segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Prêmio Argos 2025

O Prêmio Argos de Literatura Fantástica, provido anuamente desde 2000 pelo Clube dos Leitores de Ficção Científica-CLFC, reconhece os melhores trabalhos em romance, antologia e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa publicados no ano anterior. 
A escolha dos vencedores é realizada em um primeiro turno com votação exclusiva entre os membros do Clube, que indica cinco finalistas depois votados publicamente através de formulários divulgados nas redes sociais. 
Os vencedores da edição 2025 foram anunciados no último dia 20 de dezembro no auditório da Acaso Cultural, na cidade do Rio de Janeiro. São eles:
Romance: Garras, Lis Vilas Boas, Editora Rocco.
Coletânea: Revista Literatura Fantástica Vol. 20, Jean Gabriel Álamo, org., Álamo Edições.
Conto: "Pista Norte", Ursulla Mackenzie, in Cidades inversas, Editora Nebula.
A cerimônia foi transmitida ao vivo pela internet e seu vídeo, na íntegra, pode ser visto aqui.
Parabéns aos premiados.

VIII Prêmio ABERST de Literatura - 2025

Criado em 2018, o Prêmio ABERST é uma promoção da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, e aponta os melhores trabalhos especificamente inscritos para o certame,  publicados pela primeira vez entre 1 de julho do ano anterior e 30 de junho do ano corrente. 
Os vencedores da edição de 2025 foram anunciados no dia 12 de dezembro de 2025, em evento presencial transmitido pela internet, cujo vídeo completo pode ser assistido aqui
E os ganhadores são: 
Prêmio Sebastião Salgado – Projeto Gráfico: Mau Noronha e a onça cabocla, Larissa Brasil.
Prêmio Catacumba – Quadrinhos de Crime ou Terror: Le Chevalier e a volta ao mundo em oitenta horas, A.Z. Cordenonsi & Fred Rubim.
Prêmio Lúcia Machado de Almeida – Narrativa curta de ficção de crime: Arranha céu, Mário Bentes.
Prêmio Stella Carr – Narrativa curta de suspense: Portais para o vazio, Renata Madeo.
Prêmio Lygia Fagundes Telles – Narrativa curta de terror: Fruto podre; Lucas Santana.
Prêmio Lygia Bojunga – Narrativa curta juvenil/juvem adulto: Tremores, Nicole Annunciato.
Prêmio Rubem Fonseca – Narrativa longa de ficção de crime: Legítima defesa, Iza Artagão.
Prêmio Cláudia Lemes – Narrativa longa de suspense: A relíquia de Judas, André Alves.
Prêmio Rubens Lucchetti – Narrativa longa de terror: Sim, tenha medo, Sheize Piezentini.
Prêmio Marcos Rey – Narrativa longa juvenil/jovem adulto: O jovem Arséne Lupin e a coroa de ferro, Simone Saueressig.
Prêmio revelação 2025: Renata Madeo.
Prêmio Grand ABERST: Caixa de silêncios, Marcella Rosetti.
Prêmio ABERST Inéditos - Narrativa curta: "O espelho da minha mãe", Renato Dutra.
Prêmio ABERST Inéditos - Narrativa longa: "O dia em que eu conheci um assassino"; Stefany Borba.
As categorias Prêmio Maria Firmina dos Reis – Narrativa curta século XXI e Prêmio Eliana Alves Cruz – Narrativa longa século XXI não foram apuradas nesta edição. A divulgação oficial não forneceu os detalhes editorais dos trabalhos premiados.
Parabéns a todos.

Prêmio Odisseia 2025

Criado em 2019, o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica homenageia os favoritos de um júri composto por escritores convidados, dentre uma relação de obras publicadas no ano anterior especificamente inscritas para o certame. A edição 2025 anunciou seus vencedores aconteceu durante a Feira do Livro de Porto Alegre, no último dia 16 de novembro. 
Os jurados do Prêmio em 2025 foram Adriana Maschmann, Diego Mendonça, Duda Falcão, Gustavo Czkester, Irka Barrios, Ismael Chaves, Lu Aranha e Mario Pool Gomes. E os vencedores são: 
Projeto gráfico: 
Ricardo Celestino, O vazio e sei lá o que mais…, Necrose.
Quadrinho fantástico: 
Julio Wong, Kiko Garcia e Ser Cabral, À moda da casa, Kikomics e Antenor Produções.
Narrativa longa juvenil: 
Larissa Brasil, Mau Noronha e a Onça Cabocla, Independente.
Narrativa curta horror: 
Raquel Setz, Magic Help, Oito e Meio.
Narrativa curta fantasia: 
R. M. Albuquerque, Pocalina e os mortos que sonham, Independente.
Narrativa curta  ficção científica: 
Luis Felipe Mayorga, "Predações da Harpia-Açu", Literatura Fantástica vol.15.
Narrativa longa  horror: 
Iza Artagão, Legítima defesa, Rocket.
Narrativa longa  fantasia: 
Giu Domingues, Canção dos ossos, Galera Record.
Narrativa longa ficção científica: 
Fábio Fernandes, O Torneio de Sombras: As aventuras de January Purcell, Avec.
Artigo fantástico:
Nathalia Xavier Thomaz, "Histórias em quadrinhos: Uma arte antropofágica", Quadrinhos famintos: A 9.a arte como linguagem do limiar – FFLCH/USP.
Conto inédito:
Patrícia Baikal, "Os lírios também têm memórias".
Todos os contos participantes desta última categoria podem ser lidos no terceiro número da Revista Odisseia de Literatura Fantástica, publicação exclusiva do evento que foi distribuída aos presentes durante o evento. A versão digital da mesma, bem como das edições anteriores, podem ser baixadas gratitamente aqui. E a lista completa dos indicados pode ser lida aqui
Parabéns aos vencedores!

67º Jabuti

O Prêmio Jabuti é a mais prestigiosa premiação do ambiente editorial brasileiro. Promovido pela Câmara Brasileira do Livro, inaugurou em 2020 a categoria: "Romance de Entretenimento", que contempla livros de  ficção científica, fantasia e horror, entre outros gêneros. Os finalistas de cada categoria são escolhidos dentre uma lista de inscritos para o certame, por um juri de três especialistas na área. Além do vencedor, vale citar todos os finalistas da categoria, pois o reconhecimento da CBL muito significativo. São eles:
1º Lugar: As fronteiras de Oline, Rafael Zoehler, Patuá.
Demais finalistas: 
A Casa da Opera de Manoel Luiz, Celso Taddei, Mondru; Boas meninas se afogam em silêncio, Andressa Tabaczinski, Rocco; O amor e sua fome, Lorena Portela, Todavia; Uma família feliz, Raphael Montes, Companhia das Letras.
A relação completa dos vencedores de todas as categorias do 67º Prêmio Jabuti pode ser conferida aqui.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Bestiário, Júlio Cortázar

Bestiário
(Bestiario), Júlio Cortázar, 112 páginas, tradução de Remy Corga Filho. São Paulo: Edibolso, 1977. Publicado originalmente em 1951.

