sábado, 13 de fevereiro de 2016

Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, Inglaterra / França, 2004)


                                   Escrito originalmente em 06/02/2006.

“Remover a cabeça ou destruir o cérebro é a única forma de combatê-los.”
– alerta de um apresentador de noticiário de televisão

Shaun (Simon Pegg) é um homem fracassado que não consegue visitar sua mãe Barbara (Penelope Wilton), tem problemas de relacionamento com seu padrasto Philip (Bill Nighy, o chefe supremo dos vampiros em “Underworld”), mora numa casa dividindo o espaço com os companheiros Ed (Nick Frost), um gorducho inútil e desempregado, e o severo Pete (Peter Serafinowicz), não é respeitado pelos colegas de trabalho numa loja de eletrodomésticos, freqüenta apenas um único bar como diversão, e não consegue também agradar ou surpreender com criatividade a bela namorada Liz (Kate Ashfield), que está cansada da rotina do namoro, dispensando-o e preferindo a companhia de um casal de amigos, David (Dylan Moran) e Dianne (Lucy Davis). Ele chega à conclusão que precisa “dar um jeito na vida”, ter atitudes e sair do marasmo. Ele só não imaginaria que seria obrigado a assumir o papel de herói meio atrapalhado e teria que fazer tudo isso repentinamente, depois que um vírus contamina as pessoas transformando-as em mortos-vivos vagando desorientados pelas ruas de Londres, famintos por carne humana. Shaun acaba assumindo a liderança de um grupo que tenta sobreviver em meio ao caos instaurado pelos zumbis. Eles se refugiam num pub, onde ficam encurralados e são atacados, obrigando Shaun a lutar por sua vida e a dos amigos, além também de tentar recuperar o amor da namorada.     
Depois de assistir o filme inglês “Todo Mundo Quase Morto” (Shaun of the Dead, 2004) fica um sentimento que seus criadores Edgar Wright (também o diretor) e Simon Pegg não se decidiram se fariam um filme de comédia de humor negro sobre o fim do mundo ou um drama sério de horror com cenas fortes de violência e mortes, pois o resultado ficou uma mistura das duas coisas e que para mim não funcionou. Eu particularmente não sou muito fã de comédias ou paródias, sendo que entre as poucas exceções destaco “O Jovem Frankenstein” (1974), de Mel Brooks, e “Malditas Aranhas!” (2001), homenagem e sátira divertida dos nostálgicos filmes dos anos 1950 com aquelas criaturas tornando-se gigantes por causa do contato com produtos químicos que alteraram seu metabolismo. Eu prefiro filmes mais sérios. Ou, caso a ideia seja satirizar algum gênero, que o filme seja reconhecidamente uma comédia de humor negro, e não uma mistura onde temos piadas e situações cômicas perdidas no meio de cenas sangrentas com zumbis putrefatos devoradores de carne humana.
Como filme de humor negro, não achei tão divertido quanto esperava, principalmente depois das expectativas geradas após ler diversos comentários positivos a respeito, vindos de todos os lados (tanto que no site “Internet Movie Database”, a maior fonte de dados de cinema do mundo, a nota média dos leitores ao avaliarem o filme é até bem alta). Utilizei como referência para chegar a essa conclusão o fato que somente consegui rir de alguma coisa ao ver nos materiais extras do DVD algumas cenas cortadas por erros de gravação, principalmente quando o obeso Ed tenta explicar para Shaun as características devassas de uma mulher deprimida de meia idade e ex-atriz pornô que sempre freqüenta solitária o bar “The Winchester”.
Já como filme sério de horror gore, existem algumas boas cenas que merecem destaque como aquela onde uma garota afetada pelo vírus que a tornou uma morta-viva, a caixa de supermercado Mary (Nicola Cunningham), é empalada por um cano grosso de aço, e a seqüência onde um dos personagens é destroçado violentamente com suas entranhas devoradas por uma legião de zumbis, lembrando cena muito similar com um militar arrogante, o Capitão Rhodes, em “O Dia dos Mortos” (1985), de George Romero.
Aliás, vale enaltecer as várias citações e homenagens aos filmes do mestre Romero, “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), “Despertar dos Mortos” (1978) e o já citado “O Dia dos Mortos”, além de outras personalidades do cinema de horror como os cineastas Lucio Fulci e John Landis, e o cultuado ator Bruce Campbell (isso sem falar no diretor Danny Boyle e no ator Ken Foree, de “Despertar dos Mortos”). E uma cena também em especial, onde Shaun demonstra uma completa alienação, típica do ser humano consumista, numa crítica social interessante quando ele sai de casa para comprar um refrigerante e um sorvete num pequeno mercado e consegue a incrível proeza de não perceber que o bairro está misteriosamente sem movimento e que vários mortos-vivos estão cambaleando pela região, próximos dele.
“Todo Mundo Quase Morto” foi lançado em DVD no Brasil no final de Outubro de 2004 pela “Universal”, trazendo cerca de uma hora de materiais extras, divididos entre os tópicos “Carne Crua”, “Galeria de Zumbis”, “Rastros dos Monstros” e “Partes Cortadas”. No primeiro tópico, temos uma interessante apresentação de Edgar Wright e Simon Pegg sobre o esboço do filme, mostrando a ideia básica do roteiro que imaginaram através de rascunhos escritos num “flip chart”, além de detalhes dos efeitos especiais, testes de maquiagem e um “featurette” promocional com comentários do diretor Edgar Wright e dos atores Simon Pegg, Kate Ashfield, Nick Frost, Lucy Davis, Dylan Moran e Bill Nighy. O segundo tópico apresenta fotos e cartazes do filme. Já em “Rastros dos Monstros”, temos a exibição de “teasers”, “trailers” e comerciais de televisão. Finalizando os extras, o último tópico destaca cenas que foram cortadas da edição final com a opção dos comentários dos roteiristas Edgar Wright e Simon Pegg, além de uma interessante revelação do destino de três cenas que ficaram no ar durante o filme, ou seja, como Shaun conseguiu despistar a legião de zumbis que o perseguiam antes de chegar ao pub “The Winchester”, o que aconteceu com Lucy depois que decidiu enfrentar sozinha os mortos-vivos num acesso de fúria, e uma explicação envolvendo a cena final.
Finalizando, justifico a minha nota como sendo 6 (de total de 10) devido quase que exclusivamente pela quantidade de citações e homenagens inseridas no roteiro do filme, e pelas boas cenas de horror gore, pois sinceramente não consegui entrar no clima do humor negro proposto pela história. Mas, independente de qualquer coisa, como um filme de mortos-vivos, vale uma conferida...

