quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O Planeta dos Vampiros (Planet of the Vampires, Itália, 1965)



“Eles ousaram ir para além do espaço conhecido, e pelo terror desconhecido.”
‘O terror atormenta as galáxias! E o Universo estremece!”
“Um suspense arrebatador!”

A utilização de frases de efeito como essas acima, nitidamente exageradas, era uma estratégia comum de marketing para chamar a atenção do público nos antigos filmes de horror e ficção científica. Elas foram extraídas do trailer de “O Planeta dos Vampiros” (Terrore Nello Spazio / Planet of the Vampires), uma divertida bagaceira italiana de 1965.
A direção é do especialista e mestre do Horror gótico Mario Bava (1914 / 1980), cultuado pelo significativo legado no cinema fantástico, com preciosidades como “A Maldição do Demônio” (1960), “As Três Máscaras do Terror”, “O Chicote e o Corpo” (ambos de 1963) e “O Ciclo do Pavor” (1966), entre outros, e foi lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Clássicos Sci-Fi – Volume 1”. Antes, já havia sido lançado por aqui na época do VHS pela “LK-Tel Vídeo”.
Quando se pensa num filme de Ficção Científica com elementos de Horror, logo vem à mente “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott, que ficou eternizado na cultura pop, com toda uma franquia composta por vários filmes, quadrinhos, videogames e outros produtos, tornando-se referência para uma infinidade de filmes seguintes. Mas, um fato relevante que deve ser evidenciado é que muitos anos antes já havia sido lançado “O Planeta dos Vampiros”, um exemplo genuíno de FC com Horror e que certamente serviu de inspiração para “Alien”, devido aos elementos similares.
O filme é baseado na história “One Night of 21 Hours”, de Renato Pestriniero, publicada na revista “Interplanet” # 3. No roteiro de Ib Melchior temos duas naves espaciais, Argos e Galliot, em missão rumo ao nebuloso planeta Aura, para investigar misteriosos sinais eletrônicos que indicavam serem emitidos por alguma raça alienígena inteligente. Porém, chegando ao planeta, numa aterrissagem turbulenta, a tripulação da Argos sofre um ataque temporário de loucura e violência, com os astronautas tentando matar uns aos outros. Após recobrarem o controle de suas ações, eles tentam entender o mistério e descobrem que seus companheiros da Galliot também pousaram no planeta, mas estão mortos num ataque descontrolado de fúria entre eles.
O Capitão Mark Markary (o americano Barry Sullivan) e outros membros da tripulação como a oficial de comunicações Sanya (a brasileira Norma Bengell) e o engenheiro Wess Wescant (o espanhol Ángel Aranda), tentam consertar a nave para retornar ao espaço, mas enfrentam uma série de crises crescentes com os tripulantes mortos da Galliot saindo de seus túmulos e uma terrível ameaça invisível dos habitantes hostis do planeta.
“O Planeta dos Vampiros” é um daqueles divertidos filmes que representam muito bem o cinema antigo de ficção científica e horror com produção de baixo orçamento, desde a interessante história aos efeitos especiais datados, com a utilização de miniaturas e truques de perspectiva, numa época sem computação gráfica e com grande valor para a criatividade. O ambiente interno da nave é espaçoso, com grandes áreas livres e painéis repletos de interruptores, sinaleiros e botões com luzes coloridas, numa representação típica da época. E a estética externa da nave também é bem simples e rústica. Os uniformes dos astronautas são estilosos e exagerados no couro preto. A superfície do planeta Aura é fantasmagórica, envolta em névoa densa e rochas coloridas para todos os lados, evidenciando um sentimento perturbador de um ambiente alienígena, tudo encenado num estúdio vazio e preenchido com fumaça e luzes coloridas.
Em determinado momento, o Capitão Markary e sua colega Sanya encontram os destroços de uma nave colossal e os ossos enormes de seus tripulantes, sendo um dos destaques do filme quando eles investigam o interior dessa nave misteriosa.  
Antigamente não havia tanta preocupação com revelações e os chamados “spoilers” não tinham a importância de hoje, com a internet e as redes sociais proliferando informações. Esse fato é bem exemplificado no trailer, que traz um “spoiler” gigantesco sobre os alienígenas e suas intenções. Outra curiosidade interessante é que seria bem mais apropriado que o nome do filme fosse “O Planeta dos Zumbis”, pois os astronautas que abandonam suas covas estão mais para mortos vivos do que vampiros. O título foi escolhido para a versão americana da “American International”, produtora dos lendários Samuel Z. Arkoff e James H, Nicholson.
A narrativa é mais lenta, uma característica comum nos filmes mais antigos em oposição ao ritmo frenético, acelerado e barulhento das produções atuais carregadas de efeitos em CGI, e para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro do passado esse fluxo narrativo mais cadenciado é melhor e mais desejável.
“O Planeta dos Vampiros” é altamente recomendável, tem o mestre Mario Bava e um desfecho pessimista com final surpresa memorável.               

Diário de bordo do Capitão:
“Um capitão não deveria ter medo. E eu confesso agora, a quem estiver ouvindo, que hoje, agora mesmo, eu estou com medo. Minha tripulação não deve ficar sabendo. Devo mantê-la ocupada. Não devem saber que a situação é cada vez mais desesperadora à medida que passam os dias. Fala o Capitão Markary, da nave Argos, no planeta Aura, ano...

(Juvenatrix – 22/01/20)



sábado, 18 de janeiro de 2020

Ômega, o Planeta dos Condenados


Ômega, o Planeta dos Condenados (The Status Civilization), Robert Sheckley. Capa de Roberto de Sousa Causo. Tradução de Donald Garschagen. 147 páginas. São Paulo: Edições GRD, coleção Nova Ficção Científica GRD, no. 3, 1989. Lançamento original em 1960.