Bestiário é uma coletânea com oito contos do escritor argentino Júlio Cortazar (1914-1984), publicada originalmente em 1951. O autor é vinculado ao fantástico latinoamericano, ao lado de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Gabriel Garcia Marques, mas apresenta um estilo muito particular que o identifica perante seus colegas. 
Cortázar nasceu na Bélgica, mas foi criado na Argentina desde os três anos de idade. Mais tarde, naturalizou-se francês, em protesto contra a ditadura na Argentina. Seus textos muitas vezes se aproximam do surrealismo, escola com a qual também é identificado. 
Os contos desta coletânea são todos curtos, mas a leitura não é fácil nem divertida: são textos perturbadores e dolorosos. Realistas, quase sempre poderiam ser instalados no mundo real sem muito mistério mas, mesmo assim, carregam estranhamento suficiente para torná-los eventos incomuns; cada um proporciona ao leitor uma experiência estética profunda e singular. 
O conto de abertura é "Casa tomada": um casal de irmãos habita uma mansão que, aos poucos, vai sendo invadida por estranhos. "Carta a uma senhora em Paris" é um relato epistolar em que a missivista acredita vomitar coelhos. "A distante" mostra um trecho do diário íntimo de uma mulher que tem vislumbres trágicos de uma outra vida, não necessariamente dela. "Ônibus" relata o início do passeio de uma doméstica em seu dia de folga. Ela embarca em um ônibus metropolitano em que acontecem coisas muito estranhas. "Cefaleia" narra o dia-a-dia de um casal numa granja de mancuspias (um animal imaginário). Contudo, os granjeiros são regidos por uma fixação em doenças. "Circe" é o conto mais simples, sobre um rapaz que flerta uma garota cujos  noivos anteriores morreram em condições misteriosas. O nome do conto meio que entrega, mas o final não é tão previsível. Em "As portas do céu", dois jovens de luto vão espairecer em um barzinho e lá tem uma experiência algo metafísica. "Bestiário", que encerra e dá nome a seleta, é uma espécie de Sítio do Picapau Amarelo à moda portenha, ou seja, não é para crianças. Uma garotinha vai passar as férias na fazenda dos tios que estão com problemas no casamento, mas todos sempre têm de estar muito atentos para evitar um tigre que vaga entre os aposentos da residência.
A edição deste resenha é de 1977, publicada pela Edibolso; tem 112 páginas e tradução de Remy Corga Filho. Mas há edições mais recentes disponíveis nas livrarias, inclusive uma de 2025 pela Companhia das Letras. Leitura obrigatória para todos que pretendem conhecer os traços identitários da ficção latinoamenricana e brasileira. 
Parafraseando o ditado, com Cortázar não se aprende pelo amor, mas pela dor.
Cesar Silva

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

40 Anos do CLFC

 



Um Clube com Quatro Décadas de Ficção Científica

 

Marcello Simão Branco (sócio 83)

 

    Quando R.C. Nascimento propôs a criação de um clube de leitores de ficção científica em 1985, como um anexo do seu valioso e hoje raro Quem é Quem na FC, Volume 1: A Coleção Argonauta, não imaginaria, primeiro que o clube seria de fato formado, depois que se manteria como a principal instituição do fandom brasileiro por vários anos, e em terceiro que chegaria a completar quatro décadas de existência, como acontece neste 15 de dezembro de 2025.

    Há dez anos eu escrevi um balanço mais detalhado e analítico da trajetória do clube e, em boa medida, ele se mantém  veja no terceiro texto aqui. Agora, ao apagar quarenta velinhas, o tom que quero adotar é de um pouco mais de depoimento.

    A começar pelo fato de que o CLFC tem muito do que foi o Nascimento. Uma pessoa apaixonada por FC, muito organizada e com grande liderança. O clube nasceu a partir de sua ideia, e se desenvolveu, até pelo menos, o final do século XX, muito em função de seus valores e objetivos para o que deveria ser um clube de leitores. Não fosse a sua enorme capacidade de trabalho – principalmente quando presidente (1985-1989) –, provavelmente o CLFC não teria sobrevivido, pois ele desenvolveu uma atividade intensa, que não só estruturou um clube de fãs de FC, mas uma instituição que organizou uma comunidade voltada para o gênero.

    Ora, de saída foi redigido um estatuto, os processos sucessórios sempre foram eletivos, se estabeleceu atividades regulares, a principal delas, a reunião mensal dos sócios, sempre na manhã do último sábado de cada mês na cidade de São Paulo – que infelizmente foi descontinuada por causa da pandemia –, foi criado um órgão oficial, rapidamente batizado por meio de uma enquete dos sócios de Somnium, ainda hoje em atividade – para sua história, veja aqui –, além do Informativo Mensal CLFC, mais voltado às notícias internas do clube, que vigorou por alguns anos. Foi incentivada uma enorme rede de correspondências postais entre os associados – sim isso existiu, uma troca de cartas vigorosa entre os membros. Eu mesmo recebia e escrevia várias por semana. Tudo isso teve como consequência trazer muita gente talentosa ao clube, alterando seu perfil inicial de uma associação de leitores e colecionadores. Assim, surgiram novos leitores – como eu –, fanzineiros, autores em atividade e iniciantes, ilustradores, editores, tradutores etc. Eu mesmo me inspirei em parte no Somnium para criar meu próprio fanzine, o Megalon em novembro de 1988, após ter me associado ao clube em maio de 1987 – e cheguei inclusive a editar o próprio Somnium entre 1995 e 1996.

    Destes anos iniciais lembro de alguns eventos marcantes e comemorativos, como a reunião histórica de dezembro de 1987 em São Paulo – que eu já contei em outra ocasião, veja aqui –, os almoços dos 5 anos (em 1990) e o de 15 anos (em 2000), com as presenças de vários sócios, não só da capital paulista, mas também de outras cidades, inclusive de outros estados. E sem esquecer das reuniões de finais de ano. Por mais de vinte anos os sócios paulistas – pelo menos – confraternizaram com animados almoços, talvez a maioria deles na belíssima residência de Alfredo Kepler, ele que também presidiu o clube por mais de um mandato, entre 2003 e 2007.

    Com o passar dos anos, o CLFC foi alterando suas características num processo relacionado com as próprias mudanças da FCB em geral. De início em ser um clube mais ativista em divulgar a FC e organizar o fandom, para um mais voltado às iniciativas de publicações e relações sociais mais distantes, porque realizadas principalmente no ambiente online da internet. Esta última fase é a que marca a saída da primeira geração que liderou o clube, para uma nova – que em parte conheceu o clube depois – e voltada à outras conexões e interesses, em que o clube não é mais o centro do fandom, mas apenas sua instituição mais tradicional.

    O principal momento do CLFC como líder da produção e reflexão sobre a FCB se deu entre 1985 a 2000. Neste período publicou um dos principais fanzines, organizou projetos de divulgação marcantes – como as Mostras de FC junto ao Sesi em SP –, conseguiu divulgações na grande imprensa, principalmente a paulistana – por onde eu mesmo conheci o clube, em 1986 –, estabeleceu consultorias e parcerias com editoras, como a GRD, a Aleph e a Record –, ajudou na criação e organização de, pelo menos, outro clube, o Trekker´s Club, sobre Jornada nas Estrelas, em 1989.

    Também trouxe de volta ao convívio personalidades da Primeira Onda, como Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), André Carneiro (1922-2014), e Gumercindo Rocha Dorea (1924-2021) – estes dois últimos muito presentes nestes anos. André organizou concorridas oficinas literárias e voltou a publicar livros, e Gumercindo, de tão animado, relançou em novos moldes sua clássica coleção de FC, agora com novos autores, a maioria talentos do próprio clube. Além disso, ele foi até presidente, de 1993 a 1997. Assim, nestes primeiros quinze anos o CLFC tornou possível uma maior divulgação do gênero, e o desenvolvimento de muitos talentos, como escritores, ilustradores e editores, alguns dos quais seguiram carreiras no ambiente profissional com relativo êxito e reconhecimento.

    Como uma espécie de última etapa desta fase e passagem para a próxima, foi criado o Argos em 2000, que se tornou a mais longeva premiação da FCB, mantendo a tradição de premiação do fandom, iniciada com o saudoso e influente Prêmio Nova (1987-1996), criado por Roberto de Sousa Causo. Outra iniciativa que se tornou tradicional foi a lista de discussão do clube na internet, através de servidores de e-mails. Na época uma grande novidade que trouxe alguns anos de intensos e polêmicos debates, depois reduziu as atividades embora, de forma surpreendente, ainda se mantenha como o principal veículo de comunicação dos associados, mesmo com o surgimento de várias outras tecnologias de interação virtual criadas deste então.

    Interessante também que a entrada no século XXI marcou a transferência das principais decisões de São Paulo para o Rio de Janeiro, num processo, na verdade, iniciado um pouco antes quando Gerson Lodi-Ribeiro foi presidente, de 1999 a 2003. Pois de 2007 a setembro de 2025, tivemos quatro dirigentes da capital carioca, embora, agora em seus 40 anos, o clube esteja sob a direção de Sidemar Vicente de Castro, baseado em Catanduva, interior de São Paulo.

    A se lamentar apenas que as atividades presenciais tenham diminuído de maneira drástica, sem nenhuma atividade presencial regular, seja em São Paulo, Rio ou outra cidade. Não porque houve a mudança de cidade, mas porque surgiram novos hábitos entre muitos dos sócios mais novos, mais vinculados às redes sociais e com pouco convívio com os sócios mais antigos. E parte destes, por sua vez, acabaram por se afastar do clube e da própria comunidade da FC.

