sexta-feira, 15 de maio de 2020

Almanaque Entrevista


Clinton Davisson lança uma nova versão do seu romance Hegemonia: O Herdeiro de Basten e analisa os rumos da ficção científica brasileira


por Marcello Simão Branco


Natural de Volta Redonda, interior do Rio de Janeiro, o jornalista Clinton Davisson é um nome presente e atuante no fandom de ficção científica brasileiro desde de o final dos anos 1990, já na fase final da Segunda Onda do gênero no país. O nome incomum vem de uma homenagem de seu pai – um físico – a Clinton Davisson, prêmio Nobel de física de 1937. Como ele mesmo admite, talvez isso o tenha influenciado a se identificar e escrever uma ficção científica hard, aquela voltada a temas de ciências naturais. Autor de dois romances, contos e uma peça de teatro, o autor é uma voz consolidada na seara hard, dando sequência a uma tradição dentro da ficção científica brasileira. Muito ligado aos movimentos de fãs, esteve à frente de várias atividades do Conselho Jedi, o primeiro fã clube de Guerra nas Estrelas no país, e marcou presença como o mais longo dirigente da história do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC). Na entrevista a seguir Clinton comenta sobre a nova versão do seu romance Hegemonia: O Herdeiro de Basten – talvez sua obra mais ambiciosa –, faz um balanço de sua gestão à frente do CLFC e comenta sobre as perspectivas dos autores brasileiros de ficção científica.


Você foi quem presidiu por mais tempo o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC). Quatro mandatos, de 2011 a 2019. Praticamente uma década! Faça um balanço de suas administrações e o legado você deixa para a nova diretoria.

Eu sou bem crítico em relação as minhas administrações do CLFC. Embora tenha certeza que deixei o Clube bem melhor do que encontrei e isso é endossado por, pelo menos, dois presidentes, anteriores, eu gostaria de ter tido condições para fazer mais. O fato é que consegui reativar o prêmio Argos, reativar o Somnium e o site do CLFC, além de agora termos a Biblioteca Nacional de Ficção Científica em parceria com a USP – na cidade de Ribeirão Preto (SP). Eu acho que foi uma boa administração, mas poderia ter ido mais longe. Queria que o Argos fosse mais reconhecido, mas isso esbarra em investimentos. Teria que largar a vida pessoal para me dedicar a isso e transformar o CLFC em uma empresa. Resolvi não cruzar este limite. Fica o desafio para as próximas gerações.


Sua ficção científica é assumidamente hard. Nos explique sobre esta preferência temática, e nesse sentido, quais autores mais o influenciaram.

Eu sempre li muito e de tudo. Desde revista do Tio Patinhas até James Joice e Dostoiévski. Acho que a ficção científica hard veio mais do meu pai ser físico e de eu ser pesquisador, fazendo doutorado agora. A minha área é ciências humanas, estou fazendo doutorado em comunicação, mas devoro livros científicos desde sempre. Ultimamente comprei aquela série completa O Universo e descobri que já tinha assistido várias vezes todos os episódios. Estudo química e biologia por conta própria até hoje. Sempre quis saber os porquês das coisas. Sempre tentando priorizar mais a boa história, a história bem contada. Eu diria que minha maior influência muda de acordo com o tempo. Teve época que foi Guimarães Rosa, atualmente leio repetidamente os livros do Max Mallman, vejo como ele constrói os personagens, constrói as cenas, tem uma veia humorística forte. Tem o China Miéville também, que é um autor contemporâneo de muita criatividade. Mas sempre tenho a sensação de que deveria ler mais..


Há quase vinte anos você tem trabalhado no seu universo ficcional de Hegemonia, com contos e romances. Você poderia explicar resumidamente as linhas gerais dos temas tratados neste universo, e porque você decidiu lançar agora em 2020 uma nova edição ampliada do romance Hegemonia: O Herdeiro de Basten? Quais as diferenças entre as duas edições?

Eu não me conformava com um livro que escrevi com tanto carinho por longos sete anos, ter sido terminado às pressas em 2007. Quando a primeira edição se esgotou em 2010, eu quis terminar com calma essa nova versão. Quando terminei já era 2012 e não consegui editora para relançar. Esperei e não apareceu. Então resolvi lançar na Amazon.com. Deu certo. As duas versões contam a mesma história, mas me aprofundei mais nos personagens e no funcionamento daquele universo. E tive que fazer uns ajustes pois estava dando algumas contradições com o segundo livro, Hegemonia: Vellanda, que vou lançar em breve. Eu diria que esta nova versão de O Herdeiro de Basten é um livro mais hard do que a primeira versão.
O mais engraçado é que, com Fáfia: A Copa do Mundo de 2022, eu brinquei de profeta para tentar adivinhar como seria o futuro. Mas com o Hegemonia: O Herdeiro de Basten, não tinha essa pretensão. O livro se passa mais de 100 mil anos no futuro. Mas acabou que agora que relancei, está em alta um dos temas principais do livro que é o isolamento social, já que boa parte do livro discute como morar em uma Esfera de Dyson, com um excesso de absurdo de espaço e com armaduras computadorizadas que permitem uma autossuficiência. Isso tornaria os humanos seres muito frios, distantes, sem interatividade social além do mundo virtual. Era algo que eu estudava muito em 2002 na primeira versão da história em forma de conto. Eu ainda estava na faculdade de comunicação. Agora, devido à pandemia do novo coronavírus, o isolamento social virou uma realidade distópica presente e isso tem rendido um bom retorno ao livro.


