sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Desta Terra Nada Vai Sobrar, a não ser o Vento que Sopra Sobre Ela

 



    Desta Terra Nada Vai Sobrar, a não ser o Vento que Sopra Sobre Ela, Ignácio de Loyola Brandão. Capa: Thomaz Souto Corrêa. 376 páginas. São Paulo: Global, 2018.

 

  Um romance inédito de Loyola Brandão, e depois de 12 anos, é um acontecimento no panorama literário brasileiro. O último havia sido A Altura e a Largura do Nada (2006) – na verdade uma coleção de crônicas e contos interligados, uma espécie de fix-up –, e neste Desta Terra... o autor volta a um universo ficcional fantástico, de ficção científica, mas, sobretudo, de delírio absurdista.

  A história se passa num futuro indeterminado, mas institivamente próximo de nossa realidade, já que faz várias referências a acontecimentos políticos, sociais e ambientais do Brasil dos anos 2010. Período de seguidas crises políticas, com crescente polarização, e ameaça à democracia, em meio a um contexto de recessão econômica e desastres industriais vultosos, com enormes impactos ambientais.

  Neste Brasil, todas as pessoas já nascem com tornozeleiras eletrônicas (!), e são vigiados por câmeras o tempo todo, em praticamente todos os lugares possíveis. A corrupção estrutural se transformou numa epidemia que corroeu completamente a classe política e as instituições, mas isto, no fundo foi um sintoma, de práticas e valores antiéticos e imorais espalhados e entranhados, antes de mais nada, nas relações sociais e interpessoais.

  Os mandatos presidenciais duram, em média um mês, já que se banalizou o expediente do impeachment, que de exceção, se tornou a regra. A quantidade de partidos explodiu, ultrapassando o número 1000, onde, na verdade, cada parlamentar pertence a uma legenda individual para chamar de sua, tal o quadro de fragmentação a que se chegou, no qual o interesse público desapareceu para dar lugar ao interesse individualizado e ultraprivatizado. Tal o grau de degradação do político, que ele ganhou nova nomeação: astuto, uma referência cínica às suas intenções e comportamentos. Vale tudo para se atingir um objetivo, principalmente se for para o interesse pessoal e dos seus.

  Neste contexto caótico, o país sobrevive não se sabe como do ponto de vista econômico, pois o fracasso material se estabilizou, se refletindo numa pequena elite altamente abastada e massas de diferentes pessoas e segmentos sociais que lutam apenas para existir. Partes do país, inclusive, se tornaram inviáveis, ora por causa da violência descontrolada de grandes centros urbanos – como São Paulo e Rio de Janeiro, este do qual pouco sobrou –, ora pelo quase total abandono de regiões nos rincões do país, que, no fundo nunca foram plenamente integradas no processo de desenvolvimento capitalista nacional.

  Nesta sociedade que praticamente se desmanchou e viceja, sobretudo, a violência e a corrupção como forma de sobrevivência, acompanhamos a crise no relacionamento entre Felipe e Clara, que em tempos anteriores, eram um casal apaixonado e bem sucedidos em suas carreiras numa agência de publicidade. Desiludida com o egoísmo e falta de comprometimento do namorado, Clara o deixa e parte para sua cidade natal, a misteriosa Morgado de Mateus, situada no meio de um nada pelo interior profundo de Minas Gerais. Lá ela tentará se refugiar junto à irmã Lena, uma ex-professora angustiada com o sumiço de seu filho e tendo de cuidar do marido inválido. Mas Felipe também resolveu abandonar sua casa e o que poderia restar de sua carreira, e, com sentimento persecutório, passa a se movimentar de ônibus pelo país afora, vivendo um pouco em cada rodoviária, até um novo destino incerto. Até que, sem querer, vislumbra uma mulher na janela de um ônibus e resolve segui-la para descobrir se é Clara.

