quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A Vingança do Monstro (Tobor the Great, EUA, 1954, PB)

 


Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, com a turbulência política polarizada entre as duas grandes potências da época, Estados Unidos e antiga União Soviética, iniciou-se uma guerra fria com desconfiança mútua e que trouxe ao mundo uma paranoia do apocalipse nuclear, um medo terrível que a humanidade aniquilasse o próprio planeta.

Surgiram a partir daí muitos filmes de ficção científica e eventualmente com elementos de horror, explorando o medo de uma guerra com bombas atômicas e a necessidade de uma corrida armamentista e conquista espacial.

Em 1954, a “Republic”, uma distribuidora de filmes com orçamentos reduzidos, lançou “A Vingança do Monstro” (Tobor the Great), com fotografia em preto e branco, duração curta de apenas 76 minutos e direção de Lee Sholem, apresentando uma história com um enorme robô (o “Tobor” do título original, que na verdade é “robot” soletrado de trás para frente), que foi criado para pilotar o primeiro foguete americano rumo ao espaço.

 

Os cientistas Prof. Arnold Nordstrom (Taylor Holmes) e Dr. Ralph Harrison (Charles Drake) estão trabalhando no programa espacial americano, no desenvolvimento de foguetes nucleares. Eles concordam que é muito perigoso a utilização de astronautas humanos nos testes dos voos espaciais, arriscando suas vidas em protótipos de foguetes experimentais. Como solução alternativa, o Prof. Nordstrom constrói um robô enorme ou um simulador elétrico do Homem, como ele definiu, uma espécie de ser sensitivo com instinto sintético, comandado pela percepção extra-sensorial do seu criador.

Brian Roberts (Billy Chapin), o inteligente neto de apenas onze anos do Prof. Nordstrom, acaba criando uma relação de amizade com o robô, sempre supervisionado pelo avô e acompanhado à distância pela mãe viúva do rapaz, Janice Roberts (Karin Booth). Porém, logo o extraordinário robô desperta a atenção de espiões estrangeiros infiltrados nos Estados Unidos, interessados em sua tecnologia voltada para fins militares, a criação de um exército de robôs com estímulos destrutivos, e na disputa da corrida espacial da guerra fria, devido suas habilidades na pilotagem de foguetes.

 

“A Vingança do Monstro” (título nacional mal escolhido e apelativo) é mais uma daquelas preciosidades do cinema fantástico antigo de baixo orçamento. Sim, o roteiro é simples, previsível e ingênuo, o elenco é apenas esforçado, os efeitos são toscos, mas a soma disso tudo é diversão garantida, principalmente pelas cenas com Tobor (uma em especial é hilária, quando ele está dirigindo um jipe). Ele  também é um dos robôs que ficaram eternizados, apesar de bem menos conhecido. Mesmo num patamar menor, certamente está figurando ao lado de outros mais populares e clássicos como “Maria” (“Metropolis”, 1926), “Gort” (“O Dia Em Que a Terra Parou”, 1951), “Robby” (“Planeta Proibido”, 1956) e “B-9” (série de TV “Perdidos no Espaço”, 1965-1968).

A casa do Prof. Nordstrom, onde em seu laboratório subterrâneo ele inventou o robô piloto espacial, é repleta de aparelhos e dispositivos tecnológicos altamente impressionáveis na época, com sistemas sofisticados de alarme e monitoramento por telas, e que certamente soam comuns e antiquados para nosso tempo. Mas, são justamente características como essas que despertam a curiosidade dos apreciadores do cinema bagaceiro. 

Curiosamente, numa jogada de marketing muito utilizada na época com filmes similares, os cartazes de divulgação mostram o robô Tobor segurando em seus braços uma bela mulher, o que não acontece no filme. Na verdade, ele apenas carrega nos braços o neto do cientista, o garoto com quem cria um laço de afeição.

 

(Juvenatrix – 30/09/20)






terça-feira, 29 de setembro de 2020

O Poço e o Pêndulo / A Mansão do Terror (The Pit and the Pendulum, EUA, 1961)

 


“Está prestes a entrar no inferno. Inferno! O mundo das profundezas. A região infernal. A morada dos condenados. O local da tormenta. Pandemônio, Abbadon, Tophet, Gehenna, Naraka, o Poço! E o Pêndulo! A lâmina do limiar do destino.”

 

Nos anos 60 do século passado, o cultuado diretor e produtor Roger Corman, conhecido por sua habilidade em fazer ótimos filmes com orçamentos reduzidos, teve uma parceria produtiva com o ator Vincent Price, um dos grandes astros do cinema de Horror em todos os tempos, para a adaptação nas telas de alguns contos do escritor Edgar Allan Poe.

Dessa união de talentos saíram filmes divertidos e memoráveis como “O Solar Maldito” (1960), “O Poço e o Pêndulo” (The Pit and the Pendulum, 1961), que é o assunto dessa resenha, “Muralhas do Pavor” (1962), “O Castelo Assombrado” (1963), sendo este apenas levemente inspirado em Poe e com uma história de H. P. Lovecraft, “O Corvo” (1963), “A Orgia da Morte” (1964) e “Túmulo Sinistro” (1964). Alguns deles tiveram o roteiro assinado pelo especialista Richard Matheson, outro nome eternizado na história do cinema fantástico.

