sábado, 16 de abril de 2016

Dampyr, Mauro Bozzelli e Maurizio Colombo

Dampyr (Dampyr), Mauro Bozzelli e Maurizio Colombo, ilustradores diversos, Sergio Bonelli Editore, 98 páginas. Tradução de Julio Schneider. Editora Mythos, 2004.

O mito do vampiro parece ser um manancial inesgotável. Desde as histórias folclóricas dos romenos, passando pelos monstros góticos de Sheridan Le Fannu e Bram Stoker, pelas centenas de filmes de cinema mais ou menos inspirados neles, até os livros de Anne Rice e Stephen King, os chupadores de sangue sobreviveram a todo tipo de intempérie, incluindo o talento discutível e o gosto duvidoso de muitos  artistas que ousaram se utilizar do mito ao longo desse tempo.
Há alguns anos ocorre no Brasil uma espécie de culto aos vampiros, formado a partir do jogo de representação Vampiro: A máscara, em nome do qual já foram registrados até assassinatos verdadeiros. O jogo expandiu-se de tal forma que se tornou um gênero particular dentro dos jogos de representação, superando inclusive o interesse pelas aventuras baseadas em mitologias celtas e medievais que originaram esse tipo de jogo.
O interesse dos jogadores de Vampiro expandiu-se para além do jogo. Em busca de novas aventuras, os gamers buscaram inspiração nos romances, gerando uma onda de consumo de literatura vampiresca. Os autores oportunistas manifestaram-se imediatamente, sendo que alguns realmente atingiram uma espécie de estrelato, com títulos listados entre os dez mais vendidos por semanas seguidas.
Alguns autores, brasileiros e estrangeiros, ousaram dar roupagem diversa aos seus vampiros, instalando-os em outros gêneros como fantasias históricas, ficção científica e histórias alternativas. Nas histórias em quadrinhos eles também ganharam versões tradicionais e criativas. Há vampiros tanto como vilões quanto como heróis.
Mas não tem jeito, um vampiro é sempre um vampiro e não passa mesmo de uma variação, nem sempre sutil, do velho Conde Drácula, não importa o que lhe façam. Por isso, é muito interessante acompanhar as histórias de Dampyr, revista de quadrinhos originalmente italiana (fumetti), produzida pela Sergio Bonelli Editore  e traduzida no Brasil pela Mythos Editora.
Dampyr não é exatamente um vampiro, mas um meio-vampiro. Uma abominação, filho de vampiro e humana, personagem lendário tanto entre os vampiros quanto entre humanos, pois quando esse tipo de união profana acontece, o fruto é um vampiro de vampiros, um ser superpoderoso que pode destruir os vampiros apenas com o contato de seu sangue que, para qualquer vampiro, é um veneno potente.
O dampyr desta história chama-se Harlan Draka, e ele não sabe que é um Dampyr. Entretanto ele ganha a vida fingindo ser um, visitando aldeias em algum lugar no Leste Europeu e ludibriando os aldeões com pantomimas de exorcismo combinadas com seu colega de trapaças, Yuri. Harlan tem visões estranhas e aterrorizantes, que ele imagina serem algum sintoma de desequilíbrio mental.
Desse modo, Harlan Draka viveu sem conhecer seu destino, até que se vê diante da guerra. Uma guerra terrivelmente brutal mas ainda humana (não é claro, mas nota-se referências à guerra na Bósnia). Mercenários a soldo do governo marcham contra a aldeia de Yorvolak para fincar posição no território inimigo, mas a encontram abandonada. Apenas uma senhora idosa é encontrada, que tentar alertá-los para procurar um dampyr, pois um perigo terrível assola o lugar, mas ela é imediatamente assassinada. Liderando os mercenários está Kurjak, um veterano impiedoso mas consciente de suas obrigações militares. Ele tem dificuldade em dominar a tropa acostumada a fazer o que bem entende, e precisa impor sua autoridade pela força.
Kurjak não acredita em demônios, por isso surpreende-se ao ter de enfrentar um bando de vampiros que ataca ao anoitecer. Lembra-se então do aviso da velha e manda dois de seus homens buscarem ajuda. E eles encontram Harlan Draka, que se dizia um dampyr, levando-o a força para Yorvolak.
Na aldeia abandonada, Harlan confronta Kurjak e descobre que o mercenário havia capturado um dos vampiros, uma garota chamada Tesla. Para sua sorte, a vampira quer abandonar o bando, pois é muito maltratada pelo seu mestre, o impiedoso Gorka, um dos vampiros originais. E assim, desse encontro bizarro surge o trio que vai se tornar companheiro ao longo da saga do dampyr.
Nem preciso dizer como a aldeia será atacada por Gorka e seu bando e que será difícil para Harlan e seus novos amigos enfrentá-los. Assim como a forma como Yuri é morto por Gorka e volta da morte como seu escravo, para destruir seu antigo amigo Harlan.
Ao longo desta aventura introdutória em duas edições, Harlan descobrirá que é realmente um dampyr, filho Draka, um dos vampiros originais mais poderosos. A cada história seguinte, que vai se desenvolver em diversas partes do mundo, Harlan terá de enfrentar um desses arcanos senhores da morte para reunir todos os fragmentos de sua vida, pois Harlan pode absorver o poder e a memória bebendo o sangue dos vampiros que derrota. No processo também enfrentará a pior escória da humanidade, como guerrilheiros sádicos, gangues urbanas, mafiosos e respeitáveis membros da alta sociedade, sempre com a ajuda valiosa e muito bem armada de Kurjak, que desertou de sua guerra suja, e de Tesla, sempre de grande auxílio nos combates corpo a corpo.
Os desenhos dos dois primeiros número de Dampyr, subtitulados "O filho da vampiro" e "A estirpe da noite", são de Mario "Majo" Rossi, ilustrador de primeira linha que elabora imagens de uma crueza tremenda, com um realismo pouco visto nos quadrinhos modernos. Armas, veículos e edificações são apresentados em todos os detalhes como bem se recomenda às histórias de guerra, com o clima pesado da narrativa gótica ressaltado pela técnica perfeita de claro/escuro, especialidade dos artistas dos fumetti.
O número três, "Fantasmas de areia", é desenhado por Luca Rossi e o número quatro, "A guerra dos vampiros", tem a arte assinada por Maurizio Dotti, e ambos mantém a excelência do trabalho.
Dampyr aproveita cada detalhe das tradicionais histórias de vampiros, mas não deixa de também se utilizar de abordagens criativas e conceitos ainda não vistos nas milhares de histórias de vampiros já narradas.
No Brasil, a revista Dampyr durou apenas até o número 12, quando foi suspensa, mas na Itália, seu país de origem, continua a ser publicada e tem mais de 190 edições.
Cesar Silva

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Um vulto nas trevas, Simone Saueressig

Um vulto nas trevas, Simone Saueressig. 80 páginas. Coleção Asa Negra, edição da autora, Novo Hamburgo, 2004.