Um homem desperta da inconsciência em uma sala escura e fechada sem saber onde está e, pior, sem saber quem é. Imagina estar num hospital, mas fica ainda mais desorientado quando lhe dizem que está numa prisão. Na verdade é uma nave espacial a caminho do planeta Ômega, que abriga os condenados da Terra, onde poderão recomeçar suas vidas.
Assim começa o romance curto Ômega, o Planeta dos Condenados (The Status Civilization), do escritor norte-americano Robert Sheckley (1928-2005), um dos mais talentosos e inteligentes surgidos nos anos 1950, logo após a Golden Age dos anos 1940 e antes da emergência da New Wave nos anos 1960.
O prisioneiro de número 402 é informado que seu nome é Will Barrent, e foi condenado pelo crime de assassinato. E da mesma forma que os outros não se lembra de sua vida pregressa na Terra e muito menos sobre as circunstâncias de seu crime.
Eles devem recomeçar uma nova vida, mas logo descobrem que não será fácil. Isso porque Ômega é socialmente dividido em castas muito rígidas, com os mais antigos tendo mais poderes e privilégios. Para conseguir ascender é preciso se defender dos riscos iminentes de serem mortos, pois as leis e os costumes permitem que se cometam assassinatos para subir de casta.
Barrent não terá paz e assim que chega tem de se defender de uma tentativa de assassinato. Mata seu oponente e assim ascende uma casta, ficando com os bens e os negócios de seu oponente. Passa a atuar numa loja de venenos, frequentada principalmente por mulheres, em franca minoria, cerca de um sexto da população do planeta. Aliás, este é um aspecto que poderia ser mais explorado, pois numa situação como esta as mulheres tenderiam a ser muito valiosas e disputadas. Ou mesmo poderosas.
Por meio da adaptação de Barrent é exposto o sistema social de Ômega, bastante cruel e desumano, no qual matar é incentivado. Por isso a expectativa de vida de quem chega é de apenas três anos. Quem burla as leis também é premiado, desde que sobreviva às punições previstas.
Numa noite Barrent é surpreendido com a visita de um sacerdote, mas não é o que parece. Ele representa o Mal, um culto a uma entidade chamada O Negro. Através de rituais de missas negras e com o sacrifício eventual de garotas virgens – muito raras – ele é exaltado como ser supremo da representação dos pecados humanos. Outra instituição curiosa é a Casa dos Sonhos, onde as pessoas são incentivadas a passarem algumas horas consumindo drogas. Barrent comparece aos dois lugares, mas não se sente à vontade em nenhum. Na verdade ele não aceita ter cometido o crime que lhe é imputado pois, de índole pacífica, não imagina como possa ter matado alguém. Para conseguir respostas ele visita o bairro dos mutantes, na periferia de Tetrahyde, a cidade principal de Ômega. Alguns dos mutantes têm a capacidade de vidência passada e, através de uma mulher, ele descobre detalhes sobre as circunstâncias de seu crime.
Sua rejeição à religião, às drogas e a visita aos mutantes, segregados do resto da sociedade, rende a Barrent a condenação a enfrentar Max, uma máquina assassina dos quais pouquíssimos escapam com vida. Colocado numa arena com a presença de uma multidão eufórica, ele tem de usar de toda sua habilidade para não morrer – como mostrado acima a capa do livro representa este duelo –, um dos momentos mais marcantes do livro. Contudo, percebe que não haverá mais paz, pois de uma prova ele é endereçado a outra ainda mais difícil. Nesta escalada ele procura fugir e descobre a existência de uma resistência secreta, formada por condenados por crimes não violentos, especialmente perseguidos políticos da Terra. Com isso, passa a ter mais um objetivo, além de sobreviver e desvendar seu passado. Uma tentativa de reverter o sistema cruel de Ômega e voltar à Terra.
Infiltrado numa das naves que trazem novos prisioneiros Barrent volta ao seu planeta natal. O objetivo é descobrir como ele está e, se for o caso, fazer contato com uma possível oposição com o intuito de juntar forças contra a opressão do sistema. E, de novo, ele fica chocado. Agora com o que se tornou a Terra, que há cerca de 800 anos estabeleceu um governo mundial, mas sem espaço para qualquer outra forma de expressão ou comportamento senão aquele aprovado pelo Estado, que cuida das leis e punições, enquanto máquinas e robôs gerenciam a administração e a economia. Os que se opõe ou cometem algum crime previsto são deportados para Ômega. Mas Barrent descobre que os terráqueos estão decadentes, vivem numa sociedade em anomia e sem objetivos. Desde a infância as pessoas são doutrinadas – como numa lavagem cerebral – a serem obedientes e conformadas, e mesmo para aqueles que se rebelam e são condenados à Ômega, há uma proteção final para preservar a utopia vivida na Terra.
Como se percebe é um livro bastante crítico e sofisticado do ponto de vista social e político. Embora curto, apresenta um painel bastante complexo das sociedades dos dois planetas, talvez facilitado com o recurso engenhoso de expor tudo por meio de acontecimentos na vida do protagonista, o que torna a narrativa ágil e cheia de suspense, pois Barrent enfrenta desafios o tempo todo em sua luta para sobreviver e descobrir sobre o seu passado.
Histórias sobre planetas prisões não são incomuns na FC, como Regresso a Zero (Retour a “0”, 1956), de Stefan Wul, Revolta na Lua (The Moon is a Harsh Mistress, 1966), de Robert A. Heinlein, e Estação dos Exilados (Hawksbill Station, 1968), de Robert Silverberg. Mas Ômega talvez tenha a reflexão social e política mais aguda, mostrando um mundo que destrói a identidade e a individualidade. Poderia ser visto como uma metáfora anti-comunista, já que foi escrito em plena Guerra Fria. Mas acredito que seja mais do que isso, pois reflete em termos amplos sobre a condição de humanidade, afinal descaracterizada na ditadura homogenizadora da Terra e na violência institucionalizada de Ômega. Pois uma mostra a decadência e outra a barbárie. Como indica o título original é a sombria condição a que chegou a civilização.
Antes deste romance Sheckley só teve publicado no Brasil sua excepcional coletânea Inalterado por Mãos Humanas (Untouched by Human Hands), no distante ano de 1970 pela editora Brasiliense. Nesta onda favorável destes últimos anos de publicação de autores estrangeiros de FC no país, Robert Sheckley é um nome que se impõe a ser redescoberto, pela sua qualidade literária refinada e sua visão de mundo satírica e pessimista. Um autor necessário, e que tem em Ômega, o Planeta dos Condenados uma pequena obra-prima.