Para completar as várias atrações com nomes de personalidades associadas ao Horror, temos ainda a presença da “scream queen” Barbara Steele (“A Maldição do Demônio”, 1960) e produção executiva da “American International” de Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson.

 

A história de “O Poço e o Pêndulo” foi ambientada na Espanha do século XVI, na terrível época da Santa Inquisição, com o assassinato cruel e práticas de tortura em homens e principalmente mulheres acusadas falsamente de bruxaria, a favor de interesses dos poderes religiosos que dominavam a Europa.

Nesse cenário de devastação e prova da hipocrisia da raça humana, vivia Nicholas Medina (Vincent Price), filho do terrível inquisidor Sebastian Medina (também Price), num castelo imponente no alto de um morro rodeado pelas ondas furiosas do mar. Ele era atormentado pela herança maldita do pai assassino de inocentes, com uma câmara imensa no porão do castelo, repleta de instrumentos de tortura que só de olhar já sentimos dor.

Apesar do ambiente sinistro, ele era feliz com sua amada esposa Elizabeth Barnard Medina (Barbara Steele). Porém, após a morte misteriosa da bela mulher, chegou ao castelo o irmão Francis Barnard (John Kerr), vindo da Inglaterra para investigar e obter mais informações sobre a morte de Elizabeth.

O jovem inglês foi recebido por Catherine Medina (Luana Anders), irmã de Nicholas, que estava no castelo para cuidar do irmão triste e deprimido com a morte da esposa. Mesmo depois das explicações do médico da família Dr. Charles Leon (Antony Carbone) sobre a morte inesperada de Elizabeth num colapso nervoso ao visitar a câmara de torturas, o recém chegado visitante não se convenceu e se instaurou um clima de desconfiança no castelo, com consequências trágicas para todos.

 

“O Poço e o Pêndulo” também é conhecido no Brasil pelo título “A Mansão do Terror”. O filme tem todos os elementos normalmente encontrados no horror gótico, com um castelo tétrico cheio de aposentos imensos, móveis antigos, iluminação por velas e candelabros, ruídos constantes nos cantos escuros de gelar a espinha e o principal, uma câmara com instrumentos de tortura que foram responsáveis pelo sofrimento e morte dolorosa de muitas pessoas vítimas da Inquisição. Membros torcidos e quebrados, olhos arrancados das órbitas, carne sendo queimada até ficar preta. E um poço infernal com um pêndulo segurando uma lâmina imensa para dilacerar o abdômen das vítimas presas deitadas numa cama de pedra.

Alguns dos temas recorrentes na obra literária de Edgar Allan Por como maldição familiar, loucura, insanidade, conspiração, traição, vingança e a paranoia de ser enterrado ou emparedado vivo, estão presentes na atmosfera perturbadora do castelo, garantindo a diversão dos fãs do cinema de horror gótico e dos ícones do estilo como Roger Corman, Vincent Price e Richard Matheson.

Curiosamente, os cenários da câmara de tortura foram utilizados também em outro filme de Corman, “Sombras do Terror / Terror no Castelo” (The Terror, 1963), com Boris Karloff e Jack Nicholson. E um dos principais instrumentos de tortura é a “donzela de ferro” (“iron maiden”, que serviu de inspiração para o nome da famosa banda de Heavy Metal), um ataúde de ferro que mantinha uma pessoa presa em seu interior, com cravos que perfuravam o corpo da vítima, que agonizava lentamente ensanguentada.

Em 1991 a produtora “Empire Pictures” lançou outro filme inspirado nesse mesmo conto de Edgar Allan Poe, dirigido por Stuart Gordon e com Lance Henriksen e Jeffrey Combs.   

 

“... o tormento da minha alma foi extravasado em um alto, demorado, e final grito de desespero.” – Edgar Allan Poe

 

(Juvenatrix – 29/09/20)






sábado, 26 de setembro de 2020

A repartição do tempo

A repartição do tempo, direção de Santiago Dellape. Brasil, cor, 2018. 100 minutos.