Há alguns anos a cultura brasileira de fc&f ignoraria qualquer título que estivesse alinhado com o mercado infanto-juvenil. É claro que isso nunca passou de chauvinismo de fã e ele ainda existe e se aplica em diversos segmentos do fandom, mas desde há algum tempo tem se tentado também prestar atenção a esse tipo de literatura que, de mais a mais, não tem nada de desprezível, ao contrário, identifica-se como uma luva com o tipo mais promissor de leitores de fc&f, o adolescente.
Por isso mesmo não é de se admirar que uma das mais completas autoras brasileiras de fc&f seja uma frequente colaboradora de coleções infantojuvenis. Simone Saueressig é gaúcha de Novo Hamburgo, com muitos livros publicados por editoras importantes, tais como O palácio de Ifê (L&PM, 1989), A fortaleza de cristal (L&PM, 1993), A máquina fantabulástica (Scipione, 1997) e Receita para um dragão (Scipione, 1999), entre outros.
Simone confessa ter sido obrigada a publicar Um vulto nas trevas sozinha, pois as editoras não se dispunham a fazê-lo. Temos que agradecer à autora a iniciativa por publicar este que certamente é um de seus melhores trabalhos, dentro de uma galeria de obras maravilhosas.
Trata-se de uma novela de mistério com características de horror sobrenatural gótico, devidamente adaptada ao moderno ambiente brasileiro urbano e claramente orientada ao leitor jovem, ainda que tenha apelo bastante forte ao leitor adulto pela qualidade da narrativa.
É a história de Beto, um garoto de cerca de dez anos que, junto com seu primo Inácio, de 14 anos, vai passar o final do ano com o avô, Seu Chico, num casarão tão velho quanto estiloso em Gramado. Beto já passara outras férias ali e guardava muitas memórias e impressões das outras estadas.
Seu Chico é viúvo e mora apenas com sua filha adotiva Clarisse, uma jovenzinha muito magra e de aparência débil, mas que realizava praticamente todas as tarefas domésticas no casarão.
Logo na primeira noite, Beto tem uma experiência bizarra que vai pautar todo o drama da narrativa. Sem sono, o garoto levanta tarde da noite para beber água e, da janela da cozinha, avista um vulto diáfano dançar no jardim, flutuando ao redor do poço e desaparecendo num salto. De quem seria aquele fantasma? Por que rondava a casa nas noites claras de verão?
Aterrorizado, Beto passa a ver assombrações em todas as partes do casarão, que se presta perfeitamente a essas coisas. Desse modo, o casarão assume o posto de quinto personagem da história, com suas salas vazias, portas rangedoras, gradil enferrujado e muitas, muitas frestas e goteiras.
Numa das explorações no segundo pavimento da casa, fechado ao uso por estar demasiadamente deteriorado pela falta de manutenção, os garotos encontram um embrulho misterioso que os leva a crer que seja um videogame que o avô estaria escondendo para lhes fazer uma surpresa no Natal. Acreditando que poderão passar os dias divertindo-se com o presente do avô, decidem pedir o adiantamento da entrega do mesmo. Sem alternativa, Seu Chico consente.
Beto e Inácio estão certos em quase tudo. Sim, aquele era mesmo o presente de Natal do avô. Sim, eles vão se divertir muito (talvez um pouco mais do que isso), mas... não é um videogame.
Ao abrirem o pacote, encontram um livro enorme e pesado. Não um livro qualquer, mas um antigo livro de recortar e montar a miniatura de cartão de um casarão chamado "Das Voguel Haus" em alemão - "A casa dos pássaros" em português – exatamente onde eles estavam hospedados naquele momento, o mesmo velho casarão de seu avô.
Desenxabidos e sem muito mais para fazer, Beto e Inácio passam a ajudar o avô a montar a maquete, uma representação exata em cada detalhe do projeto original do casarão.
Eles não sabem, mas esse quebracabeças guarda a resposta da visão assustadora que Beto teve naquela noite de insônia e que continua a atormentar-lhe a imaginação.
Todos os mistérios serão desvendados a seu tempo, não sem uma boa dose de coragem, desprendimento e afeição de ambos os garotos com relação ao seu avô e sua prima que, ao início da história, pareciam tão sem graça.
Um vulto nas trevas é uma história de amadurecimento, de um rito de passagem. Para Beto é a passagem da infância para a adolescência. Para Inácio, a passagem da adolescência para a vida adulta. E para todos os leitores, é uma história de como os laços humanos mais diáfanos são reforçados na tragédia.
Simone trata cada um dos personagens com a maturidade de uma escritora experiente. Todos são perfeitamente caracterizados, críveis e verdadeiros em cada detalhe. Os cenários são descritos com clareza e o leitor percebe-se caminhando pelos corredores da Casa dos Pássaros junto aos garotos, explorando seus recônditos mais obscuros, janelas e portas e móveis que bem poderiam abrir para dimensões tão loucas e perigosas como um guardarroupas de C. S. Lewis ou um buraco no jardim de Lewis Carrol.
Só uma coisa a lamentar neste livro de Simone: ele é muito breve. Esse era um livro que deveria ter mais páginas, só para se demorar a acabar. Prova definitiva que é mal negócio ignorar qualquer dos ambientes criativos da nossa literatura, sob o risco de se perder a melhor parte.
Cesar Silva

domingo, 3 de abril de 2016

Quebra-Queixo Technorama, Volume 1, Marcelo Campos, Octávio Cariello

Quebra-Queixo Technorama, Volume 1, Marcelo Campos, Octávio Cariello & ilustradores diversos. 80 páginas. Editora Devir, São Paulo, 2004.

