New Order.
Criado em 2018, o Prêmio Le Blanc é organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Mídias Criativas (PPGMC) da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e pela Universidade Federal Fluminense (UFF). 
O nome é uma homenagem à André LeBlanc (1921-1998), haitiano radicado no Brasil com uma extensa e importante obra no campo da ilustração editorial.
A relação com todos os finalistas de cada categoria pode ser conferida aqui.

domingo, 16 de julho de 2023

Território Lovecraft, Matt Ruff

Território Lovecraft
(Lovecraft country), Matt Ruff. Tradução de Thais Paiva, 354 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

Há algum tempo, mais exatamente em 2017, o escritor e tradutor Fábio Fernandes, em seu podcast Terra Incógnita, publicou uma série de episódios sobre uma onda neolovecraftiana na fc&f americana, e um dos títulos que destacou foi justamente Lovecraft country. Foi a primeira vez em que ouvi falar do livro e de Matt Ruff, seu autor. Fernandes teceu efusivos elogios à obra e recomendou que os editores brasileiros dessem uma chance a ele.
É claro que não foi o singelo podcast que Fernandes, ainda que se considere a significativa influência de seu editor no fandom, que levou a editora Intrínseca a publicar o livro no Brasil. Isso só aconteceu quando a HBO Max anunciou a produção de uma série inspirada no livro, o que é um apelo irresistível aos editores brasileiros quando se trata de livros de fc&f. Por isso, não foi surpresa quando o livro apareceu nas lojas virtuais, em edição de luxo e capa dura. Não que o título não mereça: provavelmente foi o melhor livro de fc&f publicado no país em 2020 e certamente um dos cinco melhores da segunda década deste século.
O mais interessante é que não se trata de um livro lovecraftiano, como seria de se imaginar. Os escritores profissionais sabem muito bem que qualquer autor fã saberia imitar o estilo démodé de Lovecraft. Trata-se de um texto enxuto e potente, mas a leitura é sofrida por conta do tema; o estilo é bastante contemporâneo, ainda que toda a ação esteja localizada em algum momento dos anos 1950. Trata-se de um romance fix-up, formado por contos e novelas autônomos possivelmente publicados em separado, reunidos por um arco geral que lhes dá unidade dramática.
Conta a história de uma família de homens e mulheres pretos num Estados Unidos da América em que o racismo e a segregação racial são praticados com anuência do poder público. Um dos veteranos, chamado de George, mantém a publicação de uma espécie de fanzine turístico, o Guia de Viagem do Negro Precavido, para que as pessoas pretas possam transitar pelo país com alguma segurança. Para isso, viaja continuamente e enfrenta os perigos de caminhos ainda não experimentados, de modo a registrar os lugares em que o povo preto pode se alimentar e se hospedar sem o risco de ser assassinado. Oito história e um epílogo compõem o volume, cada uma focaliza um dos membro da família, embora os demais também participem com maior ou menor significado.
"Território Lovecraft" é a novela que abre o volume. Cumpre com louvor a apresentação dos personagens e do ambiente geral. Nela, acompanhamos Atticus, um jovem que retorna sua cidade natal e encontra Montrose, a quem chama de pai, desaparecido. Acompanhado de George e da jovem Letitia, embarcam no velho woody da família com destino ao condado de Ardhan, em pelo "Território Lovecraft", uma região perigosa para os negros. Lá, se depararam com Caleb Braithwhite, jovem branco muito misterioso, além de um grupo de homens brancos que praticam uma espécie de culto, a qual chamam de "Filosofia Natural", cujo ritual exige a participação de um dos nossos ousados viajantes e influirá no futuro de toda a família.
"A casa assombrada dos sonhos" focaliza as irmãs Letitia e Ruby, que compram por uma bagatela um antigo casarão no qual pretendem implantar uma pousada para negros. O problema é que o casarão está localizado em um bairro majoritariamente habitado por brancos racistas. E não só: a mansão era, no passado, residência de Hiran Winthrop, figurão da Filosofia Natural cujo fantasma nada amistoso assombra o lugar.