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O livro do juízo final, Connie Willis

O livro do juízo final (Doomsday book), Connie Willis, 573 páginas, tradução de Braulio Tavares. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Um dos mais explosivos temas de debate sobre ficção científica no Brasil do século 21 é a representatividade das mulheres no gênero. Mas isso não é de hoje. Desde os primeiros eventos do gênero no país, ainda nos anos 1980, já se trata do assunto, com painéis formados exclusivamente por escritoras e a produção de antologias feministas. A diferença entre o antes e o agora é que a vontade de criar uma discussão quantitativa parece ser mais importante que as obras em si. E assim, tudo aquilo de que realmente vale a pena falar fica para segundo plano. E isso é muito injusto com as autoras que tanto contribuíram para o amadurecimento do gênero, tanto no Brasil quanto no mundo.
Um dos muitos títulos recorrentes nessa discussão recente é O livro do juízo final, da escritora  americana Connie Willis, publicado em 1992 mas que só chegou ao Brasil em 2017, com tradução de Braulio Tavares para o selo Suma das Letras, da editora Companhia das Letras, primeiro de uma série sobre as aventuras dos historiadores de Oxford.
Contudo, Willis não é uma novidade, mas uma saudosa conhecida dos leitores do gênero no Brasil. Isso porque, durante os poucos anos que a revista Isaac Asimov Magazine teve edição brasileira pela editora Record, nos anos 1990, a autora foi bastante publicada e muito bem avaliada pelos leitores. Esperava-se, a época, que a própria editora lançasse romances dos autores vistos ali, mas isso praticamente não aconteceu, com exceção de Charles Sheffield, outro ótimo e frequente autor da IAM que teve os livros Maré de verão e Divergência traduzidos pela Record. Com o pranteado fim da revista, em sua edição 24, muitos desses excelentes autores, que estavam na linha de frente da fc mundial do final no século, acabaram esquecidos e só agora voltam a pauta.
Willis tem uma fc emotiva e introspectiva, e essas características estão presentes em O livro do juízo final, que conta com personagens muito bem elaborados, envolvimentos profundos e sem pieguismo, e uma narrativa naturalista que deixa tudo muito crível, por mais absurdo que seja. Lembro-me vividamente da novela "O último dos winnenbagos", na qual um casal de idosos viaja por estradas americanas futuristas em um anacrônico motorhome.
O título O livro do juízo final é algo enganoso. Enquanto eu carregava o livro por aí, durante a leitura, muita gente se espantava e acreditava que se tratasse de um livro religioso e escatológico. O fim do mundo é um tema que apavora a maior parte das pessoas mas, ainda que seja um título muito bom e adequado, não anuncia perfeitamente o que o texto traz.
A história acompanha a viagem de Kivrin Engle, estudante da universidade de Oxford – provavelmente uma doutoranda ou algo do gênero – à idade média, mais exatamente ao ano de 1320, a partir de uma tecnologia de viagens no tempo que parece bastante comum em 2050, época em que parte da história se passa. O livro começa já nos preparativos finais da viagem, que não é consenso entre os doutores ligados ao departamento de História da universidade. Sr. Dunworthy, uma espécie de mentor de Kivrin, discorda do método apressado do departamento Medieval que está adiante da missão e tenta suspender a viagem por todos os meios, mas é voto vencido. Willis desfralda aqui o ambiente conflituoso que caracteriza o campo acadêmico em que os doutores lutam por espaço para suas teorias, sem medir as consequências de seus atos. Esse é o tema favorito da fc desde Frankenstein e aqui segue mais ou menos o mesmo caminho. Porque, é claro, alguma coisa vai dar muito errado.
Pouco depois da máquina ser acionada, uma virose altamente contagiosa surge na Londres futurista e o foco parece ser justamente o laboratório do qual Kivrin partiu. Enquanto os cientistas e técnicos ligados a missão adoecem um após o outro, com febres altas e delírios, Kivrin segue sua incursão ignorando o que acontece em seu tempo. Porém, como ela também havia contraído a doença, isso vai trazer uma série de imprevistos à missão e pode mesmo levá-la ao completo desastre. Sua esperança – que ela na verdade não tem conhecimento – é a fidelidade canina de Dunworthy, o único que parece realmente interessado em resgatar Kivrin de sua missão desafortunada. Porque a doença não permitiu que todos os parâmetros de segurança fossem implementados e, a cada hora que passa, as chances de trazer Kivrin de volta ficam ainda piores.
Temos então, duas narrativas paralelas: uma em 2050, quando Dunworthy move céus e terra para resgatar Kivrin de uma tragédia da qual ele não duvida um só minuto, e outra em 1320, em que a pesquisadora convive numa paupérrima aldeia medieval igualmente assolada por uma virose ainda mais mortal.
Willis demonstra habilidade narrativa, tecendo uma trama muito bem ajustada que peca apenas em um aspecto: não previu o impacto da telefonia móvel nessa sociedade do futuro. Afinal, numa época em que se pode viajar com segurança pelo tempo ao ponto de ser rotina na maioria das instituições, era de se imaginar que a sociedade contasse com meios de comunicação um pouco melhores que a telefonia com fio. Talvez, em 1992, ainda não fosse possível antever o fenômeno, mesmo nos EUA, então é necessário, para o bom aproveitamento da história, que o leitor releve esse detalhe, mesmo que não seja assim tão pequeno.
Tirando esse obstáculo do caminho, trata-se de uma história de personagens apaixonantes com os quais sofreremos emocional e fisicamente, instalados nas duas épocas de forma muito bem estruturada. É possível visualizar tanto o campus de Oxford e seus arredores, como toda a geografia e arquitetura da vila medieval, sem que se perceba como Willis faz isso, uma habilidade dominada por poucos. Só por isso, mais a saudade da autora que pode ser enfim aplacada em nós, já vale a leitura. Mas há muito mais o que se aproveitar. Altamente recomendável.
Cesar Silva