Já recomendavam em 1922 os participantes da Semana de Arte Moderna que o caminho da identidade da arte brasileira deveria passar pela deglutição e posterior digestão dos produtos culturais estrangeiros. É inevitável que a cultura brasileira tenha que fazer isso, porque somos um povo formado pela justaposição de culturas locais e estrangeiras de quase todos os continentes. Não há praticamente nada brasileiro que não tenha pelo menos um dos pés em alguma tradição cultural ou mitológica estrangeira, em maior ou menor grau de dependência. Com a fc não poderia ser diferente e ainda mais com a fc em quadrinhos.
Temos uma tradição no que se refere a arte fantástica, mas ela não é suficientemente madura, tampouco foi suficientemente explorada, ao ponto de ter digerido por completo as influências estrangeiras, que aparecem vivamente nos produtos modernos, como é o caso de Quebra-Queixo.
Esta hq de fc apareceu pela primeira vez em 1991, na revista Pau-Brasil da Editora Vidente, que apresentou aos leitores várias séries, personagens e autores novos. Marcelo Campos, matogrossense de Três Lagoas, criador de Quebra-Queixo, apresentava desde então um potencial promissor como artista de quadrinhos. Já fizera carreira com personagens infantis nas revistas da editora Abril e desde 1989 fazia ilustrações para quadrinhos americanos. Campos foi um dos únicos que continuou a dedicar atenção ao seu personagem depois do cancelamento do periódico.
Quebra-Queixo é um super herói futurista que atua em Buracópolis, megalópole superpovoada, com altos níveis de desenvolvimento tecnológico e decadência moral. O herói é uma espécie de força da natureza, acionado pela polícia para manter tolerável a desordem da cidade. Brutal e sem qualquer escrúpulo, Quebra-Queixo manda porrada em tudo e em todos os que julgar merecedores do pesado punho da lei.
O clima geral das histórias é cômico e niilista, e remete ao seriado britânico Judge Dreed, ao seriado americano American Flagg e a vários trogloditas dos comics, tais como o Coisa, Hulk, Hellboy e similares.
Boas ideias de fc permeiam as aventuras de Quebra-Queixo. As histórias são crônicas urbanas extrapoladas: Buracópolis espelha desavergonhadamente os problemas da Grande São Paulo, que é, de fato, a personagem principal da história; Quebra-Queixo lá está apenas para permitir que conheçamos melhor as contradições deste absurdo urbano e essa boa sacada redime todo e qualquer pecado narrativo do autor.
Marcelo Campos convidou vários amigos para elaborarem as histórias que compões Quebra-Queixo Technorama, Volume 1. Ao todo são cinco histórias, três delas apresentam outros personagens que vivem nos bairros temáticos de Buracópolis: o ciborgue Zédulixo, o super técnico de manutenção Nego Simão, e a heroína virtual Abantesma Jones. Da mesma forma que Quebra-Queixo, estes paladinos são apenas coadjuvantes das maravilhas urbanas ensandecidas de Buracópolis.
"Seja você, sendo eu", com roteiro e desenhos de Marcelo Campos, abre o volume, recontando a primeira aventura do personagem publicada na Pau-Brasil. Foi totalmente refeita para incorporar as mudanças que o autor queria na história e para atualizar o estilo gráfico, uma vez que a versão anterior tendia mais para o pastiche de super heróis. A confusão se instala em Buracópolis quando a lei reconhece o direito das pessoas adotarem a identidade que bem entenderem, mesmo que sejam baseadas em personagens de ficção ou em pessoas reais, o que abre um perigoso precedente jurídico que precisa ser resolvido no tapa.
A segunda história é "Presente imperfeito" com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Rael Lyra. O ciborgue mutante Zédulixo, que é horroroso mas tem uma boa alma, tenta a seu modo ensinar uma jovem que há lugares em Buracópolis aonde pessoas "normais" não devem ir.
Abantesma Jobes é a protagonista de "A verdade confusa", com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Weberson Santiago. Abantesma é uma jovem milionária excêntrica que depois de testemunhar o assassinato de seus pais, guarda uma identidade secreta de paladina noturna – uma óbvia citação a você sabe quem. Sua zona de ação é uma espécie de mundo virtual que está um tanto confuso porque um vilão roubou a verdade.
"O ponto de fuga", com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Fernando Cintra, conta a história de Nego Simão, um técnico de manutenção de Buracópolis que, auxiliado por Andy, um novato na profissão, vai passar maus bocados para conter um vazamento de lubrificante que pode apagar a realidade.
O melhor episódio é o último, "Plano divino", com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Jefferson Costa. Mama Vodru, um pai de santo do mal, está fechando espiritualmente bairros inteiros de Buracópolis, transformando seus habitantes em zumbis. Para garantir que os impostos e taxas continuem fluindo, a administração da cidade envia Quebra-Queixo para acabar com a festa, mas os poderes de Mama Vodru são superiores: o herói é aprisionado e transformado em seu brinquedo sexual. Para sair dessa fria, só com a ajuda de outro pai de santo, o não tão poderoso mas do bem, Pai Santo Zambelê.
Cada história vem acompanhada de uma capa individual, textos de apresentação dos artistas do episódio e uma vinheta com um jogo de cartas inventado por Campos, citando regras tão absurdas quanto incompreensíveis, o que ilustra perfeitamente o conteúdo do trabalho.
Quebra-queixo é o que podemos chamar de uma fc pós cyberpunk muito refinada, que não tem pretensão se tornar um jogo de rpg ou um seriado de televisão. Não há racionalidade ou pontos de apoio e identificação confiáveis para o leitor dominar o universo de Quebra-Queixo. Neste caso, não é uma deficiência do autor, mas uma característica da urbanidade pós moderna em que tudo é tão fragmentado, incompleto e absurdo que a atitude arrasaquarteirão do herói passa a ser a única ligação com a normalidade conhecida. O que também não deixa de ser um absurdo.
Cesar Silva

sábado, 19 de março de 2016

Arthur C. Clarke (1917-2008)



por Marcello Simão Branco

Um dos mais conhecidos e influentes escritores da história da ficção científica, o inglês Sir Arthur C. Clarke faleceu em 19 de março de 2008, aos 90 anos, em Colombo, Sri Lanka, vítima de problemas cardiorrespiratórios. O autor tinha saúde frágil há muitos anos, fruto de uma síndrome pós-poliomielite que se manifestou depois de adulto, já no início dos anos 1960. A partir daí, passava a parte do tempo em cadeira de rodas. Em 2008, o autor lançou seu último romance The last theorem, em co-autoria com outro decano, o americano Frederik Pohl.
Clarke ficou mundialmente conhecido e associado ao filme 2001, uma odisséia no espaço (2001, a space odissey),  dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999), em 1968. Ambos trabalharam juntos no roteiro, a partir de um convite de Kubrick, que terminou por resultar num romance de mesmo nome e no filme que mudou a face da ficção científica no cinema. Para os aficcionados, porém, Clarke já era um nome respeitado há, pelo menos, desde o início dos anos 1950.
Na melhor tradição de uma ficção científica antecipatória, Clarke previu a descoberta do satélite geoestacionário de comunicações em 1945 – que posteriormente recebeu o nome de “Órbita de Clarke”. Como um especialista e visionário esteve na linha de frente nas ideias que inspiraram o projeto espacial dos Estados Unidos nos anos 1960. Muito desse sentimento pode ser ilustrado com sua declaração para a Sociedade Interplanetária Britânica, em 1946: “nossa civilização não é mais do que a soma de todos os sonhos das idades anteriores. E tem de ser assim, pois, se os homens deixarem de sonhar, se voltarem as costas às maravilhas do Universo, acabará a história de nossa raça.”
Arthur Charles Clarke nasceu em 16 de dezembro de 1917 em Minehead, condado de Somerset, Inglaterra. Viveu a infância na fazenda da família e foi um ativo fã de ficção científica nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, no qual serviu na Real Air Force (R.A.F.), como instrutor de radar. Depois da guerra, presidiu por duas vezes a Sociedade Interplanetária Britânica, graduou-seem física e matemática e publicou em 1946 sua primeira história profissional, o conto “Loophole”, na revista americana Astounding Science Fiction. A esta seguiu-se sua primeira história importante – e hoje clássica –, a noveleta Missão de salvamento (Rescue party), em que uma missão extraterrestre vem à Terra para resgatar a humanidade de uma destruição iminente, mas já encontra o planeta evacuado pelos humano. Aqui no já aparecia o seu tema principal, a projeção do ser humano no cenário cósmico. Clarke evocava as idéias de dos autores ingleses que o precederam H.G. Wells (1866-1946) e Olaf Stapledon (1886-1950), que abordaram muito a questão da evolução humana, alinhando-se, nesse sentido, com o impulso pioneiro da ficção científica norte-americana e o futuro de consenso desenvolvido nas revistas do gênero na época.
Com o sucesso inicial, não demorou muito para o promissor cientista passar a ser cada vez mais requisitado para escrever. Seja ficção ou divulgação científica. Como a maior parte dos autores do gênero da época começa a publicar regularmente nas revistas, como  Anti-crepúsculo (Againt the fall of night), em Startling Stories, em 1948. Sua primeira história de ficção científica a aparecer como livro foi Prelude to space, em 1951, rapidamente seguida por Areias de Marte (The Sands of Mars), de 1951, Ilhas no céu (Islands in the sky), 1952, e os clássicos A cidade e as estrelas (The city and the stars), 1956 – que é uma versão ampliada de Anti-crepúsculo – e O fim da infância (Chilhood’s end), de 1953. Estes dois últimos livros e mais as suas celebradas obras de não-ficção  Interplanetary flight (1950) e A exploração do espaço (The exploration of space), de 1952 – uns dos primeiros livros a popularizar os conceitos de astronaútica e defender a ida do homem ao espaço como algo factível tecnologicamente – estabeleceram uma carreira de prestígio, com uma reputação nos dois campos, tornando-o uma liderança intelectual, tanto para a ficção científica como para jovens cientistas ligados à astronáutica.
         
