domingo, 7 de junho de 2015

O Fim do Amanhã / No Limite da Salvação (Age of Tomorrow, EUA, 2014)


A produtora americana “The Asylum” é conhecida por seus filmes tranqueiras de ficção científica e horror, com roteiros ridículos, atores inexpressivos e efeitos especiais vagabundos. São produções baratas feitas em pouco tempo sem qualquer tipo de preocupação com lógica, verossimilhança ou qualidade. O importante é produzir em quantidade e descarregar seus filmes em lançamentos em DVD e exibições na televisão, como o canal a cabo “SyFy”, especializado no gênero. Podemos considerar como o “cinema bagaceiro do século XXI”, que se hoje é ruim demais e um exercício de coragem e excesso de tolerância para conseguir assistir, pode ser que daqui meio século essas porcarias até sejam cultuadas, justamente por suas características bagaceiras. Assim como atualmente temos uma legião de apreciadores dos filmes tranqueiras com roteiros absurdos e efeitos toscos produzidos em imensa quantidade a partir de meados do século passado.
“The Asylum” também é conhecida por descaradamente e assumidamente copiar o nome, a ideia central e partes das histórias de filmes com orçamentos milionários, aproveitando o sucesso comercial dos chamados “blockbusters”. Eles lançam em pouco tempo as suas versões fuleiras desses filmes de grandes bilheterias, que ganharam o nome pejorativo “mockbusters”. Dentro desse princípio, a produtora oportunista fez “O Fim do Amanhã” (Age of Tomorrow), dirigido por James Kondelik, e que também ganhou o título no Brasil de “No Limite da Salvação”, quando exibido pelo canal de TV “SyFy” (algo típico em nosso país, que costuma criar vários nomes para os filmes, confundindo e dificultando um trabalho de pesquisa e catalogação). No caso, o plágio é para o ótimo “No Limite do Amanhã” (Edge of Tomorrow), com o astro Tom Cruise.
Na cópia picareta, um grande asteróide está em rota de colisão com a Terra, obrigando o exército, sob o comando do General Magowan (Robert Picardo), com o auxílio do Coronel Mac (Mitchell Carpenter), a organizar uma equipe para uma missão que viajaria até o asteróide a bordo de um foguete e tentaria explodir partes dele, desviando sua rota. A equipe é liderada pelo Capitão James Wheeler (Anthony Marks), que conta com a ajuda da cientista Dra. Gordon (Kelly Hu), entre outros. Lá chegando, eles encontram uma caverna e em seu interior uma sala de controle com um portal tecnológico de teleporte para outro planeta, descobrindo que o asteróide é apenas uma ponte para uma invasão alienígena. Enquanto isso, numa trama paralela, na Terra as pessoas estão sendo atacadas por máquinas fortemente armadas e um bombeiro metido a herói (típico dos americanos), Chris Meher (Lane Townsend), se junta ao militar Major Blake (Nick Stellate) para combater a ameaça do espaço e tentar encontrar sua filha no meio da confusão. Todos acabam se encontrando no planeta dos invasores e descobrem que eles estão abduzindo os humanos, mantendo-os prisioneiros e fazendo experiências. É inevitável um confronto mortal com eles com os heróis lutando pela continuidade da civilização humana.
O filme foi rodado em Los Angeles, na California, em apenas quinze dias, o que dá para imaginar o resultado final, com a história sendo contada muito rapidamente, sendo impossível estabelecer qualquer tipo de empatia com os personagens, que são fúteis ao extremo. Tudo é bagaceiro demais, desde o elenco patético ao CGI vagabundo. O bombeiro herói usa um machado como arma, desferindo golpes para todos os lados, destruindo as sondas robóticas que atacam a Terra e os alienígenas em seu planeta, e o machado está sempre limpo e impecável. As decisões estratégicas para definir o futuro da humanidade que está com risco de extinção por uma invasão alienígena, são todas tomadas por um único militar, pois o filme não tem orçamento para reunir uma conferência com representantes que definiriam melhor o destino de nosso mundo.
“O Fim do Amanhã” é um filme tão descartável que nem mereceria ter tantas linhas nessa resenha. 
(Juvenatrix - 07/06/15)

sábado, 6 de junho de 2015

A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig

A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig. Capa e ilustrações de Maurício Veneza. 168 páginas. Cortez Editora, São Paulo, 2009.