    Neste particular quero chamar a atenção para os amigos com quem convivi mais de perto e que infelizmente já nos deixaram. Pessoas de quem só posso ter saudade, a começar pelo Nascimento, uma referência na minha trajetória na FC, o colecionador obsessivo Caio Luiz Cardoso Sampaio, os já citados André Carneiro e Gumercindo Rocha Dorea – este com quem tive o privilégio de conviver por anos e até frequentar sua casa, lotada de livros –, o fã de Kurt Vonnegut Jr. e Jornada nas Estrelas Christiano de Mello Nunes – que morreu precocemente –, o Ayrton Santos Miranda, camarada e dono da maior biblioteca de FC que já vi, o editor Douglas Quinta Reis, um idealista e parceiro de muitos projetos e, mais recentemente, o Fritz Peter Bendinelli e o Sérgio Roberto Lins da Costa, entre os primeiros sócios que conheci no clube e dos maiores leitores de FC que já vi. Também poderia lembrar de companheiros que se afastaram do clube e do fandom, mas espero que possa revê-los ainda e superar, com alguns deles, desgastes até naturais num convívio de vários anos.

    Enfim, neste século XXI, como disse, o CLFC mudou muito em relação às suas características e importância de seus primeiros anos, mas, na medida do possível, tem procurado manter os valores principais estabelecidos desde sua fundação: apoiar e promover a FC brasileira, abrir espaço para novos talentos e permitir um elo de comunicação e intercâmbio de ideias e projetos entre todos os que amam a FC. Enquanto tudo isso estiver em pauta o CLFC justificará mais décadas de vida e se manterá relevante para o futuro da nossa FC.


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Apócrifos do Futuro

 



    Apócrifos do Futuro, Romy Schinzare. Capa: Matéria-Prima Editorial. 154 páginas. São Paulo: Patuá Editora, 2022.

 

    Este livro é uma coletânea com quinze contos, que transita de forma livre e ousada entre a ficção científica, o fantástico e o horror. Sempre com um viés mais literário. Ou seja, escritos com um apuro e uma sofisticação acima da média. De fato, a autora, antes de mais nada, escreve muito bem. E, independentemente do enredo, há um prazer estético na leitura das histórias.

    Mas em termos temáticos também não estamos no terreno do lugar comum, pois as histórias se insinuam de uma maneira para se modificar depois, de forma quase sempre sutil. Basta uma frase ou uma mudança de parágrafo para que os contos, via de regra, adentrem num novo ambiente ou numa reviravolta, sem que com isso perca em fluidez ou inteligibilidade.

    E há bastante variedade temática e de gênero, com contos de FC mais identificáveis, como, por exemplo, “A Rainha”, “Aquária”, “Buraco de Minhoca II”, “Habitantes dos Abismos”, “Híbridos”, “Robôs de Marte II”; outros mais ambíguos entre diferentes gêneros, como “Terremoto”, “Zayn”, “Cubo do Destino”, “Diana” e “Shelby”, e aqueles mais próximos ao horror, como “Carmilla”, “O Chamado”, “Quando a Música Tocar” e “Valparaíso”.

    “Terremoto” é o primeiro conto. É um relato interessante sobre uma tragédia que surpreende o cotidiano em pleno metrô da cidade de São Paulo. Somos colocados numa situação que impacta porque poderia ser conosco. Eu, por exemplo, uso com frequência o metrô e, particularmente, a linha dois verde, entre Vila Madalena e Vila Prudente. Mas a narrativa é perturbadora principalmente por inserir os efeitos do desastre para além da vida.

    Outro conto singular é “A Rainha”, que se debruça sobre as possíveis consequências da crise climática. Toda a geopolítica e o sistema econômico entram em colapso e são substituídos pelo comando e ação de robôs e inteligências artificiais. Mas o fulcro do conflito social se manteve em dois níveis: 1) a luta de classes entre uma nova elite e o povo, sempre explorado e 2) a luta também entre a humanidade e as máquinas. Renderia mesmo um romance, pois ficou parecendo uma espécie de ótimo resumo para algo mais ambicioso. Quem sabe?

    “Aquária” e uma história intrigante sobre paranoia e invasão alienígena. Após mergulhar numa piscina, subitamente, Amana se vê diante de seres alienígenas. Eles querem usá-la para convencer seu pai, um renomado cientista, de que deve libertar os alienígenas que foram raptados de seu planeta e trazidos à Terra. Caso contrário, a humanidade poderá ser extinta. Mas, depois de retornar ao seu ambiente conhecido, claro, ninguém acredita nela, nem seu pai, que se mostra desalentado com os repetidos surtos da filha. O final deixa a sensação de que Amana pode ter razão. Mas o mérito está, justamente, na dúvida.

    Outra particularidade da coletânea é o protagonismo feminino na maioria das histórias. “Zayn” – uma fábula sobre uma garota que aprisiona um inseto, para depois servir de alimento a ele –, “Carmilla” – como o próprio nome indica, a história de uma vampira –, “Diana”, sobre uma atriz que tem sua imagem usada para a produção de filmes, tornando-se ela mesma, descartável. Mas este protagonismo, como já indicado no comentário sobre “A Rainha”, não se limita aos títulos femininos. Se faz presente em outras histórias também. Ou seja, Apócrifos do Futuro é uma obra que aborda temas especulativos principalmente a partir da perspectiva feminina, o que confere mais um aspecto diferenciado em gêneros literários ainda fortemente marcados pelo ponto de vista masculino.

    Mais um aspecto que confere atualidade ao livro é a presença dos temas da crise climática da inteligência artificial em várias histórias. Talvez estes sejam os dois tópicos de mudanças mais significativas para a humanidade neste século, e Romy Schinzare os trabalha de forma sensível e inteligente, ao mostrar o perigo real de um colapso ambiental e a eventual perda de controle da humanidade sobre as máquinas. No fundo, não são temas novos dentro da FC, mas que se são especialmente relevantes pois se tornaram parte da realidade contemporânea. Nesse sentido, o conto “Híbridos” é especialmente inspirado, pois assume uma curiosa e inusitada vingança dos deuses da natureza diante da predação ambiental, particularmente das praias.

    Duas histórias de horror ampliam o leque temático da obra. Em “O Chamado”, um grafiteiro após terminar um trabalho, se apronta para se divertir na noite de sábado em São Paulo. Mas ele não vai num barzinho ou numa balada. Mas no cemitério da Quarta Parada, na zona leste da cidade. Traz apenas sua caixa de som e depois de dançar ao som de algumas músicas sobre alguns túmulos, se vê imerso num cenário estranho e irreal, com a presença de vários mortos dançando com ele. Apavorado, tenta se evadir do local, mas pela manhã, um funcionário do cemitério não deixa de perceber algo estranho – embora já tenha ocorrido antes – no túmulo de um certo grafiteiro. É um conto de horror excepcional.

    “Valparaíso” fecha o livro também de forma contundente. É uma história permeada por mistério e mudanças em torno de uma vingança que atravessa gerações e vidas passadas. Tão importante quanto o sobrenatural é a ambientação numa cidadezinha do interior paulista, com uma comunidade rural isolada que cultua seus ancestrais por meio de rituais misteriosos. No fundo, uma história de amor mal sucedido que encontra um desfecho perturbador para vingar a morte de uma jovem.

    Como o leitor já deve ter percebido, Apócrifos do Futuro é uma coletânea com muitas qualidades. Se coloca em destaque no contexto da FC&F brasileira atual, numa autora que tem se tornado presente em antologias mais recentes como, por exemplo, em Outros Brasis da Ficção Científica (2021), mas que já tem algumas obras anteriores: as coletâneas Mandrágora (2017) e Contos Reversos (2018). Com sólida carreira como professora e educadora na rede pública da cidade de São Paulo, a autora se coloca como uma contista de prosa fina e madura e, mais relevante, com voz e soluções próprias, que fogem do convencional e por isso merece ser acompanhada.

Marcello Simão Branco

 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Boneshaker, Cherie Priest

Boneshaker (Boneshaker), Cherie Priest. Tradução não identificada. 404 páginas. Baependi: Underworld, 2012.