  Nas grandes cidades, trens urbanos levam corpos em vagões, depois de terem sido deixados nas ruas e estradas. Os idosos, se chegarem aos 67 anos e não terem condições de se manterem ou de serem mantidos, tem de se apresentar na chamada autoeutanásia, onde cometem suicídio em lugares altos e ermos, como pontes e montanhas. Movimentos reacionários, alguns de inspiração religiosa, atacam o que chamam de “arte degenerada”, vandalizando ou destruindo museus, exposições de arte, além de matarem bailarinos por se apresentarem nus. As escolas não existem mais. Não há ensino institucionalizado, nem público e nem particular. Ninguém lê ou se importa com qualquer forma de produção impressa. Todos se informam por meio de seus celulares e antigos aparelhos de TV, os que restaram.

  Em meio a este caos, talvez o sinal mais eloquente da barbárie é que as horas e os dias não são mais contados. Na verdade, para quem se importa é, mas no cotidiano da vida particular de cada um, deixou de ter qualquer significado.

  Felipe leva consigo uma dúvida existencial: se Deus criou o universo, como era antes, quando ele vivia no escuro? De onde ele teria vindo? O que o teria motivado? Lendo o volumoso ensaio póstumo Passagens (1982), do filósofo Walter Benjamin (1892-1940), ele busca a inspiração para desvendar este mistério existencial-teológico insolúvel, dado que nem os padres e freiras que ele consultou conseguiram dar qualquer resposta à questão.

  Pois Felipe chega finalmente a Morgado de Mateus, uma cidadezinha que guarda segredos lendários, como a presença do senador Altivo Ferraz, outrora muito poderoso, mas que condenado por corrupção, teria se refugiado numa fortaleza da qual ninguém sabe se ele de fato está lá, onde guardaria um exemplar original de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões (? – 1580). Município tão fora de sintonia que nem se reconhece mais como parte do Brasil, que é um antes ou depois. Aliás, um depois que ninguém sabe no que vai dar.

  A expectativa fica na possibilidade do reencontro do casal, mas várias situações cada vez mais bizarras passam a ocorrer tornando isso difícil, e encaminham a narrativa para um crescente absurdo, onde, por exemplo, todos os políticos do Congresso derretem literalmente numa sessão, quando se descobre dentro Areópago Supremo – referência sarcástica ao Supremo Tribunal Federal – juízes mortos há muito tempo, com decisões judiciais tendo sido tomadas, na verdade, por avatares de inteligências artificiais.

  Como o próprio Brandão afirmou, escreveu este livro por “medo”, a mesma motivação de quando escreveu seus dois livros principais Zero (1974) e Não Verás País Nenhum (1981), em que imaginou uma distopia baseada na ditadura militar brasileira e seus rumos. Para ser preciso uma trilogia, com Zero sobre a instauração do regime e seus mecanismos de repressão, a coletânea Cadeiras Proibidas (1977), sobre as injustiças e absurdos do cotidiano e Não Verás... sobre possíveis horizontes com a abertura, que, no caso do livro, se mostraram um fracasso político e ambiental em seu futuro. Pois Desta Terra... poderia ser visto como um avanço especulativo posterior, no qual a democracia se afirmou, mas em bases que se mostraram muito frágeis em seus valores, levando à crise política que ainda hoje nos assola, e com prognósticos que não dão razão para muito otimismo.

  Um trecho representativo da reflexão especulativa de Brandão sobre o Brasil revela uma angústia de certa forma compartilhada por aqueles que pensaram sobre o país hoje e no passado:

Que mundo é este? As coisas não se encaixam, há um Brasil e dentro dele outro, diferente, um que comanda, outro que vive anestesiado/calado, sem fazer nada, algemado. Algemado, não, com tornozeleira. Quem é o brasileiro? Aqueles cientistas que vieram estudar não entenderam. Ninguém nunca conseguiu definir este povo. Uma gente que tem medo da violência e a pratica. Há em alguma parte um país verdadeiro, a ser desvendado. (pg. 321).

