terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A face oculta da galáxia, Miguel Carqueija

A face oculta da galáxia, Miguel Carqueija. Prefácio de Braulio Tavares, 88 páginas. Editora Casa da Cultura, Taubaté, 2006.

Vésper é uma agente secreta aposentada. Depois de uma missão especialmente traumática, na qual seu marido morreu, ela decidiu que era hora de parar. Muitos anos depois, com os filhos já crescidos, Vésper é procurada pela Cosmopol, a polícia interplanetária, que a quer num caso muito delicado: Teplê K Vichits, o terrorista interestelar, capturou um artefato alienígena que tem que ser devolvido ao seu lugar de origem, caso contrário o universo pode ser destruído. Como passa por dificuldades financeiras, Vésper aceita o encargo e, assim, é apresentada a seus companheiros de missão: Rotterdam, Tenessee e a assassina profissional Valentina, recrutada especialmente para matar Vichtis.
Os quatro agentes, liderados por Beng, o delegado da Cosmopol encarregado de comandar a operação, embarcam disfarçados numa espaçonave de cruzeiro em direção ao distante planeta Sombrio, onde Vichtis escondeu o artefato. Logo de saída, Vésper se vê assediada por Valentina, que deixa claro que tem um interesse especial por ela. Mas Vésper a rejeita e isso tensiona a relação entre ambas.
A tranqüilidade da viagem, bem como as identidades falsas da equipe, não resistem por muito tempo. Poucas horas após a decolagem, os agentes da Cosmopol são atacados por espiões inimigos. Eles abandonam a nave em botes salvavidas e são resgatados por uma outra nave, que os acompanhava em segredo a pedido da Cosmopol. O comandante dessa nave é Gaspar, cientista desafeto de Beng, que viaja para Sombrio sob disfarce, levando uma equipe de pesquisas e sua neta Licia, uma garota esperta e atrevida que se identifica com Vésper na mesma medida que antipatiza com Valentina.
Quando a nave chega à embaixada terrestre em Sombrio, os agentes assumem novos disfarces e dirigem-se ao local onde o artefato está escondido, mas não contavam que Licia os acompanhasse clandestinamente. A presença da garota causa muitas dificuldades ao grupo, novamente atacado por organizações inimigas e que ainda tem que se defender das forças regulares de Sombrio.
Esta novela de Miguel Carqueija apresenta as principais características que o autor carioca, muito conhecido no meio dos fãs brasileiros de ficção fantástica, adota em seus trabalhos: personagens femininas fortes e decididas, ainda que emocionalmente fragilizadas, enfrentando perigos inomináveis. O mesmo perfil pode ser percebido em outros trabalhos do autor: A âncora dos argonautas (1999), A Esfinge Negra (2003) e As luzes de Alice (2004), novelas publicadas pelo selo Hiperespaço.
Miguel Carqueija é um autor experiente, talvez o mais prolífero e constante colaborador das publicações daquela que ficou conhecida como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Esteve presente em praticamente todas as publicações brasileiras ditas de FC&F, desde o primeiro fanzine, o Boletim Antares – editado pelo Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre inaugurador dessa fase em 1982 –, participando de todos os demais fanzines, revistas, concursos e antologias propostos desde então. Também participou de publicações mainstream, como o Banco de talentos, publicado pelo Banco do Brasil. Em 2004 teve um dos trabalhos publicados nessa antologia (“O tesouro de Dona Mirtes”, Banco de talentos 1999) filmado em curta-metragem pelo Grupo Arte Urbana, de Ribeirão Preto.
Com toda essa experiência, Carqueija desenvolveu habilidade sobre os protocolos do gênero fantástico, que domina muito bem. Entretanto, ainda apresenta cacoetes que prejudicam sua ficção. O mais evidente deles é a dificuldade em definir o estilo das sequências de diálogos que ora seguem o formato tradicional da narrativa em prosa, ora apresentam-se como um roteiro teatral, com os nomes das protagonistas antecipando as falas. Essa indecisão formal, também presente em A face oculta da galáxia, prejudica o ritmo da leitura e rompe com frequência a suspensão da incredulidade do leitor, jogando por terra boa parte do trabalho exaustivo de construir uma ilusão de realismo.
Excetuando-se esse pecado, que é grave, a prosa de Carqueija é fluente e agradável, com uma estética identificada com os trabalhos da Golden Age norte-americana: aventuresca, otimista, quase sempre implausível, mas muito divertida. As muitas referências e citações da cultura pop também interferem na concentração do leitor, mas não chegam a comprometer a narrativa e acrescentam-lhe um sabor autoral característico.
A face oculta da galáxia está atualmente disponível aqui pela editora Agbooks, em versões real e digital.
Cesar Silva