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Nosferatu (Alemanha, 1922)


“À noite, Nosferatu crava suas presas em sua vítima e alimenta-se de seu sangue, seu infernal elixir da vida. Cuidado para que a sombra dele não sobrecarregue seus sonhos com medos horríveis.”

Um dos mais importantes estilos cinematográficos da história do cinema de Horror é o “Expressionismo Alemão”, que produziu filmes principalmente na década de 1920. Caracterizado pelo uso de cenários e personagens distorcidos, com maquiagem exagerada e uma atmosfera sombria e sobrenatural obtida por recursos criativos de fotografia, com a ideia de expressar o momento pessimista e depressivo que a Alemanha enfrentava após a derrota na Primeira Guerra Mundial (1914 / 1918).
E um dos mais significativos representantes desse estilo é “Nosferatu” (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922), mudo, fotografia em preto e branco, e direção de F. W. Murnau. Foi lançado em DVD no Brasil em 2019, numa edição especial da “Versátil”, junto com a versão de 1979 dirigida por Werner Herzog, e vários materiais extras interessantes.
Ambientado em 1838 na cidade alemã de Wisborg, o corretor de imóveis Hutter (Gustav V. Wangenheim) vai para a Transilvânia, nos Montes Cárpatos, visitar o misterioso Conde Orlok (Max Scherek) para oferecer a venda de uma grande casa abandonada, que fica situada em frente da sua própria casa em Wisborg. Ao chegar num vilarejo próximo ao castelo desolado de seu cliente, ele é alertado pelos aldeões amedrontados e supersticiosos para não continuar a viagem até o sinistro conde, mas Hutter ignora os avisos. Ele é recebido por Orlok, também conhecido como o temível vampiro Nosferatu, e concretiza a venda do imóvel, mesmo sentindo uma desconfortável atmosfera sombria no castelo e com seu anfitrião estranho. As coisas complicam ainda mais depois que Orlok vê uma foto da bela e jovem esposa de Hutter, Ellen (Greta Schroder), por quem ele fica obcecado.
Nosferatu viaja para Wisborg e seu navio amaldiçoado chega ao porto trazendo um caixão com a terra natal do conde, junto com uma invasão de ratos pestilentos e todos os tripulantes mortos, deixando a polícia local intrigada e preocupada com a disseminação da peste negra na cidade. O vampiro se instala na nova casa e com hábitos noturnos e aversão ao sol, passa a perseguir implacavelmente a inocente Ellen em busca de seu sangue imaculado.
“Nosferatu” é um dos principais filmes mudos de horror que ficou eternizado com algumas das cenas mais clássicas e marcantes na história do gênero. Temos “a sombra do vampiro subindo as escadas para o ataque no quarto de Ellen” (e que ilustra um dos cartazes do filme); “o navio fantasma chegando ao porto sem ninguém vivo, trazendo a praga para a cidade”, e “Nosferatu levantando-se vagarosamente de seu repouso no caixão que está no navio da morte”, entre outras.
O filme possui uma diferença significativa em comparação com outros do expressionismo alemão, ao realizar filmagens externas com planos sinistros de florestas fantasmagóricas e do castelo gótico, em vez de cenários artificiais criados em estúdios. Outro detalhe interessante que merece registro é a concepção do vampiro, num estilo mais folclórico e assustador, com orelhas pontudas, sem cabelos, olhos profundos, dentes pontiagudos e dedos longos com unhas imensas, diferente dos vampiros românticos e sedutores muito explorados nos filmes seguintes. Curiosamente, na versão lançada em DVD pela “Versátil”, ao contrário de outras versões, as cenas externas possuem uma coloração azulada para passar uma ideia de ação noturna, uma vez que o vampiro seria destruído pela luz do dia.
Na época do lançamento nos cinemas, o retorno financeiro foi abaixo do esperado com uma recepção fria do público, e a produtora “Prana” entrou em falência poucos meses depois, ao enfrentar também um processo judicial movido pela viúva do escritor irlandês Bram Stoker, que acusou o filme de ser baseado sem autorização no livro “Drácula”, escrito em 1897. As cópias de “Nosferatu” foram recolhidas e destruídas, mas por sorte o filme conseguiu ainda sobreviver “como um vampiro” e recebeu várias restaurações para serem apreciadas pela eternidade, agregando um valor inestimável para o cinema de horror gótico.      