Em 2022 haverá a próxima Copa do Mundo. Mas você a antecipou em termos ficcionais com o seu primeiro romance, Fáfia: A Copa do Mundo de 2022, publicado em 1999. O que você pode dizer sobre o que especulou neste romance e a provável realidade de 2022? Você pretende relançar o livro para aproveitar o ensejo da copa?

Sim, eu planejo também relançar o Fáfia em 2021. Já até fiz algumas correções no livro, mas realmente me doeu os olhos em descobrir como o escritor de 22 que escreveu o Fáfia em 1993 era fraco na hora de estruturar o enredo. Tinha muita coisa que hoje para mim não fazia sentido. Eu sei que faz parte. Escrever tem que ser algo contínuo e a gente vai melhorando a cada livro. No quesito “profecias”, até que acertei muita coisa. Carros falando, a China caminhando para se tornar a maior potência mundial, o Brasil sendo campeão mundial mais duas vezes, uma crescente preocupação com saúde e alimentação, banimento do cigarro e obrigatoriedade do cinto de segurança, mas não previ o wifi por exemplo e os hackers do livro precisam se conectar em cabos telefônicos. Escrevi que o Brasil teria um grande crescimento econômico, mas sucumbiria por causa da corrupção e a população acabaria se revoltando e escolhendo uma opção conservadora, no caso, o país se tornou uma monarquia parlamentarista. Estamos atualmente em risco de o país virar uma monarquia bolsonarista.
Foi onde eu cheguei mais perto. Mas desde o começo, a intenção era brincar com essa coisa de você fazer previsões para um futuro próximo e todo o pacote que vem com isso. Eu achava que erraria bem mais. Ao menos não coloquei, por exemplo, carros voadores como no filme De Volta para o Futuro (1985). A minha dúvida era se eu simplesmente relançava com algumas correções de estrutura ou se eu tentava corrigir as “profecias” que não deram certo. Acho que isso seria trapaça. Pensei então em colocar o livro para mais para frente, tipo, 2122. Mas seria perder tempo demais. Então, fica do jeito que está, é uma espécie de 90’s punk, como se a tecnologia do início dos anos 1990 tivesse evoluído. Fáfia sempre foi meu livro com mais pegada humorística e acho que se encaixa bem em uma versão alternativa de 2022. Afinal, a gente nem sabe se vai ter essa Copa. Duvido que hajam eventos esportivos ou mesmo eventos de massa antes de uma vacina eficaz contra o Covid-19.


Sendo um autor identificado com a terceira onda da FCB qual sua visão sobre a condição atual do gênero no país e suas perspectivas, num cenário que mostra um fandom fragmentado e autores que publicam, mas continuam pouco notados no contexto literário brasileiro?

Acho que a Amazon.com acabou mudando radicalmente o cenário do mercado brasileiro. Porque tínhamos várias editoras para um mercado muito restrito. Poucas souberam “jogar o jogo” mas acredito que o mercado de e-book está prestes a encerrar a era das editoras e iniciar a era dos autores. Pela primeira vez o autor está podendo pular etapas e vender seu livro diretamente para o público e recebendo o dinheiro. Hoje temo autores pouco conhecidos, mas que conseguem até se sustentar com dinheiro dos livros, tudo isso graças a Amazon.com. Acho que o mercado de livros de papel não vai acabar, mas o e-book vai ser o predominante em breve.


Para encerrar nos fale sobre seus próximos projetos.

Assim que lançar a continuação do Hegemonia em junho, que vai se chamar Hegemonia: Vellanda, devo me dedicar a outro projeto que estou terminando que envolve terror juvenil com folclore nacional. Algo no qual venho trabalhando também desde 2010, mas que requer muita pesquisa e esbarrei neste problema. Porque pesquisa demanda tempo e dinheiro. Eu não tinha nenhum dos dois. Agora, com a pandemia, eu tenho tempo.




quinta-feira, 14 de maio de 2020

A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, EUA, 1990)



“Aí vem eles, erguendo-se do fundo dos túmulos, enchendo a noite de gritos, manchando a terra de sangue... Aí estão eles, caminhando ao ritmo da morte, limpando o sangue dos lábios...”
do livro “A Noite dos Mortos Vivos” (1974), de John Russo, baseado no roteiro do filme homônimo de 1968

Em 1968, o cineasta George Andrew Romero presenteou os apreciadores do cinema fantástico com um dos mais importantes filmes da história do gênero, o clássico absoluto “A Noite dos Mortos Vivos” (Night of the Living Dead), fotografado em preto e branco e com um orçamento reduzido, abordando o tema dos zumbis comedores de carne humana de forma definitiva, inspirando toda uma safra imensa de filmes posteriores influenciados por suas idéias.
Romero dirigiu depois mais cinco filmes de sua saga, “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead, 78), “O Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 85), “Terra dos Mortos” (Land of the Dead, 2005), “Diário dos Mortos” (Diary of the Dead, 2007) e “A Ilha dos Mortos” (Survival of the Dead, 2009), sendo alguns deles ótimos filmes de horror e com interessantes críticas sociais em seus argumentos. E em 1990, o conhecido técnico em maquiagem Tom Savini (de “Despertar dos Mortos” e “Sexta-Feira 13”, entre muitos outros filmes importantes do gênero), reuniu os principais envolvidos na produção do clássico de 68 (o próprio George Romero e ainda John Russo e Russ Streiner), e assumindo a direção lançaram juntos uma refilmagem, com a grande diferença de apresentar agora a violência dos mortos vivos em cores e através de técnicas de efeitos especiais mais modernas.  