É triste a sina dos brasileiros, e os inventores não escapam a ela. Essa é a constatação a qual chegamos ao assistir A repartição do tempo, longa metragem dirigido por Santiago Dellape, com roteiro original de Davi Mattos, que chegou às telas no início de 2018 depois de cumprir um longo roteiro de festivais no Brasil e no exterior. O trailer pode ser visto aqui.
Conta a história de um grupo de funcionários de um escritório de registro de patentes em Brasília, que ganhou celebridade depois que uma revista a classificou como a repartição pública mais ineficiente do país. A fama inoportuna irrita profundamente o chefe da seção, filho de uma senadora da república que o colocou lá para que ficasse longe de problemas. De fato, o lugar é um poço de absurdos, em que os funcionários dormem, embebedam-se, drogam-se, traficam e desenham histórias em quadrinhos durante o expediente. O momento mais festejado do dia é quando, no final do dia, ao som de A voz do Brasil, todos fazem fila para bater o ponto de saída.
Contudo, por um acaso, no mesmo dia em que a reportagem é publicada, o inventor Dr. Brasil (interpretado por Tonico Pereira) deposita para análise do departamento um protótipo funcional de uma máquina do tempo por ele construída. Ao arquivá-la no depósito, o abelhudo Jonas (Edu Moraes), inadvertidamente faz uma curta viagem no tempo, que o duplica por alguns minutos. O fenômeno não passa despercebido do chefe da seção Lisboa (Eucir de Souza), que vê nisso a oportunidade de tirar seu departamento da vexatória posição em que se encontra. Depois de embebedar os funcionários com a promessa de uma licença-prêmio, duplica cada um deles e escraviza os duplos num abrigo nuclear escondido no subsolo da repartição, para que produzam a força o trabalho que os funcionários originais jamais fariam. O plano parece caminhar bem, até que o duplo de Jonas consegue escapar da reclusão, sendo o original jogado por engano em seu lugar. O duplo tenta de todas as formas libertar seus companheiros de cárcere, mas tem que enfrentar não apenas a descrença dos originais dos colegas, mas também os duplos do segurança troglodita e da secretária piranha que estão mancomunados com o chefe.
Anunciado como uma "comédia de ficção científica", não há dúvida que é fc, mas da comédia passa longe. Na verdade, é uma história muito dramática, ainda que com forte viés irônico.
O momento mais divertido do filme é quando entra em cena um delegado da Polícia Civil interpretado por Dedé Santana, mais por conta da presença física do comediante, que é naturalmente engraçado, do que pela situção em si que, de fato, não tem nada de engraçada.
Do ponto de vista técnico, o filme é muito bem realizado, com boas soluções visuais, efeitos especiais eficientes, uma cenografia setentista irretocável e ótimas atuações. Como fc, contudo, tem lá suas falhas: o fenômeno da duplicação não convence e a história ignora a maior parte dos paradoxos temporais, preservando apenas aqueles de que precisa para contar a história.
O maior problema, contudo, é o alto nível de preconceito do filme com relação ao funcionalismo público, tanto que chega a ser angustiante e anula todo o pretenso humor da situação.
Também estão no filme os atores Bianca Müller, Antonio Abujamra, Andrade Júnior, André Deca, Bidô Galvão, Carmem Moretzsohn, Yasmim Sant'Anna, Dina Brandão, José de Campos, Lauro Montana, Ricardo Pipo, Romulo Augusto, Rossana Viegas, Selma Egrei e Sérgio Hondjakoff.
Após os créditos, um pequeno curta mostra Dr. Brasil retornando à repartição com seu novo invento, para levar a confusão a um novo paradigma.
É interessante notar que a ficção fantástica, ainda que incipiente, tem comparecido com mais frequência no cinema nacional, com produções bem realizadas, inclusive com componentes culturais bem mais evidentes do que é geralmente encontrado na fc&f literária produzida aqui. Uma interação maior entre as duas artes decerto que poderia promover alguma evolução em ambas, isso se a política cultural brasileira não arrasar com tudo antes, como parece pretender.
Cesar Silva

Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha, Liudmila Petruchévskaia

Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha, Liudmila Petruchévskaia. 206 páginas. Tradução de Cecília Rosas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2018.

