sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A cidade invisível, José Ronaldo Viega Alves

A cidade invisível, José Ronaldo Viega Alves. 58 páginas. Editora Opção2, Porto Alegre, 2006.

A cidade invisível é uma coletânea de crônicas inspiradas na história, nas paisagens e nos personagens da cidade de Sant´Ana do Livramento, onde Viega Alves reside desde o nascimento. Crônicas são peças raras na produção de ficção fantástica brasileira e é surpreendente a quantidade de boas ideias que o autor encontra em seus devaneios, muitas delas perfeitamente funcionais em qualquer outra cidade do Brasil ou do mundo. São 30 textos, todos entre 50 e 250 palavras, cada um discorrendo sobre um aspecto da cidade e do valor que imprimiu no imaginário do autor.
Algumas dessas crônicas também tratam do fascínio que Viega Alves nutre pelo cinema, seja pelos filmes como pelas salas exibidoras e as pessoas por detrás delas, tanto das películas quanto as que trabalham no cinema.
A edição artesanal é simples, mas revela muito carinho por parte do editor.
Um trabalho necessário num ambiente que, ao optar pela prosa mais convencional da pulp age, ignora formatos literários igualmente legítimos, como a poesia e a crônica que podem ser vistas aqui.
 Cesar Silva

Natureza móbile, José Ronaldo Viega Alves

Natureza móbile, José Ronaldo Viega Alves. 54 páginas. Ilustrações de José Ronaldo e Arthur Filho. Editora Opção 2, Porto Alegre, 2006.

Natureza móbile é uma coletânea poética de José Ronaldo Viega Alves, publicada em 2006 pela editora portoalegrense Opção 2, num acabamento artesanal simples e intimista.
Traz 28 poemas curtos, construções concretistas e haikais. Este formato já garante, por si, uma variação importante aos trabalhos de ficção fantástica publicados no Brasil, em que predomina a prosa. Mas não é apenas o aspecto formal que destaca Viega Alves, mas a sutileza que ele demonstra ao observar os detalhes do cotidiano à luz do maravilhamento próprio de quem aprendeu a se emocionar com as batalhas espaciais das histórias de ficção científica.
As poesias não são todas classificáveis como fantásticas, mas o conceito que as sustenta é muito identificado com aquele que se percebe nas histórias de fc&f. Como, por exemplo, neste pequeno poema chamado “Viajantes no tempo”: Quantos desses seres humanos / Com quem cruzamos / nas ruas diariamente / vivem no presente? Ou nesta frase, retirada de “O livro das 1001 perguntas”: Máquina do tempo enferruja?
Assim, de surpresa em surpresa, Viega Alves nos presenta em Natueza móbile sua visão de um mundo que mostra o maravilhoso no cotidiano.
O volume se une a outros títulos já publicados do autor, formando um mosaico multicolorido de impressões emocionantes de se contemplar.
Cesar Silva

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O 3o. Planeta, Levy Menezes

O 3º Planeta, Levy Menezes. 124 páginas. Prefácio de Antonio Olinto. Capa de Juarez Paraiso e ilustrações internas de Levy Menezes. Edições GRD – Coleção Ficção Científica GRD, n. 18, Rio de Janeiro, GB. Lançamento original em 1965.

