quarta-feira, 13 de maio de 2020

Minority Report - A Nova Lei (Minority Report, EUA, 2002)


Um dos escritores mais conhecidos e respeitáveis na literatura mundial de ficção científica é o americano Philip Kindred Dick (1928-1982). Em seu currículo figuram dezenas de romances e contos e algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema, tendo como destaques os filmes “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (Blade Runner, 1982), dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, e “O Vingador do Futuro” (Total Recall, 1990), de Paul Verhoeven e com Arnold Schwarzenegger.
Dessa vez, é um conto escrito em 1956 que foi filmado e estreou nos cinemas brasileiros em 02/08/02. Trata-se de “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report), um thriller de ficção científica dirigido pelo especialista em entretenimento Steven Spielberg e protagonizado pelo astro Tom Cruise, na primeira vez em que trabalham juntos.
A história é ambientada numa Washington DC futurista onde em 2054 o índice de criminalidade é zero não ocorrendo assassinatos há seis anos devido à ação de uma divisão de elite da polícia chamada de “Pré-Crime”, que prende os infratores antes deles cometerem seus delitos. Isso é possível graças às informações de premonição captadas através de três paranormais mutantes denominados “Pré-Cogs”, frutos de um programa experimental secreto, onde suas visões são digitalizadas e utilizadas para identificar as futuras vítimas e respectivos assassinos antes da consumação efetiva dos crimes.
Liderando essa equipe especial está John Anderton (Tom Cruise), que acredita veementemente na credibilidade do sistema devido aos resultados obtidos e por questões pessoais já que teve uma tragédia familiar envolvendo seu filho e que culminou com a separação da esposa, Lara (Kathryn Morris), e com o início de seu vício em drogas para suportar seus conflitos interiores, e com a “Pré-Crime” ele poderia ajudar a eliminar a criminalidade.
Porém, tudo repentinamente muda quando ele próprio é denunciado como um futuro assassino, ao mesmo tempo em que um detetive do Departamento de Justiça, Danny Witwer (Colin Farrell), surge para questionar o sistema avaliando sua eficácia para uma possível implantação no resto dos Estados Unidos. Anderton é acusado de um futuro assassinato dentro de 36 horas de uma pessoa que ele nem conhece, e então passa a ser perseguido por seus ex-companheiros de polícia, liderados pelo oficial Fletcher (Neal McDonough).
Após muita correria, perseguições, tiroteios, fugas espetaculares, reviravoltas e surpresas na trama, a única saída de Anderton é tentar descobrir a verdade dos fatos, procurando respostas seqüestrando até a principal “Pré-Cog”, Agatha (Samantha Morton), e questionando agora a eficiência do sistema que ele sempre defendeu ou provar a existência de uma possível conspiração.
“Minority Report” é um thriller bem movimentado e complexo mostrando um futuro próximo com belíssimos prédios, estradas e carros que incitam nossa imaginação (apesar do acelerado ritmo de modernização tecnológica em curso, acho particularmente difícil atingirmos o estágio proposto no filme daqui há 50 anos). Tom Cruise é um bom ator e está novamente muito bem no papel do policial atormentado pela perda do filho que passa de caçador à caça devido à acusação do programa de “Pré-Crime” que tanto ele defendeu, e o elenco ainda tem as presenças marcantes do veterano Max Von Sydow como Lamar Burgess, o diretor da organização e personagem com importante participação na trama, de Peter Stormare como o debochado cirurgião de transplantes ilegais de olhos (nessa época todos os cidadãos são reconhecidos pela leitura da íris ocular), e da veterana Lois Smith como a Dra. Iris Hineman, a criadora do projeto experimental dos “Pré-Cogs”.
Os efeitos especiais são de grande qualidade, principalmente na visualização em tela de cristal das imagens premonitórias dos videntes, na reprodução da imponente cidade futurista e na seqüência onde várias pequenas aranhas cibernéticas invadem um prédio à procura de John Anderton utilizando suas funções de reconhecimento dos olhos de todos os moradores.
Uma curiosidade é o fato do personagem de Tom Cruise ter seu rosto deformado novamente, nesse caso para ajudar em sua fuga utilizando o efeito temporário de uma química injetada na face, pois em seu filme anterior, o igualmente thriller de ficção científica “Vanilla Sky”, um fato similar aconteceu com o personagem David Aames que sofreu um acidente de carro e teve seu rosto desfigurado. 
“Minority Report” é uma bem sucedida parceria entre o rei de bilheterias Steven Spielberg e o astro Tom Cruise, que vem mostrando cada vez mais suas qualidades interpretativas (como na refilmagem de “Guerra dos Mundos”, em 2005, também de Spielberg). É uma produção longa em seus 146 minutos, porém com uma história inteligente baseada em obra do escritor Philip K. Dick, evidenciando um roteiro ágil, interessante, movimentado e repleto de situações que prendem a atenção do espectador, apresentando a complexidade de um futuro possível para a humanidade, e garantindo um excelente entretenimento.              