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Drácula, o Perfil do Diabo (Dracula Has Risen From the Grave, Inglaterra, 1968)


Terceiro filme da produtora inglesa “Hammer” com o famoso vampiro Drácula interpretado por Christopher Lee. Antes tivemos “O Vampiro da Noite” (Horror of Dracula, 1958) e “Drácula: Príncipe das Trevas” (Dracula: Prince of Darkness, 1966), e depois mais quatro filmes, “O Sangue de Drácula” (Taste the Blood of Dracula, 1970), “O Conde Drácula” (Scars of Dracula, 1970), “Drácula no Mundo da Mini Saia” (Dracula AD 1972, 1972) e “Os Ritos Satânicos de Drácula” (The Satanic Rites of Dracula, 1973).
Drácula, o Perfil do Diabo” tem direção de Freddie Francis e roteiro de Anthony Hinds, creditado como John Elder. A história se passa um ano após os eventos do filme anterior, com a chegada do monsenhor Ernst Muller (Rupert Davies) ao vilarejo próximo do castelo de Drácula. Vendo que os aldeões continuavam aterrorizados mesmo após a suposta destruição do vampiro, ele decide subir ao castelo no alto das montanhas para recitar em latim um ritual de exorcismo, deixando uma imensa cruz na porta da imponente e sombria construção de pedra. Ele é acompanhado pelo padre local (Ewan Hooper) e após um acidente com sua queda e um ferimento na cabeça, seu sangue ressuscita o cadáver de Drácula, preso nas águas congeladas próximas ao castelo.
A criatura da noite ressurge e transforma o padre em seu servo, partindo para a vingança contra o monsenhor que lacrou a porta do castelo com a cruz. Chegando numa pequena cidade vizinha, ele espalha o horror fazendo vítimas como Zena (Barbara Ewing), a garçonete de um bar, e tem um interesse especial na jovem Maria. Ela é sobrinha do monsenhor e é interpretada pela bela Veronica Carlson, de filmes como “Frankenstein Tem Que Ser Destruído” (1969), “O Horror de Frankenstein” (1970) e “O Carniçal” (1975). Drácula tem que enfrentar uma batalha contra o namorado ateu da moça, Paul (Barry Andrews), que trabalha na pousada de Max (Michael Ripper, o recordista de papéis coadjuvantes na “Hammer”).
 Se no filme anterior, “Drácula: O Príncipe das Trevas”, o vampiro não diz uma única palavra, por imposição de Christopher Lee, insatisfeito com o roteiro e receoso por alguma repercussão negativa do personagem, em “Drácula, o Perfil do Diabo”, o temível vampiro sugador de sangue tem até algumas falas, mas são poucas. Sempre rude e agindo com selvageria e violência, certamente seria mais interessante se Drácula tivesse uma participação maior. Suas expressões faciais continuam intimidadoras e seus olhos vermelhos de sangue traduzem o ódio e horror de forma avassaladora. Mas, o vampiro aparece pouco, no meio de uma história comum e previsível, onde sabemos sempre antecipadamente como será o desfecho num confronto final (similar em todos os filmes com o vampiro, nem sendo mais considerado um “spoiler”). Geralmente sabemos o destino dos personagens, e nesse filme as coisas não são diferentes, contando ainda com um acréscimo de moralismo religioso católico.
Por outro lado, não faltam as esperadas cenas e elementos tão característicos do horror gótico que se transformaram na marca registrada da “Hammer”, motivo maior da existência de uma imensa legião de cultuadores eternos que o estúdio ganhou a partir de suas atividades iniciadas em meados dos anos 50 e permanecendo por mais duas décadas. Temos o castelo sombrio, as carruagens, os vilarejos em pânico com seus aldeões supersticiosos, as névoas sinistras, a floresta fantasmagórica e aquela atmosfera constantemente perturbadora de medo e insegurança.
Curiosamente, o mesmo ritual de exorcismo recitado em latim que foi proferido pelo monsenhor para livrar o castelo de Dráculo do mal absoluto, foi também reproduzido na introdução de uma música da banda de metal extremo “Marduk” (Suécia). Trata-se da faixa “Accuser / Opposer”, do álbum “Rom 5:12” (2007). No “Youtube” tem vários vídeos dessa música, segue dois deles: https://www.youtube.com/watch?v=6_eMI6HM4kY e https://www.youtube.com/watch?v=rGPhzzN11fo (sendo este um show na Alemanha em 2008).
(Juvenatrix – 30/12/15)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Vingança da Deusa (The Vengeance of She, Inglaterra, 1968)