Boneshaker é um romance retrofuturista steampunk de autoria da escritora americana Cherie Priest, publicado em 2012 pela extinta Editora Underworld. Originalmente publicado em 2009, foi indicado aos prêmios Hugo e Nebula, e venceu o Prêmio Locus de Melhor Romance de Ficção Científica.
A personagem principal é Briar Wilkes, uma mulher de meia idade, neta de um falecido líder carismático da cidade de Seattle, e viúva de Leviticus Blue, gênio da mecânica que criou um veículo perfurador – o Boneshaker do título – que, por acidente, devastou a cidade e rompeu algum tipo de bolsão de gás natural mortal que torna algumas das pessoas tocadas por ele em zumbis. Desde então, parte de Seattle foi segregada com uma muralha altíssima, que contém tanto o miasma quanto os zumbis. 
Briar vive do lado externo da muralha, estigmatizada pela tragédia causado pelo marido, que morreu no acidente, e sofrendo todo tipo de bulling dos demais sobreviventes, que a corresponsabilizam por seus prejuízos. E não se entende bem com o filho adolescente, Zeke, que acha que o pai era um herói e que as pessoas que os maltratam estão erradas a seu respeito. Ele fica sabendo que há pessoas vivendo dentro da muralha e, depois de uma discussão especialmente acalorada com a mãe, decide entrar na área segregada para buscar provas da retidão do pai no antigo casarão de família, que parece guardar muitos segredos incomuns. Para isso, usa um túnel secreto através do qual contrabandistas transportam a "Seiva de Limão", beberragem alucinógena destilada do próprio miasma. Ele pretende retornar antes que sua mãe dê por sua falta, mas ocorre um terremoto, os túneis desabam e Zeke fica preso dentro da área proibida. Desesperada com o desaparecimento do filho, Briar se lança a uma perigosa missão para resgatar Zeke de dentro das muralhas e evitar que ele venha a descobrir o mais sinistro segredo da sua vida. 
Boneshaker tem um texto excelente. Bom de ler e muito saboroso. Os personagens são fortes e interessantes, como o vilão Dr. Minnericht, a lutadora Princesa Angeline, o Capitão Cly e toda a tripulação do dirigível Naamah Darling, o malandro Rudy, o guerreiro Jeremiah Swalhammer e sua armadura de mil e uma utilidades, a barwoman Lucy O'Gunning, e muitos outros. 
O romance segue a risca a regra sagrada do steampunk, fundada pelos escritores americanos Willian Gibson e Bruce Sterling em A máquina diferencial: em algum momento, tem que acontecer uma revolução popular. E ela vai acontecer, é claro, no clímax da história. Também há muitas máquinas a vapor, dirigíveis, máscaras de solda e tudo mais que caracteriza este subgênero, que conta com seguidores ardorosos no Brasil. 
Boneshaker é o primeiro de uma série de sete romances que formam o Universo Clockwork Century:  Boneshaker(2009), Clementine (2010), Dreadnough (2010), Ganymede (2011), The Inexplicables (2012), Fiddlehead (2013) e Jacaranda (2015); nenhum outro saiu aqui. 
O mais curioso é que a autora não seja mais popular, pois não foi à toa que ganhou o Locus. Há, contudo, um segundo romance de Priest em português: Ela está em todo lugar (I am Princess X), história de fantasia urbana que une prosa e quadrinhos, publicada aqui em 2015 pela Editora Gutenberg, mas que não tem qualquer relação como universo de Boneshaker.
Vale a pena buscar nos sebos por um dos raros exemplares desse romance, pois é uma leitura intensa, emocionante e agradável. Tomara que outra editora republique esse título, bem como os demais da série, pois Cherie Priest é uma escritora excelente que merece ser mais lida.
Cesar Silva

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Perfuraneve

 


    O Perfuraneve (Le Transperceneige), Jacques Lob e Benjamin Legrand (texto) e Jean-Marc Rochette (desenho). Posfácio: Jean-Pierre Dionnet. Tradução: Daniel Luhmann. Capa: Pedro Inoue. 280 páginas. São Paulo: Aleph, 2015. Lançamento original entre 1982 e 2000.

 

Percorrendo a branca imensidão de um eterno e congelante inverno de solidão, corre, de uma ponta à outra da Terra, um trem cujo movimento nunca se encerra... É o expresso perfuraneve, com seus mil e um vagões.

 

    É com esse verso de certa melancolia e resignação que tem início uma das obras de FC mais interessantes das últimas décadas. Embora seja originalmente uma graphic novel, meu primeiro contato com a obra foi por meio de sua adaptação ao cinema, Expresso do Amanhã (Snowpiercer; 2013), do diretor coreano Bong Joon-ho, o mesmo que dirigiu em 2019 o impactante Parasita (Gisaengchung), premiado com o Oscar de melhor filme e a Palma de Ouro em Cannes.

    O filme é uma FC de primeiro nível, dos melhores produzidos neste século, mas tinha vontade de ler a obra original, uma criação dos franceses Jacques Lob (1932-1990), Benjamin Legrand (1950) e Jean-Marc Rochette (1956).

    A proposta da obra é instigante e beira a originalidade – algo tão difícil –, ao mostrar um mundo num pós-apocalipse climático, sob um rigoroso inverno glacial de cerca de – 90º C, e percorrido por um trem gigantesco levando o que teria restado da humanidade, numa viagem em círculos, rumo a lugar algum.

    Sempre imaginei como tal projeto havia sido concebido e a HQ esclarece que, originalmente, o bólido não se destinava a uma missão de sobrevivência. Era um trem de turismo de luxo, que teve de ser adaptado para abrigar o máximo possível de pessoas devido à catástrofe glacial. Assim, ao trem original, foi acrescentado centenas de vagões e que quanto mais distantes do original, menos relação guardava com o projeto para o qual havia sido concebido. Com isso, do meio para o fim do comboio, as condições de vida só fizeram piorar. Uma situação concreta de abandono à própria sorte, com menos aquecimento, pouca comida e água, alojamentos improvisados e precários, sujeira e muita, mas muita gente amontoada, superlotando a maioria dos vagões. E tudo isso rigidamente controlado por uma força militar para que as pessoas não ultrapassem seus vagões, ameaçando a vida dos bacanas da proa do expresso.

    A certo ponto, é revelado que a falta de alimento suficiente chegou ao ponto de levar as pessoas, desesperadas, a comerem os restos dos mortos, que também não tinham onde ser sepultados. Por outro lado, como dito, da metade até a locomotiva havia todos os luxos possíveis. Habitados pela elite de políticos, empresários, religiosos e militares. Desfrutam do bom e do melhor, com habitações confortáveis, locais para lazer e atividades culturais (teatro, cinema), e alimentos fartos e saudáveis, produzidos em hortas e granjas com frangos, coelhos e camundongos. Mas eles não vivem tranquilos, pois temem uma invasão da maioria explorada dos vagões retardatários.

    O Perfuraneve se divide em três histórias, escritas em momentos diferentes e reunidas nesta edição: “A Fuga” (Le Transperceneige; 1982 – depois renomeada como The Escape), “Os Exploradores” (The Explorers; 1999) e “A Travessia” (The Crossing; 2000). A primeira escrita por Jacques Lob – o autor original da obra –, e a segunda e a terceira por Benjamin Legrand, com todas ilustradas por Jean-Marc Rochette. Uma quarta aventura, Terminus, saiu depois, em 2015, com textos de Olivier Bouquet (1973) e Alexis Nolent (1967), com uma conclusão para a série. Isso porque, de fato, o final da terceira história deixa o desfecho em aberto. Além disso, uma prequela com três aventuras também foi publicada – entre 2019 e 2020 –, explorando eventos anteriores à primeira história, com textos de Nolent (assinado como Matz) e desenhos de Rochette. Os dois primeiros já saíram, e o terceiro está previsto para este ano.



    “A Fuga” mostra o início da trama, com o trem percorrendo o planeta após a catástrofe ambiental. É onde Proloff, um homem dos últimos vagões consegue chegar até onde as pessoas vivem melhor. Mas com ele se espalha uma doença rapidamente contagiosa, e ele é posto em quarentena. Onde também é colocada, a bela Adeline Belleou, ativista de um movimento político que busca melhorar as condições de vida dos miseráveis. Posteriormente, são levados até a presença do presidente e do general, onde conhecem a vida de luxúria da elite.