Observação: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 26/12/05, pela TV Globo, na sessão “Tela Quente”. 

(Juvenatrix - 2002)

terça-feira, 12 de maio de 2020

O Tesouro do OVNI (Top Line, Itália / Colômbia, 1988)


É inegável que boa parte do cinema fantástico bagaceiro italiano é divertido, pois temos uma infinidade de filmes tranqueiras com roteiros repletos de absurdos, para a satisfação dos apreciadores do estilo. Um exemplo disso é a tralha “O Tesouro do OVNI” (Top Line, 1988), já começando pelo título brasileiro no mínimo hilário. É uma co-produção entre Itália e Colômbia (as filmagens ocorreram em Cartagena, na região caribenha do país sul americano) dirigida por Nello Rossati (sob o pseudônimo Ted Archer), e que apesar da grande semelhança com meu sobrenome, não é meu parente.
A história é uma salada misturando elementos de aventura com ficção científica, explorando diversas temas como civilizações perdidas (o ouro dos astecas) com queda de disco voador, passando por robôs assassinos e alienígenas gosmentos hostis que querem invadir nosso planeta, além de conspiração governamental envolvendo o serviço secreto americano (CIA) e russo (KGB). Sem esquecer que a polícia e o exército colombianos são corruptos e ainda tem um nazista colecionador de tesouros.
Para completar, vale citar alguns nomes importantes que agregam muito valor ao elenco, como o ator italiano Franco Nero, com um currículo tão extenso que passa dos 200 filmes, e o veterano americano George Kennedy (1925 / 2016), outro rosto conhecido pela imensa carreira. Depois de tudo isso, dá para imaginar o nível de bizarrice, atiçando a curiosidade para ver o filme.
Um escritor falido e alcoólatra, Ted Angelo (Franco Nero), está na Colômbia pesquisando materiais para um livro sobre a história das civilizações que foram colonizadas pelos espanhóis nos séculos XV e XVI. Depois de ter contato com uma adaga asteca, ele decide procurar mais artefatos preciosos nas montanhas de Cartagena. Ele encontra uma caverna com uma caravela espanhola e uma nave espacial em seu interior, além de muitos objetos de ouro dos astecas.
A partir daí, o escritor aventureiro se envolve numa perigosa rede de intrigas e conspirações, acompanhado da jovem June (Deborah Barrymore), que conheceu depois do assassinato misterioso de seu amigo vendedor de antiguidades Alonso Quintero (William Berger). Eles são perseguidos por mercenários interessados no tesouro e agentes secretos interessados em ocultar a existência do OVNI, enfrentando problemas com sua editora, a ex-esposa americana Maureen De Havilland (Mary Stavin), com um perigoso nazista antiquário, Heinrich Holzmann (George Kennedy), e um robô alienígena assassino (Rodrigo Obregón).  
“O Tesouro do OVNI” é uma produção de baixo orçamento e roteiro hilário de tão ruim. Começa basicamente como um filme comum de aventura tendo o primeiro terço meio arrastado, apesar dos tiroteios e perseguições, e um destaque é a perseguição insana entre jipes numa estrada estreita nas montanhas. Porém, o que realmente irá despertar interesse para os apreciadores do cinema bagaceiro está na metade para o final, onde temos uma maior relevância para os elementos de ficção científica tranqueira, garantindo a diversão com uma grande quantidade de bizarrices. Principalmente com um ciborgue tosco no estilo “Exterminador do Futuro” e um alienígena gosmento (filmado propositalmente com cenas escuras para esconder os defeitos), concebido com aqueles efeitos especiais típicos da década de 80 do século passado, sem o artificial uso de imagens geradas por computador.
O filme foi lançado no Brasil na época dos vídeos VHS, pela VIC e também recebeu o nome alternativo original “Alien Terminator”.

(Juvenatrix – 12/05/20)




sexta-feira, 8 de maio de 2020

Cujo (EUA, 1983)


“Agora existe um novo nome para o terror”

O popular escritor Stephen King, autor de dezenas de livros de sucesso de horror, também é um dos que mais possui histórias adaptadas para o cinema. Ainda no início dos anos 80, um de seus primeiros trabalhos literários transformado em filme foi “Cujo” (Cujo, 1983), a partir de seu livro homônimo escrito dois anos antes, com direção de Lewis Teague, veterano cineasta nascido em 1938 e responsável por filmes como “Alligator – O Jacaré Gigante (80) e “Olho de Gato” (85), este também baseado na obra do “mestre do horror moderno”.

