segunda-feira, 2 de março de 2026

Sob o Trópico de Capricórnio

 


Sob o Trópico de Capricórnio, Pedro Carcereri. Capa: Amanda Pomar. 97 páginas. Belo Horizonte: Letramento, 2018.

 

    O ano é 2065, e o Brasil se tornou uma ditadura sob o controle quase total do Estado sobre os cidadãos, continuamente monitorados e classificados, além de centralizar o sistema econômico. Isso porque, devido a uma gravíssima crise energética global, a saída do governo foi produzir eletricidade através do esgoto, e o consumo de cannabis foi instituído para que as pessoas pudessem ter mais apetite. Mas os alimentos oferecidos pelo mercado supervisionado pelo Estado são de péssima qualidade, todos ultraprocessados. Não deixa de ser irônico que se recorreu a uma planta, cujo uso recreativo no Brasil é ilícito e moralmente condenado, para salvar a viabilidade socioeconômica do país.

    Nesse contexto, temos a aventura de Daniel, um cultivador de cannabis cadastrado pelo governo, que é sequestrado por um grupo de insurgentes, os Peabiru. Além de se oporem politicamente, criaram colônias agrícolas clandestinas situadas no interior do Paraná. Aqui vale notar que “peabiru” existiu séculos atrás, como uma longuíssima trilha indígena pré-colombiana que atravessava a América do Sul e ligava o litoral brasileiro, na região de São Vicente (litoral do estado de São Paulo), até os Andes, no Peru.

    A intenção dos rebeldes é reestabelecer o cultivo e o consumo de alimentos naturais, orgânicos, produzidos diretamente da terra. Isso porque o Estado transformou toda a produção agrícola em transgênica, utilizando até um novo tipo de solo, o sintético. Assim, Daniel é integrado para ajudar nas pesquisas com o objetivo de se atingir, via laboratório, uma recombinação genética que restaure as plantas em sua concepção original.

    Apesar de Daniel não ser botânico e nem agrônomo, sua escolha se relaciona com o fato de ter trabalhado no passado com Max, seu chefe de uma loja de cultivo e venda de produtos agrícolas modificados, que o ensinou na tarefa específica em lidar com a cannabis. Mas Max sumiu misteriosamente dez anos atrás, e agora reaparece como o líder da organização.

    Este Brasil distópico lembra um pouco o romance Após o Fim (Make Room! Make Room!; 1966), de Harry Harrison (1925-2012), mais conhecido pela excelente versão para o cinema, No Mundo de 2020 (Soylent Green; 1973), em que os alimentos também são produzidos exclusivamente pelo Estado, mas para dar resposta a um mundo superpovoado.

  No futuro próximo brasileiro, existem também pessoas geneticamente alteradas chamadas de sebosos. Na verdade, resultados de experiências mal sucedidas, abandonadas ainda crianças à própria sorte, vivendo como párias pelas ruas das cidades. Tidas como deficientes do ponto de vista intelectual, tem aparências físicas com pouca variação entre si, mas são fisicamente fortes e resistentes. No livro, dezenas delas se amontoam na Praça da Sé, em São Paulo, numa amostra de desumanidade, tornada mais explícita ao ser permitida ou conivente pelas leis e as autoridades públicas. Duas delas, Gusta e Janete, conseguem se tornar membros dos Peabiru, e terão um papel de destaque nos desdobramentos dos planos de sabotagem. Que pretende reintroduzir nas fazendas sintéticas sementes naturais para que possa prejudicar o sistema econômico e, eventualmente, reintroduzir uma alimentação mais saudável.

    A novela – e não romance como catalogado – é dinâmica e enxuta, vai direto aos pontos, mas talvez um pouco demais, pois deixa algumas questões meio soltas e, principalmente, o final inconcluso. Não se sabe se os planos deram certo e nem que destino teve o próprio protagonista.

    Este livro de FC absolutamente fora do ambiente do fandom, só poderia ter se tornado conhecido por mim através do próprio autor, que gentilmente o enviou para meu endereço. A quem agradeço e, mais que isso, indico fortemente para que seja conhecido.

    É uma história de FC distópica criativa e inteligente, com uma verve crítica e irônica, e com um ritmo de acontecimentos de crescente suspense, tornando a leitura difícil de ser interrompida. Se fosse mais longa, como poderia ter sido, se tornaria um page turner.

  Na orelha da obra, temos uma foto do jovem autor, mineiro de Juiz de Fora, apresentado como escritor e diretor de cinema. Talvez mais artista do audiovisual mesmo, pois informa a direção de dois curtas metragens: Modorra e Maria Cachoeira, além do longa Último Toque – na internet consta a direção de mais um longa-metragem Fé pelo Clima. Ao que parece todos filmes com temática ambientalista. Além disso atua como curador e crítico de arte, tendo lecionado Arte, Cultura e Linguagem, na Universidade Federal de Juiz de Fora.

    Sob o Trópico de Capricórnio é seu primeiro livro, e se anuncia na mesma orelha, a elaboração de um novo, Mulher é Água!, mas talvez não tenha sido concluído, pois não encontrei informação mais atualizada.

    Pedro Carcereri merece ser conhecido pelo fandom de FCB, nem que seja apenas por este livro, pois especula de forma competente sobre um Brasil do futuro próximo, que em meio a um colapso energético envereda para um regime autoritário. Trabalha, assim, com talvez duas questões candentes dos nossos tempos: a crise e destino da nossa democracia e uma crise de energia que se anuncia pelos danos ambientais provocados por sua exploração com fins econômicos.

Marcello Simão Branco