"O livro de Abdulah" é uma espetacular aventura ao estilo de Indiana Jones. Caleb Braithwhite está de posse do Livro dos Dias, que registra a vida dos membros da família durante o período da escravidão e é um documento importante para que eles possam obter uma polpuda indenização. Mas Caleb só o devolverá em troca do Livro dos Nomes, compêndio mágico que está escondido no subterrâneo do Museu de História Natural. Atticus, George, Montrose e alguns amigos embarcam nessa perigosa missão sobrenatural para garantir a devolução do tesouro roubado da família.
"Hyppolita perturba o universo" é a melhor história do volume, na minha opinião. E isso é um mérito enorme porque todas as histórias do livro são excelentes. Hippolita, a mãe de Letitia e Ruby, é uma mulher de vida agitada e de muita personalidade. É astrônoma, viaja sozinha e é colaboradora do Guia. Seu passatempo favorito é visitar observatórios astronômicos pelos EUA, principalmente aqueles em que não poderia entrar. E o observatório que ela quer invadir desta vez fica numa propriedade particular pertencente a Hiran Winthrop (sim, o fantasma da mansão de Letitia). Ela vai descobrir, da maneira mais surpreendente possível, que aquele não é um observatório como os demais, pois ele mostra as estrelas "bem" de perto.
"No ano-novo, Ruby acordou branca". Esta é a frase que abre o conto "Jekil em Hyde Park", no qual Ruby consegue realizar seu maior desejo, que é arrumar emprego numa loja de departamentos muito elegante. Mas ela só consegue isso graças a um feitiço que o sedutor Caleb Braithwhite lhe ensina.
"A casa Narrow" é uma história de viagem no tempo nada convencional, na qual Montrose é convencido por Braithwhite a recuperar cadernos antigos com anotações de Hiran Winthrop que aparentemente já foram destruídos. Para isso, ele terá de fazer uma pequena viagem a casa de um certo Sr. Narrow.
"Horace e o boneco do diabo" é de longe o texto mais assustador do volume, no qual Horace, o membro mais caçula da família, tem de enfrentar uma maldição mortal que Braithwhite lança sobre ele.
"A marca de Caim" apresenta o desfecho emocionante do combate entre os nossos protagonistas e o aparentemente invencível Braithwhite e seus asseclas, com muita ação, violência, tiroteios e magia negra, é claro.
O texto está repleto de referências e citações ao universo nerd, a literatura fantástica e até aos jogos de RPG, que não são gratuitas nem derrubam a suspensão da incredibilidade como geralmente ocorre nesses casos. Pelo contrário, em Território Lovecraft, todas as citações são elementos fundamentais das histórias, que não poderiam ser contadas da mesma forma sem elas.
Comparando-se o texto original com a adaptação produzida pela HBO Max, é possível dizer que esta é bastante fiel ao romance mas está longe de ter a mesma qualidade. O livro de Ruff é muito superior à versão audiovisual, que tomou liberdades para outra conclusão, alterou personagens, fundiu histórias, ignorou outras e inventou coisas que nem estão no livro. Algumas das melhores narrativas do original ficaram de fora, outras foram tão alteradas que mal é possível reconhecê-las, além de colocar o pobre Atticus numa situação ambígua e frágil que nada tem a ver com o personagem original. Sem falar na limagem das deliciosas citações, bem como da relevante questão metalinguística, proposta logo às primeiras páginas, sobre o modo contraditório como uma pessoa preta se relaciona com a ficção científica, gênero de tradição evidentemente racista.
Recomendo a leitura do texto original de Ruff. Quem só viu o seriado não recebeu o melhor de Território Lovecraft.
Cesar Silva

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O Beijo Antes do Sono

 


O Beijo Antes do Sono, Fausto Cunha. Capa: Salvio Negreiros. 119 páginas. São Paulo: Artenova, 1974.