Em 1965 a produtora inglesa “Hammer” lançou a aventura com elementos de fantasia “A Deusa da Cidade Perdida” (She), com a dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee, e a estonteante Ursula Andress no papel título. Três anos depois, o cultuado estúdio retornou com o mesmo assunto lançando “A Vingança da Deusa”, dirigido por Cliff Owen (1919 / 1994), e sem os astros do filme anterior, tendo apenas o retorno de John Richardson e de André Morell, este em outro papel.
Uma belíssima jovem escandinava, Carol (a Tcheca Olinka Berova), surge desorientada caminhando por uma estrada francesa, indo parar numa praia onde decide nadar até o iate de propriedade de George (Colin Blakely), casado com Sheila Carter (Jill Melford) e amigo do médico psiquiatra Philip (Edward Judd). A garota tem um comportamento estranho e misterioso e abandona o barco sem avisar, sendo ajudada em terra pelo sacerdote místico Kassim (André Morell). Mas, coisas sobrenaturais acontecem com as pessoas próximas à garota e ela desaparece num deserto no norte da África. Philip, que nutre um interesse amoroso por ela desde que a viu pela primeira vez, se une ao capitão do barco Harry (George Sewell), e juntos partem em sua procura. A jovem garota tem habilidades que ainda não sabe controlar, e que consistem no conhecimento e no uso de um profundo poder mental transformado por rituais e símbolos numa força real viva para o bem ou para o mal. Ela pode ser a reencarnação de uma rainha tirana chamada Ayesha (”aquela que deve ser obedecida”), e sente que está sendo atraída pelo controle mental do sacerdote Men-Hari (Derek Godfrey). Após se encontrar com Philip, eles caminham pelo deserto e chegam à cidade perdida de Kuma, governada pelo rei Killikrates (John Richardson), que conquistou a imortalidade num ritual mágico envolvendo um fogo sagrado. Agora, o apaixonado Philip terá o desafio de tentar impedir o destino de Ayesha reencarnada, e voltar com Carol para casa. 
O roteiro de “A Vingança da Deusa”, de autoria de Peter O´Donnell, tem elementos que o aproximam mais de uma refilmagem do que propriamente uma sequência. Trocando os papéis da rainha imortal Ayesha do primeiro filme com o rei imortal Kallikrates do segundo filme, sobram muitas situações similares entre ambos. Por ser um filme da “Hammer”, sempre desperta um interesse especial, mas é evidente que a falta da participação de Peter Cushing e Christopher Lee, e claro, da beleza e carisma de Ursula Andress, o segundo filme perdeu muito de sua força e potencial, tornando-se apenas comum e com história reciclada. 
(Juvenatrix – 24/12/15)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Presentes (Offerings, EUA, 1989)