Uma das mais antigas reclamações dos leitores brasileiros de fc&f é a falta de novidades internacionais nos catálogos das editoras que trabalham com ficção fantástica no Brasil. Embora haja muita novidade no que se refere aos autores nacionais, entre os estrangeiros a regra é republicar o que está fora de catálogo ou publicar um novo título de um autor já consagrado. Vez ou outra, aparece um nome novo, já que as editoras brasileiras têm receio de investir em títulos que podem não ser comercialmente bem sucedidos, e os mais arriscados certamente são aqueles de autores que nunca foram publicados aqui. Por isso, é motivo de comemoração o lançamento de Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha, coletânea da escritora moscovita Liudmila Petruchévskaia, uma novidade absoluta.
Nascida em 1938, Liudmila é considerada a mais importante escritora russa viva, mas nem mesmo na Rússia ela é unanimidade, pois sua ficção não faz concessões, mas cutuca feridas e pisa nos calos sem piedade. Sua obra, proibida por muito tempo, só ganhou espaço com fim do regime comunista e chegou ao Brasil por influência de seu filho Fedor, um apaixonado pelo Brasil, que a acompanhou à edição de 2018 da FLIP, a convite da editora Companhia das Letras que lançou a coletânea com tradução de Cecília Rosas, diretamente do russo.
Uma dificuldade é citar o seu título original. Na edição brasileira, o título original está grafado em cirílico e não consegui encontrar um modo de reproduzi-lo. Para complicar ainda mais, a página oficial do livro no saite da Companhia das Letras dá como título original em inglês There once lived a girl who seduced her sister's husband, and he hanged himself: Love stories, que não se parece em nada com o título norte-americano There once lived a woman who tried to kill her neighbor's baby. E durma-se com um barulho desses.
Trata-se de um livro de pequeno volume, com apenas 206 páginas, mas de um vulto incomensurável por conta do estilo e dos temas abordados nos 21 contos divididos em quatro seções: "Contos dos eslavos do oeste", "Alegorias", Réquiens" e "Contos de fadas".
Alguns dos textos lembram os contos decadentistas franceses com traços de romantismo, em que as histórias trabalham com situações de morte, pós-morte ou quase-morte, na forma de pesadelos ou relatos, muitos em primeira pessoa, que têm o mesmo tipo de estética que encontramos nas obras surrealistas, ou seja, são situações muito reais e cotidianas, mas que estão eivadas de um estranhamento perturbador que não permite considerá-las realistas.
Não vou comentar todos aqui, é claro, pois vale muito a pena conhecê-los em primeira mão, mas destacarei alguns dos que mais me impressionaram. O conto que dá nome a antologia é o mais realista dentre todos os textos da seleção, mas a maior parte dela está identificada com a fantasia, como "O deus Posêidon", em que  uma mulher visita a amiga em uma luxuosa mansão e descobre que seu marido é filho de um deus, ou "A mãe-repolho", em que uma mãe amorosa tenta desesperadamente criar a filha minúscula.
É claro que as histórias de horror são aquelas em que a situação de desconforto se potencializa.  Como no primeiro texto da coletânea é "O abraço", em que um militar, depois de um sonho premonitório, desenterra o corpo da falecida esposa para recuperar a carteirinha do partido (deveria ser um documento muito importante na Rússia soviética) que acidentalmente havia caído no caixão, mas ele não obedece integralmente as instruções recebidas no sonho e isso causará consequências muito desagradáveis. Ou "O sobretudo preto", em que uma mulher se vê desorientada em uma cidade penumbrosa, na qual as pessoas têm uma ralação estranha com os fósforos. E "A história do relógio", que fecha a edição, no qual uma garotinha encontra um relógio que traz uma maldição: quem lhe dá corda uma vez, tem sua vida irremediavelmente ligada ao seu funcionamento: se o relógio parar, é morte certa.
Os textos de ficção científica também são bastante sombrios. Em "Higiene", acompanhamos a decadência física e moral de uma família isolada em seu apartamento enquanto uma virose letal dizima a população da cidade. E "A nova família Robinson", em que uma outra família tenta sobreviver ao frio, à fome e à violência de um verdadeiro apocalipse ambiental.
Duas coisas se destacam na obra de Liudmila: o protagonismo feminino, que predomina quase todos os textos, com uma reflexão profunda sobre a posição da mulher na relação com o esposo, com a família e com a sociedade, e a ausência de todos os protocolos que saturam a fc&f ocidental. Ainda que as histórias de Liudmila possam ser identificadas com este ou aquele gênero, está claro que não foram escritas com isso em mente, pois as situações de misturam sem qualquer regra estabelecida. Não há o clichê das infindáveis jornadas do herói embolando as narrativas, assim como nenhuma outra condição editorial imposta à construção dos relatos: tratam-se de criações pessoais sem qualquer modelo prévio, herdeiras de uma escola que nos parece completamente estranha.
É uma maravilha ler histórias fantásticas que não apelam para elfos, anões e magos agredindo-se mutuamente, zumbis devoradores de cérebros, astronautas com armas de raios combatendo alienígenas psicopatas e trans humanos com próteses computadorizadas lutando contra megacorporações do ciberespaço. Somente quando recebemos o frescor de uma literatura como a de Liudmila é que percebemos o quanto isso já saturou.
A leitura de Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha não é fácil, porque não é agradável. Não há entretenimento nela, mas um convite a reflexões sobre a vida e a morte individual e social. Para pensar o quanto, às vezes, nossas vidas podem ser tão mais fantásticas que qualquer ficção.
Cesar Silva

terça-feira, 22 de setembro de 2020

A Verdadeira História da Ficção Científica

A Verdadeira História da Ficção Científica: Do Preconceito à Conquista das Massas (The History of Science Fiction), Adam Roberts. Tradução de Mário Molina. Apresentação de Sílvio Alexandre. Prefácio à edição brasileira de Braulio Tavares. Posfácio de Gilberto Schoereder. 703 páginas. São Paulo: Editora Seoman, 2018. Lançamento original de 2016.

 


Este é um livro monumental, a começar pelo tamanho. Mas isso é o de menos, porque é uma obra que discute a FC de forma arrojada, com ideias próprias, sem receio de questionar certas convenções estabelecidas no campo, seja por parte dos fãs ou dos críticos. No contexto anglo-americano poderia ser visto como mais um dentre tantos livros que já abordaram criticamente a história do gênero e suas características. Mas Adam Roberts demonstra que ainda há muito a ser pesquisado e, eventualmente, descoberto em um gênero tão rico e diversificado.