Da semente do Belial veio o vampiro Nosferatu, que vive e se alimenta do sangue dos homens e, sem redenção, faz sua morada em horrendas cavernas, sepulturas e caixões repletos de terra amaldiçoada dos campos da Peste Negra.

 (Juvenatrix – 01/01/20)

domingo, 22 de dezembro de 2019

Dicionário de línguas imaginárias, Olavo Amaral

Dicionário de línguas imaginárias, Olavo Amaral. 128 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Alfaguara, São Paulo, 2017.

Ainda que seja conceito comum entre os críticos da literatura brasileira que ela seja uma arte estagnada, recorrente em seus temas, quase sempre ligados à marginália, à pobreza e à violência, repetindo personagens e tramas que tornam a leitura previsível – e isso pode ser mesmo verdade – sempre houve uma corrente que fluiu em outras direções. De Machado de Assis a Guimarães Rosa, de Murilo Rubião a Ignácio de Loyola Brandão, de Monteiro Lobato a José J. Veiga, há dezenas de autores que escapam dessa análise superficial, que levam temas e tramas da literatura brasileira muito além da fronteira. Histórias de horror quase sempre, fantasia e ficção científica eventualmente, aparecem em todas as épocas, desde que foi permitido que os brasileiros publicassem o que escreviam.
Hoje temos um real movimento em busca desses horizontes, iniciado antes de tudo pelos leitores fãs de ficção científica que, na dificuldade de encontrar o que queriam, passaram a compor suas próprias histórias em fanzines, a princípio, e em blogues, mais recentemente. Esse movimento pré-fabricado nos anos 1960 e 1980, cresceu muito na era da internet e eclipsou aquele fluxo natural que continua lá, contudo.
Há quem diga que as obras de autores ligados ao realismo fantástico não são parte desse movimento. E não são mesmo. São autores mais incorporados ao mainstream, nunca identificados como "fãs", que emprestam para si a estética e os mecanismos de uma tradição latinoamericana que vem de muito mais longe. As histórias tem textura de weird fiction (referência à revista americana Weird Tales, publicada entre 1923 e 1954), em que os contornos da literatura de gênero não são claros e seus preciosos protocolos não são respeitados.
Este é o caso dos dez contos que formam esta coletânea de Olavo Amaral, portoalegrense nascido em 1979, médico, neurocientista,  cineasta e autor premiado, que tem em sua bibliografia as coletâneas Estática (2006) e Correnteza e escombros (2012), também relacionadas ao fantástico e ambas disponíveis para leitura na internet.
Dicionário de línguas imaginárias é o primeiro livro do autor pela Companhia das Letras e guarda tributo à Jorge Luis Borges, especialmente por conta do tema. Mas, enquanto Borges tinha no livro o seu objeto de especulação, Amaral volta sua atenção para a oralidade, a língua, e assim sustenta a mesma metalinguagem borgeana.
O conto que abre a seleta é "Uok phlau", estruturado na forma de um artigo sobre o trabalho de campo de um antropólogo junto a tribo nativa dos yualapeng, em cuja língua não existe a noção de "ir" e "vir".
"Travessia" é uma história mais convencional, sobre quatro homens que não falam a mesma língua e, por algum motivo não explicitado, estão presos em um contêiner, e os desdobramentos do estresse, medo e preconceito que surgem entre eles.
"Mixtape" é uma história sincopada, de tons eróticos, sobre um homem obcecado por um vídeo pornográfico.
"Quarto a beira d'água" retoma o estilo fantástico ao contar a tragédia de um casal depois que surge uma poça de água no meio de seu quarto de dormir.
"Iceberg" é uma fantasia com laivos de ficção científica. Um antropólogo passa o inverno observando à distância uma tribo de homens primitivos que vivem próximos ao litoral. O relato não deixa claro o que realmente está acontecendo, mas vamos sentir o estranhamento quando chega o verão.
"Choeung ek" apresenta uma sociedade que tem no turismo uma grande atividade comercial. Ali, os viajantes são encaminhados às "atrações" locais, que contam uma história tétrica e antiga de violência e crueldade, tudo muito profissional, é claro. Mas há um passeio especial, exclusivo para os turistas mais curiosos.
"O ano em que nos tornamos ciborgues" é uma ficção científica distópica, sobre uma revolução proletária fracassada que dá lugar a uma sociedade de coalizão. Sobreviventes mutilados pelo conflito são submetidos a um tratamento a base de implantes, mas ainda há muito com que se revoltar.
Em "Esquecendo Valdéz", o autor se achega ao modelo borgeano ao contar a história de um homem que forjou um intelectual inexistente a partir da produção de um livro no qual baseou seu trabalho acadêmico.
"Última balsa" tem um que de A estrada, de Cormac McCarthy. Conta o drama de um homem e um menino autista tentando sobreviver em uma ilha deserta após um naufrágio.
"Estepe" mostra o drama de um homem que tem uma doença incurável que avança tanto mais rápido quanto ele fala. O jeito é parar de falar e, para isso, ele vai viver com uma tribo nômade nas congeladas estepes russas, que não por acaso é o povo que menos fala no mundo.
Um livro curioso e perturbador, que sustenta a tradição do realismo fantástico brasileiro e latinoamericano com qualidades inegáveis, ótimas ideias e texto fluente. Leitura altamente recomendável que mostra que, ao contrário do que se pensa, há inteligência fora do fandom.
Cesar Silva

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Além do Planeta Silencioso

Além do Planeta Silencioso (Out of the Silent Planet), C. S. Lewis. Tradução de Waldéa Barcellos. 220 páginas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. Lançamento original em 1938.