Exibido na televisão brasileira no cultuado “Cine Trash” da Band, “Presentes” (Offerings) tem direção, roteiro e produção de Christopher Reynolds. É um filme slasher de 1989 e extremamente datado, onde tudo, desde trilha sonora, figurinos, diálogos, atmosfera e história sobre um serial killer vingativo, nos remetem aos anos 80 do século passado.
Após o abandono do pai, o menino John Radley (Josh Coffman) parou de falar, e passou a viver recluso com a mãe megera (Rayette Potts), sofrendo perseguições e bullyng dos vizinhos e colegas da mesma idade, exceto pela amiga Gretchen (Kerri Bechthold), que o defende das ofensas dos outros. Mas, um acidente num poço traria consequências trágicas para John, que ficou deformado e foi internado numa clínica psiquiátrica pelos próximos dez anos. Fugindo do hospício e agora adulto, John (Richard A. Buswell) usa uma máscara para ocultar as feridas de seu rosto, e retorna para o bairro onde viveu na infância à procura de vingança contra os antigos colegas que o insultavam, como Kacy (Elizabeth Greene) e Linda (Heather Scott), além de Jim Paxton (Jerry Brewer), David (Tobe Sexton) e Greg (Patrick H. Berry). Enquanto ocorrem muitas mortes violentas e misteriosas, além de pedaços de corpos serem oferecidos como presentes (daí o título), a polícia tenta desvendar os assassinatos com a investigação do Xerife Chism (G. Michael Smith).
Completamente influenciado por “Halloween: A Noite do Terror” (1978), do psicopata mascarado Michael Myers, “Presentes” na verdade não oferece nada que não sejam os tradicionais e manjados clichês do subgênero “slasher”. Tudo é muito óbvio e previsível, e as cenas de mortes, apesar de sangrentas em alguns casos, também estão longe de permanecer na memória após alguns minutos do término do filme. Visto muitos anos depois, é lógico que desperta aquele sentimento de nostalgia da década de 1980, um período muito significativo para o cinema de horror, especialmente os filmes com psicopatas chacinando suas vítimas das mais diversas maneiras, com Jason Voorhees, Michael Myers e Freddy Krueger, entre outros, disputando um campeonato de empilhamento de cadáveres. Mas, além da nostalgia oitentista, sobra pouco de um filme apenas comum e que se perde na infinidade de produções similares.
O diretor e roteirista Christopher Reynolds não seguiu a carreira, tendo um currículo pequeno, formado apenas por esse “Presentes” e o seguinte “Lethal Justice” (1991). 
(Juvenatrix - 24/12/15)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Retorno dos Mortos-Vivos (El Ataque de los Muertos Sin Ojos, Espanha, 1973)


Vocês verão os templários retornarem dos mortos! Destruiremos tudo e todos! Somos imortais! E vocês?