Cujo é o nome de um imenso cão da raça São Bernardo, aquele conhecido por suas características de resgate e salvamento de pessoas em regiões ermas, e com a imagem associada ao fato de levar um pequeno barril no pescoço. O cachorro é o animal de estimação de um garoto chamado Brett Camber (Billy Jayne), que vive num sítio nas proximidades de uma pequena cidade do interior no norte dos Estados Unidos, em Castle Rock, no Estado do Maine (local onde se passa a maioria das histórias de King). O garoto mora com sua mãe, Charity (Kaiulani Lee), uma mulher infeliz no casamento com Joe (Ed Lauter), um mecânico de automóveis egoísta que só está preocupado com seus interesses pessoais, deixando a família para segundo plano.
Ao perseguir um coelho pelo mato, Cujo acaba entrando com a cabeça numa caverna infestada de morcegos doentes, onde um deles morde seu nariz e lhe transmite a terrível raiva. Aos poucos, o anteriormente dócil cachorro vai se transformando num monstro assassino, com os olhos vermelhos, babas e gosmas escorrendo pela boca, e com o pêlo todo sujo e manchado de sangue, num aspecto extremamente ameaçador.
Enquanto isso, a ação volta-se paralelamente para uma família comum formada pelo casal Vic Trenton (Daniel Hugh Kelly), um publicitário bem sucedido mas que está enfrentando uma crise no trabalho, e pela bela Donna (Dee Wallace Stone), uma esposa adúltera que está tendo um romance com um marceneiro que presta serviços para a família, Steve Kemp (Christopher Stone). Eles ainda tem um filho pequeno, Tad (Danny Pintauro), que insiste em dizer que seu armário oculta um monstro imaginário.
Após a ocorrência de uma série de eventos coincidentes, a mãe e seu filho acabam tornando-se prisioneiros em seu próprio carro do raivoso cachorro, ávido por sentir o sabor de suas carnes na boca gosmenta. Os proprietários do sítio estão fora de casa, com Charity Camber indo visitar sua irmã com o filho Brett, e com Joe indo gastar o dinheiro ganho numa loteria numa viagem para Boston com o amigo Gary Pervier (Mills Watson), onde na verdade eles foram brutalmente atacados por Cujo antes de viajarem. Já Vic Trenton descobre a traição de sua esposa e decide fazer uma viagem de negócios, e Donna aproveita a oportunidade para levar seu carro com problemas mecânicos para o sítio de Joe, na intenção de consertá-lo.
A partir daí, o cachorro doente e assassino passa a ameaçar violentamente Donna e seu filho Tad, obrigados a ficarem presos em seu próprio carro quebrado, isolados num sítio distante e sem ninguém para socorrê-los, tendo ainda o agravante do menino sofrer de crises respiratórias que colocam ainda mais sua vida em risco, além do imenso cão tornar-se cada vez mais insano e agressivo com o passar do tempo e principalmente em reação ao barulho dos gritos de suas vítimas desesperadas.

Enfatizando a tagline promocional do filme, reproduzida no início desse texto, realmente “Cujo” faz por merecer seu nome associado ao terror, pois todas as cenas envolvendo sua participação como um cão assassino enlouquecido são de tirar o fôlego e causar pesadelos. Basta imaginar a terrível transformação de um animal de estimação inicialmente manso para uma criatura enraivecida e descontrolada, avançando mortalmente com os dentes afiados contra o pescoço de seus donos e todos que o cercam, passando de “o melhor amigo do Homem” para seu maior carrasco.
A longa sequência de claustrofobia em que uma mãe e seu filho estão presos dentro do próprio carro com pane mecânica, isolados e sem ter como fugir, sendo ferozmente vigiados o tempo inteiro e atacados por um cão que quer matá-los, é o grande destaque do filme, reservando ótimos momentos de tensão e suspense (aqueles em que o cão choca-se violentamente contra a porta do carro, na tentativa insana de entrar em seu interior, e arrebentando sua própria cabeça contra a superfície sólida do veículo são especialmente perturbadores). 
As cenas de mortes são poucas, mas carregadas de intensa violência de um animal enfurecido rasgando a carne de suas vítimas. Com seu pêlo todo ensanguentado e sujo de lama, e sua boca expelindo fluídos gosmentos, sua aparência assustadora contribui significativamente para associá-lo à figura de uma monstruosa fera assassina.      