O fim da infância fala sobre o impacto na vida humana, caso ocorresse uma invasão extraterrestre, por uma supercivilização tecnológica adiante da nossa. Para além dos efeitos imediatos, o livro especula as consequências filosóficas e religiosas frente a este acontecimento. Já A cidade e as estrelas, mostra como estará a Terra daqui a um bilhão de anos, vivendo entre duas utopias: uma calcada na técnica e outra no humanismo. Deste confronto gira um desenrolar lírico e altamente especulativo.

Também nos anos 1950 Clarke escreveria algumas das narrativas curtas mais marcantes, como “A sentinela” (“The sentinel”, 1951), “Todo o tempo do mundo” (“All the time in the world, 1952), “Os nove bilhões de nomes de Deus” (“The nine bilion names of God”, 1953) – premiado com um retro Hugo, em 2004 –, “Encontro no amanhecer” (“Encounter in the dawn”), “A estrela” (“The star”, 1956) – que lhe valeu seu primeiro prêmio na ficção científica, o Hugo de 1956 –, entre outros, reunidos em duas excelentes coletâneas, O outro lado do céu (The other side of the sky, 1958) e Sobre o tempo e as estrelas (Of time and stars, 1972).
Depois de um casamento de apenas seis meses, em 1953 com Marilyn, uma jovem diretora de atividades sociais em um clube na Flórida, muda-se em 1956 de Londres para Colombo, na ilha de Sri Lanka, ao sul da Índia. Longe de se isolar, como em princípio parecia, o autor sentiu-se mais livre para escrever seus livros e praticar outras de suas paixões, a fotografia e o mergulho submarino que, segundo ele, era o mais próximo que poderia chegar da sensação de flutuar no espaço sideral.
Em 1962 publica a obra de não-ficção Perfil do futuro (Profiles of the future) e recebe o prêmio Kalinga, da Unesco, por sua contribuição em popularizar a ciência. Este livro traz uma linha do tempo que vai até o ano de 2010, descrevendo invenções e ideias, como uma “biblioteca  global” em 2005 e a existência de um presidente mundial em 2010. Também neste livro estão as suas chamadas “Três Leis: 1) Quando um respeitado, mas idoso cientista diz que algo é possível, ele está, quase certamente correto. Quando ele diz que algo é impossível, ele está, muito provavelmente, errado; 2) A única maneira de descobrir os limites do possível é se aventurar um pouco além deles e penetrar no impossível; e 3) Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”
Em abril de 1964 começa sua parceria com o cineasta Stanley Kubrick, na preparação do roteiro de 2001, em que dividiriam a autoria. Clarke é tão responsável pelo filme maior da ficção cientifica como o seu genial diretor. A obra é uma síntese da visão de mundo do autor. Se Kubrick deu uma moldura estilística quase que perfeita, Clarke entrou com a substância. A combinação entre a convicção na capacidade de realização do homem e a transcendência cósmica em busca de uma causa maior para a nossa existência e o universo. O filme estréia em 2 de abril de 1968 nos Estados Unidos e sua polêmica repercussão confere uma grande notoriedade ao autor britânico. Quando a Apollo 11 chega à Lua em 20 de julho de 1969 ele é o comentarista convidado da rede de televisão americana CBS, ao lado do lendário apresentador Walter Cronkite e do astronauta das missões Mercury Wally Schirra. Seria a primeira das várias participações de Clarke, comentando cada uma das missões Apollo posteriores.

Com isso, Clarke torna-se a face pública da ficção científica no mundo, um ícone que combinou rigor intelectual com uma visão otimista e utópica, quase mística, das possibilidades de progresso humano. A despeito disso, Clarke não era ingênuo e considerava-se como “modestamente otimista” acerca da possibilidade da humanidade sobreviver aos sombrios tempos da Guerra Fria, com suas milhares de ogivas nucleares.
Em 1971 publica a noveleta “Encontro com Medusa” (“A meeting with Medusa”), que lhe confere o prêmio Nebula. Outros prêmios seguiriam dentro da ficção científica nos anos 1970, como conferido ao romance Encontro com Rama (Rendesvous with Rama), com o Hugo, Nebula, Locus, John Campbell Memorial e British Science Fiction, o que o tornou, na época, o mais premiado romance da história do gênero. É um tour-de-fource de rigor conceitual e especulação ousada sobre o que ocorreria se chegasse ao Sistema Solar uma gigantesca nave extraterreste, aparentemente desabitada. E em 1979 com o magnífico As fontes do paraíso (The fountains of paradise), também vencedor do Hugo e Nebula, em que imagina a construção de um elevador que iria da superfície da Terra até um satélite em órbita. Uma idéia que vem sendo estudada pela Nasa. Também nos anos 1970, publica Terra imperial (Imperial Earth, 1975), pioneiro por abordar em profundidade a questão da clonagem humana, muito antes deste assunto ser relevante.
A partir dos anos 1980 a dedicação do autor à escrita diminui em vista dos seus outros interesses e à demanda por sua colaboração em diversos projetos de preservação ambiental e fomento à ciência e tecnologia. Em 1981, por exemplo, apresenta a série de televisão para a rede britânica Yorkshire, Mysterious world, que em 1984 teria a seqüência Arthur Clarke’s world of strange powers. Nas duas dá explicações racionais para fenômenos incomuns, vistos como sobrenaturais. Um livro com o resumo dos  temas e episódios saiu no Brasil: O mundo misterioso de Arthur C. Clarke (Arthur C. Clarke’s mysterious world), de Simon Welfare e John Fairley.
Depois de receber uma carta do escritor brasileiro Jorge Luiz Calife e uma milionária oferta de adiantamento de US$ 2 milhões de sua editora nos Estados Unidos, Clarke escreve uma continuação para o clássico 2001. Em 1982 chega às livrarias 2010, uma odisséia no espaço II (2010: Odissey two), que se não tem a mesma relevância do original, ao menos é um bom livro e rendeu uma igualmente boa adaptação ao cinema, em 1984.
Com o aumento de sua requisição para vários interesses, Clarke passa a usar seus livros como um meio de arrecadação para entidades científicas. Com isso, sua carreira literária entra numa segunda fase, com uma queda na qualidade bastante visível. Repete-se os temas ou serializa-se histórias e em parcerias com outros autores. Uma tendência verificável é que sua obra assume um tom mais realista, a par com o conhecimento científico do momento, o que empobrece um de suas melhores virtudes, a capacidade de estrapolação visionária, vista em suas obras clássicas dos anos 1950 a 1970. Dois de seus livros mais notórios viram séries, como três continuações para 2001 e três para o romance original Encontro com Rama. Destes livros, destaca-se pelo menos dois com mais criatividade, O fantasma das grandes banquisas (The ghost from the grand banks, 1991) – sobre um resgate ao Titanic – e O martelo de Deus (The hammer of God, 1993) – sobre uma missão espacial que tenta desviar um asteróide em rota de colisão com a Terra. Este rendeu-lhe um Prêmio Nova, como “Melhor Livro de Autor Estrangeiro” no Brasil, em 1993.