 

Fausto Cunha (1923-2004) foi uma figura importante da literatura brasileira, nas décadas de 1960 e 1970, e se estendermos sua contribuição à FC, também à década de 1980, aqui na figura de editor. Mais conhecido entre a comunidade de FCB como um dos principais autores da Primeira Onda, nomeada por ele de “Geração GRD”, transitou entre a crítica literária, a ficção e a edição, com talento e marcas próprias, a partir de uma perspectiva humanista e intimista. Aliás, uma tendência característica dos autores desse período.

Publicou de sua lavra quatro livros de FC, as coletâneas Noites Marcianas (1960) e O Dia da Nuvem (1980), a novela infanto-juvenil O Lobo do Espaço (1977) e este O Beijo Antes do Sono, seu único romance.

Num período contemporâneo, mas indefinido, duas amigas de infância vão passar alguns dias numa fazenda da família de uma delas. Ambas estão em crise com seus casamentos, mas aguardam a chegada dos maridos para breve. Brígida é mais bonita e expansiva, ainda que com períodos de certa confusão e melancolia. Débora, parece ser mais racional e prática, mas não resiste muito quando confrontada aos seus problemas, principalmente emocionais e sexuais. O que as duas compartilham de mais valioso é a intimidade, como se o verdadeiro casal fosse o delas. Apesar de terem personalidades distintas, compartilham sonhos e segredos, embora estejam ambas num momento incerto de suas vidas.

Neste livro estes dramas interiores são potencializados pelo contato com a força vital da natureza: as estrelas à noite, a terra, os animais domesticados, a água – com rios e chuvas –, as árvores, plantas e pássaros. O intimismo meio que se entremeia, em momentos inspirados da narrativa, com motivos e eventos da natureza.

Mas em meio a este contexto existencial e primal, há um elemento de desestabilização sobre a vida das duas: Phom. Um ser indefinido que surge, ora para Brígida – que parece ser sua preferida –, ora para Débora. O contato e relação dele com as duas é incerto e intenso e avança para o crescente erotismo e a consumação sexual. O estranho é que quando ele não está presente, ambas se entregam aos seus problemas conjugais e psicológicos como se Phom não existisse. Mas mesmo quando ele surge – voando, se materializando, quase sempre à noite –, soa como estranho, quase como inexplicável para aquela que não está a ter o contato com ele. Vira uma espécie de segredo oculto entre as duas. Mas quem seria Phom?

Um anjo, um ser sobrenatural da natureza, uma espécie de vampiro, um extraterrestre? Mas Phom não é uma criação totalmente nova do autor, pois é possível estabelecer conexão com ao menos dois contos que ele publicou na coletânea Noites Marcianas: “Chamavam-me de Monstro” e “61 Cygni”. No primeiro, temos o alienígena Blixt, um ser do planeta Ghrh, que se apossa e se transforma em qualquer outra forma material, orgânica ou inorgânica. E em “61 Cygni”, uma mulher solitária tem contato com uma criatura simbionte, semelhante a Blixt. Ora, os dois elementos estão presentes: o alienígena e uma mulher! Desta forma, Phom deveria ser uma extensão do desenvolvimento do conceito. Mas, infelizmente, Cunha não se interessa em esclarecer, ou ao menos explorar um pouco mais sobre o elemento que é, afinal, o condutor de maior interesse da narrativa. E em certo ponto dela, ocorre o que poderia ser chamado de uma ruptura, pois o comportamento de ambas se torna psicologicamente e fisicamente muito alterado. Passam a ter ideias insanas e assassinas, desejos sexuais insólitos e engordam demais. Muito provavelmente grávidas do ser misterioso?