Roberts é um autor reconhecido da FC britânica, publicou, entre outros, Salt (2000) e Jack Glass (2012) – vencedor do British SF e do John W. Campbell Memorial – além de ser professor de Literatura do Século XIX na Universidade de Londres. Sua tese central em A Verdadeira História da Ficção Científica é que a FC, como gênero literário, surgiu durante o século XVII, como expressão artística da Reforma Protestante, movimento religioso e político que fez frente ao predomínio da Igreja Católica Romana, do século XVI. A reforma teria desencadeado forças criadoras inovadoras, ao apresentar uma visão de mundo dessacralizada, baseada numa compreensão mais materialista da vida e do universo. Desta forma houve uma separação, no contexto da então ficção fantástica, entre criações de caráter mágico-religioso e outras materiais-científicas nas histórias publicadas. O domínio do racional e de uma atitude mais individualista semeou a literatura, permitindo que as especulações no terreno do fantástico adquirissem, gradativa e continuamente, novas características que iria inaugurar um novo gênero, a ficção científica. Mesmo assim, esta tensão entre o mágico/religioso e o profano/científico nunca desapareceu do cerne da ficção científica, podendo ser identificada, embora de forma menos evidente, em realizações recentes.

Com isso, Roberts vai contra a corrente que, se do ponto de vista filosófico, não descarta por completo esta argumentação, a entende como secundária, pois situa a emergência da FC como resultado mais direto da Revolução Industrial, com seu extraordinário progresso material e inovações científico-tecnológicas, que mudou de forma radical as relações sociais. Contudo, creio que o autor é convincente, pois a própria emergência do capitalismo está associada a este processo de mudança de postura de longo prazo a respeito da condição humana, pois relaciona-se não só às ideias da Reforma, mas ao Renascimento antes e ao Iluminismo depois. Nesse sentido, esta permanência da dualidade entre o espiritual e o racional poderia ser identificada por esta base mais filosófica, que justificou sua emergência.

Desta forma, Roberts volta alguns séculos na identificação dos primórdios das histórias de FC. Ou seja, no século XVII, ao invés da tradicional consideração sobre o século XIX, com o romance Frankenstein (1818), de Mary Shelley e as figuras emblemáticas de Júlio Verne e H.G. Wells – estes dois, inclusive, com direito a um saboroso capítulo conjunto.

Contudo, a pesquisa histórica realizada pelo autor é o seu maior achado. Nos cinco primeiros capítulos ele defende extensamente sua tese por meio da apresentação e análise de dezenas de contos e romances, dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Desvenda obras raras e obscuras, com detalhes impressionantes de quem leu – ou teve contato direto – com a maioria delas. Talvez nem fosse preciso justificá-las em torno de seu argumento. A simples exposição comentada das obras já é um ganho relevante e que desmonta a tese do início da FC no século XIX. A própria ideia de uma “proto-FC” deve ser bastante relativizada, mostrando que o gênero é bem mais antigo e presente na história da literatura.

Roberts narra uma história cronológica da FC, portanto, com 16 capítulos ao todo – dois a mais que a primeira edição de 2006 – percorrendo, após as eras precursoras o período que nos é contemporâneo, os séculos XX e XXI. É certo que outros – e ótimos livros – fizeram isso antes em língua inglesa, mas é a primeira vez que tal empreendimento é colocado à disposição do leitor brasileiro.[1] E o autor não se limita à FC como fenômeno literário. A partir do século XX inclui a discussão sobre o gênero no cinema, rádio, televisão, histórias em quadrinhos, artes visuais e plásticas, música e videogames. E tudo colocado em perspectiva, mostrando como cada uma das artes contribuíram para o desenvolvimento da FC. Outro trabalho notável por si só.

Mas talvez o núcleo duro do desenvolvimento contemporâneo do gênero esteja mesmo situado nas décadas de 1930 a 1970 do século passado. É o que mais define e identifica o que se tornou e ainda é a FC nos dias de hoje. Da era das pulp magazines nos EUA, depois de forma central na Golden Age dos anos 1940 e 1950, até o desdobramento com a New Wave, nos anos 1960 e 1970. Se com as revistas populares norte-americanas a FC conheceu sua primeira massificação, ela trouxe um certo rebaixamento no estilo literário, fazendo com que o gênero passasse a ser ligado a alguns símbolos estereotipados, como a nave espacial, a pistola de raios, o robô e o extraterrestre – além, é claro, com as mulheres seminuas nas capas das revistas, pois a prioridade era fisgar um leitor jovem, branco e masculino. Em todo caso, na Golden Age dos anos 1940 e 1950 haverá um aperfeiçoamento destas características com o surgimento de uma nova geração de autores, não desvinculados do pulp, mas com maior apuro literário e rigor científico nas histórias. Aqui creio que Roberts foi um pouco duro com estas fases, apontando mais suas limitações, como o conservadorismo político e as deficiências literárias, como se fossem uma norma generalizada. Faltou enfatizar mais a renovação temática vigorosa, com autores que, especialmente nos anos 1950, amadureceram para publicar obras maiúsculas, que se tornaram clássicas. Alguns exemplos: As Crônicas Marcianas (1950), de Ray Bradbury; O Fim da Infância (1953), de Arthur C. Clarke, e Mais que Humano (1953), de Theodore Sturgeon – este aliás, um autor não comentado no livro.