O 3º. Planeta foi o antepenúltimo livro lançado pela clássica coleção do editor Gumercindo Rocha Dorea e o sexto e último de um autor exclusivamente brasileiro. O niteroiense Levy Menezes (1922-1991), um conhecido artista plástico e arquiteto, foi apresentado a Dorea por ninguém menos do que Antonio Olinto, escritor e, sobretudo, crítico literário de muito prestígio na época e que mais tarde seria imortalizado na Academia Brasileira de Letras. Se a indicação foi de peso, a responsabilidade sobre a obra também seria equivalente. Foi nutrindo esta expectativa que comecei a leitura desta coletânea de onze contos.
Se a maioria das coletâneas costuma trazer o título de uma das histórias para nomear o livro, o que se nota é que este não é o caso do livro de Menezes. A proposta não muito comum é que temos em mãos uma coletânea temática. Sim, porque os contos fazem referência a situações dramáticas do passado ou futuro da humanidade e do planeta Terra. Este diferencial torna a obra de saída interessante.
O livro ecoa os sentimentos e assuntos candentes dos anos 1960, na chave da ficção científica pura, isto é, com tons assumidamente legados da Golden Age, embora com uma reflexão crítica e humanista que podemos caracterizar como do autor e de uma tendência semelhante seguida por outros autores brasileiros que praticaram FC na época, como André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz e Rubens Teixeira Scavone, entre outros. A transformação da sociedade agrária exportadora em complexos urbano-industriais recebe uma visão desencantada, pouco entusiasmada e mesmo desconfiada, tanto quanto à eficácia dos avanços, como de sua extensão para a maior parte da sociedade.
Em alguns contos visitantes extraterrestres sondam a Terra e não são bem-sucedidos em seu contato com os terráqueos, que são ou caipiras do interior do Brasil, como no divertido “Ukk”, ou no passado muito distante, com homens que vivem em tribos e cavernas, mas que nutrem uma dureza crua que ameaça a sofisticação tecnológica de seres fisicamente frágeis do espaço, como na pungente narrativa de “Ugulú”. Estes dois contos, inclusive, estão entre os melhores do livro.
Por outro lado, Menezes assume um caráter crítico sobre a responsabilidade humana não só a respeito dos recursos naturais da Terra, como de outros mundos, como os casos de “Floralis” e “Pax Circense”, histórias de predação da vida nativa em respectivamente Vênus e Marte. Nesse aspecto, Menezes demonstra uma preocupação ambiental precoce dentro do panorama brasileiro da FC, já nos anos 1960. E com uma sensibilidade crítica aguda.
A conquista espacial estava na ordem do dia e não poderia faltar uma história sobre a chegada à Lua, como “Projeto ´Olho Lunar´”, em que uma equipe de cientistas instala um supertelescópio no satélite natural da Terra mas em sua primeira missão tem de desviá-lo para objetivos militares, dentro da lógica da Guerra Fria. Os cientistas rebelam-se e ganham apoio da opinião pública internacional, mudando mesmo o curso da disputa política. Narrado com vigor, talvez um exercício idealista, mas obviamente ingênuo e implausível.
Experiências científicas em seres humanos, como em “O Estranho Caso do Dr. Lebenthal” e no relacionamento entre homens e máquinas, mostrado na boa noveleta “Terra Prometida” dão um outro viés de reflexão sobre a condição humana em seu planeta natal. O primeiro, eivado de um humor que não se leva a sério, os humanos passam a ter uma cauda, com todas as consequências sociais e fisiológicas imagináveis. E em “Terra Prometida”, uma civilização de robôs ovóides terraformiza a Terra para torná-la totalmente metalizada, até que um grupo de androides se rebela e parte em busca de seus antepassados, chamados de “divinos”, os humanos que vivem em Marte depois da Terra ter se tornado inútil devido a um holocausto nuclear. Com mais desenvolvimento poderia render um bom romance.
Este volume contém ainda aquele que pode ser considerado o melhor conto de Levy Menezes, “O Último Artilheiro”. Também no contexto de fim de mundo, um solitário sobrevivente de uma praga radioativa acha um canhão poderoso junto a uma casa abandonada. Angustiado e só, ironicamente ele aprende a armar e atirar com o artefato, como se quisesse devolver ao mundo insano a violência dirigida contra ele e seus semelhantes que pereceram. Narrada em contagem regressiva e com sarcasmo e amargura, não há esperança para o sobrevivente e para a humanidade como um todo. Este conto foi selecionado por Roberto de Sousa Causo na sua celebrada antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (Devir, 2007), uma importante referência para o gênero no país.
Como em todo livro de contos há certa irregularidade na qualidade, mas no conjunto temos em mãos um livro que agrada e mantém alguma atualidade em temas que são atemporais, como o destino do planeta e da humanidade que o habita. Com relação à prosa, por vezes é meio truncada, endurecida quanto à construção de frases e com um encadeamento confuso de situações. Por outras vezes demonstra leveza e despojamento, principalmente quando insere humor e certo coloquialismo provincial, diria mesmo carioca.
Dentro do contexto dos anos 1960 e da “Geração GRD”, Levy Menezes tem uma voz própria e mereceria ser mais lido, conhecido e debatido. É certo que talvez seja prematuro analisar o autor por um único livro, mas ele demonstra ser um autor interessante, criativo quanto às ideias – o livro é bem diversificado a despeito de partir de uma premissa comum –, e criticamente especulativo com relação ao comportamento do homo sapiens, sempre girando em torno do conflito entre atitudes egoístas e dilemas morais.

– Marcello Simão Branco

The Man and the Monster / El Hombre y el Monstruo (México, 1959, PB)


Entre o final da década de 1950 e meados da seguinte, o cinema de horror gótico mundial recebeu a significativa e valiosa contribuição de muitos filmes mexicanos produzidos e estrelados por Abel Salazar (1917 / 1995), como “O Morcego” (The Vampire / El Vampiro, 1957), a sequência “O Ataúde do Vampiro” (The Vampire´s Coffin / El Ataúd del Vampiro, 1958), “Black Pit of Dr. M” (Misterios de Ultratumba, 1959), “The Brainiac” (El Barón del Terror, 1962), “The Living Head” (La Cabeza Viviente, 1963) e “A Maldição da Chorona” (The Curse of the Crying Woman / La Maldicion de la Llorona, 1963), entre outros.
Em “The Man and the Monster” (El Hombre y el Monstruo), uma produção em preto e branco dirigida por Rafael Baledón a partir de roteiro de Alfredo Salazar, temos a história sinistra de um pianista, Samuel Magno (Enrique Rambal), que vive na pequena cidade mexicana de San José. Ele fez um pacto com o diabo para se tornar o melhor músico do mundo, satisfazendo sua ambição paranoica e eliminando a frustração de ser considerado sempre inferior em relação à rival, a pianista Alejandra (Martha Roth). Porém, como pagamento da dívida eterna, sempre que ele toca ao piano uma determinada partitura sobrenatural, se transforma fisicamente num monstro deformado e assassino violento, voltando ao normal apenas com a intervenção da mãe severa e rude, Cornelia (Ofelia Guilmáin).
Transtornado pela maldição que carrega, o pianista frustrado enfrenta uma terrível luta interna para não ceder à tentação de tocar o instrumento, enquanto exerce a função de professor para outra jovem pianista, Laura (também interpretada por Martha Roth). Para complicar a situação, o jornalista Ricardo Souto (Abel Salazar) surge para fazer uma reportagem sobre a moça como promessa de sucesso, e descobre o mistério que envolve a ocorrência de assassinatos brutais e o segredo do pianista amaldiçoado, apesar das dificuldades em convencer a polícia local sobre a verdade, através do oficial encarregado das investigações (José Chávez).   
A caracterização do monstro é bem bagaceira, típica do cinema de baixo orçamento daquele período mágico do cinema fantástico. Mas, a diversão está garantida, entre outras coisas, justamente por esse trabalho tosco de maquiagem, onde o rosto e mãos deformados do pianista após a transformação lembram um lobisomem selvagem à procura de vítimas. Outros fatores que merecem destaque são a constante atmosfera de horror gótico num casarão sombrio e elementos do roteiro que nos remetem a uma mistura de “Fausto” com “O Médico e o Monstro”. Em “Faust” (1926), do alemão F. W. Murnau, temos a referência com oo acordo do músico com o diabo com consequências trágicas, e na clássica história “Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, de Robert Louis Stevenson, que teve várias versões para o cinema como as de 1932 e 1941, temos a transformação do protagonista em monstro sempre após tocar uma partitura específica amaldiçoada.
(Juvenatrix – 25/01/16)

sábado, 23 de janeiro de 2016

A Bolha Assassina (The Blob, EUA, 1988)


Nota do Autor: Esse texto foi publicado originalmente no fanzine “Megalon” # 3, em 1989, com o título “A Volta da Bolha”. E agora foi levemente revisado recebendo o nome “A Bolha Assassina”.