(Juvenatrix - 06/02/2006)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Maldição da Múmia (The Curse of the Mummy´s Tomb, Inglaterra, 1964)


A contribuição do estúdio inglês “Hammer” para o universo ficcional das múmias do antigo Egito é composta por quatro filmes. São eles: “A Múmia” (The Mummy, 1959), de Terence Fisher e com Christopher Lee e Peter Cushing, “A Maldição da Múmia” (The Curse of the Mummy’s Tomb, 1964), de Michael Carreras, “A Mortalha da Múmia / O Sarcófago Maldito” (The Mummy’s Shroud, 1967), de John Gilling e com André Morell, e “Sangue no Sarcófago da Múmia” (Blood From the Mummy’s Tomb, 1971), de Seth Holt e Michael Carreras, e com Andrew Keir.
No segundo filme da série, a história é ambientada no Egito de 1900, onde um grupo de arqueólogos europeus encontra a tumba de 3000 anos do príncipe Ra-Antef, um dos filhos gêmeos do faraó Ramsés VIII, após uma exaustiva jornada de dezoito meses pelo deserto. A equipe é formada pelos egiptólogos ingleses Sir Giles Dalrymple (Jack Gwillim) e John Bray (Ronald Howard), além da bela francesa Annette Dubois (Jeanne Roland) e do empresário americano da área de entretenimento Alexander King (Fred Clark), o financiador da expedição. A múmia preservada em seu sarcófago, e todos os tesouros, pertences pessoais e artefatos valiosos, foram levados para Londres para serem apresentados à imprensa. E depois seguiriam para os Estados Unidos com o objetivo de serem expostos num evento itinerante, mesmo contra a vontade do governo egípcio, representado por Hashmi Bey (George Pastell), que não queria que a múmia saísse de seu país de origem. Durante o trajeto por navio até a Inglaterra, os arqueólogos conhecem outro estudioso e colecionador de objetos do antigo Egito, o misterioso Adam Beauchamp (Terence Morgan), que desperta um interesse amoroso em Annette. Após chegarem a Londres, tem início uma ocorrência de fatos estranhos, como o desaparecimento da múmia em seu sarcófago seguido de uma série de ataques violentos com mortes envolvendo a equipe e todos que testemunharam a abertura da tumba, desencadeando “a maldição da múmia” (do título).
De todos os quatro filmes de múmias da “Hammer”, certamente o melhor disparado é o clássico “A Múmia” (1959), dirigido pelo especialista Terence Fisher (o melhor cineasta do estúdio) e estrelado pela dupla dinâmica Christopher Lee (como o monstro) e Peter Cushing (como o arqueólogo rival). Como esse trio não fez parte dos outros três filmes, a qualidade e interesse inevitavelmente diminuíram. Mas, apesar disso, “A Maldição da Múmia” é um filme da cultuada produtora (curto, com apenas 78 minutos) e está situado dentro da temática de um dos grandes monstros sagrados do cinema de horror. E esses já são motivos suficientes para agregar valores ao filme e despertar o interesse dos fãs. Michael Carreras fez de tudo aqui, dirigiu, escreveu o roteiro sob o pseudônimo de Henry Younger e produziu o filme. Porém, é uma pena comprovar que ele é mais talentoso apenas como produtor de muitos filmes divertidos da “Hammer”, e seu trabalho principalmente como roteirista, é bem inferior. A história desse filme é apenas trivial, exagerada nos clichês e com uma “surpresa” envolvendo o personagem Adam Beauchamp que teve um efeito contrário (na verdade, a tal surpresa é até previsível e exagerada na fantasia). O que realmente vale destacar nesse segundo filme da série de múmias da “Hammer”, é o mesmo que acontece com os outros dois seguintes: as cenas de ataque do monstro envolto em bandagens (interpretado por Dickie Owen) contra os profanadores de sua tumba, e as eventuais mortes violentas.
Curiosamente, o eterno ator coadjuvante Michael Ripper também aparece aqui, numa ponta rápida no início como o serviçal egípcio Achmed. Ele que é o campeão de participações em filmes da “Hammer”.
(Juvenatrix – 10/02/16)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mulheres Pré-Históricas (Slave Girls / Prehistoric Women, Inglaterra, 1967)