Isso porque Roberts não esconde sua maior afinidade intelectual com a New Wave, um movimento literário que mais que renovar, direcionou a FC para novos horizontes, em termos de qualidade literária e ousadia temática. Assim, o gênero se aproximou de experiências literárias do mainstream e provocou o campo com introdução de temas como o sexo, o feminismo, as drogas, a igualdade racial, o meio-ambiente, além de uma postura mais democrática, em si, mais condizente com a essência da FC. Um gênero literário movido pelo novo, aberto a novidades, crítico do status quo e sensível à alteridade, de outros povos, culturas e estilos de vida. Polemizou com as características mais bem comportadas da Golden Age, mas olhando de forma retrospectiva fica a impressão de que a causa principal do mal-estar tenha sido menos os temas tratados e mais as experimentações literárias, na forma como muitas narrativas foram desenvolvidas. O leitor tradicional do gênero não estava acostumado com isso.

A FC que veio depois reverberou mais os paradigmas da New Wave, com o surgimento do cyperpunk e de uma corrente mais humanista, a partir dos anos 1980, até chegar ao contexto pós-colonial e multicultural do século XXI. Aliás, não se pode deixar de lembrar que esta é uma história do gênero do ponto de vista do centro de sua produção, o mercado norte-americano e britânico. Para além dele é dada alguma atenção à FC francesa, alemã, russa e japonesa, nesta ordem. Talvez fosse pedir demais um novo esforço de pesquisa para locais menos pujantes como, por exemplo, a América Latina, mas é uma lacuna dentro do contexto maior.[2]

Outra ideia importante do livro é que a FC se tornou majoritariamente um fenômeno de expressão visual, a partir do filme Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas. Creio que isso seja difícil de contestar, pois nas décadas posteriores o cinema de FC tornou-se o mais popular e lucrativo de Hollywood. Aliás, não só o cinema pois, como demonstra o autor, a paisagem visual se tornou a marca mais identificável do gênero, ou seja, também na publicidade e nos videogames. Ao contrário do que postula o autor, entretanto, não entendo que este aspecto tenha assumido o lugar principal do gênero em si, mas sim como fenômeno cultural e de mercado. Isso não é pouco, é claro, mas o núcleo central de criação do gênero, continua sendo a literatura. É ela que mais inova, e mais estabelece novas tendências que, se bem sucedidas, transbordam para outras artes, de consumo mais rápido. A maior parte dos artistas com maior influência no campo prossegue sendo os escritores.

E se, ao menos para mim, é na literatura que a FC continua a apresentar as ideias mais relevantes para o desenvolvimento do gênero, a sua “conquista das massas” se dá em termos mais populares, não necessariamente em termos de reconhecimento crítico. É verdade que nos EUA e na Europa a FC goza de certa respeitabilidade – e a publicação de um livro como este ilustra isso –, mas aqui em nossas paragens tropicais a realidade é outra, como bem observa Gilberto Schoereder no posfácio. O subtítulo da obra para a edição brasileira capta bem o alcance do argumento de Roberts, uma massificação popular e crítica, mas o mesmo não ocorre na ficção científica brasileira, ainda a lutar por espaço nas grandes editoras, por mais financiamento de produções audiovisuais e mais respeitabilidade crítica por parte expressiva da academia e do jornalismo cultural.

Se no centro anglo-americano teme-se por uma “evaporação” da FC junto ao mainstream – numa citação de Roberts ao influente crítico Gary K. Wolfe –, aqui ainda paira uma marginalidade em relação ao centro da produção e reflexão cultural. Nesse sentido, A Verdadeira História da Ficção Científica é útil também para colocar em perspectiva a realidade da nossa FC junto ao centro de produção do gênero.

Em termos editoriais, vale uma observação. No início da obra é informado que os livros publicados no Brasil viriam com o título nacional primeiro, e o título original entre parênteses. Isso é seguido por todo o livro, mas de forma errática. Identifiquei algumas obras publicadas em nosso país – e em Portugal, com grande tradição de consumo por parte do fã brasileiro –, sem o título em português. O caso é que existe pesquisa bibliográfica sobre as obras publicadas no Brasil e em Portugal, como, por exemplo, os dois volumes de Quem é Quem na Ficção Científica, de R.C. Nascimento.[3] Tiveram uma tiragem pequena, mas de acesso possível por parte da editora, já que ela teve contato com algumas pessoas oriundas do fandom. Fica a sugestão, caso haja uma segunda edição.

Do ponto de vista pessoal, ler este livro foi uma experiência estimulante, pois pude compartilhar com o autor impressões e opiniões sobre várias obras e autores, especialmente os das décadas de 1940, 1950 e 1960, em que boa parte da FC estrangeira foi disponibilizada no Brasil e em Portugal. Nem sempre com opiniões convergentes, mas ainda assim interessantes, me fazendo relembrar e reavaliar sobre muitas obras e autores. Como se vê, portanto, é um livro de História e análise literária, e menos de divulgação sobre o gênero e suas características.