  Assim, o livro é uma espécie de desabafo meio desesperado da crise vivida pelo Brasil de 2013 em diante. De um país que aparentemente havia viabilizado o que poderíamos chamar de um contrato social da democratização, mas se viu imerso num contexto de crescente radicalização – uma reação dos setores historicamente privilegiados contra os êxitos do processo de redução da desigualdade e empoderamento de minorias –, e que esteve a ponto de destruir a própria democracia, especialmente quando teve na Presidência uma figura que a atacou e tentou subvertê-la, após não ser reeleito. Mesmo assim, em comparação, embora contribua com esta nova visão especulativa e futurista do Brasil de seu tempo, não tem o mesmo vigor criativo de sua obra-prima, Não Verás País Nenhum, mas nem por isso deixa de ser um livro importante a refletir sobre este novo momento do Brasil e do que pode vir daí.

  Ignácio de Loyola Brandão é um dos autores com os melhores títulos de livros, e Desta Terra Nada Vai Sobrar, a não ser o Vento que Sopra Sobre Ela não é exceção, tomando como inspiração uma frase da peça Do Pobre B.B. (1921), do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956), e que, no ambiente da FC me fez lembrar do igualmente emblemático Só a Terra Permanece (Earth Abides; 1948), de George R. Stewart (1895-1980), clássico do gênero sobre um mundo que se torna uma terra de ninguém por causa de uma praga biológica. Pensando bem, talvez o romance de Brandão seja mais do que uma amarga e por vezes desagradável distopia, por causa de sua intensidade corrosiva e niilista, e esteja mais próxima de um Brasil pós-apocalíptico, do que praticamente há de restar.

  Que esta visão pessimista nem se aproxime de se tornar verdade, embora os problemas e sintomas estejam bem caracterizados em termos metafóricos e especulativos, podendo servir como um poderoso indicador do que podemos fazer, como sociedade brasileira e civilização, para impedir que eventualmente ocorra.

Marcello Simão Branco

 


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Prêmio Argos 2025

O Prêmio Argos de Literatura Fantástica, provido anuamente desde 2000 pelo Clube dos Leitores de Ficção Científica-CLFC, reconhece os melhores trabalhos em romance, antologia e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa publicados no ano anterior. 
A escolha dos vencedores é realizada em um primeiro turno com votação exclusiva entre os membros do Clube, que indica cinco finalistas depois votados publicamente através de formulários divulgados nas redes sociais. 
Os vencedores da edição 2025 foram anunciados no último dia 20 de dezembro no auditório da Acaso Cultural, na cidade do Rio de Janeiro. São eles:
Romance: Garras, Lis Vilas Boas, Editora Rocco.
Coletânea: Revista Literatura Fantástica Vol. 20, Jean Gabriel Álamo, org., Álamo Edições.
Conto: "Pista Norte", Ursulla Mackenzie, in Cidades inversas, Editora Nebula.
A cerimônia foi transmitida ao vivo pela internet e seu vídeo, na íntegra, pode ser visto aqui.
Parabéns aos premiados.

VIII Prêmio ABERST de Literatura - 2025

Criado em 2018, o Prêmio ABERST é uma promoção da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, e aponta os melhores trabalhos especificamente inscritos para o certame,  publicados pela primeira vez entre 1 de julho do ano anterior e 30 de junho do ano corrente. 
Os vencedores da edição de 2025 foram anunciados no dia 12 de dezembro de 2025, em evento presencial transmitido pela internet, cujo vídeo completo pode ser assistido aqui
E os ganhadores são: 
Prêmio Sebastião Salgado – Projeto Gráfico: Mau Noronha e a onça cabocla, Larissa Brasil.
Prêmio Catacumba – Quadrinhos de Crime ou Terror: Le Chevalier e a volta ao mundo em oitenta horas, A.Z. Cordenonsi & Fred Rubim.
Prêmio Lúcia Machado de Almeida – Narrativa curta de ficção de crime: Arranha céu, Mário Bentes.
Prêmio Stella Carr – Narrativa curta de suspense: Portais para o vazio, Renata Madeo.
Prêmio Lygia Fagundes Telles – Narrativa curta de terror: Fruto podre; Lucas Santana.
Prêmio Lygia Bojunga – Narrativa curta juvenil/juvem adulto: Tremores, Nicole Annunciato.
Prêmio Rubem Fonseca – Narrativa longa de ficção de crime: Legítima defesa, Iza Artagão.
Prêmio Cláudia Lemes – Narrativa longa de suspense: A relíquia de Judas, André Alves.
Prêmio Rubens Lucchetti – Narrativa longa de terror: Sim, tenha medo, Sheize Piezentini.
Prêmio Marcos Rey – Narrativa longa juvenil/jovem adulto: O jovem Arséne Lupin e a coroa de ferro, Simone Saueressig.
Prêmio revelação 2025: Renata Madeo.
Prêmio Grand ABERST: Caixa de silêncios, Marcella Rosetti.
Prêmio ABERST Inéditos - Narrativa curta: "O espelho da minha mãe", Renato Dutra.
Prêmio ABERST Inéditos - Narrativa longa: "O dia em que eu conheci um assassino"; Stefany Borba.
As categorias Prêmio Maria Firmina dos Reis – Narrativa curta século XXI e Prêmio Eliana Alves Cruz – Narrativa longa século XXI não foram apuradas nesta edição. A divulgação oficial não forneceu os detalhes editorais dos trabalhos premiados.
Parabéns a todos.