O estúdio inglês “Hammer” tem uma importância extremamente significativa na história do cinema fantástico, principalmente com seus filmes de atmosfera gótica, uma marca registrada que tornou a produtora tão cultuada. Porém, vários outros temas também foram abordados, como o sub-gênero de civilizações perdidas no tempo, com histórias classificadas como aventura com elementos de fantasia. É o caso de “Mulheres Pré-Históricas”, filme de 1967 dirigido, escrito e produzido por Michael Carreras, e com um elenco enorme formado especialmente por belas mulheres vestidas com poucas roupas.
David (Michael Latimer) é um guia de expedições de caça de animais selvagens, que encontra no meio da selva uma misteriosa tribo de nativos que querem matá-lo em nome de seu deus, uma imagem de um rinoceronte branco. Porém, em meio ao ritual de sacrifício, ocorre um evento onde ele é transportado para o passado encontrando uma civilização formada por mulheres de cabelos morenos e “pré-históricas” (do título original adotado nos Estados Unidos). Elas são lideradas pela rainha tirana Kari (Martine Beswick), que mantém as mulheres de cabelos loiros como serviçais “escravas” (do título original na Inglaterra). Os poucos homens são também escravizados e mantidos presos numa caverna. O jovem inglês recém chegado se apaixona por uma das mulheres loiras, Saria (a húngara Edina Ronay), e juntos eles tentam organizar uma revolta contra a tirania da rainha morena, libertando as loiras da escravidão e impedindo os constantes sacrifícios oferecidos para uma tribo violenta de homens negros que mantém a paz num acordo que exige as mulheres em troca.
Ao contrário de alguns dos outros filmes da “Hammer” com temática de civilizações perdidas, nesse não há dinossauros ameaçadores caminhando pela Terra. Porém, encontramos clichês tradicionais com o roteiro apresentando uma rainha que governa sua tribo com tirania, despertando a fúria dos escravos, que desejam a liberdade. E como herói opositor, surge um homem vindo do futuro que desperta um interesse amoroso na rainha, mas que se apaixona por uma das escravas, se engajando numa luta para se livrarem da opressão. A história é simples demais e repleta de danças e cantorias entediantes, num inevitável convite ao sono. Por outro lado, o que realmente consegue manter a atenção do espectador é o desfile de belíssimas mulheres, tanto morenas quanto loiras, em trajes sumários, garantindo a diversão, juntamente com os elementos fantásticos como a viagem no tempo do protagonista, visitando e interferindo nas ações de um mundo do passado.   
Curiosamente, “Mulheres Pré-Históricas” foi filmado em apenas quatro semanas, utilizando os mesmos cenários e vestuários reaproveitados do filme anterior “Mil Séculos Antes de Cristo” (1966), de Don Chaffey e com a belíssima Rachel Welch no elenco. 
(Juvenatrix – 09/02/16)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Tempestade Solar (Exploding Sun, Canadá, 2013)


O canal de TV a cabo “SyFy” é conhecido pela exibição de filmes de ação com elementos de ficção científica e histórias de catástrofes globais abordando a destruição de nosso planeta. São tantos filmes similares com os mesmos clichês exaustivos, que dá pena da Terra sendo tão maltratada pelos roteiristas sem imaginação e preguiçosos em tentar desenvolver alguma ideia no mínimo razoável. Em “Tempestade Solar”, uma produção canadense dirigida pelo inexpressivo Michael Robison e roteiro patético de Jeff Schechter, que não tem nenhuma importância para o cinema fantástico, a única diferença para a imensidão de outros filmes ruins do mesmo estilo e temática, é que sua duração tem quase três horas, com a exibição dividida em dois filmes, dobrando o sofrimento do espectador. Depois que termina a péssima primeira parte ainda vem em seguida a continuação ainda pior.