Há alguns meses vi na livraria do Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, os três volumes da Trilogia Cósmica, ou Trilogia de Ransom, de C.S. Lewis: Além do Planeta Silencioso (1938), Perelandra (1943) e Aquela Força Medonha (1945). Lançamento de 2019, em edições bonitas, com capa dura, da editora de livros cristãos Thomas Nelson. Mas os preços estavam proibitivos.
O primeiro livro eu li quando tinha 19 anos, numa edição portuguesa da coleção Europa-América, no. 80, com título levemente diferente: Para Além do Planeta Silencioso, e seu impacto nunca de desfez. Assim, pensei: será que tantos anos depois valeria a pena ler de novo, agora incluindo os dois livros seguintes? É que tive um certo receio de não macular a memória afetiva do período da minha vida em que o li pela primeira vez. Mas, como disse, o livro me impressionou antes e, portanto, pela sua qualidade resolvi arriscar uma nova leitura. Por sorte, a editora Martins Fontes já havia publicado os três livros antes, entre 2010 e 2011, e os consegui por preços bem mais acessíveis.
Além do Planeta Silencioso é uma história de FC do subgênero planetary romance, em que acompanhamos a incrível aventura do linguista Elwin Ransom. Ele é raptado por dois cientistas e levado a Marte, com o intuito de ser oferecido a alienígenas em troca de ouro, abundante no planeta. Mas o livro revela-se muito mais do que este pobre pretexto. Ransom consegue fugir dos seus captores e perambula pelo planeta em busca de ajuda e sobrevivência. Com isso se depara com um mundo fantástico e desconcertante, em suas multicores, vegetação exuberante, seus rios e mares, planícies e montanhas. Por si só as descrições do mundo alienígena de Lewis valem a leitura e estão entre as mais belas e criativas de toda a ficção científica.
Ransom trava contato com uma civilização inteligente, os hrossa – semelhantes a focas –, que o abriga e inicia nos seus costumes e filosofia de vida poética e integrada à natureza. É um povo que extrai por meio da harmonia e simplicidade, uma postura tranquila e pacífica. Mas Ransom descobre que Marte – chamado de Malacandra por seus nativos –, inclui ainda mais duas espécies inteligentes: os sorns e os pfilfltriggi. Os sorns, grandes e semelhantes a pássaros, e os pfilfltriggi, os menores e parecidos com rãs. Linguista, Ransom aprende a se comunicar com as três espécies, aprendendo a língua dos hrossa que é comum a todos (apenas entre eles os sorns e os pfilfltriggi adotam linguagens próprias), e percebe que eles compõem o que chamam de hnau, os seres inteligentes que se respeitam e se complementam com estilos de vida e habilidade próprias. Os sorns mais empreendedores e os pfilfltriggi muito hábeis em construções e serviços manuais. Todos vivem em conexão íntima com o ecossistema do planeta, sem predação justificada por motivos políticos ou econômicos.
Os hanais dizem a Ransom que ele vem de Thulcandra, o planeta silencioso, e que deve ir ao encontro de Oyarsa, o governante e líder espiritual do planeta, que pertence a uma outra espécie, os eldil. Difíceis de serem descritos, por vezes se materializam, por vezes se manifestam com vozes ou sinais indiretos, numa indicação de serem seres etéreos ou sobrenaturais. Alguma semelhança com anjos não é coincidência.
O romance flui de forma leve, apesar de eivado de muitos simbolismos de ordem cristã. Há mesmo um frescor pulp na narrativa em geral – talvez efeito do tipo de ficção que se escrevia nos EUA na época –, o que só o torna mais atraente e prazeroso.
Ransom e seus dois captores descobrirão por que a Terra (Thulcandra) é chamado de o planeta silencioso, isolado de uma espécie de comunidade cósmica que interage pelos céus (e não pelo espaço em si), em busca de uma convivência mais virtuosa e cheia de confiança mútua.
Embora não seja explícita, a alegoria de Lewis é perceptível, no sentido de que a humanidade é uma espécie que decaiu em seus valores e costumes, perdeu-se no egoísmo, inveja, maldade e ganância, sendo mesmo orientada, sub-repticiamente, pelo Torto, como chamado por Oyarsa – um eldil que se bandeou para o mal. A alusão implícita aqui é com Lúcifer.
Além do Planeta Silencioso é um livro interessante e elegante, tanto em sua narrativa, que mistura aventura com descrições inspiradas da natureza, como na filosofia que prega, que longe de ser proselitista, se aproxima mais do que poderíamos chamar de uma visão de mundo pautada por uma ética humanista e cristã.
Em mais um aspecto de interesse o livro se revela metalinguístico, surgindo como um relato fictício de uma experiência verdadeira, através do qual Ransom – também um nome inventado –, achou mais adequado revelar à humanidade sua experiência e descobertas. Não dá para deixar de pensar que Ransom é um alter ego do próprio Lewis – que, depois de ateu na juventude, se tornou reverendo e professor de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge.
E esta literatura de ficção especulativa baseada em alegorias cristãs prosseguiu anos depois quando Lewis concebeu sua série As Crônicas de Nárnia (The Chronicles of Narnia), composta por sete livros, publicados entre 1950 e 1956. Também aqui, e de forma leve e implícita, as aventuras, agora de alta fantasia, são protagonizadas por crianças e animais falantes no Reino de Nárnia.
Aqui no Brasil o livro tem uma importância editorial histórica, pois inaugurou a mais importante coleção da ficção científica brasileira, a FC GRD, editada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea, em 1958 - veja a capa acima à direita. A escolha do livro não foi um acaso, pois uniu a paixão de Dorea pela FC e sua vinculação estreita com o catolicismo. O livro ainda seria republicado em meados dos anos 1970, como Longe do Planeta Silencioso – tenho a segunda edição, de 1979 –, pela editora cristã Livros Co-Lab, de Umuarama, Paraná, numa tradução do Reverendo Amantino Adorno Vassão. Depois os três volumes foram publicados na coleção Europa-América, de Portugal, o já citado no. 80 (em 1984), Perelandra Viagem a Vênus, no. 179 (em 1991), e Aquela Força Medonha, nos. 185 e 186 (também em 1991). E voltou a ser publicado no Brasil em 2010 com a edição que usei para esta resenha, seguido em 2011 com a publicação inédita das duas sequências, todos pela WMF Martins Fontes, até a edição mais recente da editora Thomas Nelson, em 2019.
Escrito em 1938 é um livro que também discutiu a sua época, às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), como uma espécie de alegoria sobre a condição crítica da humanidade, à beira da barbárie absoluta. Mas seu interesse perene nos anos posteriores, inclusive aqui no Brasil, confirma o seu status de clássico, por equilibrar com rara elegância discussões filosóficas profundas e um sense of wonder dos mais belos.


