O Ditador Honesto,
Matheus Peleteiro. Capa: Tulio Carapia. 170 páginas. Salvador: Edição do autor,
2018.
Num futuro muito próximo,
neste ano de 2026, o Brasil elege para presidente da República Gutemberg Luz,
do Partido Socialista Liberal (PSL) – alguma semelhança com a legenda que
elegeu Bolsonaro em 2018? Idealista e cheio de boas intenções, de forma
progressiva muda a face do país. Primeiro ao transformar o regime político de
uma democracia para uma ditadura. Rasga a Constituição, enfraquece o
Legislativo, corrompe o Judiciário, e ganha fortes aliados entre os militares.
Com isso, põe em prática uma administração voltada à eficiência de resultados
nos mais diferentes segmentos, principalmente nas áreas de Educação e Segurança
Pública.
A história do ditador
honesto, ou como diriam os antigos, do déspota esclarecido, é narrada de forma
retrospectiva por seu secretário, o jovem Antônio, que o havia conhecido por
ser indicado por seu tio – e futuro aliado político – Rubens, para trabalhar no
escritório de advocacia de Gutemberg Luz.
Toda a trajetória
ascendente e meteórica do novo líder da nação é apresentada em detalhes,
principalmente do ponto de vista de como conseguiu entrar na política,
concorrer ao cargo e governar o país. Contudo, toda esta engrenagem surge de
maneira aparentemente fácil e tranquila, pois Gutemberg consegue tudo quase sem
obstáculos e oposições. Além disso, o mesmo se dá com seus dois amigos, o já
citado Rubens, um sociólogo e Juca, um publicitário. Pois ambos também adentram
na vida política, em outros partidos, e facilmente obtém a chance de
concorrerem por eles e se elegerem com grande apoio popular ao cargo de
senadores.
Este contexto favorável
soa, para o mundo real da vida política e dos entrechoques institucionais, como
inverossímil. Mas seria justificado, ao menos em algum plano de possibilidade,
pela anomia da sociedade, desesperançada na mudança pela política e sem
perspectivas de uma vida mais próspera e segura, em meio a um país tomado pela
corrupção.
Percebe-se, por essa via,
então, um vácuo em que poderia surgir um líder forte, que com boa oratória e
demagogia possibilitaria o renascimento do povo desiludido numa realidade que
lhes recuperasse a energia e a confiança.
Mesmo assim, me pareceu
inverossímil. Contudo, talvez a história que Matheus Peleteiro pretende contar
não é a do mundo político e social em si, mas de como seria possível o
surgimento de um líder megalomaníaco, que com suas promessas fáceis seduzisse
boa parte do eleitorado. Ora, é uma tradição histórica, que em momentos de
crises graves, principalmente econômicas, se corre o risco de surgir alguém que
promete um mundo melhor e revigorado da antiga injustiça e imoralidade. Assim,
Gutemberg Luz seria um possível exemplo de como, eventualmente, surgiria em
nosso país um populista que prometesse o melhor dos mundos a um povo
desesperançado. E por estarem neste estado, passariam uma espécie de cheque em
branco para o presidente fazer o que lhe aprouver para sanar as chagas do país.
Na história brasileira já
tivemos figuras semelhantes, e num passado bem recente, inclusive. Com o
objetivo de construir um Brasil acima de tudo e com Deus acima de todos,
atentou contra as instituições e a democracia, provocou indiretamente a morte
de centenas de milhares de pessoas na pandemia do coronavírus e fez parte de
duas tentativas malsucedidas de golpe de Estado.
Em O Ditador Honesto,
ocorre o oposto, ou seja, o presidente consegue subverter a democracia,
torna-se um ditador, e que, à parte algumas resistências isoladas rapidamente
reprimidas, torna-se um líder inconteste e popular. E, além de tudo,
bem-sucedido no seu plano de governo, trazendo paz e prosperidade ao país.
Mas o plano principal de
desenvolvimento do romance ocorre no lado pessoal do ditador, pois, com o êxito
de suas propostas, paradoxalmente, ele vai se tornando mais isolado e, com o
tempo, desalmado. Isso porque, as pessoas passam a sofrer do tédio de uma
sociedade em que a maioria dos grandes problemas foi resolvido. E, com isso,
Gutemberg Luz – aliás, ele mesmo enfastiado com seu sucesso – vê seu cargo e
vida em risco.
Eu tive acesso a este
livro publicado de forma independente, através do próprio autor, e de saída na
leitura, me chamou a atenção a fluência e limpidez de seu texto, bem como os
diálogos ágeis e inspirados. Mas em todas as mudanças que ocorrem na história,
seja a política, seja a social, seja a dos humores pessoais, falta sobretudo
drama e conflito. Pois no fundo a inverossimilhança da realidade política,
também se dá no plano mais pessoal do ditador e de seu eleitorado. As mudanças
acontecem em vários momentos, mas sem contraditório, sem perdas, sem suspense.
E isso, no plano geral, do romance, o enfraquece.
Escrito em 2018, em plena
vigência da crise política do Brasil, com episódios dramáticos, como a prisão
ilegal do à época ex-presidente Lula e a vitória eleitoral à Presidência de Jair
Bolsonaro, um político inexpressivo, mas com uma agenda abertamente autoritária
é, mesmo com os problemas apontados, uma reflexão interessante sobre as
perspectivas que se abriam ao país. Mas que não se esgotou, pois continuamos a
conviver com um perigoso clima de polarização radical – inclusive com
conspirações e tentativas de golpe de Estado, em 2022 e 2023 –,
e que deverá ter um novo capítulo de roteiro ainda incerto, justamente no ano
do livro de Peleteiro, 2026, com uma nova eleição presidencial.
Isso porque as
perspectivas da democracia no Brasil continuam abertas, pois enquanto não reduzirmos
a nossa desigualdade social estrutural, continuaremos a não consolidarmos a democracia
como a única forma de organização política legítima e pacífica. E com isso,
estaremos afeitos aos riscos de recrudescimentos de líderes e movimentos antidemocráticos
à direita do espectro ideológico. Para reagir à sua perda de poder e
privilégios historicamente adquiridos num país de cultura autoritária e, por
isso, com dificuldades em lidar com mais participação política e agendas
socioeconômicas que reduzam de forma efetiva a desigualdade social, para que
possamos construir uma sociedade mais equilibrada e civilizada.
O jovem Matheus Peleteiro, de apenas 30 anos – autor do mais recente romance Gael e a Terra dos Vivos
(Outro Planeta, 2024) –, ao seu modo bem particular tenta discutir estas
questões neste O Ditador Honesto, e nesse sentido é uma contribuição da
literatura de FC brasileira para a nossa realidade presente e futura, o que não
é pouca coisa.
—Marcello Simão Branco

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