“Cujo” foi lançado no mercado brasileiro de DVD no início de 2004, distribuído em bancas com preço popular, encartado na revista “DVD Collection” ano 2, número 15, da Editora “Van Blad”. O disco traz apenas o filme em formato de tela “Fullscreen” e legendas em português, sem nenhum material extra.
Seguem algumas curiosidades. Numa cena podemos ver o desenho animado “Scooby-Doo”, criado em 1969 pela dupla William Hanna e Joseph Barbera, sendo exibido na televisão para a audiência do garoto Tad. Outra curiosidade é que o filme teve locações nas cidades de Mendocino, Petaluma e Santa Rosa, no Estado da California, conforme informa os créditos de agradecimento dos produtores nos letreiros finais. A atriz Dee Wallace Stone, protagonista principal de “Cujo”, nasceu em 1949 e foi casada com Christopher Stone (que coincidentemente fez o papel de seu amante Steve no filme). Ela foi creditada sem o sobrenome Stone, e seu marido morreu em 1995, vítima de um ataque cardíaco. Sua filmografia é bastante significativa dentro do gênero fantástico, tendo atuado em filmes como “Quadrilha de Sádicos” (77), “Grito de Horror” (81), “E.T. – O Extraterrestre” (82), “A Hora das Criaturas” (86), “Popcorn” (91) e “Os Espíritos” (96). Já o veterano ator Ed Lauter, nascido em 1940, tem quase 120 filmes em seu currículo, e entre eles, “Tropas Estelares 2” (2004), continuação do sucesso do cinema em 1997 e lançado em DVD no Brasil, onde faz o papel de um general. 

Cujo” (Cujo, Estados Unidos, 1983). Duração: 91 minutos. Direção de Lewis Teague. Roteiro de Don Carlos Dunaway e Lauren Currier, a partir de história homônima de Stephen King. Produção de Daniel H. Blatt e Robert Singer. Fotografia de Jan de Bont. Música de Charles Bernstein. Edição de Neil Travis. Desenho de Produção de Guy J. Comtois. Efeitos Especiais de Rick Josephsen. Efeitos Visuais de Peter Knowlton. Elenco: Dee Wallace Stone (Donna Trenton), Danny Pintauro (Tad Trenton), Daniel Hugh Kelly (Vic Trenton), Christopher Stone (Steve Kemp), Ed Lauter (Joe Camber), Kaiulani Lee (Charity Camber), Billy Jayne (Brett Camber), Mills Watson (Gary Pervier), Sandy Ward, Arthur Rosenberg, Jerry Hardin, Merritt Olsen, Terry Donovan Smith, Robert Elross, Robert Behling, Clare Nono, Daniel N. Blatt.

(Juvenatrix - 11/07/2004)

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O Peixe Assassino (Killer Fish, Itália / França / Brasil, 1979)