Prêmio Odisseia 2025

Criado em 2019, o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica homenageia os favoritos de um júri composto por escritores convidados, dentre uma relação de obras publicadas no ano anterior especificamente inscritas para o certame. A edição 2025 anunciou seus vencedores aconteceu durante a Feira do Livro de Porto Alegre, no último dia 16 de novembro. 
Os jurados do Prêmio em 2025 foram Adriana Maschmann, Diego Mendonça, Duda Falcão, Gustavo Czkester, Irka Barrios, Ismael Chaves, Lu Aranha e Mario Pool Gomes. E os vencedores são: 
Projeto gráfico: 
Ricardo Celestino, O vazio e sei lá o que mais…, Necrose.
Quadrinho fantástico: 
Julio Wong, Kiko Garcia e Ser Cabral, À moda da casa, Kikomics e Antenor Produções.
Narrativa longa juvenil: 
Larissa Brasil, Mau Noronha e a Onça Cabocla, Independente.
Narrativa curta horror: 
Raquel Setz, Magic Help, Oito e Meio.
Narrativa curta fantasia: 
R. M. Albuquerque, Pocalina e os mortos que sonham, Independente.
Narrativa curta  ficção científica: 
Luis Felipe Mayorga, "Predações da Harpia-Açu", Literatura Fantástica vol.15.
Narrativa longa  horror: 
Iza Artagão, Legítima defesa, Rocket.
Narrativa longa  fantasia: 
Giu Domingues, Canção dos ossos, Galera Record.
Narrativa longa ficção científica: 
Fábio Fernandes, O Torneio de Sombras: As aventuras de January Purcell, Avec.
Artigo fantástico:
Nathalia Xavier Thomaz, "Histórias em quadrinhos: Uma arte antropofágica", Quadrinhos famintos: A 9.a arte como linguagem do limiar – FFLCH/USP.
Conto inédito:
Patrícia Baikal, "Os lírios também têm memórias".
Todos os contos participantes desta última categoria podem ser lidos no terceiro número da Revista Odisseia de Literatura Fantástica, publicação exclusiva do evento que foi distribuída aos presentes durante o evento. A versão digital da mesma, bem como das edições anteriores, podem ser baixadas gratitamente aqui. E a lista completa dos indicados pode ser lida aqui
Parabéns aos vencedores!