Na história, um casal de irmãos, Barbara (Patricia Tallman, de “Comando Assassino”, 88) e Johnnie (Bill Mosley), está viajando de carro com destino para um cemitério onde está enterrada a mãe deles. Lá chegando, eles são surpreendidos pelo ataque de um homem com aparência grotesca. Barbara consegue fugir e vai pedir ajuda numa casa de campo, localizada numa fazenda próxima. Porém, enfrenta mais um ataque violento de um outro homem deformado, o obeso Tio Rege (Pat Logan), o dono da casa.
Paralelamente, chega também à propriedade rural um homem negro, Ben (Tony Todd, de “Candyman”, 92), guiando em alta velocidade uma camionete com pouca gasolina. Ele se encontra com Barbara e juntos tentam se defender dos mortos vivos, descobrindo que no porão ainda estão outras cinco pessoas refugiadas, o intransigente Harry Cooper (Tom Towles), sua esposa Helen (McKee Anderson), a filha ferida com uma mordida no braço, Sarah (Heather Mazur), e um casal de jovens, Tom Bitner (William Butler), sobrinho do Tio Rege, e sua esposa Judy Rose Larsen (Katie Finneran).
O grupo passa a enfrentar os perigos mortais de uma invasão de mortos vivos sedentos por seu sangue e famintos por sua carne, isolados no meio do nada e encurralados numa casa onde são vítimas de um perturbador sentimento de claustrofobia e incapacidade de fuga, além também de terem que administrar os impertinentes problemas de relacionamento (principalmente entre Ben e Harry, que estão constantemente em atrito), algo típico na raça humana e um fator negativo capaz de levá-los ao extermínio.

“Eles são nós. Nós somos eles, e eles são nós.”
Barbara, comentando decepcionada que não há diferença entre a selvageria dos mortos e a dos vivos

Essa refilmagem de 1990 é honrada e digna do original, principalmente porque os envolvidos no projeto são as mesmas pessoas, de George Romero, passando por John Russo, a Russ Streiner, e com a direção nas mãos do famoso maquiador Tom Savini, um profissional especialista no gênero Horror, e que na vida real foi fotógrafo na sangrenta Guerra do Vietnã, onde testemunhou mortes violentas e corpos destroçados de soldados nos campos de batalha.
Na nova versão de “A Noite dos Mortos Vivos” não faltam as cenas carregadas de sangue e mutilações e a tradicional legião de mortos vivos deformados e pútridos, ingrediente indispensável na temática do filme. Mas, com a diferença do visual em cores e as maquiagens mais bem produzidas.
Eu particularmente ainda prefiro o original de uma forma geral, principalmente pela ousadia de George Romero e equipe em se fazer um filme extremamente perturbador com violência explícita e poucos recursos no final dos anos 60, há quase meio século atrás, num trabalho precursor tanto no cinema de horror mais violento, quanto no subgênero de mortos vivos devoradores de carne humana. Mas a refilmagem de 90 também é um ótimo filme, procurando respeitar a história original em seu argumento básico, apesar da inevitável liberdade de criação artística que alterou o final, sendo que o filme de 68 apresentou um desfecho bem mais interessante e surpreendente.
Uma das coisas que mais fascina na história é justamente a ideia de um caos instaurado repentinamente no mundo graças ao domínio dos mortos que são reativados misteriosamente e buscam se alimentar dos vivos. Os personagens inicialmente não sabem as origens desse fenômeno e ficam especulando sobre as causas dos cadáveres se levantarem de seus túmulos, atribuindo a onda de violência para uma suposta fuga de prisioneiros ou uma contaminação química, descobrindo-se apenas mais tarde que poderia talvez se tratar de uma infecção trazida do espaço. Imaginem o choque que qualquer ser humano teria se de repente estivesse no meio de uma horda de zumbis querendo devorá-lo impiedosamente, e que toda a civilização estaria fatalmente afetada por uma histeria crescente que colocaria em risco a vida humana no planeta, pois além dos cadáveres voltarem a andar e terem como principal cardápio a carne humana dos vivos, as criaturas ainda tem o poder de transformar pessoas sadias em outros mortos vivos, através de um vírus contagiante.

“Não tente encontrar os amigos ou a família. Não tente ir às estações de resgate já identificadas, pois podem estar fora de operação. Estamos repetindo o aviso do órgão de prevenção de emergências das 23:00 horas do dia 23 de Agosto de 1989. Foi confirmado que os corpos dos mortos estão sendo reativados por forças desconhecidas. Estes corpos são fracos e sem coordenação, mas capazes de causar danos às pessoas e às propriedades. São considerados perigosos, especialmente quando em grupos. Podem ser inutilizados somente de uma maneira: pelo cérebro. Estes corpos reativados atacam animais de sangue quente de todas as espécies, incluindo seres humanos, sem nenhuma provocação, devorando a carne. Foram confirmados homicídios e canibalismos durante o dia de 23 de Agosto de 1989, atribuído, pelo menos em parte, a esses corpos reativados...” Mensagem de alerta das autoridades, transmitida pelo rádio