Entre meados dos anos 70 e 80 do século passado, foram lançados muitos filmes explorando o tema de animais marinhos assassinos, inspirados pelo sucesso comercial de “Tubarão” (Jaws, 1975), de Steven Spielberg. Além da própria franquia criada por esse filme que se tornou um clássico, com três sequências lançadas em 1978, 1983 e 1987, tivemos ainda vários outros filmes como “Orca: A Baleia Assassina” (1977), “Piranha” (1978), “Piranhas 2: Assassinas Voadoras” (1981), “O Último Tubarão” (1981), “O Peixe Assassino” (Killer Fish, 1979), entre outros.
Esse último é uma bagaceira co-produzida pela Itália, França e Brasil, com direção de Antonio Margueriti (sob o pseudônimo Anthony M. Dawson), cineasta responsável por divertidas tranqueiras italianas de ficção científica dos anos 60 como “Destino: Espaço Sideral” e “O Planeta dos Desaparecidos”, lançadas num único DVD por aqui pela “Works Editora” por volta de 2007. As filmagens ocorreram em Angra dos Reis (RJ), e no elenco temos nomes conhecidos do cinema americano como Lee Majors (o ciborgue da nostálgica série de TV “o Homem de Seis Milhões de Dólares”, 1974 / 1978), James Franciscus (“De Volta ao Planeta dos Macacos”, 1970), e Karen Black (“A Casa dos 1000 Corpos”, 2003).
Na história, um grupo de ladrões americanos de joias está no Brasil, formado principalmente por Lasky (Lee Majors) e Kate Neville (Karen Black), além do mentor Paul Diller (James Franciscus), ex-funcionário de uma refinaria de óleo que tem esmeraldas guardadas num cofre. Eles roubam as pedras preciosas após explodirem reservatórios de combustível na usina, aproveitando a confusão do incêndio. Para despistar as autoridades policiais, eles escondem as pedras no fundo de um lago, para retirarem somente depois que os movimentos de busca diminuíssem.
Mas, o lago está repleto de piranhas, causando atritos e desconfiança no grupo de ladrões e espalhando o horror para quem entrasse nessas águas, incluindo um barco de turismo que ficou à deriva depois de enfrentar a fúria de um tornado. O barco estava levando entre seus passageiros uma equipe profissional de sessão de fotos, com o fotógrafo irritante Ollie (Roy Brocksmith), a modelo Gabrielle (Margaux Hemingway) e sua empresária Ann (Marisa Berenson).
“O Peixe Assassino” tem um roteiro muito simples e cheio de clichês, contando uma história banal sobre ladrões de joias, com intrigas e traições entre eles, e com o elemento de horror como pano de fundo através de piranhas assassinas comendo gente num lago (aproveitando a onda no cinema naquele período, explorando criaturas aquáticas carnívoras). O primeiro terço do filme é bastante arrastado, até que finalmente acontece a primeira morte sutil provocada pelas piranhas. Mas, infelizmente elas somente irão sangrar a tela com um pouco de violência mais para o final. Aliás, num total de 100 minutos de projeção, poderia ter uma redução de pelo menos 15 minutos, eliminando vários momentos tediosos sem envolver os peixes assassinos, que certamente são o maior interesse no filme.
Os efeitos especiais são bem toscos, mas garantem alguma diversão com as filmagens utilizando maquetes e miniaturas no desastre da refinaria, e no rompimento de uma barragem por um tornado falso, com uma consequente inundação que espalhou piranhas para todos os lados. Também tem o fato hilário da performance totalmente desinteressada de Lee Majors, um dos principais nomes do elenco, que no meio de cenas que deveriam ser carregadas de tensão, com a ameaça mortal das piranhas, ele parece excessivamente tranquilo e alheio ao perigo, eliminando qualquer credibilidade nos momentos de ataques.  
O filme recebeu também outro título por aqui, “Perigo no Lago”, quando foi exibido na televisão. É uma produção de baixo orçamento com história ambientada no Brasil e tem algumas curiosidades como a menção ao dinheiro da época (final dos anos 70), o cruzeiro, e a aparição no desfecho de um avião comercial da Varig, empresa que controlou boa parte da aviação brasileira e que agora não existe mais. O ator italiano Anthony Steffen (1930 / 2004), conhecido pelas inúmeras participações em filmes do gênero “spaghetti western”, também fez parte do elenco de “O Peixe Assassino”.
Apesar de todos os muitos defeitos, “O Peixe Assassino” ainda vale uma conferida pelas cenas sangrentas com as piranhas e pela curiosidade geral da ambientação da história no Rio de Janeiro.

(Juvenatrix – 07/05/20)





sexta-feira, 1 de maio de 2020

Devorado Vivo (Eaten Alive, EUA, 1976)