O Beijo Antes do Sono foi adaptado ao cinema como Amor Voraz (1984), pelo prestigioso diretor Walter Hugo Khouri (1929-2003). Ele é conhecido por seus filmes existencialistas e intimistas, que procura desvendar mistérios e obsessões da psique humana, talvez principalmente a masculina, como no seu personagem infeliz e solitário Marcelo, que se sucede em vários filmes. Mas em Amor Voraz o foco são as nuances e as complexidades femininas, um gênero humano, diria, mais misterioso. Afinal, a mulher teria uma relação mais sutil com os âmagos da realidade, por ser capaz de gerar uma vida, podendo, assim, talvez ser mais afeita à capacidade de lutar pela sobrevivência e transmitir o amor. Enfim, estou a divagar, mas é que tudo isso fica mais evidente no filme do que no livro. Neste, após a tal da ruptura a história perde mesmo seu rumo, com uma parte final em que os eventos perdem inteligibilidade, concluindo com uma estranha discussão teológica descolada do que parecia ser a proposta inicial da obra.

Mas talvez o mais curioso é que não o romance, mas o filme é claramente identificado com a FC, pois a personagem, interpretada por Vera Fisher – que seria a Brígida –, se comunica com Phom por telepatia, e fica a saber que ele vem de um planeta distante muitos anos-luz da Terra, e que ele germinou sob a água, após milhares de anos. Adquiriu a forma humana e deve voltar ao seu lar – numa viagem de luz – para comunicar se o nosso planeta é adequado à vida deles. Ora, há mesmo semelhanças aqui com outros filmes de FC como, por exemplo, ET, o Extraterrestre (1982) e Star Man: O Homem das Estrelas (1984). Ora, é irônico que um autor de FC escreve uma obra que insinua, mas não assume ser do gênero, e um diretor que nunca teve ligação alguma com ele, produz uma obra do tipo. E bem interessante.

O Beijo Antes do Sono, ganhou uma edição em Portugal, pela editora Bertrand, em 1976, mas, de fato, quase nunca é lembrado entre aqueles poucos que leem e pesquisam sobre a nossa FC. De Fausto Cunha se fala principalmente de As Noites Marcianas, de fato seu melhor livro. É um romance interessante, embora não desenvolva plenamente as potencialidades temáticas que seriam afeitas ao gênero, tornando-se desequilibrado em seu final. Mesmo assim, vale a pena ser conhecido.

Marcello Simão Branco


quinta-feira, 15 de junho de 2023

Spectros

Spectros, série de tv em sete episódios. Roteiro e direção Douglas Petrie. São Paulo: Moonshot Pictures, 2020. 