Em 1958, o cineasta Irwin S. Yeaworth dirigiu o filme “A Bolha”, um pequeno clássico de ficção científica e horror que acabou se tornando um “cult movie”. Esse antigo filme da “Paramount” foi produzido por Jack H. Harris e trazia no elenco Steve McQueen (em seu primeiro grande papel), Anneta Corseaut e Earl Rowe.
Trinta anos depois, Chuck Russell (que estreou na direção em 1987 com o filme “A Nightmare on Elm Street 3: The Dream Warriors” ou “A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros do Sonho”) resolveu fazer uma refilmagem da história original. Ele foi apoiado pelo mesmo produtor da primeira versão, Jack H. Harris (que possuía os direitos do filme) e para a satisfação dos apreciadores de Horror dos tempos mais modernos, temos essa nova versão bem mais violenta e sangrenta, sustentada por excelentes efeitos especiais.
A propósito, muitos cineastas já usaram essa fórmula em outras refilmagens de clássicos dos anos 50. Citando dois exemplos, temos a recente versão do filme “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, Fox, EUA, 1958), que trazia no elenco David Hedison, o grande Vincent Price e Patricia Owens. Esse filme de Kurt Neumann mostrava as experiências de um cientista com a desintegração da matéria. O eficiente David Cronenberg (de “Scanners” e “Videodrome”) refilmou esse clássico em 1986, com Jeff Goldblum e Geena Davis, utilizando poderosos efeitos especiais, que tornaram o filme bem mais “podre” e assustador. Outro exemplo é o clássico “O Monstro do Ártico” (The Thing, RKO, EUA, 1951), dirigido por Christian Nyby e estrelado por Robert Cornthwaite, Kenneth Tobey e Margaret Sheridan. Um monstro alienígena que é encontrado congelado no Ártico, desperta e ataca uma expedição de pesquisadores. Em 1982, John Carpenter (de “Halloween” e “Starman”) dirigiu uma nova versão com Kurt Russell e T. K. Carter, utilizando também mais violência e efeitos especiais de primeira qualidade.
Voltando à refilmagem de “A Bolha”, que recebeu agora o nome de “ A Bolha Assassina”, podemos dizer que é um dos bons e significativos filmes produzidos nos anos 80, com uma considerável dose de cenas de violência e sustos. Com um orçamento de US$ 19 milhões (mais da metade gasto só com os efeitos especiais), o filme não foi bem recebido pela crítica brasileira, porém fez grande sucesso entre o público. O competente diretor Chuck Russell (que iniciou sua carreira produzindo o filme “Back to School” e co-escrevendo a ótima FC “Dreamscape”), contou com a ajuda de Lyle Conway na criação dos efeitos da bolha e de Tony Gardner no comando dos outros efeitos especiais.
Na pequena cidade fictícia de Arborville, a pacata população é atacada por um monstro gelatinoso vindo do espaço através de um meteorito. Inicialmente de pequeno porte, a bolha aumentava seu volume progressivamente ao dissolver e engolir as pessoas que entravam em seu caminho.
A nova bolha está bem mais dinâmica que a sua antecessora original, pois podia criar tentáculos quando quisesse, ajudando muito seus ataques mortíferos. Mais tarde descobriu-se que a gosma viva era fruto de uma fracassada experiência para a guerra bacteriológica e os cientistas responsáveis isolaram a cidade para tentar capturar a criatura com vida. Enquanto muitas mortes violentas ocorrem, um casal, Kevin Dillon (de “Platoon”) e Shawnee Smith, tentavam praticamente sozinhos salvar a cidade.
Entre os destaques, temos as cenas em que um funcionário de uma lanchonete entra literalmente por um cano e para o final interessante com o fanático reverendo Meeker (Del Close, que aliás é o único ator que já participou de outro filme da bolha, a fraca sequência “Son of Blob”, de Larry Hagman, filmada em 1972 e mais voltada para o humor).
Enfim, “A Bolha Assassina” é uma refilmagem interessante, apresentando um roteiro com muita violência explícita, sangue em profusão e cenas assustadoras, mas ainda assim não chega a superar o “charme” do clássico original, que foi produzido com baixo orçamento e é um dos mais lembrados exemplos do cinema fantástico da década de 50 do século passado. (Juvenatrix - 1989)
  
A Bolha Assassina (The Blob, Estados Unidos, 1988). Tri-Star Pictures. Duração: 92 minutos. Direção de Chuck Russell. Roteiro de Chuck Russell e Frank Darabont. Fotografia de Mark Irwin. Música de Michael Hoenig. Edição de Terry Stokes e Tod Feuerman. Efeitos Especiais de Tony Gardner. Efeitos da Criatura de Lyle Conway. Efeitos Visuais de “Dream Quest Images” (supervisão de Hoyt Yeatman). Produção Executiva de Andre Blay. Linha de Produção de Rupert Harvey. Produção de Jack H. Harris e Elliott Kastner. Elenco: Kevin Dillon (Brian Flagg), Shawnee Smith (Meg Penny), Donovan Leitch (Paul Taylor), Joe Seneca (Dr. Meddows), Paul McCrane (Bill Briggs), Del Close (Reverend Meeker), Jeffrey De Munn, Candy Clark, Sharon Spelman, Beau Billingslea, Rick Goldin, Art La Fleur.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A mão que cria, Octávio Aragão

A mão que cria, Octávio Aragão. 160 páginas. Editora Mercuryo, coleção Unicórnio Azul, São Paulo, 2006.