Apesar da duração enorme do filme, é plenamente possível resumir a sinopse em poucas linhas de tão ruim e sem interesse que é a história. Uma empresa privada está anunciando a primeira viagem espacial civil, com um avião projetado especialmente para dar a volta na Lua e retornar em poucas horas, graças à capacidade de viajar numa velocidade extremamente alta. Porém, um defeito ocorre com os motores após uma tempestade solar com explosão de raios cósmicos e a nave perde o controle rumando para uma colisão com o Sol. Após o trágico acidente, a Terra passa a ser terrivelmente ameaçada com uma imensa descarga de raios solares que se dirige ao planeta. Para evitar o apocalipse final, o destino do mundo fica nas mãos do cientista Craig Bakus (Anthony Lemke) e do astronauta Don Wincroft (David James Elliott), que partem rumo ao Sol numa nave similar da agência espacial americana, para tentar criar um evento que anule os efeitos destrutivos dos raios solares.
A primeira parte é centrada na nave “Roebling Clipper” com seus seis passageiros, entre tripulação e civis, apresentando os personagens e mostrando a aventura do vôo espacial inaugural para a Lua. Perde-se tempo demais com personagens que não despertam interesse, com uma overdose de clichês e cenas carregadas de pieguice. Onde o ápice do tédio gira em torno de um triângulo amoroso entre os protagonistas que tentam salvar o mundo e a conselheira científica do presidente americano, Cheryl Wincroft (Natalie Brown), ex-esposa de um deles e atual mulher do rival.
Na segunda parte de noventa minutos, a ação se volta, depois da tragédia da nave civil que se chocou com o Sol, para a tentativa banal de evitar o fim do mundo. Com a utilização de outra nave, pertencente à NASA e copiada e melhorada a partir da primeira, para reverter o processo da tempesatde solar que acabaria com a vida na Terra.
É difícil dizer qual das duas partes é a pior. Imagine dois filmes péssimos que se complementam, com o roteirista inventando uma série de tramas paralelas para conseguir preencher o total de três horas do filme. São cenas envolvendo personagens secundários que só contribuem para o sono do espectador. Temos vários momentos descartáveis com o presidente americano Mathany (Frank Schorpion), sua filha adolescente Lara (Charlotte Legault) e a primeira dama Simone (Jane Wheeler), que era uma das passageiras da nave que foi para a Lua, contribuindo para promover a viagem. Temos também cenas tediosas com Joan Elias (Julia Ormond), a responsável de um acampamento humanitário no Afeganistão, esposa de Alan (John Mclaren), outro passageiro do primeiro vôo espacial civil. E a pior de todas as subtramas está reservada para uma pequena cidade americana onde vive Marta Hernandez (Cristina Rosato), esposa de outro passageiro, que ganhou a vaga numa loteria e tem medo de avião.
Se eu fosse enumerar e descrever a imensa quantidade de erros, furos de roteiro, situações inverossímeis e cenas patéticas, provavelmente não conseguiria terminar esse texto. Então, prefiro parar por aqui e finalizar com um pequeno alerta de um apreciador de cinema fantástico bagaceiro: “Tempestade Solar” é um completo desperdício de um longo tempo de três horas que poderia ser melhor aproveitado com outros filmes ruins, mas que pelo menos divertem.
(Juvenatrix – 08/02/16)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Incidente no Caribe, Denise Reis