O diretor americano Tobe Hooper (1943 / 2017) é um nome bastante conhecido no cinema de Horror, mas teve uma carreira irregular, alternando entre filmes significativos e sempre lembrados pelos fãs, com outros de qualidade menor e geralmente esquecidos. Seu maior trabalho certamente é o eterno clássico “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), com sua história sangrenta que iniciou uma extensa franquia e contribuiu como inspiração e influência para uma grande produção que veio a seguir.
Sua filmografia inclui títulos como “Poltergeist, o Fenômeno” (1982), apesar que nesse caso os rumores indicam que boa parte da direção foi do produtor Steven Spielberg, além de outros filmes divertidos como o “slasher” “Pague Para Entrar, Reze Para Sair” (1981), a ficção científica “Força Sinistra” (1985), e o violento “Devorado Vivo” (Eaten Alive, 1976).
A história desse último é bem simples. Numa pequena cidade americana, um veterano soldado perturbado, Judd (Neville Brand, rosto conhecido pela série de TV de Western “Laredo”), é o dono de um hotel fuleiro chamado “Starlight”, localizado num pântano com um lago sinistro habitado por um enorme crocodilo sempre faminto e à espera da carne de animais ou dos eventuais hóspedes do hotel.
Para entrar no cardápio do réptil assassino, temos uma família em crise formada pelo estranho pai, Roy (William Finley), a histérica mãe Faye (Marilyn Burns, que já tinha sido a “scream queen” de “O Massacre da Serra Elétrica”) e a filha pequena Angie (Kyle Richards). Além também de Harvey Wood (Mel Ferrer), um pai de família com uma doença terminal, que junto com a filha Libby (Crystin Sinclaire), está procurando desesperadamente sua outra filha desaparecida, Clara (Roberta Collins). Para completar o time de hóspedes (ou vítimas), ainda temos o jovem arruaceiro Buck (Robert Englund, que mais tarde seria o popular vilão Freddy Krueger na franquia “A Hora do Pesadelo”) e sua namorada Lynette (Janus Blyth). E para investigar as mortes misteriosas temos o Xerife Martin (Stuart Whitman, da série de TV de Western “Cimarron”, e que faleceu em 16/03/2020 aos 92 anos).
Com o sucesso de “O Massacre da Serra Elétrica”, o diretor Tobe Hooper ficou em evidência e criou-se grande expectativa para seu próximo filme. Porém, numa comparação, é inevitável salientar que o conjunto da obra de “Devorado Vivo” é bem inferior. Mas ainda assim, o filme é bastante divertido e um destaque na carreira de Hooper pela alta dose de violência nas mortes sangrentas, pelas cenas de nudez gratuita e pelo elenco interessante, com muitos rostos conhecidos e atores experientes, pois além de todos os nomes já citados anteriormente, ainda temos Carolyn Jones, a Morticia da série de TV “A Família Addams”, no papel da Srta. Hattie, a proprietária de um bordel.
O roteiro, co-escrito por Kim Henkel (também de “O Massacre...”), foi inspirado num caso real de um “serial killer” que supostamente matava pessoas e alimentava seus jacarés de estimação com os cadáveres. Em “Devorado Vivo”, quase todas as ações se passam no hotel, com os hóspedes sendo violentamente atacados pelo perturbado Judd, portando uma enorme foice, lutando para não servirem de comida para o crocodilo. Os efeitos também são bem toscos, apesar que o réptil carnívoro de borracha ainda é muito mais interessante que os similares artificiais gerados por computador vistos numa infinidade de filmes modernos.
As filmagens foram feitas em estúdio, com pouca iluminação e a montagem dos cenários de um hotel barato e uma piscina simulando um lago onde vive o crocodilo falso, com o uso de muita névoa artificial para criar uma atmosfera sinistra e ajudar a esconder os defeitos de uma produção de baixo orçamento. O filme teve vários outros nomes alternativos como “Death Trap”, “Horror Hotel”, “Slaughter Hotel” e “Starlight Slaughter”.

(Juvenatrix – 01/05/20)





sábado, 25 de abril de 2020

Tijucamérica


Tijucamérica, José Trajano. Capa de Alceu Chiesorin Nunes. São Paulo: Paralela, 2015. 230 páginas.