A ficção fantástica produzida no Brasil, com honrosas exceções, não privilegia as características nacionais. Não que isso tenha sido sempre assim. Muitos fantasistas brasileiros não sentiram dificuldade em inserir o imaginário nos cenários brasileiros. Mas, no que se refere a fc&f contemporânea feita nos últimos 30 anos dentro dos muros do fandom, havia a princípio uma grande dificuldade em enxergar a fantasia e a tecnologia no ambiente cotidiano local. Os autores costumeiramente apelavam para ambientes europeus e norte-americanos, aproveitando também para batizar os personagens com nomes associados a cultura anglo-europeia, pois o contrario lhes soava de tal modo anacrônico que impedia que fosse levado a sério, o que o escritor Braulio Tavares veio a batizar como "Síndrome do Capitão Barbosa". Em 1986, o escritor-fã Ivan Carlos Regina (O fruto maduro da civilização, GRD, 1993), propôs nas páginas do fanzine Somnium um manifesto de valorização da brasilidade na ficção científica nacional, que ficou conhecido como Movimento Antropofágico da FCB, em referência ao Manifesto Antropofágico da Semana de 1922. Em torno do texto de Regina reagiram inúmeros autores, a favor e contra, e com os passar dos anos as imagens, nomes e culturas brasileiros emergiram em boa parte dos textos realizados pelos fãs, o que felizmente continua acontecendo hoje.
Contudo, muito disso deve-se a um esforço militante de um determinado setor que busca uma identidade para a ficção fantástica brasileira. A maior parte desses autores avançou sobre temas e conceitos que para si próprios não eram naturais. Não vou dizer aqui que isso não não funcionou, porque funcionou sim. Mas o "brasileirismo" vai muito além de ambientes.
Uma das maiores dificuldades dos autores é com os personagens. É muito difícil definir idiossincrasias pessoais sem cair na caricatura e no estereótipo. Na digna tentativa de evitar essa armadilha, os personagens acabam homogenizados, achatados num espaço de pouca manobrabilidade, que é ainda mais engessada nas mãos de autores menos experientes.
Então, para demarcar bem seus personagens, os autores costumam lançar mão dos arquétipos. Funciona, do ponto de vista dramático, mas os personagens ficam distantes do leitor, tão irreais como os personagens mitológicos.
Ainda há muita dificuldade em modular personagens e, entre os mais evitados, estão os personagens negros. Isso porque a ampla maioria dos autores brasileiros que se exercita na fc&f são brancos. Não passaram e nunca passarão pelas dificuldades de ser negro num país que aboliu a escravidão há pouco mais de um século. Talvez haja um certo mal estar entre esta legião de escritores brancos em se colocar no lugar de um negro brasileiro, então melhor nem tentar.
Entretanto, houveram tentativas bem sucedidas. Mas, de forma geral, os personagens negros só o são porque o autor decidiu descrevê-los assim. No mais, eles se comportam exatamente como qualquer outro, não há muita etnia em sua vida. Uma das desculpas recorrentes entre os autores é querer reafirmar a igualdade entre negros e brancos, que a cor da pele não faz diferença. Mas faz: interfere de maneira importante na psique do indivíduo e na forma como ele é tratado na sociedade. Talvez apenas os próprios autores negros tenham suficiente sensibilidade para construir personagens negros palpáveis mas, infelizmente, eles são minoria no fandom. Conheço pessoalmente apenas um, o experiente Julio Emilio Braz (Megalópilos, 2006, Rocco). Por isso, não é de se surpreender que tenham sido tão poucas as tentativas de usar o panteão africano como base de histórias especulativas. Talvez haja aqui alguma preocupação com o fato desse imaginário ser base de religiões ativas no país, como a umbanda e o candomblé.
Mesmo assim, a corajosa escritora gaúcha Simone Saueressig, autora de A noite da grande magia branca (Cortez, 2006) e A fortaleza de cristal (L&PM, 2006), ousou investir nesse tema em seu romance A estrela de Iemanjá, publicado pela editora paulista Cortez em uma edição ilustrada por Maurício Veneza, com acabamento luxuoso pouco visto nas letras nacionais.
A história, indicada pela editora para aulas de língua portuguesa, geografia e história, conta como três jovens pescadores negros, Tomás, Cosme e Daniel, inadvertidamente capturam em sua rede a poderosa estrela do mar de Iemanjá, roubada de sua proprietária por Joelho e Benevides, dois salafrários que para isso usaram um submarino. Durante a fuga, a estrela causa problemas na máquina e, morto de medo, Benevides joga fora a estrela por uma escotilha, justamente quando a rede dos meninos flutuava por ali.  Os poderes da estrela provocam uma tempestade furiosa que arremessa os garotos na praia de Aganjú, uma ilha desconhecida que não devia estar ali. Eles ajudam Ubatá, uma garota que está numa importante missão e para isso teve de roubar o amuleto de uma raça de seres ferozes. Para voltar para casa, os meninos terão de acompanhar Ubatá para o interior da ilha, em busca de ajuda. Mas eles não imaginam que Joelho e Benevides estão logo atrás deles, pois querem recuperar a estrela, que eles carregam sem saber do que se trata. A ilha de Aganjú esconde um universo maravilhoso, repleto de magia, perigos e mistérios que os meninos terão de superar caso queiram escapar dessa armadilha mortal, que envolve o próprio fim dos tempos para todo o planeta.
Não é a primeira vez que Simone conta uma história com orixás. Em O palácio de Ifê (L&PM, 1989), a autora enveredou pelo tema, numa aventura que também tem contornos juvenis, mas é algo mais dramática.
Simone não evita temas regionalistas e folclóricos, ao contrário, ela os persegue com rara criatividade e poesia. Talvez tenha sido por isso que a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil selecionou A estrela de Iemanjá para representar o Brasil na Feira do Livro Infantil de Bolonha 2010, junto a outros 210 títulos que foram apresentados a editores, escritores, ilustradores e estudiosos do mercado internacional. Foi a primeira vez que a autora de Novo Hamburgo teve um de seus livros selecionados para a mostra.
A simples presença do trabalho de Simone entre os leitores jovens cria uma boa expectativa para as futuras gerações de escritores, que terão nela uma excelente referência criativa.
Ainda que muita gente ainda sofra, por convicção, da Síndrome do Capitão Barbosa, está bastante claro que não há nenhuma dificuldade ou facilidade agregada ao texto apenas pelo fato dele fazer uso de imagens e etnias brasileiras. Não é preciso disfarçar a origem cultural para ser "melhor recebido" pelo mainstream, seja no mercado nacional seja no internacional. Faça-se o que quiser, tanto faz. O que conta a qualidade do trabalho realizado e, sem dúvida, isso não falta a Simone.
Cesar Silva