Em consequencia de sua popularidade e influência recebe grandes homenagens. No campo da ficção científica britânica é instituído em 1987, o Prêmio Arthur C. Clarke, para o melhor livro publicado na Grã-Bretanha. Um ano antes é distinguido Grande Mestre Nebula, pela Science Fiction and Fantasy Writers of America e vence em sua carreira quatro prêmios Hugo e três Nebula, entre outros. A Nasa também o homenageou, primeiro com o nome de Odyssey ao módulo de comando da Apollo 13 e depois com a missão marciana de 2001, chamada de Mars Odissey. Clarke ainda tem o nome de um asteróide, assim como de uma espécie de dinossauro herbívoro, o Serendipaceratops arthurclarkei, descoberto em Inverloch, Austrália. Ele também recebeu títulos reais, como o de Commander of the British Empire (C.B.E.), das mãos da rainha Elisabeth II, em 1989 e o de Sir, no ano 2000. Antes de receber este último viu-se envolvido em uma acusação de pedofilia pelo jornal inglês The Sunday Mirror. Após investigação do caso, nada foi provado e o jornal se retratou em 2000.
A queda de qualidade a partir da década de 1980 leva alguns críticos a questionarem se, de fato, Clarke era um grande escritor. A seu favor pode-se dizer que seus melhores romances, O fim da infância, A cidade e as estrelas e Encontro com Rama, e contos como “Missão de salvamento”, “Encontro no amanhecer” e “A estrela”, entre outros, são obras-primas. E se por um lado não era virtuoso no sentido literário do termo – apesar da limpidez e lirismo em seus melhores momentos –, e não deixou em sua obra a marca de grandes personagens, o mais complexo deles talvez seja o computador Hal 9000 de 2001. Por outro foi ousado em relação a um dos argumentos mais caros à literatura de gênero: as ideias. Nisso levou a ficção científica a um patamar poucas vezes visto, talvez só superado por H.G. Wells antes dele.
         Se Clarke era um autor afinado com o racionalismo iluminista e via o desenvolvimento humano à luz da ciência, cultivava, ao mesmo tempo, uma visão quase mística e religiosa, na sua postura de transcendência humana diante dos mistérios do universo. Como se a busca interior pelo sentido da existência – amparada por doutrinas filosóficas e principalmente religiosas – estivesse destinada a ser encontrada na vastidão cósmica desconhecida que nos espera, caso consigamos deixar o nosso berço, como diria o cientista russo Tsiolkovsky.
        Especialmente para aqueles que o leram entre as décadas de 1960 a 1980, quando a exploração espacial tinha um grande apelo, sua ficção científica tornou-a mais emocionante, ao colocá-la em sua maior perspectiva, no qual os feitos de uma época se encaixam numa visão de dimensões épicas, estendendo-se milênios no futuro. Não é por acaso que duas gerações de escritores e cientistas foram afetados por seu trabalho. Deixa o seu irmão Fred e a família adotiva com quem vivia em Colombo. Sir Arthur Charles Clarke se vai como um símbolo da ficção científica e da cultura do século XX, mas ainda deve influenciar este novo século.


             No Brasil
             No auge do sucesso de 2001 ele esteve no Simpósio Internacional do Filme, realizado no Rio de Janeiro em março de 1969, onde recebeu um troféu em forma de monolito, o artefato alienígena do de 2001 e chegou a proferir uma palestra “O futuro não é mais o que costumava ser”, publicada no livro sobre o evento FC Simpósio/SF Simposium, editada pelo organizador, José Sanz. Voltou em 1972, para participar de um congresso internacional de informática, na PUC, de Porto Alegre. No começo dos anos 1980 recebeu uma carta de um escritor carioca,  Jorge Luiz Calife, com uma sugestão para continuar 2001, que incluia o conto “2002” – depois publicado em uma edição da revista Manchete, em 1984 e na revista Quark, n. 3, 2001. Clarke não só o atendeu, mas ainda o agradeceu no posfácio da obra. Isso permitiu que a carreira de Calife tivesse início, com a publicação de sua trilogia Padrões de contato, entre 1985 e 1991 – relançada em 2009 num único volume. Calife tem sido um fiel seguidor da prosa e dos temas de Clarke como também em alguns contos de sua coletânea As sereias do espaço (2001). No início dos anos 1990 havia um conjunto de autores que praticava ficção científica hard, chamados em um artigo no fanzine Somnium, de “Os filhos de Clarke”. Nem todos seguiram carreira efetiva, mas entre os que mais se destacaram estão Henrique Flory, no romance Projeto evolução (1989) e José dos Santos Fernandes, na coletânea Do outro lado do tempo (1990). Mais recentemente, Clinton Davisson, no romance Hegemonia: O herdeiro de Basten (2007) também recebe alguma influência do autor inglês. (M.S.B.).