 É interessante notar como o mercado brasileiro de vídeo VHS já lançou uma quantidade infindável de filmes que não estão mais disponíveis. Quando a febre dos aparelhos de vídeo cassete iniciou no país, por volta de meados dos anos 1980, surgiu uma grande quantidade de distribuidoras de filmes em VHS que eram tão pequenas e desconhecidas quanto os filmes que lançavam no mercado. Tanto é que a maioria faliu e desapareceu há muitos anos, deixando suas fitas perdidas principalmente em pequenas locadoras de bairro ou sebos espalhados pelo Brasil. Porém, muitos desses filmes desconhecidos, de todos os gêneros, são verdadeiras preciosidades e tornaram-se raridades fora de catálogo para colecionadores e apreciadores do cinema menos convencional. Principalmente agora, com a proliferação dos filmes em discos DVD, que estão tornando-se cada vez mais populares e diminuindo a atenção dispensada pelo público às fitas VHS, num movimento similar ao que já aconteceu com a música, entre os nostálgicos discos de vinil e os modernos CD´s.
Um filme de horror em especial, com o sonoro título de “O Retorno dos Mortos-Vivos” (The Return of the Evil Dead), lançado no Brasil pela extinta “Visocopy”, é uma rara produção espanhola de 1973 que exemplifica muito bem o que foi exposto acima. É um filme pouco conhecido no Brasil, de baixo orçamento no mais tradicional “horror bagaceiro”, e típico representante do cinema “trash”, ou seja, com roteiro óbvio, diálogos banais, situações previsíveis, atores canastrões e amadores, efeitos toscos e tantas outras deficiências não propositais que o tornam exatamente por isso um filme que desperta interesse e principalmente proporciona um inusitado momento de entretenimento. Sem contar outros motivos que ajudam a torná-lo ainda mais especial, como sua raridade e dificuldade de acesso, sendo um filme espanhol com mais de quarenta anos desde sua obscura produção. Além de ser um exemplar tipicamente influenciado pelo clássico filmado em preto e branco “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Night of the Living Dead), dirigido por George A. Romero em 1968, que trazia basicamente um grupo de pessoas encurraladas numa casa de campo enfrentando a fúria assassina de uma multidão de zumbis famintos por carne humana. Em “O Retorno dos Mortos-Vivos”, a história mostra um grupo de sobreviventes de uma pequena cidade refugiados numa igreja, sendo ferozmente atacados por mortos-vivos portando espadas em busca de vingança contra o que lhes aconteceu no passado.
 O filme inicia mostrando uma seita da Idade Média realizando rituais satânicos num castelo de estilo gótico. Eles são templários que trouxeram do Oriente o segredo da vida eterna, realizando sacrifícios humanos para as supremas forças do mal, arrancando o coração das vítimas, comendo suas vísceras e bebendo o sangue. Revoltados com os assassinatos nas cerimônias demoníacas, os aldeões locais capturam os templários e os executam queimando-os vivos em fogueiras. Uma vez os satanistas prometendo retornarem do mundo dos mortos para se vingarem, os aldeões então queimaram primeiro os seus olhos antes de atearem fogo em seus corpos, para com isso impedirem sua volta. Um dos próprios moradores da cidade explica o folclore em torno dos templários: “De acordo com a lenda, os aldeões queimaram seus olhos para que não pudessem voltar, para se vingarem. A superstição diz que eles seguem o som!”.
Muitos anos depois, a pequena vila portuguesa de Bouzano está se preparando para comemorar uma festa para lembrar a vitória de seus antepassados sobre os templários, onde eles simulam a execução dos satanistas com bonecos presos em fogueiras. Para alegrar ainda mais a festa, o prefeito Duncan (Fernando Sancho) e seu assistente Howard (Frank Blake), contratam um técnico americano em fogos de artifício, Jack Marlowe (Tony Kendall). Ao chegar à cidade, Jack reencontra uma antiga namorada, a agora noiva do prefeito, Srta. Vivian (Esther Roy), com quem acaba se reaproximando e com isso despertando a ira de Howard, que estava apaixonado pela jovem.
Enquanto os habitantes do vilarejo se divertem com a animada festa noturna, dançando e assistindo a queima dos fogos de artifício, próximo dali, no antigo castelo em ruínas dos templários, eles ressurgem do mundo dos mortos saindo de suas tumbas para consumarem sua vingança prevista quando foram barbaramente executados nas fogueiras. Eles se reúnem em grande quantidade, cavalgando cavalos mortos e portando espadas afiadas, e se dirigem à cidade para iniciarem um massacre. Após sangrenta carnificina, numa gritaria sem fim, com mortos e feridos para todos os lados, um grupo de sobreviventes se refugia numa igreja, sendo encurralado pelos templários esqueléticos. Formado pelo herói mocinho Jack, sua namorada Vivian, o prefeito corrupto e sem escrúpulos Duncan e seu capanga Howard. Ainda tem um casal, Bert (Ramón Lillo) e Amalia (Lone Fleming), com sua pequena filha Nancy (Maria Nuria), uma bela jovem, Monica (Loreta Tovar), que havia visto o namorado ser assassinado, e o vigia do local, um retardado corcunda, Murdo (José Canalejas), que ajudou  no retorno dos mortos-vivos matando uma mulher diante de suas tumbas, mas que foi ignorado pelas caveiras ambulantes. Uma vez encurralados na igreja por uma multidão de mortos-vivos, o grupo vai aos poucos sendo dizimado violentamente enquanto lutam pela sobrevivência, aguardando a chegada do amanhecer. 
 Algumas cenas são bastante interessantes, destacando as sequências em que os templários têm seus olhos dolorosamente queimados por tochas ardentes em fogo; ou quando um homem tem sua mão e outro sua cabeça violentamente decepados em golpes precisos das espadas dos mortos-vivos; ou ainda na brutal chacina dos habitantes do pequeno vilarejo, numa correria desenfreada com sangue e corpos caindo aos montes, vítimas dos templários vingadores.
Os efeitos especiais são extremamente precários, principalmente num momento em que o herói Jack arremessa sobras de fogos de artifício nos zumbis com o objetivo de derrotá-los. Alguns caem mostrando claramente tratarem-se de simples bonecos imóveis, num efeito exageradamente tosco. O roteiro tem erros grotescos de continuidade e diálogos tão infantis que nos incitam a torcer para o sucesso do plano de vingança dos bruxos medievais. Porém, os figurinos dos mortos-vivos são bastante convincentes, dando a impressão sombria de esqueletos podres vestindo grandes capas surradas e desgastadas pelo tempo, auxiliados por uma fotografia escura.
“O Retorno dos Mortos-Vivos” é o segundo filme de uma série de quatro dentro do mesmo universo ficcional, porém com histórias independentes. Sendo precedido por “A Noite do Terror Cego” (1972) e tendo outras duas sequências posteriores, “O Galeão Fantasma” (1974) e “A Noite das Gaivotas” (1975), todos dirigidos por Amando De Ossorio e constituindo-se numa cultuada tetralogia do cinema fantástico envolvendo a sempre fascinante temática de “mortos-vivos”.