O Beijo do Vampiro (The Kiss of the Vampire, Inglaterra, 1963)


A produtora inglesa “Hammer” tem em seu vasto catálogo vários filmes de vampirismo, muitos deles com a dupla Christopher Lee e Peter Cushing liderando os elencos. Mas, também tem filmes sem a presença desses astros, como “O Beijo do Vampiro”, que traz Clifford Evans no papel do caçador de vampiros e Noel Willman no papel do líder de uma seita vampírica. A direção é do australiano Don Sharp, de “Rasputin – O Monge Louco” (66), e o roteiro é de autoria do produtor Anthony Hinds, utilizando o pseudônimo John Elder.
A história é ambientada no início do século XX, onde um casal em lua de mel, Gerald Harcourt (Edward de Souza) e Marianne (Jennifer Daniel), está viajando de carro por estradas remotas da Alemanha quando a falta de gasolina os obriga a se hospedar num decadente hotel pouco frequentado. Os proprietários são um casal de idosos formado por Bruno (Peter Madden) e Anna (Vera Cook), que dizem que não recebem hóspedes há muito tempo e apenas um dos quartos está ocupado. O outro hóspede é o Prof. Zimmer (Clifford Evans), um homem rude e alcoólatra, estudioso de ocultismo e que está na região com objetivos misteriosos investigando as atividades de uma família que vive num imenso castelo vizinho. O sinistro e refinado cientista Dr. Ravna (Noel Willman) é o dono do imponente mausoléu de pedra, onde vive com um casal de filhos, Carl (Barry Warren) e Sabena (Jacquie Vallis). Os jovens viajantes são então convidados para uma festa no castelo e não imaginariam que no local existe um culto vampírico liderado pelo Dr. Ravna, exilado de sua cidade natal devido uma falha num de seus experimentos científicos, e que ficou encantado com a beleza de Marianne, desejando o seu ingresso na sociedade secreta de sugadores de sangue.
Mesmo sem os tradicionais “Drácula” e “Prof. Van Helsing”, “O Beijo dos Vampiros” é mais uma preciosidade da “Hammer” dentro da temática dos vampiros humanos, seres bestiais que se alimentam do sangue de outros humanos. A narrativa é lenta, com uma atmosfera gótica e de horror sutil, sem violência e com pouca exposição de sangue, mas com as tradicionais características do estilo tão cultuado pelos fãs do estúdio, com um castelo tétrico, um baile com máscaras sinistras e bizarras de gelar a espinha, aldeões vivendo em constante medo, lindas vampiras sedutoras e um culto vampírico secreto. Tem até um ataque de dezenas de morcegos (de borracha e manipulados por barbantes) invocados num ritual de magia negra pelo Prof. Zimmer, contra os discípulos da seita do Dr. Ravna, numa similaridade com o ataque dos pássaros no filme de Alfred Hitchcock lançado no mesmo ano de 1963. Com direito a toques de erotismo de belas mulheres vampiras sendo sugadas pelos morcegos. 
Curiosamente, o filme teve uma versão americana estendida, produzida para a televisão, com o acréscimo de mais personagens e que recebeu o título de “Kiss of Evil”. “O Beijo do Vampiro” é o terceiro filme de vampirismo da “Hammer” em ordem cronológica, sucedendo “O Vampiro da Noite” (58), com a dupla Lee e Cushing, e “As Noivas do Vampiro” (60), com Cushing sozinho.   
(Juvenatrix - 06/06/15)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Usina de Monstros (Quatermass 2 / Enemy From Space, Inglaterra, 1957)


O estúdio inglês “Hammer” ficou famoso e cultuado por seus inúmeros filmes coloridos de horror gótico. Porém, a produtora também tem em seu catálogo uma série de filmes em preto e branco com temática principal de Ficção Científica, lançados no final dos anos 50 do século passado, e que fazem parte de um conjunto de preciosidades daquele período especial do cinema fantástico. “Usina de Monstros” é um filme de invasão alienígena dirigido por Val Guest e com o ator irlandês Brian Donlevy (de “A Maldição da Mosca”, 1965) repetindo seu papel do cientista Quatermass, que também esteve em “Terror Que Mata” (The Quatermass Xperiment, 1955).
Na história, o Prof. Quatermass está tentando obter recursos do governo para financiar seu projeto científico de uma complexa base lunar. Porém, não conseguindo sucesso na liberação de verbas, sua atenção é desviada para a misteriosa ocorrência da queda de inúmeros meteoritos. Indo até a região das quedas para estudar o fenômeno, na pequena cidade de Winnerden Flats, ele encontra uma fábrica imensa controlada por guardas fortemente armados e hostis, que utiliza a população do vilarejo como mão de obra para supostamente produzir comida sintética. Porém, depois que o cientista descobre que os estranhos objetos caídos do espaço possuem formatos aerodinâmicos que guardam em seu interior um gás venenoso composto de amônia, e mortal para os humanos, ele decide investigar junto com o inspetor de polícia Lomax (John Longden), o mistério por trás da usina. A qual curiosamente tem o formato similar ao seu projeto de colonização lunar e que trabalha de forma confidencial, parecendo esconder suas reais intenções.
“Usina de Monstros” é uma ficção científica com elementos de horror situada dentro do sub-gênero de invasões alienígenas, ao apresentar uma conspiração secreta para a conquista de nosso mundo por um gigantesco organismo amorfo formado por milhões de partículas inteligentes com uma só consciência. Controlando os seres humanos para colocar em prática seu plano de invasão, e infiltrando-se em importantes setores do governo e das autoridades militares.   
Entre as várias curiosidades interessantes, podemos citar:
* o filme também é conhecido pelo título original “Enemy From Space” nos Estados Unidos;
* ele faz parte do universo ficcional criado pelo roteirista Nigel Kneale, composto por vários filmes e séries de TV, porém da “Hammer” temos uma trilogia formada por “Terror Que Mata”, “Usina de Monstros” e “Uma Sepultura na Eternidade” (Quatermass and the Pit, 67), esse último com Andrew Keir no papel do cientista;
* o ator Michael Ripper (1913 / 2000), eterno coadjuvante em muitas produções da “Hammer”, dono de um currículo imenso com mais de duzentos trabalhos, aparece em “Usina de Monstros” como um dos moradores do vilarejo que se rebela contra os “inimigos do espaço”;
* nos créditos finais temos um agradecimento especial dos produtores para a famosa empresa de combustíveis “Shell”, que cedeu uma refinaria de sua propriedade para servir de locação para as cenas na “usina dos monstros”, o projeto secreto dos alienígenas para tomar nosso mundo;
* a palavra “zumbi” é mencionada algumas vezes para se referir às vítimas infectadas pelos alienígenas, transformando-as em criaturas desprovidas de ações próprias, tendo suas mentes controladas.
(Juvenatrix - 05/06/15)