    Os líderes querem que o casal organize a população para que desocupem os últimos vagões e migrem para os do meio do comboio, pois pretendem descartá-los porque a locomotiva estaria perdendo velocidade e, com isso, pioraria as condições de sobrevivência, já que o aquecimento interno é mantido pela alta velocidade constante do veículo. Mas, Proloff e Adeline descobrem que, na verdade, a intenção é se livrar deles e dos explorados, descartando os vagões antes que saiam de lá. Lideram, então, uma revolta, mas que é inútil, já que a doença, supostamente trazida por Proloff, se espalhou e está a matar a maioria das pessoas. O filme se concentra justamente nesta história, a melhor das três.

    A segunda, “Os Exploradores”, avança no tempo, e apresenta um outro trem, o Desbrava-Gelo. Menor que o primeiro, mas também socialmente dividido entre uma minoria abastada e uma maioria explorada, transita na mesma rodovia circular. Viceja um medo comum: que possa colidir com o Perfuraneve, tido como desaparecido. Assim, o trem é desacelerado e freia para que uma missão de exploradores busque uma possível alternativa à vida confinada. Apenas um soldado volta com vida, Puig Valles, e mesmo a contragosto dos líderes, se torna uma liderança popular e se casa com Val Kennel, uma artista e filha do governante. O isolamento e claustrofobia é tão intenso que dá vazão ao surgimento de uma seita que acredita que, na verdade, eles vivem numa nave espacial e estão no espaço e não na Terra.

    Na terceira aventura, “A Travessia”, o mesmo Desbrava-Gelo recebe uma mensagem de rádio vinda do outro lado do oceano. Com isso, se reacende a esperança de que possa haver outro grupo de humanos sobreviventes, e se organiza uma missão para chegar até lá. É revelado que, o motor principal do Perfuraneve foi obtido, pois teria havido a temida colisão, embora sem uma consequência dramática, e agora, o motor será usado para potencializar o Desbrava-Gelo em sair dos trilhos, com o uso de esteiras. Valles irá liderar a missão, mas com a oposição de alguns líderes, incomodados com sua popularidade. Um motim estoura no interior do trem na ausência de Valles, mas isso não será o pior, mas sim a frustração com o fato do sinal de rádio ser apenas uma mensagem automática.

    No fundo, para além da ousada ideia de uma máquina movida numa energia de moto-perpétuo – um mito recorrente da Física –, o grande tema da obra é a luta de classes. De como a elite explora a maioria miserável, e a manipula para manter seus valores e luxos. Mas isso não dura para sempre – assim como a eficiência das máquinas –, e o eixo da narrativa é o conflito entre as duas classes, numa interessante extrapolação do materialismo histórico marxista. Ainda mais por viverem num ambiente confinado, com recursos limitados e sob severa censura e repressão.

    O único porém na obra é uma certa falta de unidade narrativa entre a primeira e as outras duas histórias. Talvez pelas demais terem sido produzidas muito tempo depois e haver alguma confusão sobre o surgimento do segundo trem e sua relação com o original e seu destino. Em todo caso, a força dramática e de aventura entre as duas últimas histórias torna o conjunto suficientemente robusto e satisfatório, ainda que inconcluso.

    O livro que tenho em mãos – por sinal, extremamente pesado! –, foi muito bem produzido pela Aleph, com uma qualidade gráfica e de papel de alta qualidade, a par, creio, com o original francês. Os desenhos em preto e branco só acentuam os dramas humanos, ainda mais porque em contraste com o aflitivo branco eterno do exterior do trem. O volume é completado por longo e intimista depoimento de Jean-Pierre Dionnet (1947), criador da célebre revista de quadrinhos Metal Hurlant (1975-1987; 2002-2004; 2006), sobre sua amizade com Jacques Lob e, através dela, sobre sua carreira até a criação de O Perfuraneve.

    Além desta HQ monumental e do filme, foi produzida também uma série de TV, entre 2016 e 2020, com quatro temporadas. Ainda não a vi, mas é provável que tenha seguido a linha crítica semelhante ao filme e, principalmente da HQ, embora com mais liberdade de ação, dada a quantidade de episódios.

    O Perfuraneve já é um clássico moderno da FC, por reunir algumas das características mais relevantes do gênero: uma premissa especulativa instigante, plena de drama e personagens complexos, além de discussões relevantes sobre a realidade e suas perspectivas. No caso, sobre os possíveis efeitos trágicos da crise climática e sua relação com o modo de produção capitalista.

Marcello Simão Branco

 

sábado, 4 de outubro de 2025

Como aprendi a amar o futuro

Como aprendi a amar o futuro: Contos solarpunk
Francesco Verso & Fabio Fernandes, orgs. 350 páginas. São Paulo: Plutão, 2023.

É incrível que não estejamos falando da antologia Como aprendi a amar o futuro desde o seu lançamento há dois anos. Pois trata-se da mais expressiva novidade no ambiente da fc desde o surgimento do cyberpunk, nos anos 1980. Porque ela é estranha e um pouco assustadora, como, aliás, toda a fc deveria ser. 
Desde a publicação em 2012 da antologia Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável, pela Editora Draco, ficou a impressão que o subgênero ali proposto não passava de uma variação ao cyberpunk com tecnologias verdes. Dizia-se que o solarpunk propunha uma ficção que apontava para um futuro no qual a humanidade daria certo, escapando do apocalipse e da distopia.
Se fosse mesmo isso, seria uma fc ingênua e equivocada, uma elegia a tecnocracia futura na qual todos os problemas causados ao meio ambiente planetário pela tecnologia seriam resolvidos, vejam só, pela própria tecnologia. Há, de fato, muita gente que pensa assim: para quê preservar o mundo hoje se a tecnologia irá nos salvar amanhã?
Bem, não é o que sugerem os treze contos e os três ensaios reunidos nas 350 páginas de Como aprendi a amar o futuro: Contos solarpunk, antologia organizada pelos pesquisadores Francesco Verso (Itália) e Fabio Fernandes (Brasil), publicada pela Plutão Livros em 2023.  
Para os autores presentes na antologia, a concepção do solarpunk não é, de forma alguma, positivista ou utópica.  Pelo contrário, é bastante pessimista, porque reconhece que o ponto sem volta já foi ultrapassado e o desastre ambiental é inevitável. Na verdade, já estamos vivendo suas consequências e não há como escapar, a não ser que aconteça alguma coisa muito radical e subversiva.
Tratam-se de histórias em que pessoas comuns tomam para si a tarefa de construir uma nova forma de viver num mundo devastado pela poluição e pela crise ambiental causadas pelas corporações e pelas elites que continuam fazendo o que sempre fizeram. Trata-se de uma ficção engajada, que pretende mostrar alternativas de sobrevivência dentro desse inevitável futuro ambiental destroçado. Uma fc politicamente militante, mais social e menos individual, que também discute aspectos ligados a diversidade étnica, cultural, de gênero e de pessoas com deficiência. Uma ação de guerrilha tecnológica, na qual grupos comunitários assumem a responsabilidade e o controle de sua sobrevivência em meio ao caos ambiental, a revelia das decisões de governo, que nos colocaram nessa enrascada para começo de conversa. 
Nas 350 páginas da antologia, textos de várias procedências, vindos de Argentina, EUA, China, Austrália, França e Espanha: "Empatia bizantina", de Ken Liu, "O zelador do Farol", de Andrew Dana Hudson, "Beton betularia", de Maria Antònia Martí Escayol, "Omnia sol temperat", de T. P. Mira-Echeverría e Guillermo Echeverría, "Contaminações", de Sylvie Denis, "Com uma bicicleta espacial vai-se a qualquer lugar", de Ingrid Garcia, "A terra-corpo", de Ciro Faienza, "A força da serpente é a força da gente", de Brenda Cooper, "Falácia efetiva", de Qiufan Chen, "O rancho espiral", de Sarena Ulibarri, "Linha de frente", de Gustavo Bondoni, e os brasileiros "Nina e o furacão", de Ana Rüsche e "Presságio de solidão", de Renan Bernardo. Também traz ensaios, assinados por Fabio Fernandes, Andrew Dana Hudson e Francesco Verso, conceituando o subgênero, citando precurssores e estabelecendo seus protocolos, tudo muito didático, embora o texto de Hudson tenha um quê de manifesto.
O time de tradutores também é grande: Jana Bianchi, Fernanda Castro, Morgana Feijão, Marina Scardoelli, Lina Machado, Thiago Ambrósio Lage, André Caniato. A capa traz um trabalho de Sávio Araújo.
Não que inexistam textos na fc tradicional que esbarram no tema, como os de Kim Stanley Robinson, que é citado nos ensaios publicados. No Brasil, escritores como Simone Sauressig ("O cuco de samaúma", em Universo Pulp: Multipunk, Avec, 2022) e Daniel Galera ("Tóquio" em O deus das avencas, Companhia das Letras, 2021) aproximaram-se do tema, mas a eles faltava o componente explosivo que abunda em Como aprendi a amar o futuro.
A edição só está disponível em ebook, e dá para ler de graça emprestando um exemplar na BibliON, aplicativo oficial da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo que, aliás, foi como eu li. 
Vale a pena conhecer a antologia e entender o que realmente vem a ser esse tal de solarpunk. É para mexer com os brios e dar vontade de começar sua própria guerrilha contra o capitalismo agora mesmo.
A luta continua!
— Cesar Silva

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

As Mulheres dos Cabelos de Metal

 



As Mulheres dos Cabelos de Metal, Cassandra Rios. Capa: sem autoria. 162 páginas. São Paulo: Hemus, 1971.