A grande contribuição dos serviços de televisionamento por streaming foi a abertura de espaços mais generosos à produção local independente, antes só acessível a produtoras calçadas por grandes corporações econômicas, como as redes de tv aberta, por exemplo. 
Desde que o canal Netflix exibiu, em 2016, a primeira temporada da série de ficção científica 3%, mais e mais produções nacionais têm chegado ao público, muitas vezes com relativo sucesso. Foi nessa mesma plataforma que estreou, em 2020, a série de horror sobrenatural Spectros, criação do roteirista e diretor Douglas Petrie, produzida pela Moonshot Pictures. 
Conta a história de duas estudantes adolescentes que se envolvem com um marginal justamente na noite em que ele pretende roubar o templo de uma bruxa no bairro paulistano da Liberdade. As coisas complicam quando um homem em chamas surge e derruba uma velha boneca japonesa, objeto que parece ter o poder de reduzir as fortes dores de cabeça que há tempos torturam uma das garotas. Na fuga, num automóvel roubado, o grupo atropela e mata o tocha humana e todos acabam presos pela polícia. Mas há muitos segredos obscuros por trás daquela singela boneca e praticamente tudo o que circula pela Liberdade naquela noite concorre para complicar ainda mais a chances dos jovens chegarem vivos ao próximo nascer do Sol. 
Fantasmas, mortos-vivos, maldições ancestrais e necromantes psicopatas são ingredientes que alteram a percepção do delicado ambiente da Liberdade, bairro tão conhecido e querido dos paulistanos.
A série de sete episódios tem um elenco baseado em atores jovens, como Danilo Mesquita (Pardal), Claudia Okuno (Mila), Mariana Sena (Carla), Enzo Barone (Zeca) e Drop Dashi/Pedro Carvalho (Zeca), além de atores veteranos como Carlos Takeshi (Celso), Miwa Yanagizawa (Zenóbia), Norival Rizzo (o pipoqueiro Mário) e Daniel Rocha (o detetive Ricardo). 
A narrativa é movimentada, com muita correria e variação cenográfica, que vai de prédios abandonados e comunidades carentes, até construções históricas e cemitérios antigos. Mas exagera na amplitude geográfica do bairro, sugerindo uma extensão territorial muito acima da real: para aproveitar a cenografia da Rua da Glória, o grupo de jovens circula por ela continuamente de automóvel, num bairro que se atravessa a pé em meia hora, se muito. Talvez quem não conheça a Liberdade não perceba, mas isso prejudica a narrativa, alongando uma história que ficaria bem melhor em três ou quatro episódios.
Deixando tais detalhes de lado, Spectros engrossa a tendência da produção fantástica nacional inspirada em mitologia e folclore, que está fortemente presente na literatura de ficção e agora também na teledramaturgia, que já conta com outras séries nos canais de streaming como Cidade invisível (2021, Netflix), Desalma (2020, HBO Max), A todo vapor (2020, Amazon Prime) e Vale dos esquecidos (2022, HBO Max). Não deixa de ser interessante, afinal, tais iniciativas vinculam-se mais fortemente à cultura nacional e exploram aspectos raramente tratados por obras estrangeiras do segmento, mas é preciso muito cuidado para não se apropriar de culturas alheias e até em tratar crenças ainda vivas como se folclore fossem. Spectros, contudo, escapa bem desse risco, na medida que incorpora um elenco variado com predomínio de atores japoneses. 
Como produção, Spectros entretém e traz para o debate uma série de temas significativos, como a tortura, a intolerância e o racismo, bem como a diversidade étnica e cultural do povo brasileiro. Os efeitos visuais são muito bons e todos os atores funcionam bem em seus papéis. Vale a pena assistir, desde que se tenha em mente que não se trata de um seriado americano: o ritmo é bem mais lento, mas o prazer de reconhecer os espaços e a realidade ali representados garante uma boa diversão.

Cesar Silva

quarta-feira, 7 de junho de 2023

No Limiar de Novos Mundos

 



No Limiar de Novos Mundos (The Shores of Another Sea), Chad Oliver. Tradução: José Sanz. Capa: Vera Duarte. 164 páginas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971. Lançado originalmente no mesmo ano.

 

Chad Oliver (1928-1993) notabilizou-se como um escritor de FC que abordou, como poucos, o tema do contato entre humanos e extraterrestres, tomando como base sua formação e atuação como professor de Antropologia, no qual fez longa carreira na Universidade do Texas. No Limiar de Novos Mundos não é diferente, é apenas mais sutil e com um nível de complexidade interessante, que ajuda a não tornar o romance só mais um neste subgênero dos mais explorados no campo.

Numa reserva na selva do Quenia, babuínos são capturados e enviados para os EUA. Royce Crawford a lidera junto a um disciplinado grupo de funcionários nativos, e convive com sua esposa e duas filhas pequenas. Tudo segue uma rotina aparentemente previsível, embora não sem a excitação do convívio com a natureza selvagem, até que Royce se espanta ao avistar uma estranha luz no céu. Mas isso seria apenas o prenúncio do que viria a seguir, quando alguns babuínos capturados somem das jaulas. Ao procurar respostas para estes mistérios, Royce e os demais irão se deparar com eventos ainda mais perturbadores, tais como novos comportamentos por parte dos babuínos – mais violentos e solitários (eles são primatas que vivem e agem coletivamente) –, que, eventualmente, os levará à conectá-los com a estranha luz que, vez por outra, se insinua como um farol na escuridão da selva.