Marcello Simão Branco

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Atmosfera Rarefeita


Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro, Alfredo Suppia. 400 páginas. São Paulo: Devir Livraria, Coleção Enciclopédia Galáctica, 2013.


Há certos livros que de saída chamam a atenção pelo tema. Pois este é o caso de Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro. O assunto, à primeira vista, pode causar estranheza a um leitor desavisado ou não familiarizado com a ficção científica, mesmo entre aqueles da área de cinema. Mas mais importante do que isso é que este trabalho – fruto da tese de doutorado do autor, defendida em 2007 – desmistifica lugares comuns e abre a possibilidade de um novo e instigante campo de pesquisa. Para o cinema brasileiro, para a ficção científica, e para os estudos culturais brasileiros.
Alfredo Suppia, que é professor do Instituto de Artes da Unicamp, inicialmente apresenta algumas considerações de ordem teórica, de como compreende o que caracterizaria a FC, baseando-se nos conceitos de intertextualidade e do novum – este desenvolvido pelo acadêmico croata Darko Suvin. Grosso modo, o primeiro relacionado às apropriações e intersecções possíveis entre diferentes assuntos dentro de um mesmo gênero temático de histórias, ou a elas associadas. Já o segundo se refere ao elemento decisivo que torna possível caracterizar uma história como sendo de FC, que a diferenciaria do mundo tal qual lidamos e conhecemos. Tem equivalência na ideia do estranhamento cognitivo, mas talvez seja mais incisiva para pontuar o que pertence ou não ao campo da FC. Estas considerações serão importantes ao longo dos capítulos, principalmente ao analisar ênfases diferentes dos filmes brasileiros vinculados ao gênero.
Depois de apresentar um breve histórico sobre a trajetória da literatura brasileira de FC – que também servirá de substrato para discussões posteriores – Suppia parte para o núcleo duro de sua pesquisa. Nos capítulos três e quatro ele expõe uma extensa e detalhada resenha de dezenas de filmes brasileiros de FC, de longa e curta metragem. Realiza esta façanha de forma cronológica. Primeiro num capítulo sobre os longas-metragens e depois noutro com os curtas-metragens, mostrando com riqueza de detalhes o desenvolvimento do cinema de FC brasileiro, suas fases, características, padrões recorrentes, virtudes e limites.
Assim, são comentados 95 filmes longa-metragem e 63 curtas-metragens. De 1908 a 2013, quando foi publicado o livro. Praticamente um século de análise! Dentro deste longo percurso foi identificado alguns temas mais recorrentes em determinada época, e outros que tem se tornado padrão, se estabelecendo como um tema tradicional do cinema de FC do país. Numa primeira vertente, filmes que satirizam, por meio de elementos ou iconografia, aspectos da sociedade brasileira. Com o passar das décadas esta tendência foi se enfraquecendo, sendo especialmente presente até, pelo menos o final da década de 1950. A esta tendência emergiu outra que relaciona a FC com o humor e a paródia, seja de temas da sociedade, seja do próprio gênero em si, com adaptações que se inspiraram em clássicos do gênero, característica presente principalmente nos filmes do grupo Os Trapalhões, entre os anos 1960 e 1980. Filmes como, por exemplo, Os Trapalhões no Planalto dos Macacos (1976) e Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978). A intenção destes filmes, fora o óbvio entretenimento e grande apelo popular, seria o de estabelecer uma reflexão do quanto somos subdesenvolvidos, tanto em termos sócio-econômicos, como em termos tecnológicos – da ciência e do cinema em si. Outros filmes marcantes se inserem nesta perspectiva, ainda que com nuances um pouco mais matizadas, como Carnaval em Marte (1954), O Homem do Sputnik (1959) e Os Cosmonautas (1962), que partem do modelo consagrado da chanchada para inserir temas de ficção científica.
 A partir dos anos 1960 uma nova perspectiva começa a ser vislumbrada, a de filmes mais centrados em temas sociais e políticos, como O Quinto Poder (1962), O Homem que Comprou o Mundo (1968), Brasil Ano 2000 (1969), entre alguns outros poucos que não firmaram uma tendência para as décadas posteriores, embora não tenham desaparecido completamente, como pode ser visto em filmes como O Efeito Ilha (1994) e nos mais recentes Branco Sai, Preto Fica (2015) e Bacurau (2019).
Contudo, a perspectiva crítica mais interessante do cinema brasileiro de FC tem sido a abordagem dos temas ambientais, o que faz todo o sentido num país de dimensões continentais, em processo de desenvolvimento econômico e com a maior floresta tropical do planeta e a maior biodiversidade. Como conciliar o desafio de construir uma nação material e socialmente desenvolvida com esta base ecossistêmica? Pergunta que tem desafiado gerações de ambientalistas, economistas, políticos e formuladores de políticas públicas recebeu diversas interpretações, ao longo da trajetória do nosso cinema. Filmes representativos nesta seara são Quem é Beta? (1973), Parada 88: Limite de Alerta (1978), Abrigo Nuclear (1981), Por Incrível que Pareça (1986), Oceano Atlantis (1993) e Acquaria (2004).