 

Se a ficção científica no Brasil ainda é algo à margem do centro de produção da cultura nacional, há autores mainstream ou de outros gêneros que também a praticaram, mas é como se a obra de FC fosse ainda mais obscura, até para os fãs e especialistas. É o caso de Cassandra Rios (1932-2002), autora muito marcada por uma obra contestadora dos costumes e da sexualidade, através do erotismo e do lesbianismo. Além de militante homossexual, com o qual pagou um preço muito alto, sendo a escritora brasileira mais perseguida durante a ditadura militar.

Assim, ela surpreendeu com As Mulheres dos Cabelos de Metal, uma inusitada história de invasão alienígena comandada por uma civilização de mulheres. Por meio de um matriarcado, elas são mais inteligentes que os homens, reduzidos à força física e tarefas manuais. As mulheres tem corpos esculturais e cabelos compridos de metal que, ao toque, emite um som musical relaxante. De repente, suas naves surgem nos céus e desembarcam na Terra, depois de um período secreto para estudar os costumes da humanidade. Elas seduzem e matam os homens de forma implacável. E para completar a missão, é lançada uma nuvem venenosa indolor que extermina todas as formas de vida sobre a superfície do planeta. Não há meio de resistência possível e, em poucos dias, a humanidade conhece seu fim.

Terrível, né? Mas Zarka, uma das invasoras, é picada por uma cobra, e recebe a ajuda de um médico que vivia recluso em luto num sítio, após se sentir culpado pela morte de sua noiva. Com o veneno, Zarka perde temporariamente seus poderes – as alienígenas tem força física superior aos humanos, poder de hipnose e telepatia –, e deixa-se envolver emocionalmente por Patrick, o médico. Mas ele, ao descobrir o que ela é e qual sua missão, procura resistir aos seus encantos e, de alguma forma, tentar impedir o inevitável.

Devido ao seu período de recuperação, Zarka é dada como perdida, e após o sucesso da missão, deixada sozinha na Terra. Desta forma, ambos ficam como que desterrados. Ela sem suas companheiras e ele sozinho no mundo.

Assim, na maior parte da narrativa ocorre este relacionamento controverso entre uma zurk – o nome da civilização extraterrestre – e um humano. Após seguidos contratempos, terão de aprender a conviver juntos e, talvez recomeçar uma nova civilização em nosso planeta.

Mas por que as zurks aniquilaram a humanidade? Zarka explica que testes nucleares realizados na Lua destruíram parte de sua civilização e, por isso, não viram outra alternativa. Pois, sim, as zurks vivem na Lua, mais precisamente sob a superfície, com uma sociedade altamente tecnológica, capaz de viajar pelo espaço e, por meio de um aparelho de pulso, permitir até a invisibilidade. A intenção, após o fim da humanidade é, eventualmente, ocupar a própria Terra.

É um romance bem movimentado, primeiro na invasão em si e no processo de domínio e extermínio. Depois, do meio para o final, o drama entre a alienígena e o último dos homens. Ao desprezo dela e o ódio dele, haverá, gradualmente, a possibilidade de amor entre eles. Mas longe de ser simples ou inevitável.

Publicando esta obra no início dos anos 1970, Cassandra Rios – pseudônimo de Odete Pérez Rios –, faz parte do chamado momento distopico da FCB, quando aqueles que escreveram histórias do gênero, tinham como intenção criticar metaforicamente o regime militar. Rios, em particular, dentro deste contexto, dialoga com outras autoras que publicaram FC neste período, enfatizando, principalmente, a condição feminina na sociedade da época, como por exemplo, no autoritarismo niilista em Um Dia Vamos Rir Disso Tudo (1976), de Maria Alice Barroso ou na distopia alegórica feminista de Asilo nas Torres (1979), de Ruth Bueno.

Assim, se a crítica à ditadura é mais obliqua, presente mais nas mazelas da violência e opressão da civilização, o romance ganha força e relevância com o protagonismo feminino. Pois o patriarcado teria sido responsável pelo fracasso da civilização humana, e uma outra voltada mais à sensibilidade, à beleza e um sentido social mais coletivo, teria mais a ver com a condição da própria mulher. Aqui no caso, extremamente empoderada.

Mas ao ler a obra, não me parece que o comportamento do matriarcado lunar seja tão mais elevado, pois a solução que deram à ameaça nuclear que sofreram, não é muito diferente do que os homens tem feito ao longo de nossa História. Resolver conflitos e ameaças por meio da força e da guerra.

Sempre soube que Cassandra Rios era a “autora maldita” do Brasil. A mais perseguida e censurada da ditadura militar. E não porque se opunha politicamente ao regime de forma mais direta, mas por expor cruamente o falso moralismo da sociedade e os tabus da sexualidade. Mesmo assim, publicou 68 livros, quase todos de ficção erótica, entre 1948 e 2000, sendo uma das que mais venderam no país. Mas não deixou de ser surpreendente que ela tenha publicado um romance de FC, que tem o que dizer e, principalmente, é divertido e inteligente. Uma editora mais progressista poderia arriscar uma nova edição desta pérola quase anônima da nossa FC.

Marcello Simão Branco

 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

A Hora do Vampiro

 



A Hora do Vampiro (Salem´s Lot), Stephen King. Tradução: Luzia Machado da Costa. Capa: sem autoria. 434 páginas. Rio de Janeiro: Record, sem data. Publicação original de 1975.

 

Este romance foi iniciado antes dele publicar o primeiro, Carrie (1974) – um imediato sucesso de público e crítica –, sendo concluído e publicado depois. Conferiu a King a liberdade financeira para que pudesse se tornar um escritor em tempo integral, pois recebeu US$ 550 mil pela venda do original. Desta forma, é a partir deste romance que ele passará a construir uma carreira sólida e extremamente bem-sucedida.

A Hora do Vampiro se passa na cidadezinha de Jerusalem´s Lot, uma das tantas meio que esquecidas no interior do noroeste dos Estados Unidos, aliás, a região local de King e onde ele situa a maior parte de suas histórias. O escritor Ben Mears volta a ela depois de adulto para tentar escrever um romance e, desta forma, lidar melhor com a morte recente da esposa e espiar seus traumas de infância vividos nesta localidade. Mais especificamente numa certa casa, a Mansão Marsten, que situada no alto de uma colina pode avistar qualquer ponto do município, imperando sobre todo o resto. Ocorre que lá foi cometido um assassinato bárbaro no passado, e o menino Ben teria tido uma experiência sobrenatural lá, ao se deparar com o fantasma do assassino morto.

Mas, como tolamente entrega a tradução da primeira edição brasileira – provavelmente inspirada no sucesso do filme A Hora do Espanto (Fright Night; 1985) –, a história não é propriamente sobre uma casa mal-assombrada, mas sim sobre vampiros. De qualquer forma existe a conexão entre a casa e os chupa-sangues porque, no mesmo momento da volta de Ben Mears, estranhamente desde a tragédia, a casa voltou a ser habitada. Tal conexão não passa despercebida por alguns dos habitantes mais antigos, como, por exemplo, o xerife e uma solteirona idosa que testemunhou a tragédia de Marsten.