Como disse antes, é uma história sutil, pois Royce descobrirá que a mudança de atitude dos babuínos se relaciona com uma manipulação do qual foram vítimas por parte de seres extraterrestres. A tal luz é, na verdade, a nave que aterrissou. Mas por todo o romance não se sabe quem são eles, porque vieram, o que querem e nem como eles são. A certeza do protagonista virá da forma mais dramática, quando uma de suas filhas é raptada pelos babuínos modificados e levada até o interior da nave. Tal mistério é intrigante e desafia a imaginação do leitor, e difere bastante dos outros dois romances de Oliver publicados no Brasil, que tratam do mesmo tema.

Primeiro em Vultos Sobre o Sol (Shadows in the Sun;1954), o romance de estreia do autor, o contato se dá por meio da descoberta da presença de alienígenas numa cidadezinha do interior dos EUA. Eles assumem a forma humana e criam colônias de ocupação planeta afora, até serem descobertos por um jovem antropólogo – mais detalhes aqui. Já em Os Senhores do Sonho (Unearthly Neighbors; 1960), somos nós da Terra que descobrimos um mundo com vida inteligente e para lá partirmos para estabelecermos contato – ler a resenha aqui.

Pois a sutiliza de No Limiar de Novos Mundos se dá não apenas pelo fato dos aliens não se mostrarem, mas pela própria história ocorrer numa parte do mundo ainda não plenamente civilizada, a selva africana. É como se o próprio cenário fosse um lugar alienígena, pois não plenamente dominado e civilizado pelo branco ocidental. Como deixa escapar o próprio Royce, ele estaria vivendo a última geração de uma região prestes a desaparecer. Além disso, e principalmente, está embutida uma ironia, pois o ocidental, que domina os nativos e faz experiências científicas com os babuínos, passa a ser ele mesmo objeto de experiências por visitantes extraterrestres. No fundo, é uma reflexão instigante sobre o imperialismo e nosso comportamento predador e abusivo com outras espécies, com seus diferentes níveis de senciência e consciência de si próprias, no caso os primatas, não por acaso os mais próximos do ser humano.

Em certa passagem do livro, Royce faz uma reflexão interessante sobre os motivos para se aventurar pelo espaço e travar contato com seres de outros mundos. Na verdade, expressa o raciocínio de Chad Oliver e pode servir de base para um pensamento racional sobre o assunto:

 

Suponhamos que um dia o homem pouse num planeta distante. Por que teria ele de ir, que impulso o levaria a viajar através da escuridão e de anos-luz? Poderia ele explicar e mesmo tentar? Se estivesse preparado para explorar aquele mundo apavorante, se aprisionasse alguns espécimes, que faria se fosse atacado por seres monstruosos, aos quais não podia entender? Pararia, os deixaria em paz? (página 140).

 

Outro aspecto de interesse do livro é sua abordagem, digamos, culturalista, na caracterização dos personagens quenianos e do funcionamento de uma reserva. Tudo é muito realista, longe dos estereótipos relacionados com os povos que ali vivem. O autor também apresenta uma abordagem narrativa que soa quase que nostálgica, entre um mundo de vida mais simples e despojado com a natureza, e o outro que invade e o modifica gradativa, mas inexoravelmente com os valores e modos mais refinados da civilização. Para Oliver é como se o ser humano tivesse perdido algo de sua essência ao romper de forma tão drástica com sua ancestralidade. Como se percebe, é uma história rica, pois pode ser interpretada através de várias camadas.

Contudo, o que não deixou de me causar incômodo foi a maneira como a premissa de que a alteração do comportamento dos babuínos fosse causada pela interferência de seres de fora da Terra. É que ela é mal desenvolvida, pois nem é considerada a hipótese de que os eventos pudessem ter sido provocados por algum projeto militar e científico secreto de um governo do nosso planeta. Ainda mais no contexto polarizado da Guerra Fria, quando, sabe-se, várias experiências exóticas e eticamente questionáveis foram realizadas por alguns países.