“A Noite dos Mortos Vivos” foi lançado em DVD no mercado brasileiro pela “Columbia Tristar Home Entertainment”, num disco de duas faces, sendo o lado “A” com as imagens em “widescreen”, e o lado “B” em tela cheia. Entre os materiais extras temos o comentário em áudio do diretor Tom Savini, um documentário de 25 minutos de duração chamado “The Dead Walk – Remaking a Classic”, escrito, produzido e dirigido por Jeffrey Schwartz, com depoimentos de Tom Savini, George Romero, Russ Streiner, John Russo, Tony Todd e Patricia Tallman, entre outros, além de trailers de um minuto com “A Noite dos Mortos Vivos” (90) e de dois minutos e meio com “Força Diabólica” (The Tingler, 59), produção em preto e branco de William Castle e com Vincent Price, e notas sobre a equipe de produção e os principais atores, destacando Tom Savini, George Romero, Tony Todd e Patricia Tallman. O fato negativo de todo esse interessante material extra é que tudo está disponível apenas na versão original em inglês, sem a opção de legendas em português.
Entre as curiosidades podemos citar que o produtor Russ Streiner (tanto do original quanto da refilmagem), que participou do filme de 1968 na seqüência de abertura no cemitério, como Johnny, o irmão gozador de Barbara, também apareceu rapidamente no filme de 90, próximo ao final, como um homem sendo entrevistado para a televisão, falando das façanhas ao exterminar os zumbis, sendo de forma não creditada em ambos os casos. E o ator Bill “Chilly Billy” Cardille apareceu também como um repórter em ambas as versões, tanto de 68 como a de 90.
A cena próxima do final, onde vários zumbis estão pendurados numa árvore e servindo de alvo para tiroteios dos sádicos caçadores de mortos vivos, estava prevista para aparecer no filme original, mas teve que ser cortada por causa das tensões raciais que agitavam os Estados Unidos na época, e a inclusão dessa cena na refilmagem foi uma homenagem.  
No documentário “The Dead Walk”, Tom Savini revelou que várias cenas violentas onde os mortos vivos eram alvejados na cabeça, evidenciando o sangue em profusão, foram censuradas e tiveram que ser substituídas na edição final por outras menos chocantes, além também de outras cenas fortes que foram cortadas, com os momentos mais perturbadores de horror gráfico aparecendo apenas “off screen”.

“Isto é alguma coisa que ninguém jamais ouviu falar a respeito, e ninguém jamais viu antes. Isto é Inferno na Terra” – Ben, definindo o caos instaurado pela invasão dos mortos

A Noite dos Mortos Vivos (Night of the Living Dead, Estados Unidos, 1990). Columbia Pictures. Duração: 86 minutos. Direção de Tom Savini. Roteiro de George A. Romero, baseado no roteiro original do filme homônimo de 1968, escrito por John A. Russo e George A. Romero. Produção de John A. Russo e Russ Streiner. Produção Executiva de Menahem Golan e George A. Romero. Música de Paul McCollough. Fotografia de Frank Prinzi. Edição de Tom Dubensky. Desenho de Produção de Cletus Anderson. Direção de Arte de James C. Feng. Efeitos Especiais de Everett Burrell e John Vulich. Elenco: Tony Todd (Ben), Patricia Tallman (Barbara), Tom Towles (Harry Cooper), McKee Anderson (Helen Cooper), William Butler (Tom Bitner), Katie Finneran (Judy Rose Larsen), Bill Mosley (Johnnie), Heather Mazur (Sarah Cooper), Pat Logan (Tio Rege), David Butler, Zachary Mott, Pat Reese, William Cameron, Berle Ellis, Bill “Chilly Billy” Cardille.   

(Juvenatrix - 13/11/2005)

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Minority Report - A Nova Lei (Minority Report, EUA, 2002)


Um dos escritores mais conhecidos e respeitáveis na literatura mundial de ficção científica é o americano Philip Kindred Dick (1928-1982). Em seu currículo figuram dezenas de romances e contos e algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema, tendo como destaques os filmes “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (Blade Runner, 1982), dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, e “O Vingador do Futuro” (Total Recall, 1990), de Paul Verhoeven e com Arnold Schwarzenegger.
Dessa vez, é um conto escrito em 1956 que foi filmado e estreou nos cinemas brasileiros em 02/08/02. Trata-se de “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report), um thriller de ficção científica dirigido pelo especialista em entretenimento Steven Spielberg e protagonizado pelo astro Tom Cruise, na primeira vez em que trabalham juntos.
A história é ambientada numa Washington DC futurista onde em 2054 o índice de criminalidade é zero não ocorrendo assassinatos há seis anos devido à ação de uma divisão de elite da polícia chamada de “Pré-Crime”, que prende os infratores antes deles cometerem seus delitos. Isso é possível graças às informações de premonição captadas através de três paranormais mutantes denominados “Pré-Cogs”, frutos de um programa experimental secreto, onde suas visões são digitalizadas e utilizadas para identificar as futuras vítimas e respectivos assassinos antes da consumação efetiva dos crimes.
Liderando essa equipe especial está John Anderton (Tom Cruise), que acredita veementemente na credibilidade do sistema devido aos resultados obtidos e por questões pessoais já que teve uma tragédia familiar envolvendo seu filho e que culminou com a separação da esposa, Lara (Kathryn Morris), e com o início de seu vício em drogas para suportar seus conflitos interiores, e com a “Pré-Crime” ele poderia ajudar a eliminar a criminalidade.
Porém, tudo repentinamente muda quando ele próprio é denunciado como um futuro assassino, ao mesmo tempo em que um detetive do Departamento de Justiça, Danny Witwer (Colin Farrell), surge para questionar o sistema avaliando sua eficácia para uma possível implantação no resto dos Estados Unidos. Anderton é acusado de um futuro assassinato dentro de 36 horas de uma pessoa que ele nem conhece, e então passa a ser perseguido por seus ex-companheiros de polícia, liderados pelo oficial Fletcher (Neal McDonough).
Após muita correria, perseguições, tiroteios, fugas espetaculares, reviravoltas e surpresas na trama, a única saída de Anderton é tentar descobrir a verdade dos fatos, procurando respostas seqüestrando até a principal “Pré-Cog”, Agatha (Samantha Morton), e questionando agora a eficiência do sistema que ele sempre defendeu ou provar a existência de uma possível conspiração.
“Minority Report” é um thriller bem movimentado e complexo mostrando um futuro próximo com belíssimos prédios, estradas e carros que incitam nossa imaginação (apesar do acelerado ritmo de modernização tecnológica em curso, acho particularmente difícil atingirmos o estágio proposto no filme daqui há 50 anos). Tom Cruise é um bom ator e está novamente muito bem no papel do policial atormentado pela perda do filho que passa de caçador à caça devido à acusação do programa de “Pré-Crime” que tanto ele defendeu, e o elenco ainda tem as presenças marcantes do veterano Max Von Sydow como Lamar Burgess, o diretor da organização e personagem com importante participação na trama, de Peter Stormare como o debochado cirurgião de transplantes ilegais de olhos (nessa época todos os cidadãos são reconhecidos pela leitura da íris ocular), e da veterana Lois Smith como a Dra. Iris Hineman, a criadora do projeto experimental dos “Pré-Cogs”.
Os efeitos especiais são de grande qualidade, principalmente na visualização em tela de cristal das imagens premonitórias dos videntes, na reprodução da imponente cidade futurista e na seqüência onde várias pequenas aranhas cibernéticas invadem um prédio à procura de John Anderton utilizando suas funções de reconhecimento dos olhos de todos os moradores.
Uma curiosidade é o fato do personagem de Tom Cruise ter seu rosto deformado novamente, nesse caso para ajudar em sua fuga utilizando o efeito temporário de uma química injetada na face, pois em seu filme anterior, o igualmente thriller de ficção científica “Vanilla Sky”, um fato similar aconteceu com o personagem David Aames que sofreu um acidente de carro e teve seu rosto desfigurado. 
“Minority Report” é uma bem sucedida parceria entre o rei de bilheterias Steven Spielberg e o astro Tom Cruise, que vem mostrando cada vez mais suas qualidades interpretativas (como na refilmagem de “Guerra dos Mundos”, em 2005, também de Spielberg). É uma produção longa em seus 146 minutos, porém com uma história inteligente baseada em obra do escritor Philip K. Dick, evidenciando um roteiro ágil, interessante, movimentado e repleto de situações que prendem a atenção do espectador, apresentando a complexidade de um futuro possível para a humanidade, e garantindo um excelente entretenimento.              