Incidente no Caribe, Denise Reis. Prefácio de André Valente. 128 páginas. Edição da autora, Rio de Janeiro, 2005.

Incidente no Caribe, de Denise Reis, é uma novela que se insere no tema da transmigração de um personagem contemporâneo para uma utopia tecnológica, uma tradição desde a proto-ficção científica que caracteriza boa parte dos primeiros exemplos da literatura do gênero e, principalmente, aquela feita no Brasil. Porém, Incidente no Caribe não é exatamente uma obra de ficção científica, mas uma fantasia esotérica.
Dr. Renato Di Cosmo é um renomado físico brasileiro em férias no Caribe. Ele mergulha sozinho no mar da Ilha de Bimíni e ali encontra submersas ruínas de uma construção antiga em ouro e cristal. No mesmo instante, é arremessado para uma outra realidade, na qual emerge nu e desorientado numa praia deserta com duas luas no céu. Depois dos primeiros momentos de pânico, começa a explorar a região e localiza água e alimento mais que suficientes para manter-se vivo.
Muito tempo depois, Renato encontra uma aldeia vivendo uma utopia de conforto e fartura. São cidadãos de Aztlan, uma grande metrópole insular que está em guerra contra um inimigo distante. Em breve, seus dirigentes vão acionar a arma suprema, recentemente desenvolvida, que derrotará para sempre todos os seus inimigos. Porém, Renato é alertado por um sábio resignado que alienígenas amistosos previram que o disparo dessa arma vai também arrasar o planeta e destruir a humanidade. Eles têm um plano de evacuação em suas espaçonaves para uns poucos escolhidos, mas o nome de Renato não está nessa lista. Sua única esperança de sobrevivência é encontrar o portal que o trouxe até ali e fazer o caminho inverso, retornando ao seu próprio tempo antes da catástrofe.
Este é o resumo da novela que parece ser o trabalho de estreia de Denise Reis no gênero. Nas orelhas da capa do volume descobrimos que a autora é engenheira e jornalista, ex-sócia da Editora Leviatã do Rio de Janeiro e se dedica a produção de eventos e webdesign.
O prefácio é assinado pelo linguista André Valente que comete uma gafe logo nas primeiras linhas, quando diz: "A autora extrapola os limites do romance de ficção científica e nos oferece um texto profundamente humanístico."  Não era necessário que, para elogiar a autora, o prefaciador tivesse que desqualificar todo o gênero em que a obra pretendia estar inserida. Certamente ele compartilha o preconceito contra a literatura de gênero, especialmente a ficção científica, para considerar que só extrapolando suas fronteiras uma obra possa atingir o humanismo. 
Denise Reis tem um texto leve que se lê com facilidade. Porém, seria desejável mais atenção aos instrumentos de suspensão da descrença do leitor, que contribuiria para um resultado melhor. Por exemplo, poderia ter enriquecido a introdução da história com o cenário do Caribe onde o personagem foi passar as férias, construindo assim uma esfera de realismo e empatia em torno do mesmo, entes de penetrar nos absurdos inerentes das histórias de fantasia. Algumas inconsistências também comprometem a plausibilidade do texto, como quando o protagonista fica semanas vagando pela orla marítima sem encontrar qualquer sinal de vida humana para, depois, descobrir-se numa ilha não muito grande na qual se instala uma metrópole tecnológica populosa e muito ativa. 
Um ponto valioso a favor da autora é que ela não utiliza vocabulário rebuscado nem pratica exercícios formais intrincados, narrando a história com simplicidade, o que é ótimo para qualquer tipo de literatura e muito desejável para atingir o público jovem. Este parece ser o melhor caminho para a autora dar sequência ao seu trabalho literário.