A mão que cria é o romance de estreia do escritor carioca Octávio Aragão, até então conhecido no ambiente restrito do fandom brasileiro por fundar e dirigir o projeto multimídia Intempol, um universo compartilhado por vários autores. Antes de A mão que cria, Aragão publicou cerca de meia dúzia de contos, de bons a muito bons, em fanzines e antologias. Quem acompanhou sua trajetória, recebeu o romance com uma expectativa positiva. Finalmente, uma editora de porte apresentava um livro inédito assumidamente de fc&f de autor brasileiro. Isso porque a editora Mercuryo, que já teve em seu catálogo best-sellers como a série Operação cavalo de Troia, de J. J. Benitez, já havia flertado com a literatura fantástica quando publicou coleções extensas de novelizações de X- Files e Star trek, além da breve coleção de banca Conan: Espada e magia, com contos de Robert E. Howard, L. Sprague de Camp e Lyn Carter.
A mão que cria é arrojado na temática – não muito habitual na literatura brasileira – conhecida como ficção alternativa. Esse tipo de história constrói seus enredos utilizando personagens de outros autores, geralmente muito conhecidos e, preferencialmente, em domínio público. Muitos escritores importantes da fc&f internacional já usaram esse expediente, entre os quais o americano Philip José Farmer em The other log of Phileas Fogg, no qual reconta A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne, e o britânico Brian Aldiss em Frankenstein unbound, uma espécie de continuação delirante ao clássico de Mary Shelley.
O prefácio, assinado por Gerson Lodi-Ribeiro, conta rapidamente a história da ficção alternativa e sugere que este romance de Aragão seria o precursor do gênero no país. Passou perto. Alguns anos antes, mais exatamente em 1995, José J. Veiga e Jô Soares apropriaram-se do Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle em seus respectivos romances O relógio Belisário e O xangô de Baker Street. Contudo, A mão que cria não tem a mesma proposta daqueles autores. Enquanto Veiga e Soares tinham em mente a produção de uma obra original, com um toque sutil de ficção alternativa, Aragão mergulhou completamente na apropriação de personagens alheios: praticamente não há um único personagem original em toda a trama.
Em A mão que cria, o panorama mundial, especialmente o europeu, foi alterado para abrigar diversos personagens reais e literários emprestados de Júlio Verne e H. G. Wells. O próprio escritor francês torna-se ainda mais importante na medida em que, nos primórdios do século XX, é eleito presidente da França. Usando sua influência, Verne recruta todos os cientistas malucos que seu país pode pagar e lá instala o centro do mundo. O exercício de reconstrução histórica é minucioso e exaustivo, sendo o grande mérito do autor no trabalho.
Nesse ambiente, enfrentam-se dois antagonistas. Um deles, chamado Ariano, é uma versão livre do Caveira Vermelha, vilão das histórias em quadrinhos do Capitão América. Tão livre, aliás, que por muito tempo tive a impressão de que se tratava do monstro de Frankenstein. O outro é Lours, uma espécie de humano híbrido com golfinho, também inspirado em uma personagem das histórias em quadrinhos, possivelmente Aquaman ou Namor.
Gigantes entre os homens, Ariano e Lours competem pela liderança do mundo, apoiados por novas espécies inteligentes sobre a Terra: Ariano encontrou no meteoro caído em Tunguska em 1908, o elemento que precisava para criar sua própria raça de seguidores, os desmortos (inspirados nos zumbis do filme A noite dos mortos-vivos de George Romero), enquanto Lours comanda toda uma população de híbridos alterados geneticamente, como ele mesmo, a partir dos estudos de um certo Dr. Moreau (emprestado de A ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells).
O conflito entre Ariano e Lours inicia-se a partir de um triângulo amoroso apenas sugerido na trama, desdobra-se ao longo do século 20, atravessando duas guerras mundiais (ligeiramente diferentes por conta da presença das tecnologias imaginárias) e culminando num confronto definitivo nos dias atuais. O romance é tão repleto de citações e homenagens que o autor decidiu inserir um apêndice relacionando boa parte delas.
O foco varia continuamente, sem fixar uma personagem condutora. As duas personagens principais cumprem apenas o papel de antagonistas uma da outra. Inumanas e sem qualidades morais, o leitor não consegue identificar-se com qualquer delas. Algumas personagens coadjuvantes demonstram empatia, mas surgem apenas para serem destroçadas poucas páginas adiante.
A narrativa usa períodos entrelaçados e sobrepostos, saltando do passado para o presente, depois para um passado ainda mais distante, para em seguida voltar tudo de novo, embaralhando a percepção do leitor, e parece ter confundindo também a da editora, que comprometeu o resultado final com gralhas de diagramação, revisão e continuidade.
Ainda que não seja de fato um romance longo, seu final parece chegar rápido demais e sem um grande clímax. O autor até reservou uma boa cena para ele, mas a sequência ininterrupta de ação intensa ao longo de todo o romance nivelou a narrativa num patamar tão elevado que não deixou margem para tal.*
Octavio Aragão é um contista talentoso e demonstrou isso mais de uma vez, porém, neste trabalho, uma narrativa convencional enfatizaria melhor o estranhamento e o vigor narrativo que A mão que cria inegavelmente tem. Até porque o romance, ainda que ágil e empolgante, já exige do leitor uma boa dose de cultura pop internacional e de conhecimento das raízes da literatura de fc&f, sem o que não percebe as inúmeras citações e homenagens que o autor plantou.
Contudo, penso que entendi a ideia geral: que é muito bom que o nosso mundo não tenha seguido o caminho que Octávio Aragão imaginou.
Cesar Silva

*Aragão tem anunciado nas redes sociais que está finalizando uma sequência para A mão que cria, cujo título seria A mão que pune, ainda sem previsão de publicação.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Tropas Estelares (Starship Troopers, EUA, 1997)


Escrito em Fevereiro de 2004 e publicado originalmente na edição 83 do fanzine “Juvenatrix”. 
Revisado em 27/01/2006 e 19/01/2016 

“No futuro ainda existirão guerras em nome da honra, da glória e da sobrevivência. Só o inimigo mudará.”