Cyborg – O Dragão do Futuro (Cyborg, EUA, 1989)


Com produção da saudosa “Cannon”, de Menahem Golan e Yoram Globus, direção de Albert Pyun e com o ator belga Jean-Claude Van Damme, especialista em artes marciais, “Cyborg – O Dragão do Futuro” é um filme de ação e porradaria com elementos de ficção científica, na ambientação de um mundo pós-apocalíptico, devastado por uma peste. Além da presença de uma cyborg, numa mistura de mulher e máquina, carregando uma informação vital para a cura da doença que assola a civilização em decadência.
Van Damme é Gibson Rickenbacker, um homem que vaga pela cidade destruída de New York, num mundo selvagem em ruínas à procura de vingança pessoal contra um pirata chamado Fender Tremolo (o neo-zelândes Vincent Klyn), que lidera uma gangue que espalha terror e violência para os poucos sobreviventes do caos, e que tentam sobreviver num mundo desolado. Ele encontra em seu caminho uma moça guerreira, Nady Simmons (Deborah Richter), e juntos partem em busca dos piratas, que sequestraram uma mulher cyborg, Pearl Prophet (a canadense Dayle Haddon), que possui uma informação essencial que pode curar a praga que assola a humanidade. Eles estão levando-a para a cidade de Atlanta, onde estão os últimos médicos e cientistas que podem evitar a extinção da humanidade. A intenção do maníaco Fender é tornar-se um ditador sanguinário com o poder da cura da peste nas mãos, e até chegarem ao destino final, o caminho de sua gangue e do lutador Gibson se cruzará muitas vezes em confrontos violentos.
A história futurista é bem simples, com poucos diálogos (o personagem de Van Damme quase não fala, só distribui porradas), muitas lutas, tiroteios, perseguições e selvageria num mundo pós-apocalíptico. E nem precisa de explicações e conversas fúteis, pois o mundo está em colapso, destruído pela anarquia, genocídios e fome, e uma praga está dizimando o que restou da civilização humana, o que pode ser resumido num breve diálogo entre o monossilábico Gibson e a guerreira Nady:
- Já está acostumado? – pergunta a moça.
- Com o quê?
- A matança.
- Eu não fiz o mundo – responde o áspero Gibson.
- Não. Apenas vive nele.
O filme é até divertido dentro de sua proposta simples de mostrar pancadaria desenfreada e muita gritaria num ambiente futurista de desolação. Van Damme é um daqueles atores com imagem totalmente associada aos filmes de lutas, e que mesmo tentando fazer papéis um pouco diferentes, sempre será lembrado pelas produções de ação e porradas. Em “Cyborg”, sua escolha para o papel principal veio depois de atuar em outros dois filmes similares anteriores, “Retroceder Nunca, Render-se Jamais” (No Retreat, No Surrender, 1986) e “O Grande Dragão Branco” (Bloodsport, 1988), que lhe trouxeram notoriedade dentro do estilo que já tinha atores mais conhecidos como Chuck Norris, sem contar astros mais famosos como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.
Curiosamente, vieram em seguida outros três filmes dentro desse universo ficcional: “Cyborg 2: Glass Shadow” (1993), “Cyborg 3: The Recycler” (1994) e “Cyborg Nemesis” (2014).
O roteiro de “Cyborg – O Dragão do Futuro” também é do diretor Albert Pyun, usando o pseudônimo Kitty Chalmers, e foi criado a partir do cancelamento da produção de “Masters of the Universe 2 – The Cyborg”, utilizando os vestuários e cenários idealizados para a sequência inexistente de “Mestres do Universo” (1987), com Dolph Lundgreen.
(Juvenatrix - 05/06/15)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Mundo Romano de Silverberg

Roma Eterna (Roma Eterna), de Robert Silverberg. Mem Martins: Publicações Europa-América, coleção Nébula, n.101. Tradução de Susana Serrão, 352 páginas, 2006.