— Cesar Silva

Fenda no Espaço, Philip K. Dick

Fenda no Espaço (The Crack in Space), Philip K. Dick. Tradução de Elisabeth Marques Jesus de Sousa. Publicações Europa-América, coleção Ficção Científica, n.79, Portugal. Publicado originalmente em 1966, 160 páginas.

Este pequeno romance de Philip K. Dick foi publicado originalmente como uma novela na revista Fantasy & Science Fiction  em 1964, com o título de “Cantata 140”. Faz alusão à peça musical de mesmo nome de Johann Sebastian Bach (1685-1750), em que pessoas despertariam depois de um longo sono. Dois anos depois surgiu ampliada e com o título definitivo, que faz referência à descoberta de um universo alternativo.
Fenda no Espaço nos mostra os Estados Unidos em 2080 às voltas com uma questão das mais controversas da história da política do país: a possibilidade de um negro chegar à Casa Branca. Aqui não vemos a exposição a partir de uma perspectiva anti-negro, como a do romance O Presidente Negro (1926), de Monteiro Lobato, mas, ao invés, a narrativa é conduzida a partir de Jim  Briskin, o postulante negro à Presidência.
É quase automático pensar na frase que já se tornou um clichê: “Mais uma vez a realidade superou a ficção”, pois Barack Obama chegou ao principal cargo do país em 2009. Contudo, como se percebeu ao longo de seus dois mandatos, se a questão racial melhorou, ainda está longe de ser um consenso, e parte das dificuldades que o governo enfrentou junto à oposição republicana pode ser explicado por causa da cor da pele do presidente.
Como só numa história escrita por Dick este é apenas o ponto de partida provocador para a apresentação de uma sociedade com soluções sociais, diria, bizarras, imaginadas nos anos 1960 para uma América de 120 anos depois. Num país superpopuloso o capitalismo não conseguiu integrar milhões de pessoas à economia, e optou-se por colocar os pobres e desempregados para um sono criogênico, mantidos por uma estatal do governo. Isso já seria sui-generis e mesmo impensável nos dias de hoje, mas a questão também se complica pelo fato da maioria das pessoas colocadas nesta condição serem negros e latino-americanos. De forma perversa o país tirou do convívio social os não-brancos! Ao que parece mais do que uma solução para a estagnação da economia resolveu-se uma questão social, ao isolar os brancos da crescente população negra e latina que em nossa realidade deverá ser maioria nos Estados Unidos em meados deste século. Pois a candidatura de Briskim busca como primeira meta, justamente, acabar com esta situação desumana, e a questão mais candente da campanha presidencial dele e do presidente Bill Schwarcz é a terraformação de um planeta do sistema solar, possivelmente Marte, para onde seriam enviados os bibs, como são chamados os dezenas de milhões de adormecidos.
Tudo muda, entretanto, quando uma máquina pertencente a uma das maiores corporações do país, devido a uma falha de funcionamento, descobre uma fenda no espaço, que dá para outro planeta. Mas em pouco tempo chega-se à conclusão de que este outro planeta, em tudo semelhante à Terra, é uma outra Terra! Muito mais despovoada do que a de nosso universo, surge como uma solução mais barata e imediata para a questão dos bibs. Briskim não perde tempo e anuncia que, se eleito, transferirá os adormecidos para se tornarem os colonos de um novo mundo. Precipitado devido ao calor da campanha saberá pouco depois que a outra Terra está povoada não por Homo Sapiens, mas por Homo Erectus ou, como chamados no livro, por homens de Pequim.