Bibliografia em língua portuguesa:

Ficção científica:

= Anti-crepúsculo (The lyon of Comarre and against the fall of night, 1948), Editorial Panorama (Portugal), n. 29. Novelas.
= Areias de Marte (The sands of Mars, 1953), Editora Bestseller, 1960 e Argonauta (Portugal), n. 162. Romance.
= Ilhas no céu (Islands in the sky, 1952), Argonauta, n. 466. Contos.
= O fim da infância/A idade do ouro (Childhood’s end, 1953), Nova Fronteira/Argonauta, n. 26)/Aleph. Romance.
= Expedição à Terra (Expedition to Earth, 1953), Europa-América (Portugal), n. 143. Contos.
 = Luz da Terra (Earthlight, 1955), Bestseller, 1973. Romance.
= A cidade e as estrelas (The city and the stars, 1956), Coleção FC GRD 1967/Nova Fronteira/Abril/Devir. Romance.
= Encontro com o futuro (Reach for tomorrow, 1956), Pallas, 1975. Contos.
= Contos da taberna (Tales from the white hart, 1957). Francisco Alves Editora, “Mundos da Ficção Científica”, n. 3. Contos.
= Odisséia no mar/A sexta parte do mundo (The deep range, 1957). Bestseller, 1974/Argonauta n. 239. Romance.
           = O outro lado do céu (The other side of the sky, 1958), Nova Fronteira. Contos.
           = Histórias de dez mundos (Tales of tem worlds, 1962). Nova Fronteira. Contos.
           = Os náufragos do Selene/S.O.S. Lua e Náufragos da Lua (A fall of moondust, 1961), Nova Fronteira/Argonauta nos. 94 e 95. Romance.
           = A sonda do tempo, org.  (Time probe, 1966). Nova Fronteira. Antologia com vários autores.
           = 2001, odisséia espacial/2001, odisséia no espaço (2001, a space odissey, 1968). Expressão e Cultura/Europa-América, n.197/Europa-América Nebula, n.8./Aleph. Romance.
= Mundos perdidos de 2001 (The lost worlds of 2001, 1972), Hemus, 1972. Não-ficção.
= Sobre o tempo e as estrelas (Of time and stars, 1972), Nova Fronteira. Contos.
            = O vento solar: histórias da era espacial (The wind from Sun, 1972). Globo (RS), 1973. Contos.
           = Os dias futuros (The best of Arthur C. Clarke, 1937-1955, 1972), Argonauta, n. 334. Contos.
           = Encontro com Rama/Rendes-vous com Rama (Rendesvous with Rama, 1973), Nova Fronteira/Argonauta n. 317/Europa-América Nebula, n. 45/Aleph. Romance.
           = Terra imperial (Imperial Earth, 1975). Nova Fronteira/Argonauta nos. 281 e 282. Romance.
           = As fontes do paraíso (The fountains of paradise, 1979). Nova Fronteira/Edições 70 (Portugal)/Aleph. Romance.
= 2010, uma odisséia no espaço II/2010: Segunda odisséia (2010: Odissey two, 1982). Nova Fronteira/Europa-América, n. 210/Europa-América Nebula, n. 4. Romance.
= As canções da Terra distante (The songs of distant Earth, 1986). Nova Fronteira/Europa-América n. 176/Europa America Nebula, n. 20. Romance.
= 2061, uma odisséia no espaço III/ 2061: Terceira odisséia (2061, odissey three, 1988). Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 26. Romance.
= O berço dos super-humanos/Berço (Cradle, 1988). Nova Fronteira/Europa-América Nebula n. 35. Romance.
= O fantasma das grandes banquisas/O fantasma dos grandes bancos (The ghost from the grand banks, 1991), Siciliano/Europa-América Nebula n. 42. Romance.
            = O enigma de Rama/Rama II (Rama II, 1991), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 48. (Co-autoria de Gentry Lee). Romance.
            = O jardim de Rama (The gardem of Rama, 1991), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 59. (Co-autoria de Gentry Lee). Romance.
            = Rama revelado/A revelação de Rama (Rama revealed, 1993), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 62. (Co-autoria de Gentry Lee). Romance.
           = O martelo de Deus (The hammer of God, 1993), Siciliano/Europa-América Nebula, n. 56. Romance.
           = Richter 10 (Richter 10, 1996), Mandarim. (Co-autoria com Mike McQuay). Romance.
           = 3001, a odisséia final (3001: The final odissey, 1997), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 63. Romance.

Antologias, revistas e jornais com contos e artigos de sua autoria:

= Playboy, n. 88, novembro 1982. “2010 – Odisséia II (1a parte).
= Playboy, n. 8, dezembro 1982. “2010 – Odisséia II (2a. parte).
= Vruum, n.1, 7 de junho 1976. “Acidente em Ícaro”(1a. parte).
= Vruum, n. 2, 21 de junho 1976. “Acidente em Ícaro” (2a parte).
= Errantes entre as estrelas. Exposição do Livro, sem data. “A beira do mar”.
= Playboy, n. 45, abril 1979. “Em busca de um corpo”.
= Seleções n. 210, novembro 1988. “Uma carga explosiva”.
= Ele/Ela, n. 246, dezembro 1980. “Carta do futuro”.
= Mistério Magazine Ellery Queen, n. 140, março 1961. “Um crime em Marte”.
= Vruum, n. 3, 5 de julho 1976. “Dentro do cometa” (1a. parte)
= Vruum, n. 4, 19 de julho 1976. “Dentro do cometa” (2a. parte).
= Vruum, n. 5, 2 de agosto 1976. “Um dia inesquecível” (1a. parte).
= Vruum, n. 6, 16 de agosto 1976. “Um dia inesquecível” (2a. parte).
= Máquinas que pensam. L&PM, 1985 e 2005. “Disque F para Frankenstein”.
= De Júlio Verne aos astronautas. Coleção Argonauta, n. 100. “A estrela”.
= Ficção científica para quem não gosta de ficção científica. Editora Cruzeiro, Coleção Galáxia 2000, n. 3, 1969. “A estrela”.
= Imaginação Ltda. Editora Quatro Artes, 1965. “A estrela”.
= Zero Hora, 14 de agosto 1969, Porto Alegre (RS). “A estrela”.
= FC Simpósio/SF Simposium. Instituto Nacional do Cinema, 1969. “O futuro não é mais o que costumava ser”. Palestra.
= O Estado de S. Paulo, 6 de janeiro de 1999. “Um incentivo para viagens espaciais”. Artigo.
= Seleções, n. 227, abril 1990. “O inimigo esquecido”.
= Alguns dos melhores contos de ficção científica, volume 1. Moraes Editores, Coleção Aventura Interior, n. 4, Portugal, 1978. “Uma lição de história”.
= Best seller de ficção científica. Portugal Press, n. 10, 1972. “Lição de história.”
= O que é ficção científica? Editora Atlantida, Coleção Centauro, n. 4, 1959. “Lição de história.”
= Para entender os anos 70. Editora Bloch, sem data. “O melhor ainda está por vir”. Artigo.
= Antologia cósmica. Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica, n. 22, 1981. “Missão de salvamento”.
= Arquitetos do futuro. Expressão e Cultura, 1972. “O náufrago”.= A nave espacial. Clube do Livro, 1977. “A nave espacial”.
= Homem, n. 1, agosto 1975. “A passagem da Terra”.
= ... Para onde vamos? Editora Hemus, 1979. “Os pastos submersos”.
= Mensagens do futuro. Coleção Argonauta, n. 320. “Quem está aí?”
= Espaço, n. 4. Editora Verbo, sem data. “Quem está aí?”.
= Uma infinidade de estrelas. Editora Deaga, Coleção DH-Ciência, n. 8. “Regata no espaço”.
= A sonda do tempo. Editora Nova Fronteira, 1979. “Respire fundo”.
= Rumo à Vega. Editorial Bruguera, Coleção Urânia, n. 18, 1971. “Reviravolta”.
= Correio do Povo, 7 de dezembro 1968, Porto Alegre (RS). “A sentinela”.
= Seleções, n. 202, março 1988. “A sentinela”.
= Dinossauros! Editora Aleph, Coleção Zenith, n. 6, 1993. “Seta do tempo”.
= Ross Pynn – Antologia de Mistério, n. 6. “Silêncio, por favor!”.
= Arte futura. Editorial Bruguera, Coleção Urânia, n. 10, sem data. “Teste de segurança”.
= Os melhores contos de ficção científica de 1972. Editora Deaga, Coleção DH-Ciência, n. 18. “A trajetória da Terra”.
= Espaço, n. 2. Editora Verbo, sem data. “Verão em Ícaro”.
= Homens e estranhos. Edições Mundo Musical, 1973. “Vindo do Sol”.
= Terrestres e estranhos. Editorial Panorama – Antologias, n. 1, sem data. “Vindo do Sol”.
= Histórias de ficção científica. Editora Ática, 2006. “A estrela”.
= A Descronização de Sam Magruder, George Gaylord Simpson. Introdução: "A Exploração do Tempo".