Todo torcedor de futebol é um apaixonado imerso em suas ilusões, alegrias e, sobretudo, sofrimentos. Mesmo o dos grandes times já teve seus momentos de decepção. Mas em contraponto a elas todos os torcedores, seja de que time for, vive como momento único, glorioso, a vitória sobre o rival, uma goleada inesperada ou o título de seu time querido.
Não é segredo para quem acompanha futebol que José Trajano torce para o América, do Rio de Janeiro. Jornalista experiente e dos mais competentes, ele não engana o torcedor – como outros fazem – ao dizer que gosta de um time de menor expressão para não revelar sua verdadeira paixão por um time grande. Então, imagine o que deve ser a angústia de ser americano. Acho que é ainda pior do que torcer por um time pequeno, que nunca ganhou nada importante, pois se o América nunca foi grande como o Flamengo ou o Vasco, teve bons times e venceu alguns campeonatos em meados do século passado. Eu mesmo vi uma raspa de tacho desta fase, entre o final dos anos 1970 e anos 1980, quando o América engrossava para seus rivais e chegou a ser terceiro colocado no Campeonato Brasileiro de 1986.
Talvez pensando nisso e no desespero de concluir que seu time não voltará mais aos bons tempos – já há alguns anos disputa a segunda divisão do Campeonato Carioca e quase não tem mais torcedores –, é que Trajano resolveu escrever o romance Tijucamérica. Nele é revivida a emoção superlativa e insuperável de ver seu time campeão de novo. Mas não se trata de uma ficção que imagine o reerguimento do América. Trajano foi mais sensato e optou pelo caminho da nostalgia: reviver os gloriosos times e jogadores da melhor época do time. Mas não se trata de um livro de memórias. Não, Trajano resolveu trazer para os dias de hoje os ídolos do passado. Para isso, reuniu uma seleção dos mais poderosos pais-de-santo, espíritas e paranormais que se tem notícia no Brasil. Como nos sonhos mais loucos, pediu para que eles juntassem suas forças e ressuscitassem 25 dos melhores jogadores da história do América.
Depois de muita confabulação surgiram os zumbis do time americano para disputar um Campeonato Carioca extraordinário, fora do calendário oficial. Pois aos mortos-vivos do América seria preciso reviver também os dos outros times! Mesmo após algumas resistências, em especial da cartolagem de times rivais, o Carioca metropolitano, dos velhos tempos voltou em pleno século XXI. Além dos jogadores retornaram também os técnicos e dirigentes mais importantes. Trajano foi eleito presidente e resolveu que o América deveria voltar às suas origens, o bairro da Tijuca, onde viveu seus momentos de conquista.
O leitor familiarizado ou não com futebol já percebeu que estamos diante de uma história fantástica. E que explora como poucas na literatura brasileira de FC&F as possibilidades mágicas do panteão africano. Como ressalta o subtítulo “uma chanchada fantasmagórica”, o livro não resvala para um campo sobrenatural mais tradicional ou sombrio. Ao contrário, é solar, colorido e muito divertido. Pois além do futebol em si traça um retrato revivido inspirado da cena cultural carioca de meados do século passado, com as presenças de vários artistas, como Francisco Alves, Heitor Villa-Lobos, Lamartine Babo, Luz del Fuego, Noel Rosa, Orlando Silva, Tom Jobim, Vicente Celestino, Virgina Lane e muitos outros.
Desta forma Trajano vai narrando a formação do novo América e seu desempenho no campeonato jogo a jogo e é uma delícia ver as escalações dos times, e relembrar muitos craques do passado, inclusive dos outros times. E ao lado disso ele entremeia o texto com comentários e divagações sobre a cena cultural carioca, com muitos causos, boemia, canções e gastronomia de dar água na boca.
Outro aspecto interessante da obra é a da ligação primária dos times com os bairros, que permitiu a formação de muitos deles no Rio e em outras cidades do país, como São Paulo. Assim, a ligação do América com o bairro da Tijuca conferiu identidade a um e a outro, como se fossem uma continuidade. Não é coincidência que a saída do América da Tijuca, no início dos anos 1960, para o bairro do Andaraí, enfraqueceu a ambos, especialmente o clube que nunca mais foi o mesmo: times cada vez mais fracos e perda de torcedores. Unindo Tijuca com América o autor quis ressaltar esta relação umbilical que existe ainda hoje entre times e bairros. Em São Paulo, por exemplo, seria impensável ver o Palmeiras fora da Pompeia, o Corinthians fora do Parque São Jorge, ou a desvinculação do Juventus com a Moóca.
Tenho certeza que Trajano pôde ser feliz de novo com o seu querido América. E o melhor é que ele transmite esta alegria a quem lê e compartilha de sua “chanchada fantasmagórica”. Prova disso é que em seguida ele escreveu um outro romance Os Beneditinos (2018), em que revisita novamente o Rio antigo e se reúne a velhos amigos para voltar a praticar um esporte semelhante ao futebol, o walking futebol, também criado pelos ingleses, em que se joga sem tirar os pés do chão.
Ao ler Tijucamérica fiquei pensando em quem eu gostaria de ver num Palmeiras imaginário. Time grande que é, o Verdão viveu inúmeras glórias, mas eu mesmo passei por uma fase parecida como a do América do Trajano, quando fiquei 17 anos sem ver meu time ser campeão, entre 1976 e 1993. Então, vamos lá, se pudesse gostaria de ver uma formação como esta: 1 – Oberdan, 2 – Djalma Santos; 3 – Luís Pereira, 4 – Waldemar Fiume e 6 – Roberto Carlos; 5 – Dudu; 8 – Jair da Rosa Pinto e 10 – Ademir da Guia; 7 – Julinho Botelho, 9 – Liminha e 11 – Rodrigues. Teria muitos e muitos outros que não vi, mas esta formação seria fantástica, incluíndo Luís Pereira e Roberto Carlos, que eu vi, mas gostaria de saber como seria interagindo com os outros.
Tijucamérica é uma declaração de amor ao futebol e vem a se somar aos pouquíssimos livros que abordam o esporte bretão da perspectiva da ficção científica e do fantástico no Brasil. Eu mesmo organizei a antologia pioneira Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998), seguida pelo romance Fáfia: A Copa do Mundo de 2022, de Clinton Davisson (Nexus, 2004), e mais recentemente pelo ótimo romance sobrenatural O Drible, de Sérgio Rodrigues (Cia. Das Letras, 2013) – Peralvo, o craque do romance aparece em Tijucamérica! – e a antologia Futebol: Histórias Fantásticas de Glória, Paixão e Vitórias, organizada por Marco Rigobelli (Draco, 2014). Neste contexto a ficção de José Trajano, em especial, mostra como o potencial do fantástico pode ser bem aproveitado num tema pouco explorado pelo gênero. Um golaço!