As expedições enviadas constatam que os pequins – como são chamados de forma pejorativa – evoluiram num mundo sem os homo sapiens, e por isso não se extinguiram. Desenvolveram uma civilização em que os instrumentos são quase todos baseados na madeira, e não no metal e no plástico. Em termos materiais vivem de forma muito modesta, mas escondem segredos tecnológicos com os quais os homo sapiens nem imaginam.
Pois mesmo com a descoberta de outra civilização o presidente começa uma transferência em massa de bibs para a outra Terra, numa tentativa desesperada de se reeleger. Pouco importa como irão viver lá, como será a convivência com os pequins, que se trata na verdade de uma invasão. Afinal são todos cidadãos de segunda categoria.
Neste contexto de iminente conflito entre os sapiens e os pequins, de forma esperta o mutante George Walt, uma pessoa com uma cabeça em dois corpos, dono do bordel orbital Paraíso Dourado – destino cotidiano de nove entre dez políticos do pais, sendo Briskim a exceção –, vai para a Terra alternativa e se apresenta como um ser diferente e por sua excentricidade física acaba adotado como um líder entre os homens de Pequim. Caberá a Briskim a missão difícil de negociar com Walt para evitar que os pequins invadam a nossa Terra, em represália ao envio dos bibs.
Como se percebe é fundamentalmente um romance de enredo, em que várias ideias interessantes são propostas de forma especulativa e socialmente provocadora, no qual Dick endereça muitas críticas à sociedade de seu tempo, conflagrada pela emancipação dos direitos civis (negros e mulheres) e a uma guerra impopular, como a do Vietnã, que remete aos asiáticos, da mesma origem ancestral do Homo Erectus.
Se o que mais importa são as ideias, o desenvolvimento dos personagens fica num plano secundário, mas eles não são totalmente bidimensionais como poderia se imaginar, pois, afinal, Dick sabe como construir personagens interessantes, como o Jim Briskim, George Walt, Leo Turpin – o centenário dono da corporração Desenvolvimento Terrestre – responsável pelos programas de terraformação e com monopólio de transferência dos bibs à outra Terra –, o detetive particular Tito Cravelli, o pragmático assessor da campanha de Briskim, Sal Heim, e outros.
Fenda no Espaço talvez seja pouco lembrado mesmo entre os fãs de Dick por ter sido escrito no apogeu de sua carreira, quando entre os anos 1960 a meados dos 1970 publicou vários romances clássicos que faziam uma referência maior a outros temas mais desenvolvidos por ele, como os problemas relativos às religiões, drogas e o individualismo na sociedade contemporânea. Entre outros, O Homem do Castelo Alto (1962), Ubik (1969) e Identidade Perdida (1974).[1] Mesmo assim Fenda no Espaço é um livrinho poderoso em suas muitas sacadas que tiram o leitor do lugar comum, e mesmo quando algumas são inverossímeis têm o mérito de fazê-lo se posicionar.
Inédito no Brasil poderia ser considerado a publicação deste romance que tem como outro mérito um ar de não se levar muito a sério, como as muitas ideias e reviravoltas acontecendo a todo o momento, boas doses de humor e observações satíricas sobre a sociedade norte-americana – e ocidental, por extensão – e o arrojo de apresentar soluções pouco convencionais para as especulações propostas.