67º Jabuti

O Prêmio Jabuti é a mais prestigiosa premiação do ambiente editorial brasileiro. Promovido pela Câmara Brasileira do Livro, inaugurou em 2020 a categoria: "Romance de Entretenimento", que contempla livros de  ficção científica, fantasia e horror, entre outros gêneros. Os finalistas de cada categoria são escolhidos dentre uma lista de inscritos para o certame, por um juri de três especialistas na área. Além do vencedor, vale citar todos os finalistas da categoria, pois o reconhecimento da CBL muito significativo. São eles:
1º Lugar: As fronteiras de Oline, Rafael Zoehler, Patuá.
Demais finalistas: 
A Casa da Opera de Manoel Luiz, Celso Taddei, Mondru; Boas meninas se afogam em silêncio, Andressa Tabaczinski, Rocco; O amor e sua fome, Lorena Portela, Todavia; Uma família feliz, Raphael Montes, Companhia das Letras.
A relação completa dos vencedores de todas as categorias do 67º Prêmio Jabuti pode ser conferida aqui.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Bestiário, Júlio Cortázar

Bestiário
(Bestiario), Júlio Cortázar, 112 páginas, tradução de Remy Corga Filho. São Paulo: Edibolso, 1977. Publicado originalmente em 1951.

Bestiário é uma coletânea com oito contos do escritor argentino Júlio Cortazar (1914-1984), publicada originalmente em 1951. O autor é vinculado ao fantástico latinoamericano, ao lado de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Gabriel Garcia Marques, mas apresenta um estilo muito particular que o identifica perante seus colegas. 
Cortázar nasceu na Bélgica, mas foi criado na Argentina desde os três anos de idade. Mais tarde, naturalizou-se francês, em protesto contra a ditadura na Argentina. Seus textos muitas vezes se aproximam do surrealismo, escola com a qual também é identificado. 
Os contos desta coletânea são todos curtos, mas a leitura não é fácil nem divertida: são textos perturbadores e dolorosos. Realistas, quase sempre poderiam ser instalados no mundo real sem muito mistério mas, mesmo assim, carregam estranhamento suficiente para torná-los eventos incomuns; cada um proporciona ao leitor uma experiência estética profunda e singular. 
O conto de abertura é "Casa tomada": um casal de irmãos habita uma mansão que, aos poucos, vai sendo invadida por estranhos. "Carta a uma senhora em Paris" é um relato epistolar em que a missivista acredita vomitar coelhos. "A distante" mostra um trecho do diário íntimo de uma mulher que tem vislumbres trágicos de uma outra vida, não necessariamente dela. "Ônibus" relata o início do passeio de uma doméstica em seu dia de folga. Ela embarca em um ônibus metropolitano em que acontecem coisas muito estranhas. "Cefaleia" narra o dia-a-dia de um casal numa granja de mancuspias (um animal imaginário). Contudo, os granjeiros são regidos por uma fixação em doenças. "Circe" é o conto mais simples, sobre um rapaz que flerta uma garota cujos  noivos anteriores morreram em condições misteriosas. O nome do conto meio que entrega, mas o final não é tão previsível. Em "As portas do céu", dois jovens de luto vão espairecer em um barzinho e lá tem uma experiência algo metafísica. "Bestiário", que encerra e dá nome a seleta, é uma espécie de Sítio do Picapau Amarelo à moda portenha, ou seja, não é para crianças. Uma garotinha vai passar as férias na fazenda dos tios que estão com problemas no casamento, mas todos sempre têm de estar muito atentos para evitar um tigre que vaga entre os aposentos da residência.
A edição deste resenha é de 1977, publicada pela Edibolso; tem 112 páginas e tradução de Remy Corga Filho. Mas há edições mais recentes disponíveis nas livrarias, inclusive uma de 2025 pela Companhia das Letras. Leitura obrigatória para todos que pretendem conhecer os traços identitários da ficção latinoamenricana e brasileira. 
Parafraseando o ditado, com Cortázar não se aprende pelo amor, mas pela dor.
Cesar Silva

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

40 Anos do CLFC

 



Um Clube com Quatro Décadas de Ficção Científica

 

Marcello Simão Branco (sócio 83)

 

    Quando R.C. Nascimento propôs a criação de um clube de leitores de ficção científica em 1985, como um anexo do seu valioso e hoje raro Quem é Quem na FC, Volume 1: A Coleção Argonauta, não imaginaria, primeiro que o clube seria de fato formado, depois que se manteria como a principal instituição do fandom brasileiro por vários anos, e em terceiro que chegaria a completar quatro décadas de existência, como acontece neste 15 de dezembro de 2025.