Nesse sentido, não deixa de ser curioso que nestes últimos anos, em que muita FC tem sido publicada no Brasil, poucas obras sobre o gênero apareceram. Ao contrário dos anos 1980, quando o mercado editorial era pequeno e bons livros, mais de divulgação, foram lançados. Seja como for, a publicação de A Verdadeira História da Ficção Científica deve ser celebrada, pois aumenta significativamente o grau de conhecimento sobre o gênero para os brasileiros, incentiva o debate e a reflexão, e abre possíveis campos de pesquisas que possam dar continuidade e problematizar as ideias corajosas deste livro excelente.

 – Marcello Simão Branco



[1] Na verdade, livros de FC de autores brasileiros também contaram a história do gênero, mas como capítulos da obra, não como seu aspecto principal.  Dentre eles o mais próximo neste contexto é Introdução a Uma História da Ficção Científica, de Léo Godoy Otero. São Paulo: Lua Nova, 1987.

[2] O Brasil é citado duas vezes no livro, mas sem mencionar o gênero em si como um movimento presente no país. Primeiro com o livro Páginas da História do Brasil Escrita no Ano 2000 (1868-1872), de Joaquim Felício dos Santos – sobre a difusão global da FC já no século XIX – e a refilmagem de Robocop (2014), do diretor brasileiro José Padilha.

[3] O primeiro é Quem é Quem na Ficção Científica – Volume 1: A Coleção Argonauta. Editora Scortecci, 1985. E o segundo é Quem é Quem na Ficção Científica – Volume II: Catálogo de Ficção Científica em Língua Portuguesa 1921-1993 (1994). Edição de autor. Nascimento publicou ainda Argonauta 500: Uma Edição Comemorativa. Clube de Leitores de Ficção Científica/Qanat Fantasia e Ficção Científica, 1999.

As Torturas do Dr. Diabolo (Torture Garden, Inglaterra, 1967)

 


Produção inglesa do também cultuado estúdio “Amicus”, de Max Rosenberg e Milton Subotsky, rival da “Hammer”, com direção de Freddie Francis, de diversos filmes de horror dos nos 60 e 70 como “O Monstro de Frankenstein” (1964), “A Maldição da Caveira” (1965) e “A Essência da Maldade” (1973). 

Trata-se de uma antologia de contos de horror com roteiro de Robert Bloch, autor do clássico “Psicose”, e no elenco temos nomes consagrados como Jack Palance, Peter Cushing e Burgess Meredith. Com esses créditos indicando a qualidade dos realizadores, já dá para imaginar a diversão garantida.

Em “As Torturas do Dr. Diabolo”, um título nacional sonoro, uma atração de circo com foco no horror é apresentada pelo Dr. Diabolo (Meredith), que convida os espectadores a conhecer situações trágicas em seus destinos futuros, ao olharem fixamente para a imagem da deusa dos destinos Átropos (da mitologia grega). São apresentadas então quatro histórias de horror.

A primeira chama-se “Enoch” e mostra um homem ganancioso, Colin Williams (Michael Bryant) visitando o tio doente interessado na herança de sua misteriosa riqueza, e não imagina o terrível segredo que envolve sua casa, habitada anteriormente por uma bruxa. Em seguida temos “Terror Over Hollywood”, onde uma atriz ambiciosa, Carla Hayes (Beverly Adams), não mede esforços para conseguir um papel de destaque no cinema, envolvendo-se com um produtor, Eddie Storm (John Phillips) e um veterano e famoso ator, Bruce Benton (Robert Hutton), que também escondem um misterioso segredo sobre suas longevidades. O terceiro episódio, “Mr. Steinway”, apresenta um famoso pianista, Leo Winston (John Standing), que se apaixona pela bela Dorothy Endicott (Barbara Ewing), mas não consegue manter o romance por causa de um piano amaldiçoado. A última história, “The Man Who Collected Poe”, tem Jack Palance no papel de Ronald Wyatt, um obcecado colecionador de livros e objetos do cultuado escritor americano de horror Edgar Allan Poe. Ele visita outro colecionador, Lancelot Canning (Peter Cushing), que entre livros e manuscritos raríssimos, também esconde um terrível segredo sobre o próprio escritor Poe. 

Todos os episódios são muito bons, carregados de elementos de horror e até FC (no segundo episódio), e que ficam guardados por muito tempo em nossas memórias. Como o sinistro gato preto Balthazar, da primeira história, ou o piano assassino tocando a marcha fúnebre, do terceiro conto, ou ainda a dupla Palance e Cushing obcecada pela literatura sombria de Edgar Allan Poe, com graves consequências.

Curiosamente, “As Torturas do Dr. Diabolo” é o sucessor direto de outro filme de antologia de contos também produzido pela “Amicus” e dirigido por Freddie Francis, “As Profecias do Dr. Terror” (Dr. Terror´s House of Horrors, 1965), com Christopher Lee e Peter Cushing. 