Observação: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 26/12/05, pela TV Globo, na sessão “Tela Quente”. 

(Juvenatrix - 2002)

terça-feira, 12 de maio de 2020

O Tesouro do OVNI (Top Line, Itália / Colômbia, 1988)


É inegável que boa parte do cinema fantástico bagaceiro italiano é divertido, pois temos uma infinidade de filmes tranqueiras com roteiros repletos de absurdos, para a satisfação dos apreciadores do estilo. Um exemplo disso é a tralha “O Tesouro do OVNI” (Top Line, 1988), já começando pelo título brasileiro no mínimo hilário. É uma co-produção entre Itália e Colômbia (as filmagens ocorreram em Cartagena, na região caribenha do país sul americano) dirigida por Nello Rossati (sob o pseudônimo Ted Archer), e que apesar da grande semelhança com meu sobrenome, não é meu parente.
A história é uma salada misturando elementos de aventura com ficção científica, explorando diversas temas como civilizações perdidas (o ouro dos astecas) com queda de disco voador, passando por robôs assassinos e alienígenas gosmentos hostis que querem invadir nosso planeta, além de conspiração governamental envolvendo o serviço secreto americano (CIA) e russo (KGB). Sem esquecer que a polícia e o exército colombianos são corruptos e ainda tem um nazista colecionador de tesouros.
Para completar, vale citar alguns nomes importantes que agregam muito valor ao elenco, como o ator italiano Franco Nero, com um currículo tão extenso que passa dos 200 filmes, e o veterano americano George Kennedy (1925 / 2016), outro rosto conhecido pela imensa carreira. Depois de tudo isso, dá para imaginar o nível de bizarrice, atiçando a curiosidade para ver o filme.
Um escritor falido e alcoólatra, Ted Angelo (Franco Nero), está na Colômbia pesquisando materiais para um livro sobre a história das civilizações que foram colonizadas pelos espanhóis nos séculos XV e XVI. Depois de ter contato com uma adaga asteca, ele decide procurar mais artefatos preciosos nas montanhas de Cartagena. Ele encontra uma caverna com uma caravela espanhola e uma nave espacial em seu interior, além de muitos objetos de ouro dos astecas.
A partir daí, o escritor aventureiro se envolve numa perigosa rede de intrigas e conspirações, acompanhado da jovem June (Deborah Barrymore), que conheceu depois do assassinato misterioso de seu amigo vendedor de antiguidades Alonso Quintero (William Berger). Eles são perseguidos por mercenários interessados no tesouro e agentes secretos interessados em ocultar a existência do OVNI, enfrentando problemas com sua editora, a ex-esposa americana Maureen De Havilland (Mary Stavin), com um perigoso nazista antiquário, Heinrich Holzmann (George Kennedy), e um robô alienígena assassino (Rodrigo Obregón).  
“O Tesouro do OVNI” é uma produção de baixo orçamento e roteiro hilário de tão ruim. Começa basicamente como um filme comum de aventura tendo o primeiro terço meio arrastado, apesar dos tiroteios e perseguições, e um destaque é a perseguição insana entre jipes numa estrada estreita nas montanhas. Porém, o que realmente irá despertar interesse para os apreciadores do cinema bagaceiro está na metade para o final, onde temos uma maior relevância para os elementos de ficção científica tranqueira, garantindo a diversão com uma grande quantidade de bizarrices. Principalmente com um ciborgue tosco no estilo “Exterminador do Futuro” e um alienígena gosmento (filmado propositalmente com cenas escuras para esconder os defeitos), concebido com aqueles efeitos especiais típicos da década de 80 do século passado, sem o artificial uso de imagens geradas por computador.
O filme foi lançado no Brasil na época dos vídeos VHS, pela VIC e também recebeu o nome alternativo original “Alien Terminator”.