A partir daí situações da época dos assassinatos reaparecem. Pessoas começam a sumir. Primeiro um menino, depois alguns adultos; fora o fato de outros reaparecerem só à noite e completamente alterados: pálidos, fortes, sedutores e mortais. De início, até se desconfia que Ben Mears pudesse ter alguma coisa a ver com os fatos, mas como o contexto vai tomando conta da cidade de forma insidiosa e geral, um pânico silencioso se instala, pois Jerusalem´s Lot foi tomada e dominada por vampiros. O mestre deles, um certo Sr. Kurt Barlow – de origem austríaca – nunca visto à luz do dia, que como se saberá depois se estabeleceu na casa Marsten, por causa de sua ligação antiga com o primeiro assassino da casa. Tão estranho quanto ele é seu serviçal, Richard Straker, um homem alto e calvo, que a título de fachada abre um antiquário. Mas todos se perguntam para que fregueses, numa cidadezinha pequena e de beira de estrada.

Ben Mears se vê envolvido nesta trama absolutamente aterradora, custando a acreditar que, de fato, esteja relacionada com seres sobrenaturais que se alimentam de sangue humano. Mas ele não está sozinho. Ao seu lado está Susan Norton, sua nova namorada; Matt Burke, o professor de literatura da escola local; o médico Jimmy Cody e o menino Mark Petrie. Todos eles se veem envolvidos de forma dramática na luta e no desespero que só faz crescer, porque a cidade é tomada por uma epidemia de mortos-vivos.

A Hora do Vampiro é um romance de horror tradicional sobre um dos seus temas mais abordados e populares. Mas passa longe de ser apenas mais um. King concebeu a história a partir da ideia de como seria se Drácula chegasse aos Estados Unidos de sua época, a década de 1970. Para tornar a história mais segura para si próprio, a situou numa cidadezinha fictícia do Maine, o lugar onde vivia e mais conhecia. Seu próprio território, afinal. Aliás, como dito, esta característica seria seguida em sua carreira, pois a maioria de suas histórias – romances, principalmente – se situam nesta região do país. Mas, de certa forma, faz sentido para o vampiro também, por ser um ambiente menor, mais facilmente controlável e que chama menos a atenção.



Mas a opção de King e de Barlow é mais interessante, não por causa da vinculação afetiva ou por ser uma cidade pequena e à margem, mas pelo tratamento que dá a ela como se fosse também uma personagem. Como King especula em mais de um momento na trama, Salem´s Lot – uma abreviação de Jerusalem´s Lot – simboliza o que seriam estas cidades pequenas, uma espécie de organismo moribundo, com uma lógica e uma passagem de tempo própria, movida por moradores solitários, invejosos e frustrados. Além de isoladas, frias e nebulosas, tornando as situações sorumbáticas e duvidosas, com um quê de irrealidade.

Já as características do vampiro seguem o padrão tradicional estabelecido por Bram Stoker (1847-1912). Só saem dos esconderijos à noite para se alimentar e incluir novas vítimas à sua condição, só podem ser mortos por estacas de madeira no coração, hipnotizam as pessoas com o olhar, e tem pavor aos símbolos cristãos, como água benta e sobretudo o crucifixo. Tudo isso vincula o vampiro como um ser do mal, satanizado, e de âmbito sobrenatural. King trabalha dentro deste contexto de forma competente. Mas pensei que talvez pudesse haver alguma variação ou problematização destas características. Lembro especialmente do que fez Richard Matheson (1926-2013), com seu romance Eu Sou a Lenda (I am Legend; 1954), no qual as pessoas se tornam vampiros devido a uma pandemia. Uma causa natural, o que vincula o romance também à ficção científica.

De todo modo, A Hora do Vampiro é uma história assustadora. Mesmo depois de ter lido e visto tanto sobre este subgênero do horror, a força da história, as sequências vivamente descritas e, principalmente, o desespero das pessoas, tanto das vítimas, como dos seus parentes e amigos, é comovente. O que só mostra como as principais virtudes de King apareceram com força desde o início de sua carreira. Ao mesmo tempo que nos compadecemos com o triste destino de personagens reais e empáticos, é difícil largar a leitura. Como ocorreria ao longo de toda a sua carreira. King é um cronista sensível da alma interior e soturna de seu país e parte desta força ocorre pelo seu poder impressionante de contar uma história. Difícil não se envolver e não sair diferente depois da conclusão.

King também não se desvencilhou facilmente de Salem´s Lot porque a revisitou nas noveletas “Jerusalem´s Lot”  e “A Saideira” (One for the Road), publicadas em sua primeira coletânea de contos, Sombras da Noite (Night Shift; 1978), onde explora, na primeira, acontecimentos estranhos e nunca explicados no passado distante da cidade, e na segunda, dos misteriosos fatos subsequentes após o fim do romance. A primeira das origens e a segunda do destino da cidade amaldiçoada. Mas também porque o romance foi rapidamente adaptado para uma minissérie de TV, Os Vampiros de Salem (Salem´s Lot; 1979), dirigida por Tobe Hooper (1943-2017), que se tornou uma das melhores versões audiovisuais sobre o vampiro. Um clássico, que foi ainda seguida por mais duas produções para a TV, uma em 2004 e outra de 2024.

A Hora do Vampiro teve novas edições no Brasil, entre elas uma com um título mais fiel ao espírito da obra: Salem, publicada pela Objetiva, no selo Ponto de Leitura, em 2010. E um indicativo para ilustrar a permanência posterior da obra, foi a primeira de King a ser finalista de um prêmio literário importante no campo do horror e da fantasia, o World Fantasy Award em 1976. Uma demonstração de que o reconhecimento da crítica vinha a par do enorme sucesso junto ao público. E que só iria crescer ao longo de sua carreira.

Marcello Simão Branco



sábado, 30 de agosto de 2025

Os filhos das estrelas, H. G. Wells

Os filhos das estrelas
(Star begotten), H. G. Wells. 248 páginas. Tradução de Gustavo Terranova Aversa. São Paulo: Andarilho, 2025. Publicação original de 1937.

H. G. Wells (1866-1946) dispensa apresentações. Este escritor britânico é sumamente conhecido e popular entre leitores no mundo todo, autor de uma infinidade de clássicos da literatura, entre os quais estão A guerra dos mundos, O homem invisível, A máquina do tempo, além de trabalhos em diversas outras áreas, como filosofia, política e história. 
Contudo, mesmo sendo um leitor inveterado dos textos de Wells, não conhecia Os filhos das estrelas, novela originalmente publicada em 1937 que apresenta uma série de características incomuns, tanto ao gênero da ficção científica no qual ele pode ser classificado, não sem alguma polêmica, mas ao próprio escopo  dos textos do autor. 
Não que lhe seja realmente desconforme, pois está alinhado às ideias mais frequentes de Wells, mas por conta do estilo. Creio nunca ter lido um texto assim de Wells e me parece nunca ter lido algo parecido na fc.
Porque Os filhos das estrelas mal tem um enredo. De fato, ele se manifesta através de longos diálogos ao estilo platônico,  que vão se aprofundando, mudando o ponto de vista e reformulando argumentações. Ou seja, a novela está mais para um ensaio filosófico do que para uma ficção, como um diálogo de Platão com pequenas parábolas como ilustrações argumentativas. A única diferença é que Wells não encerra em aporia, mas oferece uma conclusão mais ou menos satisfatória.
A história, se podemos dizer assim, fala sobre Joseph Davis, um homem comum da sociedade britânica que, certo dia, depois de participar de conversas aleatórias com alguns intelectuais num evento, tem uma revelação perturbadora: a humanidade estaria sendo manipulada em sua estrutura genética por alienígenas de Marte que, sem condições de promover uma invasão física ao planeta, bombardeiam a Terra com raios cósmicos mutagênicos para alterar a humanidade até que ela se torne marciana. Ao relatar suas angústias a um psicólogo, este acaba contaminado pela ideia e, sendo afeito a fofoca, espalha a história, que se torna um meme internacional. 
Talvez a proximidade maior deste texto de Wells, inclusive considerando-se o tema, seja com Assim falou Zaratustra, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, publicado em 1883.  Alias, o conceito de Übermensch, desenvolvido pelo filósofo nesse livro, foi bastante explorado pela fc e pode ser percebido, por exemplo, em diversos livros de Arthur C. Clarke, e no desconcertante The new Adam,  de Stanley G. Weinbaum, publicado em 1939. O conceito é chave de entendimento desta novela de Wells.
O volume tem formato de bolso com 248 páginas, tradução de Gustavo Terranova Aversa, e faz parte da coleção Clube Andarilhos da Editora Andarilho, que é comercializada através de assinaturas. Mas, após algumas semanas, os livros dessa coleção podem ser encontrados para venda no saite da editora, aqui.
Sem dúvida, um livro incomum e valioso para todos os que gostam de uma boa ficção científica filosófica.
— Cesar Silva

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O Filho do Homem

 



O Filho do Homem (Son of a Man), Robert Silverberg. Tradução: Luís Cadete. Capa: Estúdio Publicações Europa-América. 159 páginas. Mem Martins: Publicações Europa-América, coleção Ficção Científica, n. 225, 1996.  Lançamento original em 1971.