O diretor holandês Paul Verhoeven, conhecido por ótimos trabalhos no cinema fantástico como “Robocop, o Policial do Futuro”, com Peter Weller, “O Vingador do Futuro”, com Arnold Schwarzenegger, e “O Homem Sem Sombra”, com Kevin Bacon, também é o cineasta responsável por um dos mais divertidos filmes de Ficção Científica com elementos de Horror desde o clássico “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott. 
Trata-se de “Tropas Estelares” (Starship Troopers, 1997), baseado em livro homônimo de Robert A. Heinlein escrito em 1959, e que pode ser considerado um dos ápices da filmografia de FC com o Horror em seu estado mais puro, associado à violência insana da guerra. Pois não faltam cenas impressionantes de batalhas entre homens e insetos alienígenas, com direito a um enorme volume de sangue jorrado em profusão, com uma infinidade de corpos mutilados, desmembrados, dilacerados e destroçados de uma forma extremamente selvagem, evidenciando a fragilidade dos corpos dos seres humanos, entre carne, sangue, músculos e ossos.    

A história é ambientada num futuro onde a humanidade está em guerra com uma raça alienígena de insetos e as pessoas são classificadas entre civis e cidadãos, não existindo mais a democracia que fracassou através dos cientistas sociais que levaram o caos ao planeta, passando o comando aos militares, chamados de veteranos. Os cidadãos são aqueles que se alistam no exército aceitando a responsabilidade pelo corpo político e defendendo-o com suas próprias vidas. Na televisão são exibidas aquelas mensagens de convocação da população para o alistamento militar, verdadeiros comerciais para o recrutamento de soldados, tipicamente inspirados nas propagandas políticas fascistas, explicando ao civil porque ele deve se unir às Tropas da Federação. A televisão também é um meio de propagação da violência, onde execuções de criminosos na cadeira elétrica são transmitidas ao vivo. 
Enquanto isso, os insetos alienígenas são uma espécie de aracnídeos que evoluíram em milhões de anos chegando a colonizar planetas, com a vantagem de não demonstrarem medo, enfrentando a morte com frieza, e sendo liderados por um cérebro inteligente. Eles possuem uma estrutura hierárquica militar similar aos exércitos humanos e são muito mais fortes fisicamente e extremamente violentos, não fazendo prisioneiros e sendo abatidos apenas quando seus sistemas nervosos são atingidos. Os insetos são oriundos de outra galáxia, do planeta Klendathu, que orbita um sistema estelar duplo cujas forças gravitacionais produzem uma infinidade de meteoros na forma de um cinturão de asteroides. Eles utilizam esses meteoros para atacar a Terra, causando uma guerra definitiva entre as espécies para a sobrevivência apenas de uma das raças.
Dentro desse contexto conturbado, a ação volta-se para o chamado “paraíso latino”, numa escola em Buenos Aires onde estudam o jovem filho de uma família rica, Johnny Rico (Casper Van Dien), sua namorada filha de um militar, a bela Carmen Ibanez (Denise Richards), que pretende ser piloto da frota, e dois amigos em comum do casal, o sensitivo e inteligente Carl Jenkins (Neil Patrick Harris), e a bela Dizzy Flores (Dina Meyer), apaixonada por Johnny e que pretende se alistar na infantaria. Para impressionar a namorada, e contra a vontade de seus pais, Johnny se alista na Infantaria junto com Dizzy, enquanto Carl é recrutado para servir na Inteligência Militar e Carmen vai para a Aeronáutica seguir carreira.   
Os treinamentos têm início. Enquanto Johnny e Dizzy conhecem na Infantaria outros soldados como Ace Levy (Jake Busey), sendo coordenados pelo severo Sargento Zim (Clancy Brown), Carmen encontra na frota um antigo colega de escola e agora instrutor, Zander Barcalow (Patrick Muldoon), além de conhecer a Capitã Deladier (Brenda Strong), onde juntos fazem parte da tripulação da enorme nave estelar “Rodger Young”.
Durante o período de treinamentos, um ataque catastrófico dos insetos alienígenas ao enviarem um asteroide para aniquilar Buenos Aires, é o impulso definitivo para decretar a guerra. Um planejamento estratégico organizado pelo governo militar é então preparado e os humanos realizam uma forte investida contra o planeta dos insetos. Porém, uma vez subestimando a capacidade de defesa dos inimigos aracnídeos, os pelotões de infantaria são terrivelmente massacrados com mais de 300.000 soldados mortos em poucas horas de combate, além de outras perdas significativas da frota com ataques de plasma enviados da superfície do planeta pelos insetos tanque.
Após reorganizar seus exércitos com uma nova estratégia de combate, a humanidade parte para uma nova ofensiva contra os insetos, na tentativa de capturar o líder e cérebro dos inimigos. Através de um bombardeio aéreo seguido de um ataque por terra com a infantaria, liderada pelo Tenente Jean Rasczak (Michael Ironside), numa série de confrontos determinantes para a sobrevivência de apenas uma espécie.