O escritor americano Robert Silverberg tem entre suas principais características a versatilidade temática. Já escreveu sobre todos os assuntos importantes da ficção científica, e na maioria das vezes trazendo um ganho de qualidade e uma visão muito particular, ainda que não necessariamente original.
Assim não é surpreendente que desde fins dos anos 1980 do século passado ele tenha entrado na seara da história alternativa, um dos subgêneros que vem ganhando cada vez mais adeptos, tanto entre escritores como entre leitores, especialmente nos Estados Unidos.
E Silverberg retorna à era antiga para tentar responder uma das mais candentes perguntas entre os fãs de história alternativa e – por que não? – também entre historiadores profissionais: Como seria o mundo até os nossos dias se o Império Romano não tivesse terminado?
Publicado em 2003 nos Estados Unidos, Roma Eterna é o que se costuma chamar de romance fix-up, isto é, aquele que reúne um conjunto de histórias interligadas dentro de um mesmo universo ficcional. Se partirmos para uma classificação mais precisa ou acadêmica, então, não temos em mãos um verdadeiro romance. Mas deixemos tal discussão para os teóricos literários. No caso desta análise o que importa é o conteúdo e a maneira como Silverberg tenta responder a pergunta acima, narrando de forma ambiciosa e despojada dois mil anos de história.
De início aponto também a surpreendente qualidade da tradução do livro. Acostumado com tantas traduções ruins dos livros portugueses de ficção científica, este aspecto certamente merece ser registrado, assim como também a bela ilustração de capa.
Vale notar que Roma Eterna fala não só da perenidade do Império Romano, mas também de seu tamanho. Estamos diante de um império que não só logrou continuar, mas que ainda se expandiu, um Estado mundial único. Existem várias outras histórias alternativas sobre a permanência de Roma, mas nem todas seguem esta opção. Como por exemplo, a trilogia de Kirk Mitchel (Procurator, 1984; New Barbarian, 1986 e Cry Republic, 1989), no qual o Império chega aos nossos dias, mas conservando apenas um pouco mais de sua extensão territorial.
O livro obedece a uma seqüência de eventos. Mas é curioso observar que as histórias foram escritas fora da cronologia. Desta forma, a noveleta que encerra o volume foi justamente a primeira escrita, em 1989. Este fato poderia sugerir certo afrouxamento entre as situações de uma história e outra, mas o autor teve o cuidado de não deixar pontas soltas e nem ser demasiadamente repetitivo em citar e contextualizar fatos e personagens de um texto para outro.
Silverberg abre com um “Prólogo”, que certamente foi escrito para sugerir caminhos dentro da obra, mas de saída causa impacto, ao informar que o êxodo do povo israelense do domínio egípcio fracassou... O leitor percebe a consequência disso? De forma sutil e rápida, o autor simplesmente exclui da história a religião posterior, que teria o maior número de fiéis e que foi uma das possíveis motivadoras para a própria queda do Império em nossa linha temporal.
Após esta introdução fugaz e decisiva, temos a primeira história propriamente dita, “Com Cesar no Submundo”. Estamos em 529 D.C. (ou melhor em 1282 A.U.C. – Ab Urbe Condita, a partir da fundação da cidade, exatos 753 anos antes da era Cristã). O Império Ocidental atravessa um momento de crise, tentando negociar uma aliança militar com o Império Oriental para evitar iminentes invasões de bárbaros germânicos na fronteira norte. O Imperador está muito doente e há incerteza sobre qual dos dois filhos realmente assumirá em caso de sua morte. A trama conta a chegada de um enviado do Imperador de Constantinopla para acertar os detalhes do acordo, que inclui o casamento de sua filha com o sucessor do trono romano.
O enredo político é saboroso, mas o que empolga é o contexto social do chamado submundo romano. Quer dizer, o que acontece nos subterrâneos da cidade, habitados por toda a sorte de artistas, vagabundos, místicos e prostitutas, aqueles que vivem uma vida ‘fácil’, fora das responsabilidades formais da sociedade.
Pois sob Roma há um enorme e profundo sistema de túneis e esconderijos, criados originalmente para proteger a elite política de uma eventual invasão. Mas como tal não acontece há séculos, o local passou a ser habitado por toda sorte de figuras. E o embaixador de Constantinopla faz questão de conhecer estes prazeres. E um dos irmãos que pode aceder ao trono tem a missão de guiá-lo, antes que a própria sorte do Império seja decidida. Pois é a partir desta história é que se tem o chamado ponto de divergência, ou seja, onde a história teria se alterado e permitido que o Império não sucumbisse à sanha bárbara. Silverberg capricha e torna este texto uma das melhores narrativas de todo o livro, o que permite que o interesse do leitor em virar a página para a próxima história esteja mais do que garantido.
E não haverá decepção com a próxima história. Em “Um Herói do Império”, damos um salto de 83 anos. Sob o governo de Maximiliano III, o Império do Ocidente – aliado ao do Oriente – derrotou as hordas bárbaras, fortaleceu sua política interna e prosperou economicamente. Esta história é importante porque explica como o islamismo jamais surgiu. O herói do título é um ex-auxiliar do Imperador Juliano que perdeu prestígio e foi exilado para o Oriente Médio.
Sem compreender muito bem a razão de sua desgraça, nem bem o que faria em tão distante lugar, Leandro Cérvulo conhece um sujeito carismático e com uma estranha pregação religiosa. Acredita em uma única deidade e pretende espalhar sua palavra aos povos do deserto. O romano antevê uma oportunidade de fazer alguma diferença aos olhos do Imperador, ao interpretar a pregação de Mahmud como algo subversivo e potencialmente perigoso aos interesses imperiais. Elimina um líder em seu nascedouro,  evita o surgimento de uma das principais religiões, a segunda grande crença monoteísta. Contudo e ironicamente, o romano é um herói anônimo, pois ele não tem como gozar de um reconhecimento de algo que não se tornou realidade.
O prólogo e estas duas primeiras histórias dão um alicerce para explicar como o Império Romano permaneceu. Mas é a partir da terceira que Silverberg começa a nos mostrar como ele se expandiu. Para isso o livro dá um grande salto histórico em “A Segunda Vaga”. Para usarmos o calendário de nossa linha temporal – sabiamente Silverberg usa a A.U.C. em seu universo –, estamos em 1108 dC. Sob o governo do Imperador Saturnino, Roma controla toda a Europa e a maior parte da África e da Ásia.
Estamos no clima de uma segunda tentativa de invasão de Nova Roma, as terras a oeste do Mar Oceano. A primeira tentativa havia sido um fracasso e esta narrativa dá conta de colocar em detalhes os planos, estratégias e a uma nova invasão propriamente dita. Os romanos ficam perplexos ao descobrirem não um povo, mas toda uma civilização, com grandes cidades e até mesmo exércitos. Tal como na primeira tentativa, Silverberg narra o fracasso da empreitada militar romana, mostrando que mesmo um Império tido como invencível em termos militares, também sofria derrotas significativas, vez por outra.
Curioso notar é como os romanos são expulsos do que eles chamam pretensiosamente de Nova Roma: menos do que a força militar numericamente maior dos maias, foi uma tempestade poderosíssima que adiou os planos romanos por mais uma geração. Sim, os romanos conquistariam Nova Roma – como é explicado de passagem numa  das próximas histórias –, mas esta é uma narrativa específica que o criador deste universo ainda está por nos contar.
Roma entrou em grave crise financeira por causa das duas aventuras militares malsucedidas. Estamos em 1198 dC, em “À Espera do Fim”. Nesta história, o império ocidental está em seus estertores, governado por um imperador fraco e incompetente. Constantinopla tira proveito da situação e cerca a cidade romana, conquistando-a. Assim, os gregos assumem o comando do império, numa situação algo chocante mesmo para o leitor. Afora esta troca de comando, o que dá sabor à história é o ponto de vista pelo qual ela é contada. Antipater é o responsável por traduzir os comunicados dos planos militares e transmitir ao imperador as notícias sobre a iminente derrocada da cidade romana. Silverberg inclui até um drama pessoal de Antipater, casado com uma descendente de gregos, que temia ser considerada uma traidora pelos novos dominadores.
O reinado grego dura duzentos anos, um período demasiado mesmo para os padrões ‘eternos’ dos romanos. Contudo, estamos em 1453 dC, com os romanos novamente no poder, reunificando asa duas capitais imperiais, por meio de um tratado. Em “O Posto Avançado do Reino”, é relatada a chegada de um novo procônsul para Venécia, uma província grega. Aqui o conteúdo político não é afastado, mas a história gira em torno do romance do novo governante Quinto Pompeu Falco e a bela grega Eudóxia, que pertencia à uma nobre família da região. Ainda que não seja uma história destituída de interesse, talvez seja a mais fraca do livro, por quebrar um pouco o ritmo das grandes intrigas, conquistas e revoluções tão presentes nos textos anteriores.