Divulgação científica
= A exploração do espaço (The exploration of space, 1952), Melhoramentos, 1959.



= Perfil do futuro (Profiles of the future, 1962), Vozes, 1970.
= O terceiro planeta (Report on planet three, 1972), Hemus, 1972.
= O mundo misterioso de Arthur C. Clarke (Arthur C. Clarke’s mysterious world, 1980), com Simon Welfare e John Fairley. Francisco Alves Editora, 1982.
= Um dia na vida do século XXI (July 20, 2019: A day in the life ot the 21st century, 1986),    Nova Fronteira, 1989.

Sobre o autor (livros e revistas):
= “Ficção científica: A nova mitologia – Ensaio para uma análise estrutural”, Franciso Antonio Doria. Tempo Brasileiro, nos. 15/16. Editora Revista dos Tribunais, 1973. (O artigo analisa o romance A cidade e as estrelas.)
= “A idade de ouro, Arthur C. Clarke, 1953”, L. David Allen, No mundo da ficção científica. Summus Editorial, 1975.
= 2001, uma odisséia no espaço, Amir Labaki. Publifolha – Coleção Folha Explica, n. 15, 2000.
= Arthur C. Clarke: Ficção das origens, Jesus de Paula Assis, editor. Scientific American – Exploradores do Futuro. Editora Duetto, 2005.
= “Assim falou Arthur C. Clarke...”, Marcello Simão Branco. Discutindo Literatura, ano 3, n. 18, 2008. Editora Escala Educacional.
= "Arthur Clarke em 2001", da "Salon" (revista norte-americana). Folha de S. Paulo, "Mais!", 14 de janeiro de 2001.
= "Mil Anos à Frente", Laurentino Gomes (resenha de 3001: A Odisséia Final). Veja, 23 de julho de 1997.


quinta-feira, 17 de março de 2016

Dracano (Dracano / Dragon Apocalypse, EUA / Canadá, 2013)


Dracano” ou “Dragon Apocalypse” é mais um daqueles típicos filmes ruins exibidos no canal de TV a cabo “SyFy”, com um roteiro péssimo, elenco inexpressivo e efeitos especiais em CGI vagabundo, que são as características principais do que costumo chamar de “cinema fantástico bagaceiro do século XXI”.
Na história, um casal de cientistas, Simon Lowell (Corin Nemec) e a namorada Carla Simms (Victoria Pratt), trabalham juntos numa faculdade com um projeto intitulado “Kronos”, estudando as atividades de vulcões com uma tecnologia experimental instalada no Monte Baker, no Estado americano de Washington. Entre os objetivos estão a detecção prévia de erupções, minimizando a ação de desastres, e a conversão da lava vulcânica em energia limpa. Ainda tem a adolescente Heather Lowell (Mia Faith), filha do cientista, que está sempre acompanhando o trabalho do pai. Porém, um acidente faz com que a faculdade cancele o apoio e os cientistas tornam-se alvos de perseguição, tentando provar que o projeto não tem responsabilidade numa erupção que dizimou muitas pessoas. Em paralelo, ficamos sabendo que os vulcões escondem por séculos casulos em seu interior que abrigam criaturas aladas carnívoras, um fato que já é de conhecimento do governo americano há muito tempo e que tem sido mantido oculto da população, numa típica conspiração, por não saberem como combater a ameaça. Depois que uma infestação de dragões invade os céus em busca de alimento, com os humanos no cardápio, o exército, com as ações lideradas pelo austero General Hodges (Troy Evans), auxiliado pelo Coronel Maxwell (Robert Newman), localiza o cientista Lowell para tentarem utilizar seus conhecimentos como especialista em vulcanologia e o projeto “Kronos” e impedir o apocalipse dos dragões.
  O mais importante em qualquer filme é contar uma boa história. Se o roteiro for interessante, a diversão já é garantida, e o restante, como efeitos especiais e a produção em geral, tornam-se apenas complementos de importância menor. Mas, se a história é ruim, cheia de clichês e absurdos, é muito difícil criar uma empatia, por menor que seja, com o filme.
Em “Dracano”, dirigido por Kevin O´Neill (cujo currículo é maior na área de efeitos especiais), a história é patética, com personagens fúteis, piadas ridículas, monstros artificiais em péssima computação gráfica que não convence, e um desfecho previsível e extremamente banal. Tem o cientista injustiçado que salva o mundo, a adolescente acéfala que torcemos inutilmente para virar comida dos monstros, e os militares calculistas metidos a heróis e que acham que a solução é destruir o inimigo com violência não se importando em explodir a ameaça com uma bomba nuclear.
A única pergunta que fica é como os produtores e toda a equipe envolvida, de técnicos aos atores, conseguem encontrar um mínimo de motivação para fazerem um filme tão descartável e que cujo lugar é o inevitável limbo eterno das produções esquecidas. 
(Juvenatrix – 15/03/16)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Nova, Volume 1, Emir Ribeiro

Nova, Volume 1, Emir Ribeiro. 108 páginas. Ilustrações do autor. Editora Marca de Fantasia, João Pessoa, 2005.