(Texto originalmente em Fevereiro de 2003, publicado em 10/12/2005 no blog www.juvenatrix.blogspot.com.br)

O Retorno dos Mortos-Vivos (El Ataque de los Muertos Sin Ojos / The Return of the Evil Dead / The Return of the Blind Dead, Espanha, 1973). Ancla Century / Atlas International. Duração: 83 minutos. Direção e roteiro de Amando De Ossorio. Produção de Raymond Planta. Fotografia de Michael Mila. Edição de Joseph Anthony. Maquiagem de Joe Louis Campos. Música de Tony Abril. Elenco: Tony Kendall, Fernando Sancho, Esther Roy, Frank Blake, Lone Flemming.
(Juvenatrix - Fev. 2003)

Os filhos de Anansi, Neil Gaiman

Os filhos de Anansi (Anansi boys), Neil Gaiman. 384 páginas. Tradução de Juliana Lemos. Editora Conrad, São Paulo, 2006.

O mágico pode estar logo além da esquina. A cada minuto acontece um milagre sobre a Terra, muitos são documentados e testemunhados. Acontecimentos inusitados podem estar prestes a maravilhar a existência de qualquer um. É claro que na maior parte das vezes esses pequenos milagres são apenas impressões, frutos de uma percepção alterada da realidade, esta sim, uma ilusão de nossos sentidos. Uma breve pane sensorial pode fazer o mundo virar literalmente do avesso, para voltar ao normal pouco depois. A impressão forte pode ser interpretada como uma epifania, uma revelação divina. Dificilmente uma pessoa voltará ao seu estado normal depois de uma experiência como essa.
Mas, e se não for apenas uma impressão? E se não for somente uma falha dos sentidos? E se for... real?
É isso que parece estar acontecendo com Charles Nansi – ou Fat Charlie, um apelido de infância –, um jovem afro-americano que vive no subúrbio londrino, tem um emprego numa agência de artistas, um patrão de quem ele decididamente não gosta e uma noiva inglesa de quem ele acha que gosta e que acredita que gosta dele. Nada de muito diferente da rotina de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Fat Charlie vai levando sua vida, aguentando o mau-humor do patrão, a rabugice da futura sogra e a resistência puritana da noiva, que só vai permitir maiores intimidades depois do casamento, marcado para breve. Ela insiste que ele convide o pai para a cerimônia e isso deixa Charlie em pânico.
O pai de Fat Charlie é o que se pode chamar de bon-vivant, um negro sorridente e simpático, que vive curtindo, cantando, dançando e namorando. E é o cara mais constrangedor do mundo. Charlie guardava lembranças ruins de seu pai e se tinha uma coisa que ele não queria era um constrangimento gigante no dia de seu casamento. Mas a noiva tanto insiste que ele decide entrar em contato com a parentela, na Flórida. Viaja para os EUA e descobre, mais aliviado que surpreso, que seu pai morreu. Obviamente, numa situação constrangedora.
Mas havia algo que Charlie não sabia: ele tem um irmão gêmeo. As vizinhas de seu pai, umas velhas assustadoras que agora eram as únicas referências da sua infância, contaram a novidade e estranharam que ele não se lembrasse do irmão. Era uma peste, diziam. Foi morar em outro lugar. Mas, se ele quisesse, poderia chamá-lo. Bastava pedir a uma aranha, qualquer aranha, que ele viria.
Charlie, acreditando que as velhotas estavam esclerosadas, volta para a Inglaterra satisfeito por não ter o pai no casamento. Retorna para o seu emprego medíocre e sua noiva certinha. Numa noite especialmente confusa, enche a cara de vinho branco e faz aquilo que devia – ou não, se quisesse manter sua vida medíocre – ao encontrar uma aranha enorme na banheira, pede a ela que mande um alô para o irmão. Na manhã seguinte, Spider está diante do seu portão.