A próxima história nos fala em “Conhecer o Dragão”. Estamos em 1790 dC, já em pleno fim de século XVIII e o título da história faz uso de uma ambiguidade. Isso porque nos fala de dois imperadores: Um que está por vir e outro que já foi. Cada um à sua maneira, verdadeiros dragões, seja no sentido perdulário e corrupto, seja em termos do conquistador sanguinário. Há um personagem no meio destas duas figuras importantes, o arquiteto e historiador nas horas vagas, Pisandro. Ele está em uma ilha mediterrânea, a serviço de César Demétrio, o primeiro herdeiro na sucessão imperial. O sujeito é alienado e megalômano, com um estilo de vida parecido com vários imperadores do passado, figuras ao mesmo tempo sinistras e bizarras, como Caracala e Cômodo.
Pisandro não tem como recusar os seus pedidos extravagantes de construções de templos e suntuosos palácios, até porque vislumbra gozar das benesses do poder, quando Demétrio assumir o trono romano. Ao mesmo tempo, Pisandro tem fascínio pela história romana e em particular por um dos mais prestigiosos imperadores, o desbravador de mares e povos longínquos, Trajano VII, que passou a maior parte de seu reinado em viagens de pilhagens pela Terra, trazendo riquezas econômicas e culturais incalculáveis, num período que foi cognominado, simplesmente, de Renascença. Pisandro descobre um diário de viagem do imperador, dado como perdido, uma peça raríssima e valiosa. E por meio de sua leitura, descobre o lado sanguinário e cruel de um líder que ele tinha como modelo.
É uma história um pouco desequilibrada em seu enredo, com cortes abruptos entre o tempo presente e o resgate do passado, mas ilustra este traço comum da história romana, a do excessivo culto às personalidades e da aparente contradição de como uma estrutura política tão poderosa, é ao mesmo tempo institucionalmente tão fragilizada.
Pois está última questão está no subtexto das duas próximas histórias, as que constituem as duas melhores histórias do livro. A primeira delas é “O Reinado do Terror”, em 1815 dC. Pois estamos sob o reinado de Cesar Demétrio, agora renomeado Demétrio II. As contas públicas estão deficitárias, o nível de gastos do imperador excede em muito os impostos. Ao mesmo tempo, algumas importantes províncias européias se rebelam em movimentos de independência, como a Gália e a Hispânia. Cabe aos tesoureiros e aos generais controlarem os exageros e a incompetência imperial.
O Conde Valeriano Apolinário torna-se um grande líder militar, ao derrotar definitivamente as inssurreições gálicas e hispânicas. Ao voltar a Roma toma conhecimento de que também em termos fiscais e administrativos está havendo uma reação à completa ausência de governo. O líder desta reforma é o Cônsul Laércio Torquato, um velho amigo de Apolinário, extremamente capaz e firme em suas resoluções. Em demasia, como se torna cada vez mais notório, pois Torquato inicia também um programa de expurgos do que ele chama de uma corja corrupta que se aproveita das megalomanias do Imperador. Uma sombria e eficiente matança é posta em prática, assustando mesmo a Valeriano, como que a antever o perigo que tal iniciativa viesse a ter. Pois Torquato consegue subornar os guardas pretorianos, encarcerando o Imperador e isolando-o das ‘más influências’. Não contente, edita ordens para o assassinato de figuras eminentes da sociedade romana e de sua elite política, vários senadores.
Como que num efeito dominó, Roma passa a viver sob um estado de terror com centenas de pessoas condenadas à morte, supostamente em nome de uma ‘purificação dos maus costumes’. A exemplo do Terror que se seguiu à Revolução Francesa, por fim os próprios heróis e algozes experimentam de suas receitas e acabam sucumbindo. Termina em terror aquela era que ficara conhecida como a Segunda Grande Decadência.
A história a seguir é a novela “Via Roma”, talvez a mais brilhante de todas as escritas por Silverberg neste universo ficcional, indicada ao Prêmio Hugo em 1995. É uma clássica história de golpe palaciana, no qual parte da elite política e econômica do Império aplica um golpe de Estado e simplesmente derruba o Império, refundando o Estado em uma Segunda República. Por aí já se vê que é uma história importante, mas afora o aspecto propriamente político, o mais interessante é a forma e o enfoque em que o texto é elaborado.
Toda a trama se dá durante a chegada a Roma de um turista britânico, que vem passar as férias na capital do império mundial. Aporta em Nápoles e é recebido pela alta nobreza local, pois ele pertence a uma rica família da Ilha. Em uma festa conhece uma bela ragazza, filha de um cônsul, que o servirá como guia e amante no caminho que vai de Nápoles até a capital, através de Via Roma, uma autoestrada moderna, por onde já circula estranhos veículos movidos a motor de combustão. Estamos em 1850 dC, em pleno desenvolvimento da primeira fase da industrialização.