“Pensar por si próprio é a única liberdade que temos.” – Jean Rasczak, professor e Tenente da infantaria 

“Tropas Estelares” apresenta a união de uma temática de ficção científica com fortes elementos de horror e guerra, num conjunto determinante para uma história bastante intensa de ação e violência de um campo de batalha. Com a vantagem dos eventos ocorrerem num universo fictício num confronto dos humanos contra insetos alienígenas, não deixando de lado uma oportuna crítica à “irracionalidade” conhecida da humanidade em idolatrar as armas e a guerra, preferindo resolver seus conflitos sempre com a violência e enaltecendo os vários modelos políticos militares baseados em repressão.
Olhando apenas pelo lado da diversão, objetivo maior do cinema, “Tropas Estelares” garante duas horas do mais puro entretenimento, principalmente pelas cenas de batalha e os corpos dos soldados sendo destroçados pelos insetos. O filme pode ser dividido em duas partes, sendo a primeira bem inferior, voltada para a apresentação dos personagens, na maioria formados por jovens preocupados também com amores adolescentes. Aqui temos os pontos negativos do filme, com o roteiro abusando do uso daqueles clichês descartáveis, enfatizando demais os relacionamentos amorosos de um grupo de jovens divididos entre a escola e o alistamento militar. Nessa primeira metade do filme ocorre também a introdução de alguns elementos importantes da história como a existência dos insetos alienígenas ameaçadores para a sobrevivência da Terra e a consequente guerra com a humanidade. A segunda parte, a partir da metade, é bem melhor ao evidenciar a brutalidade insana da guerra, com as realistas cenas de batalhas aéreas e na superfície, com os brutais massacres tanto de insetos (espalhando seu sangue verde) quanto principalmente de homens (manchando a tela de vermelho), tendo suas carnes frágeis sendo rasgadas por enormes garras afiadas. Nesse momento, “Tropas Estelares” atinge um ritmo frenético de violência digno de se manter na eterna lembrança dos apreciadores do cinema fantástico. 
Duas cenas em especial merecem registro pela intensidade de ação e impecável produção. A primeira é quando o soldado Johnny Rico consegue a proeza de explodir um enorme inseto tanque, ao conseguir depositar em seu interior uma bomba. A outra cena é a eletrizante e incrível carnificina ocorrida no Forte Whiskey, uma estrutura de defesa construída pelos humanos em solo alienígena. Um pequeno grupo de soldados é encurralado numa emboscada por um imenso exército de insetos, que promovem um massacre devastador, numa sequência que rivaliza com a fantástica batalha no “Abismo de Helm” em “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” (2002), que mostra uma imensidão de flechas voando pelos ares e escadas cheias de orcs tentando invadir as estruturas de pedra de uma fortaleza guardada por humanos e elfos. E também com a cena de abertura de “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), que mostra a invasão dos aliados na França, na costa da Normandia durante a Segunda Guerra Mundial, sendo recebidos à bala pelos alemães num massacre perturbador. Essas são três das mais intensas sequências de guerra produzidas pelo cinema, independente de ser ou não uma história de fantasia com personagens fictícios, ou a reprodução de um fato real e sangrento da história da humanidade, com destruidoras armas de fogo matando homens. Analisando exclusivamente como cinema de guerra, esses exemplos caracterizam o que mais próximo seria o horror de um campo de batalha. O inferno existe e é a guerra.
É curioso notar que “Tropas Estelares” também não deixa de explorar a rivalidade existente entre a infantaria e a frota, onde os primeiros são treinados exclusivamente para matar os inimigos ou morrer tentando, e já os pilotos são considerados como uma elite superior pela responsabilidade em conduzir as aeronaves. Uma frase indignada de Johnny Rico reforça bem essa ideia: “A infantaria morre enquanto a frota voa.”          

Com um orçamento em torno de US$ 100 milhões, o filme recebeu uma merecida indicação ao cobiçado prêmio “Oscar” pelos excelentes efeitos especiais, os quais levaram cerca de um ano para serem finalizados, entre a construção das belíssimas naves espaciais (sob a responsabilidade de Scott E. Anderson), e a criação do exército dos insetos alienígenas, dividido entre a infantaria (soldados), tanques (insetos de mais de 30 metros de comprimento), e a aeronáutica (insetos voadores), num precioso trabalho supervisionado por Phil Tippett. Os trabalhos com os efeitos visuais foram obtidos numa combinação de esforços entre as empresas “Sony Image Works”, “Industrial Light and Magic” e “Boss Film”.  
“Tropas Estelares” foi lançado em DVD no Brasil pela “Buena Vista Home Entertainment”, num disco repleto de interessante material extra em aproximadamente 30 minutos, e quase tudo legendado em português. Além de poder conferir o filme, temos acesso a vários bônus como um trailer; testes de duas cenas com os personagens Johnny Rico e Carmen Ibanez; uma apresentação com informações de bastidores da produção; um documentário com a elaboração de algumas cenas com comentários do diretor Paul Verhoeven, como a destruição de uma nave enorme num ataque dos insetos, a sequência onde Rico explode um inseto tanque, e a cena onde um soldado é perseguido e morto violentamente por um inseto; além de cinco cenas excluídas da edição final do filme. Como material extra ainda temos a exibição do filme com comentários em áudio do diretor, porém em inglês sem legendas.   

“O único inseto bom é um inseto morto.”