Mas tal aspecto não chega a comprometer a força da história e a riqueza de suas discussões, só possíveis porque escritas por um dos maiores especialistas na FC nos assuntos relacionados com os contatos e diferenças entre culturas. Pois se a paranoia ganhou o primeiro plano em Vultos Sobre o Sol e o reconhecimento da alteridade tem relevância em Os Senhores do Sonho, neste No Limiar de Novos Mundos, o que sobressaiu foi a relativização crítica e irônica das muitas formas de imposição cultural , que, no fim das contas, como que se desmancha no ar, em meio a possíveis situações desestabilizadoras e incontroláveis, que só mostram a insignificância humana no contexto do universo.

Marcello Simão Branco

 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Vaporpunk II

Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk, Fábio Fernandes e Romeu Martins, orgs. 224 páginas. São Paulo: Draco, 2014.

Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca época steampunk é o segundo volume do título e o quarto da série "punk" da editora Draco, que conta também com Vaporpunk (2010), Dieselpunk (2011), Solarpunk (2013) e Cyberpunk (2019). Trata-se de uma antologia de contos na tradição do modelo inaugurado por A máquina diferencial, romance de Bruce Sterling e William Gibson originalmente publicado em 1990 e traduzido no Brasil em 2012 pela editora Aleph, que propõe o desenvolvimento de tecnologias modernas, como aviões, automóveis e computadores, muito antes do que de fato aconteceram, alterando profundamente a história como a conhecemos.
Os organizadores Fábio Fernandes e Romeu Martins reuniram nove textos para investigar retrofuturos possíveis para o Brasil, mas sem ser muito exigente com o conceito. Há contos que sem dúvida são steampunk, mas outros têm no modelo uma relação distante ou mesmo nenhuma. 
Fábio Fernandes abre a seleta com "O alferes de ferro", uma história alternativa em que Tiradentes desenvolve uma armadura de combate para enfrentar a guarda colonial e o traidor Joaquim Silvério dos Reis. 
Romeu Martins participa com dois textos do policial ferroviário João Fumaça: "Tridente de Cristo" e "Modelo B". O personagem foi apresentado aos leitores no conto "Cidade Phantástica" na antologia Steampunk: Histórias de um passado extraordinário (2009, Tarja) e estas novas histórias o colocam diante de um terrorista que pretende explodir uma igreja durante um concorrido casamento no Rio de Janeiro imperial, e um automóvel a vapor de propriedade de um excêntrico milionário americano, trazido pro seu dedicado mordomo para a feira mundial no Brasil. Martins gosta de citar e fazer referências diversas a seus autores e personagens favoritos, tanto que um dos contos traz até um glossário explicitando algumas delas. 
"V.E.R.N.E. e o Farol de Dover", de Dana Guedes, parece um trecho de uma história mais longa, sobre a ação de um grupo de revoltosos contra o governo opressor do Reino Unido. 
Nikelen Witter apresenta, em "Uma missão para Miss Boite", uma história de mistério e espionagem que envolve uma relíquia valiosa. 
"Mecanismos precários" é um poema em prosa de Luiz Brás, visto antes na coletânea Máquina Macunaíma (2013), que fala sobre relações de amor e ódio representadas na luta entre dois robôs gigantes, com doses generosas de experimentalismo literário.  
"Notícias de Marte", de Sid Castro, é uma competente história alternativa com viagem no tempo, que trança narrativas separadas por um intervalo de dez anos. Em 1900, o piloto de uma aeronave da marinha se perde e vai parar num futuro em que não é bem vindo.
"O cerco de Dr. Vikare Blisset", de Jacques Barcia, se apresenta no estilo incomum de um relatório, no qual o detetive Carlos Werke enumera os crimes do famigerado ladrão de patentes Vikare Blisset.
O melhor conto da seleta é "Meus pais, os pterodáctilos", de Cirilo Lemos, com a história incrível de um jovem humano adotado por um casal de pterodáctilos, que precisa aprender a voar de qualquer maneira, caso contrário sofrerá severas consequências. 
A maior parte das histórias repete as fórmulas do já clássico romance de Sterling e Gibson, e, por isso, não se sobressaem na antologia. Os que logram maior significado são justamente aqueles textos que não seguem o padrão e investem em conceitos outros, como a história alternativa e o cyberpunk
Não é facil trazer novidades para um gênero que começou com um texto tão maduro e sofisticado como A máquina diferencial. Na verdade, nem mesmo autores estrangeiros profissionais conseguiram avançar além dele, logo, não se pode ser muito rigoroso com os autores amadores. Mas não deixa de ser uma leitura divertida para aqueles que apreciam a estética do steampunk.