    Há dez anos eu escrevi um balanço mais detalhado e analítico da trajetória do clube e, em boa medida, ele se mantém  veja no terceiro texto aqui. Agora, ao apagar quarenta velinhas, o tom que quero adotar é de um pouco mais de depoimento.

    A começar pelo fato de que o CLFC tem muito do que foi o Nascimento. Uma pessoa apaixonada por FC, muito organizada e com grande liderança. O clube nasceu a partir de sua ideia, e se desenvolveu, até pelo menos, o final do século XX, muito em função de seus valores e objetivos para o que deveria ser um clube de leitores. Não fosse a sua enorme capacidade de trabalho – principalmente quando presidente (1985-1989) –, provavelmente o CLFC não teria sobrevivido, pois ele desenvolveu uma atividade intensa, que não só estruturou um clube de fãs de FC, mas uma instituição que organizou uma comunidade voltada para o gênero.

    Ora, de saída foi redigido um estatuto, os processos sucessórios sempre foram eletivos, se estabeleceu atividades regulares, a principal delas, a reunião mensal dos sócios, sempre na manhã do último sábado de cada mês na cidade de São Paulo – que infelizmente foi descontinuada por causa da pandemia –, foi criado um órgão oficial, rapidamente batizado por meio de uma enquete dos sócios de Somnium, ainda hoje em atividade – para sua história, veja aqui –, além do Informativo Mensal CLFC, mais voltado às notícias internas do clube, que vigorou por alguns anos. Foi incentivada uma enorme rede de correspondências postais entre os associados – sim isso existiu, uma troca de cartas vigorosa entre os membros. Eu mesmo recebia e escrevia várias por semana. Tudo isso teve como consequência trazer muita gente talentosa ao clube, alterando seu perfil inicial de uma associação de leitores e colecionadores. Assim, surgiram novos leitores – como eu –, fanzineiros, autores em atividade e iniciantes, ilustradores, editores, tradutores etc. Eu mesmo me inspirei em parte no Somnium para criar meu próprio fanzine, o Megalon em novembro de 1988, após ter me associado ao clube em maio de 1987 – e cheguei inclusive a editar o próprio Somnium entre 1995 e 1996.

    Destes anos iniciais lembro de alguns eventos marcantes e comemorativos, como a reunião histórica de dezembro de 1987 em São Paulo – que eu já contei em outra ocasião, veja aqui –, os almoços dos 5 anos (em 1990) e o de 15 anos (em 2000), com as presenças de vários sócios, não só da capital paulista, mas também de outras cidades, inclusive de outros estados. E sem esquecer das reuniões de finais de ano. Por mais de vinte anos os sócios paulistas – pelo menos – confraternizaram com animados almoços, talvez a maioria deles na belíssima residência de Alfredo Kepler, ele que também presidiu o clube por mais de um mandato, entre 2003 e 2007.

    Com o passar dos anos, o CLFC foi alterando suas características num processo relacionado com as próprias mudanças da FCB em geral. De início em ser um clube mais ativista em divulgar a FC e organizar o fandom, para um mais voltado às iniciativas de publicações e relações sociais mais distantes, porque realizadas principalmente no ambiente online da internet. Esta última fase é a que marca a saída da primeira geração que liderou o clube, para uma nova – que em parte conheceu o clube depois – e voltada à outras conexões e interesses, em que o clube não é mais o centro do fandom, mas apenas sua instituição mais tradicional.

    O principal momento do CLFC como líder da produção e reflexão sobre a FCB se deu entre 1985 a 2000. Neste período publicou um dos principais fanzines, organizou projetos de divulgação marcantes – como as Mostras de FC junto ao Sesi em SP –, conseguiu divulgações na grande imprensa, principalmente a paulistana – por onde eu mesmo conheci o clube, em 1986 –, estabeleceu consultorias e parcerias com editoras, como a GRD, a Aleph e a Record –, ajudou na criação e organização de, pelo menos, outro clube, o Trekker´s Club, sobre Jornada nas Estrelas, em 1989.