O diretor Paul Verhoeven nasceu em 1938, e em sua carreira destacam-se outros filmes interessantes como “Conquista Sangrenta” (1985), “Robocop” (1987), “O Vingador do Futuro” (1990), “Instinto Selvagem” (1992) e “O Homem Sem Sombra” (2000). Ele também dirigiu em 1995 “Showgirls”, muito criticado e considerado o seu pior trabalho.
O roteiro de “Tropas Estelares” é de Ed Neumeier, que também foi o autor da história de “Robocop”, inspirando uma franquia com mais três filmes e duas séries de TV. Ele utilizou como base para o filme o livro homônimo do escritor americano Robert A. Heinlein (1907 / 1988), um dos mais cultuados autores de Ficção Científica da história do gênero, figurando num grupo seleto formado ainda por Isaac Asimov e Arthur Clarke, entre outros nomes consagrados. Entre outros trabalhos importantes no cinema, Heinlein escreveu o roteiro do clássico de FC “Destino: Lua” (Destination Moon, 1950), baseado em sua própria novela chamada “Rocketship Galileo”.
O elenco é formado basicamente por jovens pouco conhecidos na época como Casper Van Dien, Denise Richards, Dina Meyer e Jake Busey, sendo liderados pela experiência de Michael Ironside, ator canadense nascido em 1950 e dono de um currículo com mais de 230 filmes, entre eles, “Scanners – Sua Mente Pode Destruir” (1981), de David Cronenberg, “Baile de Formatura 2” (1987), “O Vingador do Futuro”, “Highlander 2” (1991), e “Colheita Maldita 7” (2001), além da série televisiva “V – A Batalha Final” (1984).
Casper Van Dien é americano nascido na Florida em 1968, tendo uma filmografia com mais de 100 participações, e entre elas, no divertido filme “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (1999), de Tim Burton. Denise Richards nasceu em 1971 no Estado americano de Illinois, e entre seus filmes estão “Garotas Selvagens” (1998), “007 – O Mundo Não é o Bastante” (1999) e o descartável thriller de horror adolescente “O Dia do Terror” (Valentine, 2001). Já Dina Meyer nasceu em 1968 em New York e entre seus filmes estão “Johnny Mnemonic” (1995), “Coração de Dragão” (1996), “D-Tox” e “Star Trek: Nêmesis” (ambos de 2002). E Jake Busey nasceu na California em 1971, sendo filho do veterano ator Gary Busey. Entre seus filmes podemos citar a comédia de horror “Os Espíritos” (1996), de Peter Jackson, a FC “Contato” (1997), e o excepcional thriller “Identidade” (2003). 

“Em todas as épocas os motivos para se lutar sempre foram do próprio Homem, mas no futuro a maior ameaça para a nossa sobrevivência não será o Homem. Agora a juventude do amanhã precisa viajar através das estrelas para encarar um inimigo muito mais devastador do que todos que já foram imaginados.”   

O início de uma franquia

O sucesso de “Tropas Estelares” acabou impulsionando uma franquia com várias produções. Tivemos uma série de animação produzida para a televisão em 1999 (“Roughnecks: The Starship Troopers Chronicles”) e o filme de animação “Tropas Estelares: Invasão” (2012). Além também do lançamento de duas continuações: “Tropas Estelares 2” (Starship Troopers 2: Hero of the Federation, 2004) e “Tropas Estelares 3” (Starship Troopers 3: Marauder, 2008).


“Tropas Estelares 2”
“Como consequência ao cruel ataque aracnídeo à Buenos Aires, forças federais aniquilaram o inimigo em Tango Urilla e capturaram um inseto inteligente no planeta P. Agora, armados com vitória, os heróicos homens e mulheres da infantaria móvel entram na zona de quarentena aracnídea e travam a luta contra o inseto.”
“Tropas Estelares 2” teve direção de Phil Tippett (um dos produtores e supervisor dos efeitos visuais dos insetos no filme original), e novamente roteiro de Edward Neumeier. O elenco foi formado por jovens desconhecidos como Richard Burgi, Colleen Porch, Bill Brown, Ed Quinn e Drew Powell, entre vários outros, exceto pelo veterano Ed Lauter, que interpretou um General. Curiosamente, a atriz Brenda Strong, que fez a Capitã Deladier no original, e que morreu na queda de sua nave num ataque dos insetos, voltou na continuação interpretando outro personagem, a Sargento Dede Rake.
A história do novo filme é ambientada cinco anos após os eventos do primeiro e acrescenta algumas novidades ao já conhecido universo ficcional dos insetos alienígenas, que agora são capazes de introduzir pequenas criaturas dentro dos corpos dos humanos, transformando-os em hospedeiros sob seu controle, com um plano de disseminar a praga no alto escalão militar da Federação. Eles ainda não foram dominados totalmente na guerra com a humanidade e as ações se passam dessa vez num remoto planeta, com mais algumas cenas de batalhas sangrentas.
Um pelotão da infantaria móvel é encurralado pelos insetos e se refugia num posto avançado que estava abandonado após uma batalha. Lá, eles se organizam para a defesa sob a liderança do General Jack Gordon Shepherd (Ed Lauter), enquanto aguardam um possível resgate aéreo. Entre os combatentes sobreviventes temos uma sensitiva, a soldado Lei Sahara (Colleen Porch), que tem visões pessimistas envolvendo os aracnídeos alienígenas. Por sorte, eles encontram no local, preso numa fornalha, o Capitão V. J. Dax (Richard Burgi), que fará o papel do héroi do subtítulo original, na tentativa de deter um plano de contra ataque dos insetos inimigos.
Infinitamente inferior, essa sequência foi produzida com bem menos recursos e sem a participação dos atores do filme original, resultando em menos cenas de batalhas, apesar de ainda ter boas doses de violência com mortes sangrentas. Porém, a história concentra-se quase que na totalidade num ambiente claustrofóbico de um posto avançado cercado pelos insetos, os quais dessa vez possuem um plano inteligente de contra ataque. Até diverte um pouco se considerarmos como apenas mais um filme comum envolvendo elementos de guerra, horror e ficção científica. Mas, certamente se sustenta exclusivamente por trazer a marca “Tropas Estelares” no título, pois caso contrário estaria relegado ao limbo. Analisando como continuação, não tem como evitar um sentimento de decepção.      