Cesar Silva

sábado, 22 de abril de 2023

Anacrônicas, Ana Cristina Rodrigues

Anacrônicas: Contos mágicos e trágicos, Ana Cristina Rodrigues. 204 páginas. Rio de Janeiro: Aquário, 2014.


Ana Cristina Rodrigues construiu sua reputação como ativista cultural no ambiente da ficção fantástica através das redes sociais, sendo uma autora identificada claramente com o que os estudiosos do gênero convencionaram chamar de "terceira onda" da ficção científica brasileira. Como resultado direto de sua militância, Rodrigues foi, no início do século, a primeira mulher a presidir o Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC e teve sua ficção destacada principalmente no ambiente virtual. 
Anacrônicas: Pequenos contos mágicos foi, provavelmente, sua primeira seleta individual, publicada em 2009 pela Editora A1. O volume aqui analisado é a segunda edição do título, publicado em 2014 no selo Aquário, que a autora fundou ao lado do cartunista Estevão Ribeiro.
Esta edição reúne, em 204 páginas, boa parte da produção literária inicial da autora; republica doze textos da primeira edição, a eles acrescenta três inéditos e mais nove, vistos primeiro em diversas antologias, num total de 24 contos que se espalham em diversos ambientes no gênero da fantasia, quase sempre medieval. A autora afirma, no prefácio, que alguns dos textos são, de fato, trechos de um mesmo trabalho mais longo. 
Muitos contos são vinhetas e homenagens literárias, como a fanfic de Sandman, "O ladrão de sonhos", e a de Alice no País das Maravilhas, "É tarde".
O melhor texto da seleta é "O longo caminho de volta" que, com 24 páginas, também é mais mais longo do conjunto. Primeiro publicado na antologia Cidades indizíveis (2011, Liyr), fala sobre uma mulher que retorna para sua cidade natal depois de anos no exílio, para tentar restaurar sua dignidade. O interessante é que a cidade em que ela nasceu é uma gigantesca biblioteca a céu aberto. 
Também vale destacar  "O ensurdecedor silêncio dos deuses" (2016, Aquário), que é o texto que mais se aproxima da ficção científica e fala sobre o ritual de sacrifício do povo-macaco que vive oprimido pela tribo dos homens-águia. "Carta a monsenhor", visto primeiramente na antologia Paradigmas 2 (2009, Tarja), revela a confissão de um moribundo que passou a vida aterrorizado por demônios. Em "A morte do temerário", visto primeiro na antologia Espelhos irreais (2009, Multifoco), um príncipe procura por redenção na busca por uma ave mítica. E o drama arturiano "A dama de Shallot", texto já presente na edição de 2009, que fecha esta seleta.
Vale a visita à ficção de Ana Cristina Rodrigues que, independente de qualquer significado político que tenha conquistado ao longo de sua militância no fandom, possui um texto elegante que, devido ao seu aspecto histórico, pode agradar diversos tipos de leitores, especialmente aqueles que não são fãs de ficção fantástica.

Cesar Silva