“Via Roma” é uma história bem contada em seus detalhes, da vida dos nobres, bem como da penúria do povo em geral, numa sociedade milenarmente marcada por uma clara divisão sociopolítica entre nobres e plebeus. A derrubada do Império se dá de forma cabal, eliminando não só o imperador mas todos os possíveis herdeiros naturais – à exceção de um menino que é salvo e exilado em uma distante província, conforme se verá na próxima história. Restaura-se a República, pelo menos em termos nominais, e Roma passa a ser governada por um Cônsul, como nos tempos anteriores a Augusto.
Afora certa inverossimilhança em como ocorre a queda do império, a esta altura do livro, não dá para deixar de sentir também um incômodo com a opção do autor em mostrar uma Roma eterna que, a despeito disso, mantém uma estrutura política quase imutável e que é sempre bem-sucedida em refrear pela força movimentos separatistas e impedir uma maior liberdade aos seus cidadãos. E tudo isso dentro de um arcabouço institucional extremamente frágil, muito dependente do voluntarismo e qualidade individual do governante de ocasião, o que revela tanto a força como a fraqueza de tal Estado e seus momentos de glória e decadência.
Ora, pois mesmo dentro desta perene estrutura imperialista, seria possível compatilhar o poder de forma não necessariamente impositiva. Fazendo uso, por exemplo, de arranjos políticos federativos, já colocados em prática desde tempos anteriores ao romano, pelos gregos.
Mas Silverberg não explora tais possibilidades de sistemas políticos mais sólidos, e cita apenas de passagem um movimento democrático em “Reino do Terror”, que é rapidamente derrotado. Mas é possível defender esta opção ‘imperial’ por duas razões principais. Primeiro, porque é uma interpretação de como seria o mundo não só com o domínio político de Roma, mas também com a perpetuação de seus valores e sua cultura, o que inibiria, em tese, o surgimento de idéias filosóficas ou movimentos políticos alternativos. Que, de fato, só ganham força em nossa linha temporal – ou ao menos ressurgem – a partir do século XV, com contestações iniciais do Absolutismo e do domínio do cristianismo romano, assim como as primeiras franjas de liberdade política.
Segundo, porque este mundo romano criado por Silverberg é em si diferente do real e talvez esta seja uma causa de sua permanência. Diferente pela simples razão de que esta Roma jamais conheceu uma religião monoteísta e extremamente influente, como o cristianismo. Ao politeísmo romano, devidamente permissivo aos outros cultos não romanos também politeístas, se institucionalizou uma espécie de paganismo, gradativamente banalizado junto a um materialismo espalhado como way of life de todo um Império de dimensões globais.
As duas últimas histórias colocam esta Segunda República Romana na contemporaneidade do século XX. Primeiro com “Lendas dos Bosques de Vênia”, mostrando como o domínio romano foi liberalizando e aceitando os costumes dos povos aos quais dominou. Aliás, esta sempre foi uma peculiaridade dos romanos. Não só dividir para governar. Mas adaptar-se os costumes alheios, para incluí-los no interior do seu domínio político.
Estamos em 1897 e a noveleta narra a descoberta daquele menino que poderia ter reclamado o trono e impedido a restauração da República. Já velho e abandonado é encontrado por um casal de crianças, mas acaba tendo problemas com um sistema político eternamente ditatorial e, como tal, impiedoso com qualquer possibilidade real ou simbólica de ter o seu poder desafiado.
A história que fecha o livro é – como disse no início deste texto – a primeira escrita pelo autor. “Rumo à Terra Prometida”, situada no ano de 1970 de nossa linha temporal, mostra a permanência e sobrevivência do povo judeu. Não mais do que um grupo étnico exótico e minoritário que viveu por milênios em terras do Oriente Médio, quase sempre sob o julgo de uma potência estrangeira. Pois é deste povo, tido como ‘escolhido’, que se faz um empreendimento em busca de liberdade à procura do Deus único. Nem que seja em outro planeta. Secretamente, um grupo de 500 deles se reúne em uma região desértica para uma aventura inédita e arriscada: lançar um foguete para atingir as estrelas.
Silverberg comenta na história que os romanos tinham cogitado atingir o espaço sideral, mas desistiram, menos por dificuldades tecnológicas, e mais por falta de objetivo econômico e, principalmente, claro, político, já que eles não tinham rivais para se preocuparem.
“Rumo à Terra Prometida” é uma história emocionante, tanto pelo desafio, como pelas consequências em um mundo que jamais conheceu uma alternativa religiosa ou política. Silverberg termina a história – e por efeito o livro – de forma crítica, utilizando o exemplo da aventura espacial como uma fuga dos grilhões da Pax Romana e pela esperança de que num outro mundo seria possível, viver com liberdade e igualdade entre os povos.
Roma Eterna reúne um conjunto de histórias instigantes, com a visão aguda e sensível de um dos principais autores da ficção científica, colocando a obra como uma das melhores referências recentes no subgênero da História Alternativa. E que pode ser apreciada tanto pelos aficcionados, como por leigos ou curiosos pela parte mais contra-factual dos eventos históricos. Seja qual for o interesse do leitor, o prazer da leitura está garantido.