“Tropas Estelares 3”
 “It´s a good day to die. When you know the reasons why. Citizen we fight for what is right.”
Em 2008 tivemos outra sequência, “Tropas Estelares 3”, numa co-produção entre EUA, Alemanha e África do Sul, que dessa vez além da autoria do roteiro, teve também a direção de Edward Neumeier, estreando no ofício. Além do retorno do ator Casper Van Dien do filme original, que depois de ser considerado um herói pela batalha vitoriosa no planeta P, trazendo como recompensa a captura de um cérebro inteligente dos insetos, subiu na hierarquia militar e transformou-se no agora Coronel Johnny Rico.
Ele comanda uma instalação militar na colônia de Roku San e recebe a visita do Delegado Espacial Omar Anoke (Stephen Hogan), que além de político influente na Federação, tem também muita popularidade como cantor de músicas que incitam o alistamento para a guerra contra os aracnídeos do espaço, como exemplificado na transcrição de um trecho no início do parágrafo. Ele está acompanhado do General Dix Hauser (Boris Kodjoe), antigo companheiro de Rico, e da Capitã Lola Beck (Jolene Blalock), que também conheceu Rico após os eventos do primeiro filme.
Depois de um violento confronto com os insetos na colônia de Roku San, onde os humanos foram aniquilados por causa de uma falha na cerca elétrica que os protegia na instalação militar, ocasionando uma invasão em massa dos inimigos, Rico foi injustamente considerado culpado pela derrota e encaminhado para uma prisão. Porém, uma vez resgatado da forca pelo General Hauser, ele é convocado para liderar uma equipe especial de pilhagem (o “Marauder” do subtítulo original), numa missão secreta de resgate no planeta OM-1, dominado pelos insetos, e cujos resultados de extrema importância política poderiam mudar os rumos da guerra, envolvendo a tirania da Almirante Enolo Phid (Amanda Donohoe) e questões  de manipulação religiosa.  
Com uma produção bem melhor e história mais desenvolvida, essa parte 3 da franquia representa aquilo que a parte 2 falhou. Ou seja, um filme com a participação de algum personagem importante do original (o agora Coronel Rico), apresentando mais relações com o primeiro filme (tem até a participação do cérebro alienígena capturado), e mais cenas de batalhas sangrentas com naves cruzando o espaço. É verdade que tem várias questões que também incomodaram como o exagero nas propagandas políticas militares, as trapalhadas do jovem General Hauser como soldado, nitidamente mais à vontade como político, a cansativa discussão religiosa no meio do caos da guerra, novamente com objetivos puramente políticos e manipuladores, e a cena final carregada de pieguice. Mas, apesar disso, ainda é um filme que conseguiu contribuir e agregar valores para o universo ficcional de “Tropas Estelares”, algo que a parte 2 não conseguiu, sendo apenas mais um filme comum e cheio de clichês. 
“Eu gosto de insetos fritos pela manhã.” – frase da Tenente Link Manion (Cécile Brecia), antes do massacre em Roku San.


“Tropas Estelares: Invasão”
“Um brinde aos mortos e aos que ainda morrerão.”
Numa co-produção de 2012 entre Estados Unidos e Japão, essa animação dirigida pelo japonês Shinji Aramaki apresenta os três personagens principais do filme original, Johnny Rico, Carmen Ibanez e Carl Jenkins, que se formaram juntos na academia e tiveram destinos diferentes na guerra, construindo cada um ao seu modo carreiras militares de destaque. Enquanto Rico foi para a infantaria e após muitas batalhas e sangue derramado tornou-se General, a bela Ibanez tornou-se piloto da frota e capitã da nave John A. Warden, e o sensitivo Jenkins juntou-se à elite da Federação como Ministro de Guerra Paranormal.
Com ambientação quase que totalmente em naves espaciais, o roteiro dessa animação mostra inicialmente uma missão de resgate da nave Alesia ao Fort Casey, localizado num asteroide, que foi brutalmente atacado pelos insetos. Chegando lá, eles encontram um cenário de destruição e o comandante local Major Henry Varro, também conhecido como “Hero”, está preso por insubordinação, num envolvimento conturbado com um segredo misterioso. O motivo é um projeto clandestino liderado por Carl Jenkins, que se apossou da nave da capitã Ibanez para uma missão secreta. Porém, depois que a comunicação com a nave é perdida, descobriu-se que estava sendo controlada por uma poderosa rainha dos insetos, com rota para a Terra. Formou-se então outra missão de resgate para averiguar o mistério, dessa vez contando também com o apoio do General Rico para impedir um ataque ao nosso planeta.
Não faltam tiroteios e batalhas sangrentas com os insetos, principalmente no interior de naves estelares. A história é bem movimentada, com grandes doses de violência e todos os elementos característicos de guerras espaciais que fizeram “Tropas Estelares” conquistar uma imensa legião de fãs, com soldados truculentos e determinados, homens e mulheres concentrados na luta pela sobrevivência num conflito sangrento contra insetos alienígenas invasores, exaltando a disciplina militar como modelo político. “Tropas Estelares: Invasão” é uma animação que diverte bastante e consegue honrar o filme original.
Curiosamente, vale a pena conferir uma cena rápida após os créditos finais envolvendo um inseto solitário caminhando num túnel de esgoto. (RR)

Tropas Estelares (Starship Troopers, Estados Unidos, 1997). Touchstone / Tristar. Duração: 119 minutos. Direção de Paul Verhoeven. Roteiro de Ed Neumeier, baseado em livro homônimo de Robert A. Heinlein. Produção de Alan Marshall, Jon Davison, Frances Doel, Stacy Lumbrezer, Ed Neumeier e Phil Tippet. Música de Basil Poledouris. Fotografia de Jost Vacano. Edição de Mark Goldblatt e Caroline Ross. Desenho de Produção de Allan Cameron. Elenco: Casper Van Dien (Johnny Rico), Dina Meyer (Dizzy Flores), Denise Richards (Carmen Ibanez), Jake Busey (Ace Levy), Neil Patrick Harris (Carl Jenkins), Patrick Muldoon (Zander Barcalow), Michael Ironside (Tenente Jean Rasczak), Clancy Brown (Sargento Zim), Seth Gillian (Sugar Watkins), Rue McClanahan (Professora de Biologia), Marshall Bell (General Owen), Anthony Ruivivar (Shujumi), Dale Dye (General), Eric Bruskotter (Breckinridge), Matt Levin (Kitten Smith), Blake Lindsley (Katrina McIntire), Brenda Strong (Capitã Deladier), Dean Norris (Major), Christopher Curry (Bill Rico), Lenore Kasdorf (Sra. Rico), Tami-Adrian George, Steven Ford, Ungela Brockman.

(Juvenatrix - 27/01/2006 / 19/01/2016)