– Marcello Simão Branco




[1] Republicado pela editora Aleph em 2013 como Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Era dos Dinossauros (Age of Dinosaurs, EUA, 2013)


A produtora americana “The Asylum”, especializada em cinema fantástico bagaceiro, com o apoio do canal de TV a cabo “SyFy” na exibição, é a responsável por outra tranqueira colossal envolvendo dinossauros recriados por biotecnologia, que invadem a cidade de Los Angeles se alimentando de carne humana. “A Era dos Dinossauros” (Age of Dinosaurs) tem direção de Joseph J. Lawson, o mesmo cineasta de “Nazistas no Centro da Terra” (2012), e nome mais associado como técnico em efeitos visuais em dezenas de outras porcarias. O filme também tem a presença dos veteranos atores Ronny Cox, de “Robocop, o Policial do Futuro” (1987), e Treat Williams, de “Tentáculos” (1998).
“Geneti-Sharp” é uma empresa de biotecnologia que conseguiu sucesso com a pesquisa de regeneração de tecidos, ajudando muitas pessoas queimadas a recuperarem a pele. Seu presidente, Justin (Ronny Cox), decidiu então conquistar objetivos mais audaciosos e patrocinou um projeto científico liderado pelo inescrupuloso Doug (Jose Rosete) e o veterinário Dr. Craig Carson (Joshua Michael Allen), para trazer de volta à vida vários tipos de dinossauros, através de amostras do DNA. Porém, ocorre um acidente com o sistema de segurança no teatro onde os animais eram apresentados ao público, e todo o prédio transforma-se num ambiente de desespero, com as pessoas lutando por suas vidas para não serem alimento dos dinossauros. Em meio à confusão, um bombeiro em folga, Gabe Jacobs (Treat Williams), que só precisa de um machado para resolver os problemas, se perde de sua filha adolescente, Jade (Jillian Rose Reed), que parece um zumbi que não larga o telefone celular, enquanto o prédio é cercado pela polícia para tentar inutilmente impedir a invasão dos monstros pré-históricos pela cidade em busca do sangue e carne de suas vítimas.
Como sendo mais uma produção da picareta “The Asylum”, é plenamente possível sabermos com antecedência que “A Era dos Dinossauros” tem todos os elementos tradicionais de seus filmes ruins. O maior problema, como sempre, é o roteiro patético, e nesse caso tendo como foco um imenso clichê, ou seja, “alguém metido a herói que no meio do caos precisa encontrar e proteger um familiar do perigo mortal de uma ameaça monstruosa”. E essa história banal está acompanhada de efeitos especiais vagabundos, os eternos “CGI” que tornam tudo muito artificial, exagerado e inverossímil. E, claro, também não vai faltar o manjado desfecho previsível, dessa vez envolvendo o bombeiro herói, sua filha, um helicóptero e um pteranodonte, no meio do famoso letreiro gigante de “Hollywood”. 
Enquanto os dinossauros estão dentro do prédio da empresa de biotecnologia, percorrendo os andares e colecionando vítimas, até existe uma razoável atmosfera de claustrofobia, com as pessoas desesperadas lutando por suas vidas, que mesmo já vista em centenas de filmes similares, ainda funciona, auxiliada por cenas de mortes sangrentas. Mas, depois que os bichos carnívoros escapam para as ruas de Los Angeles, perseguindo carros, derrubando helicópteros, destruindo construções de concreto e comendo as pessoas, o filme se perde totalmente tornando-se exagerado e ridículo, características registradas da produtora “The Asylum”, não passando de apenas mais um produto descartável destinado ao esquecimento rápido.
(Juvenatrix – 01/02/16)