    Também trouxe de volta ao convívio personalidades da Primeira Onda, como Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), André Carneiro (1922-2014), e Gumercindo Rocha Dorea (1924-2021) – estes dois últimos muito presentes nestes anos. André organizou concorridas oficinas literárias e voltou a publicar livros, e Gumercindo, de tão animado, relançou em novos moldes sua clássica coleção de FC, agora com novos autores, a maioria talentos do próprio clube. Além disso, ele foi até presidente, de 1993 a 1997. Assim, nestes primeiros quinze anos o CLFC tornou possível uma maior divulgação do gênero, e o desenvolvimento de muitos talentos, como escritores, ilustradores e editores, alguns dos quais seguiram carreiras no ambiente profissional com relativo êxito e reconhecimento.

    Como uma espécie de última etapa desta fase e passagem para a próxima, foi criado o Argos em 2000, que se tornou a mais longeva premiação da FCB, mantendo a tradição de premiação do fandom, iniciada com o saudoso e influente Prêmio Nova (1987-1996), criado por Roberto de Sousa Causo. Outra iniciativa que se tornou tradicional foi a lista de discussão do clube na internet, através de servidores de e-mails. Na época uma grande novidade que trouxe alguns anos de intensos e polêmicos debates, depois reduziu as atividades embora, de forma surpreendente, ainda se mantenha como o principal veículo de comunicação dos associados, mesmo com o surgimento de várias outras tecnologias de interação virtual criadas deste então.

    Interessante também que a entrada no século XXI marcou a transferência das principais decisões de São Paulo para o Rio de Janeiro, num processo, na verdade, iniciado um pouco antes quando Gerson Lodi-Ribeiro foi presidente, de 1999 a 2003. Pois de 2007 a setembro de 2025, tivemos quatro dirigentes da capital carioca, embora, agora em seus 40 anos, o clube esteja sob a direção de Sidemar Vicente de Castro, baseado em Catanduva, interior de São Paulo.

    A se lamentar apenas que as atividades presenciais tenham diminuído de maneira drástica, sem nenhuma atividade presencial regular, seja em São Paulo, Rio ou outra cidade. Não porque houve a mudança de cidade, mas porque surgiram novos hábitos entre muitos dos sócios mais novos, mais vinculados às redes sociais e com pouco convívio com os sócios mais antigos. E parte destes, por sua vez, acabaram por se afastar do clube e da própria comunidade da FC.

    Neste particular quero chamar a atenção para os amigos com quem convivi mais de perto e que infelizmente já nos deixaram. Pessoas de quem só posso ter saudade, a começar pelo Nascimento, uma referência na minha trajetória na FC, o colecionador obsessivo Caio Luiz Cardoso Sampaio, os já citados André Carneiro e Gumercindo Rocha Dorea – este com quem tive o privilégio de conviver por anos e até frequentar sua casa, lotada de livros –, o fã de Kurt Vonnegut Jr. e Jornada nas Estrelas Christiano de Mello Nunes – que morreu precocemente –, o Ayrton Santos Miranda, camarada e dono da maior biblioteca de FC que já vi, o editor Douglas Quinta Reis, um idealista e parceiro de muitos projetos e, mais recentemente, o Fritz Peter Bendinelli e o Sérgio Roberto Lins da Costa, entre os primeiros sócios que conheci no clube e dos maiores leitores de FC que já vi. Também poderia lembrar de companheiros que se afastaram do clube e do fandom, mas espero que possa revê-los ainda e superar, com alguns deles, desgastes até naturais num convívio de vários anos.

    Enfim, neste século XXI, como disse, o CLFC mudou muito em relação às suas características e importância de seus primeiros anos, mas, na medida do possível, tem procurado manter os valores principais estabelecidos desde sua fundação: apoiar e promover a FC brasileira, abrir espaço para novos talentos e permitir um elo de comunicação e intercâmbio de ideias e projetos entre todos os que amam a FC. Enquanto tudo isso estiver em pauta o CLFC justificará mais décadas de vida e se manterá relevante para o futuro da nossa FC.