(Juvenatrix – 12/05/20)




sexta-feira, 8 de maio de 2020

Cujo (EUA, 1983)


“Agora existe um novo nome para o terror”

O popular escritor Stephen King, autor de dezenas de livros de sucesso de horror, também é um dos que mais possui histórias adaptadas para o cinema. Ainda no início dos anos 80, um de seus primeiros trabalhos literários transformado em filme foi “Cujo” (Cujo, 1983), a partir de seu livro homônimo escrito dois anos antes, com direção de Lewis Teague, veterano cineasta nascido em 1938 e responsável por filmes como “Alligator – O Jacaré Gigante (80) e “Olho de Gato” (85), este também baseado na obra do “mestre do horror moderno”.

Cujo é o nome de um imenso cão da raça São Bernardo, aquele conhecido por suas características de resgate e salvamento de pessoas em regiões ermas, e com a imagem associada ao fato de levar um pequeno barril no pescoço. O cachorro é o animal de estimação de um garoto chamado Brett Camber (Billy Jayne), que vive num sítio nas proximidades de uma pequena cidade do interior no norte dos Estados Unidos, em Castle Rock, no Estado do Maine (local onde se passa a maioria das histórias de King). O garoto mora com sua mãe, Charity (Kaiulani Lee), uma mulher infeliz no casamento com Joe (Ed Lauter), um mecânico de automóveis egoísta que só está preocupado com seus interesses pessoais, deixando a família para segundo plano.
Ao perseguir um coelho pelo mato, Cujo acaba entrando com a cabeça numa caverna infestada de morcegos doentes, onde um deles morde seu nariz e lhe transmite a terrível raiva. Aos poucos, o anteriormente dócil cachorro vai se transformando num monstro assassino, com os olhos vermelhos, babas e gosmas escorrendo pela boca, e com o pêlo todo sujo e manchado de sangue, num aspecto extremamente ameaçador.
Enquanto isso, a ação volta-se paralelamente para uma família comum formada pelo casal Vic Trenton (Daniel Hugh Kelly), um publicitário bem sucedido mas que está enfrentando uma crise no trabalho, e pela bela Donna (Dee Wallace Stone), uma esposa adúltera que está tendo um romance com um marceneiro que presta serviços para a família, Steve Kemp (Christopher Stone). Eles ainda tem um filho pequeno, Tad (Danny Pintauro), que insiste em dizer que seu armário oculta um monstro imaginário.
Após a ocorrência de uma série de eventos coincidentes, a mãe e seu filho acabam tornando-se prisioneiros em seu próprio carro do raivoso cachorro, ávido por sentir o sabor de suas carnes na boca gosmenta. Os proprietários do sítio estão fora de casa, com Charity Camber indo visitar sua irmã com o filho Brett, e com Joe indo gastar o dinheiro ganho numa loteria numa viagem para Boston com o amigo Gary Pervier (Mills Watson), onde na verdade eles foram brutalmente atacados por Cujo antes de viajarem. Já Vic Trenton descobre a traição de sua esposa e decide fazer uma viagem de negócios, e Donna aproveita a oportunidade para levar seu carro com problemas mecânicos para o sítio de Joe, na intenção de consertá-lo.
A partir daí, o cachorro doente e assassino passa a ameaçar violentamente Donna e seu filho Tad, obrigados a ficarem presos em seu próprio carro quebrado, isolados num sítio distante e sem ninguém para socorrê-los, tendo ainda o agravante do menino sofrer de crises respiratórias que colocam ainda mais sua vida em risco, além do imenso cão tornar-se cada vez mais insano e agressivo com o passar do tempo e principalmente em reação ao barulho dos gritos de suas vítimas desesperadas.

Enfatizando a tagline promocional do filme, reproduzida no início desse texto, realmente “Cujo” faz por merecer seu nome associado ao terror, pois todas as cenas envolvendo sua participação como um cão assassino enlouquecido são de tirar o fôlego e causar pesadelos. Basta imaginar a terrível transformação de um animal de estimação inicialmente manso para uma criatura enraivecida e descontrolada, avançando mortalmente com os dentes afiados contra o pescoço de seus donos e todos que o cercam, passando de “o melhor amigo do Homem” para seu maior carrasco.
A longa sequência de claustrofobia em que uma mãe e seu filho estão presos dentro do próprio carro com pane mecânica, isolados e sem ter como fugir, sendo ferozmente vigiados o tempo inteiro e atacados por um cão que quer matá-los, é o grande destaque do filme, reservando ótimos momentos de tensão e suspense (aqueles em que o cão choca-se violentamente contra a porta do carro, na tentativa insana de entrar em seu interior, e arrebentando sua própria cabeça contra a superfície sólida do veículo são especialmente perturbadores). 
As cenas de mortes são poucas, mas carregadas de intensa violência de um animal enfurecido rasgando a carne de suas vítimas. Com seu pêlo todo ensanguentado e sujo de lama, e sua boca expelindo fluídos gosmentos, sua aparência assustadora contribui significativamente para associá-lo à figura de uma monstruosa fera assassina.      