Marcello Simão Branco é autor de Os Mundos Abertos de Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004).

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Monstro de Duas Caras (The Two Faces of Dr. Jekyll, Inglaterra, 1960)


Mais uma produção colorida do estúdio inglês “Hammer”, com direção do especialista Terence Fisher e com o ícone Christopher Lee. Apresentando outra versão da conhecida história “O Médico e o Monstro” (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde), de Robert Louis Stevenson, famosa obra literária de 1886 que foi adaptada inúmeras vezes no cinema, inclusive com outras duas versões da própria “Hammer”, “The Ugly Duckling” (1959) e “O Médico & Irmã Monstro” (1971).
“Em cada personalidade humana, duas forças lutam pela supremacia.” Com estas palavras, o obcecado cientista Dr. Henry Jekyll (o canadense Paul Massie) se convence e tenta argumentar para seu amigo, o médico Dr. Ernst Litauer (David Kossof), sobre a importância de suas experiências na descoberta de uma solução química que depois de ingerida poderia trazer à tona o lado mal do ser humano. Ou a sua personalidade mais agressiva e livre de obrigações morais. E uma vez testando a poção em si mesmo, desperta em seu interior o Sr. Edward Hyde, um homem elegante quando é de seu interesse, mas que age sem escrúpulos, sentindo-se livre para se envolver no submundo de Londres de 1874. Relacionando-se com prostitutas, bebendo em bares de categoria inferior, apostando em lutas ilegais e fumando ópio em locais próprios para se consumir a droga.
A esposa do pacato Dr. Henry Jekyll, a bela Kitty (Dawn Addams, de “Os Vampiros Amantes”, 1970), cansada da falta de atenção do cientista abnegado em seu trabalho, prefere participar de festas sociais da alta sociedade londrina, sendo amante do amigo de seu marido, Paul Allen (Christopher Lee), que é um homem sedutor, mas sem afeição pelo trabalho. Ele está sempre perdendo dinheiro em jogos de cartas, vivendo endividado e recorrendo à ajuda financeira do Dr. Jekyll.
As coisas pioram bastante depois que mortes misteriosas ocorrem despertando a atenção da polícia, e o cientista perde progressivamente o controle da situação, permitindo o domínio do Sr. Hyde.
Um destaque notável é a interpretação de Paul Massie, que alterna de forma eficaz a voz e o comportamento geral quando interpreta o educado Dr. Jekyll e o descontraído Sr. Hyde, num trabalho convincente de duas personagens de uma mesma pessoa.
Curiosamente, o consagrado ator Christopher Lee também esteve em outra adaptação do livro de Stevenson, “O Soro Maldito” (I, Monster, 1971), produzido pelo estúdio rival “Amicus”, e dessa vez fazendo o papel do “cientista louco”, atuando ao lado do lendário parceiro Peter Cushing.
Oura curiosidade é a participação pequena, com uma breve ponta, do ator Oliver Reed. Ele está na mesma casa noturna sofisticada em que se encontra o casal de amantes formado por Paul Allen e Kitty, além do Sr. Hyde, e para defender uma prostituta de luxo, se envolve numa briga com eles. Reed atuou um ano depois em outro filme da “Hammer”, “A Maldição do Lobisomem” (The Curse of the Werewolf) no papel do homem que se transforma em lobo. Ele também esteve em “Dr. Heckyl and Mr. Hype” (1980), outra adaptação do livro de Stevenson, no papel do cientista.    
(Juvenatrix -  01/06/15)