(Juvenatrix – 27/12/13)






segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Sexta-Feira 13 (Black Friday, EUA, 1940, PB)


Quando nos deparamos com um filme com o título nacional “Sexta-Feira 13”, logo vem à cabeça a popular franquia “slasher” com o psicopata mascarado Jason Voorhees, um ícone da cultura pop, com seu primeiro filme lançado em 1979 (Friday the 13th). Porém, existe outro filme com o mesmo nome nacional e título original “Black Friday”, com fotografia em preto e branco, produção de baixo orçamento do longínquo ano de 1940, e com dois dos maiores astros do cinema de horror de todos os tempos, o inglês Boris Karloff (famoso principalmente pelo papel do “monstro de Frankenstein”) e o húngaro Bela Lugosi (eternizado como o vampiro “Drácula” nos filmes da “Universal”). Sexta-Feira 13” tem direção de Arthur Lubin e roteiro de Eric Taylor e do alemão Curt Siodmak, autor conhecido pelas histórias de diversos outros filmes como “O Lobisomem” (1941).

O cientista Dr. Ernest Sovac (Boris Karloff) está envolvido num trabalho de pesquisa de transplante de cérebros. Depois que seu grande amigo, o professor de literatura inglesa George Kingsley (Stanley Ridges) sofre um acidente terrível, sendo atropelado por um carro em fuga de uma perseguição com tiroteios, o cientista encontra uma oportunidade de fazer uma experiência para tentar salvar a vida do amigo gravemente ferido com uma lesão cerebral irreversível. O carro acidentado era dirigido pelo gangster Red Cannon (também Ridges), que fugia dos antigos parceiros de crime, após um roubo milionário. Fraturando a coluna no acidente, o criminoso teve partes de seu cérebro transplantadas para o cérebro do professor, numa experiência ilegal em seres humanos, e que o cientista só tinha realizado em animais.

O grupo de gangsters rivais, liderados por Eic Marnay (Bela Lugosi), ainda era formado por Frank Miller (Edmund MacDonald), William Kane (Paul Fix) e Louis Devore (Raymond Bailey). Numa conspiração com a namorada de Red Cannon, Sunny Rogers (Anne Nagel), eles tentam localizar e recuperar o dinheiro roubado. Em paralelo, a personalidade pacífica do Prof. Kingsley oscila drasticamente com a influência da mente do criminoso, que ao assumir o controle transforma-se num assassino, matando violentamente seus rivais e policiais que cruzam seu caminho.

Enquanto a filha do cientista, Jean Sovac (Anne Gwynne), junto com a esposa do professor, Margaret Kingsley (Virginia Brissac), tentam entender e ajudar no conflito de personalidades, o Dr. Sovac se interessa também pela fortuna em dinheiro, que financiaria seus trabalhos de pesquisas, com sua ganância tumultuando ainda mais a confusão gerada pela dupla personalidade do Prof. Kingsley.

“Sexta-Feira 13” tem apenas 70 minutos de duração e é uma mistura de filme policial com elementos de horror e ficção científica como pano de fundo, na ideia do tradicional “cientista louco” com suas experiências para o bem da humanidade, e que tem consequências desastrosas. Nesse caso, o transplante de partes de cérebros foi o responsável pela dupla personalidade do Prof. Kingsley com o gangster Red Cannon, alternando entre um homem pacato e um criminoso assassino, no estilo da clássica e popular história do Dr, Jekyll e Sr. Hyde, “o médico e o monstro” de Robert Louis Stevenson.

O simples fato da presença de Boris Karloff e Bela Lugosi, dois expoentes máximos do cinema de Horror e Ficção Científica, já traz grande crédito para o filme, agregando valor com seus nomes reconhecidos e requisitados na época. Mas, curiosamente eles não contracenam juntos em nenhuma cena no filme, e Lugosi tem apenas um papel menor e secundário, aparecendo pouco como um dos gangsters, enquanto Karloff é o cientista responsável pelo elemento fantástico que gera o conflito na trama. E certamente um destaque é a atuação de Stanley Ridges na interpretação dupla do calmo professor e do inescrupuloso criminoso, simulando personalidades muito distintas de forma convincente.

Informações de bastidores reveladas pelo roteirista Curt Siodmak dizem que Karloff inicialmente ficaria com o papel do Prof. Kingsley e o cientista Dr. Sovac seria interpretado por Lugosi, mas que depois o famoso ator da “criatura de Frankenstein” desistiu da complexidade exigida na atuação de um papel duplo e tomou o lugar de Lugosi como o cientista. O ator de “Drácula” ficou então apenas com uma participação menor como o líder dos criminosos que estão atrás do dinheiro roubado.

Outra curiosidade é que Curt Siodmak é também o autor do conto “O Cérebro de Donovan” (1942), que recebeu algumas versões para o cinema como “A Dama e o Monstro” (1944) e “Experiência Diabólica / O Cérebro Maligno” (1953), cuja história é sobre um cérebro de um homem inescrupuloso morto, mas que é mantido vivo fora do corpo e ainda consegue manipular a mente das pessoas por telepatia.  

(RR – 14/09/20)