“Cujo” foi lançado no mercado brasileiro de DVD no início de 2004, distribuído em bancas com preço popular, encartado na revista “DVD Collection” ano 2, número 15, da Editora “Van Blad”. O disco traz apenas o filme em formato de tela “Fullscreen” e legendas em português, sem nenhum material extra.
Seguem algumas curiosidades. Numa cena podemos ver o desenho animado “Scooby-Doo”, criado em 1969 pela dupla William Hanna e Joseph Barbera, sendo exibido na televisão para a audiência do garoto Tad. Outra curiosidade é que o filme teve locações nas cidades de Mendocino, Petaluma e Santa Rosa, no Estado da California, conforme informa os créditos de agradecimento dos produtores nos letreiros finais. A atriz Dee Wallace Stone, protagonista principal de “Cujo”, nasceu em 1949 e foi casada com Christopher Stone (que coincidentemente fez o papel de seu amante Steve no filme). Ela foi creditada sem o sobrenome Stone, e seu marido morreu em 1995, vítima de um ataque cardíaco. Sua filmografia é bastante significativa dentro do gênero fantástico, tendo atuado em filmes como “Quadrilha de Sádicos” (77), “Grito de Horror” (81), “E.T. – O Extraterrestre” (82), “A Hora das Criaturas” (86), “Popcorn” (91) e “Os Espíritos” (96). Já o veterano ator Ed Lauter, nascido em 1940, tem quase 120 filmes em seu currículo, e entre eles, “Tropas Estelares 2” (2004), continuação do sucesso do cinema em 1997 e lançado em DVD no Brasil, onde faz o papel de um general. 

Cujo” (Cujo, Estados Unidos, 1983). Duração: 91 minutos. Direção de Lewis Teague. Roteiro de Don Carlos Dunaway e Lauren Currier, a partir de história homônima de Stephen King. Produção de Daniel H. Blatt e Robert Singer. Fotografia de Jan de Bont. Música de Charles Bernstein. Edição de Neil Travis. Desenho de Produção de Guy J. Comtois. Efeitos Especiais de Rick Josephsen. Efeitos Visuais de Peter Knowlton. Elenco: Dee Wallace Stone (Donna Trenton), Danny Pintauro (Tad Trenton), Daniel Hugh Kelly (Vic Trenton), Christopher Stone (Steve Kemp), Ed Lauter (Joe Camber), Kaiulani Lee (Charity Camber), Billy Jayne (Brett Camber), Mills Watson (Gary Pervier), Sandy Ward, Arthur Rosenberg, Jerry Hardin, Merritt Olsen, Terry Donovan Smith, Robert Elross, Robert Behling, Clare Nono, Daniel N. Blatt.

(Juvenatrix - 11/07/2004)

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O Peixe Assassino (Killer Fish, Itália / França / Brasil, 1979)


Entre meados dos anos 70 e 80 do século passado, foram lançados muitos filmes explorando o tema de animais marinhos assassinos, inspirados pelo sucesso comercial de “Tubarão” (Jaws, 1975), de Steven Spielberg. Além da própria franquia criada por esse filme que se tornou um clássico, com três sequências lançadas em 1978, 1983 e 1987, tivemos ainda vários outros filmes como “Orca: A Baleia Assassina” (1977), “Piranha” (1978), “Piranhas 2: Assassinas Voadoras” (1981), “O Último Tubarão” (1981), “O Peixe Assassino” (Killer Fish, 1979), entre outros.
Esse último é uma bagaceira co-produzida pela Itália, França e Brasil, com direção de Antonio Margueriti (sob o pseudônimo Anthony M. Dawson), cineasta responsável por divertidas tranqueiras italianas de ficção científica dos anos 60 como “Destino: Espaço Sideral” e “O Planeta dos Desaparecidos”, lançadas num único DVD por aqui pela “Works Editora” por volta de 2007. As filmagens ocorreram em Angra dos Reis (RJ), e no elenco temos nomes conhecidos do cinema americano como Lee Majors (o ciborgue da nostálgica série de TV “o Homem de Seis Milhões de Dólares”, 1974 / 1978), James Franciscus (“De Volta ao Planeta dos Macacos”, 1970), e Karen Black (“A Casa dos 1000 Corpos”, 2003).
Na história, um grupo de ladrões americanos de joias está no Brasil, formado principalmente por Lasky (Lee Majors) e Kate Neville (Karen Black), além do mentor Paul Diller (James Franciscus), ex-funcionário de uma refinaria de óleo que tem esmeraldas guardadas num cofre. Eles roubam as pedras preciosas após explodirem reservatórios de combustível na usina, aproveitando a confusão do incêndio. Para despistar as autoridades policiais, eles escondem as pedras no fundo de um lago, para retirarem somente depois que os movimentos de busca diminuíssem.
Mas, o lago está repleto de piranhas, causando atritos e desconfiança no grupo de ladrões e espalhando o horror para quem entrasse nessas águas, incluindo um barco de turismo que ficou à deriva depois de enfrentar a fúria de um tornado. O barco estava levando entre seus passageiros uma equipe profissional de sessão de fotos, com o fotógrafo irritante Ollie (Roy Brocksmith), a modelo Gabrielle (Margaux Hemingway) e sua empresária Ann (Marisa Berenson).
“O Peixe Assassino” tem um roteiro muito simples e cheio de clichês, contando uma história banal sobre ladrões de joias, com intrigas e traições entre eles, e com o elemento de horror como pano de fundo através de piranhas assassinas comendo gente num lago (aproveitando a onda no cinema naquele período, explorando criaturas aquáticas carnívoras). O primeiro terço do filme é bastante arrastado, até que finalmente acontece a primeira morte sutil provocada pelas piranhas. Mas, infelizmente elas somente irão sangrar a tela com um pouco de violência mais para o final. Aliás, num total de 100 minutos de projeção, poderia ter uma redução de pelo menos 15 minutos, eliminando vários momentos tediosos sem envolver os peixes assassinos, que certamente são o maior interesse no filme.
Os efeitos especiais são bem toscos, mas garantem alguma diversão com as filmagens utilizando maquetes e miniaturas no desastre da refinaria, e no rompimento de uma barragem por um tornado falso, com uma consequente inundação que espalhou piranhas para todos os lados. Também tem o fato hilário da performance totalmente desinteressada de Lee Majors, um dos principais nomes do elenco, que no meio de cenas que deveriam ser carregadas de tensão, com a ameaça mortal das piranhas, ele parece excessivamente tranquilo e alheio ao perigo, eliminando qualquer credibilidade nos momentos de ataques.  
O filme recebeu também outro título por aqui, “Perigo no Lago”, quando foi exibido na televisão. É uma produção de baixo orçamento com história ambientada no Brasil e tem algumas curiosidades como a menção ao dinheiro da época (final dos anos 70), o cruzeiro, e a aparição no desfecho de um avião comercial da Varig, empresa que controlou boa parte da aviação brasileira e que agora não existe mais. O ator italiano Anthony Steffen (1930 / 2004), conhecido pelas inúmeras participações em filmes do gênero “spaghetti western”, também fez parte do elenco de “O Peixe Assassino”.
Apesar de todos os muitos defeitos, “O Peixe Assassino” ainda vale uma conferida pelas cenas sangrentas com as piranhas e pela curiosidade geral da ambientação da história no Rio de Janeiro.