Marcello Simão Branco

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A Besta de Yucca Flats (The Beast of Yucca Flats, EUA, 1961, PB)


No cinema fantástico bagaceiro existem aqueles filmes que de tão ruins e mal feitos acabam proporcionando entretenimento hilário, sendo cultuados ou constantemente lembrados pelos apreciadores do estilo, justamente pela produção paupérrima, roteiros absurdos, elencos inexpressivos e efeitos toscos, tudo de forma não proposital. E também tem outros filmes com todas essas mesmas características, mas nem ao menos conseguem divertir. “A Besta de Yucca Flats” (The Beast of Yucca Flats, 1961) faz parte desse último grupo, e a única coisa que garante um pouco de diversão é a presença do grandalhão Tor Johnson, sem dizer uma palavra, como o monstro do título. Tanto a direção quanto o roteiro são de Coleman Francis (1919 / 1973), que também colocou sua família, esposa e filhos, para participar do filme, tornando o resultado final ainda mais patético.   
 Na verdade não existe um roteiro, apenas um fiapo, um esboço mal desenvolvido. A história é sobre um cientista soviético, Joseph Javorsky (Tor Johnson, de outras bagaceiras dos anos 50 como “A Noiva do Monstro”, Plano 9 do Espaço Sideral” e “Noite das Assombrações”), que vai para os Estados Unidos no auge da guerra fria, entregar documentos secretos para os americanos, sobre a chegada da União Soviética na Lua. Mas, ele sofre um atentado por agentes espiões da “cortina de ferro” no deserto de Yucca Flats, no Estado de Nevada, onde são realizados testes de armas atômicas. Com a explosão de uma bomba nuclear, o cientista desertor é afetado pela exposição à radiação e se transforma na fera irracional do título.
Vagando a esmo pelo deserto e matando pessoas inocentes pelo caminho, o monstro persegue uma família em férias no local formada pelo pai, Hank Radcliffe (Douglas Mellor), a mãe Lois (Barbara Francis), e os dois filhos pequenos, Art (Alan Francis) e Randy (Ronald Francis). Porém, o cientista distorcido é caçado por uma dupla de policiais, Joe Dobson (Larry Aten) e Jim Archer (Bing Stafford).
“A Besta de Yucca Flats” só tem defeitos, nada se salva, e talvez vale a curiosidade em conhecer essa tranqueira apenas pela presença hilária do ator sueco Tor Johnson no papel da besta assassina. Um narrador (o próprio diretor Coleman Francis) tenta explicar a história, explorando a ideia da paranoia nuclear do conturbado período da guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, com o medo constante de explosões de bombas atômicas e seus efeitos devastadores, seja diretamente nas ondas de choque ou na exposição de radiação.
Tem uma cena inicial extremamente bizarra e completamente aleatória, não tendo relação com a história. É o assassinato de uma mulher por estrangulamento num quarto, logo após o banho. Só existe para mostrar uma mulher pouca vestida. O excesso de narração é cansativo. As filmagens não tiveram som, todos os poucos diálogos foram inseridos na pós-produção, e não estão sincronizados com as falas dos personagens. O filme é muito curto, apenas 54 minutos, mas que parecem intermináveis. As filmagens tem planos muito longos e arrastados, numa história em que não acontece nada de interessante, passando para o espectador um inevitável sentimento de tédio.
A esposa do diretor, Barbara Francis, faz o papel da mãe da família perseguida pelo monstro. Ela é péssima atriz, sempre agindo como um zumbi, não expressando emoções nem quando os filhos estão desaparecidos, perdidos no deserto. O cientista transformado em monstro pela radiação poderia (e deveria) ser muito mais ameaçador e cruel, e não tão patético. A maquiagem de Tor Johnson deve ser uma das mais paupérrimas da história dos filmes bagaceiros.
Curiosamente, tem uma referência direta para o clássico de Alfred Hitchcock “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959), com Cary Grant, na cena onde um avião em baixa altitude persegue um homem correndo por sua vida pelo deserto.      

(Juvenatrix – 23/04/20)