Nos últimos anos têm surgido alguns filmes estrelados por atores conhecidos que, mesmo não se assumindo como FC, pertencem ao gênero e podem servir, se esta tendência se mantiver por alguns anos, para um processo de popularização do gênero entre público e crítica. Exemplos como Redentor (2004), A Máquina (2005), Nosso Lar (2010) – este no subgênero espírita, de grande apelo –, O Homem do Futuro (2011) e o já citado Bacurau (2019).
Num primeiro momento ler sobre centenas de filmes pode parecer um pouco cansativo, afinal estes dois capítulos vão da página 29 até a página 236, mas creio que num trabalho pioneiro como este é mais que justificado. Antes de mais nada, vale registrar aqui o volume impressionante de informações que ele levanta – com o mérito adicional de entrevistar vários dos diretores dos filmes – mostrando ser um pesquisador dedicado e apaixonado. Mas a leitura das quase duzentas páginas destes dois capítulos é das mais divertidas. Eu, pelo menos, fiquei com muita vontade em ver filmes absolutamente raros e obscuros, e ao mesmo tempo, frustrado porque a imensa maioria deles não se encontra à disposição, seja na internet e muito menos no mercado de DVDs ou blu-rays. Ainda mais do que na literatura brasileira de FC, há um campo enorme a ser descoberto por parte de fãs, críticos e público interessado sobre o que já foi feito (e se faz) em termos de cinema do gênero.
Mas se estes dois capítulos em si já seriam uma contribuição mais do que suficiente para tornar o livro uma referência tanto para o cinema quanto para a FC no Brasil, Suppia parte para uma discussão mais analítica sobre porque o cinema brasileiro de FC se desenvolveu destas formas, suas possíveis ligações com o realismo mágico e das dificuldades de reconhecimento que a FC encontra tanto no cinema, como na literatura para se tornar uma forma de expressão artística vista como relevante por si enquanto criação, e também enquanto caminhos para refletir sobre problemas da realidade brasileira.
Inicialmente ele procura relativizar a noção de que o cinema brasileiro – e o de FC em particular – deve ter como parâmetro de comparação e qualidade apenas Hollywood. Assim, compara a produção brasileira como a de países com condição social e tecnológica semelhante, como o México, Argentina e o Leste Europeu. Novamente por meio da resenha de alguns filmes importantes de cada país, ele mostra que a questão geográfica nem sempre é a mais adequada para se identificar similaridade entre a produção dos países, mas sim suas conexões e afinidades culturais. Neste sentido, o cinema mexicano se assemelha mais ao brasileiro – principalmente no que diz respeito a não se levar muito a sério e de se reconhecer como tecnologicamente inferior –, do que ao do seu vizinho rico do norte, e o argentino ao da Europa Ocidental, em seu caráter mais sério e socialmente crítico.
O cinema brasileiro de FC tem dificuldades de afirmação e reconhecimento – especialmente no formato longa-metragem –, porque ainda reina um senso comum de que estamos tecnologicamente atrasados com relação aos EUA, e o gênero ser considerado como de pouca relevância num país com tantos problemas históricos e sociais. O livro mostra de forma convincente que o primeiro argumento não se sustenta. Se é fato de que não há condições de se produzir no Brasil filmes com efeitos visuais como os de Hollywood – apesar de novas tecnologias digitais terem reduzido esta distância nos últimos anos –, por outro, isto não é tão importante assim, pois é possível contar boas histórias concentrando-se mais nos roteiros e interpretações. Ou seja, no aspecto mais dramático e de conteúdo do cinema.
Tomando como inspiração o artigo clássico de Fausto Cunha, “FC no Brasil, um Planeta Quase Desabitado”[1], Suppia nomeia o cinema brasileiro como de “atmosfera rarefeita”, mas não invisível dada a quantidade nada desprezível, resistente e contínua da prática de produções cinematográficas brasileiras de FC, mesmo que boa parte delas, em especial nos longas-metragens, tenham sido realizados sem a consciência ou intenção de serem identificados com o gênero. O fato é que o cinema enfrentaria uma dificuldade ainda maior do que a literatura de ser reconhecido e praticado, dado os custos altos exigidos pela arte cinematográfica, mesmo aquela realizada com orçamentos modestos.
Atmosfera Rarefeita, publicado em 2013, é uma obra de referência de qualidade inegável e coloca-se no mesmo patamar que Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil, 1875-1950 (2003), de Roberto de Sousa Causo, tem para os estudos históricos e pesquisas sobre a literatura de FC brasileira.
O livro é ainda completado por dezesseis páginas coloridas de rico e raro material visual de produções brasileiras de FC, mas ficou incompleto pela ausência de uma listagem dos filmes citados e analisados, além de um índice remissivo, que seria de grande utilidade numa obra desenvolvida com tantas minúcias de informações, especialmente sobre filmes e realizadores.

– Marcello Simão Branco


[1] Publicado como capítulo extra do livro No Mundo da Ficção Científica (Science Fiction Reader´s Guide), de L. David Allen. Summus Editorial, 1975.