(Juvenatrix – 07/05/20)





sexta-feira, 1 de maio de 2020

Devorado Vivo (Eaten Alive, EUA, 1976)


O diretor americano Tobe Hooper (1943 / 2017) é um nome bastante conhecido no cinema de Horror, mas teve uma carreira irregular, alternando entre filmes significativos e sempre lembrados pelos fãs, com outros de qualidade menor e geralmente esquecidos. Seu maior trabalho certamente é o eterno clássico “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), com sua história sangrenta que iniciou uma extensa franquia e contribuiu como inspiração e influência para uma grande produção que veio a seguir.
Sua filmografia inclui títulos como “Poltergeist, o Fenômeno” (1982), apesar que nesse caso os rumores indicam que boa parte da direção foi do produtor Steven Spielberg, além de outros filmes divertidos como o “slasher” “Pague Para Entrar, Reze Para Sair” (1981), a ficção científica “Força Sinistra” (1985), e o violento “Devorado Vivo” (Eaten Alive, 1976).
A história desse último é bem simples. Numa pequena cidade americana, um veterano soldado perturbado, Judd (Neville Brand, rosto conhecido pela série de TV de Western “Laredo”), é o dono de um hotel fuleiro chamado “Starlight”, localizado num pântano com um lago sinistro habitado por um enorme crocodilo sempre faminto e à espera da carne de animais ou dos eventuais hóspedes do hotel.
Para entrar no cardápio do réptil assassino, temos uma família em crise formada pelo estranho pai, Roy (William Finley), a histérica mãe Faye (Marilyn Burns, que já tinha sido a “scream queen” de “O Massacre da Serra Elétrica”) e a filha pequena Angie (Kyle Richards). Além também de Harvey Wood (Mel Ferrer), um pai de família com uma doença terminal, que junto com a filha Libby (Crystin Sinclaire), está procurando desesperadamente sua outra filha desaparecida, Clara (Roberta Collins). Para completar o time de hóspedes (ou vítimas), ainda temos o jovem arruaceiro Buck (Robert Englund, que mais tarde seria o popular vilão Freddy Krueger na franquia “A Hora do Pesadelo”) e sua namorada Lynette (Janus Blyth). E para investigar as mortes misteriosas temos o Xerife Martin (Stuart Whitman, da série de TV de Western “Cimarron”, e que faleceu em 16/03/2020 aos 92 anos).
Com o sucesso de “O Massacre da Serra Elétrica”, o diretor Tobe Hooper ficou em evidência e criou-se grande expectativa para seu próximo filme. Porém, numa comparação, é inevitável salientar que o conjunto da obra de “Devorado Vivo” é bem inferior. Mas ainda assim, o filme é bastante divertido e um destaque na carreira de Hooper pela alta dose de violência nas mortes sangrentas, pelas cenas de nudez gratuita e pelo elenco interessante, com muitos rostos conhecidos e atores experientes, pois além de todos os nomes já citados anteriormente, ainda temos Carolyn Jones, a Morticia da série de TV “A Família Addams”, no papel da Srta. Hattie, a proprietária de um bordel.
O roteiro, co-escrito por Kim Henkel (também de “O Massacre...”), foi inspirado num caso real de um “serial killer” que supostamente matava pessoas e alimentava seus jacarés de estimação com os cadáveres. Em “Devorado Vivo”, quase todas as ações se passam no hotel, com os hóspedes sendo violentamente atacados pelo perturbado Judd, portando uma enorme foice, lutando para não servirem de comida para o crocodilo. Os efeitos também são bem toscos, apesar que o réptil carnívoro de borracha ainda é muito mais interessante que os similares artificiais gerados por computador vistos numa infinidade de filmes modernos.
As filmagens foram feitas em estúdio, com pouca iluminação e a montagem dos cenários de um hotel barato e uma piscina simulando um lago onde vive o crocodilo falso, com o uso de muita névoa artificial para criar uma atmosfera sinistra e ajudar a esconder os defeitos de uma produção de baixo orçamento. O filme teve vários outros nomes alternativos como “Death Trap”, “Horror Hotel”, “Slaughter Hotel” e “Starlight Slaughter”.

(Juvenatrix – 01/05/20)