Nos anos 1990, a Editora Abril Jovem – que então dominava o mercado brasileiro de histórias em quadrinhos – arriscou a publicação de novelizações de alguns dos personagens mais famosos que então publicava. Distribuiu três ou quatro edições com contos e noveletas escritas por bons autores, entre eles nomes importantes da ficção científica americana. Mas as histórias provaram ser desinteressantes tanto para os leitores habituais de quadrinhos quanto para os que gostam de romances e a proposta não foi além*.
Pouco tempo depois, o quadrinhista paraibano Emir Ribeiro começou a publicar novelizações das aventuras de suas personagens no personalzine Zat! Argumentava que era uma forma apresentar organizadamente as histórias mais antigas para os leitores novos que não as conheciam, e também para experimentar a evolução e a cronologia das tramas ainda não desenhadas.
Parte desse material chegou a ser distribuído também pela internet com muito sucesso entre os leitores, que apreciam principalmente a sua personagem mais famosa, a super heroína Velta, uma beldade de cabelos louros longuíssimos e roupas sumárias, que dispara raios elétricos nos seus inimigos. Publicada nos fanzines há mais de quarenta anos, Velta chegou a ganhar edições profissionais por várias editoras e, assim, ampliou ainda mais seu grupo leitores de fiéis.
Em 2003 Emir publicou, por sua própria conta, uma pequena tiragem semi-artesanal de uma antologia com os primeiros contos da Velta, que vendeu pelo correio diretamente aos interessados. Em 2005, decidiu investir em mais um volume, desta vez com novelizações de outra de suas personagens, a androide Nova, criada em 1978. Nova vive no mesmo universo ficcional de Velta e muitas vezes o autor promoveu encontros entre as duas personagens, prática comum nos quadrinhos de super heróis. Este livro não foge a regra.
Nova é uma rica brasileira de 22 anos que se vê acometida por uma doença incurável e sua única alternativa de sobrevivência está num tratamento radical em Zurique, Suíça, para o qual se candidata. O cientista que realiza o procedimento é um russo que perdeu a esposa na Polônia em 1969 e, desde então, em homenagem a falecida, dedica-se a construir um corpo artificial com o qual pretende salvar a vida de alguém que esteja em fase terminal. O tratamento é um sucesso e Nova não apenas livra-se da doença, mas ganha poderes sobre-humanos, tais como super-força, visão microscópica e capacidade de voar, todos contidos no seu corpo sintético que, além de tudo, recria a imagem de uma ruiva linda e sensual. Porém, o cientista não sobrevive a sua criação. Acossado por terroristas internacionais que lhe financiavam as pesquisas, antes de morrer despacha a melhorada Nova de volta para o Brasil. No voo de regresso, Nova vê matérias de revistas com Velta, detetive bonita e admirada, e sente inveja da fama fácil da loura.
Assim que chega à Santos, sua cidade natal, Nova descobre que Velta também está ali e decide experimentar os limites de seus poderes enfrentando a super-heroína. Depois de ridicularizá-la em público ao resgatar um barco naufragado no Porto de Santos, Nova persegue Velta e ambas lutam ferozmente nas ruas de Belo Horizonte. Nova perde o combate e fica muito danificada. Agora ela precisa encontrar alguém que possa consertar seus circuitos para, depois, reatar os laços familiares que abandonou ao ir para a Europa e reassumir seu espaço na sociedade. Mas o perigo e a violência não vão deixá-la sossegada.
Como se vê, é preciso dar algum crédito à história para aproveitar a leitura. Os componentes dramáticos são típicos dos quadrinhos e não funcionam bem na forma novelizada. Implausibilidades que nos quadrinhos são toleráveis, no texto ficam muito expostas. Somente quem está acostumado com a leitura de histórias em quadrinhos de super heróis vai ter alguma facilidade para entrar no clima da narrativa.
Emir Ribeiro não é um escritor e provavelmente não tem a intensão de ser. Ele não domina as ferramentas de narração literária e o texto apresenta muitos cacoetes de de roteiro, com descrições rápidas e imprecisas que afastam o leitor da história.
As novelizações parece ser apenas uma brincadeira do autor para com seus leitores mais contumazes e, para isso, parece ter o tratamento adequado. Mas caso o autor pretenda uma demanda para além das fronteiras dos leitores de fanzines e de quadrinhos, é preciso evoluir o tratamento do texto. Mas, a vista dos resultados das novelizações profissionais citadas no início do artigo, talvez isso não seja o suficiente.
Cesar Silva

*A partir de 2014, esse mesmo tipo de publicação voltou às livrarias por iniciativa de diversas editoras que tentam assim aproveitar o crescimento do mercado de literatura jovem adulta e, principalmente, os lançamentos nos cinemas e na tv com os desgastados personagens dos quadrinhos.

Vitrais e As ilhas imaginárias, Jose Ronaldo Viega Alves

Vitrais, Jose Ronaldo Viega Alves. 60 páginas. Editora Opção 2, Porto Alegre, 2005.
As ilhas imaginárias, Jose Ronaldo Viega Alves. 58 páginas. Editora Opção 2, Porto Alegre, 2005.

Não há muitas dúvidas quando ao tipo de abordagem que os leitores brasileiros de fantástico mais apreciam. Ray Bradbury é uma unanimidade porque é mestre em elaborar personagens e cenários líricos. Mesmo os leitores de ficção científica hard aceitam bem os seus textos porque sua poesia compensa totalmente a falta de rigor científico.
Da mesma forma, os textos fantásticos brasileiros que mais agradam aos leitores são justamente aqueles nos quais os autores conseguiram inserir mais lirismo. Porém, essa prática não está atualmente na moda por aqui. Ao contrário, há uma supervalorização estilística da agressividade e da violência crua, talvez reflexo direto dos tempos duros que vivemos.
Não que inexistam poetas em atividade, ao contrário, o movimento poético brasileiro é intenso e tão marginal quanto a fc&f brasileira.
Mas parece ser uma impossibilidade teórica tanto para os poetas quanto para os escritores combinarem poesia e ficção científica em especial, com raríssimas exceções como o caso de André Carneiro. Outro exemplo é Jose Ronaldo Viega Alves que produz não somente uma poesia sensível e criativa, mas também impõe em seu repertório uma dose generosa de fantasia e ficção científica.
Alves nasceu em Sant'Ana do Livramento (RS) em 1955. É bancário, também produz contos e crônicas e participa do fandom brasileiro há algum tempo, embora tenha sido pouco publicado nos fanzines. Sua produção tem sido dirigida para concursos – em muitos dos quais foi premiado –­ e para as mais de cinquenta antologias poéticas das quais participou. Também apresenta seus trabalhos em coletâneas individuais, tendo mais de vinte títulos publicados.
Em 2005, o autor lançou duas coletâneas pela Editora Opção 2 de Porto Alegre: Vitrais e As ilhas imaginárias, com algumas dezenas de poemas, a maior parte muito curtos, de um estilo que se não chega a ser tradicional, tampouco pode ser classificado como experimental. Alguns tomam até duas páginas, mas a maioria não passa de poucas linhas.
Ambos os títulos tem trabalhos assemelhados e não há uma abordagem diferenciada entre eles, que bem poderiam formar um volume único.
A leitura é rápida e agradável com muitos momentos expressivos. Nem tudo é fantasia, é claro, há um bocado de realismo romântico, mas tudo acaba alinhavado pela continuidade dos poemas que ora falam de robôs, teletransporte e viagens no tempo, ora de memórias da infância, sonhos, amor etc.
Não é possível fazer uma resenha convencional dos livros de Jose Ronaldo Viega Alves. Quando se trata de poesia, o melhor mesmo é lê-la.
Cesar Silva