 

Este romance é um dos mais ambiciosos de Robert Silverberg, escrito justamente no seu período mais criativo. Isso pode ser vislumbrado em duas vertentes: a temática e a literária. Pelo primeiro aspecto, levando longe a reflexão e a especulação sobre a evolução e destino da humanidade, e também, de certo modo, da própria Terra. E pelo segundo aspecto pelo estilo explicitamente literário, no sentido do arrojo da técnica narrativa, muito sofisticada.

Conta a história de Clay, um homem do século XX que, “tomado pela corrente do tempo” vai parar num futuro muito, muito distante, na casa dos bilhões de anos. Não há uma explicação sobre como ocorreu esta viagem ao futuro, e Silverberg não oferece nenhuma, embora, curiosamente, seja uma fonte de angústia e perplexidade do personagem. Assim, embora seja uma história com viagem no tempo, não explora essa premissa por si.

Nesta nova era, toda a história humana vivida por Clay se perdeu. Ninguém tem memória de nomes como Aristóteles, Cesar, Jesus, Leonardo, Shakespeare, Rousseau, Mozart, Darwin, Marx ou Einstein. Daqui há bilhões de anos, a nossa época não passará de uma tênue linha de eventos perdida num passado quase esquecido.

Tal constatação choca Clay, mas isso é só o começo. O grande tema do livro, como já dito, é a evolução das espécies inteligentes no planeta. Dentro de bilhões de anos, algumas delas irão reivindicar descendência com a humanidade de Clay, embora, devido a tantas eras passadas, os vínculos sejam muito frágeis, quase irreconhecíveis. Nesta época, não uma, mas seis espécies vagamente humanoides coabitam o planeta: os skimmers, eaters, awaiters, breathers, destroyers e interceders. Na verdade, eles não são contemporâneos, mas representam graus sucessivos de evolução, sem que uma nova etapa evolutiva represente a extinção da anterior.

Clay é recebido por Hanmer, um skimmer. Ele o introduz num grupo deles, e logo percebe que são seres com poderes extraordinários: eles se transformam fisicamente, assumem novos estados da matéria, viajam pelo espaço sideral. Talvez o único elo identificável com o homo sapiens, para além do aspecto primata semelhante, seja a sexualidade. Vivem o sexo de forma intensa e contínua. E mais: não tem um gênero definido. Eles têm a capacidade de se transformarem ora em macho, ora em fêmea.

O livro explora com grande desenvoltura a questão dos limites do que é ser humano. A evolução caminharia para além da forma humana em si, chegando ao ponto, a meu ver exagerado – de assumir novas formas físicas não humanas, como seres rastejantes ou esferoides. Mas embora a consciência se considere humana – pois assim se afirma –, talvez não o seja mais, porque, afinal, o que nos faz humanos também está relacionado com a nossa forma física.

O Filho do Homem é especialmente rico por suscitar reflexões como esta, e elas se estendem também, como já dito, à orientação sexual e suas mais diferentes práticas. Assim, poderíamos dizer que são humanoides transexuais ou pansexuais, já que transam também com árvores – não uma qualquer, mas capacitada para isso. Nesse sentido, num estágio em que os seres são masculinos e femininos, em diferentes momentos, à sua vontade, os próprios papéis e suas identidades se alteram e se redefinem, em situações novas e surpreendentes. Nesse sentido, a história se abre para questões interessantes sobre a sexualidade, despida de preconceitos e moralismos que apenas limitariam as possibilidades desta vertente da experiência humana. A mais prazerosa. Mas também a mais perturbadora. Há várias passagens de sexo intenso, com o próprio Clay envolvido, ora como homem, ora como mulher – pois os skimmers o habilitam a partilhar de parte de suas habilidades. Mas se alguém pensar que este é um romance erótico está enganado, pois é tudo descrito de forma, digamos, técnica ou, diria, literária demais. Não propriamente adjetivado, mas elaborado com um variadíssimo vocabulário de imagens e metáforas, para ilustrar menos o prazer e mais as possibilidades de interação psicológica entre humanos sexualmente ambivalentes.

O Filho do Homem me fez lembrar do ótimo romance Vênus Mais X (Vênus Plus X; 1961), de Theodore Sturgeon – publicado no Brasil pela Hemus nos anos 1980 –, em que o protagonista também vai parar no futuro em uma sociedade composta de seres humanos andróginos, que assumem, a depender do momento, papeis masculinos ou femininos. Mas nesta há uma sociedade altamente tecnológica e com seres robóticos a realizarem várias atividades.

Outra questão abordada na obra é a da mortalidade. Pois os skimmers e demais expressões do que um dia foi a humanidade estranham a finitude. Reconhecem que podem morrer, deixarem de existir, mas é uma experiência quase inexistente entre eles. Contudo, talvez pelo contato com Clay e sua ancestralidade extremamente frágil, alguns deles, como que tomados por curiosidade, irão partir para experiências que poderão conduzi-los à morte.

Neste futuro os seres de ascendência humanoide, bem como animais e vegetais em geral vivem em intensa ligação com a natureza. Os skimmers, em particular, organizam suas atividades em ciclos de rituais com a natureza: o sol, o mar, a noite, a chuva etc. Como já deve estar claro, estes humanos do futuro não se utilizam de nenhuma ferramenta ou tecnologia, pois tudo o que fazem é através da mente e uma verdadeira simbiose com aspectos da natureza. Assim, também não há uma ordem social identificável, bem como um sistema econômico ou um regime político que organize uma produção ou vida coletiva. Tudo é realizado de forma a interagir intensamente, seja do ponto de vista simbólico e sexual ou em comunhão quase que física com o planeta. Como se ele próprio tivesse alguma participação no contexto geral das formas de vida que o habitam. Tanto é assim, que os diferentes seres que reivindicam descendência com o homo sapiens vivem em regiões diferentes da Terra, que, de certa forma, ajudam a potencializar suas habilidades. Regiões com extremo calor, frio, luz, escuridão, aridez etc.




Como se vê, é um romance fascinante, fruto do momento de apogeu criativo de Silverberg e do movimento da New Wave, mas talvez, visto em retrospectiva, pareça excessivo. E nem só do ponto de vista temático, mas também estilístico, pois ele é composto em boa parte por parágrafos muito extensos, frases longas e poucos diálogos. Tudo isso, em meio a uma profusão impressionante de imagens descritivas, muito imagéticas e oníricas, que depois de um certo tempo causam um certo desconforto na leitura. Embora estimulante do ponto de vista temático, é cansativo. Ainda mais se considerarmos – e teve de ser neste caso – de uma tradução lusitana, que também apresenta suas esquisitices vocabulares.

É um livro visceral em muitos sentidos, uma experiência de ficção científica fora dos padrões. Talvez por isso, Silverberg considere O Filho do Homem um dos seus livros favoritos, como afirmou numa entrevista ao crítico Paul Turner numa edição da revista Vertex: The Magazine of Science Fiction, em 1973:

 

O Filho de Homem é estranho, surrealista, cheio de imagens oníricas, como se fosse uma linha de abastecimento subterrânea para meu próprio inconsciente literário. Eu amo este livro. Não encontrou grande aceitação popular, embora tenha certa reputação entre os críticos.

 

Sim, foi bem recebido na época pela crítica norte-americana. Mas talvez tenha sido eclipsado por outros grandes romances que ele escreveu na época como, por exemplo, Tempo de Mudança (Time of Changes; 1971) e Uma Pequena Morte (Dying Inside; 1972). De qualquer forma, mesmo que possa parecer um pouco exagerado, ou melhor, um pouco desequilibrado entre forma e conteúdo, o que realmente importa nesta obra é sua liberdade temática, diria mais, comportamental, com sua predisposição para o novo e a ausência de preconceitos, além de especulações fascinantes sobre o destino da humanidade e da própria Terra.

Marcello Simão Branco