Spider, o irmão de Fat Charlie, é completamente diferente dele. Parece ser mesmo um filho do velho Nansi, pois é alegre, atraente e muito desencanado. Mas, além de tudo, sabe fazer uns truques maneiros, como tornar um armário num quarto enorme equipado com os mais caros e avançados sonhos de consumo do mercado. Spider é uma espécie de mago-rebelde-sem-causa, que herdou os poderes mágicos que seu falecido pai sempre teve.
Através de Spider, Charlie descobre que ambos são filhos de Anansi, um deus africano que faz com que a realidade mantenha-se nos eixos. Anansi é aquele trapaceiro de quem as lendas falam: a aranha, o macaco, o coelho e outras personificações de um ser esperto que sempre se dá bem no final das histórias. Mas se assim é, como pode ter morrido?
Este é um dos muitos mistérios transcendentais a serem desvendados por Charlie, assim como deve descobrir qual é o seu lugar no plano geral do universo. Isso tudo enquanto manobra a noiva que tem uma aventura voluptuosa com Spider; o chefe, que planeja dar um grande desfalque nos clientes e lançar a culpa em Charlie; as velhotas, que ainda não lhe contaram nem metade da história; Spider que, apesar de ser seu irmão, parece ser um furacão de problemas... e o tigre. Tigre? Bom, pode também ser um leão ou uma onça, dá no mesmo.
Assim são as coisas no universo de Os filhos de Anansi, romance de fantasia do escritor e roteirista britânico Neil Gaiman. Antes de ficar conhecido como romancista, Gaiman já mostrava talento no mercado de história em quadrinhos. Foi de sua pena que saíram os roteiros de uma das mais bem sucedidas, premiadas e cultuadas séries: Sandman, da DC Comics. Gaiman pegou um personagem aparentemente sem substância, ridículo até, e o tornou num caldeirão de ideias bem desenvolvidas. Mesmo depois de encerrada, com mais de 70 episódios publicados, Gaiman voltou ao universo de Sandman várias vezes, em séries curtas e novelas ilustradas. De repente, estava publicando romances.
Geralmente, os leitores de fc&f não recebem muito bem os escritores que vem dos quadrinhos. Gardner Fox e Stan Lee que o digam. Por isso, foi mesmo uma surpresa quando Gaiman começou a faturar Hugos e Nebulas um atrás do outro. A começar por American gods (Prêmios Hugo, Nebula, Locus e British S.F. de melhor romance de 2002), e Coraline (Prêmios Hugo, Nebula e Locus de melhor novela de 2003), além de vários outros prêmios para contos e noveletas em 2003 e 2004.
Era possível esperar que Os filhos de Anansi tivesse o mesmo sucesso. E não decepcionou: conquistou o Prêmio Locus de melhor romance de fantasia de 2006 e Prêmio British Fantasy de melhor romance de 2006.
Os filhos de Anansi surpreende em muitos aspectos. Para começar, os personagens principais são negros. É claro que Gaiman deixou esse detalhe bastante submerso na narrativa, talvez porque conheça bem as regras não escritas do mercado editorial no qual transita. De qualquer forma, um romance em que o protagonista é negro sem qualquer estereótipo já é, por si, uma variação muito importante. Além do mais, Gaiman usou e abusou da mitologia africana para montar o background sobrenatural de seu romance. Um aproveitamento muito sofisticado e sem proselitismos. Algumas das histórias que ele conta sobre as aventuras do velho Anansi têm paralelos idênticos na mitologia brasileira. Bem, Gaiman esteve no Brasil algumas vezes...
A tradução, assinada por Juliana Lemos, foi muito feliz. Algumas figuras literárias florescem aqui e ali, como se o autor as tivesse criado para serem lidas em português. É claro que isso é mérito da tradução, mas fornece uma boa ideia de como deve ser prazerosa a leitura no inglês original.
O romance não é longo e a leitura agradável o torna ainda mais ligeiro. Rapidamente, as páginas se esgotam no inevitável fim e, com ele, vem a sensação que sucede a última página de todos os bons livros: bem que poderia ter se demorado mais um tantinho. Neste caso, faça como eu: leia de novo. E de novo.
— Cesar Silva

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Doce Aroma da Morte (The Sweet Scent of Death, Inglaterra, 1984)


Episódio 8 da série de TV “Hammer House of Mystery and Suspense”, produzida em 1984 pelo cultuado estúdio inglês “Hammer”, em parceria com a americana “Fox”, sendo por isso também conhecida como “Fox Mystery Theatre”. Foram apenas 13 episódios com duração aproximada de 70 minutos, que acabaram transformando-se em filmes independentes. No Brasil, foi exibida em nossas televisões com os títulos “Suspense” ou “Cine Suspense”.
O Doce Aroma da Morte” (The Sweet Scent of Death) tem direção do húngaro Peter Sasdy, cineasta conhecido da própria “Hammer”, assinando filmes como “O Sangue de Drácula” (1970) e “Condessa Drácula” (1971). No elenco, temos os experientes Dean Stockwell, com mais de 200 créditos na longa carreira e Shirley Knight, que não fica muito atrás, com uma infinidade de trabalhos no currículo.
O diplomata americano Greg Denver (Dean Stockwell) se muda para a Inglaterra para assumir a embaixada em Londres. Muito atarefado, ele decide passar mais tempo com a esposa Ann Fairfax (Shirley Knight), uma advogada que deixou a profissão para acompanhar o marido. Eles se mudam para uma mansão rural, porém depois instalados na nova casa, fatos misteriosos começam a ocorrer e Ann sente que está sendo observada e atormentada por alguém à espreita. Levantando suspeitas sinistras de acontecimentos de seu passado nos Estados Unidos, onde ela defendeu no tribunal o suspeito pelo assassinato de uma jovem que ia se casar com Terry Marvin (Michael Gothard), que vive agora nos arredores da mansão como florista, especializado em rosas vermelhas (daí a relação com o título do filme). Outras personagens se envolvem no mistério como a estranha secretária de Greg, Paula (Toria Fuller), e a responsável pelas Relações Públicas do embaixador, a bela Suzy Kendrick (Carmen Du Sautoy), despertando a investigação policial a cargo da dupla de detetives formada pelo Sargento Wells (Robert Lang) e Constable Gray (Struan Rodger).
É uma típica história de detetive, com seus elementos característicos, assassinatos, vinganças, clima de mistério, tensão e suspense, com investigação policial e as tradicionais reviravoltas, tudo funcionando até de forma eficiente, mas sem fugir muito do comum, faltando as sempre esperadas novidades ou mais ousadia no roteiro. É um episódio ligeiramente menor dessa interessante série da “Hammer”. (Juvenatrix – 22/12/15)